Golpismo, “comunismo”, hipocrisia e reforma política

Mauro Santayana
(Revista do Brasil)

Nas últimas semanas, insatisfeitos com o resultado das eleições, golpistas que nos últimos anos praticavam seu ódio à democracia e às instituições pela internet têm convocado caminhadas pelo país, pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff ou intervenção militar.

Para tentar derrubar o governo, os novos golpistas fazem como fizeram os que os antecederam na história brasileira, que praticamente mataram Getúlio em 1954, tentaram inviabilizar Juscelino Kubitschek em 1955 e derrubaram João Goulart em 1964.

Apelam para o tosco, velho e surrado discurso anticomunista da época da Guerra Fria, que justificou crimes como os milhares de civis mortos e torturados no Chile, na Argentina, na Indonésia, e em conflitos prolongados e estéreis como a Guerra do Vietnã.

Dizer que é comunista um país em que o sistema financeiro lucra bilhões, em que as multinacionais fazem o mesmo e remetem fortunas para o exterior, em que qualquer cidadão pode montar um negócio a qualquer momento, com ajuda do governo e de instituições, como o Sebrae, e em que nossos armamentos são produzidos em estreita cooperação com empresas inglesas, norte-americanas, francesas, suecas, israelenses, é tremenda hipocrisia.

RESPONSABILIDADE

À oposição institucional cabe também agir com responsabilidade. Caso fosse adiante um pedido de impeachment, ou caso viesse a ser impedida por outras manobras a diplomação de Dilma Rousseff, a ascensão do vice Michel Temer à Presidência da República corroeria, em vez de ajudar, as chances de Aécio Neves de chegar ao Palácio do Planalto em 2019. E na remotíssima possibilidade de os golpistas terem sucesso por outros meios, jamais entregariam o poder ao ex-governador mineiro. Os mais radicais o desprezam e desconfiam de seu discurso antipetista.

O problema do Brasil não é comunismo, como apregoam essa minoria extremista e alguns golpistas de plantão, em seus comentários nos portais e redes sociais. O que põe a opinião pública em estado de perplexidade é a corrupção. Esse mal nasce de uma acumulação histórica de defeitos no universo político, como o clientelismo e o fisiologismo, que vêm desde o Brasil Colonial. Sua raiz está na busca permanente do poder, por partidos e candidatos, e da necessidade de fontes de financiamento para suas campanhas. No caso da Petrobras, o próprio Ministério Público declarou que o esquema funciona desde 1999 – logo, ainda antes da chegada do PT ao poder.

PROTESTOS DE 2013

Quando das manifestações de junho de 2013, Dilma lembrou a necessidade de reformas que tirassem o país da dependência desse quadro de relações incestuosas entre o governo e o Congresso, e de se criarem mecanismos que permitissem maior espaço para a população manifestar seus anseios e interesses. Suas teses, no entanto, não prosperaram no Legislativo. Agora, que a reforma política volta à tona, o que importa é saber se teremos uma de fato, ou se uma reforma de faz de conta, comandada pelos grupelhos de sempre, com mudanças cosméticas para enganar a população.

O caixa dois não é mais do que uma extensão do financiamento eleitoral privado, e legal. O menos citado caixa um, que poderia ser suprimido por meio do financiamento público de campanhas, como prevê a proposta de reforma política defendida por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e tantas outras entidades e movimentos com representação em amplos setores sociais.

No meio desse processo estão pilantras que aparecem para viabilizar “negócios” e “acertos”, extorquem recursos de empresas e irrigam, com parte dos recursos auferidos, candidatos e partidos. Eles não agem em nome do interesse público ou partidário, não são “azuis” ou “vermelhos”, nem “golpistas” nem “comunistas”. Se existisse um termo exclusivo para defini-los, seria simplesmente “corruptistas”, ladrões que se aproveitam das distorções históricas do atual sistema político.

Um dos homens mais ricos do mundo multiplica sua compra de ações da Petrobras

Soros aposta na Petrobras

Mauro Santayana

Enquanto, no Brasil, aplicadores correm da Petrobras, grandes investidores estrangeiros, confiantes em fatos como a inauguração da Refinaria Abreu e Lima, com capacidade para processar 230.000 barris de combustíveis e derivados por dia, já no primeiro trimestre de 2015; e a constante expansão da produção do pre-sal, estão aproveitando os baixos preços das ações da empresa, para fazer compras maciças que poderão lhes render bilhões de dólares em ganhos no futuro.

George Soros, um dos homens mais ricos do mundo, aumentou em 84% a compra de ações da Petrobras, de junho para cá.

Será que ele, com uma fortuna pessoal de mais de 24 bilhões de dólares, está errado ao apostar na Petrobras?

Na época da campanha para a última eleição, espertos fizeram fortunas, da noite para o dia, “jogando” com o sobe e desce das bolsas, ao ritmo da divulgação das pesquisas e das notícias dos jornais, enquanto incautos se desfaziam de ações de primeira linha, deixando de usar a cabeça, para se deixar influenciar pelo comportamento de “manada” e pela desinformação.

Ao contrário do que muita gente acha, a campanha contra a Petrobras que está em curso – que não pode ser confundida com as investigações de corrupção na empresa – não vai quebrar a maior companhia brasileira nem tirar o atual governo do poder.

Ela irá, apenas, aumentar a participação de estrangeiros na Petrobras, aproveitando a queda de preço das ações, já que eles não se deixam contaminar pelo “clima” reinante em alguns segmentos da opinião pública.

CONTRADIÇÕES

Como exemplo dessa contradição entre alguns investidores brasileiros e estrangeiros do ponto de vista da confiança no Brasil, vale lembrar a recente decisão da Jaguar e da Land Rover, de instalarem suas primeiras fábricas fora da Inglaterra por aqui; ou a da Nestlé Mundial de construir a sua primeira indústria de cápsulas de café das Américas em Montes Claros, Minas Gerais.

Se as perspectivas no mercado brasileiro estão tão ruins, por que não foram para a Colômbia, por exemplo, que oficialmente está crescendo muito mais neste ano, e é membro do conhecido “factoide” Aliança do Pacífico?

Por falar em AP, nos oito primeiros meses deste ano, segundo a CEPAL, o Investimento Estrangeiro Direto caiu em 18%, no México, para pouco mais de 9 bilhões de dólares, enquanto aumentou 8%, para quase 50 bilhões de dólares, no Brasil.

Pesquisa divulgada essa semana pela FIRJAN – Federação das Indústrias do Rio de Janeiro mostra que 47% dos empresários entrevistados vão manter seus investimentos em 2015, e que 41% deles pretende aumentá-los no ano que vem.

Investidor estrangeiro segue apostando firme no Brasil

Mauro Santayana

Enquanto, aqui dentro, refém da síndrome da “crise” e do “fim do Brasil”, muita gente está com medo de fazer negócios ou adiando investimentos, os estrangeiros, menos afeitos à imprensa local e aos comentários nos portais da internet, continuam apostando firme na segunda economia das Américas e  sétima maior do mundo.

A Comissão Econômica para a América Latina, informa que, até setembro, o IED – Investimento Estrangeiro Direto, caiu em cerca de 28%, em média, no continente, com destaque negativo para o México (- 18%), tido como o “queridinho” dos mercados. Enquanto isso, ainda segundo a CEPAL, o Brasil foi o único país em que cresceu o Investimento Estrangeiro Direto – acima de 8% – que deverá se manter em um patamar superior aos 60 bilhões de dólares até dezembro, sem queda expressiva com relação aos últimos anos.

Segundo informa o “Valor Econômico”, as estatísticas do Banco Central mostram que os investidores nacionais e estrangeiros reagiram de forma bem distinta quanto a  um segundo mandato para  Dilma Roussef.

MAIS DE US$ 11 BILHÕES

Se o investidor local, no período eleitoral e pós eleitoral, tirou dinheiro do país, os estrangeiros –  certamente motivados pelo fato de o Brasil ter voltado a ter superávit primário no mês passado, ainda ter reservas acima de 375 bilhões de dólares, com uma dívida líquida pública de apenas 33% do PIB, e por recomendações de compra de ações como as da Petrobras, feita pelo Deutsche Bank, há alguns dias – apresentaram forte aporte em IED e na compra de títulos públicos e ações, com ingresso conjunto, no país, de mais de 11 bilhões de dólares em outubro.

