Cartel e Nação

Mauro Santayana

(HD) – Desde a instituição, em 1536, pelo Rei Dom João III, de Portugal, das Capitanias Hereditárias, o Brasil sofre com a maldição dos monopólios e da cartelização.
Dentro das capitanias, o senhor explorava seus prepostos, nas sesmarias, exercendo a exclusividade da compra e da venda e da fixação de preços das mercadorias, da mesma forma que a Coroa Portuguesa fazia com ele.
O que, antes, era imposto pelo sistema colonial português, transformou-se, com o passar dos anos, em traço marcante da cultura nacional e do estilo “empreendedor” brasileiro. Criamos um país de barões, tabeliões e coronéis, interventores nomeados e pequenos comerciantes, sempre empenhados em ver o público em geral mais como objeto de exploração pura e simples do que como clientes ou consumidores.
Entre-se em uma feira qualquer, e em poucos minutos, se descobrirá que existe uma espécie de “acordão” entre comerciantes locais. Se a picanha, no “seu” José, está um real mais cara que no “ seu” Manuel, pode ter certeza de que a chã de dentro vai estar um real mais cara no segundo açougue, para compensar. O mesmo se dará com o peixe, a banana, o tomate, a alface, etc, etc, etc.
Quem se der ao trabalho de calcular, vai ver que não faz a menor diferença parar em uma ou outra banca. Só muda a cara ou a forma da pessoa atender. Sempre se ajeita tudo para que ninguém saia perdendo, desde que ele não seja consumidor.
Se isso ocorre no comércio de bairro, imagine-se nos grandes negócios. Monopólios, cartéis formados para burlar licitações, ou para divisão de mercado, são a coisa mais normal no Brasil.
CARTEL DA TELEFONIA
Na telefonia, por exemplo, depois da criminosa desnacionalização do setor nos anos noventa, a concentração em mãos estrangeiras da parte do leão das telecomunicações faz com que estejamos pagando das mais altas tarifas do mundo, em uma área que é campeã de reclamações.
O último episódio nessa longa série de escárnios ao cidadão brasileiro foi a suspensão, na semana passada, pela enésima vez, da tentativa de se proceder a licitação de linhas interestaduais de passageiros, que continuam, na prática, nas mãos das mesmas empresas, desde o regime militar.
No setor, a concorrência é tão grande, que as quatro viações que fazem a ligação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, a rota de maior movimento do país, cobram rigorosamente o mesmo preço pela passagem de ônibus convencional.
O decreto que previa a licitação é de 1993, a escolha das vencedoras já deveria ter sido feita em 2008, mas a licitação tem sido sucessivamente adiada e não saiu até hoje.
E mesmo assim, quando isso ocorrer, só poderão participar dela – pasmem! – empresas que já operam nesse mercado.  Os “concorrentes” continuarão sendo os mesmos “conhecidos” de sempre. Só haverá algumas mudanças, como a que obrigará empresas mais rentáveis a atender trechos de menor retorno financeiro.

Os portais da imortalidade

Mauro Santayana

(JB) – O fim de 2013, e o início do novo ano de 2014 têm sido pródigos em notícias revolucionárias no campo da saúde. Cientistas da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, criaram nano-partículas anticancerígenas que “grudam” em glóbulos brancos, e, espalhadas pelo sangue, identificam e matam células tumorais, impedindo que o câncer, por meio de metástase, se espalhe pelo corpo, eliminando essas células do sangue de ratos e de humanos, em laboratório, em apenas duas horas.

Na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, uma equipe, comandada pelo professor Douglas Fearon, descobriu como funciona a barreira protetora que envolve certos tumores e desenvolveu uma substância que conseguiu rompê-la, permitindo que o sistema imunológico mate suas células, curando o câncer de pâncreas – altamente letal – em ratos, em apenas seis dias.
E, na Universidade de Harvard, outro grupo de cientistas, liderados pelo australiano David Sinclair, conseguiu reverter o envelhecimento muscular em ratos “velhos”, com idade equivalente a 60 anos, permitindo que sua condição física voltasse a uma idade de aproximadamente vinte “anos”, em apenas uma semana.

O tratamento baseou-se na descoberta de uma nova causa do envelhecimento, principalmente muscular, que é a perda da comunicação entre os cromossomas do ADN do núcleo da célula e os do ADN das mitocôndrias, responsáveis pelo fornecimento da maior parte da energia necessária à atividade celular.

Para resolver o problema, os pesquisadores usaram uma molécula que elevou, nos ratos, os níveis de nicotinamida adenina dinucletídeo, (NAD), que se mantêm mais alta na juventude, e cai para a metade em idosos.

AINDA DEMORA

Naturalmente, esses tratamentos não estarão disponíveis em pouco tempo, e, em uma sociedade baseada no lucro, dificilmente chegarão tão cedo ao homem comum.

De qualquer forma, os avanços científicos que se multiplicam em todos os campos de atividade, nos fazem refletir sobre a importância, talvez ainda não adequadamente avaliada, do extraordinário período que estamos vivendo agora.

É tentador pensar que, se considerarmos o Universo como informação, o conhecimento do Cosmo e de nós mesmos nos permitirá mudar o mundo e a nós mesmos, da forma que nos for mais conveniente.

É claro que, para muitos, essa parecerá uma visão herética da aventura humana.

Se o infinito conhecimento é infinito poder, ele só pode pertencer a Deus e não ao homem e deveríamos ser punidos por buscar esse conhecimento, como nos alertaram os antigos gregos com o mito de Prometeu, ou Mary Shelley, com “Frankenstein”.

Outros acreditam que o homem só deveria ter acesso a conhecimento limitado, com propósito previamente determinado e especial permissão do Criador.

NO TIBET

No conto “Os Nove bilhões de nomes de Deus”, de 1953, o escritor norte-americano Arthur C. Clarke, autor também de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” brinca com o tema. Ele imagina o lama de um monastério Tibetano comprando um supercomputador Mark-V para realizar um trabalho, que, normalmente, seus monges levariam 15.000 anos: calcular todos os possíveis nomes de Deus, em palavras com 9 caracteres, usando um alfabeto especialmente inventado, sem que nenhuma letra figure mais de 3 vezes consecutivas em cada vocábulo.

Já instalados no Tibet, entre os muros da cidadela do templo, os dois engenheiros encarregados de montar e operar a máquina, descobrem – pouco antes do final dos cem dias de trabalho – que os monges acreditam que, uma vez finalizados os cálculos, a humanidade perderá sua razão de existir, e tudo acabará para sempre.

Preocupados com a reação dos monges caso as coisas não transcorram como eles esperam, os dois resolvem adiantar sua partida, e começam a descer a montanha onde está instalado o monastério, a caminho do aeródromo, no qual um DC-3 os aguarda, duas horas antes do horário previsto para que o computador imprima o ultimo nome.

É noite, e eles estão, sobre suas montarias, em um dos pontos mais altos da trilha, quando chega o momento da máquina parar de trabalhar. Instintivamente, seus olhos se voltam para a silhueta do monastério, ao longe, recortando-se contra o horizonte. E descobrem, perplexos, que as estrelas, estão, uma a uma, começando a se apagar.

Não sabemos se o homem, algum dia, vencerá definitivamente a morte, ou se estaremos entre as últimas gerações a viver estes modestos oitenta, noventa, cem anos, que nos cabem, agora, como limites quase que definitivos.

Navegantes do tempo, temos singrado, por milhares de gerações, as águas do receio e da ignorância, abraçados uns aos outros, no início e fim de nossas vidas, frágeis e impactados por imensa vulnerabilidade, tremendo ante a perspectiva da dor e a proximidade da morte. O certo é que, mesmo à deriva, parece que estamos prestes a conseguir atravessar o vasto oceano.

Finalmente, vislumbramos, ao longe, para além da bruma que nos cerca, quase como miragens, das quais nos aproximamos lentamente – graças ao estudo do genoma humano e de novas ciências como a engenharia genética e a nanotecnologia – os pilares que nos darão passagem para uma nova era. Eles estão à nossa frente. Os fabulosos e indefinidos portais da imortalidade.

