Derrocada do PT faz Lula se socorrer nos movimentos sociais

Carlos Newton

Lula é muito mais esperto do que se pensa e tem um grupo de assessores de excelente nível. Todos eles já perceberam que a derrocada do governo e do PT é inexorável. A cada dia surgem mais denúncias de corrupção, a presidente Dilma Rousseff já começa a ser envolvida e as possibilidades de impeachment são cada vez maiores, depois que o Tribunal de Contas da União, com base em parecer de sua equipe técnica, por unanimidade decidiu enquadrá-la por crime de responsabilidade.

Em entrevista no sábado, o ministro do TCU Augusto Nardes já adiantou que a presidente Dilma poderá ser responsabilizada. Ou seja, pode ser enquadrada em crime de responsabilidade, que é mais um motivo de afastamento, além de já estar sujeita a cassação por infringir a Lei Eleitoral, ao usar recursos ilícitos na campanha política (tese do jurista Jorge Béja, que prevê cassação sem nem precisar de impeachment) e também por infringir a Lei de Improbidade Administrativa, ao se omitir diante do esquema de corrupção montado na Petrobras e no governo praticamente todo (tese do jurista Ives Gandra Martins).

A esperança dos assessores do Instituto Lula (Luiz Dulci, Clara Ant, Paulo Okamotto, Paulo de Tarso Vanucchi e Celso Marcondes) é o fato de que Lula ainda não foi diretamente atingido e pode tentar permanecer na política montando um esquema que recicle o que restar do PT e do PCdoB, reforçando-o com uma participação maior dos movimentos sociais (centrais, sindicatos e organizações como MST, UNE, OAB e outras mais, que já estão dominadas, como se diz no linguajar das ruas).

ESTRATÉGIA HÁBIL

Não há dúvidas de que é um plano extremamente hábil e pode garantir uma sobrevida política a Lula, que acredita em vitória na eleição de 2018, porque a crise atual é tão grave que não será solucionada até lá e ele poderá novamente se apresentar como salvador da pátria.

Para colocar em prática o esquema político da “participação social” (que recentemente o governo tentou até transformar em lei, mas a Câmara rejeitou), o Instituto Lula quer fortalecer esta estratégia, usando como ponto de partida o dispositivo constitucional que prevê a preparação do Plano Prurianual, e os movimentos sociais foram convocados para participarem.

Desta vez tudo acontece totalmente na surdina, para não despertar reação, e na semana passada o governo instalou o novo Fórum Interconselhos, que reúne mais de 30 conselhos e comissões setoriais, nos quais há grande participação do movimento sindical e de organizações da sociedade civil. Embora teoricamente seja organizado pelo Ministério do Planejamento, na prática o macroencontro é realizado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, leia-se ministro Miguel Rossetto.

TÁBUA DE SALVAÇÃO

Segundo os assessores de Lula, esta estratégia de mobilizar os movimentos sociais para ressuscitar o PT ou até mesmo criar outro partido foi a única saída encontrada para evitar que a crescente crise venha a destruir o que resta da popularidade de Lula, que não terá dúvidas de repetir as desculpas usadas no mensalão, na base do “eu não sabia de nada” e “não contavam com a minha confiança”.

Sonhar não é proibido, todos sabem. O esquema realmente é forte e viável. Mas somente será bem-sucedido se Lula não for denunciado como principal responsável pela corrupção que hoje atinge o governo, o PT, os partidos da base aliada e até mesmo alguns partidos de oposição. Tudo vai depender do silêncio de personagens como João Vaccari e André Vargas, os dois homens-bomba do momento. Vamos aguardar.

Senadores do PDT querem que o partido saia do governo

Cristovam diz que PDT precisa sair da garupa do PT/PMDB

Carlos Newton

Os seis senadores do PDT querem que o partido deixe de participar da coalizão que apóia o governo. Dois deles já manifestaram publicamente esta posição – Cristovam Buarque e Antonio Reguffe, ambos eleitos no Distrito Federal. “Os outros quatro senadores também querem. Falta Lupi”, disse Buarque no Twitter, referindo-se ao presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, que sempre defendeu a tese de que o PDT tem de continuar atrelado ao governo.

Mas nos últimos dias começaram a circular informações de que o próprio Lupi já estaria disposto a retirar o PDT da base aliada, o que significaria entregar o Ministério do Trabalho e alguns postos em estatais.

Os outros senadores que defendem o desligamento da base aliada são Acir Gurgacz (RO), Lasier Martins (RS), Telmário Mota (RR) e Zeze Perrela (MG). Em reportagem a respeito, o Estadão assinalou que na Câmara a bancada está dividida, como ficou evidenciado semana passada, durante a votação do projeto que amplia as possibilidades de terceirização. O texto opõe sindicalistas, contrários à nova lei, e empresários, que querem reduzir os gastos de pessoal. A principal crítica dos sindicalistas é a abertura à terceirização de atividades-fim.

Dos 18 deputados pedetistas que participaram da última votação, apenas cinco foram contrários ao texto base do projeto de lei: Damião Feliciano (PB), Marcelo Matos (RJ), Marcos Rogério (RO), Subtenente Gonzaga (MG) e Wolney Queiroz (PE).

A confusão é total, porque o governo federal se manifestou contra o projeto e a própria presidente Dilma Rousseff já deu declarações contra a aprovação e deve vetar a nova lei, caso o Senado a aprove. O senador Cristovam Buarque, embora defenda que o partido se desligue da base aliada, disse no Twitter ser uma “vergonha” o PDT ter votado na Câmara a favor do projeto da terceirização.

CRISTOVAM AVISOU

A reportagem do Estadão lembra que o senador, que foi ministro da Educação no início do primeiro governo Lula, desde 2006 (primeiro ano do segundo mandato de Lula)já alertava que o PDT corria riscos ao compor o governo. “Quando em 2006 o PDT entrou no governo Lula, avisei que tomávamos veneno histórico, e agora, oito anos depois, PDT sente os efeitos”, disse Buarque em outra mensagem publicada no Twitter. Nas trocas de informações com outros internautas, o parlamentar admitiu que “todo partido é balaio de gato”, mas que o “problema é ser balaio na garupa do PMDB/PT”.

DILMA DE JOELHOS

Cristovam Buarque tem feito críticas abertas ao governo. Em março, disse que a presidente Dilma Rousseff “está de joelhos diante de um grupo que comanda o Congresso, enquanto a oposição se diverte”. Na ocasião, disse também que está claro que não houve apenas uma “escorregadela” do governo na condução da economia, mas uma sequência de erros graves, envolvendo tarifas, desonerações, “descuido com a poupança” e “má gestão da infraestrutura”.

Sobre a gestão do governo na Educação, foi incisivo: “Pátria Educadora é a nação cuja sociedade valoriza educação e seu governo encarna esta vontade nacional. Não somos Pátria Educadora nem para a sociedade nem para o governo”.

DEPENDE DE LUPI

A decisão do partido depende do presidente Carlos Lupi, que não tem mandato, mas detém o controle da Comissão Executiva e do Diretório Nacional. Na verdade, a situação evoluiu a tal ponto que a manutenção do apoio do PDT ao governo se tornou apenas uma formalidade, porque na hora das votações em plenário, seja na Câmara ou no Senado, cada parlamentar do PDT votará de acordo com sua consciência ou seu interesse pessoal, digamos assim, como é comum na política brasileira, na maioria dos partidos.

Luciano Coutinho mentiu no Senado, depois mentiu na Câmara

Coutinho atua como se fosse advogado de Dilma

Carlos Newton

Sem esconder o contentamento, o relator da CPI da Petrobras, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), se apressou em propagar que o depoimento do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, desmente a delação do ex-gerente de Serviços da estatal, Pedro Barusco, que apontou o banco estatal como principal financiador do projeto da empresa Sete Brasil.

É um jogo de verdades e mentiras, digamos assim. Se não é verdade que o BNDES tenha sido o financiador, também não é verdade que Barusco tenha mentido. O economista Luciano Coutinho, que mentiu perante o Senado na terça-feira, ao dizer que o BNDES é obrigado por lei a manter suas operações, na quinta-feira voltou a falsear a verdade na Câmara, divulgando uma versão distorcida da realidade, pois omitiu o que não lhe interessava e só destacou as informações que poderiam ser usadas a favor do governo, do BNDES e da Petrobras.

Ao depor durante oito horas na CPI da Petrobras, Coutinho se comportou como se fosse advogado da presidente da República e chegou a dizer que, se Dilma soubesse de algum ilícito, teria tomado providências, vejam a que ponto chega a subserviência deste famoso economista.

TRADUÇÃO SIMULTÂNEA

Como já explicamos aqui na Tribuna da Internet, Coutinho é o tipo de depoente que necessita de tradução simultânea, sua linguagem é cifrada, quando revela uma coisa sempre esconde outra.

A Sete Brasil foi criada por determinação do governo Lula, para fornecer sondas à Petrobras. Desde o início, ficou acertado que o principal financiador seria o BNDES, por isso o ex-gerente Barusco não mentiu, pois foi diretor da Sete Brasil de 2011 a 2013. A engenharia financeira foi toda baseada na premissa do apoio do BNDES, porque a nova empresa não tinha como oferecer qualquer tipo de garantia. Seu aval eram apenas os sócios – os fundos de pensão Petros, Previ, Funcef e Valia, além dos bancos Santander, Bradesco e o BTG Pactual (a Sete Brasil tem o BTG Pactual como maior acionista individual, mas os três grandes fundos de pensão estatais (Previ, Petros e Funcef) detêm 37,5%).

O BNDES aprovou o financiamento em julho de 2010, mas a burocracia atrasou a liberação, porque a Sete Brasil só existe no papel e não tem ativos, quem de fato fabrica as sondas de perfurações são estaleiros particulares. Como havia a certeza de que o BNDES financiaria o projeto, era só uma questão de tempo, seis bancos então se prontificaram a conceder empréstimos-ponte para a empresa começar a funcionar – Banco do Brasil, Caixa Econômica, Itaú BBA, Santander, Bradesco e Standard Chartered.

