Nenhum governo terá êxito se não adotar as reformas fundamentais

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Sebastião Nery

Mais uma vez o país estará definindo seu futuro. Diante do presidencialismo de coalisão, quem for eleito agora tem um desafio: vai governar para o povo ou vai se submeter ao fisiologismo do Congresso Nacional, agravados com descontrole da dívida pública bruta atual de 88% do PIB, que pode atingir 95% em 2023, de acordo com projeção do FMI. Nos países emergentes a média é de 40%. No período, algumas políticas sociais introduziram mecanismos que amenizaram, mas não resolveram a dramática pobreza brasileira.

A questão social é grave pela concentração da renda, gerando privilégios indecorosos. Na outra ponta a renda do trabalhador, da classe média assalariada, está em processo de redução expressivo. O desemprego estrutural agrava essa realidade. São temas áridos da economia, que afetam a vida da maioria da população, mas ignorados nos programas presidenciáveis.

PRIVILÉGIOS – Diante dessa realidade, a farra dos privilégios é invencível na vida econômica nacional. No período de 2003 a 2016 (governos Lula, Dilma e Temer) o grande capital foi vitorioso, como demonstram os números. Os subsídios financeiros, desonerações e as renúncias tributárias, benefícios fiscais, custaram ao país R$ 3,5 trilhões (quase 1 trilhão de dólares). Isto em um governo que se dizia popular.

Em verdade, foi o beneficiador de grupos econômicos e bolsos de quem menos tem necessidade de favores oficiais, afetando diretamente o desenvolvimento, impactando a modernização produtiva e reduzindo a criação de um emprego.

A rigor, a administração pública brasileira, em diferentes governos, vem sendo capturada e vai elevando ano após ano a renúncia fiscal como política econômica de Estado. A elevada carga tributária brasileira é, também, consequência desses privilégios.

DÉFICIT PÚBLICO – No ano passado o déficit público nominal, diferença entre receitas e despesas, incluindo os juros da dívida pública, atingiu R$ 562 bilhões. Os brasileiros, pela ação do governo e visão parcial da mídia jornalística, omitem o “déficit nominal” e dão destaque somente ao “déficit primário” (excluindo os juros) que foi de R$ 155 bilhões.

Em 2019, quando assumirá o novo presidente da República, as renúncias e benefícios tributários crescerão em 8%. Atingirão R$ 306 bilhões, agravando ainda mais a situação econômica no primeiro ano do novo governo. Os grupos de interesses, formalizado no Congresso nas suas corporativas frentes parlamentares, não abrem mão dos seus privilégios.

Resta indagar: esse viés de política econômica não é um dos responsáveis pela desigualdade da renda nacional?

JUROS DO BNDES  – Um exemplo dessa deformação tem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como protagonista. Entre 2008 e 2015, o Tesouro Nacional captou a preços de mercado R$ 500 bilhões, depois emprestado a grandes empresas (a exemplo da JBS) a taxas de juros subsidiados, a TJLP, muito inferior à Selic.

Quem paga o subsídio implícito é a sociedade. Acrescente que poderosas empresas, a exemplo da indústria automobilística, usam largamente de incentivos tributários e redutíveis ao longo das últimas décadas.

Trabalho do Instituto Fiscal Independente constatou que, somente com empréstimos e financiamentos, o governo federal tem a receber R$ 1.545 trilhão. Os dois principais devedores são o BNDES, com R$ 636,3 bilhões e os Estados e Municípios, no total de R$ 577,0 bilhões. São questões dramáticas que serão enfrentadas por quem venha a ser eleito.

DESAFIOS SATÂNICOS – Se renascidos de volta ao mundo temporal, Jesus, Maomé ou Moisés, eleitos presidente da República, teriam desafios satânicos e diabólicos para colocar o Brasil em nível civilizatório na sua administração pública.

Ajuste fiscal, equilíbrio das contas públicas, abertura comercial, desconcentração da renda e justiça social seriam frentes de combate permanente. Valendo dizer que nenhum governo terá êxito se não adotar reformas fundamentais para o futuro do Brasil.

“Foi o Kim-1 que me prendeu, porque errei de Coreia”

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Nery (à esquerda) quando ainda errava de Coreia

Sebastião Nery

Alucinante aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Há apenas dois anos, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava Filosofia, para ser padre, talvez um dia bispo, quiçá cardeal. Na “Tribuna de Minas” a manchete era minha:

– “Confirmam-se as Acusações da TM sobre as Ligações do sr. José Mendonça com Elementos Comunistas. Preso ontem um redator de ‘O Diário’, justamente o homem de confiança do presidente do sindicato dos jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Veem de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

O “Diario da Tarde”, também com manchete na primeira página:

– “Desmantelada Pela Policia uma Reunião Comunista – Varejada a sala de um prédio da rua Carijós. Efetuadas numerosas prisões. Apreendido farto material de propaganda vermelha”.

O “Estado de Minas”, como o “Diário da Tarde” também dos “Diários Associados” de Assis Chateaubriand, o maior jornal de Minas (o mais importante era “O Diário”), abriu manchete:

– “Mais de 40 Pessoas Foram Detidas Pelas Autoridades”.

O campeão de títulos berrantes era o “Diário de Minas”:

– “Surpreendidos os comunistas quando tramavam planos de ação”.

NO XADREZ – Dia seguinte, 31 de dezembro, Ano Novo, continuávamos presos, réveillon no xadrez, e a “Tribuna de Minas” não me dava folga:

– “Esse rapaz que apareceu nos jornais de ontem, fotografado com esse sorriso todo dentes, como se tivesse acabado de praticar a ação mais louvável desse mundo, é o tarefeiro comunista Sebastião Nery, de “O Diário”, o jornal do arcebispado, amigo e confidente do senhor José Mendonça, redator-chefe do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Sebastião Nery foi preso com uma malta de desclassificados”.

Hoje, 66 anos depois, vejo os jornais e me surpreendo. Éramos todos muito jovens, nenhum de cara triste nem inocente. Sabíamos muito bem que estávamos em uma ação política proibida pela polícia e que, mais dia menos dia, seriamos soltos. Não havia crime nenhum.

Só uma frustração. Elegante, terno claro, gravata bonita, lencinho no bolso esquerdo do paletó, cabelo bem penteado, sorridente, meio abusado e desafiador, eu era bonito e não sabia, porque ninguém me dizia.

Quando a policia chegou à inauguração do “Movimento Mundial da Paz” em Minas, estávamos lá jovens estudantes e velhos lideres: Armando Ziller, venerando dirigente dos bancários e ex-deputado comunista,  sua bela filha Helia Ziller, estudante; Luis Bicalho, nosso professor na Faculdade de Filosofia; Aluisio Ordones, meu colega de Faculdade e vários outros.

Todos presos, socados em rádio-patrulhas. Lembro-me bem da calma da Helia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.

Depois de receber alguns tabefes, percebi que o simpático e magérrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido. Tinha sumido na hora. Dias depois, já solto, encontrei-o em outra reunião:

– O senhor é muito rápido, coronel. Foi o único que conseguiu fugir.

– Meu filho, não repita isso. Não fugi. Um oficial do Exercito brasileiro não foge. Bate em retirada.

AÇÃO DISFARÇADA – A reunião era uma ação disfarçada do Partido Comunista e da UJC, União da Juventude Comunista, drasticamente reprimidos pela polícia. Para atuarmos politicamente, lançávamos mão de atividades legais. Naquele dia, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”, criado na Finlândia para“combater a guerra”.

A guerra da Coreia dividia a opinião pública mundial e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e ligada aos Estados Unidos, que, segundo pensávamos e denunciávamos, “havia criminosamente invadido a Coréia do Norte”, socialista e aliada da União Soviética e China.

ERREI DE CORÉIA – E por defender a Coreia do Norte e denunciar a Coreia do Sul é que tínhamos sido presos. Anos depois, Adido Cultural em Roma, fui a uma recepção ao ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, que tinha acabado de ganhar o Prêmio Nobel da Paz e recebia grande homenagem da Itália.

Perguntei a Gorbachev quem, na guerra da Coreia, havia começado as hostilidades, quem tinha atacado quem e dele ouvi, perplexo, que a Coreia do Norte é que tinha invadido a Coreia do Sul e não como dizíamos.

Em 1952 eu estava enganado. Fui preso por causa do Kim-1, pai do Kim-2. Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.

Asfalto e calçamento se tornaram sinônimo de corrupção na política

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jurema foi líder de JK na Câmara

Sebastião Nery

Uma tarde, tocou o telefone na liderança do governo na Câmara Federal. Era o presidente Juscelino. Pedia urgência urgentíssima na aprovação do crédito de 8 bilhões para o asfaltamento da estrada Rio-Bahia. Às 8 da noite, o líder Abelardo Jurema ligou para o Catete: – Crédito aprovado, presidente.