De sapos e princesas

Mauro Santayana

(HD) – Era uma vez um reino, que já tinha sido rico e poderoso, em um passado distante. E, que, depois, pobre e miserável, foi governado por um monstro feroz e sanguinário, por muito tempo. Esse monstro havia derrotado o povo daquele reino em uma guerra terrível.
Anos depois, quando estava ficando velho, mandou que viesse de fora do reino um
príncipe, e o educou com esmero, para substituí-lo. Com o passar do tempo, esse príncipe  transformou-se em um rei de opereta, que vivia à custa das arcas do reino, e sentia nostalgia do poder de seus antepassados e das idéias que o monstro lhe havia ensinado.
Mas mais tempo passou, e o povo se esqueceu das lições que havia aprendido na luta contra o monstro.
Com inveja dos povos vizinhos, muito mais ricos, o povo se submeteu a eles, e, graças à ajuda alheia e a pesadas dívidas, todos compraram muitas coisas e acharam que estavam igualmente ricos, e que, a partir daí, seriam tratados como iguais pelos seus antigos senhores.
Passaram então, a tratar os povos mais pobres, como antes eram tratados pelos mais ricos. Desprezavam e expulsavam os estrangeiros, os mendigos e os peregrinos. Com o dinheiro alheio, construíram suntuosas pontes e castelos, e o Rei, de nariz em pé, viajava por selvas e desertos distantes, para caçar elefantes.
A PRINCESA E O PLEBEU
Sua filha, a Princesa, conheceu um plebeu, que, como um sapo encantado, praticamente transformou em príncipe, o que permitiu que ele fizesse bons e duvidosos negócios nos mais altos círculos do reino.
Um dia, no entanto, a crise varreu, como um tufão,  as paragens em que ficava o Reino. Um em cada quatro de seus cidadãos ficou sem trabalho. Descobriu-se que o Tesouro devia quase o dobro do que arrecadava em impostos para os reinos vizinhos; e muito mais para os seus bancos; que cada aldeão ou cidadão devia ainda mais, em média, do que poderia ganhar em um ano; e que alguns de seus homens mais ricos também eram responsáveis por algumas das mais altas dívidas do mundo.
Embora muita gente acredite que certas estórias só ocorram em suas próprias e encantadas terras, o reino de que falamos fica do outro lado do oceano.
O monstro da história chamava-se Francisco Franco. O nome do Rei é Juan Carlos. A Princesa é a Infanta Cristina, indiciada agora por delito fiscal e lavagem de dinheiro, por um juiz espanhol.  O plebeu, seu marido, chama-se Iñaki Undangarin e foi acusado de corrupção e desvio de dinheiro público, no chamado caso Nóos.
VIROU DUQUE
Ex-jogador de handebol, transformado pelo casamento em Duque de Palma de Mallorca, Undangarin já serviu a diversas empresas ibéricas, que operam em vários países, incluindo certo “reino” tropical.
Um lugar no qual muita gente fica embasbacada, e se deixa enganar pelas estórias – essas sim da Carochinha – contadas por malandros e oportunistas de ternos finos e fala macia, principalmente quando eles vêm de fora.

A balança e a chibata


Mauro Santayana
(HD) – Nos últimos dias, pela enésima vez – quem não se lembra do massacre do Carandiru? – a situação das prisões brasileiras foi manchete na internet e nos mais  importantes jornais do mundo. Junto aos textos, as imagens dos cadáveres decapitados de Pedrinhas, no Maranhão, e a informação de que a cada dois dias – sob a guarda do Estado – um prisioneiro é assassinado no Brasil.

Os números não se referem aos que são espancados por outros presos ou agentes e policiais. Ou aos que falecem devido a enfermidades – muitas delas contagiosas – que se espalham como peste nas celas superlotadas. Ou aos que são feridos quando detidos e morrem por falta de assistência médica ou remédios.
Em boa parte do mundo, a primeira preocupação de um condenado é contar quantos dias, meses e anos faltam para a sua liberdade. No Brasil, a não ser que seja o “xerife” ou faça parte de alguma facção – o que não é garantia de nada, como se viu no Maranhão – a primeira preocupação de um preso é evitar, minuto a minuto, ser espancado, estuprado ou assassinado por seus colegas de cela.
Ele não poderá jamais, mesmo se tivesse espaço para isso, dormir tranquilo. E da sua relação com os agentes penitenciários, dependerá, a cada momento, seu futuro.
VIDA E MORTE
Uma simples transferência de cela ou de galeria feita, a qualquer instante, pelo carcereiro de plantão, pode representar a diferença entre vida e morte, relativa integridade física e uma surra de criar bicho, ou algo muito pior. Isso, considerando-se que esse indivíduo tem grande chance de ser preso provisório, que, sem culpa oficialmente formada, está aguardando julgamento, às vezes por meses ou  anos.
Que crime ele cometeu, para cumprir cadeia nessas condições? O crime de ter nascido em um país em que se prende, e se condena, pelo furto de dois pacotes de biscoitos ou um xampu, e se envia o suspeito, em poucas horas, para uma cela cheia de traficantes assassinos.
Ter nascido em um país no qual o suspeito é tratado, na prática, como culpado até prova em contrário, e em que, segundo certa jurisprudência, cabe ao réu provar que foi torturado quando o acusado pela tortura for agente do estado. Um país em que boa parte da população acha que a violência deve ser combatida na base do “olho por olho, dente por dente”. E acredita que diminuindo a maioridade, aumentando as sentenças e adotando a pena de morte resolveremos o problema, embora tenhamos a polícia que mais mata no mundo e a quarta população carcerária do planeta, e a criminalidade e a violência continuem aumentando a cada ano.
O crime de ter nascido em um país em que a polícia e a justiça se originaram na Santa Inquisição e nos Capitães do Mato. Em uma Nação na qual alguns juízes, continuam agindo como se, entre nós, a Justiça trouxesse a balança em uma mão, e na outra, uma chibata. E a chibata fosse muito mais usada.

A mão e as vespas

Mauro Santayana (JB) 

Vez ou outra, os jornalistas vêm-se obrigados a tocar, repetidas vezes, nos mesmos assuntos, não pela razão — como dizia o poeta — de querer fazer um samba de uma nota só mas porque a realidade do país nos impõe, infelizmente, os mesmos implacáveis fatos, dia a dia, mês a mês, ano a ano, quase sem interrupção.

A situação do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, com a morte de dezenas de detentos, no ano passado, e a decapitação de alguns, com direito a gravação em vídeo, seguida de macabra divulgação na internet, retrata resistente e trágica mazela que a sociedade brasileira não consegue vencer nem enfrentar.

Muda o nome do presídio, da cidade, do estado, mas a situação, o roteiro — como acontece com os blockbusters de Hollywood — é quase o mesmo. E o pior, para a ONU e a Comissão de Direitos Humanos da OEA, o nome do país, também é quase sempre o mesmo, só muda o mês, o ano e o  filme que está em cartaz.

Tudo isso ocorre porque, por trás da situação do Sistema Carcerário Brasileiro, existe outro “sistema”, paralelo, anônimo, ilegal e suboficial. Esse “sistema” está envolvido com atividades ilegais, que vão de cartéis para o fornecimento de comida e outros insumos para os presos à introdução de drogas, armas e celulares nos presídios. Um “sistema” que se sente confortável como um peixe dentro de lago profundo, escuro  e estanque com o estado atual das nossas prisões.
NADA MUDOU

Talvez seja essa a razão para que, nos últimos anos — incluídos os de FHC, Lula e Dilma— pouca coisa tenha mudado em nossas cadeias, e, de modo geral, para  os milhares de detentos que se encontram atrás das grades, cerca de 40% deles ilegalmente, já que sem terem tido culpa formada ou reconhecida pela Justiça.
Está faltando um debate mais amplo para discutir o descalabro e as perspectivas do panorama carcerário no Brasil.
Acossados pelo conservadorismo, tanto o PSDB como o PT, no entanto, evitam aprofundar-se no assunto, embora o tema devesse constar com destaque em qualquer programa de governo, e esteja faltando um debate mais amplo, e mais sério, para discutir o presente descalabro, e as perspectivas futuras, do panorama carcerário no Brasil.
Em Minas, o governo Anastasia inaugurou, no início de 2013, a primeira prisão “privada” do país, erguida e administrada por investidores, por meio de PPP, com celas para quatro presos em regime fechado, ou seis em regime semiaberto.
O complexo, com previsão para cerca de 3 mil presos, é gerido por um agente público, e por um conselho com participação das áreas de corregedoria, de direitos humanos e da própria comunidade, além do grupo responsável pela sua construção.
O senhor Fernando Henrique Cardoso já se manifestou publicamente — mas o PSDB não assumiu essa bandeira — a favor da descriminalização, assunto que está na ordem do dia com a regulação da produção e consumo da maconha no Uruguai, prestes a se transformar na primeira potência cannábica do planeta, inclusive com a exportação do produto para outros países, para a produção de medicamentos.