O cabo do Google

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Com a demora da decisão sobre o BRICS Cable, provocada, entre outras razões, pela crise da Ucrânia, neste ano, os concorrentes passaram à frente e o Google, a estatal uruguaia Antel, a Angola Cables e a Algar, brasileira, resolveram fazer um novo cabo de fibra ótica, destinado a aumentar a capacidade de tráfego entre o Brasil e os EUA. Como não dá para controlar o fluxo de informações na internet, uma maior parte dos dados brasileiros dirigidos a outros destinos, como a Europa e a Ásia, passarão por território norte-americano, facilitando ainda mais o trabalho da NSA, e de outras agências de inteligência dos Estados Unidos.

Em novembro de 2013, ou há menos de um ano, o jornal The Washington Post publicou, com o uso de dados e cópias de slides da própria NSA, matérias explicando como a Agência Nacional de Segurança  intercepta a comunicação entre servidores do próprio Google e os de outras companhias como o Yahoo, e como essa agência também tem acesso a dados estocados em “nuvem” por companhias privadas de TI dos Estados Unidos.

Para diminuir a preocupação dos usuários, o Google e outras companhias como a Apple, têm aumentado o grau de privacidade de seus novos produtos e serviços, principalmente sistemas operacionais para celular.

PROTEGIDOS PELA SENHA

A Apple anunciou que no IOS-8 todos os dados pessoais do utilizador, como fotos, mensagens ou e-mails, ficarão protegidos pela senha do usuário, tornando impossível o acesso aos seus dados, mesmo que sejam solicitados judicialmente.

O Google também anunciou que o novo Android Lillipop vai encriptar automática e obrigatoriamente os dados do usuário que tenha seu tablet ou smartphone protegido por senha.

Como não chamou a Telebras para entrar no consórcio – parece que é proibido pensar em fortalecer a Telebras no Brasil, embora nada se faça para impedir o monopólio espanhol sobre nosso mercado,  com a compra da GVT pela Telefónica, dona da Vivo e da antiga Telesp – o governo precisa cobrar, da Algar, única empresa nacional participante, que medidas de segurança serão adotadas para proteger as informações originadas em nosso território, e fazer o mesmo com o Google.

Naturalmente, o governo norte-americano reagiu contra essas decisões. O diretor do FBI, James Comey, disse que as empresas “estão indo longe demais” na preocupação com a privacidade dos usuários e pediu mais poderes para as autoridades, que, na sua opinião, foram gravemente afetados  no que chamou de “era pós-Snowden”.

DE QUEM É O NEGÓCIO?

No caso do cabo ótico do Google, ainda assim é preciso saber quem dominará o negócio, se a empresa norte-americana,  ou os uruguaios, angolanos e brasileiros envolvidos.

Não porque isso vá  fazer, eventualmente, muita diferença, considerando-se que os dados e informações poderão ser interceptados pela NSA em sua chegada, ou ao passar pelos EUA, mas, pelo menos, para deixar claro que estamos atentos ao assunto.

O que mata mais: as drogas ou a tentativa de reprimi-las?

Mauro Santayana
(Revista do Brasil)

Para a juventude, fazer o que não é permitido, afrontar as regras impostas pelos adultos e pelas “autoridades”, não deixa de se confundir, também, com certo tipo de ritual de passagem. Da mesma forma que o menino, na adolescência, questiona a autoridade do pai, e com ele compete, até certo ponto, na formação e afirmação de sua própria personalidade – e essa conquista de um espaço próprio independe de sexo –, tentar quebrar os limites impostos pelas gerações anteriores tem sido parte, há séculos, da própria evolução da humanidade. Isso talvez explique parte da popularidade das drogas nos últimos 100 anos.

Até serem proibidas, a maconha e a cocaína, antes restritas aos consultórios psiquiátricos e gabinetes dentários, como relaxantes e analgésicos, nunca foram vistas como uma forma de transgressão social. Foi justamente a partir da Lei Seca, nos Estados Unidos, que elas começaram a adquirir um caráter mais contestatório.

Na década de 1970, a maconha era a droga da contestação, o LSD, a da criação e do esoterismo, a heroína, a da autodestruição, e a cocaína, ainda, principalmente a das festas e da burguesia. Por um lado, o sistema aumentou a repressão ao seu consumo, como parte de sua reação a uma geração que contestava a Guerra do Vietnã e o complexo industrial-militar nos Estados Unidos, e tomava as ruas e as universidades em países como a França, o México e o Brasil.

UMA ESPÉCIE DE FUGA

Para quem ocupava o poder, era interessante associar a utopia e a luta por um mundo melhor a uma espécie de fuga, de negação ao equilíbrio e à responsabilidade, favorecida pelo consumo de entorpecentes. Por outro lado, apertar a repressão aumentava também a demanda e o preço dessas substâncias, criando um mercado de bilhões de dólares, que favorecia, paradoxalmente, o enriquecimento fácil de parte do próprio sistema. Surgiram os cartéis de produção, transporte e comercialização, a partir da Bolívia, do Peru, da Colômbia e do México, que se transformou em corredor para o acesso ao mercado norte-americano, o maior do mundo.

E, como ocorreu na época da Lei Seca, o lobby do proibicionismo como única resposta da sociedade às drogas ilícitas criou, nos países produtores e consumidores, uma rede de milhares de advogados, jornalistas sensacionalistas, deputados e senadores que se elegem sob a égide do “combate à violência”, ONGs de todo o tipo e policiais corruptos, que sobrevivem, direta ou indiretamente, da repressão vigente.

Hoje, no Brasil, a situação chegou a tal ponto que a pergunta que deveríamos nos fazer é a seguinte: o que mata mais, as drogas ou a estrutura do aparato de repressão a elas?

600 MIL HOMICIDIOS

Tivemos, em nosso país, mais de 600 mil homicídios nos últimos dez anos. A população carcerária aumentou exponencialmente, e o número de crimes continua crescendo. Em nome do combate às drogas, morrem, todos os anos, policiais e traficantes, “aviões” e moradores, inocentes, da periferia. As prisões estão se enchendo, dia a dia, de pessoas que, muitas vezes, misturam substâncias químicas em casa, e que disputam o direito de vender essas substâncias – basicamente anfetaminas – como se fossem derivadas da cocaína.

Milhares de brasileiros têm sido assassinados ou roubados, dentro de suas casas, para que viciados possam comprar sua próxima pedra. Esse verdadeiro beco sem saída tem levado países como o Uruguai e alguns estados norte-americanos a mudar, paulatinamente, a forma de se tratar a questão das drogas ilícitas, começando pela maconha, cuja produção e consumo, inclusive para fins medicinais, têm sido progressivamente liberados.

As drogas – incluindo o álcool e o tabaco – são um problema de saúde pública e não de polícia. No Congresso, na imprensa, na sociedade, precisamos entender que a repressão, como único caminho, só vai levar a mais mortes, e a cada vez mais violência.

A Lista de Schindler e a Lista de Gaza

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Há poucos dias, foi demitido, do Colégio Andrews, no Rio, um professor que propôs aos seus alunos que refletissem e respondessem sobre a existência de eventual relação entre o comportamento do governo israelense em Gaza e o sofrimento infringido aos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Pode-se discutir se existe alguma ligação entre uma coisa e outra. Isso irá depender da visão de cada um. O que não se pode impedir ou proibir é que se faça esse tipo de perguntas. Há poucas semanas, por exemplo, um manifesto de 327 judeus, sobreviventes do holocausto, foi publicado nos EUA, chamando o que ocorreu em Gaza de genocídio, e judeus, inclusive ortodoxos, tem se manifestado, no mundo inteiro, contra política de agressão israelense. O texto dos sobreviventes judeus respondia a outro, divulgado pelo Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, que acusava os palestinos de estarem matando suas próprias crianças.

 

Wiesel faz parte de uma constelação de escritores que emigraram para os EUA no pós-guerra, e abraçando a nacionalidade norte-americana, fizeram de sua condição de judeus um passaporte para o sucesso em uma nova vida e um novo mundo.

Outros escritores judeus sobreviventes, como Primo Levi, preferiram se suicidar, anos depois do fim da II Guerra, por não suportar, entre outras coisas, viver em um planeta em que seus algozes das SS foram deixados livres pelos EUA, para servir como linha de frente de um eventual conflito contra os mesmos soldados russos que o  libertaram de Auschwitz, assim como teriam libertado também Wiesel, se este não tivesse sido transferido antes para Buchenwald.

