O reencontro com Waldir Pires e a perda de Carlos Araújo

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O velório de Araújo foi no saguão da Assembléia gaúcha

Sebastião Nery

Nestes tempos de mediocridade triunfante, carência de vocações públicas, foi uma festa na casa do advogado Carlos Sodré, em Salvador, o reencontro com velhos amigos como Waldir Pires, Virgildásio Sena, Roberto Santos, Joacy Goes, Hélio Duque, João Carlos Teixeira Gomes (o poeta Joca), outros, relembrando uma parte da história política brasileira.

Por exemplo, aos 91 anos, Waldir lúcido e ativo na defesa da democracia, nos ensina: “A política é a única forma de produzir mudanças na sociedade. O governo democrático não é o governo da vontade pessoal do governante. Não há falta de inteligência nos dias atuais. Há falta de caráter. A civilização não pode ser a corrupção e o caos, a ansiedade e a opressão. A dignidade humana, os direitos existenciais, os valores da liberdade, devem ser o balizamento na sociedade democrática. É o ser humano a medida e o fim da sociedade.”

CARLOS ARAÚJO – E lá se foi um grande gaúcho e grande brasileiro, o advogado e ex-deputado do PDT Carlos Araújo. Valente e exemplar na luta armada contra a ditadura militar, no movimento estudantil e nas disputas partidárias, na organização do PDT, sempre com liderança, patriotismo e desprendimento.

Macunaíma não é brasileiro

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Macunaíma não é brasileiro, é venezuelano. Quem me ensinou foi o então embaixador do Brasil em Caracas, Renato Prado Guimarães, jovem e competente que lá me deu inesquecíveis lições. Teodor Koch Grumberg, um alemão aventureiro que se meteu pela floresta amazônica no princípio do século, publicou em Berlim, em 1917, em cinco volumes, a história de suas viagens: “De Roraima ao Orinoco”.  Recolheu lendas da região, inclusive a de “Urariquera” e suas peripécias. Nosso Mário de Andrade, culto e gênio, leu Grumberg no original e mudou “Urariquera” para “Macunaíma”, mito, herói e retrato de nossos povos irmãos.

ÍNDIO LIVRE – O brasileiro tem, com o venezuelano, uma marca hereditária fundamental: além de descendentes de europeus e negros, somos filhos de índios da planície, bem diferentes dos índios das montanhas. O índio amazônico não está preso às geleiras dos Andes, amarrado a caminhos ínvios. É o índio livre, solto, nômade, da planície. Isso distingue e diferencia brasileiros e venezuelanos dos outros povos da América andina. A jovialidade, a alegria, a musicalidade, a extrema facilidade de comunicação, uma abertura irresistível para o exterior, tudo isso são coisas muito nossas e deles, muito iguais.

Você entra em um avião, sai pela América Central, pelo Caribe, e logo percebe quando há brasileiros ou venezuelanos: sempre mais alegria, barulho e graça a bordo. E as mulheres, modéstia à parte, irresistivelmente mais belas, mais charmosas. É o caminhar liberto de “Urariquera”, aliás “Macunaíma”, na floresta sem neve e sem fronteiras.

GRANDE SAVANA – Se houvesse neve e a floresta fosse branca e esquálida na infinita “taigá”, ali seria a Sibéria deles. Como é a grande savana, cercada da floresta tropical, com rios gordos e revoltos, é mesmo a Amazônia da Venezuela. Na Sibéria vi a mais grandiosa obra humana de ocupação planejada de uma região deserta, solitária. No Orinoco vi o maior projeto de industrialização e desenvolvimento na Amazônia continental. E sem destruí-la. Como sabemos pouco e mal de nossos irmãos latino-americanos! Eu que pensava conhecer quase o mundo inteiro, só então descobri que, na Venezuela, São Paulo fica na Amazônia.

A região se chama Guayana. O Estado, Bolívar. A capital administrativa, também Bolívar. A capital industrial, Guayana. A cidade moderna, planejada, avenidas largas, arborizadas, como Brasília, Puerto Ordaz. Mas quem dá vida, e alma, e seiva, e riqueza a mais de 50% do território do país é um rio, sagrado como o Nilo, unitário como o São Francisco, generoso como Amazonas – o Orinoco, engordado pelos afluentes Caroni e Apure.

BACIA DO ORINOCO – Os números são grandiosos, amazônicos. Limitada ao norte pela Cordilheira da Costa e a Oeste pela Cordilheira dos Andes, a bacia do Orinoco, ao sul e a leste, praticamente coincide com os limites políticos do país. Fora as vertentes das duas cordilheiras, 80% do território venezuelano correspondem à bacia do rio, um território de mais de 700 mil km2, com apenas 20% da população. A região da Guayana, com 45% do território do país, tem só 3% da população total.

O Orinoco é uma imensa coluna vertebral de oeste a leste, 1200 quilômetros, e, com os afluentes, 3 mil quilômetros navegáveis, com possibilidade de integração ao Amazonas e ao Prata. E embaixo petróleo, muito petróleo. Que sempre foi a ventura e a desventura da Venezuela.

Jararacas e escorpiões, mordendo as tetas do Estado

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Charge do João Bosco (Charge Online)

Sebastião Nery

“Fedro” foi uma história que Platão inventou para conversar com Sócrates. Esopo foi um contador de histórias que os gregos ouviam na Grécia antiga. Escravo e pobre. Sócrates ensinava contando histórias a seus discípulos. Trouxeram-nos a fábula eterna do escorpião e do sapo.

É uma fábula sobre um escorpião que pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião diz que se picar o sapo, o sapo iria afundar e o escorpião iria se afogar. O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas no meio do caminho, o escorpião, de fato, ferroa o sapo, condenando a ambos. Quando perguntado por que havia picado, o escorpião responde: que esta é a sua natureza e que nada poderia ser feito para mudar o destino.

LULA JARARACA – Lula acha pouco ser um escorpião. Diz que é uma jararaca. Talvez porque seja maior, mais comprido. Seus discípulos, sobretudo as graciosas meninas do PT na TV, acham pouco ser jararaca. Preferem mesmo ser escorpião. Cada palavra é uma ferroada.

Prefiro Confúcio e sua mansa sabedoria chinesa, nas primaveras e outonos com moralidade pessoal e governamental, procedimentos corretos nas relações sociais, justiça e sinceridade.

O país se pergunta para onde estamos indo. Não podemos cair na armadilha da jararaca nem do escorpião. Fábulas temos melhores, mais doces, mais mansas, mais santas.

ELITE EXTRATIVISTA – O grande problema brasileiro é a predominância de uma elite inculta e extrativista, disseminada em todo o quadrante da vida nacional. Está presente e determinando rumos na condução do Estado, na política, na economia, no sindicalismo e até nos chamados movimentos sociais. Não tem interesse e formação, por conveniência, para enxergar as potencialidades de desenvolvimento do País. Enxergam só a árvore dos seus privilégios corporativos.

Reformar o estado, modernizando-o, é defendido por quase toda sociedade desde que essas reformas não atinjam os seus mais diretos interesses. Assim é na política, na economia e amplos setores sociais.  Não é paradoxal que nos últimos anos o poder econômico tenha controlado e financiado o executivo e legislativo. A captura do Estado pelo poder econômico produziu a atual crise, onde a grande vítima é o povo brasileiro.

ALIANÇA IRRACIONAL – A manipulação da sociedade pelas diferentes corporações é a estratégia que unifica os vários interesses, no mundo político, empresarial, no sindical e afins, consolidando original aliança do capital e do trabalho. Usando um discurso ideológico, as corporações de direita, como definiu o economista Renato Fragelli, “querem um Estado grande para que ele seja saqueado pelo patrimonialismo. Enquanto a esquerda quer um Estado grande, para que seja saqueado pelo corporativismo”.

Essa poderosa aliança de patrimonialismo e corporativismo que impede a Reforma do Estado. A inoperância das elites brasileiras em enfrentar essa realidade, tem nas instituições do Estado, em todos os níveis, formidável aliada. A maioria dos integrantes dos três poderes republicanos é resistente às reformas estruturais.

A “pilhagem” do Estado, as iniquidades sociais e ineficiência econômica tem nessa esdrúxula aliança seu grande núcleo de sustentação, impedindo a construção de um Brasil desenvolvido.