DE QUEM É A CULPA

O que não pode continuar ocorrendo, nem no Maranhão, nem em qualquer outro estado, ou em prisões federais, é que se tente imputar aos presos a culpa pela situação. Preso é preso, e Estado é Estado, assim como seus policiais, funcionários e agentes carcerários.
Querer culpar o detento por ter acesso a desafetos, celulares, drogas, armas, dentro da cadeia, quando se sabe que nada entra na cela sem o interesse ou a cumplicidade de alguém, é o mesmo que insultar a inteligência da nação.
Afinal, quem pode mais, pode menos. Quando os agentes do Estado querem — às vezes até mesmo à revelia das lideranças legalmente constituídas — invadem arbitrariamente prisões, espancam e torturam presos, massacram indiscriminadamente detentos como aconteceu no Carandiru.
Sejamos francos, a morte dos presos de Pedrinhas  só chamou a atenção porque o presídio foi visitado por uma comissão externa ligada ao Ministério Público, determinada  a verificar a situação da população prisional. E por causa de ataques, fora de seus muros, que atingiram covardemente a população local.
Se não fosse isso, a repercussão dos assassinatos de detentos em Pedrinhas seria zero. A morte de cinquenta ou sessenta presos por ano em um presídio qualquer não atrapalha em nada o “sistema”.  Pelo contrário, ela é vista, por muitos, dentro e fora dele, como desejável e normal.

A QUEM INTERESSA?
Resta saber se essas mortes, assim como os ataques a inocentes, como a menina de três anos, queimada dentro de um ônibus, não estão sendo incentivadas,  direta ou indiretamente, e se existe mais alguém, além dos detentos, interessado em incendiar o Maranhão.
Isso já ocorreu em São Paulo, não faz muito tempo, com as chacinas — que mataram dezenas de pessoas — detonadas no rastro dos ataques do PCC, em 2012.
Sempre que se tenta mudar a vergonhosa situação prisional do Brasil — que volta a estarrecer o mundo inteiro, neste momento — se está metendo a mão em perigoso vespeiro, forjado por anos e anos de impunidade e omissão.
E as vespas não conhecem outro caminho, para responder a quem mexe com elas, do que disseminar ao máximo seus enxames e ferrões, espalhando o medo e o terror.

A batalha da Copa

Mauro Santayana
(HD) – O Governo Federal informou, nesta semana, que cerca de 10 mil soldados e policiais deverão ser treinados em técnicas de segurança e contenção de distúrbios para a proteção de torcedores, turistas e instalações de infra-estrutura durante a Copa.
A repressão, no entanto, como já se viu antes, não pode nem consegue resolver tudo. Tão importante quanto se preparar para o pior, seria que o Governo Federal, os estaduais, e municipais, das cidades-sede, começassem, desde já, a mapear e a negociar com os movimentos que pretendem se manifestar durante o evento.
Tal medida – talvez no molde de audiências e convocatórias públicas – poderia ajudar a preservar o direito à livre manifestação, garantindo, ao mesmo tempo, um nível mínimo de organização para os protestos. Dessa forma, seria possível evitar, ou diminuir, a sua “contaminação” por sabotadores de diferentes tipos, que se infiltram na multidão para promover o caos.
Basta acompanhar seu discurso e opiniões na internet, para saber quem eles são. Estão mais interessados em combater o regime democrático e incendiar o país, do que em lutar pela melhoria das condições de vida da população. Iniciativas conjuntas como “Comitês Populares da Copa”, os coletivos “ninjas” de mídia alternativa, o próprio Movimento Passe Livre, podem monitorar e controlar as manifestações, identificando e combatendo os vândalos, infiltrados e sabotadores.
A COPA NÃO É DE NINGUÉM
Muitos esquecem que, para o bem e para o mal, a Copa do Mundo não pertence nem ao PT, nem à oposição. Embora nem os que ficam em casa nem a maioria dos manifestantes tenham parado para pensar, ela pertence ao país como um todo.
O vandalismo, quando dirigido para a destruição do patrimônio público e privado – como estádios, lojas, aeroportos e caríssimos equipamentos de mobilidade urbana como as novas estações do BRT, construídas com recursos federais, estaduais, municipais –  prejudica igualmente a todos os brasileiros,  qualquer seja sua posição política.
Os sabotadores de extrema direita, abrigados nos vídeos do Youtube e nas páginas de apologia ao golpismo, da violência e da tortura nas redes sociais – que o Governo e o Judiciário parecem fazer questão de continuar a ignorar – não irão para as ruas a favor de certo partido ou candidato nas eleições deste ano.
Seu objetivo é destruir a democracia brasileira e fazer tudo o que estiver ao seu alcance, para promover e incentivar a quebra do Estado de Direito, aproveitando o palco gerado pela visibilidade do país em 2014. Precisamos lembrar que a Copa passa e a Nação fica. É, portanto, também contra os inimigos da democracia, que as instituições, os governos de situação e de oposição, e os movimentos sociais terão que se organizar e tomar posição, nos próximos meses.
Como se viu em 1964, e no Golpe do Chile, em 1973, apostar na piora das condições de governabilidade não pode beneficiar a ninguém.

O Brasil e o asilo a Snowden

Mauro Santayana
(HD) – Um dos principais assuntos da semana, foi a realização de uma reunião da Presidente Dilma,  para analisar o asilo a Edward Snowden, em troca de informações sobre as atividades de espionagem da NSA contra cidadãos e autoridades brasileiras.
O assunto surgiu a partir de uma “carta aberta” de Snowden ao povo brasileiro, publicada na  “Folha de São Paulo”, e do lançamento de uma campanha em defesa do asilo a ele, com a coleta de assinaturas e o uso de  máscaras que reproduzem sua face.
O texto renovou as denúncias a propósito dos riscos que corremos – nós e pessoas de outras nacionalidades – de termos nossas comunicações interceptadas, todos os dias, e de sermos até mesmo chantageados pelos EUA, por nossas atividades na internet.
Ela foi, também, uma mensagem de gratidão ao  governo brasileiro, pela atenção dada às denúncias de pelo empenho demonstrado, nas Nações Unidas, para atuar com firmeza em defesa da privacidade como um direito fundamental de todo ser humano.
APROPRIADO E LEGAL
O que mais chamou a atenção, no entanto, foi a parte em que Snowden afirmava, com relação às investigações que estão sendo realizadas pelo governo brasileiro:
“Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina. Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir com minha capacidade de falar.”
Esse trecho foi interpretado como uma espécie de barganha, por meio da qual Snowden estaria oferecendo sua colaboração e informações, em troca de eventual concessão de asilo, pelo governo brasileiro. Hipótese que foi rapidamente desmentida pelo jornalista Gleen Greenwald, espécie de porta-voz oficioso de Snowden, que afirmou, que, na verdade, ele estaria apenas explicando sua impossibilidade de vir ao Brasil pessoalmente, devido à implacável perseguição que lhe é movida pelo governo norte-americano.
ARMADILHA
Ao tratar o assunto como uma questão de Estado,  o Brasil poderia estar superestimando o fato e caindo em uma armadilha diplomática e institucional. O asilo a Snowden, só se justifica por razões humanitárias, caso estivesse correndo risco de vida, na Rússia, onde está agora, o que não é o caso.  Aceitá-lo, em troca de informações, equivaleria moralmente a equiparar-nos aos EUA, fazendo o que eles fizeram conosco, que foi meter o bedelho em nossos assuntos internos.
A mensagem mais importante da carta de Snowden está no final, quando ele declara:“Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas.”