Juscelino saiu do Planalto, foi jantar na casa do empresário mineiro Marco Pólo. E fez os maiores elogios a Jurema:

– É o líder mais barato que eu já tive. Me dá tudo e não pede nada.

O empreiteiro Spitzman Jordan ouvia a conversa, saiu e foi à casa de Jurema:

– Dr. Jurema, acabei de ouvir o Presidente fazer as mais calorosas referências ao senhor. Percebi que o que o senhor lhe pedir, ele dá. Tenho uma construtora. O senhor poderia pedir ao presidente que recomendasse ao DNER para me entregar um dos trechos?

– Dr. Jordan, o líder só cuida de problemas políticos.

– Dr. Jurema, podemos ver a coisa sob o aspecto político. O senhor é o candidato do PSD ao governo da Paraíba. Uma campanha eleitoral, hoje, exige muitos recursos. Posso depositar 100 milhões à disposição do PSD da Paraíba, para ajudar o partido. E, ajudando o partido, assegura sua eleição.

Abelardo desviou o assunto, falaram de outras coisas. Mas Jordan insistiu no asfalto da Rio-Bahia. Jurema encerrou a conversa:

– Doutor Jordan, se o senhor me conhecesse melhor já saberia que não é esse o tipo de política que eu faço. De qualquer maneira, se o senhor quer fazer o pedido ao Presidente, procure a bancada da Bahia. O asfaltamento foi uma reivindicação dela. Problema administrativo eu só encaminho os da Paraíba e por delegação da bancada ou do governador.

No dia seguinte, Spitzman Jordan procurou o senador Rui Carneiro, líder do PSD da Paraíba :

– Seu Carneiro, seu amigo Abelardo Jurema vai morrer pobre.

No governo de João Goulart, Jurema foi ministro da Justiça. No golpe militar de 64, foi cassado e exilado. E morreu pobre.

VAI SAIR RICO… – Outra história antiga e exemplar. Draiton Nejaim foi prefeito de Caruaru, em Pernambuco, e era deputado estadual da Arena. Francelino Pereira, presidente nacional do partido, foi a Recife, Draiton encontrou-o:

– Dr. Francelino, pode pôr nos seus cálculos que a Arena vai derrotar o deputado Fernando Lira em Caruaru e tomar a Prefeitura do MDB. Sou candidato e vou ganhar. Agora vai ser tudo diferente. Da outra vez, quando fui prefeito da UDN, me acusaram de roubo e eu saí pobre, inteiramente liso. Para me eleger deputado e depois eleger minha mulher, foi um sofrimento, um sufoco. Não se pode fazer política sem dinheiro, sem muito dinheiro, sobretudo no Nordeste. Desta vez vou sair rico da Prefeitura. Nunca mais volto a ser pobre.

– Sair rico, como, deputado? O senhor sabe o que está falando?

– Sei, sim, presidente. Vou roubar mesmo. Mas não vou roubar para mim. Vou roubar para nosso partido. Roubar para ter dinheiro e nunca mais a oposição ganhar eleição em Caruaru.

Francelino ficou perplexo:

– Mas isso é uma confissão louca, deputado. Não pode ser, o partido não pode permitir nem sequer ouvir isso. Seria um escândalo.

– Não, dr. Francelino, não vai ter escândalo, não. Ninguém fica sabendo. Tenho uma receita perfeita: calçamentos e aterro. Ninguém mede, nem conta nem pode fiscalizar calçamento e aterro.

Draiton derrotou o MDB, reelegeu-se prefeito de Caruaru. Não sei se cumpriu a palavra. Mas, só fez calçamento e aterro.

Asfalto e calçamento eram sinônimos de progresso. Tornaram-se símbolo de corrupção.

Lições e saudade de um democrata chamado Juscelino Kubitschek

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JK era chamado de “O Homem que Ri”

Sebastião Nery

Ninguém me contou, eu vi. Foi há muito tempo, na década de 50. Eu morava, estudava e trabalhava em Minas como jornalista político (“O Diário”, “Diário da Tarde” e “Jornal do Povo”). Juscelino havia resistido ao golpe que levou Getúlio Vargas ao suicídio em 24 de agosto de 1954 e era candidato natural do PSD, do PTB e das esquerdas à Presidência da República, em 1955.

Todos os dias, invariavelmente, íamos ao Palácio da Liberdade ver o governador e saber o que havia no país e em Minas. Juscelino era um forte sitiado. A UDN mobilizou um cerco nacional no Congresso, na imprensa e sobretudo nos quartéis para vetar e impedir a candidatura de JK. Ele nunca perdeu o sorriso aberto com os olhos apertados.

UM GUERREIRO – Enfrentou tudo: a oposição desvairada de Lacerda na imprensa, o jogo duplo, às vezes triplo, de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho nos seus jornais e televisão e, sobretudo, a resistência de uma banda do PSD dentro do seu partido, a começar por Benedito Valadares, em Minas.

Para comemorar os 116 anos de nascimento de JK, agora dia 12 de setembro, vale lembrar a grande virtude de JK cantada em verso e prosas, hoje, pela classe política brasileira:

Juscelino era um determinado. Sem condições materiais, estudou, formou-se e se aperfeiçoou em medicina em Paris. Nunca olhou para trás. Sempre para frente.

ARTILHARIA – O que a UDN fez, naquela época, para detonar a candidatura de JK pareceria hoje inacreditável. Só não era pior do que a artilharia do PT hoje. Como vimos em Juiz de Fora essa semana com o atentado ao líder nas pesquisas à Presidência da República.

A UDN de Minas, achando pouco ter quase a unanimidade da imprensa nacional, ainda criou um jornal de luta, bem feito, bem escrito, com dinheiro à vontade: “Correio do Dia”. Nele escreviam os líderes nacionais da UDN como os de Minas, a maioria nossos brilhantes e queridos professores nas faculdades de Direito e de Filosofia.

JK OS DERROTOU – Nas salas de aula, eram sábios varões gregos. Nos palanques e jornais, demônios: Pedro Aleixo, Milton Campos, J M de Carvalho, José Cabral, Horta Pereira, Afonso Arinos, tantos outros. Pareciam imbatíveis, no entanto foram derrotados todos, um a um, e mais seus aliados Magalhães Pinto, Zezinho Bonifácio, pelo determinado JK.

Para ganhar tiveram que rasgar a história libertária de Minas, inclusive o valente Manifesto dos Mineiros, de 1943, indo buscar nos quartéis os generais hoje envergonhados do golpe de 1964. JK resistiu a tudo, venceu dentro de seu partido, o PSD, ganhou o apoio dos trabalhistas e da esquerda e, em outubro de 1955, elegeu-se Presidente.

UNIÃO EM MINAS – Em 1955, a UDN dizia que Minas “massacraria” Juscelino na eleição. Quem garantiu a vitória de JK com 36,8% dos votos nacionais (não havia segundo turno, o mais votado do primeiro era o eleito) foi a votação esmagadora que Minas deu a Juscelino, anulando a vitória de Adhemar de Barros, em São Paulo, e de Juarez Távora, no Rio. Assim como Minas e tirando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o resto do País também deu a vitória a Juscelino.

Agora, em 2018, a eleição bate novamente à nossa porta. O Brasil cansou de conviver com as maracutaias e falcatruas de Lula, da Dilma e do PT com escândalos como do Mensalão, do Petrolão, do BNDES e tantos outros que surpreenderam até os fundadores do Partido.

ORCRIM DE LULA – Agora a nação já sabe que o PT (Lula, Dilma, Gleisi, José Dirceu, Palocci, Vaccari, Haddad e toda direção nacional) instalou na Petrobrás e nas empreiteiras amigas a mesma “organização criminosa” que a Polícia Federal, o Ministério Público, o juiz Sérgio Moro e os Tribunais Superiores denunciaram, condenaram e prenderam.

As investigações mostraram que Lula, o operário do ABC, descobriu o dinheiro. O triplex de Guarujá e o sítio de Atibaia, o contubérnio com as empreiteiras e, mais grave, o escândalo dos escândalos que está surgindo agora nas lanternas da Lava Jato: os 50 bilhões de dólares do BNDES distribuídos com os ditadores amigos e em propinas externas.

Saudade do democrata Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Na Venezuela, o Jânio de lá era gordo e chamava-se presidente Herrera

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Luis Herrera era uma grande orador, o rei das mentiras

Sebastião Nery

Mais uma vez desci em Caracas em 1979. Na portaria do Centro Simón Bolivar, o homem de radinho de pilha olha para mim irritado. Estava ouvindo seu futebol, como todo porteiro que se preza, seja paraibano ou venezuelano, e aparece um chato perguntando onde era o serviço de telex internacional. Sábado de tarde, fechado. E não podia fazer nada para ajudar-me porque todo mundo havia ido embora.