O golpe do morubixaba

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Sebastião Nery

E de repente o Procurador Geral da República quis dar o golpe do cacique, do morubixaba: “Até dia 17, a caneta estará na minha mão. Enquanto houver bambu, vai ter flecha”. No Brasil já vimos golpe de marechal, golpe de general, golpe de coronel. Agora é a primeira vez que se vê a cabeleira ensaboada da princesa Leopoldina tentando dar um golpe.

Quem denuncia é o respeitado jurista e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, com toda a autoridade de sua toga veneranda, desde nossos tempos da saudosa faculdade de Direito de Minas Gerais:

“Janot afirma que o presidente recebeu dinheiro, mas ou o dinheiro não chegou a ele ou não se tem provas disso. A denúncia se baseia mesmo em uma ilação. Não há um conjunto forte de provas. Ao meu ver, trata-se de uma denúncia inepta. Está claro que foi precipitada. Falta investigação neste caso. Basear uma denúncia apenas em uma delação? O que disse Loures? Que o dinheiro era para o presidente? A peça deveria comprovar essa tese para pedir sua condenação. Sem isso, a denúncia fica descabida. Em prol de uma melhor investigação, acho que valeria até soltar o Rocha Loures para ampliar o prazo.  O fatiamento da denúncia prejudica a própria denúncia e é totalmente político. Só serve para tumultuar o tribunal, o poder legislativo e o próprio governo. Toda essa questão deveria ser examinada de uma só vez. Não se amontoa o Supremo dessa forma. O fatiamento é despropositado, atrapalha até a investigação e a relação entre os fatos. É muito cedo para se falar em condenação ou absolvição. Nem sabemos ainda se a Câmara vai autorizar (uma eventual instauração de ação penal contra Temer no Supremo Tribunal Federal). Mas, diante do que já disse, da falta de uma conjunto robusto de provas, a denúncia fica comprometida.”

DIREITOS HUMANOS – Na promulgação do texto constitucional, nascido na Assembleia Nacional Constituinte, o grande Ulysses Guimarães anunciava a “Constituição Cidadã.” Não começava no seu capítulo I, pelo Estado, mas pela importância constitucional dos direitos humanos. Soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, além do pluralismo político é sua base introdutória.

Político com P (maiúsculo), possuidor de sólida formação jurídica, o advogado paranaense, Osvaldo Macedo, foi ativo parlamentar na elaboração da Constituição. Em encontro recente, ele destacava que deve ser missão da sociedade e dos brasileiros conscientes a defesa intransigente pelos momentos dramáticos que estamos vivendo. A redemocratização de três décadas vem enfrentando solavancos autoritários originários dos tempos do regime militar. Ela é uma pedra no caminho dos aventureiros institucionais.

LÍDERES VALENTES – Pesquisa Datafolha apontava que 69% dos brasileiros adultos acreditam “que este País necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, é de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar sua fé”.

É o populismo salvacionista em estado bruto, pavimentado no ilusionismo deslegitimador da ordem institucional. Nas eleições gerais de 2018, em momento de indignação nacional, o Estado Democrático de Direito estará no centro dos debates, com a deterioração da política partidária e o fundamental combate à agressividade da corrupção pública e privada. É nesse cenário que poderão vicejar as candidaturas que se alimentam na busca de soluções fáceis e subvertedoras dos valores democráticos.

Nas redes sociais, os filhos da Imprensa Marrom

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Charge do Marcus (Gazeta do Cerrado)

Sebastião Nery

O progresso nunca vem só. Antes era a imprensa marrom maculando a comunicação. Mas seu alcance era limitado. De repente as redes sociais invadiram a vida do cidadão. É preciso resistir para não sermos absorvidos por elas. Cada um se sente no direito de ser o jornal de si mesmo. E vai escrevendo, publicando, dando sua opinião a torto e a direito, sem controle e sem critério. Quem diz o que quer ouve o que não quer. Daí esta infinidade de jornais e jornalecos borbulhando online.

Não consultam fontes, não vão as enciclopédias, não leem, não estudam, não pesquisam. Acham que o que pensam tem que ser ouvido e aceito pelos outros. É o império da verborreia. Resultado, as escolas foram invadidas por professores sem aulas.

NÍVEL DESABOU – Depois queixam-se de que o nível de ensino caiu muito. Não caiu, desabou. A consequência disso na política, então, é devastadora e aparecem líderes, falsos líderes, liderecos que o povo ouve e começa a seguir. É o exemplo típico de Lula que se vangloria de não ter estudado, não estudar e não gostar de quem estudou. É o país das jararacas, só servem para morder e envenenar. A consequência disso é uma distorção total da vida pública.

Em Salvador, o advogado Antonio Pessoa Cardoso, diante da “delação premiada” de Joesley Batista, foi certeiro:

– “Não se pode aceitar como delator criminoso confesso que obtém a permissão de autoridades para esmiuçar a vida alheia e “fabricar” provas com gravações e outras artimanhas com o objetivo exclusivo de livrar-se de processos e da cadeia. A prova preparada para obter o perdão não condiz com o sistema legal de delação. A sensação de tornar-se herói no mar de lama que vivemos permite o uso de todos os recursos”.

É POSSÍVEL ANULAR – Os benefícios exagerados concedidos pela PGR (Procuradoria Geral da República) e, agora, homologados parcialmente pelo STF, não são matéria consensual. Alguns ministros do Supremo votaram pelo respeito legal ao princípio das delações, mas destacaram que, no caso JBS, se sólidas provas factuais não se sustentarem, a anulação dos benefícios pessoais obtidos poderá acontecer.

A rigor, na vida republicana brasileira, a corrupção alastrou-se pelas artérias da nação. E tem na sua estrutura de poder, em todos os níveis, o principal responsável. É muito mais ampla do que os fatos até agora investigados vêm comprovando. A aliança de corruptores o corruptos no Brasil não mais é fato recente. O dinheiro público foi drenado e assaltado em velocidade de “fórmula 1”. Grupos oportunistas apelidados de campeões nacionais do desenvolvimento deitaram e rolaram.

OS BATISTAS – Quem não se lembra de Eike Batista, que queria ser o homem mais rico do mundo? Suas empresas viraram pó e atualmente cumpre prisão domiciliar.

Os outros Batistas, os irmãos Joesley e Wesley, montaram a maior empresa do mundo em proteína animal, com dinheiro público. De média empresa em 2003, a JBS em 2006 já faturava R$ 4 bilhões. Graças ao financiamento público em escala incontrolável e sociedade com o BNDES.

Com os bilhões que acumulam os corruptos põem a seu serviço exércitos de falsos jornalistas escondidos atrás de redes sociais. São os filhos da imprensa marrom.

Pavão Misterioso, teu nome é Rodrigo Janot

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Sebastião Nery

“Pavão misterioso/ pássaro formoso/ tudo é mistério/ nesse seu voar/ mas se eu corresse assim/ tantos céus assim/ muita história/ eu tinha pra contar” – começa assim a bela canção do cearense Ednardo. Agora apareceu outro pavão, o procurador-geral da República, cheio de poses, bocas e madeixas medievais. Nas mãos dele se embala o boiadeiro trambiqueiro goiano.

Surgiram os verdadeiros números e nomes do império bovino. É quase todo público disfarçado atrás das asas do pavão:

1 – A estrutura do grupo JBS é toda construída pelo dinheiro público: o BNESPAR é dono de 22% de todo o seu capital e a Caixa Econômica Federal dona de 5%. Logo 27% de recursos públicos.

2 – A compra nos Estados Unidos do Grupo Swift foi de 2,7 bilhões de reais, totalmente financiado pelo BNDES.

3 – A compra do Grupo Alparcatas foi totalmente financiada pela Caixa Econômica: 2,3 bilhões de reais.

4 – A Eldorado Celulose foi montada com dinheiro do FGTS, dos Fundos de Pensão Petros, Previ e Funcef. A dívida total hoje do grupo Eldorado, que está a venda, é de 8,5 bilhões de reais junto a estas instituições de propriedade dos trabalhadores.

5 – O Banco Original, que está a venda, tem dívida total de 3,5 bilhões de reais junto ao FGC – Fundo Garantidor de Crédito. O patrimônio líquido do Banco é de 2,1 bilhões de reais.

6 – Hoje a dívida bruta do grupo JBS é de 58,6 bilhões de reais, com agravante de que 31% têm vencimento nos próximos 12 meses.

7 – As linhas de crédito do JBS para o exterior que garantem a presença deles no mundo, tem esse perfil: Banco do Brasil – 5 bilhões de reais; na Caixa Econômica – 10 bilhões. Nos bancos privados: Santander 4,5 bilhões de reais, no Bradesco 3,2 bilhões de reais e no Itaú 1,5 bilhões.