A compra dos Gripen e a doutrina militar de defesa

Mauro Santayana

(JB) – Depois de 13 anos, finalmente o governo brasileiro deu sua aprovação à compra de 36 novos caças para a Força Aérea Brasileira, optando pelos Gripen NG suecos, em detrimento do Rafale, da Dassault francesa e do F-18 da Boeing norte-americana. O menor preço, unitário e por hora de voo, a transferência de tecnologia e a questão política foram fatores determinantes para a escolha.
Como ainda não está totalmente desenvolvido, o caça sueco-brasileiro será projetado em conjunto por técnicos e empresas das duas nações, como as brasileiras Akaer — que já participa do projeto — e Embraer e a própria Saab. Está prevista a criação inicial de aproximadamente 2 mil empregos em São Bernardo do Campo, São Paulo, onde seria instalada a unidade de montagem. O pacote financeiro — cada avião sairá por aproximadamente 125 milhões de dólares — também foi o mais atraente. O Brasil só começaria a pagar os aviões depois de recebida a última das 36 aeronaves, no começo da próxima década.
Para o Brasil, o Gripen NG representa um novo patamar, do ponto de vista da indústria aeronáutica militar, bem acima do turboélice de ataque leve e treinamento avançado Super-Tucano, da Embraer. Mas ele — como bem lembrou o ministro Celso Amorim, ao dizer que o país continuará negociando um caça de quinta geração — não solucionará todos os problemas do país nessa área.
DONO DO PROJETO
Como o Brasil será dono do projeto, com o tempo, ele poderá ser vendido para outros países da Unasur e até mesmo do Brics, como é o caso dos sul-africanos, que já possuem Gripen mais antigos em sua Força Aérea. Com eles estamos desenvolvendo conjuntamente mísseis A-Darter, que podem armar esse avião.
O importante é que o Gripen NG possa render, estratégica e economicamente, o máximo de retorno para o investimento previsto.
Não é preciso dizer, da Engesa ao AMX, o quanto a descontinuação na fabricação de material bélico foi e pode ser danosa para o Brasil, tanto no desmonte da estrutura estabelecida para sua fabricação quanto na perda de conhecimento e na desmobilização do pessoal técnico envolvido.
Verificando o que está sendo feito no país, neste momento, não é racional gastarmos centenas de milhões de reais para montar um estaleiro para fazer quatro submarinos. O correto seria dar início, a partir daí, à fabricação de pelo menos uma nova belonave por ano, para manter ativos e operantes todos os elos da cadeia produtiva. O mesmo vale para blindados, helicópteros, mísseis, artilharia, avançando, a cada etapa, na nacionalização de componentes, até adquirir total autonomia do exterior.
LINHAS DE PRODUÇÃO
Precisamos aprovar encomendas do governo que permitam garantir demanda suficiente para manter em funcionamento todas as linhas de produção, assegurando que elas possam eventualmente ser aceleradas, em caso de conflito.
É por essa razão, considerando-se preço, consumo de combustível e garantia de transferência de tecnologia, que os Gripen não deveriam ficar limitados, apenas, ao reduzido número de 36 aeronaves. Sua fabricação deveria durar, pelo menos, dez anos, a um ritmo de 12 aviões por ano, até completar — asseguradas as modernizações possíveis e o natural ganho de escala — um número mínimo de 120 caças, ainda assim insuficiente para garantir a vigilância de nossas fronteiras e uma condição militar à altura de nossa situação geopolítica.
O grande vetor para a projeção estratégica do Brasil fora do contexto geográfico sul-americano, considerando-se a concorrência e a competição entre os EUA, a Europa e os Brics, nos próximos anos, não será o Gripen mas o caça-bombardeio de quinta geração T-50 PAK-FA, que se encontra atualmente em desenvolvimento por russos e indianos, e para o qual o Brasil já foi convidado a participar oficialmente.
Poderíamos, assim, estabelecer uma teia de atuação aérea progressiva, complexa e abrangente, cobrindo nossas necessidades de defesa e de projeção de nosso poder militar, começando, em um anel mais externo, pelo uso de satélites, drones, Vants e Super-Tucanos para vigilância de nossas fronteiras. A seguir, viria uma rede de bases e esquadrilhas de Gripen NG BR, dispostas, estrategicamente, para a proteção de nossas maiores cidades, litoral e Amazônia Azul, e, em caso de grave ameaça, um número inicialmente menor de aviões mais avançados e ofensivos, como o Sukhoi Su-35, e, futuramente, o T-50, potencialmente adaptados aos sistemas de dirigibilidade, controle e manutenção da FAB.
COOPERAÇÃO
A mera escolha do Gripen, fabricado a partir de peças ocidentais, não pode ser vista como um  fator limitante para a cooperação do Brasil com outro tipo de nações, que apenas contribuiria para consolidar nossa dependência, no campo da defesa, de países da Europa e dos próprios Estados Unidos.

O Ocidente não tem nenhum compromisso estratégico conosco e, muito menos, a médio e longo prazo. Nunca se poderá contar com nenhum país ocidental, em caso de eventual problema com um deles. Vide o caso da Argentina, abandonada  totalmente por seus fornecedores de armamento, na Guerra das Malvinas.

O voo

Mauro Santayana

(HD) – Seria bom, se para tirar a cabeça das nuvens, bastasse tirar os pés do chão. Os pilotos aliados relatam instantes de iluminação, nos vôos em que retornavam, com os aviões avariados, quase caindo, às suas bases na Inglaterra, na Segunda Guerra Mundial. Santos Dumont e Amelia Earhart costumavam dizer que refletiam melhor quando livres das amarras da gravidade, embora isso não tenha livrado a famosa aviadora norte-americana de desaparecer, sobre as águas do Pacífico, em julho de 1937.

Essas divagações nos vêm à mente a propósito da entrevista de Fernando Henrique Cardoso, ao Valor, sobre os detalhes da viagem dos ex-presidentes da República, com a Presidente Dilma, a Johanesburgo, para as homenagens a Nelson Mandela.
Nela, Fernando Henrique desmistifica o mito da Dilma fechada e “rabugenta”. Diz que todos evitaram polemizar, que ninguém – além da Presidente – conseguiu dormir na viagem de ida. E foi simpático ao referir-se a Lula, com quem teria  “rememorado muitas coisas”, e estabelecido um contato mais próximo do que o que teve com Collor ou Sarney.
Seria desejável, se, em momento de lucidez, inspirado pelo fato de terem estado no mesmo avião, a caminho da África do Sul, os presidentes refletissem sobre o fato de estarmos, todos, no mesmo barco, do ponto de vista da responsabilidade pela defesa da democracia e com relação aos riscos, sempre presentes, que ameaçam o Estado de Direito.
CORRUPÇÃO 

É preciso combater a corrupção, onde ela estiver? Sim! Mas é preciso também parar de ficar forjando cascas de banana; de tentar elevar a sabotagem ao estado da arte no exercício da política; de manipular e distorcer as instituições; de ficar criando problemas para torpedear a governabilidade e travar o desenvolvimento – como está ocorrendo, por exemplo, na área de infra-estrutura – em projetos federais, estaduais e municipais.
Apostar na criminalização da política, como tem se feito, implacavelmente – tentando crucificar o outro quando o próprio telhado é de vidro – equivale a dedicar-se a montar, sem pára-quedas, uma bomba dentro de aeronave a dez mil metros de altitude.
Na internet, está virando moda dizer que, para ser homem público, basta ser ladrão, e – como resultado da  irresponsável doutrinação feita nos últimos anos – há quem não veja mais nenhuma diferença ética ou ideológica entre quaisquer segmentos da política nacional.
Para grupos mais radicais, de fascistas e psicopatas –  é preciso que suas excelências atentem para os sinais luminosos no fundo da cabine – já passou da hora de jogar as urnas fora, rasgar o título de eleitor, e promover a volta da tortura e dos assassinatos do autoritarismo.
É isso que muitos defendiam, nos portais e redes sociais, enquanto o avião presidencial atravessava o oceano, rumo a Johanesburgo. Torcendo, abertamente, para que ele explodisse ou caísse, a centenas de metros por segundo, sobre o Atlântico Sul.

Habemus Papam

Mauro Santayana

(JB) – Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida, muitos marxistas que eram boas pessoas. A declaração do Papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.

A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo – no Brasil, particularmente, está ficando “chic” ser de extrema direita – baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.
Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, “Museus do Comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, cem milhões de mortos ao comunismo.
NACIONAL-SOCIALISMO
Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em que os Alemães e seus aliados perderam 850 mil homens e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho – que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em seu covil – a Alemanha Nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.

Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica, se esquece que, sem a heróica resistência, o complexo industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética – que perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes – boa parte dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas, teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.

Espalha-se, na internet – e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso – que o Golpe Militar de 1964 – apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos – foi uma contra-revolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do estado de direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck Presidente da República em 1965.

OPORTUNISMO

1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais – não todos, graças a Deus – golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.
Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do Papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras – e não são os monstros apresentados pela extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do “marxismo cultural” – representam um apelo à razão e um alento.
Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis chaminés do Vaticano. Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado pelo seu rebanho.

De mandingas e Mandela

Mauro Santayana

(HD) – Uma grande cerimônia de tributo a Nelson Mandela marcou o programa de homenagens póstumas ao grande líder sul-africano.