LISTA DE SCHINDLER

No filme “A lista de Schindler”, o diretor Steven Spielberg narra saga de um empresário de sangue alemão nascido na Morávia, antiga Tchecoslováquia, em sua luta para salvar, corrompendo oficiais nazistas, cerca de mil prisioneiros judeus que trabalhavam para ele, em uma fábrica instalada dentro do campo de Plaszow, na Polônia.

Quando de sua libertação, os “judeus de Schindler”, escolhem uma frase para honrar a escolha de seu benfeitor, de tê-los livrado da morte nos campos de extermínio: “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

Gostaria de pensar que os judeus da “Lista de Gaza” que assinaram o manifesto nos EUA, foram escolhidos por Deus para sobreviver porque sua coragem os fez enfrentar de cabeça erguida o nazismo e os campos de extermínio, da mesma forma que agora enfrentam o sionismo, em defesa da dignidade e da liberdade humanas.

O judeu universal que enriqueceu com sua combatividade e talento a caminhada da história, não faz distinção entre o judeu e o não judeu. Para ele, assim como para os “judeus de Schindler”, cada ser humano, judeu, palestino, brasileiro, é a humanidade inteira.

Na lista de Schindler, não dá para incluir mais ninguém.

Na “lista de Gaza”, eu colocaria, para honrá-lo, mais um nome: o do professor João Monteiro, do Colégio Andrews, que tentou, com algumas perguntas, ensinar seus alunos a pensar, e foi demitido por isto.

O Brasil e os próximos anos

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil) 

À medida que estamos mais perto da eleição, se evidencia também a necessidade de avaliar as opções estratégicas que aguardam o Brasil nos próximos anos.

Hoje, muita gente acha que se nos aproximarmos muito do mundo em desenvolvimento, como a América do Sul, África e as potências emergentes às quais estamos unidos no BRICS – Rússia, Índia, China, África do Sul – estaremos nos afastando cada vez mais da Europa e dos EUA.

Há, entre certos tipos de brasileiros, os que continuam cultuando apenas o que existe em Nova Iorque, Miami ou Paris, como se não existisse mais nada neste mundo, e os arranha-céus mais altos do planeta não estivessem sendo construídos – para ficar apenas no símbolo de modernidade e pujança das “skylines” que fizeram a fama dos EUA – em cidades como Moscou, Dubai, ou Xangai.

Ataca-se a China por censurar o Google, mas não se atacam os EUA por usarem a internet para espionarem e chantagearem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo nações de quem se dizem “aliados” como é o caso do Brasil e da Alemanha.

Atacam-se os países do MERCOSUL por nos impor barreiras comerciais, mas não a Europa e os Estados Unidos por terem feito conosco exatamente o mesmo, nos últimos 200 anos, bloqueando – sempre que puderam – o desenvolvimento de tecnologia em nosso continente e absorvendo, antes e depois de nossa independência, basicamente matérias-primas.

MERCOSUL

Muitos esquecem que o MERCOSUL, com todas suas barreiras, continua o maior, e, às vezes, o único destino para nossas manufaturas. Que só para países como a Venezuela temos aumentado nossas exportações nos últimos anos.

Isso, enquanto têm diminuído nossas vendas e nossos ganhos – e os do resto do mundo – com a Europa e os EUA, no esteio das consequências de uma crise que já dura vários anos e que teve sua origem na desorganização e irresponsabilidade de do sistema financeiro que está sediado ao norte da linha do Equador.

A pergunta que cabe que nos façamos nos próximos anos é a seguinte: a que mundo pertencemos?

Ao da Europa e dos EUA, que sempre nos trataram como colônia e cidadãos de segunda classe a ponto de termos tido milhares de brasileiros expulsos de seus aeroportos há pouquíssimo tempo?

Ou ao mundo em desenvolvimento, onde a cooperação e a necessidade de agregar centenas de milhões de pessoas a uma vida mais digna abre a porta para a oportunidade da realização de acordos e negócios que podem influenciar e melhorar também nosso futuro?

ÁREA DA DEFESA

Assim como ocorre na área comercial e diplomática, o Brasil precisa melhorar sua condição de negociação com os EUA e a Europa na área de defesa, usando, para isso, a perspectiva e a ameaça, sempre presentes, de nos aproximarmos, também nessa área, cada vez mais dos BRICS.

Os Estados Unidos e a Europa sempre se mostraram refratários a transferir tecnologia sensível ao Brasil e a outras nações latino-americanas.

Os avanços conseguidos nesse campo pelos governos militares foram feitos a fórceps, como ocorreu nas áreas bélica e aeroespacial, depois do rompimento, pelo Governo Geisel, dos acordos de cooperação com os EUA na área militar, e a aproximação com a Alemanha no campo da utilização pacífica da energia atômica.

Os países “ocidentais” só aceitam transferir um mínimo de tecnologia bélica para países como o Brasil, quando a isso se veem obrigados pelas circunstâncias.

Isso ocorre no caso em que estejamos prestes a alcançar certos avanços sozinhos – e aí eles se aproximam para “monitorar” e “medir” nossos avanços- ou se tivermos outros parceiros, como China ou Rússia – dispostos a transferir para nossas empresas, técnicos ou cientistas, esse conhecimento.

REARMAMENTO

Depois do tímido esforço de rearmamento iniciado na última década, virou moda, nos portais mais conservadores, se perguntar contra quem estamos nos armando, se vamos invadir nossos vizinhos, ou, ridiculamente combater os Estados Unidos.

Muitos se esquecem, no campo da transferência de tecnologia na área de defesa, que sempre fomos tratados pelos Estados Unidos como um inimigo ao qual não se deve ajudar, em hipótese alguma, a não ser vendendo armas obsoletas ou de segunda mão.

No programa FX, de compra de caças para a Força Aérea, a BOEING norte-americana só concordou em transferir tecnologia para a Embraer – acordo que teria, antes de concretizado, de ser aprovado pelo congresso norte-americano – depois que os franceses, com o RAFALE, e os suecos, com o GRIPPEN NG BR, já tinham concordado em fazer o mesmo. E isso quando vários oficiais da Força Aérea Brasileira se manifestavam nos fóruns, torcendo abertamente pelo SUKHOI S-35 russo.

O melhor exemplo do que pode ocorrer, em caso de conflito, principalmente com algum país ocidental, se dependermos da Europa ou dos EUA para nos defendermos, é o argentino.

Na Guerra das Malvinas, as mesmas empresas que, antes, forneciam armas e munição para que o Regime Militar massacrasse a população civil, em nome da “guerra interna”, das “fronteiras ideológicas” e do “anticomunismo”, deixaram de fornecer armas e peças de reposição às forças armadas daquele país, para que não fossem usadas contra a Inglaterra.

SOB CONDIÇÕES

Os Estados Unidos só concordariam em fornecer armamento avançado ao Brasil, mas nunca no nível do deles, caso aceitássemos nos transformar em seus cães de guarda na América do Sul, como o faz Israel no Oriente Médio; ajudássemos a criar uma OTAN no hemisfério sul; ou concordássemos, como é o caso da Itália ou a Espanha, em participar em “intervenções” como as feitas por Washington em países como a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, correndo o risco de indispor-nos com milhões de brasileiros de origem árabe e de virar, de um dia para o outro, alvo de ataques, em nosso próprio território, de organizações radicais islâmicas.

Nos últimos anos, conseguimos desenvolver uma nova família de armas individuais 100% nacional, as carabinas e fuzis IA-2, da IMBEL; uma nova família de blindados leves, a Guarani, dos quais 2.050 estão sendo construídos também em Minas Gerais; desenvolvemos o novo jato militar cargueiro KC-390, da Embraer, capaz de carregar dezenas de soldados, tanques ligeiros ou peças de artilharia; voltamos a fortalecer a AVIBRAS, com a compra do novo sistema ASTROS 2020, e o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro com o alcance de 300 quilômetros; estamos construindo no Brasil cinco novos submarinos, um deles a propulsão nuclear e reator nacional, com a França, um estaleiro e uma nova base para eles; desenvolvemos a família de radares SABER; foi fechada, com transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto com a Suécia, a construção em território brasileiro de 36 caças GRIPPEN NG-BR (foto); conseguimos fazer, no Brasil, a “remotorização” de mísseis marítimos EXOCET; foi fechada a transferência de tecnologia e está sendo desenvolvido, com a África do Sul, o novo míssil ar-ar A-DARTER; foram comprados novos navios de patrulha oceânica ingleses; helicópteros e baterias antiaéreas russas; e aumentou-se a aquisição e a fabricação de helicópteros militares montados na fábrica da HELIBRAS.