– Como é que está a situação aqui para um trabalhador?

– Já foi mais fácil. No governo passado, a gente tinha mais direitos no trabalho e nos sindicatos, porque o partido do Presidente Perez era o partido da maioria dos trabalhadores. O presidente da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela era deputado da Ação Democrática, o José Vargas, e por isso as coisas ficavam mais fáceis.

– Por que então o partido de Perez, a Ação Democrática, perdeu as eleições para a Democracia Cristã, a COPEI?

– Porque o povo sempre gosta de experimentar outro Governo e aqui na Venezuela sempre foi assim: sobe a AD, depois sobe a COPEI, desce a COPEI, sobe a AD.

– Por que então os trabalhadores estão reclamando, ameaçando greve geral?

– Foi um erro terrível. Eu não votei nele, mas a maioria dos trabalhadores foi na conversa de um homem perigosíssimo, muito inteligente e muito esperto, que prometeu tudo. Falava tudo que o povo queria ouvir e agora que chegou ao governo está fazendo exatamente o contrário. Está governando com os grandes grupos. Ele prometeu que desta vez a Democracia Cristã na Venezuela seria democracia e seria cristã, mas não está sendo, porque está fazendo um governo dos patrões contra os trabalhadores.

– No Brasil, já houve um Presidente que fez a mesma coisa. Prometeu governar com o povo e quando chegou lá governou foi com os grandes grupos.

– Como era o nome dele?

– Jânio Quadros.

QUEM É HERRERA? – Voltei para o hotel com uma idéia na cabeça: saber bem quem é esse Presidente Herrera, o Jânio da Venezuela. De noite ligo a TV, estava anunciando de instante em instante: “Veja hoje o Presidente que fala com o povo. Tema: A terra para quem trabalha.”

Começa a falar com um jogo de voz e de gestos que mudam de pedaço em pedaço, ora sarcástico, ora duro, frenético e meio possesso. Quando sai do ar, você fica numa dúvida terrível; não é possível que tudo aquilo que ele falou não seja a verdade. Pois não é. Vou jantar com jornalistas de várias tendências, alguns inclusive ligados a entidade do governo, e acabo convencido de que o porteiro tinha razão: é um fantástico enganador. E com um talento extraordinário.

E os fatos? Bem, os fatos estão nos jornais, na dura luta política. É preciso não esquecer que a Venezuela é uma democracia provada e comprovada há anos e não passa pela cabeça de ninguém mudar o regime ou dar um golpe. Todos os partidos funcionam livremente, inclusive o fraco Partido Comunista e o mais forte Partido Socialista. A anistia acabou a guerrilha e os guerrilheiros estão nas ruas pacificados.

BOCA DAS URNAS – A luta é política e quem a decide é o povo na boca das urnas. O governo Andrés Perez havia aumentado muito a dívida externa e o custo de vida subiu muito com o controle cada dia maior das multinacionais sobre a maior parte da produção interna e sobretudo com a importação da maioria dos bens de consumo, inclusive alimentos.

Herrera, o grande ator, vai falando e tentando segurar o barco com palavras bonitas. Os artistas políticos podem ganhar eleições, mas nunca fazem a história.

No Brasil, a política já não tem atrativo para pessoas de alto nível moral e intelectual

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Charge do Cicero (cicero.art.br)

Sebastião Nery

A vida pública deve ser exercida com vocação, na convicção de ser um servidor do seu povo. Denegrir esse princípio no exercício da função pública é trair o sentido maior da representação popular. Arrivistas despreparados no exercício da administração pública, em todos os níveis, vêm invadindo a vida política brasileira com audácia incomum. O professor Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autor de um livro essencial para entender a representação do Brasil político contemporâneo. “Representantes de Quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados”.

Retrata o desvirtuamento dos homens públicos, na sua maioria, investidos de mandatos e a desarrumação geral do sistema eleitoral brasileiro.

BAIXO NÍVEL – O cientista político lamenta que os grupos qualificados fugiram da política e isso fez mal ao País. “Comparando o nível atual com o de décadas atrás, caímos em um abismo gigantesco. É que a política, de certa maneira, deixou de ser um atrativo para segmentos da classe intelectual. Quantos escritores, professores universitários temos hoje no Congresso? Um Florestan Fernandes, um FHC, formuladores, ideólogos no sentido próprio da palavra? E lideranças empresariais e artísticas? Quantos advogados constitucionalistas? Muito menos! Creio que por causa de tantos escândalos, da decepção com a política em si, essas elites se afastaram do núcleo político. E isso faz muito mal ao País”.

O voto obrigatório hoje no mundo existe em poucos países. Em apenas 31 deles, destacadamente na América Latina com 13, inclusive o Brasil. O total de países no mundo, de acordo com a ONU, são 236. Desses (desenvolvidos e em vias de desenvolvimento), no expressivo número de 205, o voto é facultativo. Voto é direito da cidadania, não é obrigação. No Brasil, a legislação eleitoral é punitiva e impositiva na obrigatoriedade do ato de votar.

SOLUÇÕES VAZIAS – Ajudando a alimentar narrativa falsificada da realidade, ignorando e iludindo a opinião pública, os candidatos vendem soluções fáceis e vazias de conteúdo. Desprezam a construção de relações de confiança entre candidato e eleitor. O que leva ao comprometimento de uma sociedade civilizada e democrática.

Na revista Veja (28/03/2018), o articulista e analista J.R.Guzzo, destaca: “Não existe democracia quando os governos são escolhidos por um eleitorado que tem um dos piores níveis de educação do mundo. Em grande parte incapaz de entender direito o que lê, as operações simples de matemática, ou noções básicas do mundo em que vive. O que pode sair de bom disso aí? O cidadão precisa passar num exame para guiar uma motocicleta. Para eleger o presidente da República, não precisa de nada”.

EQUÍVOCOS – O resultado, quase sempre, são escolhas equivocadas com impacto no presente e no futuro do Brasil. Daí brotam governos incompetentes, ineptos e, muitas vezes, trapaceiros que têm, em círculos repetitivos, levado a sociedade ao descrédito nas ações e diretrizes do poder público.

Estamos construindo um modo de vida no qual o princípio de que “todos são iguais perante a lei” é ficção. Na prática, o princípio vale para poucos que tem assegurados os seus privilégios, com a criação de leis e sinecuras do Estado, garantindo a tirania na maioria.

“Hora de trabalhar? – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”, dizia Ascenso Ferreira

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Ascenso Ferreira era um intelectual multímidia

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O poeta, funcionário público, escritor, jornalista, compositor e radialista pernambucano Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895-1965) jocosamente registra a “Filosofia” de quem não gosta de trabalhar, num de seus poemas mais famosos.

FILOSOFIA
Ascenso Ferreira

Hora de comer – comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?- Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Em Florença, a arte e a política se uniram e inventaram o mundo moderno

Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem... Frase de Maquiavel.Sebastião Nery

Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo. Escreveu o “Diário de Florença”. Stendhal, o francês, em 1826 também viu: – “Florença, pavimentada com grandes blocos de pedra branca, é talvez a cidade mais limpa do universo e certamente a mais elegante”. E Mary Mc Carthy, a americana, em “As Pedras de Florença”, diz: – “Os florentinos, inventaram a Renascença, o que quer dizer que inventaram o mundo moderno”.

Em 1957, a primeira vez em que estive em Florença, Lucia Helena Monteiro Machado ainda era uma menina. Tantos anos rolaram  e eu a redescobri em um vôo de Paris para Roma, lendo o seu excelente livro “Florença Berço do Renascimento”, que diz tudo em 200 páginas:

1 – “Parece exagero. Em Florença estruturou-se a língua italiana  a partir de Dante. Lá Galileu deu início à ciência moderna. Lá nascia a nova concepção de política com Maquiavel e se deu a revolução que libertaria a arte de todos os limites e preconceitos que vigoraram na Idade Média. Em Florença o homem redescobriu a importância de seu papel no mundo”.

2 – “Florença conta mais de 2 mil anos de história. Questiona-se se seria romana ou etrusca. A origem etrusca parece ter sido comprovada nas escavações da “Piazza de la Signoria” na década de 1980. Os etruscos chegaram à região na segunda metade do século VII antes de Cristo. E foram dominados pelos romanos no século III aC”.

3 – “O nome Florencia, atualmente Firenze, de origem Latina, tem várias explicações. Alguns acham que é uma referência aos jogos florais da época romana. Outros aos campos floridos que se estendiam pela margem do rio Arno. A hipotese menos provável seria uma homenagem ao general de César, Fiorinos, que ali acampou em 63 aC. Preferimos a origem mais romantica: o símbolo da cidade é a flor de lis”.

