“O bom humor é a única qualidade divina do homem”, ensinava Marzagão

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No México, Marzagão foi dirigente da Televisa

Sebastião Nery

Eleito presidente, Tancredo Neves foi aos Estados Unidos e Europa. Passou pelo México. Augusto Marzagão, vice-presidente da Televisa, a maior televisão do México, organizou uma entrevista coletiva. Desde a Copa de 70, quando o Brasil ganhou o tri com a maior seleção mundial de todos os tempos, os mexicanos são siderados pelo futebol brasileiro. Um jornalista perguntou a Tancredo: “Presidente, é fácil ser eleito presidente da República no Brasil?’

– É, sim. Difícil é ser escolhido técnico da seleção brasileira.

Eleito presidente da república, Jânio também deu suas voltas por ali: Estados Unidos, Europa. Foi ao rancho de férias do recém- eleito presidente John Kennedy. Na beira da piscina dois jovens senhores tomavam um drink. De repente Jânio percebe que eram Kennedy e Marzagão, já íntimos. Jânio se espanta:

– Esta demitido senhor Marzagão. No meu governo nenhum auxiliar vai à frente do Presidente.

Kennedy deu uma gargalhada e ficaram os três papeando à beira da piscina.

MARZAGÃO – Quem entendia de Augusto Marzagão era Silvestre Gorgulho, amigo, aliado, irmão. O Brasil perdeu o humor e a competência do bruxo da comunicação. Alto, elegante, culto, foi uma bela biografia internacional. Quando diretor do Instituto Brasileiro do Café em Trieste, na velha Iugoslávia, Marzagão conviveu com estadistas, jogava biriba com seu amigo Cardeal Giovanni Montini, de Milão, depois Papa Paulo VI. Tomava uísque com John Kennedy à beira da piscina de Camp David, casa de fim de semana dos presidentes americanos. Tinha um rol de amigos artistas e compositores na sua agenda cultural.

De volta ao Brasil, em 1965, Marzagão foi trabalhar na Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, onde conheceu o advogado Carlos de Laet, que atentamente ouviu seus planos para a realização, no Rio de Janeiro, de um Festival de Música Popular. O governador Negrão de Lima vibrou e apoiou. E assim nasceu o FIC – Festival Internacional da Canção.

Os FIC’s mudaram e enriqueceram, não só a música popular brasileira, mas a própria vida inteligente do País. A nova musica brasileira e baiana, João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, os Doces Bárbaros, nasceram ali.

FAMA DE BRUXO – Marzagão, em 1988, faz valer sua fama de Bruxo a serviço de Jânio Quadros (eleito prefeito de São Paulo) e, depois, secretário particular do Presidente José Sarney.

Seus textos, suas conferências, seus livros e suas anedotas estão ainda muito vivos. Tenho em meus alfarrábios o projeto que Marzagão preparou para fazer em Brasília um grande Festival Internacional da Canção.

Guardo em mim uma inesquecível lição dele cada vez mais verdadeira: “O bom humor é a única qualidade divina do homem”.

Dom Helder sem Marx, na fase mais dura do regime militar…

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A Bahia fazia 400 anos, em 1949. Houve um congresso eucarístico em Salvador. Muitos bispos e padres se hospedaram no nosso multissecular Seminário Central, que é hoje o magnífico Museu de Arte Sacra, com suas imensas janelas coloniais. Cada um de nós do Seminário Maior ficou encarregado de secretariar um bispo ou um padre. A mim, com 17 anos, coube o magérrimo, falante e simpático padre Helder Câmara. Ajudei-lhe as missas, carreguei o Breviário, acompanhei-o pela cidade, a caminho dos atos públicos do congresso.

Uma noite, ele teve uma longa conversa com professores e seminaristas, sobre o país e a política. Tínhamos alguns padres fervorosamente integralistas. Lembro uma frase dele: “Também eu fui algum tempo integralista. Naquela época, depois da revolução de 30, o Brasil se dividia entre o Integralismo cristão e o Comunismo ateu. Fiquei com o Integralismo cristão. Hoje temos a doutrina social da Igreja, mais cristã e mais profunda que o Integralismo”.

UM BILHETE – Em 1964, depois do golpe, ele já arcebispo de Olinda e Recife, mandou para o quartel do 19º BC do Exercito, em Salvador, onde sabia que eu estava preso, um bilhete que só me foi entregue na saída: “Meu caro sacristão. Estão maltratando você? O Cristo há de lhe dar forças. Rezemos. (as.) Padre Helder”.

