A França perplexa

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Melenchon, Marine, Fillon e Macron na disputa 

Sebastião Nery

PARIS – Há 60 anos o jornalismo (ou foi Deus?) me deu a França. Em 1957, jornalista pelas mãos do patrono da imprensa mineira José Mendonça, no inesquecível “O Diário”, e estudante das Faculdades de Filosofia e Direito de Minas Gerais, a caminho de Moscou, via nos jornais franceses a figura heráldica e gloriosa do general De Gaulle convocando a França para unir a Europa. Uniu até 1968 quando em maio enfrentou a juventude rebelde nas ruas de Paris e passou a presidência para George Pompidou.

De 1969 a 1974 governou a direita organizada de George Pompidou. De 1974 a 1981 o poeta e romancista Valéry Giscard d’Estaing, os anos gloriosos da direita, até chegar François Mitterand, o grande herói da esquerda, em dois dourados mandatos de 1981 a 1995.

ESQUERDA E DIREITA – Numa armação de centro-esquerda bem francesa, para evitar a vitória de Jean-Marie Le Pen (pai desta atual Marine Le Pen), que sacrificou Lionel Jospin, o candidato do partido socialista, veio Jacques Chirac de 1995 a 2007 seguido por Nicolas Sarkozy, enfant gaté da direita, de 2007 a 2012.

Até que a esquerda volta de 2012 a 2017 com François Hollande, que venceu as prévias internas do partido socialista primeiro contra sua bela e charmosa ex-mulher deputada Segolene Royal e depois contra a também deputada, prefeita de Lilly, Marine Aubry.

Agora, de repente a França se vê engasgada numa disputa muito menos eleitoral do que social e política: uma candidata da direita, Marine Le Pen, vencendo todas as pesquisas, seguida de um jovem e brilhante economista e banqueiro, de centro, Emmanuel Macron, e seguida pelo candidato da esquerda Jean Luc Melenchon, que disputa o terceiro lugar com o candidato da direita François Fillon.

VOTOS DIVIDIDOS – O que há de mais original nesta eleição é que a candidata da Direita Le Pen, disputa com o candidato do Centro Emmanuel Macron o primeiro lugar. Aparecem nas pesquisas com os mesmos 24%, enquanto os candidatos da Direita François Fillon e o candidato da Esquerda Jean Luc Melenchon se rasgam pelo terceiro lugar.

Os menores nasceram para ficar atrás. Benoit Hamon, o mais jovem candidato, do partido Socialista e do presidente François Hollande, que até agora não conseguiu passar dos 10%, entrou em um processo de desgaste, abandonado por seus companheiros que debandam dia e noite para o vitorioso Emmanuel Macron, que cresce a cada dia empurrado pelos debates na televisão.

TEMPO DE SAUDADES – Chego ao fim deste texto com saudade dos tempos em que jornalismo na França era também poesia de Louis Aragon, poeta de nosso tempo e do Partido Comunista, que iluminava as livrarias e bancas de jornal:

LES YEUX D’ELSA

Tes yeux sont si profonds qu’en me penchant pour boire
J’ai vu tous les soleils y venir se mirer
S’y jeter à mourir tous les désespérés
Tes yeux sont si profonds que j’y perds la mémoire.

***

OS OLHOS DE ELZA

Teus olhos são tão profundos que me levam a beber
Eu vi todos os sóis nele se mirarem
Se atirando para morrer todos os desesperados
Teus olhos são tão profundos que neles perdi minha lembrança.

Democracia se faz assim

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(chargesbenett.wordpress.com)

Sebastião Nery

PARIS – No dia 21 de setembro de 1980, uma delegação dos quatro partidos da oposição no Brasil (Ulysses Guimarães, MDB, José Aparecido de Oliveira, PP, Jacob Bittar, PT e Sebastião Nery, PDT) foi recebida em Bonn, na Alemanha, pelo chanceler alemão Helmut Schmidt, para uma visita de duas semana a convite do SPD, o partido da Social Democracia Alemã, no governo.

Viajamos muito, conversamos muito, aprendemos muito. O SPD mostrou aos amigos brasileiros como ligava suas bases, seus comitês executivos e eleitorais, nacionalmente, antes e depois das eleições, constituindo o dinâmico partido que enfrentava a poderosa Democracia Cristã Alemã por ele tantas vezes derrotada, como nas últimas eleições.

O SPD tinha no Brasil um braço internacional para ação social e política, o ILDES, Instituto Latino-Americano de Desenvolvimento Econômico e Social, ligado a fundação alemã Friedrich Ebert. Nesta época o ILDES criou no Brasil um conselho político de quatro membros: dois senadores, Fernando Henrique Cardoso e Roberto Saturnino Braga, e dois deputados federais, Fernando Lyra e Hélio Duque.

UMA LIÇÃO – A primeira ação do conselho foi uma viagem a Berlim para um encontro com o então prefeito e herói da democracia alemã Willy Brandt.

A principal lição naqueles dias na Alemanhã, foi como os alemães saíram da tragédia do nazismo e da Segunda Guerra Mundial para construírem a sólida democracia que têm hoje.

Sem uma reforma verdadeira, torna-se impossível mudar a qualidade da vida política brasileira. Infelizmente, os fariseus grudados nos poderes da República não têm nenhum interesse real na implantação de uma verdadeira reforma. Ela teria de atacar de frente a não existência de autênticos partidos no Brasil, mas unicamente legendas partidárias. Deveria enfrentar as oligarquias patrimonialistas que se sustentam na ignorância popular, mãe da corrupção. Não poderia ficar dependente do sistema eleitoral e apenas ser garantia do financiamento público de campanhas com manutenção do injustificável Fundo Partidário e outras “pajelanças” privilegiadoras dos que se consideram donos do poder.

VOTO EM LISTA – Além de garantir a manutenção dessas iniquidades, os propositores da falsificada reforma política, em tramitação no Congresso Nacional, desejam introduzir o voto em lista para assegurar, casuisticamente, os seus mandatos.

Os oportunistas demonstram que a soberania popular é apenas um detalhe na vida política nacional. Extinção dos partidos de aluguel, aprovando a cláusula de barreira, eliminando as coligações partidárias nas eleições proporcionais, por exemplo, não consta da pauta dos falsos reformistas. Querem uma reforma política para garantir longa vida aos patriarcas partidários envolvidos nos recentes escândalos do caixa 2 e “propinas” na escala de bilhões.

A verdadeira reforma política deveria começar pela eliminação do voto obrigatório. O voto é um direito da cidadania, não é um dever como exige a ultrapassada legislação eleitoral brasileira. Aqui o voto é uma exigência legal, punindo o eleitor ausente que deve justificar-se na Justiça Eleitoral, para não ter interditado os seus direitos políticos. A punição é severa, não podendo participar de concurso público, nem matricular-se em universidades federais. Fica proibido de tirar carteira de identidade, passaporte ou obter empréstimo em banco público. O voto obrigatório é uma clara tutela ao cidadão.

Lava Jato, a lição do Brasil

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Charge do Pelicano (pelicanocartum.zep)

Sebastião Nery

MILÃO – Cheguei a Roma em janeiro de 1991, há 26 anos, como Adido Cultural do Brasil, e logo me vi escrevendo sobre a “Operação Mãos Limpas”, que nasceu exatamente em um Instituto Educacional Municipal aqui de Milão. Os jornalistas brasileiros me perguntavam o que era aquilo. Aprendi, com os colegas italianos, que era um bruto escândalo nascido nas entranhas do Partido Socialista italiano e espraiado para o Partido da Democracia Cristã e o Partido Liberal. Quer dizer, todos com a mão na massa.

De repente o jovem e valente procurador, Antonio Di Pietro, assumiu o comando das apurações e emocionou a Itália pela firmeza com que conduziu as apurações. A reação nasceu imediata, sobretudo vinda da máfia do sul da Itália. E o escândalo estourou quando apareceu morto na Sicília o também jovem juiz Falcone. A partir daí ninguém segurou a imprensa. E os partidos políticos estrebucharam tentando explicações que nada explicavam.

SEGUIU EM FRENTE – Havia um cadáver em Palermo e uma opinião pública exigindo respostas e o procurador Prieto, bravo, valente, inatacável, seguia em frente. Foram milhares de prisões, tardes de interrogatórios, delações premiadas, suicídios. Os partidos tentaram virar o jogo na Câmara e no Senado. Mas não adiantou. Houve dezenas de punições e a justiça cumpriu seu dever.