LAVA JATO

Repita-se: Barusco não mentiu. O financiador principal era mesmo o BNDES. O que ninguém esperava é que em 2014 surgisse o escândalo da operação Lava Jato, que obrigou o banco estatal a sustar a liberação dos recursos, mas Coutinho não explicou nada disso.

A consequência foi que, sem receber os recursos do BNDES, a empresa de papel está atrasando o pagamento de fornecedores e a construção das sondas, a cargo de cinco estaleiros. Além disso, vem prorrogando, a um custo mais alto que o spread acertado nos contratos originais, o pagamento dos empréstimos-ponte, que já venceram.

O banco britânico Standard Chartered entrou com pedido de execução de garantias do empréstimo, junto ao Fundo de Garantia para a Construção Naval (FGCN), administrado pela Caixa. A cota do banco britânico é estimada em US$ 150 milhões, um valor bem inferior ao dos outros bancos, pois a dívida total é de espantosos R$ 12,23 bilhões.

MENTIU DUAS VEZES

Esta é a realidade sobre a Sete Brasil, que o economista Luciano Galvão Coutinho, como cidadão e funcionário público regiamente pago, teria obrigação de ter esclarecido no Congresso Nacional, mas não o fez. Mentiu no Senado, na terça-feira, ao dizer que o BNDES é obrigado por lei a manter em segredo suas operações, depois mentiu de novo, na quinta-feira, ao contar à Câmara uma versão distorcida da negociata da Sete Brasil, uma empresa de papel que jamais poderia ter sido criada, pois a Petrobras simplesmente deveria ter encomendado a construção das sondas diretamente aos estaleiros, como sempre fez, aliás.

Luciano Coutinho preferiu atuar como advogado de defesa do governo, da Petrobras e do BNDES. Se fosse jurista, seu destino seria o Supremo, não há dúvida. É uma vocação jurídica realmente extraordinária.

Cunha aceitará pedido de impeachment se tiver base jurídica

Carlos Newton

O linguajar político algumas vezes necessita de tradução simultânea. Quando entrevistam os políticos, os jornalistas entendem uma coisa, mas às vezes o significado é totalmente diverso. É preciso situar a declaração no texto e no espaço, para identificar seu verdadeiro objetivo.

No caso da polêmica sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, por exemplo, a tradução simultânea é fundamental. Numa palestra promovida no hotel Unique, em São Paulo, há alguns dias FHC reafirmou sua posição contrária ao impeachment de Dilma e explicou o motivo:

“O impeachment é como a bomba atômica, não serve para usar, só para intimidar”. Na mesma fala, FHC sublinhou que se a situação de Dilma piorar muito (o que ele avalia que acontecerá) chegará um momento em que os “cardeais” do país deverão se reunir para costurar uma saída para este governo. A tradução simultânea desta declaração seria o seguinte: “FHC não tem o que dizer, mas gosta de aparecer. Suas palavras não têm o valor de uma nota de três dólares (ou nove reais, no câmbio atual)“.

BASE JURÍDICA

Importante mesmo foi a declaração do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sobre a possibilidade de impeachment. Como se sabe, na condição de presidente da Câmara, Cunha é o juiz supremo e absoluto do impeachment, porque cabe somente a ele, única e exclusivamente, decidir se deve ou não haver o processo contra Dilma Rousseff. E se ele aceitar a abertura do processo, Dilma já estará mais do que derrubada.

Cunha disse que não via fundamento para abertura do processo, porque a questão não é política, mas jurídica. “Para protocolar algo, há que ter fundamento jurídico. O impeachment não é um processo político”, afirmou.

É uma frase curta, mas pode valer por uma Constituição inteira. Os jornalistas fizeram um escarcéu e os jornais deram manchetes dizendo que Cunha não aceitará o impeachment. Mas não é nada disso. A tradução simultânea da declaração seria: “Cunha pede que seja apresentado um pedido de impeachment com fundamentos jurídicos procedentes, para que ele possa aceitar o pedido de abertura do processo“.

FUNDAMENTOS JÁ EXISTEM

Já foram apresentados (e arquivados) 14 pedidos de abertura de processo contra Dilma Vana Rousseff. O que Cunha tentou sinalizar é que não adianta apresentar pedido sem fundamento sólido, para ele não ter de continuar arquivando. Só isso.

Já existe fundamento jurídico de crime de responsabilidade, inclusive avalizado pelo Tribunal de Contas da União, que não engoliu a maquiagem do balanço do governo, especialmente a ‘pedalada fiscal’. Além deste argumento que é motivo de impeachment, existem mais dois:

1) A tese do jurista Jorge Béja, de crime fiscal pelo uso de recursos ilícitos no financiamento das campanhas políticos para eleger a presidente Dilma, conforme previsto na Lei Federal, que puno com cassação.

2) A tese do jurista Ives Gandra Martins, de improbidade administrativa cometida pela presidente por omissão, ao permitir a montagem da quadrilha de corrupção na Petrobras.

PSDB SAI NA FRENTE

Antes mesmo da decisão do TCT, o PSDB já havia pedido que Miguel Reale Júnior, ministro da Justiça no governo FHC, elabore uma ação penal contra Dilma Rousseff pela “pedalada fiscal” que o governo realizou em 2014. s tucanos resolveram agir embalados pela pesquisa Datafolha que mostrou que 63% apoiam a abertura de processo contra Dilma.

Se o pedido estiver bem fundamentado, os tucanos podem apresentar à Câmara que o presidente Eduardo Cunha aceitará prazerosamente, já de olho na visibilidade que terá como condutor do impeachment, para pavimentar sua candidatura à Presidência em 2018. E seu objetivo nem precisa de tradução simultânea.

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PS – Tudo bem com a internet. Por favor, mandem e-mails à vontade.

Ao indicar Fachin ao STF, Dilma exibe menosprezo ao Congresso

Ficou na dúvida, escolheu o pior e agora não sabe o que acontecerá

Carlos Newton

Quando surgiram as primeiras informações na internet sobre a indicação do professor Edson Fachin para o Supremo Tribunal Federal, ficou difícil de acreditar. Pareciam especulações, que podem ser desmentidas ou não. Diante do silêncio do Planalto, logo ficou patente que a notícia era verdadeira, embora só viesse a ser confirmada muitas horas depois, o que demonstrou que a presidente Dilma Rousseff ainda estava na dúvida e demorou até se decidir.

Ao escolher Fachin, ficou claro que a chefe do governo não estava apenas em busca de um jurista de notório saber e reputação ilibada. O que ela verdadeiramente pretendia era peitar o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), que há duas semanas havia alertado que os senadores não aprovariam um nome com “DNA do PT”.

Esta declaração de Renan foi indevida e importuna, não há dúvida, mas refletia o pensamento dos senadores. Esperava-se que a presidente da República, que precisa desesperadamente recuperar parte do prestígio perdido, desta vez indicasse para o Supremo um jurista de notório saber, reputação ilibada e isento, sem vinculação com qualquer partido político.

Mas Dilma bateu pé, fez beicinho e encaminhou ao Senado justamente o nome de um advogado muito ligado ao PT, que já chegou a ponto de pedir votos para o partido. Portanto, não tem a menor isenção, jamais poderia ser ministro do Supremo. Se fosse um simples juiz, jamais poderia participar de um julgamento que envolvesse o partido ou seus membros, pois teria de se considerar suspeito. E se Dias Toffoli não tem essa grandeza, como esperar que Fachin a tenha?

REPUTAÇÃO ILIBADA?

Não se trata de questionar seu notório saber, mas sim a neutralidade e a imparcialidade que se deveria exigir de um ministro do Supremo. Portanto, cabe uma reflexão sobre o que seja reputação ilibada. Afinal, que conceito é este? Fachin teria mesmo reputação ilibada? Para sabê-lo, certamente será necessário averiguar e analisar os contratos de seu escritório de advocacia, para saber quem eram seus clientes, com objetivo de apurar se prestava ou não serviços ao governo federal.

Chama a atenção o fato de ter participado de última campanha política, dando nítida impressão de compromissos político-partidários, inclusive quando atacou governos de FHC e defendeu os governos Lula, pedindo votos para Dilma. Terá este jurista a reputação necessária para manter a imparcialidade em seus votos? Sabemos que já houve indicação de advogado do PT, no caso, Dias Toffoli, mas agora estamos falando de um militante partidário.

APOIO DE RENAN?

Os jornais divulgaram que a presidente Dilma teria consultado o senador Renan Calheiros, que concordara e até se prontificara a defender o nome de Fachin. Será que Renan realmente mudou de opinião? Ou simplesmente deu força a mais erro político da presidente, para que ela seja novamente humilhada no Congresso?

Com apoio ou sem apoio de Renan, a perspectiva é de que Fachin deverá ter problemas na sabatina do Senado. Não é a primeira vez que um nome indicado pelo governo enfrenta resistências no plenário. O presidente Jânio Quadros, por exemplo, indicou o empresário pernambucano José Ermírio de Moraes para embaixador, mas o Senado recusou. Moraes ficou furioso, entrou na política e também se elegeu senador. Muitos anos depois, no leito de morte, fez os dois filhos (José e Antonio Ermírio) prometerem jamais entrar na política.

Agora, Dilma Rousseff se arrisca a repetir Jânio Quadros e ser derrotada no Senado. Ela hoje reina, mas não governa. E parece ter se tornado uma espécie de Rei Midas ao contrário, pois tudo o que Dilma faz acaba dando errado. Vai ficar na História como encarnação da célebre Viúva Porcina, criada por Dias Gomes, “aquela que foi sem nunca ter sido”.