4 – “Em 1348 uma peste matou metade da população”. E Florença é um mistério da civilização universal. Teve três homens que foram os precursores do Humanismo: Dante, Petrarca e Boccacio. Dante, de 1265 a 1321. Antes da “Divina Comédia”, sua obra prima, que estruturou a língua italiana, ele já havia escrito em latim “De Monarchia” onde defendia a autonomia do poder temporal em relação ao espiritual. Depois, já em italiano, escreveu “Il Convivio” sobre a sabedoria.

5 – Petrarca,  de 1304 a 1374, também poeta genial, escrevendo em latim, analisa a obra de Cícero e faz com que a Renascença adote o latim clássico como a língua dos eruditos.

6 – Boccacio, de 1313 a 1375, deixou sua obra prima “Decameron”, pequenas novelas que fizeram dele o pai do conto moderno: ‘um grupo de sete mulheres e três homens, refugiados no campo para fugirem da peste, de seus desejos, alegrias e seus apetites de forma licenciosa e espirituosa.

Boccacio financiou a primeira tradução de Homero para o latim. E escreveu a biografia de Dante. Os três plantaram assim a Renascença.

OS MEDICI – “Desde 1382 grandes famílias dominavam Florença: os Albizzi, os Alberti, os Ricci, os Strozzi. Mas Florença não seria Florença sem os Medici. Dominaram a cidade por mais de três séculos.

“Grandes mecenas e grandes colecionadores de arte, são responsáveis pelos tesouros artísticos da cidade”.

As tragédias da Nicarágua, ao final de uma revolução que se perdeu

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É preciso usar máscara, para não ser reconhecido

Sebastião Nery

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”. Em outro muro, branco e limpo, a esperança: “Bolívar y Sandino, este es El Camino”. Nas vésperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: “Não podemos entregar o país a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade da pátria.” O embaixador americano sorriu: “Qual? A sua ou a nossa?”

A menina linda, cabelos negros e olhos puxados, estudante e guerrilheira, sentada a meu lado no avião, conta a piada para mostrar como seu povo sabia bem quais eram seus principais inimigos. E por isso é que a unidade nacional tão poderosa se fez na hora da luta final.

SANGUE E LUCIDEZ – A história destes povos tão miseráveis e tão sofridos da América Central está sendo escrita com sangue, mas também com uma dura lucidez. Eles aprenderam em séculos de dominação e dependência que o caminho da liberdade é a decisão de lutar. Como Bolívar e Sandino ensinaram.

Desço no aeroporto, está lá em letras enormes: “Bem vindos à Nicarágua livre.” E um retrato do general Augusto Cesar Sandino, o herói da independência nas lutas contra os Estados Unidos no começo do século: chapéu, lenço no pescoço e o lema: “Pátria livre ou morrer.”

Não parecia que este povo acabara de derrubar uma ditadura com uma guerra civil. A alfândega é apenas um rapaz olhando e carimbando o passaporte, outro abrindo e fechando as malas mecanicamente e em menos de um minuto para ver se há armas, e uma garota na caixa cobrando um dólar e meio de taxa de desembarque. Nenhum ar de desconfiança ou de receio.

DOIS GUERRILHEIROS – Armados, apenas dois guerrilheiros, com suas fardas verdes e boinas vermelhas: um jovem de no máximo vinte anos e uma menina morena, muito morena e muito menina, dizendo amavelmente: “Bienvenido.” E só. Nada daquele clima de terror policial que se vê em tantos cantos do mundo.

Eles aprenderam, de um duro aprender, que só há uma segurança: a vontade nacional.

Não sei o que aconteceu com os mais velhos nesta incrível terra de jovens. Só se veem jovens. Chego ao Palácio da Revolução – que era o Palácio Nacional tomado pelo Comando Zero e seus companheiros em agosto – um garoto de farda verde e metralhadora na mão pergunta se estou armado e passa a mão em minha cintura.

– Por que esse cuidado todo?

– Os inimigos. Ainda não ganhamos tudo. Há inimigos ainda por toda a parte.

MAIS POBRE – Volto para o Hotel Intercontinental, abro a janela do oitavo andar e de repente entendo porque tudo aconteceu. Outras vezes estive aqui, em 1958 e 1960. E percebo que esta capital da Nicarágua, tantos anos depois, neste outubro de 19798, é muito mais pobre e abandonada.

Claro que houve o terremoto de 1972, que destruiu o centro quase todo, mas o maior crime de Somoza foi exatamente ficar com o dinheiro da solidariedade internacional e depositar em dólares nos bancos dos Estados Unidos. Manágua é a capital mais pobre de toda a América Central.

UMA FAZENDA – Da janela vejo o quadro da ditadura. Somoza fez daqui uma fazenda sem metáfora. Atrás do hotel, o bunker de onde ele governava. Em frente, o único edifício alto da cidade, o Banco da América. Lá no fundo a catedral. E as casas de barro cobertas de papelão espalhadas por todo canto.

Tudo exatamente como em uma grande fazenda. O povo muito pobre andando nas ruas e a rádio no quarto do hotel cantando a vitória sobre a ditadura: “Rádio amor, pobre, mas honrada como a Pátria.”

Na Croácia de Tito, houve o casamento do socialismo e da liberdade

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Em 1948, Tito já era um dos líderes mundiais

Sebastião Nery

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: “Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumânia”. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando só e calmamente nos jardins do Kremlin, era o então presidente da União Soviética. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados entre URSS e a Iugoslávia, com os comunistas de meio mundo acusando Tito de traidor do socialismo.

No ano seguinte, para espanto dos americanos e desespero dos stalinistas, o presidente Bulganin e Kruschev, primeiro-ministro e secretário geral do PC soviético, desciam em Belgrado e faziam a mais sensacional autocrítica já vista em dirigentes da URSS: na briga com Tito, os errados fomos nós. E começou o degelo no leste.

VELHO LEÃO – Gomulka saiu da cadeia, reassumiu o poder na Polônia e foi ver Tito. Lembro bem, apesar dos anos já passados, quando fui pegar meu cartão de jornalista estrangeiro convidado para o jantar de Tito a Gomulka, um correspondente americano me disse malicioso:

– Os meninos estão arrancando os dentes do velho leão, depois de morto.

– Que leão?

– Stalin.

A história rodou, a experiência socialista se fez universal, Bulganin e Kruschev perderam o poder e a vida, e tanto tempo depois, reencontro a Iugoslávia um país inteiramente novo, reconstruído da guerra, industrializado, em processo de desenvolvimento com índices raros em toda a Europa, e ainda sob o comando político e nacional, muito mais nacional do que político, do mesmo Tito que arrancou a autocrítica de Bulganin e Kruschev. Por quÊ? Porque Tito, aos 81 anos, era muito mais do que o presidente do país, por ser o seu grande herdeiro vivo.

FILHOS DA MORTE – Os heróis são filhos da morte. Nascem na sepultura. Mas a história às vezes faz alguns coabitarem com a glória e, em vida, serem sinônimos de sua pátria. Quando De Gaulle dizia – “Se quero saber o que a França pensa, pergunto a mim mesmo” – ele estava apenas traduzindo a sua consciência de herói vivo. Tito era o De Gaulle socialista da Iugoslávia. Um homem sinônimo de seu país e de seu povo.

– Nossa filosofia básica de governo é o respeito à liberdade dos homens e o desenvolvimento natural de nosso sistema socialista – dizia-me em almoço no clube de imprensa o ministro Dragoyub Budimovski, um jornalista que, em 1941, deixou a redação e foi para as montanhas, de fuzil na mão, aos 18 anos, fazer guerrilha contra as tropas de Hitler que tinham invadido seu pais. Gordo, forte, vermelho, parece camponês eslavo. E não é outra coisa esse filho da Croácia, sorrindo largo, comendo muito e falando apaixonadamente da experiência nacional de seu povo:

– Quer dizer que aqui socialismo e liberdade se casaram.

– É a única maneira de dar bons filhos.

E riu largo, aberto, vermelho, como os camponeses da Croácia.

Transiberiana, a ferrovia do sonho que deveria servir de exemplo ao Brasil

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A célebre ferrovia está em operação desde 1903

Sebastião Nery

Há sempre um trem de ferro na infância de cada um. Mas sempre houve um na infância de todos: A Transiberiana. Cantada em prosa e verso, cenário de romances, história de filmes, mas sobretudo mistério e aventura nos contos infantis, a Transiberiana é um patrimônio da humanidade.