Este é o retrato financeiro do grupo JBS.

Ainda bem que Procurador da República se troca de dois em dois anos. Este de agora, quando setembro vier.

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PS:
Está nas livrarias de Portugal e do Brasil, um livro fundamental sobre a Revolução dos Cravos: “Portugal A Revolução e a Descolonização”, do mestre mineiro, exilado pelo golpe militar de 1964, Maurício Paiva, que viveu por dentro e por fora aqueles dias tumultuosos. É um olhar de quem viu e viveu os acontecimentos que narra. Autor de depoimentos básicos sobre os golpes de 1964 no Brasil e no Chile, “Transição ao Socialismo: As lições do Chile”, “O Sonho Exilado”. (S.N.)

Meu amor bandido era o açougueiro cheio de dinheiro

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Ilustração reproduzida do Humor Político

Sebastião Nery

Era um país inteiro reverenciando um açougueiro cheio de dinheiro. Distribuía carne enlatada, carne empacotada, carne iluminada por uma moça linda que trocou um Jornal Nacional pela Friboi. E ele se tornou o aidodói do empresariado. Todos queriam ser o boiadeiro de Goiás. E os políticos encheram-no de dinheiro. Dinheiro dos bancos públicos, dinheiro dos bilhões de impostos que sonegava, dinheiro dos bancos que comprava, dinheiro das negociatas que promovia dentro e fora do país. Até a Procuradoria Geral da República, que devia vigiá-lo, caiu-lhe nos encantos. Abençoou uma delação premiada que premiava seus crimes.

O São Francisco de cabelos brancos assinou embaixo de seus crimes. O sereno ministro do Supremo também endossou suas negociatas. E a poderosa e monopolista televisão logo virou aliada de seus piores pecados. Até que um dia o pais acorda e descobre o óbvio: de quem ele estava roubando para distribuir tanto? Onde ficava o cofre que ele assaltou? Ora, ora, era tudo dinheiro público. Tudo dinheiro do país. Tudo dinheiro do povo.

FOI DE JATINHO – Caíra a máscara do mais esperto e audacioso bandido nacional. E ele fugiu em avião de luxo com proteção da justiça. Mas era pouco para a sua audácia. Convocou uma espalhafatosa entrevista e saiu denunciando, um a um, seus parceiros, os sócios de suas falcatruas. Agora a nação está de olho aberto para ver se os poderes podem, se a justiça é justa, se o bandido vai devolver o dinheiro roubado e parar na cadeia.

A corrupção sistemática nunca foi tão radiografada, demonstrando que está enraizada e penetrando como doença grave nas vísceras da nação, levando a força tarefa da Operação Lava Jato a ser referência na tentativa de regeneração nacional. Focada inicialmente no assalto oficial à Petrobrás, teve desdobramentos comprovando a aliança pública e privada. Os corruptores privados e os corruptos estatais capturaram o Estado brasileiro. A “res publica” foi transformada em verdadeira “cosa nostra”. Apoderaram-se do Estado em proveito próprio.

ANULAR PUNIÇÕES – Não é sem propósito que a ampla aliança dos corruptos e corruptores tente, com manobras indecorosas, combater e tentar anular as punições decorrentes das investigações.

O polêmico perdão a crimes capazes de render dezenas de anos de cadeia está indignando a sociedade brasileira e alimentando esperança entre os malandros de colarinho branco que vêm se movimentando em tentativa de desgaste e desmoralização das investigações. Articulam no legislativo, no executivo e até em áreas judiciárias manobras desesperadas objetivando enfraquecer e até anular as já proferidas e as futuras punições. A PGR e o STF, deram aos corruptos brasileiros um falacioso argumento. Um combustível tóxico para os conspiradores contra o Estado de Direito.

Consciências eram compradas com a mesma naturalidade de se estar adquirindo um rebanho bovino. O delator obteria no acordo de leniência vantagens e benefícios nunca vistos.

HÁ CONTROVÉRSIAS – No próprio Ministério Público vozes críticas condenando os privilégios excessivos, se fizeram ouvir. Dois procuradores da República, candidatos à chefia da PGR, não se omitiram: Eitel Santiago entende que “o Ministério Público se precipitou e o acordo não merece os benefícios que tiveram” e a ex-vice-procuradora-geral, Sandra Cureau, foi direta:

“Se alguém faz uma delação premiada, não é para que não se sujeite a nenhum tipo de punição.”

E a Globo perdeu a guerra

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Charge do Miguel (JC/PE)

Sebastião Nery

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, a Globo começou uma guerra de manhã e de noite já tinha perdido. A Bolsa disparou, o dólar apavorou, o mercado faturou, mas nada mais aconteceu. O presidente não caiu e a Globo assustava a nação com manchetes alarmantes o dia inteiro. Acionaram todo seu exercito gráfico repetindo as ordens da Lopes Quintas.  Por mais que labutassem nada acontecia. De manhã o Globo mixava nas bancas.

A madre superiora entregou os cristãos aos lobos. O mascote do camarote saltitou dia e noite de redação em redação procurando amarrar as ideias e não conseguia. As doces e alopradas globetes  chegaram a exaustão. A outra, sádica, ligou a carretilha  e não desligou mais. A ruiva verbosa deu azar: estava no pedaço em dia que não era de férias. A que não é prima apareceu tarde na tarde, perdeu tempo, no ar até hoje. A paulista do mensalão comandava a infantaria.

BRASIL DO FUTURO – A tarde passou e quanto mais a Globo repetia a renuncia esfriava as notícias. A solução foi pedir socorro ao janota que todo dia promete à Folha nova artilharia pesada.

Não se pensa em construir o Brasil do futuro, cultiva-se o Brasil arcaico, onde as ideias não florescem e em seu lugar o ódio, a raiva e a incompetência encontra terreno fértil. A sociedade torna-se amorfa alimentando sua esperança em falsos salvadores da Pátria. Caminho seguro para vender sonhos em um estado paternalista que possa mobilizar a população. É caminho certo para o desastre se as propostas populistas prevalecerem no cenário político de 2018, quando das eleições presidenciais. É rota segura para nos levar ao naufrágio, ao invés da prosperidade.

REUNIÕES DE LOBBIES – O professor Roberto Romano, de Ética Política da Unicamp, analisando o Legislativo, foi certeiro: “As chamadas bancadas do Congresso são reuniões de lobbies que vão de interesses econômicos a religiosos. São pessoas que não representam o eleitor indiferenciado, formal, mas interesses materiais muito específicos e opostos a outros interesses que foram preteridos. Isso traz problemas sérios, até mesmo ao desenvolvimento econômico.”

Em tradução direta, significa que a ação política praticada, em vastos setores, não tem compromisso com a população. Mas é preciso destacar que nela ainda habitam homens e mulheres honestos, competentes e dotados de espírito público. A restauração da verdadeira política tem neles a esperança de construção de realidade diferente do presente que vivemos. Enxergando o futuro.

TIPOS DE CORRUPÇÃO – Ante os escândalos recorrentes de corrupção que vem marcando o tempo atual no Brasil, o professor José de Souza Martins, da USP, constata que somos muito originais: temos a “corrupção altruísta”, a “corrupção cívica”, que pode dilapidar o patrimônio do Estado e a “corrupção Robin Hood”, que visaria o bem comum. Com ironia afirma: “Corrupção de esquerda não é corrupção. Corrupção de esquerda é corrupção para o bem, não é para enriquecimento privado. Há esse equívoco permeando todo esse processo. Isso é um tremendo equívoco, porque é corrupção do mesmo jeito.”

Encarneirada nessa realidade, onde corrupção é adjetivada, boa parte da classe política está mais preocupada com o seu destino e não com a sociedade que se fazem representar, submetem-se as Odebrechts e JBSs. Os interesses do País são secundários. Sanear contas públicas, modernizar o Estado com reformas, garantindo a retomada do crescimento econômico, deixa de ser programa de governo.

De Platão a Lacerda, a arte da política

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Desde que o homem acendeu uma fogueira e com outros homens começou a conversar dentro da caverna, política é a arte do bem comum. Esta é a lição dos sábios, já no começo dos tempos. Platão, o velho grego, ensinou: “Não há nada de errado com quem não gosta de política. Simplesmente será governado por aquele que gosta”.

Aristóteles, o discípulo preferido, aprendeu a lição: “Política é a ciência da felicidade humana.”

