Crime de Lesa-Pátria: Petrobras pode vender o controle da BR

Petrobras tem de ser impedida de vender seus melhores ativos

Mauro Santayana

O Valor Econômico informa na primeira página que a BR Distribuidora só interessa aos ”investidores” se a Petrobras entregar o seu controle aos eventuais compradores da empresa. Vender a BR Distribuidora, mesmo que sem o repasse do controle, já equivaleria a um crime, neste momento em que a Petrobras, por não poder lucrar o que deveria com a exploração do óleo bruto, precisa ganhar em cada etapa da cadeia de produção e comercialização para fazer frente aos seus parciais e seletivos detratores-sabotadores e provar que tem capacidade, determinação e talento de sobra para fazer frente ao endividamento advindo, também,  da brutal queda do valor do petróleo no mercado internacional.

É preciso prestar atenção aos números – quase nunca divulgados, em sua totalidade, pela imprensa brasileira.

Embora tenha declarado um prejuízo de 34 bilhões de reais no ano passado, a Petrobras, graças também ao dinheiro conseguido há poucas semanas com nossos parceiros do BRICS, os chineses, conta, neste momento, com a bagatela de 100 bilhões de reais em caixa.

Nessas condições, repassar ativos a toque de caixa só se justifica se eles estiverem no exterior e forem vendidos para se investir o dinheiro auferido dentro do Brasil, um dos maiores mercados de combustível do mundo.

A PREÇO DE BANANA

Esta é uma nação em que os gringos estão querendo botar o pé de qualquer jeito, de preferência alardeando aos quatro ventos a crise, a incompetência do governo, a quebradeira do país, com o objetivo de levar tudo a preço de banana, esquartejando e enfraquecendo institucionalmente a Petrobras para degluti-la aos nacos, como um nauseabundo bando de hienas, ajudado pelos vermes entreguistas e antinacionais de sempre, miseravelmente a postos para servir, sempre que ouvirem o som do assovio, ou o do estalar de dedos, com denodo e abjeção, aos seus patrões de fora.

SEM COMPROMISSO

Como parte da diretoria parece não ter o menor compromisso com a empresa, com impeachment ou sem impeachment, só os petroleiros, começando pela BR, podem impedir que isso ocorra, cerrando fileiras e usando todo e qualquer meio, seja neste governo, ou naquele que venha eventualmente a sucedê-lo, para preservar, forte e unida, a Petrobras, como poderoso instrumento estratégico para o fortalecimento do país e o desenvolvimento nacional nas próximas décadas.

 

Organização Globo defende os juros altos para se beneficiar

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Charge do Ivan Cabral, reprodução da Charge Online

Mauro Santayana

Balanço da Rede Globo, divulgado nesta semana, dá conta de que, embora seu faturamento com publicidade de TV aberta tenha caído no ano passado, o lucro foi de mais de 3 bilhões de reais, graças  principalmente ao rendimento de juros de aplicações financeiras.

Que fique, então, bem claro, o motivo por que, quando os apresentadores de seus telejornais reclamam da queda da taxa Selic ou do fato de este índice não ter subido na reunião do Copom (Banco Central), pondo a culpa na pressão e na “interferência” do governo, ou chamam, com frequência, “analistas” para defender, em entrevistas, a autonomia do Banco Central, eles não o fazem porque estão preocupados com os espetaculares espectadores que a assistem.

A maioria dos telespectadores não tem dinheiro para aplicar no mercado financeiro, embora eles paguem indiretamente (via governo) altíssimos juros com os seus impostos. Portanto, os apresentadores da Globo estão simplesmente agindo em defesa dos interesses e das aplicações da própria empresa, OK???

A “régua” do jogo legalizado no Brasil

Apertem os cintos, a máfia dos cassinos de Las Vegas vem aí

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

Discretamente, sem muito barulho por parte da imprensa, o país se prepara para decidir, quase que na surdina, o futuro de um negócio de dezenas de bilhões de dólares, que tende, se nada for feito, a ser entregue, de mão beijada, para os estrangeiros. Na comissão que “estuda” o tema na Câmara dos Deputados, parlamentares, como na fábula das galinhas, estão convocando “raposas”, representadas por advogados e “executivos” estrangeiros ligados a empresas que substituíram a máfia em Las Vegas, para prestar, “desinteressadamente”, em benefício do “desenvolvimento” da indústria brasileira de “entretenimento” e de “turismo”, “conselhos” e “informações” para o estabelecimento de um Marco Regulatório do Jogo no Brasil.

Uma atividade que, caso fique em mãos particulares, esses mesmos “conselheiros” serão os primeiros a explorar, enviando para o exterior bilhões de dólares em ganhos, subtraídos dos bolsos de milhares de “otários” nacionais.

Ora, como no caso dos bingos, explorados na época do governo FHC, em São Paulo, pela máfia corsa, cujos membros não tinham a menor preocupação em se esconder, arrogantes, vestidos como lordes, à porta de luxuosos flats, antes de sair para comandar dezenas de estabelecimentos desse tipo e centenas de funcionários brasileiros, não se discute que, no Brasil, a regulamentação do jogo poderia, potencialmente, criar muitos empregos.

ATIVIDADES PARALELAS

O que preocupa é na mão de quem será entregue esse fabuloso negócio, e como se evitará – no caso de que estrangeiros fiquem com o controle do setor – a prática de atividades paralelas como a venda de drogas e a exploração de prostituição (qualquer um que já tenha ido a Las Vegas sabe que há muito mais que dados, cartas ou caça-níqueis rolando nos cassinos da cidade) e, principalmente, como se evitará a corrupção de autoridades e políticos, dentro e fora do Congresso, começando, naturalmente, pelo próprio processo de estabelecimento dessa nova legislação.

Como serão estabelecidos esses parâmetros, com que régua serão medidas as vantagens e as desvantagens da legalização dessa atividade?

Com a nossa régua, que deve, ou deveria, calcular, apontar, para a busca do máximo de benefícios para a população brasileira, ou a régua dos gringos, dos pseudo “investidores” estrangeiros, que já estão influindo na comissão antes mesmo que se inicie o processo de discussão mais ampla com a sociedade?

CAIXA ECONÔMICA

Considerando-se que a Caixa Econômica Federal já cuida de loterias, o caminho mais lógico, natural, seria que a ela fosse entregue a administração e o controle dos outros jogos de azar no Brasil.

Segundo maior banco público do país, com lastro de centenas de milhões de reais em ativos, ninguém melhor do que a CEF para obter, dentro ou fora do país, os recursos para os investimentos que se fizerem necessários, dinheiro esse que raramente falta quando se trata desse tipo de negócio.

Funcionários do próprio banco poderiam ser aproveitados, ou ser contratados, por meio de concurso, entre trabalhadores que já tivessem eventualmente experiência na indústria de turismo, e, se necessário, treinados por técnicos vindos de fora, facilitando, por tratar-se de empresa pública, a necessária, imprescindível, fiscalização, de dentro para fora, da atividade.

PRESENÇA DO ESTADO

Há também outras áreas, como o garimpo ilegal de ouro e de diamantes, em que apenas a presença do Estado – também eventualmente, por meio da Caixa Econômica e do Exército – poderia impedir o esbulho do patrimônio da União, que tem por donos todos os brasileiros, prevenindo e reprimindo o roubo das riquezas nacionais e disciplinando e regulando a sua exploração.

A esculhambação nesse contexto é tão grande, que em novembro do ano passado a Polícia Federal teve de intervir no Mato Grosso, por meio da operação “Corrida do Ouro”, para prender policiais civis que haviam se assenhoreado, a ponta de revólver, da exploração de um garimpo ilegal na Serra da Borda, em Pontes e Lacerda, para extorquir dos garimpeiros não apenas sua obrigatória parte do ouro, mas também monopolizar todo e qualquer tipo de comércio, incluindo o de bebidas, alimentos, insumos e equipamentos e a prostituição.