Numa tarde de 1971, eu estava na avenida Rio Branco, no Rio, na pequena redação do “Politika”, o primeiro semanário de oposição ao golpe de 64 (houve o Pif-Paf e havia o Pasquim, mas eram de humor).

Fundado e dirigido pelo saudoso Oliveira Bastos e por mim, o jornal enfrentava uma dura censura prévia toda semana. Apareceu o jornalista, professor e escritor pernambucano Harrison de Oliveira, mestre de história do Colégio Pedro II e da Universidade Cândido Mendes, com uma jóia rara.

UMA ENTREVISTA – Harrison tinha na pasta uma longa e polêmica entrevista de Dom Helder Câmara, o valente arcebispo de Olinda e Recife, que estava desafiando a ditadura aqui dentro e denunciando-a em conferências pelo mundo. O padre Henrique Neto, assessor dele, tinha sido barbaramente assassinado. Era no governo Médici, uma censura terrível e Dom Helder falava sobre o Nordeste, o Brasil, o mundo e a Igreja. Harrison, amigo e compadre dele (tem um filho chamado Helder), não conseguiu publicar a entrevista em nenhum jornal. Não deixariam sair também no “Politika”.

Oliveira Bastos estava no Pará, resolvi não mandar a entrevista para a censura, publicar de surpresa e ver no que dava. Deu no que deu. Fizemos a capa com uma foto grande de Dom Helder e apenas esta manchete: “Dom Helder entre Cristo e Marx!

SEM MARX – Harrison telefonou avisando para Dom Helder, que vetou: “Não estou com Marx coisa nenhuma. Sou de Cristo e dos meus pobrezinhos”.

Quando o jornal ficou pronto, estávamos preparados para o que desse e viesse. De madrugada, entupimos a kombi do jornal e iamos felizes e vitoriosos para a Distribuidora Chinaglia, na Zona Norte. Na praça Mauá, já na espreita, um carro da polícia nos cercou.

Prenderam tudo: o jornal, eu e o Harrison. Foi um dia inteiro de ameaças e sufoco na Polícia Federal. Ficaram furiosos com o nosso golpe falho. Por pouco não conseguimos. Diziam: “Sobre Dom Helder, nem a morte da mãe”.

A hora da Previdência, que foi resultado de muitas lutas históricas

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Charge do Pelicano (Charge Online)

Sebastião Nery

Os poetas sabem das coisas. Fernando Pessoa, como poucos: – “O homem e a hora são um só / quando Deus faz e a historia é feita / O mais é carne, cujo pó / a terra espreita”. Os três acabam sendo uma coisa só: o homem, a hora e a história. A história é a hora acontecendo. Na hora, o homem faz a história acontecer. Com as lutas do homem, a história vai surgindo do ventre do tempo.

Cada passo dado no Brasil, ao longo de dois séculos, para construir a Previdência Social, foi fruto de todo um longo e penoso processo, permanente e irreversível. Cada fato precedido de muitas e muitas lutas.

BELA HISTÓRIA – É uma bela história, que ninguém contou melhor do que uma brilhante equipe do ministério da Previdência, comandada por Jorceli Pereira de Sousa, que pesquisou, organizou, escreveu, em 2002, com seus companheiros Mônica Cabañas Guimarães, Vinicius Carvalho Pinheiro, Delubio Gomes Pereira da Silva, Tereza Augusta dos Santos Ouro e Francisco Orru de Azevedo, o livro “Os 80 Anos da Previdência Social”.

Os três grandes marcos da Previdência no Brasil são a lei do paulista EloY Chaves, de 1923, governo de Artur Bernardes, a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (e Previdência), por Lindolpho Collor (avô de Fernando Collor), na “revolução” de 30, governo de Vargas, e a Lei Orgânica da Previdência Social (nº 3.807) de 1960, governo de Juscelino, projeto do inesquecível deputado Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte.

MUITAS LUTAS – Mas as Nações não caem do céu, como estrelas. Para cada vitória, sempre muitas lutas. A primeira medida governamental com efeito prático foi o decreto 9.912, de 26 de março de 1888, regulamentando o direito à aposentadoria dos empregados dos Correios. Também em 1888, foi criada uma Caixa de Socorros em cada uma das Estradas de Ferro do Império.

Ainda nos fins do século XIX, foram instituídos o Fundo de Pensões do Pessoal das Oficinas de Imprensa, a aposentadoria para os empregados da Estrada de Ferro Central do Brasil, posteriormente estendida a todos os ferroviários, o Montepio Obrigatório dos empregados do ministério da Fazenda e a aposentadoria por invalidez e pensão por morte para os operários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e seus dependentes.

Era a Previdencia Social engatinhando.