AQUINO E ROBESPIERRE – Lá na frente Santo Thomaz de Aquino, gordo e sábio, reafirmava: “Política é a arte de formar homens e administrar visando o bem comum.”

Caminha a história e em 1793, em plena Revolução Francesa, Robespierre cobrava: “As funções públicas não podem ser consideradas nem sinais de superioridade nem recompensa, mas como deveres públicos. Os delitos dos mandatários do povo devem ser severa e agilmente punidos.” E dois séculos depois a lição de Robespierre seria incorporada à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”.

VOLTAIRE E NAPOLEÃO – Outro sábio daquele tempo, o filósofo triste e pessimista Voltaire: “A política tem a sua fonte antes na perversidade do que na grandeza do espírito humano.”

Cristão era Napoleão: “ Em política, convém curar os males, nunca vingá-los.”

O poeta Paul Valéry era mesmo um poeta: “Toda política baseia-se na indiferença da maioria dos interessados, sem a qual não há política possível. A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem no que lhes concerne. Numa época seguinte, acresceram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidirem sobre o que não entendem.”

DE GAULLE E MAO – Do alto de seus 2 metros, De Gaulle não gostava dos pequenos: “A política mais dispendiosa, mais ruinosa, é ser pequeno…”

Outro grande no físico e na luta, MaoTsé-Tung: “A política é a guerra sem derramamento de sangue, enquanto que a guerra é política com derramamento de sangue.”

Churchill, contemporâneo e parceiro de De Gaulle no sangue, no suor e nas lágrimas: “A política é quase tão excitante como a guerra, e não menos perigosa. Na guerra a gente só pode ser morto uma vez, mas na política diversas vezes.”

DUQUE ESPERANÇOSO – Apesar disso o professor Hélio Duque, baiano do Paraná, não perde a esperança:

“A aliança de corruptores, empresários poderosos e corruptos, investidos de mandatos nos poderes executivo e legislativo, tem levado muitos brasileiros a julgar que a política é geradora da corrupção. Na verdade nada é mais falso quando se tenta nivelar a política como sinônimo de assalto ao dinheiro público. A canalhice política militante é dotada de uma cultura de vassalagem e abomina princípios e fundamentos éticos e morais. São fiéis seguidores da frase ouvida no interior de Minas Gerais, pelo médico e escritor Pedro Nava: – “Haveremos de resguardar a canalhice necessária para aderir no tempo oportuno.”

MAIS EXIGENTES – Nesse tempo de engodo não se pode prescindir dos homens públicos que cultivam a ética e não se submetem ao jogo da corrupção. Os brasileiros deveriam ser mais exigentes e seletivos na escolha dos seus representantes, ao invés de alimentar demagogos e falsos salvadores da Pátria como alternativa de poder.

Na política aristotélica o dever de dizer a verdade, em quaisquer circunstâncias, é inegociável. Infelizmente a maioria prefere o bom mocismo do riso fácil dos candidatos garantindo voto ao embusteiro não sabendo que o preço da escolha equivocada será cobrado no futuro, como estamos assistindo agora com a detonação de uma crise política, econômica e social inédita na vida republicana. Carlos Lacerda sabia: “Devemos dizer ao povo o que ele precisa saber e não o que gostaria de ouvir. Não confie em homens públicos que só sabem dar boas notícias.”

Os Irmãos Trombadinhas

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Charge sem assinatura (Arquivo Google)

Sebastião Nery

São João Batista, fugindo de Roma e exilado na ilha de Patmos, na Grécia, nos anos 91 a 96 depois de Cristo, vivia numa caverna onde recebeu a revelação divina do “Apocalipse” e hoje é Patrimônio Cultural da Humanidade, segundo a Unesco. No Brasil os irmãos Batista também recebem inspiração, mas de satanás. Na estratégia dos governos Lula e Dilma de criar “campeãs nacionais” do desenvolvimento, o JBS, o maior devedor do sistema previdenciário, começou em pequeno frigorífico de Goiás, na década de 50.

A partir de 2007, com recursos do BNDES, além de expandir-se no mercado interno, começou agressivo plano de inserir-se no mercado internacional: comprou a“Swift Foods” e em 2009 a “Pilgrim’s”, norte-americanas. No mesmo pacote foi comprada a “Smithfield Beef”, consolidando posição no mercado de carne bovina e de aves nos EUA. Tem liderança no setor, inclusive no mercado de carnes na Austrália e outros países. Para esse gigantismo empresarial teve a âncora segura do BNDES e do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, como consultor econômico.

SUBSIDIÁRIA – Através da “BNDESpar” tem 20,4% das suas ações e da Caixa Econômica Federal 6,9%. O restante da sua composição acionária é assim distribuído: 42,4% do acionista controlador; 25,5% dos acionistas minoritários; e, 4,8% de ações na Tesouraria. Não obstante os dois agentes públicos serem subscritores de 27,3% do seu capital, em 2016, o governo foi obrigado a impedir a transferência da sede da empresa para a Irlanda. A organização, através da subsidiária JBS Foods Internacional, pretendia fixar o seu domicílio fiscal no Reino Unido, ficando a parte que opera no Brasil como subsidiária.

A “Operação Bullish” revela uma triste história de fraude, suborno e corrupção,  radiografando a apropriação do Estado por grupos corporativos nas relações econômicas espúrias com o poder político. O adultério envolvendo os interesses do setor privado com o público assumiu proporções de escândalo.

MARSHALL TUPINIQUIM – Nos últimos anos o BNDES (2003 a 2014), foi o instrumento para sustentar grupos empresariais que se autointitulavam “campeãs do desenvolvimento”. As empresas adjetivadas de “players”, em condições privilegiadas, receberam de R$ 400 bilhões. O economista Samuel Pessoa, associado à Fundação Getúlio Vargas, traduz o que significa esse volume de dinheiro:

“O Plano Marshall, entre 1948 e 1951, para reconstrução de 16 países da Europa, após a II Guerra Mundial, custou aos EUA US$ 13 bilhões. Atualizado, aos preços atuais, significaria US$ 100 bilhões. Com o dólar cotado a R$ 3,15, representaria R$ 315 bilhões”. No Brasil gastamos mais do que o “Plano Marshall” na concessão de crédito subsidiado aos grupos econômicos com bom relacionamento com o poder.

A “Operação Bullish”, da Polícia Federal enfoca as relações do grupo JBS e o BNDES. Ela é o prosseguimento das operações “Sépsis”, “Greenfield”, “Cui Bono” e “Carne Fraca”, todas envolvendo as empresas controladas pela holding J&L (JBS). “Sépsis” investiga recursos suspeitos para a empresa; Eldorado Celulose (JBS), no fundo de investimento do FGTS; “Greenfield”, recursos irregulares para a Eldorado, dos Fundos de Pensão das estatais; “Cui Bono”, esquema de concessão de crédito pela Caixa Econômica, com propina para políticos; e “Carne Fraca”, corrupção de fiscais do Ministério da Agricultura, responsáveis pela liberação de carnes adulteradas. Todas envolvendo recursos financeiros e interesses assustadores.

Desde Montesquieu, a política é o bem comum

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A esquerda brasileira sempre foi ligada à esquerda francesa desde Montesquieu. Apolônio de Carvalho e André Malraux lutaram juntos na Guerra Civil Espanhola e na resistência ao nazismo em plena França ocupada por Hitler. Na ditadura militar brasileira, Brizola ficou amigo de Mitterrand, ao dirigir a Internacional Socialista do Brasil. Miguel Arraes, exilado na Argélia, era amigo de Michel Rocard, primeiro-ministro de Mitterand, presidente da França socialista. Lionel Jospin, primeiro-ministro da França pelo Partido Socialista, é até hoje amigo dileto (foram colegas de estudo na Sorbonne) do médico brasileiro potiguar Kleber Morais, presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares.

Jack Lang, o grande motor da cultura da França nos governos de Mitterrand, construindo a biblioteca Nacional François Mitterrand, o Arco de La Defense, a ópera da Bastilha e tantas outras pérolas dos governos socialistas, tem amigos brasileiros de norte a sul.

ESTENDENDO A MÃO – Todos esses e tantos outros, de uma maneira ou de outra estenderam a mão para os exilados brasileiros. Não foram só eles. Portugal e União Soviética foram exemplares, mas em nenhum país como na França os partidos Comunista, Socialista e tantos outros, deram casa e comida aos desterrados brasileiros na ditadura militar. Agora, pela primeira vez em séculos, o abraço político da França à esquerda brasileira está sendo dado pelo partido Socialista e outros fora do poder.