E agora ela está aqui, ao meu lado, com seus trilhos nevados, sua respiração profunda, ofegante, suspirosa, seu cheiro de sonho, invadindo a floresta, mergulhando montanhas, saltando rios, cortando a Ásia de ponta a ponta, de Moscou a Vladivostock, 11 mil quilômetros, 10 horas de fusos horários diferentes, uma semana inteira, dia e noite, a mais de 80 quilômetros por hora, ligando dois mundos.

1 – “Quem domina a distância, domina a Sibéria”, dizem os siberianos. Eles sabem que, antigamente, as nações eram ocupadas por tanques. Hoje, por trilhos. Por isso, da Transiberiana acaba de nascer uma nova estrada, monumental como ela, outra epopeia da engenharia, cortando a Sibéria mais pelo centro (a Transiberiana é mais pelo Sul), dentro da floresta: a Baikal-Amour, ligando o lago Baikal, no coração da Sibéria Oriental, ao Pacífico, na região do rio Amour.

2 – A BAM, como eles chamam, 3.200 quilômetros, toda eletrificada, duas longas bitolas, correndo a 120 quilômetros por hora, carregando 3 mil toneladas, usando locomotivas e vagões especialmente construídos para ela, e controlada por um sistema de televisão. Só a infra estrutura na região, preparando a construção, custou 15 bilhões de dólares, mais do que foi gasto na própria estrada e quase um quarto do orçamento nacional anual de um país como a França.

3 – Em cinco anos de construção, movimentou 270 milhões de metros cúbicos de terreno, ou seja, mais de cem pirâmides de Qheops. Tem mais de 1.500 pontes, mais de 10 túneis, e quase 2 mil quilômetros de estradas paralelas, em um raio de 1.600 quilômetros, Cem mil homens, com uma idade média de 23/25 anos, a fizeram.

4 – Nas montanhas que a BAM atravessa, são frequentes as avalanches de gelo. Em certas regiões por onde passa, há até 2 mil tremores de terra por ano.

5 – Aliás, como tudo na Sibéria é imenso, por causa de seu tamanho, também nos outros transportes os números são sempre grandiosos: 10 mil quilômetros de rios navegáveis, ligando por exemplo, a Sibéria a Londres. Navios de 3 mil toneladas sobem e descem os rios Enissei e Angara, unindo as fronteiras sul e norte da Sibéria, ao longo de 3.200 quilômetros.

6 – Em 1978, o transporte de passageiros em todo o país foi assim: estradas de rodagem (40.365 milhões), estradas de ferro (3 bilhões), fluvial (144 milhões), aéreo (97,8 milhões), marítimo (50,3 milhões).

7 – Também em 1978, o transporte de mercadorias no país inteiro foi assim: estradas de ferro (3.429 milhões de toneladas por quilômetro), oleodutos e gasodutos (1.049 milhões de ton/km), marítimo (815.700 mil ton/km, fluvial (243.500 mil ton/km), aéreo (2.086 mil ton/km).

8 – Esses números mostram que os países de grandes extensões como a Russia, os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, tec., não podem basear seu transporte sobre rodovias, sobretudo depois da crise do petróleo. É preciso articular estradas de ferro, rios, mares, rodovias e aviões. Aqui na Sibéria se diz: “automóvel, só até 400 quilômetros.”

Vou anotando esses números enquanto a Transiberiana, longa e esguia, mergulha floresta adentro, no infinito branco da neve. Como nas histórias e nos sonhos da infância.

 

Baikal, o imenso lago sagrado que guarda as riquezas da Sibéria

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É a maior reserva mundial de água potável

Sebastião Nery

Em 1905, a Rússia estava em guerra com o Japão. Era preciso atravessar o rio Angara, afluente do Enissei, que corta a Sibéria de sul a norte. Não havia ponte e as tropas deviam passar. Só havia um jeito: por cima do lago Baikal. E foi sobre o lago Baikal, gelado, que eles construíram uma estrada de ferro de dezenas de quilômetros e as tropas passaram.

Isso é a história. Mas não é só por força da história que o lago Baikal é o lago sagrado da tradição russa. É que nele, em torno dele, sobre ele e embaixo dele há riquezas tais que fazem dele o coração amado e sagrado da Sibéria. Sem falar em sua beleza, longo e plácido, no inverso gelo, no verão lâmina azul. Cada povo tem seus desvelos geográficos, seus encantamentos naturais: a lagoa do Abaeté, de Itapoã; o São Francisco, Pai Chico, da Bahia; o Guaiba, dos gaúchos; o Jaguaribe, do Ceará; o Capibaribe, dos poemas de Carlos Pena Filho, no Recife. O lago Baikal é assim: está na boca de seus cantores, nos versos dos seus poetas. E com razão.

1 – É a maior concentração de água doce do mundo: 20% de suas reservas: 23 mil quilômetros cúbicos de água. Mais que o Mar Báltico. Até o fim do século, eles imaginam que o lago vai ser uma fonte de água potável de qualidadeS excepcionais.

2 – Com 636 quilômetros de comprimento e uma superfície equivalente à da Bélgica e da Holanda juntas, é o 8º lago do mundo em superfície. Mas, graças a sua profundeza (é o primeiro, com 1620 metros de fundo), na primavera veem-se objetos brancos até a 40 metros abaixo.

3 – 336 rios, grandes e pequenos, acabam nele. Um só nasce, o Angara, filho de um lar tão manso e no entanto um dos rios mais caudalosos que se conhecem.

4 – Mais de 600 plantas nele e em torno dele vivem, e uma fauna de 1300 espécies, das quais mais de 900 não se encontram em nenhuma outra parte: a foca do Baikal, o peixe golomianca, o omul, etc.

5 – E as pedras preciosas, metais, minerais? Uma variedade infinita. Visitei o Museu do Baikal, à beira do lago, em 1957. E o Museu de Geologia, em Irkutsk, a 70 quilômetros , mantido pelo Instituto Politécnico. É um mundo de riquezas minerais. A diretora vai mostrando e contando os mistérios de cada pedra, muitas conhecidas e muitas só da região do lago, ao menos na variedade de tipos e cores.

  1. a) A opala, símbolo da mulher traidora.
  2. b) A ametista, em que a mulher de Júpiter converteu sua empregada, porque queria transar com Baco. Até hoje é símbolo do controle da bebida. Os armênios dizem que a ametista ajuda nos negócios, porque você pode beber e negociar. Não deixa embebedar.
  3. c) A cerdolic, avermelhada, que os egípcios punham no lugar do coração dos faraós, arrancando antes de serem enterrados nas pirâmides.
  4. d) As nifrites, verdes e luminosas, símbolos de vida longa.
  5. e) E calcitios, fluorites, lazurites, tchanoites, um belo mundo mineral em ites.

6 – E as pirites? Um sueco caiu dentro de uma mina de pirites, morreu lá embaixo e, anos depois, encontraram-no inteiro, inteirinho, preservado e empedrado.

O Baikal é isso: por cima, a beleza gelada do inverno e o límpido azul de suas águas no verão. Por baixo e pelos lados, uma riqueza inesgotável. Em cima dele, como Cristo, andei. Não era água, era pedra de água, gelo puro, com um metro de grossura.

E nas noites de lua gorda, a neve cobrindo as margens e o gelo cobrindo as águas, o Baikal parece coisa de história de encantamento: um lençol luminoso onde a Sibéria adormece o cansaço de sua caminhada apressada para o século XXI.

Um milagre do esforço humano, no enfrentamento ao gelo eterno

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Blocos de gelo, nas ruas de Norilsk, no Norte da Rússia

Sebastião Nery

Bóris Kolesnikov, menino asiático, vivia com o pai, a mãe e três irmãs menores no sul da Sibéria, fronteira com a Mongólia e a China. Em 1946, morre o pai e ele decide fazer a grande aventura. Põe um saco às costas, ganha mundo, pega o rio Angara, depois o Enissei, e vem para o Polo Norte, que se estende da fronteira da Finlândia até o estreito de Bhering, no Alasca), onde mora, todo vestido de branco, o gelo eterno.

Hoje, Boris é diretor geral do complexo industrial de Norilsk, o mais importante de todo o polo Norte mundial: é um combinado metalúrgico-mineral na península de Taimyr. Ele é testemunha e parte de uma das mais fantásticas histórias da aventura humana.

PARALELO 69 – Norilsk, cidade transpolar, localizada no polo Ártico, acima do paralelo 69. Acreditava-se que era impossível a quem viesse de fora suportar viver onde há insuficiência de vitaminas e de raios ultravioleta e onde se sentiria oprimido pelas longas noites polares e os dias curtos, muito curtos, ou às vezes nenhum, pois durante 47 dias, cada ano, não há dia, é a noite eterna.

É impossível sair passeando, porque o vento furioso das tempestades de neve, capaz de derrubar gente grande, sopra sem parar cortando fino como navalha de bandido.