SEGURO – Em 1894, José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque, senador por Pernambuco, apresentou projeto criando um seguro contra acidentes do trabalho.

Em 1908, o sergipano Mauricio Graco Cardoso, e o paulista Altino Arantes, depois presidente de São Paulo, de 1916 a 20, também apresentaram projetos criando o seguro de acidentes do trabalho.

Em 1917, o deputado Mauricio de Lacerda, do Rio (1912 a 20), jornalista, vereador e prefeito de Vassouras, pai de Carlos Lacerda, defensor das lutas e greves dos operários, um dos fundadores da Liga Socialista, havia apresentado um projeto criando o Código do Trabalho, estabelecendo, entre outras medidas, carga horária de 8 horas diárias de trabalho e proibição de trabalho aos menores de 14 anos.

HOUVE REAÇÃO – Todo o empresariado (como sempre, no Brasil) ficou logo contra o projeto de Mauricio de Lacerda, que não foi adiante. Mas Fernando Pessoa sabe mais do que a CNI, a Fiesp, a Firjan e todos os dinossauros patronais: – “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a historia é feita”

Como o poeta, o povo também sabe: o Bolsa Família é a Aposentadoria dos pobres e a Previdência dos miseráveis.

Comprada por FHC, a reeleição se tornou a mãe da corrupção

Resultado de imagem para reeleição + fhcSebastião Nery                     (Fotocharge reproduzida do site GGN)

Há 2.500 anos, na Grécia, Péricles chamou o povo para a praça pública e mandou decidir tudo pelo voto. Começava ali a civilização. Cada um valendo um. O voto é o homem como um animal igual. É a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade. Com a roda, a pólvora, a eletricidade, o rádio, a televisão, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. Não enche barriga, mas derruba as tiranias.

A emenda da reeleição de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na “botija” de Sergio Motta. A reeleição é uma rima de cão. É a vitória irrefreável da corrupção em todos os níveis: presidência, governadores e prefeitos.

INSULTO À NAÇÃO – Quando Fernando Henrique comprou a reeleição, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal, escreveu:

“A reeleição é um insulto à Nação, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens públicos que passaram por este país. Se os generais tivessem querido, também teriam sido reeleitos. Não faltariam apoios.

Pois bem. Foi preciso que chegasse à presidência da Republica não um militar, não um general, mas um civil, não um homem de caserna, mas um professor universitário, para que o Brasil regredisse ao nível mais baixo da América Latina em matéria de provimento da chefia do Estado.

A Constituição brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleição dos presidentes. Sempre se vedou a eleição de Presidente para o período imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito à visão histórica nacional, para que a Constituição mudasse a favor de seu intento”.

DISSE DA TRIBUNA – Josafá Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleição:

– “A Constituição de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam “outros cargos”, obrigando-os a renunciarem até seis meses antes do pleito.

– “Se o titular dos postos executivos está obrigado a renunciar para habilitar-se à eleição de “outro cargo”, por maior razão lógica há de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do “mesmo lugar”.

– “O fundamento moral e político de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o força a deixar o cargo pretendendo “outro”, cresce se seu propósito é ser reconduzido ao “mesmo” posto, de onde pode exercer influência preponderante no processo eleitoral”.

REELEIÇÃO COMPRADA – Não adiantou a reação dos dois ilustres juristas e da maioria da Nação. Fernando Henrique “ronivonou” o Congresso e a reeleição foi comprada.

(O ex-deputado RONIVON Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleição. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corrêa (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleição).

A reeleição é o princípio e o fim de todo tipo de corrupção por um motivo claro: no exercício do poder governadores, presidente e prefeitos têm muito mais força para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro público. O Mensalão mostrou isso e o Petrolão tirou a prova dos nove, comprovando que reeleição rima com corrupção no mais alto grau de depravação.

Voto e alternância de poder são a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

O primeiro milagre de Brasilia foi uma chuva de pedras de gelo 

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Juscelino e Bloch, dois amigos de verdade

Sebastião Nery

“Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo e meu xará a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

– “Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, três ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora”.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo”.

“No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

– “Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília”.

E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo buscá-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje : por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse? Seria algum encontro amoroso? E era”.

Esta é uma das muitas, numerosas histórias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro, “Tempo Diferente” (primorosa edição da Topbooks, sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro:

PEDRAS DE GELO –  “Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia elétrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou :

– Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele Planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo”.

Era o primeiro milagre de Brasília.

BILHETE DE ADOLPHO – E este bilhete de Adolfo Bloch a Carlos Murilo, já na “Manchete” em Brasília:

 

“Murilo, ai vai esta lancha para você fazer relações públicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações públicas. E fizemos um mau negócio, porque um homem como aquele não se perde”.