Luciano Coutinho mentiu e somente um senador o contestou…

Coutinho “mudou” a lei e “inventou” uma Diretoria de Risco

Carlos Newton

O despreparo dos atuais parlamentares federais é inacreditável, inimaginável e inaceitável. A verdade é que a política brasileira está em uma fase de invulgar decadência, em que não existem lideranças de peso e há uma calamitosa situação de incompetência individual e coletiva que causa espanto.

O que aconteceu esta terça-feira na sessão conjunta das Comissões de Assuntos Econômicos e de Infraestrutura do Senado foi surpreendente e muito revelador, porque trouxe à luz o despreparo absoluto dos senadores de oposição, que se julgava estarem em nível superior aos representantes da chamada base aliada, que atuam preferencialmente nos ramos do fisiologismo e do nepotismo, estando envolvidos hoje também num oceano de corrupção.

As comissões convidaram o presidente do BNDES, economista Luciano Coutinho, para falar sobre possíveis conexões entre empréstimos do BNDES e casos de corrupção na Petrobras, investigados pela Operação Lava Jato. A sessão conjunta acabou sendo um fracasso total, pois quase todos os senadores se deixaram iludir por Coutinho, que mentiu para valer, sem ser contestado da forma que seria de se esperar.

TRANSPARÊNCIA

Um dos temas mais importantes era a falta de transparência nas operações do banco estatal, que nos governos do PT passou a financiar importantes obras no exterior, ao invés de apoiar o desenvolvimento nacional.

Indagado a respeito, o presidente do BNDES simplesmente alegou que o banco está impedido de divulgar dados referentes a empréstimos a empresas privadas. “Se não cumprimos a lei e revelarmos [a informação], seremos potenciais objeto de uma ação, processo judicial ou multas”, disse ele, sendo contestado apenas pelo senador Lasier Martins (PDT-RS), o único que afirmou a Coutinho que a lei não exige o sigilo ao BNDES. Os demais parlamentares se calaram.

Sem graça, apanhado em flagrante distorção do que a lei determina, Coutinho então tentou sair pela tangente, dizendo que o sigilo bancário diz respeito a informações da “intimidade” da empresa, como sua capacidade de endividamento e estrutura do seu mercado, mas nada disso existe na legislação.

Foi se enrolando cada vez mais. Sem ter como se explicar, sugeriu que o Senado crie uma comissão para discutir as regras de divulgação de operações de financiamento a exportações, propondo que seja feito um levantamento sobre como a questão é tratada pelas demais agências de financiamento à exportação no mundo. Mas acontece que a discussão não era esta, e sim sobre a transparência das operações do banco.

A LEI DIZ O CONTRÁRIO

Somente o senador Lasier Martins sabia que a Lei do Sigilo Bancário determina exatamente o contrário do que Coutinho afirmou. Trata-se da Lei Complementar 105, que entrou em vigor em 10 de janeiro de 2001. Estabelece o sigilo bancário para as operações de todas as instituições financeiras privadas, mas faz ressalva em relação às instituições públicas, no parágrafo 3º do artigo 5º: “Não se incluem entre as informações de que trata este artigo as operações financeiras efetuadas pelas administrações direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. E o BNDES é uma empresa pública da União.

E não foi só isso. Coutinho inventou outras lorotas. Disse que, no âmbito do banco estatal, é “impossível” que qualquer área  adote uma decisão monocrática. “Todas as decisões importantes são tomadas por vários comitês. Há ainda uma Diretoria de Risco, que não faz parte do colegiado, que analisa todas as solicitações”, explicou.

Desde a criação do BNDES, nunca existiu “uma diretoria de Risco, que não faz parte do colegiado”. Depois de nove anos no banco, Coutinho ainda não sabe como funciona o primeiro escalão. O que existe é uma Chefia de Departamento, que analisa o risco das principais operações e é subordinada à Diretoria de Planejamento.

DEU UM NÓ NOS SENADORES

Resumindo: Luciano Coutinho deu um nó nos senadores, explorando o despreparo dos parlamentares. É triste constatar que apenas um deles o contestou sobre o tema mais importante – a transparência das operações.

Cada senador tem direito a 55 assessores. É inacreditável que nenhum dos demais tenha se interessado em conhecer a Lei do Sigilo Bancário, que é bastante curta, com apenas 13 artigos. Este descaso demonstra a leniência dos parlamentares brasileiros, sejam de situação ou oposição. Depois reclamam quando as pesquisas indicam que está aumentando a descrença na política.

Novas delações premiadas vão dinamitar o governo e o PT

Vargas se sente abandonado pelo PT

Carlos Newton

É impressionante, massacrante e humilhante a tortura que a força-tarefa está infringindo ao Planalto, ao PT e ao Instituto Lula. A cada dia surgem novas denúncias de escândalos, que vão se espalhando para outras áreas do governo, de uma forma inexorável. Não há como responder às acusações, a presidente Dilma Rousseff limita-se a repetir que o combate à corrupção é uma das prioridades do governo, suas declarações são patéticas. Pode-se dizer, sem medo de errar, que nunca antes, na História da Humanidade, um grupo político tenha sido sendo retirado do poder mediante tamanho volume de acusações.

A única comparação possível é a célebre operação Mãos Limpas, que estremeceu a Itália na década de 90, ao devassar um número enorme de casos de corrupção na sequência do escândalo do Banco Ambrosiano, com investigações que implicaram o Banco do Vaticano e a poderosa Loja Maçônica P2.

A operação Mãos Limpas mostrou também o envolvimento da Máfia com a política e levou ao fim a chamada Primeira República Italiana, com extinção de alguns partidos políticos. Detalhe importante: houve políticos e industriais que cometeram suicídio quando os seus crimes foram descobertos, algo inimaginável que possa acontecer aqui no Brasil.

AQUI A MÁFIA É DIFERENTE

O juiz federal Sergio Moro já declarou que sua atuação é inspirada justamente na operação Mãos Limpas, conduzida por dois magistrados italianos – Paolo Borsellino e Giovani Falcone, ambos mortos em atentados cometidos pelo chamado ramo corleonês da Máfia.

A sorte do juiz Moro é que aqui no Brasil nossa versão da Máfia é muito menos violenta e o crime organizado não tem a mesma ligação direta com a política. Portanto, as investigações da força-tarefa (Polícia Federal e Ministério Público) tendem a se limitar às íntimas e ilegais relações existentes entre governantes, parlamentares, autoridades públicas e grandes empresários, sem extrapolar para o campo do crime organizado propriamente dito.

No caso da operação Lava Jato, a cada dia aumentam as denúncias, surgem novos focos de corrupção, é um nunca-acabar. Já ficou claro que a corrupção à brasileira é toda encadeada. A investigação começou num simplório posto de gasolina em Brasília (daí o nome Lava Jato), chegou ao doleiro Alberto Youssef em Curitiba e não parou mais de se espalhar. Agora, está chegando às conexões com a Ferrovia Norte-Sul, a hidrelétrica de Belo Monte e a Receita Federal. Na interminável fila, aguardam apuração o BNDES, os Fundos de Pensão, as estatais da energia, com destaque para a Eletrobras, o chamado Sistema S (braço social do empresariado), as agências reguladoras e tudo o mais.

Portanto, não é sem motivo que a Polícia Federal esteja solicitando ao Supremo Tribunal Federal uma extensão do prazo legal para concluir os inquéritos ligados à corrupção da Petrobras.

NOVAS DELAÇÕES

As investigações da força-tarefa vão se aprofundar ainda mais a partir de agora, porque são esperadas novas delações premiadas de importantes personagens envolvidos no esquema de corrupção. Um dos principais é o ex-deputado federal André Vargas, que não esconde se sentir abandonado por seu antigo partido, o PT, que o obrigou a se desfiliar quando foi revelada sua ligação com o doleiro Youssef. Vargas diz que agora o PT está abandonando o tesoureiro João Vaccari Neto e vai fazer o mesmo com todos os petistas que se envolveram diretamente na corrupção.

Outro réu que deve fazer delação premiada é o ex-deputado Pedro Corrêa, do PP, que já está cumprindo por participação no mensalão. O advogado Clóvis Corrêa Filho, que é primo do ex-deputado e o defende em juízo, já afirmou que as provas contra Corrêa são irrespondíveis. “Não tem como fugir da Justiça, as provas são contundentes. Defendo que ele faça a delação para contribuir com o aperfeiçoamento do processo democrático”, disse o advogado.

Muitos outros envolvidos estão dispostos a fazer a delação premiada, o que vai agravar a tortura infringida ao governo. A cada dia, o desespero aumenta, não existe luz no final da escuridão e daqui para a frente a situação só tende a piorar, e não tem marqueteiro que dê jeito. Com dizem os árabes, estava escrito.

Câmara vai aprovar impeachment de Dilma, podem crer

Recordar é viver, diz a sabedoria popular

Carlos Newton

Nunca antes, na História deste país, se viu um governo ser demolido tão rapidamente, três meses depois de empossado. A impressionante pesquisa do Datafolha, divulgada sábado, mostra que 63% dos brasileiros já apoiam o impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. A pergunta feita pelo instituto foi indireta, mas permite a conclusão de que a maioria absoluta defende o afastamento da chefe do governo, embora muitos dos entrevistados nem saibam direito o que acontecerá a seguir.

Considerando o que se sabe até o momento a respeito da Operação Lava- Jato, o Congresso deveria abrir um processo de impeachment para afastar Dilma da Presidência?” – esta foi a pergunta a quem responderam. Resultado: 63% querem o impeachment, mas somente 37% sabem que o cargo passa a ser imediatamente do vice-presidente. Destes 37%, apenas 13% sabem que o vice chama-se Michel Temer. Curiosamente, outros 12% favoráveis ao impeachment de Dilma pensam que Aécio Neves assumiria no lugar dela.