Hoje a roda virou. Os jornalistas italianos é que nos perguntam sobre o sucesso da Lava Jato, que a Itália compara com a operação Mãos Limpas. O juiz Sérgio Moro é aplaudido nos debates públicos e nas entrevistas. Ainda bem que a lição quem está dando é o Brasil. E o competente e valoroso juiz do Paraná e seus companheiros do Rio, São Paulo e Brasília.

Há instantes em que os países precisam construir lições que eventualmente sejam transmitidas a outros povos. A Lava Jato é uma delas.

FALSO OTIMISMO – No Brasil a sociedade, igualmente, pela sua maioria dormitava no sono profundo do otimismo nefasto construído pelos marqueteiros do poder. A ilha da fantasia edificada em soluções mágicas garantia popularidade ao governo na sustentação de uma política econômica equivocada que não pouparia nenhum setor produtivo.

Omite-se a responsabilidade dos grandes empresários na construção desse desastre histórico. Ela não é marginal. Ao contrário, auferiu vantagens, engordando os seus lucros, ampliando a concentração da renda nacional, penalizando a população. O jornalista Fábio Zanini, no livro “Euforia e Fracasso do Brasil Grande – Política Externa e Multinacionais Brasileiras na Era Lula” destaca:

– “A reboque da sua figura hiperativa vieram empreendedores e aproveitadores na construção civil, no agronegócio e no setor petrolífero, entusiasmados com o novo ambiente de permissividade que se instalava.”

HERANÇA HISTÓRICA – A promiscuidade geradora de corrupção no governo e no mundo empresarial, infelizmente, é herança histórica. Empenham-se nos esquemas de proteção e na economia fechada à competição.

As reinvindicações recorrentes do grande mundo empresarial e atendidas pelos governos Lula-Dilma, forçaram a derrubada artificial da taxa de juros, acreditando que garantiria a elevação da competitividade das empresas. O artificialismo produziu efeito contrário com a desvalorização do real.

Uma resposta à direita europeia

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Donal Trump já não é considerado um bicho-papão

Sebastião Nery

ROMA – Desde quando a grande imprensa brasileira e a latino americana pararam de viver à custa da Guerra Fria, os Estados Unidos deixaram de ser o bicho papão. Donald Trump passou horas com a Chanceler Angela Merkel e não devorou a Chapeuzinho Vermelho da Alemanha. Nem a OTAN explodiu, nem o Serviço Secreto dos Estados Unidos puseram fogo no mundo. Agora os tarados militaristas que estão sempre tentando buscar um fogo de guerra, podem deixar Vladimir Putim em paz.

Os rapazes e as lourinhas agitados da “Globo News” passarão noites sem dormir, mas essa guerra não virá. É verdade que há uma direita assustando a Europa. Sempre haverá. Mas depois de séculos de guerra a Europa aprendeu que só os traficantes das balas saem ganhando com as guerras frias ou quentes.

SOLUÇÃO POLÍTICA – Há poucos dias a Holanda esfriou seu partido da Direita. Angela Merkel está ganhando brilhantemente sua batalha contra a direita alemã. E a velha e sábia França nos apresenta uma bela lição de como os povos acertam quando encontram a solução política para conter suas radicalizações.

Ontem o melhor jornal do mundo, o Le Monde, numa síntese admirável mostrou que a França caminha para encontrar sua rota isolando o radicalismo furioso da beligerante Marine Le Pen. E o centro francês chega afinal ao que sempre foi desde a guerra: um abraço dos socialistas com o centro.

A porcentagem inédita de 34% de indecisos, mostra a candidata Marine Le Pen (do partido Frente Nacional) com 27% dos votos, Emmanuel Macron (do partido En Marche) com 26%, François Fillon (do partido Republicanos, de Sarkosy) com 17,5, Benoît Hamon (do partido Socialista) com 12,5%, Jean-Luc Melenchon (do Frente de Esquerda) com 11,5, mostra que a França parou para pensar.

Não é preciso ter medo de Donald Trump. A velha e sábia França está mostrando o caminho.

UM PARADOXO – No Brasil o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, observa: “Os Estados, vivem um paradoxo. Por um lado, são centrais de provimento dos serviços públicos: educação, saneamento, saúde, segurança e transporte. Por outro, as condições fiscais e financeiras para isso são muito ruins. As demandas por serviços públicos de qualidade só vão aumentar. Resolver a crise do Rio não resolve a crise dos Estados”.

Na mesma direção o economista José Roberto Afonso, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, faz o alerta: “Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerias antecipam a crise de todos os Estados e, por algumas peculiaridades, a potencializam. Não por acaso, são os três em que mais pesam os inativos na folha salarial.”

DESAJUSTES – A grande maioria dos Estados integra relação dos mais ricos e desenvolvidos, com expressiva população. A origem dos desajustes está em más administrações e pouco comprometimento com o equilíbrio das finanças públicas, ao longo de duas décadas.

O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Em 2010, recebeu da agência “Standard & Poor’s”, grau de investimento, passando a ser o Estado brasileiro classificado porto seguro para investimentos. Além dos fatos policiais envolvendo o seu então governador Sergio Cabral, a gastança irresponsável, sustentada pelo sonho e esperança na receita do petróleo, produziu o desastre com um rombo nas suas contas públicas de R$ 26 bilhões.

Norberto Bobbio era um sábio

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ROMA – Tinha nome de nuvem e era um sábio. Norberto Bobbio foi o mais notável pensador político e social aqui da Itália no século passado. Estudava sua terra e sua gente com a profundeza dos sábios. – “Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil porque só um pessimismo da razão pode despertar aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros”.

Passando para o Brasil, o pensamento de Norberto Bobbio se traduz no monstro da maior recessão econômica da história republicana no pais. A catástrofe foi construída ao longo de anos, com a omissão da maioria da sociedade, em todos os níveis. Cultivou um otimismo marqueteiro sem se dar conta do que mostrava a realidade.

MUITA ENGANAÇÃO – A ilha da fantasia, sustentada no voluntarismo ideológico e pelo aparelhamento da administração pública, marginalizava a meritocracia, ampliando os poderes de um estado perdulário onde “nós” e “eles” foi erigida à filosofia de governabilidade. O corporativismo empresarial e sindical tomou conta do poder surfando no privilégio e na onda de notícias plastificadas, enganadoras da opinião pública.

Ao final de uma década o cenário da realidade eclodiu como um “tsunami”. Recessão econômica de três anos, déficit público em nível recorde, dívida pública multiplicada, taxa de juros incontrolável, inflação mais do que o dobro da meta primária, carga tributária crescendo e sugando a produção e desemprego atingindo mais de doze milhões de trabalhadores. A ilusória popularidade, apoiada pela maioria da sociedade deixou como herança uma economia em frangalho. O que fazer para retirar o País dessa realidade dolorosa?

HOUVE ADVERTÊNCIA – Não foi por falta de advertência. O economista e professor paranaense Hélio Duque advertiu a tempo:

– “É preciso despertar do sono da razão e entender que o atual governo, também responsável pela situação de caos econômico, por integrar pela sua maioria a base de sustentação dos governos Lula e Dilma, passou a enxergar a realidade. Impopular e desaprovado pela maioria da população, vem surpreendentemente propondo reformas básicas para retirar o Brasil da UTI. Se pelo lado político enfrenta cenário negativo, com nefastos personagens do passado, na área econômica promove mudanças estruturais positivas com equipe econômica competente. Destacadamente no Banco Central, na Petrobrás, no BNDES, no Ministério da Fazenda e áreas afins. A aprovação do teto dos gastos públicos, as propostas de reformas da previdência, do setor tributário, na área trabalhista, herdeira da “Carta del Lavoro” de Mussolini e mesmo alteração limitada na vida partidária, são propostas positivas.”

FUNDO DO POÇO – Pode-se afirmar que o fundo do poço da crise foi atingido. Mas exigirá tempo para recolocar o nível em padrão aceitável a uma retomada do crescimento econômico. Felizmente a reação já começa a ser sentida superando o momento de desespero.

O caminho ainda será longo. A prioridade deve ser a retomada do crescimento e o aprofundamento das reformas estruturais. Norberto Bobbio ensinou: Governar é enfrentar a realidade.