Significativamente, a maioria dos dirigentes escolhidos para discursar, diante de uma plateia da qual formavam parte cerca de 80 chefes de estado, era de países emergentes.
Obama falou na condição de Presidente dos Estados Unidos, mas, principalmente, como o líder negro, descendente de africanos, que conquistou o mais alto cargo da maior economia do mundo.
O Presidente de Cuba, Raul Castro, foi ovacionado pela multidão, talvez devido ao papel que Havana teve, quando do envio de milhares de soldados para Angola, para lutar em 1987 e 1988 contra mercenários ocidentais e o exército racista sul-africano.
Com a vitória dos cubanos e das FAPLA contra a UNITA, na Batalha de Cuito Cuanavale, caiu o mito da invencibilidade do exército sul-africano, e se abriu caminho para a independência da Namíbia e o fim do regime do apartheid na África do Sul.
A parceria entre o Brasil e a África do Sul começou com a criação do IBAS – grupo que une a indianos, brasileiros e sul-africanos, em 2003, e aprofundou-se, depois, com a entrada da África do Sul no BRICS, do qual também tomam parte a Índia, a China e a Rússia.
APOIO DO BRASIL
Os sul-africanos sabem que o desenvolvimento econômico e social do continente africano só poderá ser alcançado com cooperação brasileira. Só o Brasil dispõe, com o conhecimento gerado pela Embrapa, da tecnologia necessária para promover a ocupação de milhões de hectares de savana africana – quase uma extensão do cerrado, do ponto de vista  geológico –  para a produção de cana de açúcar e de soja resistentes à seca e ao calor, e do melhor gado do mundo para esse tipo de clima.
O mesmo acontece com programas sociais brasileiros, ou de combate à AIDS e a doenças tropicais, e com a instalação de laboratórios com a presença de técnicos nacionais, naquele continente.
É cada vez mais importante, também o entendimento bilateral na área de defesa. Um exemplo é o desenvolvimento conjunto, pela Avibras e a Mectron – pelo Brasil – e a Denel – pela África do Sul – do novo míssil ar-ar A-Darter, destinado a equipar aviões de caça das duas nações.
Por essas razões, a Presidente Dilma foi chamada a discursar, assim como os Presidentes da Índia e da China, também membros do grupo BRICS.
A mandinga de Mandela, se ele carregasse um patuá perto do peito, seria a da solidariedade, da determinação, da dignidade e da justiça, que o levaram a libertar seu povo do jugo neocolonialista europeu.
Se pudessem fazer uma mandinga, não como  profissão de fé, mas de “olho gordo”, as grandes potências ocidentais lançariam um feitiço para quebrar a crescente união dos países emergentes, que ficou  evidenciada, mais uma vez, na escolha dos chefes de estado que falaram no Soccer City Stadium de Johannesburgo.

O Brasil e a Organização Mundial do Comércio – uma nova vitória

Mauro Santayana
(JB) – Uma das mais importantes vitórias brasileiras, no contexto geopolítico, nos últimos anos, foi a conquista da Diretoria Geral da OMC – Organização Mundial do Comércio, pelo diplomata Roberto Azevedo, em dezembro do anos passado. Embora sua eleição tenha sido classificada  pelos perdedores, mais como triunfo do próprio candidato do que do país em que nasceu, tratou-se, na verdade, de uma vitória eminentemente nacional.
Apesar da férrea oposição das grandes potências ocidentais, os EUA e a União Europeia – na Europa, só Portugal nos apoiou – Roberto Azevedo foi eleito com uma frente de mais de 20 votos entre os de 159 países de todas as regiões do mundo. Diplomata experiente, trabalhando há anos na OMC como representante do Brasil, Azevedo e a equipe brasileira na OMC, já haviam colocado  os Estados Unidos e a Europa de joelhos em outras ocasiões: a vitória brasileira e a derrota dos EUA nos contenciosos do suco de laranja e do algodão – que ajudou muito países em desenvolvimento; a vitória do Brasil contra a União Europeia nos casos do açúcar e do frango congelado, e contra o Canadá, devido a subsídios ilegais (Embraer x Bombardier) à exportação de aviões.
Não satisfeito em derrotar de forma decisiva o candidato mexicano Hermínio Blanco, os EUA e a Europa, na sua eleição para a OMC, Roberto Azevedo alcançou, na semana passada, uma emblemática vitória, não apenas para si mesmo e para a organização que dirige, mas também para o Brasil, do ponto de vista diplomático e geopolítico.
RODADA DOHA
Em um encontro da Organização Mundial do Comércio em Bali, na Indonésia, conseguiu destravar as negociações comerciais da Rodada Doha, que sofriam um impasse histórico há anos, e fez com que a OMC alcançasse o primeiro acordo global de comércio – um objetivo que era perseguido desde sua fundação, em 1995.
Depois de dias de difíceis negociações, quando o acordo caminhava para sua finalização, foi preciso enfrentar forte resistência da Índia, que não queria abrir mão de subsidiar sua agricultura, para garantir alimentos locais para a população mais pobre, e de Cuba, que, junto com outros países bolivarianos, exigia que os Estados Unidos levantassem o embargo econômico sobre seu território, como condição para assinar a declaração final.
No final do processo, ficou claro que nenhum outro país, ou representante, que não o Brasil – sócio da Índia no IBAS e no BRICS, e responsável pelo financiamento e construção do novo Porto de Mariel em Cuba – ou Azevedo, poderia remover as resistências indianas e cubanas e alcançar o mínimo de consenso necessário para se alcançar o entendimento.
Depois, as pessoas se perguntam por que o Brasil trata bem países como Cuba, Venezuela,  Bolívia, Nicarágua, ou outros, ainda menos favorecidos, do continente africano. Não é apenas pelo fato de fazermos bons negócios -somos superavitários com a maioria deles – mas também porque é assim – com diplomacia, equilíbrio e inteligência – que se constrói e mantêm uma posição de liderança. E, como vimos pelo acordo de Bali, assinado por 159 nações, uma forte influência global, o que não é pouco.

A internet e a nacionalização dos bites

Mauro Santayana
(HD) – O Governo Federal, através do Ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, insiste em incluir no Marco Civil da Internet, em votação no Congresso, a obrigatoriedade de instalação no Brasil de bases de dados locais, por parte de empresas como o Google ou o Facebook.
O pior é que, diante da argumentação de que a instalação dessa infraestrutura incorreria em altos investimentos por parte das empresas, acena-se com o estabelecimento de “compensações” na forma de financiamento subsidiado, ou de isenção de impostos, para alcançar esse objetivo.
Como já afirmamos antes, quando se colocou a questão, a medida é inócua e ingênua. Primeiro, porque cabe ao usuário brasileiro escolher se quer ou não se cadastrar em um site, independente da localização de seus dados pessoais. Trata-se de uma questão de marketing. As empresas estrangeiras atraem  usuários brasileiros, e vão continuar a fazê-lo, queira o governo, ou não.
A alternativa seria tomar medidas ditatoriais, bloqueando o acesso de brasileiros a esses sites, com a instalação de filtros – que mesmo assim poderiam ser contornados com a utilização de proxys ou VPNs – que impedissem o acesso direto de milhões de pessoas a esses sites e portais.
EMPRESAS NACIONAIS
A única forma que o governo tem de impedir o envio voluntário de dados de cidadãos brasileiros ao exterior – e isso é um trabalho de longo prazo – seria incentivar a criação de empresas nacionais, sujeitas à legislação brasileira, que viessem a concorrer com as empresas estrangeiras pela captação do público nacional.Ou, acessoriamente, oferecer serviços correlatos, a partir de empresas estatais, como o que se pretende fazer com o serviço de e-mail dos correios.
O que equivaleria a enxugar gelo, já que o mercado de redes sociais, sites de jogos, de hospedagem de dados na “nuvem”, e de comunicadores instantâneos é extremamente dinâmico.
As empresas que hoje, fazem sucesso na internet, amanhã não fazem mais. Quem se lembra do AOL, por exemplo?
Todos os dias surgem novos aplicativos, novos negócios, novas atrações na internet. Se uma delas se tornar popular, e em semanas, conquistar milhares de usuários brasileiros, como obrigar a empresa a instalar, a toque de caixa, datacenters no Brasil, e a transferir para cá os dados – já recolhidos – desse grande número de internautas nacionais?
PAULO BERNARDO
O senhor Paulo Bernardo tem sido pródigo na sua relação com as empresas de telecomunicações nos últimos anos, principalmente multinacionais. É preciso evitar que o Marco Civil não crie aparentes dificuldades, para servir como desculpa para o oferecimento de um novo cardápio de “facilidades” para as operadoras e empresas estrangeiras.

Elas já dominam, amplamente, o mercado brasileiro, e transferem todos os anos – apesar da ajuda do governo – vultosas remessas de lucros, da ordem de bilhões de dólares, para o exterior.