A acelerada queda da popularidade, movida pelo festival de corrupção desvendado pela força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público, com participação de um apenas juiz de primeira instância, confirma a fragilidade de um governo inoperante, sem planejamento nem metas, que julgou se manter na crista da onda exclusivamente por meio da criatividade do marqueteiro João Santana, que se tornara uma espécie de Rasputin imberbe do Planalto/Alvorada, o 40º ministro que faltava dentro da caverna.

A MARQUETAGEM CONTINUA…

Enquanto os números sinistros eram divulgados no Brasil, Dilma Van Rousseff estava repetindo suas marquetagens no exterior. Em discurso na Cidade do Panamá a uma plateia de empresários de diversos países, ela elencou os investimentos em infraestrutura e em educação para que o Brasil continue crescendo “de forma sustentável” e fez defesa do que chamou de “grande esforço de ajuste fiscal” que vem promovendo no país.

Na realidade, nada disso existe: os investimentos em infra-estrutura estão praticamente parados, a educação pública entrou numa decadência desanimadora (fora o Pronatec, claro, que é uma espécie de poção mágica criada pelo marqueteiro), o Brasil não está crescendo de forma sustentável sob nenhum parâmetro e o grande esforço de ajuste fiscal será feito por todos, menos pelo governo.

PARADOXO DA PESQUISA

Voltando à pesquisa Datafolha, chamou atenção o fato de grande parte dos entrevistados que apoiam o impedimento de Dilma não acreditarem que ela venha a ser afastada. É impressionante: 63% querem o impeachment, mas 64% não acreditam no afastamento da presidente.

A leitura dessa pergunta deve ser refeita. Na verdade, muitos desses entrevistados incluídos nos 64% não acreditam é na classe política, acham que os parlamentares estão todos envolvidos na corrupção e tudo acabará em pizza.

Mas a realidade não é bem assim. Num outro momento de crise política, quando o presidente Fernando Collor estava sendo processado, também não se acreditava em impeachment, por falta de provas e de apoio. O então presidente da Câmara, deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) deu então uma entrevista que ficou na História, ao afirmar: “O que o povo quer, esta Casa acaba querendo”.

Ou seja, o impeachment de Dilma é só uma questão de tempo. O povo quer e está demonstrando este anseio nas pesquisas e nas ruas.

Com Temer na articulação, Dilma está dormindo com o inimigo

Carlos Newton

A rápida viagem do vice-presidente Michel Temer a São Paulo, quinta-feira, para se encontrar com o ex-presidente Lula, tem um significado muito importante. Demonstra que Temer sabe quem realmente está no comando, pois é evidente que o fracasso fez Dilma Rousseff desistir de tocar o governo sozinha e aceitar novamente Lula à frente de tudo, como ocorreu nos primeiros dois anos do mandato inicial dela.

Para uma pessoa pretensiosa e arrogante como Dilma Vana Rousseff, ter de se curvar  perante Lula é uma espécie de interminável Via Crucis, que ela precisará suportar durante quase quatro anos, caso consiga permanecer no cargo, o que já parece altamente improvável.

Temer é um profissional da política. Embora nunca tenha sido bom de voto, conseguiu construir uma sólida carreira, iniciada como secretário de Segurança Pública de São Paulo, em 1985. No ano seguinte, elegeu-se deputado constituinte pelo PMDB e depois seguiu se reelegendo, tendo sido presidente da Câmara em três oportunidades. Na eleição de 2006 ficou como primeiro suplente, mas acabou conseguindo uma maneira de assumir o mandato que o levaria à vice-presidência da República em 2010 e 2014.

MESTRE DOS BASTIDORES

Pode não ser bom de voto, mas em matéria de bastidores é um grande mestre do ilusionismo. A tal ponto que conseguiu fazer com que Dilma e Lula sonhem que podem contar com ele para reestruturar a base aliada e dar uma sobrevida ao governo e ao PT. Sonhar ainda não é proibido, mas tudo tem limite.

Os fatos são incontestáveis. A presidente Dilma já não dispõe de apoio popular, foi eleita por um partido em decadência vertiginosa e atolado num oceano de lama, a crise econômica e social não tem a menor chance de ser resolvida a curto prazo e a ameaça de impeachment aumenta progressivamente.

Pois em meio a este quadro sinistro, a solução encontrada por Dilma foi entregar a articulação política justamente ao vice-presidente Temer, que é de outro partido e pode ser o grande beneficiário da derrocada do governo, pois assumirá o poder em caso de impeachment ou renúncia.

PRIMARISMO POLÍTICO

Sinceramente, é muita ingenuidade e até primarismo político achar que Michel Temer, aos 74 anos, vai abandonar o futuro que lhe resta, a pretexto de garantir a preservação de uma companheira de chapa que jamais lhe deu o menor prestígio e apoio. Na verdade, do alto de sua prepotência, Dilma Rousseff sempre fez questão de manter Temer numa espécie de freezer político. Foram quatro longos anos dentro do congelador, sofrendo um desprezo muito difícil de ser esquecido.

Agora, o poder já não está com Dilma, nem com Lula ou com o PT. Quem dá as cartas na política são os três mosqueteiros do PMDB – Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Mas exatamente como acontece no romance de Alexandre Dumas, no qual os três mosqueteiros na verdade são quatro, a história se repete em Brasília, com a participação ostensiva do ex-deputado Henrique Eduardo Alves nas decisões do PMDB. Desde a posse de Dilma, em 1º de janeiro, Alves não tira os pés da capital e será nomeado ministro nos próximos dias.

Detalhe final: em política, jamais se pode dizer que exista vácuo de poder. Quando o pseudo detentor do poder revela fraqueza, seu espaço é imediatamente ocupado por algum adversário. Por isso, Temer não deve ser considerado aliado do PT, do governo, de Dilma ou de Lula. Ele trabalha exclusivamente para ele mesmo e para o PMDB, partido que ainda preside. O resto é folclore político e delírio de afogado, que tenta se abraçar a um tubarão para não submergir.

Sigilo nas operações do BNDES é afronta à lei e à democracia

Carlos Newton

Agildo Ribeiro criou um personagem fabuloso que anda desaparecido dos programas humorísticos, embora continue atuante na vida real, mostrando até que ponto o Brasil é um país esculhambado. A cena de Agido era sempre a mesma, a ação transcorria numa festa, com o personagem contando que tinha desistido de viajar para países estrangeiros, porque lá ninguém acreditava no que ele dizia e ficavam debochando o tempo todo.

Quando eu contei na França que aqui no Brasil a gente fica doente e é descontado pela Previdência Social, passando a receber do INSS salário menor do que quando estava com saúde, todos caíram na risada, ficaram me ridicularizando, dizendo que sou o maior mentiroso do mundo… Por isso, não viajo mais para fora o exterior!”, dizia o genial comediante.

Agildo Ribeiro precisa ressuscitar o personagem, porque o Brasil continua a ser o país da piada pronta. Vejam, por exemplo, o que está acontecendo com o BNDES. Até a gestão da dupla Carlos Lessa e Darc Costa, em novembro de 2004, havia transparência total. O banco divulgava todos os financiamentos às empresas públicas e privadas, fossem brasileiras ou multinacionais. Em dois anos, foram distribuídas centenas de releases à imprensa, detalhando as operações, os objetivos dos empréstimos, os juros, os prazos de carência e tudo o mais.

Com a chegada do economista Luciano Coutinho à presidência do BNDES, o banco simplesmente parou de distribuir informações sobre financiamentos, alegando proibição pela Lei do Sigilo Bancário. Como se trata de legislação que vigora desde 2001, anterior à gestão de Lessa e Darc, isso significa que esses notáveis e intocáveis cidadãos não passam de dois criminosos que estavam afrontosamente descumprindo a lei, ao quebrar de forma ilegal o sigilo das operações efetuadas pelo BNDES.

CÂMARA APROVA

O Congresso Nacional resolveu intervir na questão. Esta semana, mesmo depois da escolha de Michel Temer para comandar a articulação política, o governo foi derrotado por 298 votos contra 95, e a Câmara aprovou uma emenda do PSDB para derrubar o sigilo nos financiamentos do BNDES. A proposta ainda tem de passar pelo Senado, mas o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), se apressou em considerá-la inconstitucional.

“O sigilo é regulado por lei complementar e estamos debaixo de lei ordinária, então para mim é flagrantemente inconstitucional. O governo certamente vai ter que vetar, até pela inconstitucionalidade dela. O que foi uma vitória política de quem defende um tema pode até ser interessante, mas não podia ser nunca por lei ordinária”, explicou Cunha, que, tecnicamente, está coberto de razão. Se o Senado aprovar, a presidente Dilma Rousseff terá de vetar a nova lei.

O pior é que toda esta encenação até parece verdade, mas no fundo se transforma em mais uma das piadas do Agildo Ribeiro.

ENGANAÇÃO JURÍDICA

A Lei Complementar 105, de 10 de janeiro de 2001, realmente determina o sigilo das operações bancárias, não há a menor dúvida. Mas faz importantes ressalvas, que permitem  a transparência das operações de bancos estatais. Vamos conferir o que diz esta Lei do Sigilo Bancário, em seu artigo 5º, parágrafo 3º:

“Não se incluem entre as informações de que trata este artigo as operações financeiras efetuadas pelas administrações direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”.

Será necessário traduzir ou desenhar, para que se entenda o que diz este importante dispositivo? Qualquer estudante de Direito ou Economia sabe que são exemplos de administração indireta as autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista. Pois o BNDES é justamente uma empresa pública, conforme está escrito no artigo 1º de seu Estatuto, não estando obrigado a manter sob sigilo suas operações, ao contrário do que o atual presidente Luciano Coutinho estupidamente alega, querendo transformar Lessa e Darc em criminosos.