Jango fez as pazes com Brizola pouco tempo antes de morrer

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Jango e Brizola brigaram por causa da reação ao golpe

Sebastião Nery

ROMA – No último sábado, dia 4, no voo Rio-Roma, li um livro imperdível. Até surpreendente, pela idade do autor. Todo brasileiro deve ler, pois preenche um pedaço fundamental da história do país. E foi escrito com honra, alma e verdade. A partir de agora ninguém mais poderá falar sobre o golpe militar de 1964 sem ler e citar “Jango e eu – Memórias de um exílio sem volta”, de João Vicente Goulart, filho do grande e saudoso ex – Presidente João Goulart (Ed. Civilização Brasileira – Rio)

Não se põe um livro em uma lauda. Em vez de tentar resumi-lo, prefiro citar entre aspas apenas alguns pequenos trechos, que o resumem:

“Jango chegou a Porto Alegre no auge da crise. Após vários encontros com políticos e militares e de longas conversas para avaliar se haveria condições ou não de resistência, preferiu partir para o exílio, depois de constatar que resistir naquelas precárias condições logísticas seria ocasionar inutilmente um derramamento de sangue entre brasileiros, o que levaria o país a uma guerra civil de proporções inimagináveis, provocando, possivelmente, até a divisão territorial da nação.”

“Sua atitude, sem dúvida, foi a mais acertada, mesmo que as diferentes forças políticas, de esquerda e de direita, continuassem a criticá-lo duramente por não resistir. Por que essa crítica seria dirigida apenas a ele?, eu me pergunto. Por que o Partido Comunista não resistiu? Por que Brizola não resistiu? Por que os sindicatos não resistiram? Por que as Ligas Camponesas não resistiram? Por que Arraes não resistiu? Ora, Jango seria o único a se submeter? E onde estavam aqueles que o criticavam?”

“Jango sempre foi legalista. Alguns setores da esquerda – entre as quais estava Brizola -, que desejavam impedir o avanço da direita, é que queriam dar o golpe…”

“Pregavam o avanço, mesmo que pela força ou pela ruptura institucional antes do golpe de direita, o que acabou ocorrendo…”

“Jango não caiu por seus erros, e sim por seus acertos, como disse Darcy Ribeiro, muito pragmaticamente, em suas declarações sobre o golpe.”

“Brizola queria ser nomeado ministro da Justiça e indicar o general Ladário para ministro da Guerra”.

“Jango sabia disso e não jogaria seu povo numa resistência fratricida em nome do poder. Sua atitude preservou a paz da nação brasileira, e, principalmente, nosso território.

“Por anos, uma pesquisa feita pelo Ibope foi escondida nos escaninhos da Unicamp. Segundo ela, quando ocorreu o golpe, Jango tinha aprovação da maior parte da população brasileira, e, se pudesse concorrer em 1965, venceria as eleições, perdendo para Juscelino apenas em Belo Horizonte e Fortaleza.”

“Certa vez, enquanto conversávamos perto da lareira em casa, meu pai me contou como ele e o tio Leonel romperam relações. No dia 2 de abril, na casa do general Ladário, Jango decidiu não resistir ao golpe e Brizola queria que ele o nomeasse ministro da Justiça e o general Ladário ministro da Guerra. Jango não quis, e Brizola disse que ficaria no Brasil para lutar e morrer, porque não concordava em renunciar à luta e ir para o exílio.”

“Brizola, no entanto, não conseguiu viabilizar a resistência no Rio Grande do Sul. Jango não concordava com a luta armada que Brizola queria implantar no Brasil.”

“Jango fez as pazes com Brizola pouco tempo antes de morrer”…

“Eles passaram um longo período sem se falar”…

A saúde está muito doente no Brasil

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Sebastião Nery

Um terço da população não é capaz de ler e compreender um texto mais elaborado. Segundo o Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), em pesquisa nacional, só 26% do povo brasileiro é plenamente alfabetizado. Mesmo os que têm curso superior encontram dificuldades de entender suas respectivas áreas do conhecimento, em setores profissionais fundamentais para o desenvolvimento. E o mais dramático é que o Brasil investe em educação o equivalente aos países mais desenvolvidos.

A grande vítima dessa realidade é a própria população. Há anos a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vem realizando exames para os bacharéis saídos das Faculdades de Direito. A cada ano aumenta o número de reprovados para obtenção da carteira de advogado: 8 de cada 10 não alcançam o nível de conhecimento jurídico para se filiar ao órgão. É um número espantoso que atinge as centenas de milhares de saídos dos cursos de Direito, ao longo das últimas décadas.

MÉDICOS MEDÍOCRES – Agora, o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) diz que 56% dos médicos formados nas 46 escolas de medicina em atividade no Estado entram no mercado de trabalho sem conhecimentos básicos: 80% não sabem interpretar uma radiografia e 70% não conseguiram diagnosticar um paciente com crise hipertensiva, doença que atinge o quase cotidiano de 25% da população brasileira.

O Conselho Médico de SP, ao divulgar os resultados dos exames realizados em 2016, constatou que dos 2.766 inscritos, somente 43,6% atingiram a pontuação que os habilita para o pleno exercício profissional.

O médico Bráulio Luna Filho, diretor do Cremesp e coordenador dos exames, que vem realizando desde 2005, constatou:

-“Com exceção do exame de 2015, nos últimos dez anos o índice de reprovação ficou acima de 50%. É preciso que as escolas médicas promovam melhorias nos métodos de ensino e imprimam mais rigor em seus sistemas de avaliação”.

E ELES VÃO CLINICAR… – Infelizmente, as provas e o caótico resultado não impedem os futuros médicos do exercício profissional. Somente para o programa de residência médica, instituições como a USP, Unicamp, Unifesp e Santa Casa desde 2015 passaram a exigir aprovação nos exames do Cremesp, para ingresso.

A “Folha de S.Paulo” publicou em 9 de fevereiro deste ano assustadora matéria da competente jornalista Claudia Collucci, mostrando as áreas problemáticas: “As médias mais baixas foram em saúde pública/epidemiologia (49,1%); pediatria (53,3%); e obstetrícia (54,7%);- 71% dos recém-formados não acertaram diagnóstico e tratamento para hipoglicemia de recém-nascido, problema comum nos bebês”.

– “As escolas médicas privadas continuam com pior desempenho em relação às públicas (33,7% contra 62,2%) de aprovação, Em ambas houve aumento de reprovação em relação a 2015. Entre as públicas de 26% para 38%. Entre os cursos privados, de 59% para 66%.”

Sendo a saúde a suprema lei, como dizia o saudoso médico Dalton Paranaguá, ex-prefeito de Londrina, o resultado oficializado pelo Cremesp no Estado mais desenvolvido do País é devastador. Se na paulicéia onde, indiscutivelmente, o padrão da medicina hospitalar está anos à frente da totalidade dos Estados brasileiros, imaginem o que pode estar ocorrendo em outras unidades federativas.

A saúde está doente e não é só nas filas dos hospitais.

O bom e os maus ladrões na Lava Jato

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Charge do Tacho, reproduzida do Jornal NH

Sebastião Nery

Do alto do púlpito da Igreja da Misericórdia, em Lisboa, em 1655, desafiando a Inquisição, o Padre Antonio Vieira, o mais valente dos pregadores, desafiou o poderoso Império Português e seus maus ladrões:

– “Navegava Alexandre Magno em sua poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício. Porém, ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim:

– Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muitos faz os Alexandres. Se o rei da Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que fazem o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome”.

“- Ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno. Os que não só vão, mas levam, de quem eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que outro homem viu, que uma grande tropa de varas e ministros da justiça levava a enforcar uns ladrões e começou a bradar: – Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. Ditosa Grécia que tinha tal pregador! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um Cônsul ou ditador, por ter roubado uma província? E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?”

CASTELO DE AREIA – Quando, em 2011, o STJ (Superior Tribunal de Justiça), sob o pretexto de ilegalidade nas interceptações telefônicas, anulou a “Operação Castelo de Areia”, construiu um rastilho de pólvora que, três anos depois, explodiria: na Operação Lava Jato. Os brasileiros passariam a conhecer o maior escândalo de corrupção na vida política e econômica nacional, através da força-tarefa, do bravo juiz Sérgio Moro e do procurador Rodrigo Janot e seus infatigáveis companheiros.

Logo se articularam as aves de rapina e, na imprensa, no Congresso, nas OABs da vida, começaram a tentar fabricar leis para barrar a missão da Policia, da Procuradoria, da Justiça. É hora de a Nação repetir as jornadas de 2013 e voltar às ruas para salvar a Lava Jato. O povo sabe quem são seus inimigos. E como encurralá-los. Mais do que nunca, a sociedade brasileira deve multiplicar seu apoio à força-tarefa da Lava Jato.