Ainda não se sabe como será Macron no seu mandato. Viver é um acontecimento político. A política está presente no cotidiano de todos e se alargando em todas as relações sociais e econômicas.

Aristóteles, em “Política”, na velha Grécia, afirmava: “A política é a ciência da felicidade humana”. Séculos depois, o gênio São Tomás de Aquino ratificava: “A política é a arte de formar homens e administrar visando o bem comum”. Platão, professor de Aristóteles, advertia: “Não há nada de errado com quem não gosta de política. Simplesmente serão governados pelos que gostam”. Os três deixam implícito que é preciso separar a política que visa o bem comum, os politiqueiros e a politicagem.

PARTICIPAÇÃO – A política afeta a vida de todos. Só a participação consciente da sociedade pode exigir políticas públicas fundadas na construção de realidade mais justa e com oportunidades iguais para todos. Os homens e mulheres que fogem da política e do supremo ato de lutar pelo interesse comum, garantem a sobrevivência e vida longa para os dilapidadores do interesse público. Legendas partidárias no Brasil, na sua quase totalidade, representam a antipolítica. Estima-se que 90% dos eleitores não se sentem representados por nenhum partido.

Em 1793, Robespierre à frente do governo definiu o que deve ser a ética pública: “As funções públicas não podem ser consideradas como sinais de superioridade, nem como recompensa, mas como deveres públicos. Os delitos dos mandatários do povo devem ser severa e agilmente punidos”. Dois séculos depois, seu pensamento seria incorporado na “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”.

                                 (artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

A festa da França e a vergonha do Brasil

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Posse de Macron é uma vitória da democracia francesa

Sebastião Nery

Paris já teve todos os louvores. Hoje é dia de louvar a França. Quando Hemingway disse que “Paris é uma festa”, sabia o que estava dizendo. Vivia lá, escrevia de lá e era testemunha dos anos dourados da década de 20. No Brasil o sergipano Gilberto Amado também sabia: “Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”. E o poeta mineiro Murilo Mendes: “Quando bombardeavam Paris destelhavam a casa do meu pai”. Mas os louvores de hoje são todos para a França que deu ao mundo um fulgurante exemplo de liberdade e democracia. Onze candidatos a Presidente, depois cinco, depois quatro, no fim dois e o povo foi para as ruas escolher um, sem ódio, sem xenofobia, sem violências.

Em um mundo retalhado pela fúria, com a morte morando em cada calçada, fez bem a França em dar este visceral exemplo não só de democracia como de civilização, de convivência coletiva. No próximo mês haverá eleições parlamentares. E a França instalará definitivamente mais uma república. Democrática. E não se diga que a campanha foi fria ou indiferente. Quem ganhou, ganhou com 65,5%, quem perdeu teve 34,5%. Como dizem os franceses “Et vive La France!”

GARCIA MARQUEZ – O livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, Premio Nobel de 1982, é uma ficção sofisticada tendo a aldeia de Macondo como geografia e a família Buendía como personagem. No Brasil, aconteceu o impossível: a realidade conseguiu superar a ficção, com a captura do Estado pelo poder econômico e político. A logística era pilhagem organizada do dinheiro público, com caixa 2, propinas, venda de medidas provisórias no executivo e no legislativo. Vantagens indecorosas a agentes públicos transformaram a administração da República em aliança criminosa entre os poderes públicos e privados,

“Plus rien à faire, plus rien à foutre” (Não estou nem aí, estou pouco me lixando)” é o título de um livro francês que deve estar servindo de orientação para os corruptos e corruptores brasileiros. A arrogância, o cinismo e a autossuficiência dos envolvidos no roubo deslavado ao contribuinte são chocantes.

PROPINAS E LUCROS – Estima-se que para 1 milhão de reais dado de propina, o lucro do grupo empresarial era de 4 milhões de reais. Realidade que envergonha os brasileiros decentes nos vários quadrantes da Pátria. Muitos dos investigados na maior estrutura de corrupção da história brasileira raciocinam no quanto pior melhor. Acreditam que, mergulhados na “lama podre”, desejam jogar o Brasil e as suas instituições no caos.

Especialistas em “porta de mansão” negam a existência de qualquer tipo de delito. Desejam jogar com o tempo e forçar um grande acordo onde todos se salvariam. Ignoram que o pior está ainda por acontecer.

COMPRA DE MPs – Os delatores da Odebrecht nominaram diversas Medidas Provisórias compradas pela empresa nos governos Lula e Dilma.A visão desse cenário de corrupção empresarial e de política de Estado é estarrecedora. Homens públicos no executivo e no legislativo, transformados em serviçais do poder econômico. Mesadas, propinas, dinheiro abundante na escala de bilhões alocados nos bolsos e patrimônios de ladravazes de colarinho branco.

Não obstante as provas documentais, os denunciados e seus advogados garantem que são todos vítimas de mentiras e falsidades. É tempo de a vergonha envergonhar-se.

Dirceu coordenava também a abertura de contas secretas no Panamá

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Charge do Fernando, reprodução do Arquivo Google

Deu em O Tempo
(Agência Estado)

O ex-ministro José Dirceu (governo Lula), o ex-diretor de Engenharia da Petrobras Pedro Barusco e o ex-gerente da estatal Edison Krummenauer têm em comum suspeitas sobre a utilização do mesmo esquema para a abertura de empresas em paraísos fiscais. Documentos entregues pelos dois ex-agentes da petrolífera dão conta de que ambos os agentes da estatal utilizaram o mesmo “laranja” indicado pelo escritório Morgan & Morgan – que também registrou sede de empresa de José Dirceu no Panamá – para abrir offshores utilizadas para o recebimento de propinas.

José Eugênio da Silva Ritter, morador de um bairro de classe média no Panamá e funcionário do Morgan & Morgan, é a ligação entre os alvos da Lava Jato. Ritter controlou offshore sócia de um hotel em Brasília que quase empregou José Dirceu em 2013. À época, o petista – condenado no processo do Mensalão – estava em regime semiaberto e ganhou autorização para trabalhar.

PROPINAS NO PANAMÁ – Com a deflagração da Operação Asfixia, 40ª fase da Lava Jato, mais uma vez, as investigações revelam o uso de offshores registradas no Panamá para o recebimento de propinas. Em acordo de delação com a força-tarefa, o ex-gerente da Petrobras Edison Krummenauer, admitiu ter intermediado pelo menos oito contratos da estatal com empreiteiras pelo valor de R$ 15 milhões.

Após a manipulação de concorrências proporcionada pelo ex-gerente, preso última na quinta-feira, as empreiteiras que participavam do esquema para vencer licitações firmavam contratos fictícios com as empresas Akyzo e Liderrol – as duas companhias, supostamente de fachada, ficavam responsáveis pelo pagamento de propinas aos agentes públicos.

No caso de Krumennauer, os repasses das duas empresas foram feitos no exterior, via offshore aberta no Panamá. Os representantes da empresa de fachada nos registros daquele país são nomes já antes identificados pelas investigações. O principal elo entre esta e outras offshores utilizadas pelos alvos da Lava Jato para recebimento de propinas no Panamá seria o escritório Morgan & Morgan e seus funcionários.

CUNHA E OUTROS – Segundo documentos do acordo de colaboração, Edison Krtumennauer Ritter é um dos representantes da Kirwall Consultants S.A., aberta no Panamá e titular de contas no banco Julius Baer, na Suíça – instituição financeira que já abrigou propinas do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco e do também ex-gerente da estatal Jorge Zelada, de acordo com as investigações.

O acordo de colaboração com a Justiça prevê para o ex-agente, além de pena de prisão por dez anos e tornozeleira eletrônica, a devolução de US$ 3,4 milhões depositados na Suíça, em nome da offshore Kirwall. Ele também foi obrigado a pagar de R$ 4,5 milhões em multas.

Os “laranjas” do escritório Morgan & Morgan, José Eugênio Ritter e Dianeth Isabel Ospino, que aparecem como administradores da Kirwall também figuram no quadro societário das offshores Rhea Comercial Inc. e Pexo Corporation, que foram utilizadas pelo ex-diretor da Petrobras Pedro Barusco – em delação, o ex-executivo da estatal admitiu ter aberto ambas em 2008 e que tentou fechá-las em 2014, mas teve o dinheiro bloqueado nas transferências.