Nos nove meses do inverno, mais de 100 milhões de metros cúbicos de neve caem sobre a cidade, Durante 280 dias, cada ano, os ventos árticos sopram a 30 metros por segundo e o frio é de 55 graus abaixo de zero, chegando às vezes a 71.

VIDA COMUM? – Construída sobre o gelo e a neve, sobre a merzlota, em cima de pilotis de cimento armado, com edifícios altos, Norilsk derrotou a neve e o gelo. Tem tudo que em uma cidade normal, biblioteca de 3 milhões de volumes e uma vida e uma atividade de trabalho como qualquer outra. Com o sul, ela está ligada através do rio Enissei, navegável. Com o extremo norte, através de uma ferrovia eletrificada de 120 quilômetros, que vai até o porto de Doudinka, o maior do polo Norte, portão de saída da Sibéria para os caminhos do oceano Ártico.

Toda esta enorme e caríssima infra estrutura foi montada por causa das riquezas da península de Taimyr: petróleo, gás, os diamantes de Yakoutie, as apatitas de Khibiny, ouro, minérios, 14 metais não ferrosos, fora a caça e a pesca, a criação de renas.

O complexo industrial está implantado sobre a central hidrelétrica de Oust-Khantai, um gasoduto de 263 quilômetros e imensas usinas metalúrgicas, com suas torres metálicas espetando o branco infinito, como brinquedos de Deus.

CIDADE PIONEIRA – Institutos científicos, grupos de pesquisas de todo o país, laboratórios e técnicos das mais variadas especialidades estudam, planejam e acompanham, permanentemente, a realização de cada nova experiência em Norilsk, uma cidade pioneira, uma cidade de aventura.

Também cientistas de vários outros países do polo Norte (Estados Unidos, Canadá, Groelândia, Islândia, Noruega, Suécia e Finlândia) seguem, desde o começo, “a lição, o exemplo, o modelo de Norilsk para a conquista das regiões de difícil acesso do globo”.

E Trudeau, então primeiro ministro do Canadá, único chefe de Governo estrangeiro a visitar Norilsk, olhando a tempestade de neve soprando novelos brancos, suspirou:

– Isto é uma lição, um exemplo. Mas sobretudo, um milagre.

Dentro do tubo de neve em que a Rússia se transforma, todo ano

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Operário retira a neve que se acumulou na fuselagem

 

Sebastião Nery

Na Recordação da Casa dos Mortos, de Dostoievski, editado pela José Olympio, o genial Goeldi comoveu gerações de leitores com suas ilustrações inesquecíveis: aquelas filas intermináveis de russos, humilhados, ofendidos e recurvados, enrolados em trapos negros, caminhando sobre a neve para a Sibéria, enxotados pela tirania dos tzares.

Chego ao aeroporto de Domodedovo, um dos quatro de Moscou, para pegar o avião até Volgogrado, primeira etapa da minha viagem à Sibéria e, das janelas, vejo uma cena bela: longos e elegantes TUS/2 turbinas (correspondem ao Boeing 737; os Iliushin correspondem ao 707/4 turbinas, mas são mais compridos e mais finos) estão pousados sobre um tapete branco e infinito e, andando para eles, grupos e mais grupos de homens, mulheres e crianças, todos bem-vestidos, bem calçados, grandes gorros peludos, de couro de veado, botas pretas, marrons, vermelhas, luvas e capotes de pele de todos os tipos e de todas as elegâncias.

A Unesco proclamou 1981 o ano de Dostoievski: em fevereiro fez 100 anos que ele morreu e em novembro 160 que ele nasceu. Um século e a mudança foi total. Logo, não há por que desacreditar da capacidade do homem de construir seu amanhã.

RASPANDO A NEVE – A neve cai sem parar, grossa, intensa. Como é possível os aviões chegarem e saírem? Caminhões enormes, como jamantas, empurrando largas navalhas negras, do tamanho das pistas, vão passando e raspando a neve. O avião desce, a neve volta, vem de novo o caminhão com sua navalha. Um avião, um caminhão, um avião, um caminhão, na brincadeira de derrotar a neve.

Às 9 horas da noite, chamam meu voo. Perto do avião, um susto. Está absolutamente coberto de neve. Um meigo e longilíneo tubo de neve, como doce fantasma, arriado sobre o lençol branco. Será que vai decolar? As turbinas esquentam? Lá dentro, um aviso. Vamos ter que esperar um pouco para tirarem a neve que cobre o aparelho. Tiram na hora, porque, se tirarem um pouco antes, ela cai de novo e novamente encobre. Um caminhão se aproxima com grossos tubos, soprando bafo e derretendo a capa branca. São turbinas de velhos aviões que eles usam para, engatados nos caminhões, lançarem os jatos de ar.

ESPERAR NA PISTA – Daí a pouco, outro aviso: o aeroporto de Volgogrado fechou. A neve lá cai tão forte que se torna um guarda-chuva compacto sobre as pistas, impossibilitando a descida. É preciso esperar, e esperar na pista, para, quando abrir lá, haver tempo de limpar de novo nosso tudo, decolar rápido e ver se descemos uma hora e meia depois, antes que a borrasca volte e feche mais uma vez. Uma hora, duas, três. Meia-noite, levantamos. Dois minutos depois, uma lua gorda boiando no céu azul-marinho, todo estrelado. Dez mil metros de altura e aquela lâmina sólida, cinza, como acrílico lá embaixo.

E fico a pensar como é vário o mundo, tão diferente as realidades. Por mais que saibamos o que é a neve mesmo depois vista aqui e ali em tantos países, uma coisa é você vê-la como turista, entrar e sair do hotel, dar uma andada na rua, e outra, muito outra, é a experiência de um povo que tem de conviver, cada ano, meses inteiros, 6, 8, 10, 12, com tudo coberto de gelo e frio. Os rios e lagos endurecem. As ruas e calçadas sobem centímetros, nos parques metros de neve acumulada. E é preciso ir tirando, e ela voltando, hora a hora, dia a dia, cada manhã, meses direto. Uma batalha interminável. Brinco com os russos:

– Eu pensava que vocês tinham ficado livres de Napoleão, que atolou sua invasão na neve das estepes russas. Mas não, todo ano é uma guerra certa, fixa, marcada, de meses, guardando tudo, reservando tudo, diminuindo a produção, até a primavera voltar e com ela o sol e as flores e os frutos da terra.

E eles me respondem, sábios:

– É, mas é o inverno que nos faz fortes. Ele nos acostuma a resistir e esperar. E, sobretudo, a saber vencer as dificuldades.

Lembrai-vos de 1964 e do “dispositivo militar” do general Assis Brasil

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“Dispositivo” de Assis Brasil era uma ilusão

 


Sebastião Nery

Queiroz Junior, jornalista e escritor, conta que, no primeiro semestre de 1937, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, veio ao Rio visitar Getulio. Os dois de charuto na boca:

– Sabe, Flores, os tempos são outros, vou fazer as eleições e a dificuldade em que me encontro é a de escolher um homem verdadeiramente à altura do cargo, que possa continuar minha obra.

– Quem sabe o Aranha (Oswaldo Aranha).

– Tenho pensado nele, mas não serve. O Oswaldo comprometeu-se demasiadamente com os norte-americanos e considero essa política de submissão muito perigosa.

– Talvez o Zé Américo.

– José Américo é um grande romancista, mas um péssimo político.

– Quem sabe se, esquecendo ressentimentos pessoais, não teria chegado o momento de você indicar o Eduardo Gomes.

– Impossível. O Brigadeiro é honesto, íntegro, mas é um carola. Só vive metido com padres e bispos. Com ele no poder, a religião absorveria inteiramente o Estado.

– E o Góis Monteiro?

– O Góis bebe demais. Não pode ser o timoneiro do barco nacional. Poderíamos todos ir ao fundo.

– Então, só nos resta o Ademar.

– Deus nos livre, Flores!

– Bem, nesse caso você está num beco sem saída.

Getulio deu uma longa baforada no charuto:

– Flores, quem sabe se não é isso mesmo que eu quero?

E era. Em 10 de novembro de 37, Getulio deu o golpe.

JANGO E BRIZOLA – No fim de 1963, vim ao Rio (era deputado na Bahia, pelo MTR-PSB), para uma reunião da Frente de Mobilização Popular, comandada por Brizola. Lembro-me bem do Max da Costa Santos e Roland Corbisier (deputados federais do PSB e PTB da Guanabara), do José Gomes Talarico (deputado estadual do PTB da Guanabara e amigo intimo do presidente João Goulart), do Clodesmidt Riani, Oswaldo Pacheco e outros lideres do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), do José Serra e Marcelo Cerqueira (presidente e vice-presidente da UNE), do Paulo Ribeiro e Tarso de Castro (a turma do jornal “Panfleto”) e alguns dos “Grupos dos Onze”.