Não há Republica sem homens honestos

Resultado de imagem para Ortega y GassetSebastião Nery

Agamenon Magalhães, governador, ministro, patriarca de Pernambuco, era um político sábio: – “O homem público no poder não compra, não vende, não troca”. Outro sábio, Ortega y Gasset, filósofo espanhol, em 1921, perplexo diante do desfibramento da política e da sociedade espanhola, escreveu “Espanha Invertebrada”, sobre os rumos e o futuro da Nação: – “Uma sociedade míope agrava a enfermidade pública, prestigiando políticos sem virtudes que impõem as suas vontades e interesses em detrimento dos verdadeiros valores nacionais”.

Roberto D’Ávila, com seu talento e competência profissional, entrevistando Lula, na Globo News, tentou tirar leite das pedras, extrair alguma luz de uma cabeça de bagre. A entrevista foi um descalabro. Uma aula torta de como mentir. Podia ter encerrado a conversa relendo relatório da Polícia Federal, publicado na “Folha de S. Paulo” que lista as 15 empresas da família Lula.

FAMÍLIA IMPERIAL – O Brasil teve durante 300 anos uma família imperial. Agora sabe-se que tem uma “família empresarial”, que fez o milagre de chegar a São Paulo carregando uma trouxa e meio século depois ser proprietária destas 15 empresas:

1 – BR4 Participações Ltda /Capital R$ 4 milhões.

2 – FFK Participações Ltda / Capital R$ 150.000,00.

3 – G4 Entretenimento e Tecnologia Digital / Capital R$    150.000,00.

4 – LFT Marketing Esp. Ltda / Capital R$ 100.000,00.

5 – LKT Marketing Eireli / Capital R$ 100.000,00.

6 – Flex BRT Tecnologia S.A. / Capital R$ 20.000,00.

7 – Flex BRT Ltda / Capital R$ 20.000,00.

8 – LLCS Participações Ltda / Capital R$ 1.000,00.

9 – LLF Participação Eireli / Capital R$ 80.000,00.

10 – Gamecop S.A. / Capital R$ 10.000,00.

11 – LLCS Participações Eireli / Capital R$ 1.000,00.

12 – Touchdowm Prom. de Eventos Esportivos Ltda / Capital R$ 1.000,00.

13 – Gasbom Cursino Ltda / Capital R$ 2.000,00.

14 – Gisam Comércio de Roupas Ltda / Capital R$ 5.000,00.

15 – L.I.L.S. Palestras Eventos e Publicidade / Capital R$ 100.000,00”.

É com essa L.I.L.S. que Lula assina os recibos das fajutas conferências.

POVO ATRASADO – O mestre Florestan Fernandes ensinou que o problema do Brasil é que somos um povo atrasado.

1 – O ex-ministro e professor João Sayad, da USP, confirma: – “A Democracia ameaça a República se for dominada pela demagogia, por eleitores mal informados. Não há república sem homens virtuosos: honestos defensores do interesse público e corajosos. A República pode se tornar tirania. República e democracia procuram um equilíbrio delicado. A República vai mal. Falta virtude. Como tornar os homens públicos virtuosos? Deveriam ler os clássicos – Cícero, Catão, Platão, Aristóteles. Só assim homens virtuosos poderiam se candidatar sem ter que jantar escondido com financiadores de currículo duvidosos”. (Valor Econômico)

2 – Professor e diretor do Instituto de Políticas Públicas da UNESP, Marco Aurélio Nogueira: – “A política ficou submetida ao mercado e a representação perdeu substância. A fragmentação e a falta de operacionalidade do sistema político fazem com que a democracia, em alguns países, fique bloqueada e, em outros, passe a ser alimentada por doses expressivas de corrupção e ilicitude. Neste ambiente, os governos e a classe política pioram dramaticamente seu desempenho e deixam suas comunidades sem muitas saídas.” (O Estado de São Paulo)

O PT nasceu para ajudar a iluminar a vida política da Nação. Mas só fez apagar a luz. O Brasil jamais havia descido a um nível político tão invertebrado. Ortega y Gasset não viu nada.

O que acontecerá a Barcelona, a cidade de Augusto?

Protesto contra a violência policial no centro de Barcelona

Após o plebiscito, protesto contra a violência policial

Sebastião Nery

Ela é uma, mas sempre foi muitas, tantas, numerosíssimas. Nasceu Laye, cidade ibérica conquistada no ano 133 antes de Cristo pelo romano Lúcio Cornélio Scipião, colônia romana nos tempos do imperador Augusto (de 27 antes de Cristo a 14 depois de Cristo), com o múltiplo, imperial e soberbo nome de Faventia Julia Augusta Paterna Barcino, a cidade de Augusto, dos Augustos como eu.