VÊM AÍ AS CHICANAS – Os interesses poderosos contrariados, nessa fase crucial das decisões. estão escondidos, mas ainda não estão derrotados nem dormindo. Os missionários da corrupção sonham em paralisar com “chicanas” as conclusões da Lava Jato, especialmente os detentores dessa excrescência jurídica chamada “foro privilegiado” (detentores de mandatos), nos poderes Executivo e Legislativo.

Os envolvidos nos crimes de corrupção não podem alimentar o sonho da impunidade. Os brasileiros precisam acreditar que depois da Lava Jato, no Brasil, nada será como antes.

A Princesa Isabel precisa voltar

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A Princesa Isabel está fazendo muita falta a este país

Sebastião Nery

A Princesa Isabel era baixinha, feinha, mas de olhos azuis e nomes lindos : – “Isabel Cristina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga.” E no dia 13 de maio virou “A Redentora” porque assinou a Lei 3353, a Lei Áurea, da Emancipação dos Escravos”. Assim, o Brasil tornou-se o ultimo pais do continente americano a abolir a escravidão. Era um avanço mas um brutal equivoco. Os negros ganharam a rua, mas mas não ganharam a liberdade. O mestre Florestan Fernandes, em seu livro clássico “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, denunciou:

– “A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. (…) Essas facetas da situação (…) imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.

NOVA ESCRAVIDÃO – Um século e pouco depois, o Brasil ameaça repetir a tragédia do fim da escravidão sem os negros realmente livres. Querem fazer uma Lei de Aposentadoria sem garantia de dinheiro para pagar a aposentadoria. A primeira legislação sobre a Previdência fixou o teto das aposentadorias em vinte salários mínimos, depois baixaram para dez salários mínimos e hoje encontra-se no patamar de seis salários mínimos. Nesse passo dentro de poucos anos o teto limite das aposentadorias será o salário mínimo.

REFORMA INVIÁVEL – Técnicos que estudaram a proposta de reforma da previdência enviada pelo governo entendem que a mesma é inviável pelos próprios argumentos que estão em sua exposição de motivos.

1 – Dentro de alguns anos, haverá um número grande de idosos recebendo aposentadorias sendo necessário que se prolongue o prazo limite para a concessão de novas aposentadorias, afim de se manterem no mercado de trabalho pessoas suficientes para custear as aposentadorias já concedidas.

2 – Ocorre que o envelhecimento da população, e o aumento de sua expectativa de vida são acontecimentos inevitáveis, o que levará ao prolongamento excessivo da concessão das aposentadorias, chegando ao ponto de torná-la inviável ou inalcançável pelo trabalhador.

3 – Assim, é necessário que se busquem fontes alternativas de custeio da previdência. A mais indicada é: a contribuição sobre a movimentação financeira dos bancos e todo o sistema financeiro.

4 – Hoje, 1% desta contribuição representaria cerca de 170 bilhões de reais para os cofres da Previdência Social.

5- Esta é a única solução que não sacrifica os trabalhadores e o povo de um modo geral, e resolve o problema da Previdência Social, porque ela cresce em progressão geométrica, não havendo necessidade de se aumentar idade ou prazo para concessão das aposentadorias.

SEM CHAMAR ISABEL – Não seria preciso chamar novamente a Princesa Isabel. Basta fazer um levantamento anual sobre os balanços dos bancos nos últimos anos. Trazem invariavelmente lucros mínimos de mais de 20%. Alguns chegam a 30%, mesmo quando a economia está abaixo de zero.

E Lula nem queria criar o PT…

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Lula dizia que não era preciso criar um partido

Sebastião Nery

O PT não nasceu em São Bernardo. São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Estava lá. Em 1978, Walmor de Luca, combatente líder estudantil de esquerda, deputado federal catarinense de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um Seminário Trabalhista nacional com os grupos políticos que se organizavam contra a ditadura lutando pela anistia e por eleições diretas.

Lá estavam destacadas lideranças sindicais da oposição, como Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, Olívio Dutra, bancário do Rio Grande do Sul, Jacó Bittar, petroleiro de Paulínia, em São Paulo, e outros dirigentes sindicais do Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: – o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos?

ERA CONTRA – Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Durante dois dias discutimos muito. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas do Rio: o trabalhista carioca José Gomes Talarico; a advogada e professora do Rio Rosa Cardoso; o gaúcho João Vicente Goulart, filho de João Goulart; eu, outros. Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido, liderado por Brizola, que havia saído do Uruguai, passado pelos Estados Unidos e estava em Portugal, voltando.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados, que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? Necessitavam de cobertura política.

Fazia frio em Criciúma. Ainda bem que a organização do Seminário foi previdente e distribuiu pequenos copinhos com magnífica grapa gaúcha.

MUDANDO DE IDÉIA – No último dia, no jantar, vi Lula já quase mudando de posição. De Criciúma ele foi para Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará, discutir suas posições. Em Salvador o saudoso petroleiro baiano Mário Lima, amigo dele, principal líder trabalhista baiano, que tinha voltado do exílio em Fernando de Noronha e sido eleito presidente do Sindicato dos Petroleiros, discordou da criação de um novo partido, entrando para o MDB.

A ligação dos dois era tão próxima que Lula e Marisa em 1974, quando se casaram, a convite de Mario foram passar a lua de mel em Salvador, no bucólico Grande Hotel de Itaparica. Não houve conta a pagar. O diretor do hotel, advogado Virgilio Mota Leal, querido amigo de Mario e meu, não deixou.

Em 1980 afinal nasceu o PT que, antes dos tantos pecados, em determinados instantes prestou grandes serviços às lutas sociais e à democracia no país.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembranças dos 100 anos de Jânio

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Dona Eloá, Jânio Quadros e a filha única Tutu

Sebastião Nery

Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão e eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na Rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado.

Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio Quadros. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos, Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Aparecido pediu um vinho branco. Jânio escandia as sílabas:

“Zé, o Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Vinho branco é uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Se vinho branco fosse vinho, a missa seria com vinho branco. Já viram missa com vinho branco? Os grandes porres da Bíblia, de Noé, de Davi, foram todos com vinho tinto, sim. Quando Jesus transformou água em vinho nas Bodas de Caná o vinho saiu tinto. E era tinto o vinho da Ultima Ceia”.

Fomos para o almoço. A mesa, farta e colorida. Já estávamos no cafezinho, antes do conhaque e do charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio encrespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelos cabelos e geme fundo:

“Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!” – as lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta: “Muriçoca! Muriçoca morreu!”

JÂNIO E A CACHORRA – Perplexos, levantamo-nos todos. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente. Dona Eloá tenta levantá-lo: “Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram”.

“Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth m`a deu. Quando me cassaram, quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, Eloá, até tu. Só a Muriçoca me acompanhou na solidão e na dor”.

Dona Eloá olhou para nós, desolada: “Não diga isso, Jânio. Sabe que não é verdade. Aqui estão os amigos”.

“Amigos, Eloá, amigos. Mas a Muriçoca era um pedaço de mim”.

Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados. Revirava os olhos e arquejava. E nos braços, o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin, Muriçoca:

“Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas, no vértice do jardim. Ficará eterna na saudade, sob uma lápide de bronze”.

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Catalunha. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

“Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até o último dia”.

Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía.

HOMENAGEM – Voltei lá outros dias. No vértice do jardim, uma lápide de bronze cobria o tumulo de Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou Muriçoca.

Na semana passada, Jânio fez 100 anos com uma justa homenagem que no Bandeirantes lhe prestou o governador Alckmin e um belo e comovido discurso do neto Jânio Quadros Neto.

Um homem do congresso, um político de verdade

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Vieira de Melo deixou um exemplo a ser seguido

Sebastião Nery

Afonso Arinos, que passou a vida entre a Câmara e o Senado, disse que ele foi “o maior parlamentar brasileiro desde 1930”. Nestes tempos de Congresso apequenado, o pais devia ter celebrado com mais calor o centenário de Tarsílo Vieira de Melo. Foi um homem do Legislativo por um quarto de século. Em 1945, com 32 anos, já se elegia para a Assembleia Constituinte. Em 1947, secretário de Educação e Saúde dos governos Otavio Mangabeira e Regis Pacheco. Eleito Juscelino presidente, foi líder da Maioria na Câmara, comandando as batalhas para livrá-lo das tentativas de golpes da UDN.

Homem de esquerda no PSD, era o secretário-geral da LEN (Liga de Emancipação Nacional). Em 1964, o golpe militar o encontrou no comando da oposição, aliado a JK, Jango e Lacerda na Frente Ampla pela volta da democracia. Dissolvidos os partidos, ajuda a fundar o MDB com Ulysses Guimarães e assume a liderança na Câmara.