CONTINUIDADE

Esses projetos, que envolvem bilhões de dólares, não podem, como já ocorreu no passado, ser interrompidos, descontinuados ou abandonados, nos próximos anos, pelo governo que assumir o poder a partir de janeiro de 2015.

Vivemos em um planeta cada vez mais multipolar, no qual os Estados Unidos e a Europa continuarão existindo e seguirão tentando lutando para se manter à tona contra uma lógica – e inexorável – tendência à decadência econômica, militar e geopolítica.

Nesse contexto, os EUA e a Europa têm que ser olhados por nós como potências que estão no mesmo plano, militar ou político, que a China, a Rússia, a Índia ou o próprio Brasil.

Como quinto maior país em população e extensão territorial, o Brasil tem a obrigação de negociar, e entrar no jogo, com todas essas potências, de igual para igual, e, nunca mais de forma subalterna. Sob a pena de perder o lugar que nos cabe neste novo mundo e neste novo século.

A imprensa ocidental e o gueto de Gaza

Mauro Santayana
(Revista do Brasil)

Nas últimas semanas tem chamado a atenção, mais uma vez, a diferença de tratamento entre dois temas e dois países: a Rússia, no âmbito da crise ucraniana, e ­Israel, no contexto de seu confronto com o Hamas e a destruição física e humana da Faixa de Gaza. Moscou – cujo governo pode ter, naturalmente, seus defeitos – tem sido acusada de agir como potência agressora no país vizinho, quando, na verdade, está defendendo o último espaço teoricamente neutro que lhe restou após a queda do muro de Berlim. Quando do fim da União Soviética, e do próprio desarme nuclear da Ucrânia, os Estados Unidos comprometeram-se a não atrair os países do antigo Pacto de Varsóvia para a órbita da Otan, e, assim, não cercar, com tropas hostis, o território russo.

De lá para cá, em menos de 20 anos, várias nações, entre elas a República Tcheca, a Hungria e a Polônia, abdicaram de qualquer neutralidade e se agregaram à aliança ocidental, envolvendo a Rússia com um anel de aço. Nele, não existem apenas soldados inimigos, mas também podem ser colocados mísseis com capacidade de atingir as principais cidades do país em poucos minutos, e em menos da metade do tempo do que levariam suas armas nucleares para chegar ao território dos Estados Unidos.

Quando da “independência” da Ucrânia, em 1989, ficaram dentro de seu território milhões de russos étnicos que haviam compartilhado durante anos, com os ucranianos, a cidadania soviética. Esses cidadãos não aceitam se aliar ao “ocidente” para combater sua própria gente, sua própria história, sua própria cultura, que estão também nos territórios russos que existem do outro lado da fronteira.

GÁS SUBSIDIADO

Antes da queda do governo que estava no poder até fevereiro, os russos subsidiavam o gás vendido à Ucrânia, e procuravam estabelecer com ela maiores laços econômicos, para que o país não caísse totalmente sob a influência dos Estados Unidos e da União Europeia. Manobras ocidentais romperam o precário equilíbrio existente dentro da sociedade ucraniana, levaram à queda de Yanukovich e à ascensão, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, de membros de partidos neonazistas a um governo de um país europeu. A isso, se seguiu a ocupação, por Putin, da mais russa das regiões ucranianas, a Crimeia. Por mais que a imprensa dos Estados Unidos diga o contrário, no mundo real nem o governo ucraniano nem o atual governo israelense podem ser “vitimizados”.

O magnata Petro Poroshenko chegou ao poder no rescaldo da derrubada de um governo eleito, sob um pretexto que até hoje é colocado em dúvida: a morte de civis na etapa final das manifestações da Praça­ Maidan, por policiais ligados ao regime anterior, quando, na verdade, há fortes indícios de que os tiros foram disparados por franco-atiradores neonazistas, interessados em criar um fato que servisse de “ponto de virada” na situação ucraniana.

No caso da derrubada, não do governo Yanukovich, mas do avião malaio que caiu no leste da Ucrânia, é preciso perguntar: a quem interessava o crime?

QUEDA DO AVIÃO

Com vários aviões de guerra abatidos nas últimas semanas, e impossibilitado de retomar, pelas armas, grandes cidades como Donetsk e Karkhov, o governo ucraniano encontra na queda de um avião civil, com grande número de passageiros ocidentais a bordo, um excelente “ponto de virada” para tentar impedir que os independentistas de etnia russa continuassem a derrubar suas aeronaves, e colocar Putin contra a parede, obrigando-o, por sua vez, a pressioná-los.

Afinal, o presidente russo acabara de marcar importantes pontos em seu jogo de xadrez contra os Estados Unidos, retornando de vitoriosa viagem à América Latina, na qual participara da criação do Banco e do Fundo de Reservas do Brics, e mostrara que tem suficiente jogo de cintura para se furtar às tentativas “ocidentais” de isolá-lo internacionalmente.

E o que teria ocorrido, caso – como disseram fontes russas – tivesse sido atingido o avião de Vladimir Putin, que cruzou a mesma rota do voo da Malaysia Airlines? Os ucranianos não teriam da mesma forma – com a ajuda da imprensa “ocidental” e como fizeram com o avião malaio – acusado os rebeldes de ter derrubado o avião presidencial russo, por engano? Em todo caso, os últimos interessados e os que tinham mais a perder com a explosão do avião da Malaysia Airlines teriam sido exatamente os russos e os rebeldes ucranianos.

IMPRENSA OCIDENTAL

Enquanto a imprensa ocidental acusa os rebeldes e, eventualmente, o próprio Kremlin,­ de ter derrubado o avião de passageiros, Obama afirma que Israel – que acusa sem confirmação o Hamas de sequestro e assassinato de três adolescentes – “está apenas se defendendo”, na Faixa de Gaza, e é acompanhado, nisso, pelos mesmos “analistas” e editorialistas que atacam o comportamento da Rússia na Ucrânia.

Há pouca diferença dessas campanhas com outras, como a que afirmou, durante anos, sem nenhuma prova, que havia armas de destruição no Iraque. A imprensa nazista passou anos recorrendo ao mesmo tipo de gente, de “analistas” raciais a “entendidos” em geopolítica, para explicar e contextualizar os perigos do judaísmo para o mundo, e a sua vinculação com os bolcheviques comunistas.

Quando a Alemanha de Hitler dominava a Europa, os nazistas costumavam matar dez reféns para cada soldado alemão que sofria um atentado. Na ofensiva de Tel-Aviv em Gaza, a mídia “ocidental” parece achar normal que a proporção de civis mortos e feridos, seja de mais de 20 palestinos para cada israelense atingido em combate ou pelos foguetes artesanais do Hamas, e que boa parte do território – com mais de 4 mil habitantes por quilômetro quadrado – já tenha sido destruída, deixando mais de 100 mil desabrigados.

GERANDO ÓDIO

Ao bombardear mulheres e velhos, meninos e meninas, apartamentos e ruas de Gaza, Israel implantou, regou e alimentou, com ossos e sangue – como faziam os nazistas com suas experiências com repolhos no campo de extermínio de Maidanek – um ódio profundo e incomensurável em nova geração de palestinos, da mesma forma que, ao destruir o Iraque, os Estados Unidos abriram caminho para Bagdá e Mossul para os terroristas da Al Qaeda.

Quando se tornar impossível a sobrevivência e a permanência, dentro das estreitas fronteiras de sua gaiola de escombros, cercada por muros e arame farpado, dos quase 2 milhões de palestinos que vivem em Gaza, será que os israelenses se inspirarão em seus algozes de um outro gueto, o de Varsóvia? Lá, judeus de toda a Europa foram amontoados, sem água, luz, comida ou aquecimento, durante meses a fio, para morrer de tifo e outras doenças contagiosas. Finalmente, foram levados para campos – como Israel pode fazer com os palestinos – se quiser, teoricamente, assisti-los “humanitariamente”.

A outra opção é entrar – como fizeram os SS do Brigadeführer Jürgen Stroop há exatamente 71 anos – com tanques e lança-chamas no meio das ruínas, no Gueto de Varsóvia, e caçar, um por um, os sobreviventes, até o último homem, mulher ou criança, como se fossem ratos.

As ações do governo israelense são muito contestadas por parte da oposição israelense e também por integrantes da comunidade judaica espalhados pelo mundo. Mas a julgar pelo noticiário da imprensa “ocidental”, essas vozes dissonantes tampouco existem.