Os cortes na defesa

Mauro Santayana
(JB) – O novo corte no orçamento do Ministério da Defesa, de quase um bilhão de reais, anunciado há uma semana pelos ministros do Planejamento, Miriam Belchior, e da Fazenda, Guido Mantega – que também teve seu orçamento amputado em 900 milhões – tem que ser visto com muito cuidado pelo governo.
É preciso assegurar que projetos prioritários não venham a ser atingidos, sob pena de interrupção e atraso em áreas estratégicas para a evolução da  indústria bélica e o desenvolvimento tecnológico nacional. Esse é o caso do jato militar de transporte KC-390, da Embraer, com capacidade de 23,6 toneladas de carga (tanques, artilharia), e que serve também para o transporte de tropas e reabastecimento em vôo, que deve decolar pela primeira vez no ano que vem. Destinado a concorrer com os Hercules C-130 da Lockheed norte-americana, do programa do KC-390 tomam parte também Argentina, Colômbia, Chile, Portugal e República Tcheca, que deverão fornecer peças, e adquirir a aeronave, em um número inicialmente previsto de 60 aviões.
O Prosub – Programa de Submarinos da Marinha – também não pode ser interrompido. São quatro unidades convencionais, e uma atômica – o reator nuclear será desenvolvido aqui mesmo – mais a construção de uma base e de um estaleiro no Rio de Janeiro.
Temos, ainda, o Sisfron – o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, que exige também o desenvolvimento de vários equipamentos, como novos radares, unidades de artilharia e veículos aéreos não tripulados (vants); a família de blindados leves Guarani, e o programa de defesa cibernética.
GOLPISTAS DE SEMPRE
O país passou anos sem investir em defesa. O  Governo estabeleceu, nos últimos anos, um novo projeto para o setor, com um arcabouço mais estruturado, e criou a figura da empresa estratégica de defesa – certificando 26 delas, na semana passada. Interromper os programas que já estão em andamento traria prejuízo financeiro, técnico e estratégico para o país.
No Congresso Nacional, há deputados da base aliada e do próprio partido do governo que estão trabalhando para reverter a situação, que prevê cortes no custeio das Forças Armadas, já debilitadas em diversas áreas. A Marinha está estudando cortar um dia de trabalho da tropa para se adequar.
Enquanto isso, os golpistas de sempre – que desprezam igualmente o PT e o PSDB, e a “democracia que aí está” – comemoram, na internet, mais essa bandeira, dada pelo próprio governo, e se valem do anúncio dos cortes para provocar grupos radicais de direita – alguns deles ligados a segmentos minoritários da reserva das Forças Armadas – jogando-os, mais uma vez, contra o poder civil.

Os EUA e a conta da espionagem da NSA

Mauro Santayana
(HD) – As revelações feitas pelo ex-analista de informações da NSA, Edward Snowden, sobre o monitoramento pelas agências de espionagem norte-americanas, de empresas e governos estrangeiros, e a quebra da privacidade e do sigilo na internet de milhões de cidadãos de todo o mundo, não teve repercussão apenas nos meios políticos e estratégicos.

Empresários que trabalham com grandes grupos e empresas na internet têm manifestado sua insatisfação com o comportamento dos Estados Unidos e as consequências, para os seus negócios, da crescente desconfiança dos consumidores com tudo o que cerca o universo da Tecnologia da Informação.

Na semana passada, na Inglaterra, Mark Zuckenberg tocou no assunto no programa semanal da emissora inglesa de televisão BBC –  “The Week”. “O governo – norte-americano – estragou tudo com esse problema da espionagem” – afirmou o fundador e principal executivo do Facebook.

No dia 12 de novembro, executivos da Microsoft, do Google e do próprio Facebook, em audiência no Parlamento Europeu, negaram a existência de “portas traseiras” em seus sistemas, e o acesso automático, por parte de agências norte-americanas de espionagem, a seus bancos de dados, no contexto do programa PRISM (prisma) de espionagem.

Em muitos países, os governos estão recomendando que seus cidadãos encerrem suas contas em empresas norte-americanas de internet.

TRANSPARÊNCIA
Em junho, por exemplo, a Ministra Iris Varela, ligada à área de segurança da Venezuela, já havia pedido que os internautas daquele país parassem de usar o Facebook.

No mês seguinte, 63 empresas norte-americanas pediram, em carta dirigida ao governo, maior transparência nos pedidos judiciais de informação feitos pela NSA, com a divulgação do número de pedidos e do tipo de informação requerida.
Assinaram a carta, entre outras, o Facebook, a Microsoft, a Apple, Dropbox, Yahoo, Mozilla, Linkedin, Meetup, Reddit, Tumbr e a Cisco.

O principal executivo da Cisco, John Chambers, afirmou, no dia 17 de novembro, que a demanda pelos produtos e serviços da companhia diminuiu depois das denúncias, principalmente em mercados emergentes, como a China, o México e a Índia, onde caiu 18%. A perspectiva de problemas relacionados ao escândalo de espionagem fez com que as ações da Cisco caíssem também em 10%.

Tudo isso explica porque a Information Technology & Innovation FoundationFundação para a Informação Tecnológica e a Inovação, financiada, está prevendo, em  recente relatório, que a espionagem do governo norte-americano no exterior poderá custar às empresas norte-americanas da área de internet a bagatela de 35 bilhões de dólares nos próximos dois anos, em novos negócios, devido a dúvidas sobre a segurança de informação de seus sistemas.

Cultivar a arrogância e flertar com a onipotência tem um preço, que o governo norte-americano, mais cedo ou mais tarde – direta ou indiretamente – terá que pagar.