(artigo enviado pelo comentarista Wilson Baptista Jr.)

De mastins e de poodles, na política internacional

A estatal ChemChina quer comprar a suíça Syngenta

Mauro Santayana

No day after da aprovação pelo Senado de proposta que muda as regras do pré-sal, abrindo caminho para leilões de novos campos de petróleo e para a aprovação pela Câmara de projeto ainda mais vergonhoso, que prevê o fim do regime de partilha e a volta ao regime de concessão que vigia até 2010, estabelecido nos “fantásticos” tempos de FHC, autoridades norte-americanas movem mundos e fundos para impedir a compra, pela poderosa estatal chinesa ChemChina, da multinacional química Syngenta, por 44 bilhões de dólares.

Embora de origem suíça, a Syngenta tem forte presença no mercado agrícola norte-americano, onde está cotada em bolsa e conta com acionistas como o Bank of America e o fundo de investimentos Blackrock.

Com essa atitude, os EUA querem também evitar que Pequim reforce sua posição na área de transgênicos prejudicando direta e indiretamente grandes empresas norte-americanas do setor, como a Monsanto – ao contrário do que ocorre no Brasil, os chineses tratam as multinacionais de sementes e defensivos agrícolas estrangeiras com rigor e são extremamente cuidadosos na liberação da venda de seus venenos e organismos geneticamente modificados em seu território, um dos maiores mercados do mundo.

ARREGANHAM OS CANINOS    

A pseudo “massa” ignara, abjeta, fútil e fascista, que pulula pela internet e pela mídia conservadora brasileira, deveria aproveitar o seu pegajoso pró-norte-americanismo para aprender a diferença entre os EUA – e outros países com P maiúsculo na administração de seus interesses – e o Brasil.

Por lá, quando se trata da entrega de setores ou mercados estratégicos para potências concorrentes, os mastins nacionalistas dos Estados Unidos ladram e rugem – mesmo quando não se trata de empresas 100% norte-americanas – e arreganham os caninos, enquanto, por aqui, nossos delicados poodles entreguistas antinacionais fazem festa para os gringos, e balançam, arfantes e em êxtase, os rabinhos.

Brasil já é um dos 10 países mais importantes do FMI

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

Discretamente, com exceção da blogosfera – o maior jornal econômico do país deu a notícia em uma página interna do terceiro caderno, com uma nota de canto de rodapé de uma coluna por menos de 8 centímetros de altura – o Brasil está aumentando suas quotas – logo, o seu poder– no Fundo Monetário Internacional, segundo informou, na semana passada, a instituição, que finalmente concluiu uma reforma destinada a dar a cada país uma posição um pouco mais congruente com o seu peso na economia mundial.

Para tristeza dos saudosistas do tempo em que as missões do FMI eram frequentes, seus técnicos mandavam e desmandavam no governo e eram recebidos aqui como vice-reis – devíamos no final do governo FHC 40 bilhões de dólares ao Fundo – faremos parte, a partir deste ano, do clube que reúne as 10 maiores economias do Fundo Monetário Internacional. Nós e a China, a Rússia e a Índia, nossos parceiros no Banco dos BRICS, além dos EUA, da Alemanha, do Reino Unido, da França, da Itália e do Japão.

TERCEIRO MAIOR CREDOR

Enquanto isso, nunca é demais lembrar, apesar da conversa fiada no espaço de comentários da internet e na primeira página da maioria dos jornais e revistas, nosso país continua a ser, também, o terceiro maior credor individual externo dos EUA, com 264 bilhões de dólares – mais de um trilhão de reais – emprestados ao Tio Sam, como se pode ver na última edição da página oficial do Tesouro dos Estados Unidos, no “link” http://ticdata.treasury.gov/Publish/mfh.txt

A oposição e os “salvadores da pátria”

Mauro Santayana

As divulgação de “acusações” de delatores “premiados” contra os senadores Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Fernando Collor e Aécio Neves vêm corroborar o que afirmamos recentemente em “O impeachment, a antipolítica e a judicialização do Estado”.

A criminalização da política, na tentativa e na pressa de retirar o PT do Palácio do Planalto por outros meios que não os eleitorais, iria descambar para a condenação, paulatina, geral e irrestrita, da atividade como um todo.

Esse é um processo que parece estar focado, além de, principalmente, no PT, também nos partidos ou candidatos que possam fazer sombra, no campo adversário ao do governo, ao projeto messiânico de um “novo Brasil” que está sendo engendrado à sombra da ambição e do deslumbramento das forças surgidas da “guerra contra a corrupção” e da “Operação Lava-Jato”.

O CAÇADOR DE MARAJÁS

A recente entrevista com o procurador Deltan Dalagnoll, na primeira página do Correio Braziliense e a capa da retrospectiva de Veja, com a cara fechada do Juiz Sérgio Moro, com o título de “Ele salvou o ano” (a segunda, se não nos enganamos) que – será por mera coincidência? – lembra a capa da mesma revista com o rosto de Fernando Collor, com o título de “O caçador de Marajás”, publicada muito antes de ele anunciar-se candidato a presidente da República – são emblemáticas do que pode vir a ocorrer – do ponto de vista midiático – nos próximos três anos.

Só os cegos, os surdos, ou os ingênuos, não estão entendendo para que lado começa a soprar – quase como brisa – o vento – ou melhor, para tocar que tipo de música está começando a se preparar a banda.

A revista “The Economist“ não vê o umbigo inglês

Ingleses protestam contra dívida pública nacional

Mauro Santayana

Como os abutres, que, nas planícies da África, avançam sobre a carniça quando as hienas se distraem, tem gente festejando a matéria The Economist sobre o Brasil, mostrando uma Dilma Rousseff cabisbaixa na capa. Como faz com qualquer país que não reze segundo a cartilha neoliberal anglo-saxã, do tipo “faça o que eu digo, não o que eu faço”, The Economist alerta que o Brasil enfrenta um “desastre político e econômico”, cita o rebaixamento do país pela Fitch e pela Standard and Poors, mas não diz que essas agências foram incapazes de prever a crise que se abateu sobre os EUA e a Europa, Inglaterra incluída, em 2008, a ponto de terem sido multadas por incompetência e por enganar investidores, e conclui criticando o déficit previsto para nosso país em 2014, sem citar – aliás, como faz a imprensa conservadora tupiniquim – as reservas internacionais brasileiras, de 370 bilhões de dólares, o equivalente a 1 trilhão, 480 bilhões de reais.

A imprensa britânica sempre se especializou em “ditar” – a palavra ideal seria outra – regras para países que considera subdesenvolvidos ou “emergentes”.

O seu “foco” no Brasil como alvo aumentou muito, no entanto, depois do episódio em que ultrapassamos, momentaneamente, a Grã-Bretanha como sexta maior economia do mundo em 2011. Vide, por exemplo, o caso do Financial Times, recentemente vendido – sob risco de quebra – para capitais japoneses no dia em que publicou um editorial contra o Brasil (ler “Os nossos Yes Bwana e os novos Hai Bwana do Financial Times”).

EM OUTRO PLANETA

Na hora de falar sobre o Brasil, os jornalistas ingleses agem como se vivessem em outro planeta ou a Inglaterra, economicamente, estivesse acima do bem e do mal.

Em vez de conversar fiado, os redatores da The Economist deveriam olhar para o seu próprio umbigo inglês.