 

O chocalho e a serpente

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Cascavel é o quinto município mais populoso do Paraná, e o nome dado às cobras dos gêneros Crotalus e Sistrulus, que possuem um chocalho característico na cauda.

Em Cascavel, há um presídio, no qual eclodiu, há três dias, uma rebelião. Presos ligados ao PCC denunciaram as más condições do presídio, exigiram e obtiveram a transferência de detentos para outras unidades e executaram vários reféns, decapitando um deles, e jogando outros de cima do telhado.

Com cimento, ferro e pedra, comprados pelo governo ou doados pela iniciativa privada, milhares de presos condenados, mantidos, hoje, em situação animalesca, poderiam trabalhar na construção de novas celas para o cumprimento de suas penas em condições mais dignas.

Milhares de vagas poderiam ser abertas, também, com assistência jurídica aos 40% da população carcerária que se encontram atrás das grades sem acusação formal, advogado, ou julgamento.

PEQUENOS CRIMES

Enquanto pequenos “traficantes” continuam a ser presos, às dezenas, todos os dias, com 20 ou 30 pinos de ácido bórico misturado com bicarbonato e menos de 100 reais em dinheiro no bolso, transformando-se, nas prisões, em aprendizes e “soldados” de organizações criminosas, não existe sequer uma lei que proíba fumar em parques públicos, para evitar que crianças e adolescentes sejam apresentados à merla e ao crack, quando estão matando aula da escola de segundo grau da esquina.

O sistema, se quisesse, poderia ter evitado a morte dos reféns assassinados no telhado do presídio de Cascavel, jogando bombas de gás lacrimogêneo, ou atingindo, de forma não letal, com o uso de “snipers” e balas de borracha, os detentos escolhidos para o papel de executores, garantindo, assim, a sobrevivência das vítimas, que – não importa o crime que tenham cometido – se encontravam sob custódia do estado. Mas não o fez.

Às vezes, é melhor deixar que os assassinatos e as decapitações ocorram, ao alcance das câmeras de televisão, por seu efeito “didático”.

DESUMANIZAÇÃO

Cenas como essas contribuem para a desumanização dos presos aos olhos da sociedade, e para que muitos justifiquem a tortura de detentos e a ocorrência de massacres como o do Carandiru. Não importa que, para isso, a Nação passe vergonha, e se evidencie, para o resto do mundo, as condições medievais que imperam em nosso país, na área prisional e de segurança, em pleno século XXI.

O que vimos em Cascavel esta semana poderia ter ocorrido, mais uma vez, em Pedrinhas, no Maranhão, ou em outras prisões em que se multiplicaram episódios semelhantes nos últimos anos.

É um símbolo da venenosa sopa que estamos cozinhando, dentro das prisões, com a mistura de preconceito, ignorância e incompetência, no trato da questão das drogas em nosso país.

É preciso saber ouvir – e interpretar – o som do chocalho da serpente, e mudar de rumo.

Paulo Bernardo, o BNDES e o leilão de 4-G

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

A Justiça Federal de Brasília determinou que o BNDES divulgue, em seu site, informações detalhadas sobre todos os empréstimos a empresas públicas ou privadas feitos nos últimos dez anos, e, de forma atualizada, a partir de agora. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social recorreu, alegando sigilo bancário.

Para obrigar o banco a divulgar as informações, a justiça afirma que a instituição está sujeita à Lei de Acesso a Informações Públicas.

A primeira questão que se coloca, nesse caso, é a da isonomia. Ao exigir do BNDES que libere essas informações, em um mercado no qual compete com instituições nacionais e estrangeiras, a justiça prejudica a competição, e o país, dando injustificável vantagem à iniciativa privada, que teria acesso a informações, hoje, sigilosas, sobre a política de crédito do banco, sem necesitar – apenas pelo fato de pertencer a acionistas e controladores particulares – fazer o mesmo.

O segundo problema é de caráter estratégico. O BNDES tem, entre outras atribuições, a de financiar a exportação de serviços e equipamentos nacionais para o exterior, e, nisso, compete com instituições similares de outras nações, que, como ele, também se dedicam a apoiar empresas de seus respectivos países nos mercados internacionais.

SIGILO

Esses bancos estrangeiros, como o Eximbank norte-americano, o JBIC japonês, ou o BCE, que repassa recursos para diversas instituições europeias de fomento, tem suas respectivas estratégias de apoio a setores exportadores de ponta e também não tornam públicas suas informações, principalmente quando em fase de negociação de contratos.

Em alguns casos, como a exportação de armamentos e outros equipamentos estratégicos, as informações só podem ser divulgadas depois de dezenas de anos.

Se alguém acha que os EUA, a Europa, o Japão, a China, sobreviveriam nos mercados internacionais sem esse tipo de instrumento ou instituição, é ingênuo ou está mal informado.

Seria ótimo que, no cumprimento de sua missão de apoiar o desenvolvimento e o empresariado brasileiro, o BNDES só emprestasse dinheiro para empresas autenticamente nacionais, e não para multinacionais estrangeiras, que tem sido beneficiadas, nos últimos anos, com volumosos recursos públicos a baixo custo, até mesmo na hora de adquirir empresas brasileiras, como ocorreu, muitas vezes, nas privatizações dos anos 1990.

TELEFONIA

Esse é o caso, agora, da intenção do Ministro Paulo Bernardo, de pedir ao BNDES que financie o pagamento, por operadoras de capital estrangeiro, da outorga do serviço de telefonia celular 4G, em um valor aproximado de 8 bilhões de reais.

Normalmente, o BNDES não oferece financiamento para o pagamento de outorgas por empresas ao governo federal, mas sim – teoricamente – apenas para investimentos.

É preciso definir o que é e o que não é capital estrangeiro no Brasil.

Se a empresa é estrangeira, se ela envia, todos os anos, como fazem as operadoras de telefonia espanholas, mexicanas, italianas, bilhões de dólares para o exterior, se elas já pegam – como ocorreu com a Vivo, centenas de milhões de reais para financiar, a custo subsidiado, a expansão de sua rede e de suas atividades no mercado nacional – o mínimo que se espera é que tragam de fora, de suas matrizes, os recursos a serem pagos por outorgas que aumentarão extraordináriamente seus lucros, e o envio de mais dinheiro auferido dos consumidores brasileiros, para o exterior, nos próximos anos.

USAR O BNDES

O que não podemos é continuar a usar recursos do tesouro, ou do BNDES, para financiar empresários estrangeiros, em áreas como a de serviços de telefonia, onde a maioria dos equipamentos são importados e a maior parte dos empregos gerados pertencem ao âmbito do que se convencionou chamar de “telemarketing”.

Entendemos, de telefonia celular, a mesma coisa que entendiam os mexicanos, portugueses e italianos – longínquos descendentes de Marconi – que aqui aportaram no final do século passado, para se assenhorear da maior parte de nosso mercado de telecomunicações – rigorosamente nada.

Mas se for para não colocar um centavo e nos financiar com dinheiro do BNDES, também estaríamos dispostos a entrar nessa disputa do leilão de 4G.

Querendo dar a entender que é rigoroso com as operadoras, o Ministro das Comunicações (na foto, ao lado do risonho ex-vice presidente da ANATEL e atual presidente do grupo espanhol Telefónica do Brasil (Vivo) Antônio Carlos Valente) , afirmou que não irá postergar a realização do leilão, marcado para o próximo mês – como queriam a própria Telefónica e a Telecom Itália, que no momento estão se engalfinhando para tentar ficar com o controle da GVT.

“O governo não tem nada com isso”, afirmou. A mesma lógica deveria valer para o financiamento do pagamento das outorgas por empresas, que, em sua maioria, sequer são daqui. As multinacionais que se financiem com os recursos de suas matrizes. O BNDES não tem nada com isso, e muito menos o Brasil.

As sanções russas, a União Europeia e o acordo com o Mercosul

Mauro Santayana

Com dificuldades para fechar sua proposta comercial para o Mercosul, devido à resistência de seus próprios agricultores, a União Europeia está para  arranjar uma excelente desculpa para suspender as negociações.

O processo seria suspenso devido à disposição dos países do grupo, principalmente Brasil, Argentina e Uruguai, de substituir a Europa no fornecimento de comida à Rússia, após o embargo de Moscou à importação de alimentos da Polônia.

O discurso, para consumo interno, seria o seguinte: mais uma vez, nossa aproximação com o BRICS e o Mercosul, estaria “atrapalhando” nossa inserção no mercado dos EUA e da União Europeia, e fazendo com que estejamos perdendo espaço, no comércio internacional, para a Aliança do Pacífico.