Portanto, a piada do Agildo é que a Câmara acaba de aprovar em lei ordinária a transparência das operações do BNDES, já expressamente prevista em lei complementar, que é muito mais importante e está em vigor desde 2001.

Luciano Coutinho tem o perfil ideal para filme de terror

COMÉDIA E TERROR

Como se vê, o comediante Agildo Ribeiro está perdendo grandes oportunidades de aproveitar piadas maravilhosas que continuam a ser criadas na administração pública brasileira, onde o Executivo desconhece leis que já existem, o Legislativo cria leis que já existem e o Judiciário se comporta como se elas não existissem, vejam que salada maluca.

Quanto a Luciano Coutinho, é um personagem sinistro, que não serve para humor. Mas tem o visual perfeito para o chamado cinema noir. Os funcionários do BNDES até já o apelidaram de “Cocheiro de Vampiro”, por seu perfil esquálido, com os cabelos tingidos de preto, usando sempre ternos escuros e mantendo o aspecto soturno, sem jamais esboçar um sorriso. É um serviçal perfeito para filmes de terror. E pode até ganhar o Oscar de coadjuvante.

Michel Temer já se sente como presidente da República

Carlos Newton

Como dizia Vinicius de Moraes, “de repente, não mais que de repente”, a presidente Dilma Rousseff entregou o governo e passou a ser a nova versão da rainha da Inglaterra, que reina mas não governa, nem política nem economicamente.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não dá a menor importância à presidente da República. Pelo contrário, vive a desmoralizar a imagem dela, depois pede desculpas e estamos conversados.

Ciente de que perdeu toda a força política (se é que já teve alguma força política…), Dilma Rousseff foi obrigada a chamar o vice-presidente Michel Temer para lhe entregar a Articulação Política do governo, depois de deixá-lo à margem do poder por longos 4 anos.

Temer é um profissional, não passa recibo. Como professor de Direito Constitucional, sabe que tem obrigação de obedecer à presidente, e faz isso com prazer, para ir assumindo o poder aos pouquinhos, saboreando cada instante. Enquanto Dilma desce, Temer sobe, inexoravelmente.

RAINHA DILMA

Não há dúvidas de que a rainha Dilma já não governa mais. Simplesmente, terceirizou a administração pública, entregando-a ao PMDB, que já dominava o Legislativo e rapidamente passou a comandar também o Executivo. Aonde isso vai dar, ninguém sabe, porque até hoje não inventaram a convivência pacífica entre partidos políticos, quando se trata de disputa direta de poder.

É tudo uma questão de tempo. Já se sabe que o PT está podre e o governo, também. A cada dia aumentam os problemas, sem que apareça a menor possibilidade de serem solucionados. A cúpula do governo assiste ao cerco se apertando, sem conseguir esboçar reação. É como a famosa tortura chinesa, que vai apertando um pouco a cada dia, num processo desesperador.

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS

Além da desmoralização da Petrobras, já temos uma sucessão de escândalos: o caso do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, a Eletrobrás, os fundos de pensão, o BNDES, o Conselhinho da Comissão de Valores Mobiliários, o chamado Sistema S, é um nunca-acabar que vai destruindo as bases do governo, num processo inexorável.

No desespero, a presidente Dilma Rousseff se vê obrigada a recorrer a Lula, que na verdade é seu pior inimigo e apenas tenta salvar o governo do PT, pouco ligando para ela. Mas acontece que Lula também está com validade vencida, não tem a menor condição de resolver a crise, está tão perdido e envolvido quanto ela.

TERCEIRIZAÇÃO

A solução desesperada foi terceirizar o governo para o PMDB, que também está envolvido na corrupção, mas em escala muito menor, e até agora o vice Michel Temer não foi atingido. Ele já está de mudança para seu gabinete no Anexo I da Câmara dos Deputados, de onde comandará o circo da política, mudando o eixo do poder para o Congresso.

A destruição do governo e do PT é só uma questão de tempo. Com aliados como Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, a presidente Dilma Rousseff nem precisa de inimigos e realmente está com seus dias contados. Vai ficar na História como a Viúva Porcina da política, “aquela que foi sem ter sido”, como dizia o escritor Dias Gomes.

Chega de intermediários! Lula devia assumir logo o governo

Carlos Newton

Quem pediu “Volta, Lula!” no ano passado, antes da eleição, agora pode se dar por satisfeito. O ex-presidente nem precisou ser candidato para retornar ao poder. Chegou a participar da campanha, mas apenas simbolicamente. Na verdade, meses antes Lula já estava rompido com Dilma Rousseff, que não quis abrir mão da candidatura e julgou que desta vez poderia governar sozinha. Na eleição, Lula nem queria mais conversa com ela, sua preocupação maior era apenas fortalecer o PT e impedir que o PSDB ou o PSB chegassem ao poder.

O fato é que nunca antes, na História deste país, se viu um governo ser demolido tão rapidamente. Antes mesmo de assumir, já estava destroçado. Dilma ganhou, mas não levou. Ninguém quis aceitar o ministério da Fazenda, ela teve de se humilhar e recorrer a Lula. Teve de aceitar um economista que estava no terceiro escalão do Bradesco, não fazia parte do Conselho nem da Diretoria, tinha a função subalterna de supervisionar um fundo de aplicação financeira de pequena demanda, apenas isso. Joaquim Levy não mandava nada no Bradesco, mas hoje manda no governo e representa abertamente os interesses do banco paulista.

Mesmo Levy tendo com carta branca para comandar a economia, a crise não passou. Pelo contrário, foi se agravando. Dilma teve de se humilhar novamente, pediu socorro a Lula, que deu uma resposta seca: “Se quiser conversar, venha a São Paulo, porque em hipótese alguma irei a Brasília”. Dilma obedeceu. Pegou a Aerolula e foi enfrentar a fera.

LULA DANDO ORDENS

Dilma voltou a Brasília com as seguintes determinações de Lula: 1) afastar Aloizio Mercadante e Pepe Vargas da articulação política; 2) buscar um imediato entendimento com o PMDB; 3) recompor-se com Renan Calheiros e Eduardo Cunha; 4) prestigiar os partidos da coalizão, para recuperar a base aliada.

Esta conversa ocorreu numa quinta-feira, dia 12 de fevereiro. Depois do carnaval, Lula pegou o jatinho do empresário José Seripieri Jr. (Grupo Qualicorp), que fica à sua disposição, viajou a Brasília e se reuniu com a cúpula do PMDB e com as lideranças do PT, assumindo ele próprio a articulação política. Na semana seguinte, Dilma também buscou diálogo com o PT e o PMDB, mas Renan recusou o convite dela, a reunião foi um fracasso, e nada de afastar Mercadante e Vargas.

Furioso, Lula chamou o presidente do PT, Rui Falcão, pegou o jatinho de novo e voltou à Brasília para esculhambar Dilma. A reunião foi no Palácio do Planalto e entrou pela noite. A TV Globo mostrou no telejornal a imagem da conversa: Lula gesticulando, irritado, Dilma ouvindo de cabeça baixa, com as duas mãos para trás, e Falcão ao lado, assistindo à cena.

PESQUISAS ARRASADORAS

Lula voltou a São Paulo, a crise continuou se agravando e Dilma não afastava Vargas nem Mercadante, alegando que não ainda não encontrara que os substituísse. Saíram as pesquisas Datafolha, MDA e Ibope, mostrando o governo descendo a ladeira, numa celeridade impressionante.

Lula começou a mandar sucessivos recados exigindo a mudança na articulação política, e a pressão era divulgada abertamente pela imprensa, humilhando ainda mais a presidente da República. Dilma não sabia a quem nomear, Lula então mandou que convocasse Eliseu Padilha, uma das raposas do PMDB.

Como ela sempre faz tudo errado, ao invés de se acertar primeiro com Padilha, Dilma foi logo mandando o Planalto divulgar a nomeação. O resultado foi desastroso. Padilha recusou, alegando que a mulher acaba de ter um bebê e lhe pediu que não aceitasse, vejam bem que desculpa esfarrapada.

TEMER, O GRANDE ALIADO

No desespero, Dilma recorreu a Michel Temer, que não poderia dizer não a convite tão honroso, que o coloca estrategicamente dentro do prédio do Congresso, ocupando o vistoso gabinete da Vice-Presidência, que fica perto do corredor do Anexo I, onde funcionam as comissões.

Será que Dilma Rousseff realmente acredita que Michel Temer vai atuar em favor dela, depois de desprezado por mais de quatro anos? Ontem, ele estreou na função e foi logo mostrando serviço, ao conseguir adiar a formação da CPI do BNDES. Mas nos bastidores, na verdade ele só trabalha para uma só pessoa, que por acaso se chama Michel Temer e é o primeiro na ordem sucessória de um governo que está caindo de maduro, em meio a uma podridão que nunca antes, na História deste país…

No meio desta confusão, Lula está de volta ao poder e Dilma não manda mais nada. Deveriam parar com o fingimento e abrir logo um gabinete para ele no terceiro andar do Planalto.

Lula fracassa ao tentar reconciliar o PMDB e o Planalto

Lula tenta salvar Dilma e o PT, mas está muito difícil

Carlos Newton

A manobra de Lula era muito habilidosa. Em outras circunstâncias, poderia até ter dado certo, mas agora, nenhuma chance. Os jornais chegaram a noticiar que a presidente Dilma Rousseff havia convidado o ministro Eliseu Padilha para trocar de pasta, deixando a modesta Aviação Civil para assumir o estratégico Ministério das Relações Institucionais, que faz ligação direta com o Congresso.

A notícia foi vazada pelo Planalto, é claro, para tentar um fato consumado, porém acabou sendo mais um tiro no pé.

Ao receber o convite, Eliseu Padilha não respondeu e rumou logo para o Palácio Jaburu para um encontro com o vice Michel Temer, o senador líder Romero Jucá e o ex-deputado Henrique Eduardo Alves, que continua a ser uma das eminências pardas do partido.