Se a questão é de deterioração dos fundamentos macroeconômicos, a dívida pública bruta do Reino Unido (The Economist cita a dívida pública bruta brasileira, mas esquece, convenientemente, a líquida, que é de aproximadamente 35% do PIB) é tão bem administrada que mais que dobrou, de menos de 40% em 2002 para quase 90% do PIB em 2014.

Enquanto a brasileira diminuiu no mesmo período, de quase 80% do PIB, para menos de 70% em 2014.

RESERVAS INTERNACIONAIS

Quanto às reservas internacionais – uma das principais referências macro-econômicas para se verificar a solidez de uma economia – o Reino Unido também não fica bem na foto, na comparação com o Brasil.

Com uma economia praticamente empatada, em tamanho, com a nossa (nominalmente) as reservas de sua Majestade são de 154 bilhões de dólares, menos da metade das reservas, em dólares, do país a que os seus editores resolveram dedicar a sua primeira – e negativa – capa de 2016.

A oposição e os “salvadores da pátria”

Mauro Santayana

As divulgação de “acusações” de delatores “premiados” contra os senadores Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Fernando Collor e Aécio Neves vêm corroborar o que afirmamos recentemente em “O impeachment, a antipolítica e a judicialização do Estado”. A criminalização da política, na tentativa e na pressa de retirar o PT do Palácio do Planalto por outros meios que não os eleitorais, iria descambar para a condenação, paulatina, geral e irrestrita, da atividade como um todo.

Esse é um processo que parece estar focado, além de, principalmente, no PT, também nos partidos ou candidatos que possam fazer sombra, no campo adversário ao do governo, ao projeto messiânico de um “novo Brasil” que está sendo engendrado à sombra da ambição e do deslumbramento das forças surgidas da “guerra contra a corrupção” e da “Operação Lava-Jato”.

A entrevista da semana passada, com o procurador Deltan Dalagnoll, na primeira página do Correio Braziliense e a capa da retrospectiva de Veja, com a cara fechada do Juiz Sérgio Moro, com o título de “Ele salvou o ano” (a segunda, se não nos enganamos) que – será por mera coincidência? – lembra a capa da mesma revista com o rosto de Fernando Collor, com o título de “O caçador de Marajás”, publicada muito antes de ele anunciar-se candidato a presidente da República – são emblemáticas do que pode vir a ocorrer – do ponto de vista midiático – nos próximos três anos.

Só os cegos, os surdos, ou os ingênuos, não estão entendendo para que lado começa a soprar – quase como brisa – o vento – ou melhor, para tocar que tipo de música está começando a se preparar a banda.

Tesouro fala da dívida pública, mas não cita reservas internacionais

Mauro Santayana

O Tesouro Nacional anuncia, a Agência Brasil copia, e a imprensa espalha estrondosamente aos quatro ventos, que a dívida pública chegou a 2.716 trilhões em Novembro, aumentando pouco mais de 2% com relação ao Outubro.

Mas nem o Tesouro, nem a Agência Brasil, nem o Governo explicam que o Brasil tem quase 370 bilhões de dólares em reservas internacionais, ou o equivalente a 1.45 trilhões de reais, em dólares, guardados.

Se esse dado – assim como o relacionado à dívida líquida pública, de aproximadamente 35% do PIB – não é considerado relevante para o Palácio do Planalto, mesmo assim deveria ser divulgado, porque implica fortemente na real situação do país e nas expectativas econômicas e de investimento.

TEM VERGONHA?

Como brasileiros, pregando no deserto pela milionésima vez, seria o caso de nos perguntarmos: o governo federal tem vergonha das reservas internacionais do país, e da condição do Brasil de terceiro maior credor internacional externo dos EUA, ou é só – para não usar outra palavra mais forte – incompetência estratégica mesmo?

Recado dos EUA a seus capachos: “Façam o que dissermos, não o que fazemos.”

Mauro Santayana

Para os energúmenos que dizem que nos EUA o Estado não interfere na economia, uma notícia: só na semana passada foi aprovado pelo Congresso, em Washington, o fim da proibição da exportação de petróleo norte-americano, que perdurou por longos 40 anos. Por lá, existe uma lei de conteúdo local, o Buy American Act – que, como ocorre no caso da Petrobras, aqui seria tachada de “comunista” e “atrasada” pelos entreguistas – que, desde 1933, exige que o governo dê preferência à compra de produtos norte-americanos, e que foi complementada por outra, com o mesmo nome e objetivo, em 1983.

Na área de defesa, nem um parafuso pode ser comprado pelas forças armadas norte-americanas, se não for fabricado no país. E se a tecnologia ou o desenho pertencer a uma empresa estrangeira, ela é obrigada a se associar, minoritariamente, a um “sócio” norte-americano, para produzir, in loco, o produto.

Quem estiver duvidando, que pergunte à Embraer, que, para fornecer caças leves Super Tucano à Força Aérea dos EUA, teve que se associar à companhia norte-americana Sierra Nevada Corporation e montar uma fábrica na Flórida.

MANTRA DA PRIVATIZAÇÃO

No Brasil, a nova direita antinacionalista, grita, nas redes sociais, o mantra da privatização de tudo a qualquer preço. Citando, automaticamente, fora de qualquer contexto, os Estados Unidos, os hitlernautas tupiniquins não admitem que estatais existam nem que dêem eventuais prejuízos, ignorando que nos EUA – a que eles se referem, abjeta apaixonadamente, como se não vivêssemos no mesmo continente, como America – a presença do estado vai muito além de setores estratégicos como a defesa.

No nosso vizinho do Norte o transporte ferroviário de passageiros, por exemplo, é majoritariamente atendido por uma empresa estatal, a AMTRAK, que – sem ser incomodada ou atacada por isso – dá um prejuízo de cerca de um bilhão de dólares por ano, porque, nesse caso, o primeiro objetivo não pode ser o lucro, e, sim, o atendimento às necessidades da população, incluídas as camadas menos favorecidas.

A União Européia, que posa de liberal no comércio internacional, e cujos jornais econômicos – assim como o Wall Street Journal, dos EUA – adoram ficar (a palavra que queríamos usar é outra) – ditando regras para o governo brasileiro, acaba de postergar, até segunda ordem, o acordo de livre comércio com o Mercosul, mesmo depois da eleição de Fernando Macri, adversário de Cristina Kirchner, na Argentina.

SUBSÍDIOS EUROPEUS

Apesar da propaganda contrária por parte da imprensa brasileira, a culpa não foi do Brasil ou do Mercosul. Como previmos no post “O porrete e o vira-lata” os europeus roeram a corda porque, protecionistas como são, não querem eliminar seus subsídios ao campo nem abrir o mercado do Velho Continente aos nossos produtos agrícolas, nem mesmo em troca da assinatura de um acordo que pretendem cada vez mais leonino – para eles é claro – com a maioria dos países da América do Sul.

Se no plano econômico é assim, no contexto político a estória também não é muito diferente. Os bajuladores dos EUA entre nós acusam a Venezuela e a Argentina – onde a oposição venceu democraticamente as respectivas eleições há alguns dias – de ditaduras “bolivarianas”.

Mas não emitem um pio com relação a “democracias” apoiadas pelos EUA, como a Arábia Saudita – governada e controlada por uma família real com algumas centenas de membros.

Um reino que detêm um fundo, estatal e bilionário, que acaba de comprar 10% da terceira maior empresa de carnes brasileira, a Minerva Foods. E uma monarquia fundamentalista na qual as mulheres votaram pela primeira vez, apenas na semana passada.

Antiterrorismo no Brasil é apenas uma imbecilidade

Mauro Santayana

Na abertura de um recente – e bizarro – “Seminário Internacional de Enfrentamento ao Terrorismo no Brasil”, o Ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, afirmou que “não existem limites para a preocupação com o terrorismo nas Olimpíadas” e defendeu que o país “aceite a cooperação de órgãos de inteligência internacionais” para diminuir o risco nesse sentido.