Enquanto isso, no mundo real, nosso maior parceiro comercial não é nem os EUA nem a União Europeia, é a China, os maiores destinos para nossas manufaturas e bens de consumo são Argentina e Venezuela, nossos maiores superávits são com Pequim e Caracas, o salário mínimo mexicano equivale a 10.99 reais por dia e a “avançadíssima” Aliança do Pacífico só tem uma universidade entre as 200 melhores do mundo, a UNAM, enquanto o Brasil tem seis, e a USP, entre as primeiras 150, está à frente de qualquer universidade espanhola ou mexicana.

Destino, política e democracia

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

A trágica morte de Eduardo Campos, nos faz refletir, mais uma vez, sobre a implacável influência do destino na história dos povos e das Nações.

Para o homem público ou o eleitor engajado, a política tende a ser construção estratégica, que leva uma liderança ou grupo ao poder, como instrumento de mudança da realidade social e econômica de um país.Há, também, os que incluem nessa construção, a busca do consenso para o enfrentamento das grandes questões que afetam as sociedades em um determinado momento de sua história.

Esse entendimento, essa negociação, que nem sempre se dá apenas no Parlamento, é especialmente frequente nos meses que precedem a disputa de cargos eletivos, e vai da conversa entre  eleitores no bar da esquina, à disputa pelo município, pelo Estado e pelo País, dependendo do tipo de pleito que estiver em pauta.

Ao raciocinar sobre os fatos, analistas políticos, candidatos, eleitores, tendemos a observar a realidade à nossa volta, a tecer nossas conjecturas, e a amadurecer nossas opiniões, estabelecendo, com  maior ou menor convicção, nossas conclusões. Mas, também nos esquecemos, muitas vezes, que, além de todos e de tudo, existem outros fatores, entre eles, o imponderável.

Um ator que pode ser definitivo, dependendo da maneira como opera, corta, muda, influencia, o desenvolvimento dos acontecimentos.

TRÁGICOS EXEMPLOS

A história brasileira está cheia de trágicos exemplos dessa intervenção do destino, alguns, fruto da própria história, como o suicídio de Getúlio Vargas, que a isso foi levado pela odiosa campanha movida contra ele por Lacerda, os militares golpistas, e a imprensa anti-nacional que existia na época.

Desse rol faz parte, também, a renúncia de Jânio, tão premeditada quanto desastrada em suas consequências.

Outro é o caso em que o inesperado surge e se impõe independente de qualquer interferência humana provável, como foi a doença de Tancredo, ou, agora, da morte de Eduardo Campos, que ocorreu, por triste coincidência, no mesmo dia do falecimento de seu avô, Miguel Arraes.

Jovem, inteligente, cativante, Eduardo Campos deixou numerosa família, que nos inspira os melhores sentimentos de respeito e solidaridade.

INFLUÊNCIA NO PROCESSO

Seu desaparecimento, no entanto, da forma como se deu, interrompeu  não apenas sua própria vida e a de quem o acompanhava, mas o próprio curso político, e terá profunda influência no processo eleitoral.

Em outras épocas, uma tragédia dessa magnitude poderia trazer trágicas consequências para o país, as liberdades individuais e o estado de direito.

No Brasil de 2014, as reações à sua perda, de todo o espectro político, mostram que estamos, como sociedade, cada vez mais equilibrados, maduros e preparados, para conviver com as diferenças, em um ambiente de solidez das instituições e da própria democracia, pela qual lutaram, tantos brasileiros, incluindo aqueles que, hoje, ocupam as primeiras posições na disputa pela Presidência da República.

A conta de Gaza

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Confrontado com a tragédia humanitária em Gaza, o Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, declarou que o conflito entre Israel e o Hamas precisa ter fim, e que a ONU está disposta, “pela última vez”, a ajudar na reconstrução da área.

Na região, as coisas funcionam assim: Israel destrói o que quer, quando quer, e depois o mundo paga a conta, até o próximo ciclo de destruição/reconstrução/destruição.

A conta em sangue de Gaza, que chegava, anteontem, a mais de 1.900 palestinos mortos, sendo 1.380 não combatentes, entre eles 423 crianças, e a milhares de feridos, é incalculavelmente cara, e, como outros massacres históricos contra a população civil, jamais poderá ser resgatada.

Além do preço em vidas, dor, assistência médica de emergência, cuidados com pessoas que ficarão paraplégicas, tetraplégicas, e que precisarão de atenção pelo resto de suas vidas, há, ainda, o custo da reconstrução física do que está sendo arrasado pelas armas e bombas israelenses.

12 MI RESIDÊNCIAS DESTRUIDAS

Há uma semana, a ONU calculava que cerca de 12.000 casas e apartamentos já tinham sido destruídos, com um prejuízo de 4.5 bilhões de dólares, mas avaliações palestinas, que incluem estradas, escolas, hospitais e  outras instalações, chegam a 6 bilhões de dólares.

Segundo Mahir Al-Tabaa, Presidente da Câmara Comercial e Industrial de Gaza, 350 indústrias teriam sido bombardeadas, incluindo 50 fábricas essenciais para a sobrevivência da população.

Israel recebe todos os anos, bilhões de dólares em ajuda norte-americana. Se fossem condenados a devolver à Organização das Nações Unidas – e o Brasil, como país membro, e contribuinte, poderia trabalhar nesse sentido – o dinheiro que a ONU irá gastar para reerguer o que destruíram, talvez, embora seja improvável, os dirigentes israelenses viessem a pensar duas vezes antes realizar novos ataques.

SENTINDO NO BOLSO…

Mesmo contando com o apoio dos EUA, Israel sentiria, digamos, ao menos, no bolso,  a dimensão da destruição que está promovendo em Gaza.

E caso se recusasse a devolver esses recursos – como têm feito, desrespeitando, historicamente, as resoluções da ONU, organização que possibilitou-lhe a existência – a conta poderia ser apresentada aos EUA, que está armando Tel Aviv permanentemente, mesmo depois de iniciado o conflito.

Caso isso ainda não fosse possível, poderiam ser adotadas sanções e retaliações comerciais. Em último caso, o Israel seria, ao menos, moralmente, mais uma vez, condenado, por seus atos, pela maioria da humanidade.

Enquanto nos indagamos quem pagará a conta de Gaza, o que muitos palestinos se perguntam, nas tréguas intermitentes, seguidas da retomada da violência –  e depois de três agressões sionistas nos últimos seis anos – não é se poderão reconstruir suas casas, mas se seus filhos conseguirão, agora ou nos próximos anos, sobreviver à próxima bomba, ou a uma nova invasão  israelense.

Dançando com o Financial Times

Mauro Santayana 

Parece que Ygal Palmor, aquele do “desproporcional é 7 x 1” anda fazendo escola lá pelos lados da terra da Rainha, na hora de criar “divertidas” comparações sobre o Brasil.

Talvez inspirados pelo fato de termos sido chamados de “anões diplomáticos” pelo porta-voz israelense – cujo governo acaba, por isso mesmo, de pedir desculpas ao nosso – o ingleses do Financial Times compararam o crescimento econômico do Brasil à “dança da cordinha”, na qual, a cada volta, o participante tem que descer cada vez mais baixo.

Compreende-se a preocupação inglesa. Em termos históricos, de 2002 a 2014, enquanto a Inglaterra passava por baixo da corda, o Brasil pulava por cima, avançando, em apenas 12 anos, da décima quarta posição, para lutar, justamente com a Grã Bretanha, pela posto de sexta maior economia do mundo por PIB nominal.

Mesmo no ano passado, se quisessem dançar com o Brasil a “dança da cordinha”, os ingleses teriam, praticamente, que se contorcer bem mais perto do chão, já que o seu PIB foi de 1.8% e o nosso, de 2.5%.

ACREDITE SE QUISER

No mundo das previsões, desde a época do Oráculo de Delfos, cada um acredita no que quer. Os ingleses escreveram sua matéria com base nas informações dos “analistas” do Boletim Focus, que raramente acertaram suas previsões nos últimos anos.

Já na opinião do FMI – em quem, nem por causa disso, se deve confiar – em 2020 o Brasil será a quinta economia do mundo, e a Inglaterra, a oitava. E em 2030, a Inglaterra, será a décima, e o Brasil ocupará o quinto lugar, entre as maiores economias do planeta.