EL CAVALO DE TRÓIA

Mauro Santayana
(JB) – O lançamento, na semana passada, da seção em português da edição de internet do jornal espanhol El Pais, elucida e ilustra, com clareza, a visão neocolonial e rasteira que continua dominando o comportamento dos espanhóis com relação ao Brasil — apesar da condição de crise e de extrema fragilidade que caracteriza a Espanha neste momento.
Sem entrar nos detalhes do regabofe promovido pelo Grupo Prisa em São Paulo, vale a pena analisar o fato, e o que se pode ler nas entrelinhas do evento e da publicação.
Controlado em pouco mais de 30% pela família Polanco, e com o restante do capital na mão de investidores e fundos internacionais — não espanhóis — o Grupo Prisa, que edita o El Pais, tem atravessado sucessivas crises nos últimos anos.
Em 2008, o valor de suas ações despencou 80%, o lucro diminuiu em 56%, foi preciso suspender o pagamento de dividendos aos acionistas e vender ativos imobiliários, entre os quais a própria sede do jornal El Pais, no valor de 300 milhões de euros, para fazer frente a compromissos.
Isso não impede, no entanto, que o Grupo Prisa seja conhecido tanto pelos altíssimos salários que paga aos seus executivos — Juan Luis Cebrian ganha mais de 1 milhão de euros por mês — quanto pelos problemas que tem com os sindicatos locais.
Os jornalistas do grupo têm ido às ruas protestar contra as frequentes ondas de demissões que varrem as redações de suas publicações e emissoras. A última, no mês passado, atingiu a revista ON Madrid.
CHEIO DE DÍVIDAS
Com uma dívida de mais de 3 bilhões de euros, o Prisa multiplicou por 6 suas perdas até setembro deste ano. El Pais perdeu 25% de sua circulação desde 2008. A circulação do diário esportivo AS caiu 23% e a do diário econômico Cinco Dias, quase 30%, e o faturamento em publicidade — segundo informa também o jornalista Pascual Serrano, na revista asturiana Atlántica XXI — diminuiu pela metade nos últimos anos.
Na mesma matéria, Serrano relata como coube a Javier Moreno — o mesmo executivo que veio lançar a seção em português do El Pais em São Paulo — em outubro do ano passado, explicar a seus jornalistas que o Grupo Prisa estava “arruinado”, para justificar a demissão de quase um terço do pessoal.
Isso não impediu, no entanto, Moreno de adotar um tom entre paternal e triunfalista no seu pequeno discurso na capital paulista, para um grupo de seletos convidados. O viés neocolonial fica claro quando ele se refere ao El Pais como um veículo, procurado por inúmeros “intelectuais, artistas e políticos” de nossa região, para “defender seus projetos e conectar suas inquietações com o resto do mundo ibero-americano”, e expõe o caráter intervencionista — considerando-se que se trata de uma publicação estrangeira — quando diz que o jornal estará ligado às “inquietações e batalhas — da sociedade brasileira — para consolidar seus avanços econômicos e sociais, e as liberdades democráticas”.
Dá a entender que a imprensa do Brasil não é livre, ou competente, na medida em que afirma que “centenas de milhares de brasileiros se informaram na edição América de El Pais, sobre as maciças manifestações de julho passado” — como se no Brasil houvesse censura ou necessidade de recorrermos a publicações estrangeiras para saber o que ocorre por aqui. E, finalmente, dispensou a modéstia quando se referiu “às expectativas que o projeto — de lançamento do El Pais Brasil — suscitou em amplos segmentos da sociedade brasileira”.
Pelo hábito se reconhece o monge. Como se pode ver pelas primeiras matérias, o El Pais está vindo ao Brasil para defender nossas minorias; lembrar que o presidente Peña Nieto está — segundo o FMI — se comportando melhor do que o Brasil, embora o México vá crescer menos da metade do que nós neste ano; que gastamos muito com nossos estádios na Copa; que não conseguimos reduzir a criminalidade; que temos o menor crescimento entre os países emergentes, etc, etc, etc .
ESPANHA ESTÁ MAL
A verdade sobre a Espanha dos dias de hoje não está no coquetel servido aos convidados em São Paulo, pago com o lucro auferido aqui mesmo no Brasil por empresas como a Vivo — devedora em mais de 1 bilhão de dólares do BNDES — ou do Grupo Indra, também espanhol, cuja publicidade já começa a aparecer na edição “brasileira” de El Pais.
A Espanha real está na ausência sutil — como um elefante, desses que o pai gosta de abater — do príncipe Felipe, que deveria ter vindo ao Brasil na mesma ocasião, para abrir um seminário econômico e participar do lançamento de El Pais.
Pouco antes da decolagem, foi localizada uma avaria em um flap do avião que deveria transportá-lo a São Paulo. Ao procurar o avião substituto, do mesmo modelo, descobriu-se que ele também estava em solo, sem condições de voar. Mecânicos tentaram, durante mais de sete horas, consertar o problema, sem conseguir, até que o infante e sua comitiva desistissem de fazer a viagem e voltassem para casa para desfazer a bagagem.
Por causa do problema do avião, em solo e sem manutenção como o próprio país, no lugar de sua majestosíssima presença, o príncipe teve de mandar, ao Brasil, uma mensagem em vídeo pela internet.
Tudo somado, pelo que se pode ver pelo lançamento de sua seção em português, o El Pais, apesar de, aparentemente, abrir espaço para comentaristas de diferentes tendências — até artigo do Lula já saiu na edição em português — continuará, agora na língua de Machado de Assis, fazendo o que sempre fez: defendendo e protegendo a cada vez mais combalida “Marca Espanha”; atuando como um Cavalo de Tróia dos interesses neoliberais e eurocêntricos em nosso continente; e das empresas espanholas — com milhares de reclamações de consumidores como o Santander e a Telefónica (do qual o próprio Grupo Prisa é acionista)— que atuam no Brasil.
Nesse contexto, o melhor negócio que os futuros leitores podem fazer é “comprar” a Espanha pelo que vale — altamente endividada e com um crescimento de menos 1,6% este ano, segundo o FMI — e vender pelo preço que o El Pais acha que vale. Com a imagem e o valor que vai tentar nos impingir.

OS CARROS E OS TANQUES

Mauro Santayana
(JB) – Segundo informações do governo, a balança comercial apresentou déficit de US$ 1,350 bilhão na quarta semana de novembro. Foram US$ 4,151 bilhões de exportações e US$ 5,501 bilhões em importações. No acumulado do ano, a balança apresenta um déficit de US$ 1.455 milhões.Os dados se explicam pela queda na  venda de produtos manufaturados, mas também pelo aumento das importações, com destaque para combustíveis e lubrificantes. Enquanto isso, piora a situação da Petrobras, com o adiamento, agora para esta semana, da discussão sobre a implantação de um sistema de reajuste automático de combustíveis, que ficou  para quinta-feira.

Em meados deste ano, a estatal tinha um prejuízo de 700 milhões de dólares por mês com a importação de combustíveis, que está sendo coberto com a venda de ativos. E o governo resiste a mudar essa situação, com receio de criar um novo indexador que poderia colocar em risco o controle da inflação.

Segundo a ANP, apesar do saldo negativo no comércio de gasolina com outros países, o país continua autossuficiente em óleo e derivados, já que as exportações de petróleo bruto compensam as importações de petróleo leve, e também da própria gasolina.

Mas isso não resolve o problema das trocas nacionais com o exterior. As exportações de manufaturados têm caído, não apenas pela questão cambial, mas também devido aos efeitos da crise internacional em outros países – principalmente da Europa e da América do Sul.

DIVISAS
Cada dólar economizado na compra de combustíveis no exterior, evita a necessidade de conseguir divisas para pagar essas importações, e melhora, em consequência, a situação da economia nacional.O atraso na construção das novas refinarias indica que não está próxima a solução desse problema. Se tudo der certo, a Abreu e Lima, em Pernambuco, com 280 mil barris de capacidade, ficará pronta em 2014. Mas o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro só entrará em produção em 2016, e as refinarias do Maranhão e do Ceará, apenas em 2017 e 2018.

Considerando-se a pressão da imprensa financeira internacional e das agências de rating sobre o Brasil, em temas como o cálculo da dívida interna, o balanço de pagamentos, e a questão fiscal, pode ser tarde demais.

Urge, portanto, buscar a substituição de combustíveis importados, por fontes nacionais, e se, possível, renováveis, para a frota de automóveis, que cresceu aceleradamente nos últimos anos.

ETANOL EXPORTADOEnquanto importamos gasolina, mandamos etanol para o exterior.vInformações do setor de açúcar e álcool dão conta de que as exportações desse combustível devem continuar consistentes neste segundo semestre, favorecidas pelo câmbio, com o dólar entre R$ 2,20 e R$ 2,30. No primeiro semestre, o Brasil exportou 710 milhões de litros de combustível para os EUA, com crescimento de mais de 100% ante o primeiro semestre do ano passado.

Um dos caminhos que eventualmente poderiam ser trilhados seria achar uma forma de subsidiar, marginalmente, a venda desse combustível no mercado interno, para que ele ficasse no Brasil, e se voltasse a investir no aumento da produção. É mais barato, para o país, gastar reais para aumentar a oferta de álcool nacional, do que arranjar dólares para trazer gasolina do exterior.

Outra solução seria investir em maior eficiência energética, e em outras fontes renováveis de origem nacional. Na semana passada, o executivo brasileiro Carlos Ghosn, presidente mundial do grupo Renault-Nissan, criticou publicamente a demora nas negociações sobre a criação de uma política de incentivo para carros híbridos e elétricos no Brasil.

Já que não dá para aumentar a produção de combustíveis de um dia para o outro, é preciso fazer com que os carros rodem mais quilômetros com menos combustíveis fósseis, ou possam, eventualmente, deles prescindir.

Em declarações para mais de uma centena de jornalistas de todo o mundo no Salão Internacional de Tóquio, Ghosn declarou que há “falta de interesse” do governo brasileiro para resolver a questão. Para ele, apesar das declarações e da alusão à necessidade de menor emissão de poluentes, não se cogita investir em uma rede de recarga de veículos ou mobilizar o consumidor para o uso de carros elétricos.

O que ocorre com a frota particular de automóveis também se estende para o transporte público de passageiros. Nos programas de mobilidade estabelecidos para a Copa do Mundo, não se programou o uso de ônibus movidos a gás ou a etanol, quando isso já é comum em outras cidades do mundo, e a tecnologia está amplamente disponível.
Nem a adoção, ainda que experimental, de ônibus a hidrogênio, como os desenvolvidos pela COPPE do Rio de Janeiro.

POLÍTICASeria recomendável pensar sinergicamente nessa questão, analisando todas as alternativas, para estabelecer uma política nacional de combustíveis que leve em consideração as características de cada região. Só assim poderemos começar a nos livrar da dependência estrangeira e da ameaça de maiores déficits comerciais nos próximos anos.

O VILÃO NA PLATEIA

Mauro Santayana

(HD) – Espera-se que a virtual conclusão do processo da Ação – 470 sirva, ao menos, para abrir caminho para a investigação e apuração de outros casos, mais antigos ou mais recentes, de todos os tipos, lugares e tamanhos, que estão à espera de serem investigados e julgados pela justiça.