VANTAGENS INDEVIDAS – Segundo Barusco, a Rhea recebeu US$ 11,2 milhões de propinas e a Pexo chegou a movimentar US$ 7,2 milhões – parte foi identificada como vantagens indevidas da Odebrecht.

O nome de José Eugênio Ritter ganhou espaço no noticiário quando o Jornal Nacional, da Rede Globo, revelou que ele era o detentor da Truston International, offshore aberta no Panamá pelo escritório Morgan & Morgan, que controlava o hotel Saint Peter, que ofereceu no fim de 2013 emprego a José Dirceu na sua primeira tentativa de migrar para o regime semiaberto. No hotel, o ex-ministro iria trabalhar como gerente, com salário de R$ 20 mil. Após a repercussão do caso, Dirceu desistiu do emprego.

Uma das filiais da JD Assessoria, apontada como empresa utilizada para receber propinas a José Dirceu, chegou a ser registrada no Panamá no mesmo endereço do escritório Morgan & Morgan. O Estado apurou que, em abril de 2009, numa alteração contratual, o ex-ministro decidiu ‘tornar sem efeito’ a abertura da filial no Panamá. O ex-ministro negou que a empresa tenha operado naquele país e que sua constituição teria sido apenas no papel.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É impressionante o volume de provas contra Dirceu, que continuou no esquema de corrupção depois de condenado no mensalão e comandava o esquema das contas no Panamá. A famiglia de Lula também abriu contas no Panamá, os filhos dele viviam viajando para lá. Só quem não vê são Os Três Patetas – Toffoli, Lewandowski e Mendes, não necessariamente nesta ordem. (C.N.)

 

Lembrando Mario Covas, no país dos marqueteiros

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Proust, Marcel Proust, o gênio da lembrança, não esqueceu a memória:- “Há de tudo em nossa memória: é uma espécie de farmácia, onde ao acaso se põe a mão ora sobre um calmante, ora sobre um veneno”. Muito oportuno o economista e professor Helio Duque, exemplar ex-deputado baiano-paranaense, em relembrar Mario Covas que neste 21 de abril estaria fazendo 87 anos. Nesse tempo de rapinagem nacional é importante destacar homens que dignificaram a administração pública, pelo testemunho de vida que deixaram.

Covas foi um homem público diferenciado. Em 1969 era o líder do MDB na Câmara. Cassado pela ditadura militar, voltou em 82, com a anistia. Franco Montoro, eleito governador, o chama para prefeito de São Paulo. Engenheiro competente inovaria com sua administração que priorizaria a periferia paulistana. Em 1986, com 8,5 milhões de votos, se elegeria senador.

ERA REFERÊNCIA – Na Assembleia Constituinte, líder do PMDB, foi referência na aprovação do texto constitucional. O PMDB era a garganta da oposição democrática, o partido de Ulysses Guimarães. Em 1994, Covas se elegeria governador de São Paulo.

O desafio seria o de sanear e incrementar reformas na administração do Estado, recolocando-o no rumo do desenvolvimento. Reeleito em 1998, não cumpriria a integralidade do mandato, vitimado pelo câncer.

Na Constituinte, Covas sempre defendeu que o “horário político gratuito”, nas redes de rádio e televisão, deveria ser realizado ao vivo com a presença dos candidatos debatendo as suas propostas. Combatia o marketing eleitoral por ser vendedor de ilusão, vazio de conteúdo político e mistificador da opinião pública. Infelizmente prevaleceu a vontade da maioria, institucionalizando a falsificação no processo eleitoral brasileiro. O marqueteiro político assumiu o papel de principal protagonista nas eleições em todo o Brasil.

MARQUETEIROS – Os “joãos santanas” se multiplicaram , financiados por orçamentos bilionarizados. O dinheiro da corrupção passou a ser o grande irrigador das disputas eleitorais nos municípios, estados e nas presidenciais. Os “bonecos falantes”, diante das redes de televisão, falam dos desafios a serem enfrentados, lendo “teleprompter” (equipamento acoplado às câmaras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo político). O debate e o verdadeiro conhecimento dos problemas nacionais passaram a ser ditados mentirosamente pelos marqueteiros de plantão. Hoje a vida política brasileira é artificialmente fabricada pelas equipes do “marketing eleitoral”. O despreparo, a incompetência e o oportunismo aventureiro passaram a ser regra geral

O recente “Manifesto à Nação”, lançado pelos advogados Modesto Carvalhosa, José Carlos Dias e Flávio Bierrenbach, preconiza mudanças e reformas na vida política, destacadamente na estrutura dos poderes republicanos, pede eliminação do foro privilegiado, adoção do voto distrital, fim das coligações eleitorais em quaisquer eleições, além da distribuição de igual tempo por partido no horário eleitoral gratuito para as eleições majoritárias.

Seus autores resgatam a proposta e o pensamento do sempre atual Mário Covas, quando propõem: “eliminação de efeitos de marketing nas campanhas eleitorais, devendo os candidatos se apresentarem no horário gratuito pessoalmente, com seus programas.”

A França perplexa

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Melenchon, Marine, Fillon e Macron na disputa 

Sebastião Nery

PARIS – Há 60 anos o jornalismo (ou foi Deus?) me deu a França. Em 1957, jornalista pelas mãos do patrono da imprensa mineira José Mendonça, no inesquecível “O Diário”, e estudante das Faculdades de Filosofia e Direito de Minas Gerais, a caminho de Moscou, via nos jornais franceses a figura heráldica e gloriosa do general De Gaulle convocando a França para unir a Europa. Uniu até 1968 quando em maio enfrentou a juventude rebelde nas ruas de Paris e passou a presidência para George Pompidou.

De 1969 a 1974 governou a direita organizada de George Pompidou. De 1974 a 1981 o poeta e romancista Valéry Giscard d’Estaing, os anos gloriosos da direita, até chegar François Mitterand, o grande herói da esquerda, em dois dourados mandatos de 1981 a 1995.

ESQUERDA E DIREITA – Numa armação de centro-esquerda bem francesa, para evitar a vitória de Jean-Marie Le Pen (pai desta atual Marine Le Pen), que sacrificou Lionel Jospin, o candidato do partido socialista, veio Jacques Chirac de 1995 a 2007 seguido por Nicolas Sarkozy, enfant gaté da direita, de 2007 a 2012.

Até que a esquerda volta de 2012 a 2017 com François Hollande, que venceu as prévias internas do partido socialista primeiro contra sua bela e charmosa ex-mulher deputada Segolene Royal e depois contra a também deputada, prefeita de Lilly, Marine Aubry.

Agora, de repente a França se vê engasgada numa disputa muito menos eleitoral do que social e política: uma candidata da direita, Marine Le Pen, vencendo todas as pesquisas, seguida de um jovem e brilhante economista e banqueiro, de centro, Emmanuel Macron, e seguida pelo candidato da esquerda Jean Luc Melenchon, que disputa o terceiro lugar com o candidato da direita François Fillon.

VOTOS DIVIDIDOS – O que há de mais original nesta eleição é que a candidata da Direita Le Pen, disputa com o candidato do Centro Emmanuel Macron o primeiro lugar. Aparecem nas pesquisas com os mesmos 24%, enquanto os candidatos da Direita François Fillon e o candidato da Esquerda Jean Luc Melenchon se rasgam pelo terceiro lugar.

Os menores nasceram para ficar atrás. Benoit Hamon, o mais jovem candidato, do partido Socialista e do presidente François Hollande, que até agora não conseguiu passar dos 10%, entrou em um processo de desgaste, abandonado por seus companheiros que debandam dia e noite para o vitorioso Emmanuel Macron, que cresce a cada dia empurrado pelos debates na televisão.

TEMPO DE SAUDADES – Chego ao fim deste texto com saudade dos tempos em que jornalismo na França era também poesia de Louis Aragon, poeta de nosso tempo e do Partido Comunista, que iluminava as livrarias e bancas de jornal:

LES YEUX D’ELSA

Tes yeux sont si profonds qu’en me penchant pour boire
J’ai vu tous les soleils y venir se mirer
S’y jeter à mourir tous les désespérés
Tes yeux sont si profonds que j’y perds la mémoire.

***

OS OLHOS DE ELZA

Teus olhos são tão profundos que me levam a beber
Eu vi todos os sóis nele se mirarem
Se atirando para morrer todos os desesperados
Teus olhos são tão profundos que neles perdi minha lembrança.