As desculpas israelenses

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

O Palácio do Planalto informou, em nota, que o Presidente eleito de Israel, Reuven Rivlin, telefonou para a Presidente Dilma Roussef, e pediu desculpas pelas declarações de Yigal Palmor, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores de Israel. Esse funcionário classificou, em entrevista ao Jornal “The Jersusalem Post”, nosso país como um “anão diplomático”, após a retirada do embaixador brasileiro em Israel, para consultas, em consequência da “desproporcionalidade” da resposta militar israelense, em seus ataques contra  a população palestina da Faixa de Gaza.

Em sua entrevista, Yigal Palmor respondeu também à posição brasileira, com ironia, afirmando que  “desproporcional é perder de 7 x 1”, lembrando o placar da derrota do Brasil para a Alemanha, na Copa do Mundo.

Depois do incidente diplomático com o Brasil, Israel perdeu, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, por 29 votos a um – só os EUA ficaram ao lado do governo sionista – em votação que aprovou resolução recomendando a investigação de sua atuação em Gaza.

Além  disso, o Brasil conseguiu, na Cúpula do Mercosul de Caracas, o mais amplo apoio à sua posição com relação a Gaza, e mais três países, Chile, Peru e Equador, tomaram decisão semelhante à sua, chamando também seus embaixadores nomeados para Telaviv para consulta.

DESPROPORCIONAL… 

No contato com o presidente israelense, o governo brasileiro reafirmou os laços que unem brasileiros e israelenses, há muitos anos, mas Dilma Roussef reafirmou, também, que o Brasil continua achando desproporcional a força utilizada por Israel, no contexto da intervenção em Gaza, e que continuará lutando pelo direito de palestinos e israelenses à paz, à vida e à dignidade.

Como brasileiros, recebemos e agradecemos as desculpas do novo Presidente israelense, Reuven Rivlin.

Ficaríamos, alguns de nós, no entanto, mais satisfeitos, se seu país dirigisse também seu arrependimento – ao menos in memoriam – às centenas de palestinos, inclusive mais de 400 crianças, que já não se encontram entre nós, e que morreram pelas suas armas, entre  os escombros de Gaza nas últimas semanas.

Para nós, a morte de um cidadão israelense, atingido por um foguete do Hamas, é tão grave como a morte de um  cidadão palestino, atingido por uma bomba da aviação israelita, ou pelas balas de um soldado de Israel.

Só não nos peçam para acreditar, ou aceitar, que a morte de 3 civis israelenses é tão grave como a de quase 2.000 cidadãos palestinos e a destruição de milhares de casas, escolas, ruas, hospitais, que deixou dezenas de milhares de feridos e de refugiados sem um lugar para se abrigar.

A morte de Eduardo Campos e a memória de Arraes

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

A morte de Eduardo Campos é uma dura perda para a democracia, e ocorre na mesma data de agosto em que seu avô, Miguel Arraes, faleceu, há nove anos.

A notícia estarreceu o país. Eduardo era uma das mais marcantes lideranças da nova geração de brasileiros, e entrou para a vida pública logo após a formação universitária, como secretário particular do governador Arraes, cargo em que se destacou, e teve suas lições de política. Essa circunstância o aproximou de Aécio Neves, que também foi secretário do avô, Tancredo, e com ele aprendeu as regras básicas da vida pública.

A sua morte complica o quadro sucessório. Quando se passarem os três dias de luto, começará, como é natural, a busca de seus votos. A singularidade das duas biografias tende a favorecer Aécio, mas não assegura, por si só, os sufrágios. Eduardo, como é do jogo político, contava com o segundo turno – como parece certo – a fim de bem negociar seu futuro. Sua ambição era a presidência, e quem ambiciona esse cargo não conta com obstáculos, mas tampouco dispensa os acordos, quando necessário. Na política, mais do que tudo na vida, a esperança é a última que morre.

A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA

Mais do que do futuro vale lembrar os méritos de Eduardo e a importância da família na vida brasileira.  Quando Eduardo ainda não havia nascido, seu avô foi arrancado com violência de seu gabinete no Palácio das Princesas, e metido na prisão em Fernando Noronha, onde passou onze meses. Seu advogado, Sobral Pinto, impetrou pedido de habeas corpus junto ao Supremo Tribunal Federal, que o concedeu por unanimidade. Sobral aconselhou-o a aproveitar a liberdade e partir imediatamente para o exílio. Seu destino era a França, que lhe negou asilo. Partiu então para a Argélia, onde conseguiu trabalho e viveu até a anistia. Eu o conheci quando era prefeito de Recife e o entrevistei para o Binômio, semanário de Belo Horizonte.

O melhor depoimento sobre Arraes governador é uma série de reportagens publicadas neste Jornal do Brasil por Antonio Callado. A brutalidade dos senhores de engenho e a miséria dos trabalhadores rurais era tal, que Callado a resumiu em uma frase: ali, a honra, como o banheiro só existia na casa grande. As filhas dos trabalhadores da cana, como seus pais, a ela não tinham direito. Arraes incentivou Francisco Julião e suas ligas camponesas, para descobrir, mais tarde, que elas só existiam no verbo inflamado de seu pretenso líder.

Mas conseguiu, durante seu governo, aumentar o salário dos trabalhadores dos canaviais e dos engenhos, e promover a formação dos sindicatos rurais como braço político das ligas camponesas.

É essa tradição de vida pública, que ele soube seguir, que se interrompe com a morte de Eduardo Campos.

Salário mínimo no México está abaixo da linha de pobreza – menos de 11 reais por dia

Mauro Santayana

Para os que adoram citar as “maravilhas” da Aliança do Pacífico, o México, que, nunca é demais lembrar, cresceu a metade do Brasil no ano passado, é o único país da América Latina em que o salário mínimo está situado abaixo da linha de pobreza. A informação é da CEPAL, que fez um estudo sobre a base de remuneração vigente nos países da região e sua influência no combate à desigualdade.

As principais conclusões do estudo são que, em países como a Argentina, o Brasil, o Chile e o Uruguai, salários mínimos mais fortes, aumentados progressivamente, além de não prejudicar a criação de empregos, melhoram a distribuição de renda, fortalecem o consumo e o mercado interno, combatem a desigualdade e aumentam a formalização dos trabalhadores.

O levantamento também mostra que a Costa Rica é o país que está melhor nesse aspecto, com um salário mínimo de 3,18 vezes a renda que equivale à linha de pobreza, e o México, o que está pior, com um salário mínimo um pouco abaixo da linha de pobreza.

INFORMAIS

Comentando as conclusões da CEPAL, Miguel Angel Mancera, que chefia o executivo da Cidade do México, afirmou que o país,  no qual a maior parte dos trabalhadores se encontra na informalidade,  está vivendo “um novo processo de precarização do emprego”, e José Narro, reitor da UNAM, Universidade Nacional Autônoma do México,  lembrou que “é preciso aprofundar a distribuição da riqueza e equilibrar a macro e a micro economia, com a participação de todos os setores sociais, para combater a desigualdade e a pobreza”.

Para quem acha que a situação está muito ruim no Brasil, um deputado federal ganha, por mês, 148.446 pesos no México, e um trabalhador que recebe salário mínimo  – omeme que ilustra o post é do ano passado – leva para casa, atualizados, na área geográfica “A”, 67.29 pesos, e, na área geográfica “B”, 63.77, ou, no câmbio de ontem, 10,99 reais por dia. E depois dizem que os escravos estão na China.

Deu a louca nos gringos

Mauro Santayana

O BRICS, com sua recente cúpula no Brasil, deve estar realmente deixando os Estados Unidos loucos. A CNN, em matéria recente sobre uma ataque de vespas gigantes na China, que matou 42 pessoas, não teve dúvidas, e, na hora de mostrar a localização do país de Mao Tsé Tung e de Hong Kong, situou a ex-colônia britânica, e atual província chinesa, mais ou menos na altura do Rio de Janeiro.

É certo que China e Brasil estão no mesmo grupo, e são o maior e o quarto maior credores individuais externos dos EUA, mas a cadeia de televisão, tão pródiga em abrigar a nata, ou a espuma, se quiserem, do jornalismo conservador e anticomunista latino-americano, errou pela “pequena” distância, em linha reta, de apenas 16.633 quilômetros.

 

A Vivo, a TIM e a GVT

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Disposta a consolidar, a ferro e fogo, seu controle sobre o mercado brasileiro de telecomunicações, a Telefónica da Espanha, dona da Vivo, volta agora sua cobiça para a GVT. Segundo anunciado pela imprensa europeia, a empresa ofereceu à Vivendi francesa, pouco mais de 20 bilhões de reais pelas operações da GVT no Brasil.