Na véspera de morrer suspeitamente atropelado, lamentava:

– Não sei bem o que está acontecendo com o Brasil. Mas é cada dia menor o número dos que se dispõem a defender a liberdade e a democracia. Veja a História do Brasil. Em todas as épocas, quaisquer que fossem as circunstâncias, havia sempre um grupo de homes mais velhos, mais experimentados, jogando lideranças e às vezes a própria liberdade exatamente para defender a liberdade.

E passou a me citar nomes, de José Bonifácio a Joaquim Nabuco, de Ruy Barbosa a João Mangabeira:

– Hoje, parece que os mais velhos estão se aposentando cedo demais da liberdade, da democracia, da luta política. A UDN enrolou o lenço branco e escondeu lá no fundo do bolso. Por isso fico feliz, toda manhã, quando leio o Hélio Fernandes, o Castelo Branco, você, outros, brigando a briga diária de defender a liberdade e a democracia no Brasil. Você me conhece e sabe que não tenho mais ambições políticas, a chamada vida pública me deu o que eu podia querer de experiência e qualquer alimento para a vaidade. Um mandato de deputado, agora, para mim, pode ser até um estorvo para minha vida pessoal. Mesmo assim, vou para a Bahia buscar de novo o mandato. Não quero continuar voltando para casa, todo dia, com a sensação de que também eu me aposentei da fé na democracia.

PROFISSIONAL DA DEMOCRACIA – Vieira de Melo foi isso. Um profissional da democracia. Os homens de sua geração, os jornalistas mais antigos podem dar depoimento ainda melhor. De 1945, quando a Bahia o mandou para a Câmara Federal, até 1967, quando perdeu as eleições para o Senado pelo MDB por alguns mil votos, Vieira foi sempre um plantonista da democracia.

Quando lhe levaram provas de que ele havia ganho as eleições de 67 e tinha sido fraudado pelo mapismo eleitoral, negou-se a denunciar:

– Uma denúncia desse tipo pode acabar ajudando aqueles que querem liquidar de uma vez com o voto popular. Não a farei. Não a farei também porque o Aloísio de Carvalho é um democrata e não tem nada com isso.

Dias depois, foi misteriosamente atropelado em Copacabana, na porta de sua casa. Foi um tipo de homem que está acabando no Congresso. Mas existiu.

O urubu da Bolívia e os abutres da economia

Resultado de imagem para acidente da lamiaSebastião Nery

O inesquecível senador Vitorino Freire, do Maranhão, foi à Bolívia chefiando a delegação do Senado que discutiria os Acordos de Roboré (petróleo). Ia ficar oito dias. Dois dias depois, voltou. Perguntaram:

– Senador, já terminamos as negociações?

– Não. Mas vou lá ficar num lugar que tem 4.800 metros de altura e onde urubu tem dispneia?

Os desastres são desígnios do infinito. É preciso recebê-los, aceitá-los e absorve-los. Mas o que aconteceu com a apilantrada empresa boliviana “Lamia” e seu fajuto táxi-aéreo, assassinando 71 brasileiros de Chapecó por estar voando sem combustível, é um crime que precisa ser apurado e denunciado. Hoje já se sabe que o avião voou avisado de que o combustível era insuficiente. Mesmo assim, apenas para faturar mais, o criminoso piloto preferiu arriscar sua vida e a de todos. Era um urubu.

A GRAVE CRISE – Outros urubus. Sem rumo e sem credibilidade, o descontrole das contas públicas foi a estratégia dos governos Lula e Dilma. Ao abandonar o tripé de câmbio flutuante, superávit primário e meta de inflação, jogou a economia numa crise que levará anos para ser superada.

Três anos de recessão econômica foram o resultado da aventura populista, com o PIB encolhendo 9%, a renda per capita reduzida em mais de 10% e a taxa de desemprego atingindo 12 milhões de trabalhadores. As tarifas de energia elétrica e os combustíveis foram congelados, os Estados e municípios liberados de cumprimento das metas fiscais e bancos federais forçados a se responsabilizarem por despesas do orçamento.

As contas públicas passaram a ser maquiadas através da “Contabilidade Criativa”. Avançaram na administração da taxa de câmbio, sob o pretexto de dar garantia às exportações, pondo a economia de cabeça para baixo.

E mais: implantaram a chamada “Nova Matriz Econômica”, fazendo do ultrapassado nacional-desenvolvimentismo o carro chefe. E escolheram, algumas empresas que seriam as campeãs nacionais do desenvolvimento, financiadas pelo BNDES. Subsídios foram concedidos a esses grupos e em outros casos a renúncia fiscal, pela isenção de tributos, gerando a conhecida “Bolsa Empresário”. Um deles foi Eike Batista que tinha o X, como padrão de um tempo de desenvolvimento.

INDULGÊNCIA DIVINA – O orçamento teve a sua autonomia financeira e administrativa atropelada pela gastança sem limites. Acreditavam que tinham indulgência divina para gastar o que não tinham. O governo gastava 45% do PIB, inclusive com os juros da dívida pública e arrecadava 36%, que é o montante da carga tributária, levando a dívida pública a disparar em ritmo de crescimento assustador. A recessão econômica em que estamos mergulhados tem nessa sequência de desajustes irresponsáveis e privilégios a sua fonte geradora.

A ilha de fantasia em que o pais se viu mergulhado na última década, ignorando o Brasil real, produziu a maior recessão econômica da vida republicana. O momento exige que o País da mentira populista se reencontre com o da verdade. Viveremos instantes dramáticos para recolocá-lo na reconstrução que o Brasil real exige.

O Imperador de Cuba

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Em 1958, Fidel Castro ainda na Sierra Maestra

Sebastião Nery

Em 1952 Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. O saudoso David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde queria ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista de Rio Preto, autor do segundo projeto de reforma agrária apresentado no Congresso (o primeiro foi o do baiano Nestor Duarte).

Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá, acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando os ideais do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar, montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castilo Armas, derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México.

Em 1958, apareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes, esbugalhados, implantou a reforma agrária em Cuba, baseada no projeto do deputado Coutinho, paulista de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara. Ia encontrar-se com Fidel Castro em Sierra Maestra.

MOSCOU – A primeira vez que vi Fidel foi em Moscou, em junho de 1957. Há 59 anos.  Ele ainda lutava em Sierra Maestra. A União Soviética recebia milhares de jovens do mundo inteiro no “Festival Mundial da Juventude”. No desfile de abertura, magnífico e emocionante, um mundo de bandeiras de todos os países e povos, com imensas flâmulas suspensas nos muros do Kremlin saudando a Paz – “Mir e Drusba” – (Paz e Amor) –  na enfeitada e iluminada Praça Vermelha, diante do Kremlin e do tumulo de Lênin. Deu bem para ver que os russos já andavam rusgando com os chineses, que passaram silenciosos e pouco aplaudidos. Já os cubanos, uma pequena delegação, foram recebidos delirantemente como heróis.

Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e seus companheiros já lutavam nas montanhas da Sierra Maestra, apesar de os russos ainda não acreditarem na possibilidade de vitoria deles, diante do exercito de Batista e tão perto dos Estados Unidos. Como o desfile era por ordem alfabética, o “B” de Brasil vinha logo à frente do “C” de Cuba e nós ali deslumbrados marchando ao lado dos heróis de nosso tempo.

Acabado o desfile, os cubanos desapareceram. Voltaram para a montanha. Mas deu bem para ver o olhar poderoso e desafiador do jovem Imperador de Cuba, que já sabia que dois anos depois ia vencer.

Do festival os brasileiros ganharam na beleza. Abriu a delegação brasileira e carregou a nossa bandeira a bela mineira Marta Azevedo, eleita a mais bonita do festival e capa da revista final.

FIDEL NO BRASIL- Vitorioso em Cuba, em 1959 Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha lhe ofereceu um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro-ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos em Cuba.

– Pois posso assegurar ao senhor que só fuzilei os ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Adhemar de Barros.

LOTT E CUBA – A vitoria de Fidel, Guevara e seus companheiros continuava empolgando a juventude latino-americana, inclusive a brasileira. A primeira pergunta para o Marechal Lott, numa entrevista coletiva na ABI, em 1960, no lançamento de sua candidatura à presidência da Republica, foi um desastre:

– General, o que o senhor acha de Fidel Castro?