Pareciam todos judeus, comandados por Moisés, atravessando o Mar Vermelho e chegando à Terra Prometida. Ninguém tinha dúvida nenhuma de que não haveria força humana capaz de nos tirar do poder. A única dúvida ali era sobre quem seria o presidente depois do fim do mandato de Jango, em 65: o próprio Jango ou Brizola.

JK E LACERDA – De Juscelino (meu candidato) e Lacerda, já lançados pelo PSD e UDN, não tomavam conhecimento. Juscelino, por “estar superado”. Lacerda, porque “não podia assumir”. Mas Jango era inelegível (não havia reeleição) e Brizola também, por parentesco (porém, “cunhado não é parente”). A Constituição seria modificada, “na lei ou na marra”.

Jango havia dito a meu saudoso amigo (e dele também) Alaim Melo, um dos lideres do PTB da Bahia : – “Não vou trair a memória do Velho Getulio. Ao Lacerda não passo o governo, em nenhuma hipótese”.

ASSIS BRASIL – Depois da reunião, eu disse a Brizola e ao Max (também baiano):

– Os militares, lá na Bahia, estão conspirando o tempo todo. A Marinha, não sei. Mas até eu já fui convidado por amigos para reuniões com gente do Exercito e da Aeronáutica.

Brizola pediu alguns detalhes, eu dei, não falou nada.O Max zombou:

– É a UDN militar, Nery. Essa gente não aguenta um tiro do dispositivo militar do general Assis Brasil (chefe da Casa Militar de Jango).

Quatro meses depois, estávamos todos, sem uma exceção, cassados, presos ou exilados. O “dispositivo militar” do Assis Brasil não dispositivou um tirinho sequer. Os “Grupos dos 11” eram “romanos”: “Grupos dos II”.

Democracia não é só ter eleição a cada quatro anos, democracia é viver sem medo

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Em muitas ocasiões. era preciso enfrentar o medo

Sebastião Nery

Velho, muito velho, terno sempre azul e cabeça toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Teresópolis mas também em Petrópolis: revendedor há muitos anos da Loteria Federal. A sorte só chegava a Teresópolis e às vezes a Petrópolis pelas mãos já mirradas do seu Manuel.

Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um freguês permanente para seus bilhetes: Geisel. Toda extração, ele levava um bilhete inteiro para o sítio dos Cinamomos, do ex-presidente. Era venda segura e a comissão certa.

GEISEL – De repente, Geisel passou a receber no Rio, toda semana, diretamente da Loteria, cinco bilhetes inteiros. Como essa era a cota mínima de um revendedor, o ex- presidente ganhava o desconto de revendedor e seu Manuel perdia sua comissão. Mas não se queixava:

– Quem pode, pode. E ele tem sorte. Uma vez ganhou.

Um cliente de Petrópolis lhe perguntou:

– Seu Manuel, por que o senhor não se queixa lá na Caixa?

– Porque tenho medo.

– Mas o homem já não é mais presidente.

– Eu sei. Ele saiu do governo, mas meu medo do governo ficou.

PAULO ANTONIO – Na saudosa e histórica “Adega dos Frades”, um grupo de políticos, jornalistas, empresários, relembrava os tempos de medo da ditadura. Paulo Antonio Carneiro, diretor do “Diário de Petrópolis”, então jovem dirigente do MDB municipal, revendo seus papeis, encontrou umas laudas escritas à mão.

Candidato em 1974 a deputado federal pelo MDB do antigo Estado do Rio, em dobradinha com o vereador Carlos Portella, candidato a estadual, os dois então bem jovens, com menos de 30 anos, Paulo Antonio pediu sugestões para sua primeira aparição no horário do TRE na TV.

O SNI fazia uma pressão brutal, no Tribunal Regional Eleitoral, contra os candidatos do MDB, censurando-lhes os pronunciamentos, sobretudo dos mais jovens e aguerridos. Era preciso ser rápido no gatilho e aproveitar bem aqueles rápidos instantes, com declarações curtas e fortes.

ILHA DO MEDO – Paulo Antonio foi para a TV com uma pequena lista delas no bolso. Na sua vez de falar, reviu,memorizou e começou exatamente pela primeira:

– “Democracia não é só ter eleição de quatro em quatro anos. Democracia é viver sem medo”.

Na mesma hora, saíram os três do ar: o programa, Paulo Antonio e a frase. Dias depois, também eram vetadas e saíram da lista eleitoral do MDB fluminense as candidaturas dele e de seu fiel companheiro Portella.

No silêncio da noite, voando sobre o Atlântico, uma mensagem acorda Jango

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Se o avião fizesse escala no Brasil, Jango seria preso

Sebastião Nery

De repente, no silêncio da noite, como na canção de Peninha cantada por Caetano, voando sobre o Atlântico, já próximo de Pernambuco, ele acordou com a voz do comandante, falando em espanhol: “Atenção, por favor, senhores passageiros. Os fortes ventos que estamos enfrentando nos obrigam a fazer uma escala técnica em Recife, para recarregar o combustível. A demora no aeroporto será de aproximadamente 45 minutos. Obrigado”.

Ele percebe o perigo e diz ao jornalista uruguaio Jorge Otero, seu companheiro de viagem e vizinho de poltrona:

– Estou proibido de entrar em território brasileiro. Comprei esta passagem da Aerolíneas Argentinas com o compromisso de não fazer uma só escala. Então, que o avião retorne à Europa.

E foram os dois à cabine falar com o comandante. Um comissário de bordo tentou impedir. Mas, afinal, o comandante saiu e o ouviu:

– Sou o ex-presidente João Goulart, do Brasil. Estou como asilado na Argentina. (Era no Uruguai, mas vivia mais na Argentina). Se o avião descer no Brasil, serei preso, O senhor deve devolver-me à Europa ou levar-me aonde quiser, a qualquer lugar, menos no Brasil.

JANGO – O comandante estava “rígido e surpreso, com burocrática energia”:

– É impossível atendê-lo. Os ventos frontais foram muito superiores aos previstos e por isso gastamos muito mais combustível do que habitualmente. Quando o senhor comprou a passagem, tinha que saber das escalas assinaladas para uma emergência. Recife é o aeroporto mais perto.

– Mas, comandante, ninguém me avisou nada. Serei retirado do avião e preso. E o senhor será o responsável.

– Senhor, não entrará ninguém no avião. A esta hora só está acordado o responsável pela torre de controle, que vai chamar o pessoal do abastecimento. Não há ninguém no aeroporto.

– Desculpe, comandante. Mas meu nome está na lista de passageiros, que o senhor deverá entregar. Será só questão de minutos que venham do quartel e me levem preso. Contra mim, foi decretada uma ordem de prisão pela ditadura brasileira. Não posso entrar no Brasil, porque serei preso.

– Senhor, este é um avião argentino, sob meu comando. Não permitirei a ninguém que leve nenhum dos passageiros sob minha responsabilidade. Estamos em território argentino.

– Comandante, esta é uma aeronave civil. O senhor não vai poder fazer nada quando um punhado de soldados entrar aqui. A responsabilidade por isso, que surpreenderá o mundo, será exclusivamente do senhor.

– Vou ver o que posso fazer, mas não alimentem muitas esperanças.

RECIFE, NÃO – E voltou para a cabine. Jango e seu amigo para os lugares deles. O jornalista uruguaio tentou aliviar a tensão de Jango:

– Presidente, o senhor me disse que em Madrid comprou a passagem em nome de Belchior Marques. Talvez não se deem conta de quem é.

– É possível, Jorge. Mas o chefe da guarnição militar de Recife foi promovido por mim. Tem que saber quem é o passageiro Belchior Marques

O tempo vai passando e nada. De repente, a voz do comandante:

– Atenção, por favor. Aqui fala o comandante. Quero informar que os cálculos do combustível que resta e a sensível melhora nos ventos tornam desnecessário descer em Recife. O voo será sem escalas até Buenos Aires.

Jango, afinal, voltou a dormir. Era 12 de outubro de 76.

Saudades do José Geraldo Grossi, um patriota e um homem universal.

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Grossi foi um dos maiores criminalistas do país

Sebastião Nery

Estudante em Belo Horizonte, na década de 50, a “Republica da JUC”era santo abrigo: casarão cercado de jardins, frutas e flores, quase esquina com a Av. Amazonas, a 200 metros da Faculdade, dirigida pelo santo padre Viegas e liderada por João Bosco Cavalcanti Lana, da JUC de Direito.