Antes, já tentara tomar, indiretamente, parte do controle da TIM, com a compra de participação acionária em sua matriz. As ligações entre a Telefónica e a Telecom Itália, que estaria também interessada na compra da GVT, são apenas a ponta do iceberg do mercado mundial de telecomunicações: um negócio gigantesco, no qual meia dúzia de sujeitos, donos de meia dúzia de grandes empresas privadas, explora centenas de milhões de consumidores, levando dinheiro, a cada vez que eles usam um telefone fixo, um computador, um celular ou uma televisão.

As únicas nações que escapam disso, dessa verdadeira escravidão digital, são aquelas que mantiveram suas próprias telecoms –  grandes companhias de telecomunicações – nas mãos do estado, como fez a China, por exemplo, dona da maior empresa de telecomunicações do mundo, condição da qual o Brasil abdicou ao esquartejar e vender, majoritária e criminosamente a estrangeiros, a área de prestação de serviços  da Telebras, no final dos anos 1990.

TELEFÓNICA

A Telefónica ganhou, líquidos, no primeiro semestre de 2014, dois bilhões e seiscentos e cinquenta milhões de reais no Brasil, triplicando, entre abril e junho, os lucros do primeiro trimestre, que foram de 660 milhões de reais. Além dos bilhões que envia todos os anos para a Espanha, a empresa, que deve centenas de milhões de reais ao BNDES, ainda cobra “juros” sobre o capital de sua subsidiária brasileira, que pelo que se prevê, chegarão, em 2015, a quase 100 milhões de euros.

É preciso lembrar ao CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica, ao Congresso, à imprensa e à sociedade, que, na área de telecomunicações, o que o Brasil precisa não é de uma situação de virtual cartel, com grandes empresas estrangeiras controlando cada vez mais nosso mercado, mas de novos concorrentes, que possam oferecer serviços melhores e a um  custo menor para um público que já paga, por péssimos serviços, segundo organizações internacionais, das maiores tarifas de telefonia celular do mundo.

No Brasil, o que precisávamos, desde o início, era de uma empresa privada 100% nacional que pudesse fazer isso, ou que a TELEBRAS tivesse sido mantida no mercado para fazer frente aos espanhóis, italianos e mexicanos que para aqui vieram na década de noventa.

A compra da GVT pela Telefónica, caso seja concretizada, evidenciará duas coisas: a irresponsável entrega do mercado nacional para uma empresa estrangeira, e a total inexistência, no Brasil, de uma política de defesa da concorrência digna desse nome.

Por que os EUA perdem

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

O Brasil e os Estados Unidos, cada um por suas  razões, acabam de retirar seu pessoal diplomático de Trípoli, na esteira da desastrada intervenção dos EUA e da OTAN na Líbia, que teve como consequência a entrega de uma das mais desenvolvidas nações do continente africano a uma matilha de quadrilhas radicais islâmicas, após a derrubada e o assassinato de Muamar Kadafi, em 2011.

Brasília está fechando sua embaixada para proteger seus funcionários. Os EUA, porque, assim como ocorreu no Iraque, foram taticamente derrotados e falharam em colocar no poder governos fantoches, apesar de terem destroçado política e socialmente esses países, deixando, como está acontecendo na Síria, como rastro de sua interferência, direta ou indireta, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados.

Único país do mundo a possuir, sem necessidade de lastro, uma impressora de dinheiro em casa, e a contar com gigantesca máquina de inteligência, espionagem e propaganda, os EUA teriam tudo para, se quisessem, como diria o teórico da auto-ajuda Dale Carnegie, “ganhar amigos e influenciar as pessoas”, incentivando a paz e o desenvolvimento nos países mais pobres, por meio de “soft power”.

CINCO MOTIVOS

Cinco principais razões, no entanto, impedem a república norte-americana de fazer isso:

Em primeiro lugar, o grande business do medo, tocado, protegido, irrigado como frondosa e delicada árvore, todos os dias, por milhares de pseudo-intelectuais, “filósofos”, acadêmicos, “pesquisadores” e jornalistas, que vivem de provocar, induzir e realimentar as indústrias do anti-comunismo, do anti-islamismo, do “anti-chinesismo”, do anti-russismo, do anti-castrismo, do antibolivarianismo, etc.

Em segundo lugar, o complexo imperial da direita fundamentalista norte-americana, que acredita, piamente, ter herdado, dos pais fundadores, exclusivo e expresso mandato recebido – como as Tábuas da Lei –  diretamente das mãos de Deus, para conduzir o mundo e o destino da Humanidade.

Em terceiro lugar, a política interna, na qual democratas e republicanos, e concorrentes a indicações e a candidaturas, às vezes até do  mesmo partido, se acusam mutuamente de desdenhar a segurança, o que coloca a questão da defesa sempre em primeiro plano no embate político, partidário e eleitoral.

Em quarto lugar, os interesses de um imenso complexo industrial-militar que movimenta milhões de pessoas e centenas de bilhões de dólares na pesquisa, desenvolvimento e fabricação de novas armas, que precisam ter sua existência justificada e ser usadas de alguma forma.

E, finalmente, em quinto lugar, uma política externa e uma diplomacia que não conseguem sobreviver sem a desconfiança e a arrogância. Em seu trato com o resto do mundo, principalmente as nações menos favorecidas, os Estados Unidos poderiam usar a cenoura, mas preferem, como qualquer valentão de bairro, brandir o porrete, porque isso lhes dá  prazer e a ilusão de força.

SEMPRE MENTIRAS

Com base em mentiras, como a existência de armas de destruição em massa, os EUA mataram Saddam Hussein e derrubaram Muammar Kadafi, armando um bando de psicopatas que linchou, no meio da rua, a socos e pontapés, o líder líbio, transformando seu rosto em uma espécie de hambúrguer.

Era Kadafi um tirano? Quando convinha, a Europa e os EUA não se aliaram e fizeram negócios com ele, assim como com outros ditadores que são ou foram apoiados pelo “ocidente”, em estados como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes, ou em países como o Chile de Pinochet e a Indonésia de Suharto?

Sob a liderança de Saddam Hussein, o Iraque chegou a ser um dos países mais prósperos do Oriente Médio, com uma infraestrutura invejável, boa parte dela construída por brasileiros nos anos 1970 e 1980; e a Líbia, sob Muamar Kadafi, tinha o maior IDH africano.

Hoje, depois de guerras fomentadas e promovidas pelo “ocidente”, os dois países estão entregues a rebeldes islâmicos radicais, perto dos quais Kadafi e Saddam Hussein pareceriam anjos. E os Estados Unidos, depois de um custo financeiro e humano incalculável, estão saindo de Trípoli e de Bagdá  escorraçados, como saíram do Vietnam e da Somália.

GUERRA E POLÍTICA

Em “Von Kriege”, Clausewitz escreveu que “a guerra é a continuação da política por outros meios…” querendo afirmar a primazia da razão política sobre a força das armas. Para os Estados Unidos, a política é a continuação da guerra.

De uma guerra permanente que os opõe – como podemos ver pela espionagem contra seus próprios aliados, entre eles a Alemanha – ao resto do mundo.

Não por acaso, as únicas vezes em que os EUA foram efetivamente bem sucedidos, do ponto de vista bélico, foi quando lutaram claramente não em defesa de suas empresas e de sua elite, mas pela liberdade, no conflito contra a Inglaterra pela independência de seu território, e na Primeira e na Segunda guerras mundiais.

GUERRA FRIA

A Guerra Fria não passou de uma estratégia contínua e paranoide de isolar e enfraquecer a União Soviética, que saíra da Segunda Guerra Mundial e da Batalha de Berlim como uma nação vitoriosa, sem a qual o nazismo não teria sido derrotado.

Hoje, embora não o admita, a direita norte-americana está extremamente preocupada com o avanço do BRICS e mais especialmente da China.

Nos próximos anos, se os EUA não mudarem, esse avanço será cada vez mais eficaz e inexorável.

Não pelo fato de que Pequim esteja se armando militarmente, assim como os outros BRICS. Mas porque, na maioria dos lugares em que chegam, países como o Brasil e a China o fazem por meio de obras, comércio, investimentos, portos, estradas, pontes, ferrovias. E os Estados Unidos, a OTAN, e seus aliados, por meio de mentiras, intrigas e discórdia, bombardeios, drones e porta-aviões.