Em vez de se transformarem em espetáculo, a freqüentar de forma quase monocórdica as páginas da grande imprensa, seria melhor, para o país, que a apuração e o julgamento desses crimes se despisse do caráter de reality show que tem adquirido em certos casos, para se transformar em coisa banal e corriqueira.
Mais em uma regra do que na exceção,  superdimensionada e midiática, a que temos assistido nos últimos meses.
Primeiro porque, os tribunais, em geral se cuidam. Não desejam se transformar em palanque para quem quer que seja. Noblesse oblige – a lógica faz com que se espere deles tanto mais equilíbrio, dignidade e rito, quanto mais alta for a instância que representem.
Em segundo lugar, porque o combate à corrupção deve ser feito respeitando-se as regras constitucionais, e a essência institucional do Estado de Direito.
Dar à população, por meio de certas instituições – e de parcela da imprensa – a impressão de que a Nação é uma República de Bandidos, absolutamente inviável, do ponto de vista moral ou administrativo, não ajuda, a médio e longo prazo, a nenhum partido ou homem público, seja qual for sua orientação política ou o lado que ocupa da balança.
Toda campanha que substitui a informação pelo ódio e a ignorância, nivela, por baixo, a todos, sejam eles gregos ou troianos. Trata-se de uma faca de dois gumes, que só fortalece aos que se apóiam em sua frustração, individual ou coletiva, para pregarem a violência e a derrubada das instituições.
Os nazistas da pequena burguesia não esclarecida e do lúmpem proletariado, também enfiavam todos os “políticos” no mesmo saco. Desprezavam a República de Weimar e a democracia. Invadiam restaurantes para hostilizar deputados em que haviam votado antes, ou espancar aqueles a quem não haviam dado seu voto.
Depois, quando acabaram com as eleições e com quem defendia a democracia, mandando-os para o cemitério ou a cadeia, passaram para a pura e simples aclamação de seu líder – levantando, com sonoros Heil Hitler!   sua mão para cima – e para o covarde genocídio de seus outros inimigos, aos milhões, em campos de extermínio.

CORRUPÇÃO
A lei existe. Basta que se cumpra, com determinação e equilíbrio, para que se combata a corrupção no Brasil. Para que se melhore o país, não é preciso acabar com o voto obrigatório, com as urnas eletrônicas, com o Congresso, com a democracia, ou com os “políticos”, como já tem gente – fascinada pela teatralização do óbvio – defendendo, por aí, abertamente.
Vamos, todos, devagar com o espetáculo. É preciso tomar cuidado. Às vezes, o vilão se esconde na platéia.

O BRASIL, OS EUA E A ESPIONAGEM ELETRÔNICA – O JOGO CONTINUA.

Mauro Santayana
(JB) – Como o jogador de xadrez que usa todo o terbelho em busca de uma simplificação positiva que possa levá-lo a fortalecer-se na finalização, o Brasil parece ter se recuperado da divulgação das ações de espionagem da ABIN de há 10 anos, e avança, com paciência e determinação, na batalha que move contra os EUA e seus aliados na espionagem eletrônica, no âmbito da internet.
Três movimentos foram executados nesse sentido.
O primeiro tem o objetivo de atrair o adversário para o interior de nossas linhas.
Os dois outros correspondem ao deslocamento de nossos bispos para os flancos, com a visita do Chanceler Luiz Alberto Figueiredo, ontem, a Moscou e a presença do Ministro da Defesa, Celso Amorim, na terça-feira, em Buenos Aires.
Os Estados Unidos foram formalmente convidados pelo Governo Brasileiro, para a Conferência que será realizada em abril de 2014, em São Paulo, da qual participarão vários países e instituições internacionais, para discutir uma nova governança para a internet.
Chamando os EUA, o Brasil que dar a entender que a reunião não se fará “contra” os Estados Unidos. Mas está claro que Washington será o principal alvo dos países participantes do encontro.
Em Moscou, o Chanceler Luiz Alberto Figueiredo reuniu-se com seu homólogo russo, Serguei Lavrov, para tratar também do tema – a Rússia também foi convidada – em, em declarações conjuntas, os dois países manifestaram sua preocupação com a quebra de sigilo rotineiramente praticada pelas agências de espionagem norte-americanas.
Simultaneamente, Celso Amorim reuniu-se em Buenos Aires com o Ministro da Defesa argentino, Agustin Rossi, para o estabelecimento de um Acordo Bilateral de Defesa Cibernética.
Rossi pretende visitar pessoalmente o Centro de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército, em Brasília. Militares argentinos serão também enviados ao Brasil, e técnicos brasileiros farão apresentações sobre o tema, no Instituto Universitário do Exército Argentino, em Buenos Aires.
Amorim afirmou que o assunto deve ser tratado na próxima reunião do Conselho de Defesa da América do Sul, e o Ministro da Defesa argentino ressaltou a necessidade dos países da UNASUL – União das Nações Sul-americanas, estabelecerem uma estratégia comum e conjunta de Defesa na área cibernética.
No dia primeiro de novembro, Brasil e Alemanha já haviam apresentado na ONU, iniciativa voltada para a criação de nova arquitetura de controle da internet.
Brasil e Rússia também abordaram o tema na reunião de Moscou, e o Ministro das Relações Exteriores russo reafirmou o apoio de seu país ao projeto teuto-brasileiro.
Segundo Figueiredo, os Estados Unidos estão tentando frear a iniciativa apresentada por Berlim e Brasília. A intenção é modificar o texto do projeto de forma a que cada nação tivesse a responsabilidade de assegurar o direito ao sigilo das comunicações apenas de seus próprios cidadãos.
Dessa forma, as agências de espionagem norte-americanas continuariam livres para vigiar e invadir comunicações eletrônicas de qualquer pessoa, fora dos Estados Unidos.

Assalto na Copa

Mauro Santayana
(HD) – A revelação de que há hotéis que pretendem aumentar, em mil por cento, o preço da diária no Rio de Janeiro durante a Copa, e que pousadas vão cobrar, no mesmo período, mil reais por dia por pessoa em quarto duplo sem banheiro, é de estarrecer.
Isso, não apenas porque se configura aí um crime de virtual estelionato, mas também porque depõe contra a organização do país – e o caráter do povo brasileiro – em um evento de importância mundial.
Se a isso somarmos outros problemas dá para ver que o turista, durante a Copa, corre o risco de ser visto, como já acontece em datas como o carnaval, como uma espécie de “Peru de Natal”. No Rio, continuam os problemas com os táxis nos aeroportos, e mesmo com a tabela, tem “motorista” que tenta enganar o passageiro.
Quem quiser passar o fim de ano no Rio e quiser reservar um táxi para busca-lo no aeroporto, descobrirá que há empresas cobrando entre 150,00 e 300,00 reais por uma corrida durante o réveillon.
É a mesma situação dos turistas de cruzeiro, que eventualmente chegam a pagar o dobro do preço normal, quando não mais, para ir do cais do porto para o centro da cidade.
Cartilhas como as que já foram feitas para alertar os turistas são válidas, mas não resolvem o problema. Seria, talvez, a solução,  acabar com as frotas de táxi de um único dono, para que os motoristas de táxi ganhem mais, e aumentar a fiscalização.
O Governo Federal e a Prefeitura tem a obrigação de fiscalizar o que está acontecendo, ou, pelo menos, de criar condições para que esse virtual assalto não ocorra. Uma delas poderia ser cadastrar os voluntários que vão trabalhar na Copa do Mundo – principalmente os que falam língua estrangeira – em sites nos quais eles pudessem oferecer, antecipadamente, transporte e hospedagem, em suas próprias casas, para os turistas que vem de outras cidades ou do exterior.
Até porque o tiro pode sair pela culatra. Hotéis, que fizeram o mesmo, em São Paulo, na região da Avenida Paulista na época da Copa das Confederações, ficaram a ver navios por causa das manifestações de julho.
Se os hoteleiros do Rio de Janeiro – muitos deles estrangeiros – fizerem o mesmo correrão o risco de perder seus clientes normais, e os que viriam de fora – apesar dos depósitos antecipados exigidos no momento da a reserva.
Na área de transporte aéreo, o governo ameaça abrir espaço para empresas de aviação estrangeira durante a Copa, para evitar o abuso que se avizinha, com o aumento exorbitante das passagens dentro do país.
A verdade é que, no turismo receptivo, na hospedagem, na aviação, tudo isso acaba cheirando, para quem vem de fora, a desorganização e improvisação.

Se não houver uma mudança cultural na forma de se ver o turista e o turismo – e não apenas no Rio de Janeiro – estaremos ajudando quem aposta na piora da imagem do Brasil nos mercados internacionais, para prejudicar o País.