PROPOSTA ARDILOSA

A proposta de Lula era multifacetada e aparentemente irresistível. O PMDB ganharia mais um ministério e Henrique Eduardo Alves passaria a ocupar a vaga do atual ministro do Turismo, Vinicius Lages, que iria para a Aviação Civil. Um troca-troca que interessa muito a Alves, por ser do Rio Grande do Norte, um dos Estados de maior movimentação turística. Com isso, Vinicius Lages iria para a Aviação Civil e não oporia resistência, porque não manda nada no partido ou no governo. Para o PMDB, esta era a parte boa do acordo proposto por Lula, através da ainda presidente Dilma Rousseff, que é mais ou menos como Vinicius Lage e também já não manda nada nem no PT nem no governo.

Em situação normal de temperatura e pressão, o acordo seria maravilhoso para o PMDB, mas as aparências enganam. O governo está totalmente enfraquecido e desnorteado. Não existe possibilidade de sair bem desta crise, porque os escândalos se multiplicam, agora há a ferrovia Norte Sul, a usina de Belo Monte, o Conselho da Receita e o Conselhinho da CVM. Na fila, estão a Eletrobrás e outras estatais, os fundos de pensão, o BNDES e o chamado Sistema S, com destaque para o Sesi, presidente pelo petista Jair Meneguelli. É um nunca-acabar.

CONTAMINAÇÃO

O PT e o governo estão pestilentos, quem deles se aproximar pode ser contaminado. Da antiga base, até agora somente o PP também foi realmente acometido. Alguns importantes políticos do PMDB estão sendo investigados, mas o partido ainda se mantém fora do foco da epidemia, ninguém sabe se também será contagiado de forma ampla, como o PT e o PP. Este é o quadro atual.

O PMDB, é claro, sabe o governo Dilma vai sangrar e não quer se meter nesta hemorragia interna e externa. É ele quem manda na Câmara e no Senado, por que de repente se curvar ao governo e ser obrigado a defendê-lo de acusações verdadeiramente indefensáveis?

NINGUÉM NASCEU ONTEM

Lula pensou que poderia enganar a cúpula do PMDB, um verdadeiro covil de políticos cascudos e matreiros. Sabem que o partido não precisa mais do PT para desfrutar do poder, como vinha ocorrendo desde 2003. Agora a situação se inverteu, é o PT que precisa do PMDB para se manter no governo, em estilo balança, mas não cai.

Num quadro dramático como este, com a aprovação do governo descendo a ladeira, a cúpula do PMDB seria muito ingênua se aceitasse dar a mão ao governo para tirá-lo do atoleiro. Lula pensa que é muito esperto, mas sua imagem também está cada vez mais desgastada, segundo pesquisas encomendadas pelo próprio PT.

A solução foi mandar Pepe Vargas de volta a seu mandato de deputado e deixar Michel Temer comandando a articulação política do governo. É a mesma coisa que colocar a raposa para tomar conta do galinheiro. Principal interessado no impeachment de Dilma, Temer passa a ter ligação direta com o Congresso e pode usar à vontade o gabinete à sua disposição no prédio da Câmara. A partir de agora, Temer ficará livre, leve e solto para articular dentro do Congresso a derrubada da presidente e do PT.

E Lula ainda pensa que é esperto.

Voltou a censura à Tribuna da Internet? Virou site pornográfico?

Amadeu Pinho

Estou navegando num iPad, sem conseguir ler a Tribuna da Internet. Até agora, só consegui acessar uma reportagem, por isso estou colocando aqui esta pergunta: Alguém sabe o que significa isso? A explicação do servidor do iPad é que a TI é um site pornográfico. Confira aí:

YOUR ORG NAME Access to the page http://www.tribunadainternet.com.br/ … has been denied for the following reason:

Weighted phrase limit exceeded.

Categories: Pornography (Portuguese), Pornography (Italian), Pornography, Pornography (Spanish), Pornography (Malay). You are seeing this error because what you attempted to access appears to contain, or is labeled as containing, material that has been deemed inappropriate. If you have any queries contact your ICT Coordinator or Network Manager.

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UMA FORMA DE CENSURA

O comentarista Amadeu Pinho acertou em cheio. Realmente, trata-se de uma forma ardilosa de censurar a Tribuna da Internet. Há vários anos, essa artimanha vem sendo usada por algumas “instituições” públicas e privadas, para impedir que seus funcionários tenham acesso às matérias, artigos e comentários da TI, devido à nossa postura de denunciar atos de corrupção que envolvem suas diretorias. Como têm vergonha de revelar o motivo da censura, justificam o bloqueio sob argumento de que se trata de um “site pornográfico”.

Uma das primeiras instituições a considerar “pornográfica” a Tribuna da Internet foi o Banco do Brasil, que à época era presidido por Aldemir Bendine, notoriamente conhecido como grande especialista em pornografia. Como todos sabem, Bendine usava recursos públicos do Banco do Brasil para agraciar a jovem senhora Valdirene Marchiori, levando-a a seu lado em viagem de jatinho para Buenos Aires, arranjando R$ 2,7 milhões de financiamento a juros subsidiados para uma empresa dela que nem sede tinha (o endereço fornecido no contrato era da agência do próprio BB) e patrocinando as aparições de Val (ela prefere ser chamada assim) no programa Amaury Júnior.

Justamente por isso, toda vez que a TI publica matérias e artigos sobre Bendine ou Val Marchiori, automaticamente se transforma num site altamente pornográfico. Esta realidade jamais poderemos negar.

PRESIDINDO A PETROBRAS…

Em função dos grandes serviços prestados ao PT e ao governo Dilma Rousseff, o pornólogo Bendine recentemente foi promovido a presidente da Petrobras, onde o salário é bem maior. Desde fevereiro, ele está recebendo módicos R$ 183 mil mensais na Petrobras (e logo haverá aumento…), somados à sua aposentadoria no Banco do Brasil, que antes de sair ele próprio mandou aumentar para R$ 62,4 mil.

Ou seja, aos 58 anos, Bendine está faturando mais de R$ 245 mil mensais. Em matéria de pornografia político-administrativa, nada se iguala a isso. E la nave va, sempre fellinianamente.

Dilma vai cair, só não se sabe quanto tempo durará a agonia

Carlos Newton

Não há a menor perspectiva de final feliz para a crise política, econômica, social e ética que devasta o governo federal. São escândalos e notícias negativas que se acumulam, inexoravelmente. A grande mídia nem precisa fazer manipulação, basta publicar o que está acontecendo, sem maiores comentários. E a tendência é a situação piorar, progressivamente, para desespero da troika formada pelo Planalto, PT e Instituto Lula (não necessariamente nesta ordem).

Não há dúvida de que Dilma Vana Rousseff virou uma espécie de rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. A administração federal está absolutamente paralisada e o país caminha com as próprias pernas, vivendo uma experiência surrealista de “laissez-faire”, que pode até ser positiva, pois é melhor não ter governo algum do que suportar um governo tão incompetente.

A presidente poderia se manter assim até o fim do novo mandato, ninguém ligaria, como aconteceu recentemente na Bélgica, que passou vários anos sem ter primeiro-ministro, não entrou em crise econômica ou ética, seguiu se desenvolvendo, uma maravilha. Mas acontece que aqui no Brasil as coisas estão bem diferentes e Dilma Rousseff tem muito mais problemas do que a simpática e educada rainha Fabíola.

ESCÂNDALOS EM SÉRIE

Neste início de mandato, as investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato já estão encontrando cada vez mais provas sobre gravíssimos atos de corrupção em outros setores do governo, como a construção de hidrelétricas e ferrovias. E na fila, aguardando apuração, estão os fundos de pensão, o BNDES, a Eletrobrás e outras estatais,  além do chamado Sistema S e de muitos ministérios.

Na verdade, é um nunca-acabar de escândalos, que não atingem apenas o Executivo, pois a opinião pública está consciente de que Legislativo e Judiciários também estão  apodrecidos. Embora o país esteja mergulhado numa gravíssima crise econômica, os salários das autoridades dos Três Poderes estão cada vez mais altos, com inaceitáveis mordomias, incluindo os cartões corporativos, cujos gastos são mantidos sob sigilo absoluto, vejam a que ponto essa gente chega.

Não há governo capaz de resistir a tamanho bombardeio. É ilusão achar que Dilma Rousseff possa acabar incólume como Lula, simplesmente repetindo que não sabia de nada.

SEM APOIO ALGUM

A situação se complica ainda mais, porque ninguém consegue apoiar Dilma Rousseff, nem mesmo o ex-presidente Lula, que a conduziu ao poder. Na semana passada, o grupo majoritário do PT divulgou um manifesto de críticas ao governo federal, com ponderações compartilhadas por todas as demais alas do partido.

As centrais sindicais também já desembarcaram do governo. Durante evento organizado pelos movimentos sociais na última terça-feira, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, criticou os tarifaços de luz, da água e dos combustíveis, além das propostas do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy.

No Congresso, não existe mais base aliada desde o início de fevereiro, quando o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) instituiu o primado regimental dos blocos partidários e assumiu pessoalmente o comando do principal deles, formado por 227 deputados, deixando o PT completamente isolado.

Por fim, é sempre bom lembrar que nunca antes, na História deste país, um governo conseguiu se preservar no poder sem contar com apoio da maioria dos parlamentares. O resto é folclore.

Lava Jato enfim consegue provas contra Vaccari, PT e Dilma

Carlos Newton

A chamada Operação Lava Jato já utilizou vários homens-bombas no esforço de desvendar o esquema de corrupção montado pelo PT na Petrobras para se eternizar no poder. Os principais depoentes são o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor Paulo Roberto Costa. Mas nenhum deles tem o poder de detonação do ainda tesoureiro do PT, o sindicalista João Vaccari Neto, que já é réu no importante processo do Bancoop (cooperativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo) e agora aparece cada vez mais envolvido nos inquéritos da corrupção na Petrobras.