De Barcino para Barcelona foram séculos. Plantada sobre um pequeno monte, o Taber, em meio à planície entre os rios Bésos e Llobregat, às beiras do Mediterrâneo, protegida dos ventos norte pela serra da Collserola, a cidade cresceu na área que é hoje o Bairro Gótico onde se podem ver ainda as imponentes colunas do templo de Augusto, cercada de muralhas até o século IV quando foi ocupada pelos francos.

INDEPENDÊNCIA – Ludovico Pio chega ao sul dos Pirineus e nasce o Condado de Barcelona quando se destaca Vifredo o Velloso (Guifré el Pilós) e a cidade se desenvolve permanentemente até a invasão de Almamzor (ano 985) que a arrasa e cuja independência só vai ser restabelecida com o Condado do Conde Borell II no ano 988:

“O esplendoroso desenvolvimento de Barcelona acontece a partir do século XI com a união de Catalunha e Aragão. No século XII, Afonso I torna-se o primeiro conde rei. Jaime I, o conquistador, estende seu reinado até o sul, no reino de Valencia e através do Mediterrâneo com a conquista de Maiorca, criando a grande confederação Catalã-Aragoneza no século XIII, com as máximas obras arquitetônicas do gótico e as grandes instituições como o Código dels Usatges, que define a personalidade histórica da Catalunha e de Barcelona.”(“Escudo de Oro”)

COLOMBO – Lá do alto de sua estátua, na praça ampla, olhando a avenida larga e o mar infinito, Cristovão Colombo é o herói universal que descobriu as Américas. Mas antes de voltar, era “apenas uma anedota”. A partir dele é que vêm a Exposição Universal de 1888 e a Exposição Internacional de 1929, até 1992 com os Jogos Olímpicos que definiram o novo urbanismo e a nova arquitetura da nova cidade.

Barcelona é símbolo de todos os mundos, do romano até hoje.  Neste primeiro de outubro de 2017, uma crise geopolítica abala a Espanha: o referendo pela independência da Catalunha venceu com 90% dos votos, segundo o governo catalão. Enquanto o presidente catalão diz que Catalunha ‘ganhou direito de ser um Estado’, o  primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, não reconhece o resultado e diz que ‘não houve referendo’.

Apesar da proibição pela Justiça, mais de 2,26 milhões votaram no plebiscito e o “Sim” venceu com 90,09% (2.020.144 votos). O “Não” teve 7,87% (176.565 votos), votos em branco foram 2,03% (45.586) e nulos foram 0,89% (20.129).

ANTAGONISMO – Para o presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, a independência “agora não é um assunto interno da Espanha. É um assunto da União Europeia”.

Já o primeiro-ministro Mariano Rajoy foi contundente: “Não houve um referendo de autodeterminação da Catalunha. Nosso Estado de Direito mantém sua vigência. Não vimos qualquer tipo de consulta, senão uma mera encenação a mais contra a legalidade”.

O mundo está ansioso para saber o futuro da Catalunha, uma das 17 regiões autônomas da Espanha com quase 8 milhões de habitantes, e responsável por quase um quinto do PIB espanhol.

A pedra de Minas e a posição dos militares

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Charge do Alpino (Yahoo Brasil)

Sebastião Nery

No restaurante do aeroporto Santos Dumont, no Rio, almoçaram, em 1942, cinco amigos, mineiros ilustres: Virgílio de Mell

o Franco, Luís Camilo de Oliveira Neto, Pedro Aleixo, Afonso Arinos de Melo Franco e José de Magalhães Pinto. Conversavam sobre o livro do padre José Antonio Marinho, “História do Movimento Político de 1842”, a histórica batalha de Santa Luzia, perto de Belo Horizonte, em que três mil mineiros em armas, completamente equipados, inclusive com artilharia, haviam enfrentado as forças imperiais.

Os cinco mineiros buscavam uma maneira de comemorar o centenário da rebelião mineira. Eles queriam fazer alguma coisa que sinalizasse a reação à ditadura. Não conseguiram. Quem comemorou foi a ditadura de Getúlio Vargas, numa cerimônia, no local da batalha perdida, em Santa Luzia, em homenagem a Caxias, o general que esmagou os mineiros rebeldes.

PROTESTO NO IAB – Em agosto de 1943, a delegação de Minas ao congresso jurídico nacional, organizado pelo Instituto de Advogados do Brasil, retirou-se, em companhia da delegação do Rio, em protesto porque o governo proibiu o congresso de tomar deliberações sobre pontos da maior importância.