No momento em que a Câmara recebe, de volta do Senado, uma “lei antiterrorista”, cabe discutir com cautela essa questão, sob a ótica da política exterior brasileira e da nossa relação com outras culturas e países no atual contexto geopolítico mundial.

Tem o Brasil, alguma razão para “combater” o terrorismo, para além da condenação moral – não apenas nas ruas de Paris, mas também de Bagdá, Damasco, Trípoli – de ataques contra a vida e da prestação de homenagem e solidariedade às suas vítimas?

A Rússia, nosso sócio no BRICS, foi levada a atacar o Estado Islâmico por questões geopolíticas, e agora transformou-se em vítima, com a explosão, no ar, de um avião carregado de seus cidadãos, no Egito. A Síria é um país onde ela possui portos e bases militares, e notáveis ligações históricas, no qual tenta manter seu aliado, Bashar Al Assad no poder, defendendo-o dos terroristas do Estado Islâmico, que foram armados pelos próprios EUA e o “Ocidente” para derrubar o regime sírio, e que, como um Frankenstein louco e sangrento, fugiu ao controle de seus criadores.

PAGANDO O ERRO…

Os EUA e a França estão pagando pelo erro de tentar agir como potências coloniais no Oriente Médio e no Norte da África, derrubando governos estáveis, como o de Saddam Hussein e o de Muammar Khadaffi, e de se meter em assuntos alheios.

Tem o Brasil interesses geopolíticos no Oriente Médio, região onde atua no Comando das Forças Navais da ONU no Líbano? Não, a não ser – assim como faz no Haiti – como cumpridor de um mandato das Nações Unidas.

O Brasil já se meteu, alguma vez, em assuntos alheios, invadindo ou bombardeando países no Oriente Médio ou no Norte da África? Não, porque, pelo menos até agora, protegidos pela sábia doutrina de não intervenção consubstanciada no texto da Constituição Federal, como macacos velhos que somos – ou éramos, ao que está parecendo – não metemos a mão em cumbuca, a não ser que sejamos atacados primeiro, como o fomos na Segunda Guerra Mundial.

Quanto à segurança interna, a diferença entre terrorismo, assassinato ou tentativa de homicídio é puramente semântica.

NÃO FAZ DIFERENÇA

Para quem morre, não tem a menor diferença a motivação de quem o está atingindo. Já existe legislação penal, no Brasil, de proteção à vida. O resto é “lero-lero”, para emular potências estrangeiras e se submeter aos gringos. Um perigosíssimo “lero-lero”, do qual toma parte a realização, em território brasileiro, de “seminários” como esse, que nos obrigam a situarmo-nos de um determinado lado da linha. E, também, naturalmente, a crescente “cooperação” com forças policiais estrangeiras, que pode ser feita, normalmente, para segurança de eventos internacionais desse tipo, sem a conotação política, “antiterrorista”, que estão tentando impingir-nos.

Uma coisa é dizer que vamos reforçar a segurança nas Olimpíadas. Nada mais natural, considerando-se que teremos multidões reunidas em estádios – coisa que acontece rotineiramente em grandes jogos de futebol, por exemplo – e que estaremos recebendo visitantes estrangeiros. Outra, muito diferente, é afirmar que estaremos tomando “medidas antiterroristas” e adotar um discurso, e uma atitude, que nunca adotamos antes, nesse contexto.

POSTURA TRADICIONAL

Querem mudar uma postura tradicional – compartilhada por governos de diferentes matizes ideológicos – que não nos trouxe, muito pelo contrário, nenhuma consequência negativa, até agora.

Quem fala muito acaba dando bom dia a cavalo. De tanto se referir ao “antiterrorismo”, e ficar cutucando com essa bobagem quem está quieto, algum grupo de terroristas, pode, sim – mesmo sem ter visto o Brasil como inimigo até este momento – vir a se sentir tentado a testar a eficácia das medidas de “segurança” às quais estamos nos referindo a todo instante, com relação às Olimpíadas.

E isso, principalmente, se nessas “medidas” dermos muito espaço para equipes de segurança estrangeiras – de países considerados alvos – para agirem em nosso território como se estivessem no deles.

Ou se adotarmos – cão que muito ladra não morde – uma atitude “antiterrorista” que seja arrogante e ostensiva contra cidadãos de alguns países, árabes, por exemplo, na chegada aos nossos aeroportos, ou em nossas ruas, como já o estamos fazendo.

SOMOS SUBSERVIENTES

No mundo, há poucos países tão subservientes em sua vontade de copiar os estrangeiros. No Rio de Janeiro, o site da Sociedade Beneficente Muçulmana tem sido atacado por fascistas – alimentados pelo mesmo discurso “antiterrorista” do governo – que acusam “esquerdopatas” de estarem “trazendo o Estado Islâmico” para o Brasil, ao abrir as portas para os refugiados árabes.

E, no sul do Brasil, refugiadas sírias declararam ter sido discriminadas e agredidas, após os atentados de Paris – como se a população síria não sofresse todos os dias dezenas de atentados semelhantes por parte de terroristas que, como mostra o caso do Estado Islâmico, foram originalmente armados pelos EUA e por países europeus, para tentar derrubar o governo de Damasco – dando início à guerra civil naquele país, e à onda de refugiados que atingiu a Europa como um tsunami humano.

UM TIRO NO PÉ

Guardadas as devidas proporções, o que o ministro Ricardo Berzoini está cometendo, com as suas declarações, e o próprio governo – ao promover esse tipo de encontro – é um tiro no pé ideológico e um tremendo atentado ao bom-senso.

Se o país está preocupado com o “terrorismo”, a melhor medida a tomar é não ficar anunciando isso para todo o mundo e a toda hora, e usar com inteligência estratégica a legislação vigente.

O primeiro passo para se transformar em alvo do “terrorismo” e ser vítima de um ataque terrorista é começar – sem nenhum inimigo aparente – a se declarar contra ele – a adotar uma doutrina “antiterrorista” e leis “antiterroristas”, que, no final das contas, como demonstram os casos dos EUA e da França, por exemplo, não servem de absolutamente nada para evitar ataques rápidos, covardes e mortíferos, de uma meia dúzia de suicidas determinados, quando eles decidem fazê-los.

O porrete e o vira-lata

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

No momento em que se levantam, novamente, as vozes do neoliberalismo tupiniquim, exigindo uma rápida abertura comercial do Brasil para o exterior, e o PMDB inclui, em seu documento Uma Ponte para o Futuro, a necessidade do Brasil estabelecer acordos comerciais com a Europa e os EUA, lembrando a iminência e a imposição “histórica” do Acordo Transpacífico, e em que mídia tradicional segue com sua insistência em defender como modelo a ridícula Aliança do Pacífico, a União Européia – depois de enrolar, durante anos, nas negociações com o Mercosul – parece que vai simplesmente “congelar” as negociações entre os dois blocos.

A razão é clara. Por mais que se esforcem os vira-latas tupiniquins, fazendo tudo que os gringos querem, oferecendo quase 90% de liberação de produtos, os protecionistas europeus simplesmente se recusam a concorrer com o Mercosul na área agrícola – justamente onde somos mais competitivos.

E, além disso, como se não bastasse, a UE como um todo, para dificultar, hipocritamente, ainda mais o fechamento de um acordo, exige o equivalente a uma rendição total da nossa parte: a liberação de quase 100% dos produtos e livre acesso, para suas empresas, como se nacionais fossem, a setores como serviços de engenharia e advocacia e ao gigantesco mercado de compras governamentais brasileiro, de dezenas de bilhões de dólares.