A ligação de Vaccari com o ex-presidente Lula sempre foi muito próxima. Ficaram amigos na década de 80, quando Lula criou o PT e se elegeu deputado federal. Foi Vaccari que nos anos 90 apresentou Lula à jovem Rosemary Noronha, que na época era secretária do Sindicato dos Bancários. Também foi Vaccari que conseguiu que o Bancoop vendesse a Lula um triplex em Guarujá, à beira-mar, por singelos R$ 47 mil, e não é preciso dizer mais nada.

Desde que seu nome começou a aparecer nas investigações da Lava Jato, Vaccari tem repetido que é inocente, que jamais houve propina para o PT e que não há nenhuma prova contra ele. Mas a situação foi mudando no decorrer dos trabalhos da chamada força-tarefa, formada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. O envolvimento do PT no esquema passou a ser cada vez mais flagrante, começaram a surgir os nomes de ex-ministros, como José Dirceu e Antonio Palocci, e agora aparecem provas de que Vaccari realmente atuava como operador do PT na corrupção da Petrobras.

PROVAS MATERIAIS

Na Justiça, sabe-se que as chamadas provas materiais são importantíssimas, embora possa até haver condenação com base em provas meramente testemunhais e circunstanciais. No caso de Vaccari, do PT e de Dilma faltavam provas materiais, pois o que existia eram apenas depoimentos contra ele e evidências de seu envolvimento.

Agora, porém, surgiram também provas materiais contra Vaccari e o PT, o que significa que a condenação do tesoureiro passa a ser praticamente certa (embora tudo possa acontecer na Justiça brasileira, vejam a que ponto chegamos).

Reportagem de Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, no Estadão, mostra que a força-tarefa dispõe de documentos incriminando Vaccari, pois tem as notas, a proposta de contrato e as cópias de e-mails trocados entre a Toshiba Infraestrutura América do Sul e os laranjas do doleiro Alberto Youssef, que teriam respaldado o pagamento da propina de pelo menos R$ 1,5 milhão ao PT e ao PP, em 2012.

Esta semana, em novo depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz todos autos da Lava Jato, o doleiro confessou pela primeira vez que procedeu a entrega de cerca de R$ 800 mil do PT. Segundo o relato de Youssef, a primeira parcela de R$ 400 mil foi paga no estacionamento de seu escritório em São Paulo, entregue a uma cunhada de Vaccari, chamada Marice Correa Lima. E a outra parcela de R$ 400 mil foi quitada em dinheiro vivo na porta da sede do partido, em São Paulo, tendo como destinatário da propina o atual tesoureiro João Vaccari Neto.

DIA 9, NA CPI…

Estas são as primeiras provas materiais contra Vaccari e o PT. Quando se fala em PT, por óbvio isto significa o envolvimento indireto ou até direto de Dirceu, Palocci, Genoino, Lula e até Dilma Rousseff, caso fique provado que sua campanha eleitoral recebeu propinas do esquema da Petrobras, conforme já consta de vários depoimentos colhidos pela força-tarefa.

Vaccari está deprimido e assustado. Em sua ignorância jurídica, ele foi convencido pelos advogados de que podia se julgar inocente, porque tudo que fez foi em nome do partido, no desempenho da função de tesoureiro, que Vaccari acreditava incluir a atuação como arrecadador de recursos.

Sua convicção na inocência era reforçada pelo fato de jamais ter se beneficiado pessoalmente. Nunca cobrou comissão para operar o esquema de propinas, vivia com seu rendimento de R$ 23 mil mensais como conselheiro de Itaipu, acrescido do salário que o partido lhe paga, e jamais exigiu nada.

Com o escândalo, já foi obrigado a deixar o conselho de Itaipu. Agora, os dirigentes petistas tentam tirá-lo da Tesouraria, com apoio do velho amigo Lula. No desespero, Vaccari se nega a pedir demissão e já avisou que vai comparecer à CPI da Petrobras, na próxima quinta-feira, dia 9, em pleno exercício da função de dirigente do PT.

NADA LHE FALTARÁ…

Lula mandou tranquilizar Vaccari, prometeu que nada faltará a ele e a sua família, e até citou o caso de Rosemary Noronha, cujo sustento está mais do que garantido, ninguém pode duvidar, e o processo judicial tramita devagar, quase parando. Mas no caso de Vaccari a tensão aumenta a cada dia e não se sabe por quanto tempo ele vai resistir à tentação de aceitar a delação premiada.

E tem um detalhe: mesmo que ele se cale para sempre, o surgimento de provas materiais pode ser suficiente para incriminar o partido e quem estiver dependurado nele. Se é que vocês me entendem, como dizia o genial jornalista Maneco Muller, meu amigo, irmão e camarada.

Quanto a Dilma Rousseff, a assinatura dela no contrato de montagem do Estaleiro Rio Grande, em 2006, quando era chefe da Casa Civil, é a primeira prova material de seu envolvimento em falcatruas. A chapa está esquentando, como se diz hoje em dia.

Se Deus não existe, é preciso criá-lo o mais rápido possível

Carlos Newton

Não há dúvida de que hoje é um dia especial, embora poucos saibam realmente o que representa a Sexta-feira Santa, destinada a relembrar o martírio de Jesus Cristo e sua morte no Calvário.

Nos atribulados dias de hoje, a grande maioria da população considera esta festa religiosa como mais um feriadão, que juízes, desembargadores e ministros dos tribunais superiores fazem questão de comemorar cristã de forma intensa, tirando onze dias de folga, pois já faz tempo que a maioria dos magistrados praticamente não trabalham mais às segundas e sextas-feiras, como uma forma de fazer justiça em benefício próprio. Se os juízes brasileiros não fossem tão descansados, digamos assim, a Justiça funcionaria a contento, os criminosos a temeriam e estaríamos em situação muito melhor.

O ATEÍSMO É RESPEITÁVEL

Tenho grandes amigos inteiramente ateus, que levam o agnosticismo às últimas consequências, como o médico Paulo Studart, o economista Ricardo Cunha e o empresário Luiz Dutra. São pessoas admiráveis, cidadãos exemplares, cultos e racionalistas. Eu respeito de forma absoluta a opinião deles, que tem forte base científica.

Há alguns anos, assisti a um impressionante documentário britânico, baseado nas teorias de Stephen Hawking, o maior físico da atualidade, que nesta obra cinematográfica faz uma ampla exposição de conceitos para enfim concluir pela inexistência de Deus.

Fiquei impactado com a tese de Hawking, mas pessoalmente não consigo viver sem alguma forma de apoio espiritual. É uma fraqueza, admito, mas sou assim mesmo, aceito qualquer religião.

TUDO É TRANSITÓRIO

Entre os princípios basilares das maiores religiões, acho a teoria budista a mais adequada. É inteiramente verdadeira a tese de que “nada é, tudo apenas está, tudo é transitório, nada é permanente”, porque pode ser aplicada a qualquer coisa na vida.

Desconfio que esse pensamento religioso oriental tenha até inspirado Lavoisier na teoria que revolucionou a Química com o “nada se cria, tudo se transforma”. É possível que também tenha sido usado pelo intelectual Eduardo Portela, quando declarou que não “era” ministro, apenas “estava” ministro.

Confesso também que fico muito impressionado com os fenômenos considerados paranormais, como o dejá vu, a telepatia, as premonições. Também me intriga o fato de certas pessoas fazerem previsões acertadas e nos revelarem coisas que jamais poderiam saber, por serem íntimas e apenas de nosso conhecimento.

Fico até desconfiado de que exista mesmo alguma coisa entre o céu e terra, com dizia Shakespeare, que pareceu budista e socrático ao desenvolver aquela genial tese hamletiana do “ser ou não ser”, também utilizada depois em “El Cid” por Molière, outro genial decifrador de conflitos humanos.

MUITAS DÚVIDAS

Em meio a esse universo de dúvidas, fico pensando na afirmação de Gandhi que publicamos semana passada aqui na Tribuna da Internet: “Não conheço ninguém que tenha feito mais pela humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no Cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo seus próprios ensinamentos”.

Gandhi, que tinha o apelido de Mahatma (a Grande Alma), morreu em 1948. Tanto tempo depois, infelizmente nada mudou. Muitos cristãos, especialmente aqui no Brasil,  continuam preferindo se curvar diante do Deus Dinheiro. Irracionalmente, se arriscam para terem cada vez mais recursos, nem que seja apenas para depositar no exterior, sem qualquer objetivo ou função de ordem prática. Esquecem que a vida é finda, acaba num instante. Com toda certeza, a quase totalidade desses neoavarentos podem vir a fechar a conta de sua existência sem aproveitar um só centavo dos tesouros acumulados lá fora. Deixam o dinheiro sujo para os herdeiros contaminarem as consciências.

Bem, voltemos ao que interessa. De toda forma, hoje é Sexta-Feira Santa. E se Deus não existe, parece óbvio que deveria existir. Portanto, é preciso que se tome alguma providência a respeito.

Jurisprudência do Supremo permite que Dilma seja investigada

Parecer de Celso de Mello confirma que Dilma não tem “imunidade”

Carlos Newton

Com as declarações do ministro Marco Aurélio Mello ao repórter Severino Motta, da Folha, aumenta a polêmica sobre a abertura de investigações sobre a presidente Dilma Rousseff no esquema de corrupção da Petrobras. Na entrevista, ele concordou com a tese do procurador-geral Rodrigo Janot, no sentido de que a presidente Dilma Rousseff não pode ser investigada por atos alheios a seu mandato.

Mas é claro que, no caso, o ministro Marco Aurélio está apenas emitindo uma opinião pessoal, pois já existe jurisprudência a respeito no Supremo Tribunal Federal e deve ser respeitada, até decisão posterior em contrário.