– Venceu prometendo uma democracia e está governando com uma ditadura. Disse que era democrata e agora está se aliando à União Soviética que é uma ditadura.

A juventude aplaudia o Imperador de Havana, que está sendo enterrado como os imperadores: numa semana inteira. O século 20 acabou.

As duas Máfias agem igual, na Itália e no Brasil

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Charge do Simanca, reprodução da Charge Online

Sebastião Nery

Ninguém me contou. Eu vi. Durante dois anos, em 1990 e 1991, como Adido Cultural, acompanhei dia a dia, em Roma e na Sicilia, a guerra da Máfia contra a Justiça italiana que comandou a Operação “Mani Puliti” (Mãos Limpas”). A poderosa e assassina Máfia, com séculos de organização e crimes, totalmente entranhada na sociedade italiana, a começar por setores da Igreja Católica e dos partidos políticos  – a DCI (Democracia Cristã) e os Partidos Socialista e Comunista – caiu em cima dos valentes procuradores e juízes imaginando intimidá-los e calá-los.

Começaram matando o juiz Giovanni Falcone e ameaçando o procurador Antonio di Pietro. Não adiantou. Houve mais de 6 mil presos, centenas de condenados, uma dezena da suicídios. Os porta-vozes da Máfia alegavam que a Operação não fez tudo, pois Berlusconi, saído da Máfia, assumiu o governo. Mas perdeu e a Itália nunca mais foi a mesma.

“PRISÃO” DE MORO – Sábado, aqui no Brasil, vimos um espetáculo da nossa Máfia . Em manchete da pagina A14, a “Folha de S. Paulo” denunciou: “Defesa de Lula quer que Moro (o juiz Sergio Moro, da Operação Lava-Jato) seja preso por abuso de autoridade – Para advogados, juiz federal extrapolou ao determinar a condução coercitiva de Lula”.

A tática da Máfia italiana era sempre a mesma: os criminosos ameaçando prender quem os denunciava. O Brasil, depois de dois anos da Operação-Lava-Jato, já distingue de sobra quem são os bandidos e os que os combatem, os bravos procuradores do honrado juiz Sergio Moro.

A esse grupo de incansáveis servidores do Judiciário o pais deve um aplauso permanente, vigilante. É um escárnio ver Lula, contumaz enganador publico da nossa Máfia, dizer que vai processar o juiz Sergio Moro.

ESPÍRITO SUICIDA – O economista Helio Duque, três vezes deputado do PMDB do Paraná, plantonista da Pátria, está indignado. O espírito suicida de Jim Jones paira sobre o Congresso Nacional. Ele foi o criador, nos EUA, de uma seita, em 1974, dizendo-se perseguido pelo FBI. Obteve do governo da Guiana grande área de terra. Na região amazônica fundou a comunidade Jonestown. Em 1978, muitos dos seus seguidores queriam abandonar a região. Reuniu os fiéis em demoníaca confraternização, servindo um ponche de frutas misturado com veneno. No suicídio coletivo 918 pessoas morreram e o pregador fanático deu um tiro na cabeça.

Ao admitirem anistia ampla para o caixa 2, setores do Congresso seguem Jim Jones. Querem incluir no pacote anticorrupção, em tramitação na Câmara, emenda que anistiaria o caixa 2 antes da nova lei.

NA CALADA DA NOITE – A primeira tentativa foi em setembro. Na calada da noite, apareceu proposta de autor desconhecido pugnando pela anistia da corrupção. A denúncia do deputado Miro Teixeira impediu. Agora, os defensores da impunidade unificam governistas e oposicionistas para anistiar os caixas 2 e 3.

As doações ilícitas não podem merecer o indulto. Defendem a criminalização para o futuro isentando o passado, alegando que estão fortalecendo a democracia. A urgência de se aprovar uma nova legislação tem endereço certo: futuras delações atingiriam centenas de investidos de mandatos.

Imaginam seus autores que a sociedade não se mobilizará ante a imoralidade? A ministra Cármen Lúcia, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) considera que caixa 2 é crime. Está no artigo 350 do Código Eleitoral, com pena de prisão de 5 anos, como delito de falsidade ideológica. Já a Lei 8.137/1990 diz que é crime contra a ordem tributária. .

TEM CAIXA 3 – Definindo: caixa 2 é crime.Querer misturar caixa 1 com caixa 2 é ato indecoroso. Uma decorre de doações legais para campanhas declaradas à Justiça Eleitoral, não sendo ilegal. A segunda é decorrência de transações corruptas envolvendo governos, partidos, grandes corporações.

E o caixa 3 é ainda pior, mais imoral. É a corrupção continuada para financiamento de esquemas paralelos de poder. A Petrobrás foi vítima do caixa 3, envolvendo servidores e empresários, agora apontados como réus, muitos com prisão e anos de reclusão, com devolução de valores gerados na corrupção. A “propina”, o “pixuleco” é a essência do caixa 3.
                                                  (artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

Um país devastado, com a administração pública no caos

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Sebastião Nery

Em 1953, Getúlio Vargas era presidente da República. Jânio Quadros, prefeito de São Paulo; Carvalho Pinto, secretário da Fazenda de São Paulo; Coriolano Góes, diretor geral da Cexim (Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil). Uma tarde, aparecem no gabinete do diretor da Cexim, no Rio, Jânio Quadros e Carvalho Pinto. Precisavam de uma audiência urgente para uma licença especial do governo federal para importar da Alemanha peças para os ônibus da CMTC, a empresa municipal de ônibus. O chefe de gabinete, Virgilio de Góes, filho do diretor, lhes diz que o pai não costumava receber ninguém à tarde, mas que, evidentemente, tratando-se do prefeito de São Paulo, a exceção era normal.

Jânio entrou no gabinete, ficou duas horas, saiu sorrindo, chamou Virgílio, pegou-lhe as duas mãos, encostou-as ao peito, entortou os olhos, revirou os ombros, dobrou as canelas e lhe disse pateticamente:

– “Meu jovem, devo-lhe a salvação da CMTC”.

– “Nada disso, prefeito. É apenas dever do governo federal ajudar a Prefeitura de São Paulo”.

– “Quero que me diga, qualquer dia em que precisar de alguma coisa, o que deseja, fa-lo-ei imediatamente”.

– “Muito obrigado”.

Janio foi saindo, voltou-se sobre os calcanhares retorcidos: – “Aliás, nem precisa telefonar. Pense, apenas pense, que eu atenderei”. E sumiu.

PEDINDO SOCORRO – Hoje já não se fazem Jânios como antigamente. Prefeitos e governadores estão em tais dificuldades que vivem de pires na mão pedindo socorro ao governo federal, que, também no sufoco, não pode atender.

Administrar a folha de pagamento dos Estados vem sendo a prioridade dos atuais governadores. A crise estrutural nas finanças públicas estaduais tornou-se um drama nacional. O desequilíbrio fiscal, que atingiu níveis recordes na estrutura do governo federal, estende-se praticamente a todas as unidades federativas. O ciclo de endividamento atingiu o máximo, agravado pelo populismo do mundo político. Os programas fantasias das administrações estaduais não resistem mais à realidade.

Acrescente-se o indiscutível despreparo público de vários governadores. Boa parte está mais preocupada com o seu destino e não com a população que representam. Em vez de sanearem as contas públicas, enfrentando os desafios fundamentais para o futuro, preferem o caminho fácil da propaganda mistificadora. O Estado do Rio é um exemplo de deterioração das finanças públicas.

PAGAMENTOS OBRIGATÓRIOS – E o mais grave, embora não o único: o pagamento de salários e aposentadorias vem sendo um drama. A origem está na correção das remunerações maiores do que a capacidade de arrecadação estadual, agravada com o endividamento dos Estados, tendo o Tesouro Nacional como avalista de financiamentos, em desacordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Governos populistas e submetidos às corporações (a exemplo do que ocorria no governo federal) adotaram a irresponsável contabilidade criativa. Agora estão colhendo o fruto.

O governador Rodrigo Rollemberg, de Brasília, constatou que 77% do orçamento são gastos com pessoal e inativos. Eleito pelo PSB, o partido dos socialistas, em uma coligação de esquerda, ele diz que é fundamental uma nova esquerda enfrentar o corporativismo dos sindicatos de uma velha esquerda. Ao assumir o governo, reduziu de 38 para 19 o número de secretarias e cortou 5 mil cargos de livre provimento.

-“O corporativismo está contribuindo para amplificar e aprofundar as desigualdades sociais. Quando o Estado perde a capacidade de fazer investimentos nas áreas de infraestrutura, porque os recursos estão sendo drenados para o pagamento de salários, estamos aprofundando um cenário de desigualdade social”.