O RECADO É ÓBVIO:

Não adianta ficar ganindo e mendigando com olhar pidão, para ter atenção ou uma migalha, porque não vamos ceder um centímetro, e, mesmo que vocês façam tudo, tudo o que queremos, poderão não ganhar nada em troca, está claro?

Como lembramos outro dia, grandes potências impõem acordos comerciais, e os pequenos países os assinam.

Nações que não tem uma indústria tão desenvolvida como a nossa, como a Argentina, ou outras, que, com salários miseráveis, se transformaram em mera linha de maquila, tendo prejuízos no comércio exterior, apesar de trabalharem como burros de carga montando produtos destinados a terceiros mercados, como o México (vide “O México e a América do Sul”), não têm outra saída a não ser se associar a outros países (esse é o projeto do Brasil para a América do Sul, por meio do Mercosul e da Unasul) ou assinar acordos comerciais desvantajosos, para se integrar, subalternamente, à economia mundial.

FECHAR A ECONOMIA

Países maiores, com grandes mercados consumidores reais ou potenciais, como a China, preferem fechar suas economias durante anos, dedicando-se a desenvolver seu mercado interno, a indústria e a tecnologia, abrindo seletivamente seu território a empresas estrangeiras e cobrando um alto preço para quem quisesse ter acesso a ele, para depois se impor, comercialmente, ao mundo.

A pergunta é a seguinte: vamos nos atrelar, como um mero vagão de commodities, ao trem puxado pela Europa e os Estados Unidos, onde sempre seremos tratados, apesar de nossos eventuais progressos, como um povo de segunda classe, ou, em nossa condição de oitava economia do planeta, vamos tentar estabelecer um projeto próprio e soberano, de longo prazo, como fazem outras potências intermediárias do nosso tipo, como a China, a Rússia e a Índia, que, aliás, não têm – nenhuma delas – acordos de livre comércio com a Europa ou os EUA?

Tentar emular, abjetamente os outros, e lamber o sapato alheio é fácil. Difícil é trabalhar para erguer no quinto maior território do mundo – assumindo a missão e o sacrifício –uma nação justa, forte, e independente, e legá-la, como fizeram em outros países que muitos no Brasil admiram e “copiam”, como um estandarte de honra e de prosperidade, para os nossos filhos.

As “pedaladas”, as reservas internacionais e a CPMF

Santayana diz que Dilma faz o jogo dos adversários

Mauro Santayana
Carta Maior

Fiel à sua tática de continuar produzindo novos factoides, a imprensa conservadora anuncia que o TCU pode “obrigar” o governo a “pagar” R$ 60 bilhões de reais em pedaladas fiscais. Colocando os pingos nos is, o TCU não pode obrigar o governo a fazer nada. O Tribunal de Contas da União não é órgão do Judiciário, seus membros nunca passaram em concurso para magistrados e suas recomendações dependem de aprovação do Congresso Nacional, de quem não passa de um órgão auxiliar.

Caso o governo resolva “pagar” essas “pedaladas” fiscais – que o professor Dalmo Dallari, em entrevista na Globo News, afirmou que não acarretaram nenhum prejuízo para o país, porque não passam de um acerto de contas dentro do próprio setor público e “fazem parte das atribuições da Presidente da República” de manter em funcionamento os programas sociais de interesse da população, bastaria à Presidente Dilma Roussef converter 15 dos 370 bilhões de dólares que o país dispõe em reservas internacionais para “pagar” esses 60 bilhões de reais.

E ainda sobrariam, nas arcas do tesouro, o equivalente a 1 trilhão e 440 bilhões de reais em reservas internacionais, em dólares, ali colocados nos últimos 10 anos, depois do pagamento, ao FMI, da conta de 40 bilhões de dólares deixada pelo economicamente tão decantado, em prosa e verso, governo de Fernando Henrique Cardoso, que também deixou como herança uma dívida pública líquida de 60%, duplicada com relação à do governo Itamar Franco, que representa, hoje, diminuída pela metade, aproximadamente 34% do PIB.

SUICÍDIO POLÍTICO

Ao admitir – montada nas sextas maiores reservas internacionais do mundo, e na condição de que o Brasil goza, neste momento, de terceiro maior credor individual externo dos EUA, como se pode ver pela página oficial do tesouro norte-americano, o discurso da mídia de que o país está em uma crise sem saída, a senhora Dilma Roussef – que já deveria ter convocado cadeia nacional de rádio e televisão para apresentar esses dados – não apenas comete um suicídio político e um verdadeiro desastre do ponto de vista da comunicação,  mas também continua a fazer o jogo de seus adversários, deixando-se mansamente pautar pelos “moralistas sem moral” a que se referiu outro dia em discurso, e pela mídia de oposição.

O mesmo vale para a CPMF, mais uma faca que a Presidente da República coloca nas mãos de seus adversários, junto a uma opinião pública que, desinformada e intoxicada, dia a dia, semana a semana, pelo discurso neoliberal vigente, acredita no dogma de que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do planeta e um dos estados mais inchados do mundo. Algo que, nos dois casos, não resiste a uma comparação ligeira com países da Europa ou os próprios EUA, ou a uma mera leitura das estatísticas de instituições e órgãos financeiros internacionais.

Como disse o Prêmio Nobel de Economia, e colunista do New York Times, Paul Krugman, em recente entrevista à Folha de São Paulo – na qual reduziu praticamente à insignificância os recentes “rebaixamentos” do Brasil pelas agências internacionais – o Brasil tem problemas, boa parte deles derivado de uma situação econômica internacional negativa, que atinge boa parte do mundo, mas vive uma situação macroeconômica ímpar, que não pode ser comparada às enfrentadas e vividas no passado.

USAR AS RESERVAS

A Presidente Dilma – aproveitando uma eventual troca de Ministro da Fazenda –  poderia lançar mão de parte das reservas para resolver os problemas pontuais e imediatos que o país enfrenta. Assim, ela evitaria pisar nas cascas de banana que lhe atiram todos os dias.

E caso também diminuísse os juros, sem aumentar impostos, beneficiando ainda mais a indústria e setores como o turismo interno, que tendem a se fortalecer com as recentes altas do dólar, o Brasil poderia começar o ano que vem sob outra perspectiva econômica e institucional.

Isso, se fosse possível superar a incompetência estratégica do governo – que há muito tempo deveria ter lançado uma campanha nacional com os reais dados macroeconômicos para combater a “crise”- que é de dar lástima, em sua comunicação com o povo brasileiro.

Por uma terceira Polícia

Mauro Santayna

A propósito do incidente ocorrido na porta de uma delegacia da Zona Leste de São Paulo, a imprensa chama a atenção para o “agravamento da rixa” entre policiais civis e militares de São Paulo. A questão por trás do fato não é essa, mas sim o que se seguiu a um primeiro gesto, emblemático, de um delegado de polícia, no sentido de fazer valer a lei e combater a tortura, que é crime hediondo, dando voz de prisão, em flagrante, a um sargento da PM, acusado de dar uma série de choques em um suspeito de roubo dentro da viatura a caminho da delegacia, e a reação de um bando de PMs, em sua defesa, que foi, na verdade, a defesa da parte mais visível de um gigantesco iceberg de cultura da violência e do genocídio, caracterizado pela onipotência dos agentes de segurança no Brasil, que se acham no direito de tratar, como a um animal de caça ou de sua propriedade, qualquer pessoa  que venha a cair sob sua custódia, em uma situação de “trabalho”.

Chama a atenção, também, o fato de que, na Câmara dos Deputados, circulem projetos destinados a dar à PM poder de investigação, e que, por iniciativa do Secretário de Segurança de SP, Alexandre de Moraes, PMs estejam sendo dispensados de aguardar, em casos mais simples, a conclusão de Boletins de Ocorrência por parte de delegados.