O ministro novato Teori Zavascki, que funciona como relator dos inquéritos abertos contra parlamentares envolvidos, foi o primeiro a desconhecer a jurisprudência do Supremo e apressadamente concordou com a criativa tese de Janot, que de forma peremptória foi logo afastando a possibilidade de a presidente da República ser investigada, como se ela tivesse uma espécie de imunidade.

Agora, surge o ministro Marco Aurélio, um dos mais antigos do Supremo, e também tenta derrubar a jurisprudência, com argumentos idênticos e altamente duvidosos. Repetindo as palavras do procurador-geral Janot, disse ele que “de início, a Constituição veda a responsabilização”.

“O que se quer com essa cláusula é proteger em si o cargo. Já está tão difícil governar o país, imagine então se nós tivermos um inquérito aberto contra a presidente da República?”, arrematou, misturando despropositadamente uma situação jurídica (a possibilidade de processo da presidente) e uma situação política (a crise que o país atravessa), como se fossem elementos excludentes entre si.

JURISPRUDÊNCIA CLARA

Se os ministros Zavascki e Marco Aurélio pretendem mudar a jurisprudência do Supremo, o problema é deles. O que não podem fazer (até porque isso pega muito mal para seus “notórios saberes jurídidos”) é desconhecer que existe uma clara jurisprudência no Supremo, fruto de julgamento que teve como o relator o ministro Celso de Mello, decano da instituição.

No parecer ao Inq 672 – 6 – DF, Celso de Mello afirmou justamente o contrário: Presidente da República não tem imunidade (ou seja, não existe absoluta vedação constitucional no artigo 86, § 4º, da Constituição Federal) e pode ser submetido a inquérito. Vejamos:

“Essa norma constitucional – que ostenta nítido caráter derrogatório do direito comum – reclama e impõe, em função de sua própria excepcionalidade, exegese estrita, do que deriva a sua inaplicabilidade a situações jurídicas de ordem extrapenal.

Sendo assim, torna-se lícito asseverar que o Presidente da República não dispõe de imunidade,quer em face de procedimentos judiciais que vissem a definir-lhe a responsabilidade civil, quer em face de procedimentos instaurados por suposta prática de infrações político-administrativas (ou impropriamente denominados crimes de responsabilidade), quer, ainda, em face de procedimentos destinados a apurar, para efeitos estritamente fiscais, a responsabilidade tributária do Chefe do Poder Executivo da União.”

“De outro lado, impõe-se advertir que, mesmo na esfera penal, a imunidade constitucional em questão somente incide sobre os atos inerentes à persecutio criminis in judicio. Não impede, portanto, que, por iniciativa do Ministério Público, sejam ordenadas e praticadas, na fase pré-processual do procedimento investigatório, diligências de caráter instrutório destinadas a ensejar a informatio delicti e a viabilizar, no momento constitucionalmente oportuno, o ajuizamento da ação penal.”

Bem, em termos judiciais, é esta jurisprudência da Suprema Corte que está valendo, embora Marco Aurélio Mello e Teori Zavascki pareçam estar pouco ligando para esse balizamento jurídico que deveria nortear seus atos e declarações.

NO CAMINHO CERTO

Foi justamente com base nesta clara jurisprudência que o PPS apresentou há duas semanas um recurso ao Supremo contra a decisão de Zavascki, que arquivou a abertura de investigação sobre a presidente Dilma Rousseff.

Nesta terça-feira (31), a Oposição voltou à carga. O deputado Raul Jungmann (PPS-PE) e líderes do DEM e do PSDB estiveram com o procurador-geral Rodrigo Janot, mas ele não quis muita conversa. Além de manter sua posição sobre a “vedação constitucional” de investigação, fez juízo de valor e acrescentou que não vê indícios para pedir apurações sobre a presidente.

Apesar disso, os oposicionistas vão insistir no pedido de investigações sobre a chefe do governo, por acreditarem que já existem muitos indícios de envolvimento e tudo indica que deverão surgir também outras evidências de que a presidente Dilma Rousseff foi favorecida eleitoralmente com recursos obtidos no esquema de corrupção montado pelo PT.

Neste caso, um inquérito contra a presidente inevitavelmente teria de ser aberto e poderia culminar na cassação do mandato dela com base na Lei Eleitoral, conforme a tese do jurista Jorge Béja, exposta aqui na Tribuna da Internet há dois meses, com riqueza de detalhes e sólida sustentação jurídica.

Novo governo Lula Rousseff mais parece uma peça surrealista

Carlos Newton

Em função da flagrante derrocada do governo Dilma Rousseff, a política brasileira está se tornando uma das atividades mais estranhas e esquisitas da humanidade. Sabe-se que o ex-presidente Lula está mais ou menos de volta ao poder. No caso, mais ou menos quer dizer que Lula dá pitacos nos principais assuntos, manda Dilma fazer isso ou aquilo, mas ela só obedece quando quer, porque a caneta oficialmente ainda lhe pertence e faz uso dela como e quando quiser.

Por exemplo: Lula lhe ordenou que tirasse os ministros Aloizio Mercadante e Pepe Vargas do comando da articulação política. Dilma disse que sim, prometeu atender, mas foi empurrando a decisão para frente, não mudou nada e o governo vai continuar se relacionando precariamente com a base aliada, que na verdade já nem existe mais.

Porém, Lula gostou que Dilma tenha nomeado o ex-deputado Edinho Silva para a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, mas isso também não muda nada e o governo vai continua sem recuperar a popularidade perdida, até porque não há mais a menor possibilidade de reverter a queda da aprovação, por causa do inexorável agravamento da crise política, econômica, administrativa e… ética.

UMA POLÍTICA CONFUSA

A grande novidade agora é a tentativa de reabilitação do ex-ministro Antonio Palocci, que passou a ser participante assíduo das discussões mais amplas promovidas pelo Instituto Lula em busca de uma solução para a atual crise.

Reportagem de Catia Seabra e Marina Diaz, na Folha, mostra que nos últimos quinze dias Palocci participou de ao menos três encontros a convite de Lula. Segundo as jornalistas, o ex-ministro seria apontado como “uma ponte informal do governo com a classe média e o empresariado”, o que representa uma justificativa muito esdrúxula, digamos assim. Palocci com o empresariado, tudo a ver, dado o sucesso dele como “consultor”. Mas com a classe média, francamente…

EM MEIO A DENÚNCIAS

Essa volta de Palocci coincide justamente com o surgimento de denúncias de seu envolvimento no esquema da Petrobras. O ex-ministro foi acusado pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, de ter pedido recursos para a campanha de Dilma em 2010, através do doleiro Alberto Youssef. A revista IstoÉ deu uma vasta matéria sobre o assunto, mas Lula não costuma ler o que a imprensa divulga…

O mais estranho é que, ao mesmo tempo em que tenta reabilitar Palocci, Lula se recusa a falar com José Dirceu, também já envolvido no esquema da Petrobras.

Não dá mesmo para entender. E tudo isso demonstra que no novo governo Lula Rousseff as coisas funcionam sem pé nem cabeça, uma confusão total, em clima de surrealismo puro.

 

Defensores da intervenção militar voltam às ruas

Carlos Newton

Neste 31 de março, quando se completam 51 anos do golpe militar de 1964, com a descida das tropas de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro, comandadas pelo general Mourão Filho, serão promovidas manifestações específicas a favor de uma intervenção militar contra o governo Lula Rousseff.

O direito de expressão deve ser sagrado e assegurado a todos, não há a menor dúvida. E a maioria dos participantes, é bom ressalvar, não está defendendo a volta da ditadura militar. Trata-se de brasileiros que simplesmente perderam a confiança nas instituições. Não acreditam mais nas boas intenções dos governantes, dos partidos, dos parlamentares nem dos juízes. Querem apenas que o país seja passado a limpo. Recorrem aos militares como último recurso, embora se saiba que eles também não são confiáveis, porque tendem a exercer o poder de forma equivocada e acima da lei.

O fato é que, no Brasil, os poderes estão podres. Mergulhados num oceano de corrupção e incompetência, Executivo, Congresso e Judiciário vivem num mundo à parte, uma espécie de Ilha da Fantasia, em que os interesses pessoais prevalecem sobre os demais, sejam coletivos ou até nacionais. Esta é a realidade atual, não se pode tapar o sol com uma peneira, como se dizia antigamente.

NAS RUAS

O resultado dessa apropriação indébita dos poderes públicos está nas ruas, segundo um levantamento da Opinião Pesquisa de Universidade Pública Latino-Americana (Lapop, na sigla em inglês), coordenada pela Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos, e feita em parceria com instituições de todo o continente. Na edição de 2012, os dados no Brasil foram levantados pela Universidade de Brasília, com apoio da Coordenação de Apoio ao Pessoal de Ensino Superior (Capes) do Ministério da Educação. Em 2014, o instituto Vox Populi foi o responsável pelo levantamento.

Entre 2012 e 2014, a fatia da população que acha justificável um golpe militar quando há corrupção cresceu de 36% para 48%. Ou seja, de pouco mais de um terço, passou a praticamente a metade. O índice é o maior desde 2007, quando começaram as pesquisas, e vai no sentido contrário da queda percebida entre 2008 e 2012, de 39,8% para 36,3%.

Não há dúvida de que a pesquisa é impressionante e preocupante. Hoje, com manifestações restritas aos que realmente apoiam a intervenção militar, poderemos constatar na prática se esses dados assustadores batem com a realidade ou representam um exagero estatístico.

Mas é preciso entender que os números podem estar corretos, mesmo se fracassarem as manifestações convocadas para esta terça-feira, porque existe o fenômeno da “maioria silenciosa”, formada por pessoas que apoiam uma tese, mas não costumam defendê-la publicamente, o que explica algumas surpresas eleitorais que derrubam pesquisas.