Um almoço de desagravo, no Rio, reuniu 150 pessoas em solidariedade a Pedro Aleixo, presidente da delegação da Ordem dos Advogados Mineiros ao congresso.

Uma tarde, no Banco do Brasil, onde ambos eram advogados, Afonso Arinos e Odilon Braga discutiam a necessidade de ser preparado e divulgado um documento, um manifesto aos mineiros sobre a situação nacional. Odilon Braga escreveu logo um esboço. Virgílio de Mello Franco, sabendo do assunto, preparou também um anteprojeto.

NO AEROPORTO – Um terceiro texto foi escrito por Dario de Almeida Magalhães. Fizeram uma reunião na casa de Virgílio e juntaram os três em um só. E em um almoço no restaurante do aeroporto, a que compareceram os três redatores e mais Luís Camilo, Afonso Arinos, Pedro Aleixo e Magalhães Pinto, foi aprovado. E ainda mandaram para Belo Horizonte, para Milton Campos dar seus palpites.

Luís Camilo e Virgílio de Mello Franco encarregados de pegaram as assinaturas, no maior sigilo, porque, se a polícia de Vargas tomasse conhecimento, iria abortar. Na última hora, como acontece no Congresso, alguns que já haviam assinado retiraram as assinaturas.

Mas saiu. Assinado por 88 líderes mineiros, impresso às escondidas em uma tipografia de Barbacena, com a data de 24 de outubro de 1943, aniversário da revolução de 30), o “Manifesto dos Mineiros”, sob o título de “Ao Povo Mineiro”, começou a ser mandado aos pacotes e distribuído, também sigilosamente, em todo o país.

PEDRA DA MONTANHA – Numa manhã, em que ia para o centro do Rio com o cunhado José Tomás Nabuco, Virgílio de Mello Franco cruzou na praia de Botafogo com o chefe de Polícia do Rio, João Alberto, que lhe disse: “quela pedra que vocês lançaram da montanha ninguém mais pode parar”.

Getúlio sabia o peso que aquela pedra tinha.

Setenta e cinco anos depois o Brasil esta precisando de quem jogue uma nova pedra. Os partidos não sabem para onde vão. A universidade está sem caminho. A imprensa. perdida em interesses miúdos. Chegou a hora de se construir uma bandeira que comande as esperanças nacionais. As eleições de 2018 estão ai, na porta. Os idiotas da direita e da esquerda imaginam uma solução fora da Constituição. Ilusão. Pela primeira vez, 75 anos depois, as Forças Armadas estão ensinando que fora da Constituição não há salvação.

Marcello Cerqueira, a imagem de um advogado de verdade

Cerqueira foi defensor dos perseguidos políticos

Sebastião Nery

No dia 12 de abril de 1972, no horror da ditadura Médici, escrevi em minha coluna na “Tribuna da Imprensa” e tantos outros jornais: – “Marcelo Caetano, primeiro-ministro de Portugal: Portugal jamais abandonará o controle sobre suas províncias da África”. Mussolini também disse que a Itália jamais sairia da Abissínia. Acabou berrando de cabeça para baixo em um posto de gasolina de Milão. Como um bode imundo. Hitler também disse que a Alemanha jamais sairia da Iugoslávia. Acabou enterrado nos porões de Berlim. Como um verme imundo.

No mesmo dia, o embaixador Manoel Fragoso, de Portugal, foi ao Ministério das Relações Exteriores e exigiu do ministro Mário Gibson Barbosa que eu fosse enquadrado no artigo 21 da Lei de Segurança Nacional: – “Ofender publicamente, por palavras ou por escrito, chefe de governo de nação estrangeira. Pena: reclusão de 2 a 6 anos”.

ABRIU PROCESSO – O ministro Mário Gibson oficiou imediatamente ao ministério da Justiça. O ministro Alfredo Buzaid abriu processo.

Era a primeira vez, no Brasil, que alguém era enquadrado no artigo 21 da Lei de Segurança. O processo andou rápido. Meu brilhante e gratuito advogado e amigo o jurista Marcelo Cerqueira que, com seu generoso talento já me absolvera outras vezes, brincava comigo: “- Nery, você esta frito. Por menos que isso porque chamou Augusto Pinochet de ditador em pleno exercício do seu mandato de deputado federal, Chico Pinto foi condenado, tirado da Câmara e levado para a cadeia. Desta vez você não escapa.”

Eu havia decidido comparecer ao julgamento da Primeira Auditoria da Marinha no Rio de Janeiro. Desse no que desse.