Ora, o que o Brasil precisa não é de uma legislação que divida ainda mais as diferentes  polícias, dando mais poder a cada uma delas, mas de uma nova polícia, unificada, judiciária, com a presença de um juiz em cada delegacia, para que se proceda à audiência de custódia, no momento do encaminhamento  do preso pelos agentes responsáveis pela prisão, com o rígido cumprimento do exame de corpo de delito.

NOVA FILOSOFIA

Como é simplesmente impossível, diante de fatos como esse, unificar as polícias já existentes em todos os estados, deveria ser criada, por decreto, essa nova polícia, responsável pelo policiamento ostensivo – nos primeiros anos de carreira – e depois, pela investigação, a partir da estruturação de um novo sistema acadêmico, com uma nova filosofia, baseada, fundamentalmente, no mais estrito cumprimento da lei, e suspender a realização de concursos para a Polícia Civil e Militar, até que estas viessem a se extinguir naturalmente, em uma geração, sendo progressivamente substituídas em suas atribuições, por essa nova força.

No intervalo,  poder-se-ia avançar na federalização dos crimes de tortura, sejam esses cometidos por policiais ou por bandidos, a cargo da Polícia Federal, e, se isso não for possível, na criação de delegacias específicas para a investigação desses delitos, com a presença – aí, sim, mista – de membros das corregedorias da Polícia Civil e da Militar, em todos os estados.

Sejamos claros. O que ocorreu em São Paulo não foi uma “rixa”. Foi uma tentativa, combatida pelo mais reles corporativismo, de se fazer cumprir a Lei e a Constituição. Um corporativismo cada vez mais desatado e incontrolável, que ameaça a sociedade e o Estado de Direito como um todo e que deveria ser enfrentado de frente, com coragem e com mão firme, e não da forma covarde, escorregadia e ambígua, demonstrada, na entrevista que se seguiu ao “incidente”, pelas autoridades do Estado.

Câmeras escondidas podem ser a melhor arma contra a violência

PMs colocam uma arma na mão do adolescente morto

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

A prisão de cinco policiais militares no Rio, após execução de um suspeito de 17 anos no Morro da Providência, e de cinco também PMs em São Paulo, após outra execução, em pleno luz do dia, nas ruas do Butantã, ambas com a “plantação de velas” – armas apreendidas com numeração raspada – nas mãos das vítimas, para simular confronto, prova que contra a violência policial – e também a do tráfico – não existe remédio melhor do que câmeras de segurança escondidas.

Mais barata do que qualquer campanha ou mobilização, uma simples webcam de 30 reais, ligada a um computador, camuflada em uma casa de pombo ou em uma antena de televisão no telhado, ou um aparelho de celular ligado, nas mãos de um usuário hábil, em uma fresta de janela, pode fazer mais do que dezenas de testemunhas para esclarecer um crime.

INVESTIMENTO

As comunidades – e as organizações não governamentais e outras instituições de combate à violência, do Rio de Janeiro e de todo o país – deveriam se organizar coletivamente para coletar dinheiro e gastar o que fosse possível nesse tipo de aparelho, que acabariam servindo, ao longo do tempo, também para inibir a execução de novos crimes.

Só assim  vai ser possível diminuir, a médio prazo, a impunidade e o genocídio derivado, entre outras coisas, da invasão ostensiva de áreas menos favorecidas das grandes cidades brasileiras, da cultura da aplicação sumária e ilegal da pena de morte contra suspeitos de crimes, e da guerra das drogas em nosso país – enquanto, neste último aspecto, a legislação não avança nesse sentido.

O Brasil deve, mas ainda está longe de estar quebrado

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

O governo tem seus defeitos – entre eles uma tremenda incompetência na divulgação da situação real do país – mas também tem suas virtudes.

A maior parte da imprensa está trombeteando, aos quatro ventos, o fato de que a dívida pública subiu 3,68% em agosto, para 2.68 trilhões. Por que não dar a informação completa, e dizer que o Brasil deve essa quantia, mas tem quase um trilhão e meio de reais, 1.48 trilhões, a câmbio de hoje, em reservas internacionais em caixa?

Reservas internacionais de 370 bilhões de dólares, cujo valor, em moeda nacional aumenta – já que o negócio é divulgar grandes números – em contraposição ao que se deve em reais, a cada vez que o dólar sobe?

DÍVIDA LÍQUIDA

Em um país normal seria também interessante lembrar – em benefício do leitor e da verdade – que a dívida líquida pública – que é o que o país verdadeiramente deve, descontando-se o que tem guardado – caiu em quase 50% nos últimos 13 anos, depois do fim do governo FHC, de mais de 60%, em dezembro de 2002, para aproximadamente 34% do PIB agora.

Para efeito comparativo, nos países desenvolvidos, essa dívida é quase três vezes maior, de mais de 80% em média.

Quase da mesma forma que a dívida pública bruta, a única a que se dá destaque, que em países como o Japão, a Itália, os Estados Unidos, a França ou Inglaterra, duplica, ou é de quase o dobro da nossa.

AGÊNCIAS DE RISCO

Essa é a realidade dos fatos que, hipócrita e descaradamente, não são levados em consideração, por sabotagem e outros interesses de ordem econômica e geopolítica, por agências envolvidas com escândalos e multadas, em bilhões de dólares, por irregularidades, que, sem críticas ou questionamento,  são endeusadas e incensadas, interesseiramente,  pela mídia conservadora nacional,  como a Standard&Poors, por exemplo..

O peregrino da paz

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

O Papa Francisco teve uma semana movimentada. Passou por Cuba,  onde rezou em Havana, na Praça da Revolução, para dezenas de milhares de fiéis católicos, e visitou Holguin e Santiago, depois de se encontrar com Fidel Castro, a quem tratou com atenção e simpatia. De lá, voou para os Estados Unidos, onde foi recebido por Barrack Obama, rezou em frente à Casa Branca, para uma multidão de fiéis, e discursou, durante uma hora, sendo várias vezes interrompido por aplausos, no Congresso norte-americano. Falou também em Nova Iorque, no plenário das Nações Unidas, denunciando a “asfixia” imposta pelo sistema financeiro internacional, e no Marco Zero dfas Torres Gêmeas, reverenciando as vítimas do 11 de setembro, lembrando,  no entanto, ao lado de sacerdotes católicos, judeus e muçulmanos, que “a vida está sempre destinada a triunfar sobre os profetas da destruição”, que devemos ser forças da reconciliação, da paz e da justiça”, e que é preciso se “livrar dos sentimentos de ódio, vingança e rancor” para alcançar “a paz, neste mundo vasto que Deus nos deu como casa de todos e para todos.”

EM CUBA

Não foi apenas pela proximidade geográfica que o Papa fez questão de ir a Cuba e aos EUA, em um único périplo. Ao escolher visitar, praticamente ao mesmo tempo, o país mais bem armado do mundo, e a pequena ilha do Caribe, que sobrevive, há décadas, em frente à costa dos Estados Unidos, com um projeto alternativo, que não segue a cartilha do “American Way of Life”, o Papa quis mostrar que não existem países mais importantes que os outros, e que todas as nações têm direito a buscar seu próprio caminho para o desenvolvimento, que pode estar simbolizado tanto por grandes foguetes e naves espaciais, como pela eliminação do analfabetismo, uma medicina de qualidade, o aumento da expectativa de vida de seus habitantes, ou um dos mais baixos índices de mortalidade infantil do mundo.