Democracia se faz assim

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(chargesbenett.wordpress.com)

Sebastião Nery

PARIS – No dia 21 de setembro de 1980, uma delegação dos quatro partidos da oposição no Brasil (Ulysses Guimarães, MDB, José Aparecido de Oliveira, PP, Jacob Bittar, PT e Sebastião Nery, PDT) foi recebida em Bonn, na Alemanha, pelo chanceler alemão Helmut Schmidt, para uma visita de duas semana a convite do SPD, o partido da Social Democracia Alemã, no governo.

Viajamos muito, conversamos muito, aprendemos muito. O SPD mostrou aos amigos brasileiros como ligava suas bases, seus comitês executivos e eleitorais, nacionalmente, antes e depois das eleições, constituindo o dinâmico partido que enfrentava a poderosa Democracia Cristã Alemã por ele tantas vezes derrotada, como nas últimas eleições.

O SPD tinha no Brasil um braço internacional para ação social e política, o ILDES, Instituto Latino-Americano de Desenvolvimento Econômico e Social, ligado a fundação alemã Friedrich Ebert. Nesta época o ILDES criou no Brasil um conselho político de quatro membros: dois senadores, Fernando Henrique Cardoso e Roberto Saturnino Braga, e dois deputados federais, Fernando Lyra e Hélio Duque.

UMA LIÇÃO – A primeira ação do conselho foi uma viagem a Berlim para um encontro com o então prefeito e herói da democracia alemã Willy Brandt.

A principal lição naqueles dias na Alemanhã, foi como os alemães saíram da tragédia do nazismo e da Segunda Guerra Mundial para construírem a sólida democracia que têm hoje.

Sem uma reforma verdadeira, torna-se impossível mudar a qualidade da vida política brasileira. Infelizmente, os fariseus grudados nos poderes da República não têm nenhum interesse real na implantação de uma verdadeira reforma. Ela teria de atacar de frente a não existência de autênticos partidos no Brasil, mas unicamente legendas partidárias. Deveria enfrentar as oligarquias patrimonialistas que se sustentam na ignorância popular, mãe da corrupção. Não poderia ficar dependente do sistema eleitoral e apenas ser garantia do financiamento público de campanhas com manutenção do injustificável Fundo Partidário e outras “pajelanças” privilegiadoras dos que se consideram donos do poder.

VOTO EM LISTA – Além de garantir a manutenção dessas iniquidades, os propositores da falsificada reforma política, em tramitação no Congresso Nacional, desejam introduzir o voto em lista para assegurar, casuisticamente, os seus mandatos.

Os oportunistas demonstram que a soberania popular é apenas um detalhe na vida política nacional. Extinção dos partidos de aluguel, aprovando a cláusula de barreira, eliminando as coligações partidárias nas eleições proporcionais, por exemplo, não consta da pauta dos falsos reformistas. Querem uma reforma política para garantir longa vida aos patriarcas partidários envolvidos nos recentes escândalos do caixa 2 e “propinas” na escala de bilhões.

A verdadeira reforma política deveria começar pela eliminação do voto obrigatório. O voto é um direito da cidadania, não é um dever como exige a ultrapassada legislação eleitoral brasileira. Aqui o voto é uma exigência legal, punindo o eleitor ausente que deve justificar-se na Justiça Eleitoral, para não ter interditado os seus direitos políticos. A punição é severa, não podendo participar de concurso público, nem matricular-se em universidades federais. Fica proibido de tirar carteira de identidade, passaporte ou obter empréstimo em banco público. O voto obrigatório é uma clara tutela ao cidadão.

Lava Jato, a lição do Brasil

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Charge do Pelicano (pelicanocartum.zep)

Sebastião Nery

MILÃO – Cheguei a Roma em janeiro de 1991, há 26 anos, como Adido Cultural do Brasil, e logo me vi escrevendo sobre a “Operação Mãos Limpas”, que nasceu exatamente em um Instituto Educacional Municipal aqui de Milão. Os jornalistas brasileiros me perguntavam o que era aquilo. Aprendi, com os colegas italianos, que era um bruto escândalo nascido nas entranhas do Partido Socialista italiano e espraiado para o Partido da Democracia Cristã e o Partido Liberal. Quer dizer, todos com a mão na massa.

De repente o jovem e valente procurador, Antonio Di Pietro, assumiu o comando das apurações e emocionou a Itália pela firmeza com que conduziu as apurações. A reação nasceu imediata, sobretudo vinda da máfia do sul da Itália. E o escândalo estourou quando apareceu morto na Sicília o também jovem juiz Falcone. A partir daí ninguém segurou a imprensa. E os partidos políticos estrebucharam tentando explicações que nada explicavam.

SEGUIU EM FRENTE – Havia um cadáver em Palermo e uma opinião pública exigindo respostas e o procurador Prieto, bravo, valente, inatacável, seguia em frente. Foram milhares de prisões, tardes de interrogatórios, delações premiadas, suicídios. Os partidos tentaram virar o jogo na Câmara e no Senado. Mas não adiantou. Houve dezenas de punições e a justiça cumpriu seu dever.

Hoje a roda virou. Os jornalistas italianos é que nos perguntam sobre o sucesso da Lava Jato, que a Itália compara com a operação Mãos Limpas. O juiz Sérgio Moro é aplaudido nos debates públicos e nas entrevistas. Ainda bem que a lição quem está dando é o Brasil. E o competente e valoroso juiz do Paraná e seus companheiros do Rio, São Paulo e Brasília.

Há instantes em que os países precisam construir lições que eventualmente sejam transmitidas a outros povos. A Lava Jato é uma delas.

FALSO OTIMISMO – No Brasil a sociedade, igualmente, pela sua maioria dormitava no sono profundo do otimismo nefasto construído pelos marqueteiros do poder. A ilha da fantasia edificada em soluções mágicas garantia popularidade ao governo na sustentação de uma política econômica equivocada que não pouparia nenhum setor produtivo.

Omite-se a responsabilidade dos grandes empresários na construção desse desastre histórico. Ela não é marginal. Ao contrário, auferiu vantagens, engordando os seus lucros, ampliando a concentração da renda nacional, penalizando a população. O jornalista Fábio Zanini, no livro “Euforia e Fracasso do Brasil Grande – Política Externa e Multinacionais Brasileiras na Era Lula” destaca:

– “A reboque da sua figura hiperativa vieram empreendedores e aproveitadores na construção civil, no agronegócio e no setor petrolífero, entusiasmados com o novo ambiente de permissividade que se instalava.”

HERANÇA HISTÓRICA – A promiscuidade geradora de corrupção no governo e no mundo empresarial, infelizmente, é herança histórica. Empenham-se nos esquemas de proteção e na economia fechada à competição.

As reinvindicações recorrentes do grande mundo empresarial e atendidas pelos governos Lula-Dilma, forçaram a derrubada artificial da taxa de juros, acreditando que garantiria a elevação da competitividade das empresas. O artificialismo produziu efeito contrário com a desvalorização do real.

Uma resposta à direita europeia

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Donal Trump já não é considerado um bicho-papão

Sebastião Nery

ROMA – Desde quando a grande imprensa brasileira e a latino americana pararam de viver à custa da Guerra Fria, os Estados Unidos deixaram de ser o bicho papão. Donald Trump passou horas com a Chanceler Angela Merkel e não devorou a Chapeuzinho Vermelho da Alemanha. Nem a OTAN explodiu, nem o Serviço Secreto dos Estados Unidos puseram fogo no mundo. Agora os tarados militaristas que estão sempre tentando buscar um fogo de guerra, podem deixar Vladimir Putim em paz.

Os rapazes e as lourinhas agitados da “Globo News” passarão noites sem dormir, mas essa guerra não virá. É verdade que há uma direita assustando a Europa. Sempre haverá. Mas depois de séculos de guerra a Europa aprendeu que só os traficantes das balas saem ganhando com as guerras frias ou quentes.

SOLUÇÃO POLÍTICA – Há poucos dias a Holanda esfriou seu partido da Direita. Angela Merkel está ganhando brilhantemente sua batalha contra a direita alemã. E a velha e sábia França nos apresenta uma bela lição de como os povos acertam quando encontram a solução política para conter suas radicalizações.

Ontem o melhor jornal do mundo, o Le Monde, numa síntese admirável mostrou que a França caminha para encontrar sua rota isolando o radicalismo furioso da beligerante Marine Le Pen. E o centro francês chega afinal ao que sempre foi desde a guerra: um abraço dos socialistas com o centro.