DÉFICIT CRESCENTE – Hoje o déficit dos regimes próprios estaduais está por volta de R$ 64 bilhões, podendo em 2020 atingir os R$ 101 bilhões. Nos Estados existem 1.440 milhão de servidores aposentados e mais 490 mil pensionistas. Já os servidores ativos são 2,6 milhões, equivalendo a diferença dos ativos e inativos a uma proporção insustentável.

Em 1960, Kennedy também ia perder para Nixon…

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Vitória de Kennedy  também foi surpresa

Sebastião Nery

Naquele outubro de 1960, terminado o longo e monumental Congresso Internacional de Municípios em San Diego, na Califórnia, que durara duas semanas, um grupo de jornalistas baianos alugou um carro e saímos até São Francisco. Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista como eu, que me convidou para hospede de sua cidade por uma semana e conhecer além do que mostrava o cinema de Hollywood.

Embora só eu fosse ter a mordomia da hospedagem em Los Angeles, os outros toparam a viagem toda. E convidei minha bela amiga Mara, jornalista da Guatemala, já mais do que amiga, cara, cabelos e grandes olhos aveludados de índia, parecendo um desenho de Paul Gauguin. Ela ia voltar exatamente para lá, onde morava e estava instalada a representação do seu jornal e revista da Guatemala.

O Impala rabo de peixe, capota conversível, dava perfeito para cinco.

RUMO AO DOWNTOWN – Pedimos algumas informações no primeiro posto policial, aprendi que o macete era seguir sempre o “Downtown”. E lá fomos nós atrás do “Downtown”. Uma ponte, duas pontes, milhares de pontes, um viaduto, dois viadutos, milhares de viadutos, vários trevos e perdemos nosso “Downtown”. Tocamos em frente. Não sabíamos para onde íamos, mas íamos.

De repente escrito numa placa: Hollywood. Mais à frente, outra placa: Beverly Hills. Viramos numa curva e apareceu uma casa com uma placa:

– “Nesta casa viveu Carmen Miranda”, etc.

Morrera cinco anos antes, em 1955. Paramos. Exploramos Hollywood toda. À noite, o “Down-town” nos levou ao centro.

COMÍCIO DE KENNEDY – Acordamos evidentemente cansados. Meu anfitrião estava eufórico:

– “Vocês brasileiros têm mesmo estrela. Hoje à tarde vão ser recebidos pelo futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Daqui a pouco estarei aí para pegá-los para o almoço e depois levá-los ao grande comício”.

Kennedy abria sua campanha na Califórnia. Quando chegamos ao hotel onde seria o comício, pequena multidão já enchia as ruas próximas. Na frente do hotel, um palanque e, tocando guitarra e pulando montado em um microfone de pé um rapaz claro, muito branco, pálido, cabelos bem pretos até a testa, arrebatava os ouvintes com seu rock alucinado: era Elvis Presley.

No fim da tarde, bem jovem, alto, elegante, de gravata, uma flor no bolso do paletó, Kennedy subiu correndo a escada que dava para o palco levantado em frente ao hotel e fez seu primeiro discurso. Depois, um segundo lá dentro, no grande salão, todo enfeitado de bandeiras e balões;

POUCAS PALAVRAS – Só quase madrugada o presidente do Conselho de Los Angeles nos apresentou ao candidato para um cumprimento e nada além de umas poucas palavras. A fila era enorme. Mas deu para ver e sentir bem, nos dois discursos e naqueles dez minutos do encontro, que havia “uma força estranha no ar”.

Uma semana toda em Los Angeles, conversando com jornalistas e políticos, a maioria suspeita porque do Partido Democrata, deu para sair de lá convencido de que havia alguma coisa errada na imprensa americana e também na brasileira, que já davam Nixon, vice de Eisenhower, como eleito. A Mara trabalhava lá há muito tempo e tinha um grande circulo de amigos jornalistas, principalmente europeus, latino-americanos e da América Central, cujos jornais e revistas sediavam em Los Angeles seus correspondentes. Conversei com eles. E em São Francisco fomos ainda a mais dois comícios de Kennedy. A mesma comunicação, o sorriso aberto, as frases curtas e fortes e a promessa de que era preciso mudar. E a imprensa insistindo em Nixon.

Apertado, menos de 1%, 130 mil votos, mas Kennedy ganhou. Anos depois, o saudoso Samuel Wainer me disse:

-“Você escreveu aquilo como em um cassino de Las Vegas. Arriscou e acertou. O José Guilherme (Mendes, mineiro correspondente da “Última Hora” nos Estados Unidos), me disse que você ficou envolvido pelo rock de Elvis Presley”.

Mas quem ganhou foi Kennedy.

Hoje, meio século depois, a Hillary é uma hilária e o Trump uma trampa.

Palocci, Bernardo e o ajuste que a oposição quer destruir

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Em 2005, Dilma derrubou o ajuste e implantou a gastança

Sebastião Nery

Esta é quase uma historia de horror. Em 2005, no primeiro governo de Lula, os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo, dois poderosos ministros do governo, prepararam um PAF (Plano de Ajuste Fiscal), um projeto de ajuste fiscal realista, fixando o limite de gastos públicos por dez anos, impedindo seu crescimento acima do PIB (Produto Interno Bruto). Quando o PAF chegou à Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff liquidou o projeto, fundamental para o equilíbrio das finanças públicas, com uma frase de quatro palavras: – “É um ajuste rudimentar”. Era um tiro de escopeta. Pareciam tempos de Hitler ou Stalin.

Os dois ministros, ao invés de enfrentarem o primarismo da Dilma e convencerem o presidente da República da importância de uma base orçamentária realista, aceitaram a qualificação de “rudimentares”.

DILMA E MANTEGA – Com o afastamento do ministro Palocci, assumiria a Fazenda Guido Mantega, o anti-Palocci, adepto da gastança, que permaneceria nos governos Lula e Dilma.

Eleita presidente em 2010, Dilma Rousseff implantaria a desastrada “Nova Matriz Econômica”, onde o BNDES foi vítima e por extensão toda a sociedade brasileira. Dilma adotaria verdadeiramente uma “política econômica rudimentar”. O País iria afundar em dívidas impagáveis, juros na estratosfera, queda de arrecadação, desemprego na escala de milhões, renda per capita encolhendo em 10%, dívida pública bruta acima de R$ 4,3 trilhões, levando os Estados federativos a situações pré-falimentares.

APARELHAMENTO – Tudo isso foi gerado pelo gasto público irresponsável e aparelhamento do Estado por corporações que usufruíram vantagens de todo tipo: algumas empresas ganharam o apelido de “campeãs nacionais do desenvolvimento”. Um dos exemplos, mas não único, foi o empresário Eike Batista e suas empresas simbolizadas no X de multiplicação, hoje todas elas em situação falimentar. As outras, a “Lava Jato” está revelando.

Se em 2005 o Ajuste Fiscal de Palocci e Paulo Bernardo tivesse sido aprovado, o Brasil não estaria mergulhado no cenário de horror e brutal recessão econômica. A PEC que limita os gastos públicos, agora aprovada na Câmara dos Deputados, poderia ter se transformado em realidade onze anos atrás. Seus fundamentos básicos já estavam presentes na proposta dos dois ministros do PT.

PRISÕES – Satanás não perde tempo. Desolados com seu partido e seu governo, Palocci e Bernardo enveredaram pelos becos do pecado, pelos caminhos do mal. A Lava Jato os pegou na esquina do dinheiro sujo. Palocci está na cadeia, Paulo Bernardo aguardando tornozeleira nas pernas. E Lula se escondendo da Policia quando pensa no juiz Sergio Moro.

O líder do PT na Câmara, o alegre baiano Afonso Florence, ignorando essa realidade, ainda afirma: – “A aprovação da PEC do teto dos gastos representará o desmonte de todas as políticas públicas do Brasil”.

É seguido pela amazônica senadora Vanessa Grazziotin, ao qualificar a PEC 241 de “PEC da maldade”: – “Quem vota a favor da PEC 241 vota contra o Brasil.”

Eles acreditam que o dinheiro público é infinito, desconhecendo que sem o ajuste o resultado será a explosão da inflação, da dívida pública, do desemprego, da falência de empresas e falta de recursos para os investimentos sociais.