É esse desejo, de paz na diversidade, tão presente na viagem do Papa, que fez com que Francisco tenha participado ativamente do processo de reaproximação diplomática entre os Estados Unidos e Cuba, concretizado com a recente reabertura da embaixada dos EUA, com a presença do Vice-presidente norte-americano, Joe Biden, em Havana.

O seu papel foi reconhecido em discurso, nos jardins da Casa Branca, pelo próprio presidente dos Estados Unidos, que agradeceu a contribuição do Papa nesses acordos, que representam  um dos momentos mais marcantes da história recente.

OUTRA FAÇANHA

O Papa Francisco também está por trás – por seu reiterado e decidido apoio – de outro episódio inédito, de grande importância para o continente, ocorrido em Havana, apenas um dia após a sua partida: o aperto de mão, na presença do Presidente cubano Raul Castro como mediador,  entre o Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder guerrilheiro e comandante das FARC – Forças Armadas Revolucionárias, Rodrigo Londoño, também conhecido como Timoshenko,  que sela a contagem regressiva para a conquista de uma paz definitiva, depois de mais de 50 anos de guerra civil, em um dos principais países latino-americanos.

É claro que os dois fatos – a reaproximação entre Cuba e os EUA e entre o governo colombiano e as FARC – não podem agradar aos babosos, ignorantes e hipócritas anticomunistas de sempre, que, movidos por outros interesses, como a permanente gigolagem de fantasmas da Guerra Fria, prefeririam ver os Estados Unidos tentando outra frustrada invasão da ilha, quem sabe armando grupelhos radicais de vetustos, obtusos e anacrônicos anticastristas de Miami, ou aumentando sua presença militar na Colômbia, transformando  aquela nação em uma espécie de Vietnam sul-americano.

Daí, por isso, o ódio dos conservadores, fundamentalistas e tradicionalistas católicos contra Francisco, um latino-americano tão independente com relação aos EUA, que nunca tinha pisado o território norte-americano antes desta semana, e que, mesmo assim, teve a honra de ser primeiro pontífice a ser recebido e a falar diretamente, como líder estrangeiro de uma religião que não é a mais importante nos EUA, para dezenas de deputados e senadores, dentro do edifício do Capitólio.

UM FAROL A ILUMINAR

Em um mundo em que países que alegam defender a democracia bombardeiam e destroem outras nações, metendo-se em seus assuntos internos, armando mercenários e terroristas para derrubar governos que consideram hostis, sem levar em conta o terrível balanço de suas ações, em mortes, torturas, estupros e na “produção” de milhões de refugiados; em que esses mesmos refugiados morrem sem ter para onde ir, em desertos, montanhas, fronteiras ou mares como o Mediterrâneo, e são recebidos, muitas vezes, a patadas por onde chegam, ou  mantidos em cercados disputando no braço um naco de pão para seus filhos, que a polícia lhes atira, com luvas de borracha, como se fossem cães; em que o egoísmo, o fascismo, a arrogância, o ódio, a hipocrisia, a mentira, renascem com renovada força, e muitos não tem mais vergonha de pregar o individualismo, o consumismo, uma pseudo “meritocracia” como doutrina a justificar a exclusão, na busca enriquecimento individual e material a qualquer preço – como se o destino de cada um dependesse apenas de si mesmo, e em nada do meio que o cerca ou das forças terrenas que o governam, explorando-o ou enganando-o, de forma permanente, e a humanidade não fosse uma construção coletiva, fruto de centenas de gerações que nos antecederam – Francisco, que une no lugar de dividir, que ri, em vez de  fazer cara feia, que prega a paz e a solidariedade no lugar do ódio, da vingança e da cobiça, é um farol a iluminar o que resta de sensatez na espécie humana – uma bússola para indicar o caminho nestes tempos sombrios, em que as forças do ódio e do atraso insistem em tentar impedir que amanheça, neste novo século, um novo dia.

PONTIFICADO

Que seu pontificado dure muitos e muitos anos, já que o mundo e a História poucas vezes precisaram tanto, diante de tanto preconceito e ignorância, de um Papa como ele à frente da Igreja Apostólica Romana.

O diabo, se existir, deve estar espumando pela boca, e esbravejando impropérios  que só ele conhece, nos nove círculos do Inferno. De nada adiantou que tenha, eventualmente, tentado cardeais, ou soprado segredos e sortilégios no ouvido daqueles que votaram no último Conclave.

Francisco está onde está – no lugar em que o Mal não queria ver, nunca, um homem como ele. À frente do Vaticano, no trono de São Pedro, com a Estola, o Anel do Pescador e o Báculo que o sustenta quando se move, com a certeza de que Deus caminha a seu lado, Peregrino da Paz, contra a insanidade do mundo.

Faltou os EUA combinarem com os russos a situação na Síria.

Mauro Santayana
(Carta Maior)

Tendo aberto a Caixa de Pandora na Síria, ao tentar retirar esse país da área de influência de Moscou, armando terroristas islâmicos para derrubar o governo – aliado russo – de Bashar Al Assad, e depois de destruir, nessa tentativa, a nação que tem mais refugiados hoje espalhados pelo mundo, Washington reconhece agora que terá de negociar com Moscou por meio de “discussões táticas práticas”, para evitar “erros de cálculo” que possam colocar os EUA e a Rússia em conflito no teatro de operações sírio.

Incapaz de colocar tropas no local – seu negócio é brincar com joysticks, bombardeando apenas algumas posições do Estado Islâmico, um inimigo que eles próprios criaram, no Iraque e na Síria, dois países que estavam estáveis e em paz antes das recentes, em termos históricos, intervenções dos EUA e de seus aliados – Washington diz que quer evitar que algum soldado russo – existem vários deles no país, sediados na base naval russa de Tartus e na base aérea síria de Latakia – seja inadvertidamente ferido por ações militares “ocidentais”, dirigidas contra os terroristas do EI.

SITUAÇÕES ÓBVIAS

Na verdade, por trás das declarações norte-americanas – “queremos evitar problemas”, afirmou o porta-voz do Pentágono, Peter Cook – está o reconhecimento tardio dos EUA, de três situações óbvias;

Primeiro, a da tremenda imbecilidade estratégica que os Estados Unidos cometeram, ao incentivar e armar terroristas “islâmicos” para derrubar um governo leigo e estável, propiciando a destruição de todo um povo e o surgimento de um exército de psicopatas, assassinos e estupradores, que dificilmente será controlado nos próximos anos.

Em segundo lugar, a de que, sem o auxílio dos russos, combatendo ao lado de Bashar Al Assad, será impossível tentar ao menos enfraquecer o ISIS, ou EI, na frente síria, ou manter ali, ocupados, parte de seus combatentes, aliviando a pressão sobre outras frentes nas quais os Estados Unidos e a OTAN estão mais diretamente envolvidos, como a do Iraque.

E, em terceiro lugar, o reconhecimento do poder russo na Síria, como país sob influência direta de Moscou, que era justamente o que os EUA tentaram desafiar desde o início.

MAIS FÁCIL

Não teria sido mais fácil ter feito isso há três anos, antes de arrebentar com  toda a região, e de provocar a morte de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças e o exílio forçado, na maior parte para campos de refugiados no meio do deserto, de – até agora – um terço da população síria?

Por outro lado, para não dar o braço a torcer, os EUA e a União Europeia anunciaram também, nesta semana, que estão pensando em “prorrogar” as sanções contra Moscou, para além de 2015.

Eles têm é que pesar as consequências, para, também por ali, não continuar atirando contra si mesmos, transformando o pé em uma peneira. O agravamento da situação na Rússia tem direta influência sobre a economia e as condições de vida na Ucrânia, que depende de Moscou, entre outras coisas, para não congelar no inverno como um imenso picolé, até a medula.