RUMO A SÃO PAULO – Mas nas vésperas do julgamento meus fraternos amigos Graça e Hélio Duque, companheiros de luta na Bahia e de clandestinidade em São Paulo, passaram pelo Rio e não concordaram com a minha ideia de arriscar. Na véspera do julgamento, de madrugada, no carro deles, saímos para São Paulo onde esperaríamos o resultado no dia seguinte.

Condenado iria para Londrina, de lá até a fronteira seguiria para o exílio no Chile e depois Paris. De manhã liguei para José Aparecido em São Paulo. Ele convidou: “- Vamos almoçar com o presidente Jânio Quadros na casa do Pedroso (líder do MDB).”

Jânio chegou de camisa esporte: “- Nery, estava sabendo pelos jornais e o nosso Zé me disse que você será condenado. Não sem razões, sabe-se.”

TOMANDO VINHO – Os três dissolvendo minha tensão com um Borgonha. Pedroso silencioso, sorria, e eu com a cabeça na Auditoria da Marinha. Às 6 da tarde Marcelo telefona: “- Eles são uns desprevenidos. Te absolveram por 4 a 2.

Marcelo havia levantado a tese irrespondível: a lei de segurança falava em Chefe de Estado que era o almirante Américo Tomas, presidente de Portugal. Marcelo Caetano não era Chefe de Estado, era Primeiro-Ministro, Chefe de Governo.

O promotor Militar recorreu para o Superior Tribunal Militar. Meses depois compareci ao julgamento. O promotor militar, que não me conhecia, disse que tanto eu tinha certeza de não ter razão que não tive coragem de comparecer ao julgamento. Marcelo disse apenas:

“- Senhor presidente do Tribunal, senhores Ministros, apresento-lhes o réu aqui presente.” E apontou para mim. Fui absolvido por unanimidade.

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O Rio acaba de fazer uma festa para o lançamento do livro de Marcelo Cerqueira, cidadão da cidade e meu advogado imbatível. Dezenas de amigos foram à Livraria da Travessa Leblon abraçá-lo pelo seu excelente “Fragmentos de Vida – Memórias”.

A falta que Juscelino ainda faz

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Ao assumir, JK foi capa da revista “Time”

Sebastião Nery

O telefone tocou na casa de praia de Madame Schneider, uma francesa amiga de Juscelino Kubitschek, a 20 quilômetros de Saint Tropez, no sul da França, onde ele, dona Sarah, as filhas Márcia e Maristela e o ex-secretário amigo dileto Olavo Drummond, passavam uns dias descansando, depois de deixar a presidência da República em 31 de janeiro de 1961.

Era o empresário, poeta e redator de alguns dos históricos discursos de Juscelino, Augusto Frederico Schmidt, falando do Rio: “Juscelino, estou recebendo um clipping das revistas dos EUA. A revista “Time” está dizendo que você é “a sétima fortuna do mundo”.

Conversaram, Schmidt desligou e Juscelino ficou deprimido, amargurado.

AO LADO DA BRIGITTE – Olavo o chamou para darem uma volta: “Presidente, hoje de manhã, quando fui comprar os jornais, quem estava na banca era a Brigitte Bardot. Podemos encontrá-la de novo.

Juscelino riu. Saíram. A primeira pessoa que viram foi a Brigitte Bardot, no auge do sucesso, com aquela carinha de paraíso terrestre depois da maçã, cercada de fãs, tirando fotografias. Juscelino se afastou:

“Olavo, se eu sair com essa mulher em um fundo de fotografia, a imprensa vai dizer no Brasil que estou namorando com ela”.

Mas não esqueceu a história da “sétima fortuna do mundo”.

Quatro anos depois, a embaixada da Inglaterra no Brasil mandaria a Londres um documento para o “Foreign Office”, sob o cód.371/179250: “O ex-presidente Kubitschek retornou ao Brasil. Não há dúvida de que ele é popular, com seu charme e suas ideias’.

AGRESSÃO DE JÂNIO – Na véspera de passar o governo a Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961, Juscelino reuniu um grupo de ministros, auxiliares e amigos no Palácio da Alvorada. Chega Jose Maria Alkmin:

– Juscelino, estou seguramente informado de que o Jânio vai fazer um discurso agressivo contra você, na sua frente, na solenidade de transmissão do cargo, no Palácio do Planalto.

– Vou passar o cargo ao presidente que o povo elegeu. Só o Dutra passou. Quero dar uma demonstração ao mundo de nossa Democracia.

– E se ele fizer um discurso agressivo?

– Dou-lhe uma bofetada na cara e o derrubo no meio do salão. Vai ser o maior escândalo da história da República.

Não houve discurso nem bofetada.