A porcentagem inédita de 34% de indecisos, mostra a candidata Marine Le Pen (do partido Frente Nacional) com 27% dos votos, Emmanuel Macron (do partido En Marche) com 26%, François Fillon (do partido Republicanos, de Sarkosy) com 17,5, Benoît Hamon (do partido Socialista) com 12,5%, Jean-Luc Melenchon (do Frente de Esquerda) com 11,5, mostra que a França parou para pensar.

Não é preciso ter medo de Donald Trump. A velha e sábia França está mostrando o caminho.

UM PARADOXO – No Brasil o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, observa: “Os Estados, vivem um paradoxo. Por um lado, são centrais de provimento dos serviços públicos: educação, saneamento, saúde, segurança e transporte. Por outro, as condições fiscais e financeiras para isso são muito ruins. As demandas por serviços públicos de qualidade só vão aumentar. Resolver a crise do Rio não resolve a crise dos Estados”.

Na mesma direção o economista José Roberto Afonso, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, faz o alerta: “Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerias antecipam a crise de todos os Estados e, por algumas peculiaridades, a potencializam. Não por acaso, são os três em que mais pesam os inativos na folha salarial.”

DESAJUSTES – A grande maioria dos Estados integra relação dos mais ricos e desenvolvidos, com expressiva população. A origem dos desajustes está em más administrações e pouco comprometimento com o equilíbrio das finanças públicas, ao longo de duas décadas.

O caso do Rio de Janeiro é emblemático. Em 2010, recebeu da agência “Standard & Poor’s”, grau de investimento, passando a ser o Estado brasileiro classificado porto seguro para investimentos. Além dos fatos policiais envolvendo o seu então governador Sergio Cabral, a gastança irresponsável, sustentada pelo sonho e esperança na receita do petróleo, produziu o desastre com um rombo nas suas contas públicas de R$ 26 bilhões.

Norberto Bobbio era um sábio

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ROMA – Tinha nome de nuvem e era um sábio. Norberto Bobbio foi o mais notável pensador político e social aqui da Itália no século passado. Estudava sua terra e sua gente com a profundeza dos sábios. – “Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil porque só um pessimismo da razão pode despertar aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros”.

Passando para o Brasil, o pensamento de Norberto Bobbio se traduz no monstro da maior recessão econômica da história republicana no pais. A catástrofe foi construída ao longo de anos, com a omissão da maioria da sociedade, em todos os níveis. Cultivou um otimismo marqueteiro sem se dar conta do que mostrava a realidade.

MUITA ENGANAÇÃO – A ilha da fantasia, sustentada no voluntarismo ideológico e pelo aparelhamento da administração pública, marginalizava a meritocracia, ampliando os poderes de um estado perdulário onde “nós” e “eles” foi erigida à filosofia de governabilidade. O corporativismo empresarial e sindical tomou conta do poder surfando no privilégio e na onda de notícias plastificadas, enganadoras da opinião pública.

Ao final de uma década o cenário da realidade eclodiu como um “tsunami”. Recessão econômica de três anos, déficit público em nível recorde, dívida pública multiplicada, taxa de juros incontrolável, inflação mais do que o dobro da meta primária, carga tributária crescendo e sugando a produção e desemprego atingindo mais de doze milhões de trabalhadores. A ilusória popularidade, apoiada pela maioria da sociedade deixou como herança uma economia em frangalho. O que fazer para retirar o País dessa realidade dolorosa?

HOUVE ADVERTÊNCIA – Não foi por falta de advertência. O economista e professor paranaense Hélio Duque advertiu a tempo:

– “É preciso despertar do sono da razão e entender que o atual governo, também responsável pela situação de caos econômico, por integrar pela sua maioria a base de sustentação dos governos Lula e Dilma, passou a enxergar a realidade. Impopular e desaprovado pela maioria da população, vem surpreendentemente propondo reformas básicas para retirar o Brasil da UTI. Se pelo lado político enfrenta cenário negativo, com nefastos personagens do passado, na área econômica promove mudanças estruturais positivas com equipe econômica competente. Destacadamente no Banco Central, na Petrobrás, no BNDES, no Ministério da Fazenda e áreas afins. A aprovação do teto dos gastos públicos, as propostas de reformas da previdência, do setor tributário, na área trabalhista, herdeira da “Carta del Lavoro” de Mussolini e mesmo alteração limitada na vida partidária, são propostas positivas.”

FUNDO DO POÇO – Pode-se afirmar que o fundo do poço da crise foi atingido. Mas exigirá tempo para recolocar o nível em padrão aceitável a uma retomada do crescimento econômico. Felizmente a reação já começa a ser sentida superando o momento de desespero.

O caminho ainda será longo. A prioridade deve ser a retomada do crescimento e o aprofundamento das reformas estruturais. Norberto Bobbio ensinou: Governar é enfrentar a realidade.

Jango fez as pazes com Brizola pouco tempo antes de morrer

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Jango e Brizola brigaram por causa da reação ao golpe

Sebastião Nery

ROMA – No último sábado, dia 4, no voo Rio-Roma, li um livro imperdível. Até surpreendente, pela idade do autor. Todo brasileiro deve ler, pois preenche um pedaço fundamental da história do país. E foi escrito com honra, alma e verdade. A partir de agora ninguém mais poderá falar sobre o golpe militar de 1964 sem ler e citar “Jango e eu – Memórias de um exílio sem volta”, de João Vicente Goulart, filho do grande e saudoso ex – Presidente João Goulart (Ed. Civilização Brasileira – Rio)

Não se põe um livro em uma lauda. Em vez de tentar resumi-lo, prefiro citar entre aspas apenas alguns pequenos trechos, que o resumem:

“Jango chegou a Porto Alegre no auge da crise. Após vários encontros com políticos e militares e de longas conversas para avaliar se haveria condições ou não de resistência, preferiu partir para o exílio, depois de constatar que resistir naquelas precárias condições logísticas seria ocasionar inutilmente um derramamento de sangue entre brasileiros, o que levaria o país a uma guerra civil de proporções inimagináveis, provocando, possivelmente, até a divisão territorial da nação.”

“Sua atitude, sem dúvida, foi a mais acertada, mesmo que as diferentes forças políticas, de esquerda e de direita, continuassem a criticá-lo duramente por não resistir. Por que essa crítica seria dirigida apenas a ele?, eu me pergunto. Por que o Partido Comunista não resistiu? Por que Brizola não resistiu? Por que os sindicatos não resistiram? Por que as Ligas Camponesas não resistiram? Por que Arraes não resistiu? Ora, Jango seria o único a se submeter? E onde estavam aqueles que o criticavam?”

“Jango sempre foi legalista. Alguns setores da esquerda – entre as quais estava Brizola -, que desejavam impedir o avanço da direita, é que queriam dar o golpe…”

“Pregavam o avanço, mesmo que pela força ou pela ruptura institucional antes do golpe de direita, o que acabou ocorrendo…”

“Jango não caiu por seus erros, e sim por seus acertos, como disse Darcy Ribeiro, muito pragmaticamente, em suas declarações sobre o golpe.”

“Brizola queria ser nomeado ministro da Justiça e indicar o general Ladário para ministro da Guerra”.

“Jango sabia disso e não jogaria seu povo numa resistência fratricida em nome do poder. Sua atitude preservou a paz da nação brasileira, e, principalmente, nosso território.

“Por anos, uma pesquisa feita pelo Ibope foi escondida nos escaninhos da Unicamp. Segundo ela, quando ocorreu o golpe, Jango tinha aprovação da maior parte da população brasileira, e, se pudesse concorrer em 1965, venceria as eleições, perdendo para Juscelino apenas em Belo Horizonte e Fortaleza.”

“Certa vez, enquanto conversávamos perto da lareira em casa, meu pai me contou como ele e o tio Leonel romperam relações. No dia 2 de abril, na casa do general Ladário, Jango decidiu não resistir ao golpe e Brizola queria que ele o nomeasse ministro da Justiça e o general Ladário ministro da Guerra. Jango não quis, e Brizola disse que ficaria no Brasil para lutar e morrer, porque não concordava em renunciar à luta e ir para o exílio.”

“Brizola, no entanto, não conseguiu viabilizar a resistência no Rio Grande do Sul. Jango não concordava com a luta armada que Brizola queria implantar no Brasil.”

“Jango fez as pazes com Brizola pouco tempo antes de morrer”…

“Eles passaram um longo período sem se falar”…