REFUUGIADOS

Como já lembramos antes, se houver um conflito de maior escala entre a Rússia e a Ucrânia, a União Europeia será invadida por nova onda de refugiados, ao Leste, diante da qual as “invasões bárbaras” de pobres emigrantes, vindos do Mediterrâneo, vão parecer – com o perdão da palavra – uma brincadeira.

A mula e os vermes

Cinegrafista húngara chuta crianças refugiadas

Mauro Santayana
(RB)

O reerguimento despudorado da extrema direita em todo o mundo, como reação tardia à descolonização da África e da Ásia, à vitória de regimes nacionalistas e de esquerda na América Latina, à resistência de países como a Rússia contra o cerco ocidental, e ao fortalecimento dos BRICS, que estão criando um banco internacional de fomento que reúne alguns dos  principais credores dos EUA e um fundo de reservas no valor de 100 bilhões de dólares, tem sido pródigo em cenas dantescas e episódios emblemáticos, que poucos imaginariam possíveis, em sua sordidez e brutalidade, neste primeiro quarto do século XXI.

Na Alemanha, dois neonazistas invadem uma cabine de trem, e, aos gritos de Heil Hitler!, depois de fazer a saudação nazista, urinam sobre uma imigrante e suas duas crianças pequenas.

Na Suécia, um imigrante romeno, cigano e sem teto, é atacado com ácido no rosto, enquanto dormia em um parque de Estocolmo.

Na Ucrânia e em vários países do leste do Velho Continente, os ciganos se encontram acossados, em seus próprios bairros, que têm sido invadidos por milícias racistas e fascistas.

FILA DE JUDEUS

Na França e em outras nações, judeus de classe média, profissionais liberais, artistas e empresários, fazem fila para emigrar para Israel, assustados com o recrudescimento de um virulento antissemitismo, por parte daqueles que também sempre atacaram árabes, negros e outras minorias.

As ameaças de neonazistas ao Papa Francisco, às vésperas de sua viagem aos Estados Unidos,  e as cenas de uma cinegrafista, de emissora ligada ao partido de extrema direta Jobbik, dando coices, como uma mula ensandecida, em crianças de menos de dez anos, e derrubando com rasteiras pais desesperados, carregados de bebês, que tentavam escapar das agressões da polícia na fronteira da Hungria, sob aplausos, na internet, dos mesmos brasileiros – “Se alguém com coragem tivesse feito isso nos paus de arara que chegavam em SPO (sic), hoje a cidade seria mais bonita e melhor pra se viver. Congratulations pra mocinha!” – que defendem também a ditadura, a tortura e assassinato por agentes do Estado, como no caso da chacina de Osasco, não são mais do que diferentes ângulos de um novo despertar: o do Fascismo, que emerge, por todos os lados, como uma  praga de vermes, favorecida por um mundo dominado, ainda, em sua maior parte, por um sistema baseado no egoísmo, no preconceito, na hipocrisia.

Um sistema que, no entanto, se sente cada vez mais pressionado, e que é responsável pelas consequências e contradições que ele mesmo estabeleceu, ao longo dos últimos 500 anos, ao permitir organizar-se e crescer, e continuar se expandido, com base na mais impiedosa exploração de países por outros países, de povos por outros povos, de homens por outros homens, indefinidamente.

ESMAGAR OS VERMES

Toda vez que o Capitalismo se sente ameaçado – já lembramos isso outras vezes aqui – ele abre a porta do canil e sai para passear com o Fascismo. É preciso esmagar os vermes quando os ovos eclodem, para não ter que decepar, depois, uma a uma, as cabeças de seus exércitos de serpentes, como ocorreu na Primeira e na Segunda grandes guerras, ao custo de milhões de vítimas, civis e militares, nos campos de concentração e de extermínio, e também nos campos de batalha.

O pato e galinha, no Mar Mediterrâneo

É preciso entender de quem é a culpa desta situação

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

Embora não o admita – principalmente os países que participaram diretamente dessa sangrenta imbecilidade – a Europa de hoje, nunca antes sitiada por tantos estrangeiros, desde pelo menos os tempos da queda de Roma e das invasões bárbaras, não está colhendo mais do que plantou, ao secundar a política norte-americana de intervenção, no Oriente Médio e no Norte da África.

Não tivesse ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia, e a Síria; não tivesse equipado, com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivesse ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram no fim da Segunda Guerra Mundial.

Lépidos e fagueiros, os Estados Unidos, os maiores responsáveis pela situação, sequer cogitam receber – e nisso deveriam estar sendo cobrados pelos europeus – parte das centenas de milhares de refugiados que criaram, com sua desastrada e estúpida doutrina de “guerra ao terror”, de substituir, paradoxalmente, governos estáveis por terroristas, inaugurada pelo “pequeno” Bush, depois do controvertido atentado às Torres Gêmeas.

ELES CONTINUAM CHEGANDO…

Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem, em guetos, ou forem – ao menos parte deles – integrados, em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolherem, a Europa nunca mais será a mesma.

Por enquanto, continuarão chegando à suas fronteiras, desembarcando em suas praias, invadindo seus trens, escalando suas montanhas, todas as semanas, milhares de pessoas, que, cavando buracos, e enfrentando jatos de água, cassetetes e gás lacrimogêneo, não tendo mais bagagem que o seu sangue e o seu futuro, reunidos nos corpos de seus filhos, irão cobrar seu quinhão de esperança e de destino, e a sua parte da primavera, de um continente privilegiado, que para chegar aonde chegou, fartou-se de explorar as mais variadas regiões do mundo.

É cedo para dizer quais serão as consequências do Grande Êxodo. Pessoalmente, vemos toda miscigenação como bem-vinda, uma injeção de sangue novo em um continente conservador, demograficamente moribundo, e envelhecido.

Mas é difícil acreditar que uma nova Europa homogênea, solidária, universal e próspera, emergirá no futuro de tudo isso, quando os novos imigrantes chegam em momento de grande ascensão da extrema-direita e do fascismo, e neonazistas cercam e incendeiam, latindo urros hitleristas, abrigos com mulheres e crianças.

E SE APOSTASSEM NA PAZ?

Se, no lugar de seguir os EUA, em sua política imperial em países agora devastados, como a Líbia e a Síria, ou sob disfarçadas ditaduras, como o Egito, a Europa tivesse aplicado o que gastou em armas no Norte da África e em lugares como o Afeganistão, investindo em fábricas nesses mesmos países ou em linhas de crédito que pudessem gerar empregos para os africanos antes que eles precisassem se lançar, desesperadamente, à travessia do Mediterrâneo, apostando na paz e não na guerra, o velho continente não estaria enfrentando os problemas que encara agora, o mar que o banha ao sul não estaria coalhado de cadáveres, e não existiria o Estado Islâmico.

Que isso sirva de lição a uma União Europeia que insiste, por meio da OTAN e nos foros multilaterais, em continuar sendo tropa auxiliar dos EUA na guerra e na diplomacia, para que os mesmos erros que se cometeram ao sul, não se repitam ao Leste, com o estímulo a um conflito com a Rússia pela Ucrânia, que pode provocar um novo êxodo maciço em uma segunda frente migratória, que irá multiplicar os problemas, o caos e os desafios que está enfrentando agora.

As desventuras das autoridades europeias, e o caos humanitário que se instala em suas cidades, em lugares como a Estação Keleti Pu, em Budapeste, e a entrada do Eurotúnel, na França, mostram que a História não tolera equívocos, principalmente quando estes se baseiam no preconceito e na arrogância, cobrando rapidamente a fatura daqueles que os cometeram.

Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada. É isso que Bruxelas e a UE precisam aprender com relação a Washington e aos EUA.