A Universidade quase toda representada ali: José Gerardo Grossi, o grande advogado e ministro, já tinha cara de advogado. Fabio Lucas, hoje consagrado escritor e critico literário, já escrevia e publicava.

UM PASTOR ALEMÃO – Um alemão, vizinho, que morava sozinho, tinha um cão enorme, que latia a noite toda. Não deixava ninguém estudar, ler ou dormir em paz. Alguém teve a idéia de dar um bolo com veneno, logo eliminada. Creio que foi do Fabio Lucas a idéia genial. Um anuncio no “Estado de Minas”:

– “Por motivo de viagem urgente, doa-se um belo pastor alemão a quem prometer cuidar bem dele. Favor comparecer às seis da manhã de amanhã, rua tal, numero tal, tocar campainha”.

O alemão quase enlouqueceu. A fila foi lá na Avenida Amazonas. Não adiantava ele gritar que era mentira. Todo mundo mostrava o recorte do jornal. À tarde, ele procurou padre Viegas e fez um pacto de paz: o cão não ia mais latir de noite. E cumpriu.

UMA REUNIÃO – José Gerardo Grossi, da Faculdade de Direito e da “Republica da JUC” e o Aloísio Ordones, meu colega da Filosofia, convidaram-me para uma reunião onde seriam discutidos os problemas da Universidade e do paÍs. Fui. Lá, fiquei sabendo que era um encontro do “Comitê Universitário da UJC”, a União da Juventude Comunista. Discutiram-se teorias e posições políticas. Mas sobretudo se tratou do que e como fazer.

Troquei de letras. Da JUC, passei para a UJC. E com tarefas concretas. Como orador do Diretório, que tinha seu jornal oficial, o “Filosofia”, minha primeira tarefa foi fundar, dirigir e ser o responsável por um pequeno jornal mimeografado que exprimisse nossas posições sem dizer que eram as propostas da UJC. E nasceu “A Onda”.

EM UBERABA – Primeiro ano de Faculdade, orador do Diretório Acadêmico, saí de Uberaba eleito para o Parlamento do Estudante Mineiro. Foi meu batismo em congressos de estudantes, a que compareci a quase todos, nos três anos de Filosofia e nos cinco de Direito.

Em Uberaba, nós, da oposição (Dario de Paula, Helio Pontes, Fabio Lucas, Mauricio Leite Junqueira, Rivadavia Xavier Nunes, Paulino Cicero, Moacir Laterza, João Bosco Lana, Adônis Moreira, José Gerardo Grossi, eu, tantos outros) fomos dispostos a disputar a diretoria da UEE (União Estadual dos Estudantes), com chapa própria, no voto, na democracia.

O presidente da UEE e do congresso, o Andradinha, era uma parada. Desde o primeiro dia começou a lutar para não perder a eleição. Vetava delegados, obstruía os trabalhos. A cada hora as sessões e os debates iam ficando mais difíceis, mais complicados, mais tensos, com a mesa usando e abusando do direito de ser situação.

JOVENS PROMISSORES – No século passado a Faculdade de Direito de Minas era uma das mais importantes do pais. E se não era a mais agitada, como a Filosofia, era o mais importante centro universitário do Estado. Comandava a UEE (União Estadual de Estudantes).

Na década de 50, lá estavam e vivamente atuando no movimento estudantil, Helio Garcia depois governador, Murilo Badaró depois senador e ministro, Bonifacio Tamm de Andrada, o Andradinha, até hoje deputado, Genival Tourinho, Nelson Thibau, também deputados, Rivadavia Xavier Nunes, depois político em Goiás, José Gerardo Grossi, jurista, ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Sepúlveda Pertence, depois ministro do Supremo Tribunal Federal, Geraldo Nunes, Fabio Lucas escritor, e numerosos outros.

Sexta-feira, morreu em Brasília, 86 anos, José Gerardo Grossi. Um patriota e um homem universal. Ajudou a iluminar nossa juventude.

Nery errou de Coreia e foi preso em 1952 como militante comunista

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Nery conta como ocorreu sua primeira prisão

Sebastião Nery

Jamais esquecerei aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Havia dois anos apenas, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava filosofia e teologia, certo de que logo seria padre e um dia bispo, quiçá cardeal. Em um dos jornais, a manchete era minha, exclusiva, letras enormes: “Confirmam-se as acusações de “Tribuna de Minas” sobre as ligações do Sr. José Mendonça com os elementos comunistas”.

E no longo subtítulo, minha sentença de morte: “Preso ontem um redator de “O Diário”, justamente o homem de confiança do presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Vêm de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

“INSTRUMENTO” – A matéria começava assim, sempre na primeira página:

“Um fato policial vem confirmar as denúncias que “Tribuna de Minas” tem feito, em sucessivos editoriais, de que o órgão do pensamento católico no Estado, através da ação consciente ou não de seu redator-chefe, está servindo de instrumento nas mãos dos comunistas em Minas. Referimo-nos à prisão do universitário Sebastião Nery, redator de “O Diário” e protegido do Sr. José Mendonça naquele jornal.

Na tarde de ontem, a polícia varejou uma célula vermelha na rua Carijós, 774, onde se reuniam componentes das conferências pró-defesa dos direitos da juventude, organização esta que já tivemos oportunidade de denunciar. Durante sua repressão, os policiais detiveram diversos elementos ligados às classes estudantis e agitadores, entre os quais se encontrava o referido redator de “O Diário”.

LIÇÃO DE JORNALISMO – Aquela cadeia foi minha primeira grande lição de jornalismo. Ela me ensinou o que é a imprensa muito mais do que os meses em que eu já vinha trabalhando no jornal. Nada do que os vários jornais publicaram sobre mim e meus colegas presos era inteiramente falso.

A “Tribuna de Minas” era um jornal de Ademar de Barros, dirigido por Alexandre Konder, catarinense de talento e coragem, texto brilhante, borbulhante, confessadamente fascista, primo do senador Jorge Konder Bornhausen.

Konder tinha horror ao presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas, José Mendonça, meu mestre e de gerações de jornalistas, redator-chefe de O Diário, jornal da Igreja Católica, onde em 1952 fiz meu batismo profissional, porque Fernando Henrique ainda não havia acabado com a era Vargas e o Sindicato exigia que Konder cumprisse as obrigações trabalhistas.

NA CLANDESTINIDADE – O Partido Comunista e a UJC (União da Juventude Comunista), a que pertencíamos, eram ilegais e drasticamente reprimidos pela polícia. Para atuar politicamente, lançávamos mão de atividades mais amplas ou disfarçadas.

Nas conferências de defesa da juventude, discutíamos o Brasil e o mundo. Nesse dia, instalávamos em Minas o Movimento Mundial da Paz. A guerra da Coréia dividia o mundo e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e dependente dos Estados Unidos, que havia criminosamente invadido a Coréia do Norte, socialista e irmã da União Soviética.

Muitos anos depois, em Roma, numa entrevista coletiva, perguntei a Gorbatchev e ouvi, perplexo, que foi a Coréia do Norte que invadiu a do Sul, e não o contrário, como me disseram na época.

Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.

Uma família heroica perde agora seu lado artístico

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Agildo Ribeiro, grande mestre do humor

Sebastião Nery

Agildo Barata, herói dos tenentes dos anos 1920, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgião, filósofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas.

Um guarda enorme, bruto e violento, sempre armado, estava espancando presos, que se reuniram e encarregaram Agildo de falar com ele para dar um basta. Na hora da chamada matinal, todos no pátio, Agildo, baixinho, mãozinha miúda, deu dois passos à frente, ficou algum tempo parado diante do brutamontes, enfiou o dedo no nariz dele e disse que, na primeira vez em que ele batesse em um preso, iria matá-lo em público.

CAIU DURO – O guarda ficou parado, imóvel, arregalou os olhos e bomba!, caiu duro. Começou o corre-corre. Chamaram o médico do presídio. Antes dele, chegou chorando a mulher, debruçou-se sobre ele, gritando desesperada:

– “Meu amor, não morra! Você não pode morrer! Não me deixe!”

Punha a mão nos olhos, no coração, pegava o pulso, conferindo. Chegou o médico. Não adiantava mais nada. O guarda estava morto. A mulher gritava:

– “Doutor, me diga. Ele morreu mesmo? Será que não é só um desmaio?”

– “Não, minha senhora. Morreu. Acalme-se. Não há mais o que fazer.”

ERA UM BANDIDO – A mulher ajoelhou-se, enfiou os dedos nos olhos dele, convenceu-se e se levantou, sorrindo histérica:

– “Graças a Deus, doutor! Ele está morto mesmo! Morreu tarde! Isso era um bandido, um canalha. Me batia, quase me matava todo dia. Morreu tarde. Todo poderoso, todo valentão um dia se acaba!”