APENAS O COMEÇO – O despenhadeiro em que jogaram o Brasil exigirá muito tempo para tirá-lo de lá. O ajuste das contas públicas é apenas o começo. As reformas na estrutura estatal, destacadamente na Previdência, na legislação trabalhista e na área tributária, são imprescindíveis.

Sem o enfrentamento dessas reformas, o desequilíbrio fiscal estrutural estará presente na economia brasileira. Exigirá coragem, determinação e consciência de saber estar construindo, para o futuro, o País que o seu povo merece e tem direito.

O voto secreto e o coronel Chico Heráclio

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Charge do Mário, reprodução da Tribuna de Minas

Sebastião Nery

Chico Heráclio, o mais famoso coronel do Nordeste, mandava e desmandava em Limoeiro, Pernambuco.Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria. Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito:

– Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa: – Em quem foi que votei?

– Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

GUETO – No mundo existem 236 países. Em 205 é adotado o voto facultativo como tradição democrática. Já o voto obrigatório fica em um “gueto” de 31 países, a maioria na América Latina, onde imperam as oligarquias, aliadas do atraso e da antimodernização. Entre as 15 maiores economias do mundo, só no Brasil o voto é obrigatório. A totalidade dos países desenvolvidos, ao adotar o voto facultativo, demonstra que esse devia ser o caminho da sociedade brasileira.

Pesquisa do DataFolha mostra que 64% dos brasileiros são contra o voto obrigatório. A Agência Senado consultou 2.542 brasileiros e encontrou 85% de apoio ao voto facultativo.

O voto é um direito da cidadania, não um dever, como exige a atrasada legislação eleitoral brasileira. O percentual recorde de abstenção, mais nulo mais branco, na última eleição municipal, deixou lição que precisa ser aprendida. O desprezo pelo voto obrigatório, de acordo com a Ecopolítica (do Tribunal Superior Eleitoral), foi de 43% em Belo Horizonte; 42% no Rio e 38% em São Paulo. O recado das três capitais estende-se por todo o País.

Em São Paulo, o prefeito João Dória foi brilhantemente eleito no primeiro turno, com o total de 3.085.167 votos. Já a abstenção, o voto nulo e os brancos foram superiores: 3.096.304 nulos. O total dos inválidos foi maior do que os válidos.

VOTO OBRIGATÓRIO – No Brasil o voto é exigência legal, punindo o eleitor ausente que deve justificar-se na Justiça Eleitoral, para não ter interditado os seus direitos políticos. A punição é severa, não podendo participar de concurso público, matricular-se em universidades federais, tirar carteira de identidade, passaporte ou obter empréstimos em bancos públicos. O voto obrigatório é uma clara tutela do cidadão, determinando arbitrariamente punição em um regime democrático. A obrigatoriedade de votar no Brasil é um exemplo de subdesenvolvimento político.

Os seus defensores estão enquistados nos três poderes republicanos. Os diferentes partidos em todos os padrões ideológicos, direita, esquerda, centro e adjacências, defendem a obrigatoriedade do voto. No Judiciário, amplos setores entendem que os brasileiros não estão preparados para o voto facultativo. No Executivo não é diferente. Já no mundo desenvolvido, onde as populações têm mais elevados índices de integração humana e democrática, prevalece o voto facultativo.

ALVARO DIAS – Antenado com o desejo dos brasileiros, o senador Álvaro Dias (PV-PR) formulou Emenda Constitucional defendendo o fim do voto obrigatório, por ser incompatível com as liberdades individuais.

– “O voto obrigatório no Brasil estimula os altos índices de abstenção, votos nulos e brancos, bem como escolha de qualquer candidato só para cumprir obrigação jurídica de votar e escapar das sanções legais”.

No Supremo, o ministro Marco Aurélio, defensor do voto facultativo, entende que o voto obrigatório deva ser abolido. No Tribunal Superior Eleitoral, a sua grande maioria expressa essa tese anacrônica.

O voto facultativo é a expressão máxima de uma democracia real, o voto obrigatório uma clara anomalia democrática. A verdadeira reforma política deveria começar pela revogação da obrigatoriedade do voto. Ela é uma das causas da corrupção política.

Circulando com Ulysses em Roma

Resultado de imagem para ULYSSES GUIMARÃES EM ROMASebastião Nery

Em abril de 1991 tive uma grande alegria em Roma, onde era Adido Cultural. Fui ao aeroporto Fiumicino receber Ulysses e dona Mora. Ele chegava magoado com o PMDB que lhe havia tirado a presidência do partido. Durante duas semanas ciceroneei os dois, a irmã e uma amiga de dona Mora, dirigindo meu carro pelos monumentos, palácios, igrejas, ruínas, catacumbas e restaurantes romanos.

No bar do estrelado Hotel d’Inghilterra, onde a nobreza paulista costumava hospedar-se, na via Bocca di Leone, abaixo da Piazza di Spagna, enquanto esperava dona Mora e a irmã descerem do apartamento para jantarmos na primeira noite, o velho Ulysses só pensava no Brasil.

Queixava-se de não ter continuado na presidência do partido. Achava que o PMDB lhe devia isso, sobretudo depois da derrota eleitoral para a Presidência da Republica. (Collor ganhou). Mas em tantas conversas de horas seguidas, eles passeando e eu pajeando-os dirigindo meu carro com carinho e emoção pelos caminhos eternos de Roma, nem uma vez ele reclamou do comportamento do governador Orestes Quércia na eleição.

APOIO DE QUÉRCIA – Pelo contrário. Citou vários governadores do PMDB e sobretudo as bancadas no Senado e na Câmara, que não tinham acreditado na sua candidatura e por isso não se empenharam na campanha. Lamentava que nem seu dileto amigo Pedro Simon, governador do Rio Grande do Sul, tivesse se empolgado com sua campanha, tanto que foi a São Paulo convidar Quércia, em nome dos demais governadores, a ser o candidato:

– “Se o Simon chamou o Quércia é porque não acreditava”.

Também falou no erro da candidatura de Waldir Pires a vice:

– “Não sei por que o Waldir deixou o governo da Bahia para ser vice, se durante toda a campanha em nenhum instante acreditou nela”.

E contou a dramática reunião de Brasília, na véspera da convenção, na casa dele, em que quase todos os governadores do PMDB, mobilizados por Moreira Franco, governador do Rio, foram lá pedir-lhe que desistisse, porque não teria chances. Quem falou por todos foi Pedro Simon. Quando Ulysses perguntou quem seria o candidato no lugar dele, todos se calaram:

– “Ali tive a certeza de que o Calabrês (assim às vezes se referia a Quércia) não estava me traindo. Foi correto comigo, como outros não foram. Se tivesse aceito o insistente convite dos outros para ser o candidato bastava que o indicassem e eu teria retirado meu nome. Mas ninguém disse nada. A Mora ficou irritada, foi buscar um café e a conversa acabou ali”.

EXEMPLO DE GRATIDÃO – Em outro jantar, na hora do “poire”, Ulysses disse que depois soube o que Quércia respondeu a Pedro Simon e aos que foram a São Paulo convidá-lo para ser o candidato:

– “Enquanto doutor Ulysses for candidato, não aceito nem tratar do assunto. Ele é o nome natural do partido, por tudo que ele é, pelo que fez e porque o país o vê como símbolo do PMDB. Alem disso, preciso terminar meu governo, ainda faltam quase dois anos. Se um dia doutor Ulysses retirasse a candidatura, só então eu poderia conversar. Tenho gratidão e deveres com ele. Ainda muito jovem, quis ser candidato a deputado estadual, ele me apoiou. Fui prefeito de Campinas com apoio dele. Participou de minha campanha para senador. Jamais disputaria com ele”.

UMA CARTA DE ULYSSES – Quando voltou ao Brasil, Ulysses me mandou esta carta:

“Brasília, 17 de abril de 1991

Meu querido Sebastião Nery,

Você é demais. Suas palavras me convenceram. Seu artigo (sobre Ulysses e o Parlamentarismo) teve ampla e consagrada repercussão. Todo mundo me fala dele. Deus lhe pague!

Mora e suas amigas ficaram deslumbradas com seu talento, sua erudição, a fluência e competência com que nos instruiu sobre coisas inéditas da eterna Roma.

Eu sou sua velha e barulhenta “macaca de auditório”.

Se tiver coisas sobre o parlamentarismo, envie. O parlamentarismo republicano, com a eleição de Presidente, não o monárquico sem eleição.

Dê notícias e quando vier ao Brasil não se esqueça de aparecer ao fraterno amigo e convicto admirador,

Ulysses Guimarães”.

 Não era uma carta. Era uma condecoração.