Foi em 22 de agosto de 1976 que ele se foi. O Brasil o perdeu e nunca mais tivemos um presidente igual. E que falta ele faz.

PT QUEBROU O PAIS – O país está fiscalmente quebrado. Os gastos públicos são superiores à arrecadação, produzindo um “déficit primário” de 2,2% do PIB (Produto Interno Público).

Sobretudo no governo de Dilma, os investimentos em infraestrutura, saúde, segurança, educação e outros foram as principais vítimas. A dívida bruta em relação ao PIB produziu o desastre em que estamos mergulhados.

Em 2017, o déficit primário previsto é de R$ 159 bilhões. Para 2018, o cenário não será diferente.

A falta de rudimentares conhecimentos da economia da maioria dos políticos e de muitos analistas na área jornalística, não enxerga a gravidade do momento em que está mergulhada a economia brasileira. No Congresso e na imprensa prevalece a falta de racionalidade no enfrentamento realista, com propostas que se mostrem consistentes, seja à direita ou à esquerda.

O reencontro com Waldir Pires e a perda de Carlos Araújo

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O velório de Araújo foi no saguão da Assembléia gaúcha

Sebastião Nery

Nestes tempos de mediocridade triunfante, carência de vocações públicas, foi uma festa na casa do advogado Carlos Sodré, em Salvador, o reencontro com velhos amigos como Waldir Pires, Virgildásio Sena, Roberto Santos, Joacy Goes, Hélio Duque, João Carlos Teixeira Gomes (o poeta Joca), outros, relembrando uma parte da história política brasileira.

Por exemplo, aos 91 anos, Waldir lúcido e ativo na defesa da democracia, nos ensina: “A política é a única forma de produzir mudanças na sociedade. O governo democrático não é o governo da vontade pessoal do governante. Não há falta de inteligência nos dias atuais. Há falta de caráter. A civilização não pode ser a corrupção e o caos, a ansiedade e a opressão. A dignidade humana, os direitos existenciais, os valores da liberdade, devem ser o balizamento na sociedade democrática. É o ser humano a medida e o fim da sociedade.”

CARLOS ARAÚJO – E lá se foi um grande gaúcho e grande brasileiro, o advogado e ex-deputado do PDT Carlos Araújo. Valente e exemplar na luta armada contra a ditadura militar, no movimento estudantil e nas disputas partidárias, na organização do PDT, sempre com liderança, patriotismo e desprendimento.

Macunaíma não é brasileiro

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Macunaíma não é brasileiro, é venezuelano. Quem me ensinou foi o então embaixador do Brasil em Caracas, Renato Prado Guimarães, jovem e competente que lá me deu inesquecíveis lições. Teodor Koch Grumberg, um alemão aventureiro que se meteu pela floresta amazônica no princípio do século, publicou em Berlim, em 1917, em cinco volumes, a história de suas viagens: “De Roraima ao Orinoco”.  Recolheu lendas da região, inclusive a de “Urariquera” e suas peripécias. Nosso Mário de Andrade, culto e gênio, leu Grumberg no original e mudou “Urariquera” para “Macunaíma”, mito, herói e retrato de nossos povos irmãos.

ÍNDIO LIVRE – O brasileiro tem, com o venezuelano, uma marca hereditária fundamental: além de descendentes de europeus e negros, somos filhos de índios da planície, bem diferentes dos índios das montanhas. O índio amazônico não está preso às geleiras dos Andes, amarrado a caminhos ínvios. É o índio livre, solto, nômade, da planície. Isso distingue e diferencia brasileiros e venezuelanos dos outros povos da América andina. A jovialidade, a alegria, a musicalidade, a extrema facilidade de comunicação, uma abertura irresistível para o exterior, tudo isso são coisas muito nossas e deles, muito iguais.

Você entra em um avião, sai pela América Central, pelo Caribe, e logo percebe quando há brasileiros ou venezuelanos: sempre mais alegria, barulho e graça a bordo. E as mulheres, modéstia à parte, irresistivelmente mais belas, mais charmosas. É o caminhar liberto de “Urariquera”, aliás “Macunaíma”, na floresta sem neve e sem fronteiras.

GRANDE SAVANA – Se houvesse neve e a floresta fosse branca e esquálida na infinita “taigá”, ali seria a Sibéria deles. Como é a grande savana, cercada da floresta tropical, com rios gordos e revoltos, é mesmo a Amazônia da Venezuela. Na Sibéria vi a mais grandiosa obra humana de ocupação planejada de uma região deserta, solitária. No Orinoco vi o maior projeto de industrialização e desenvolvimento na Amazônia continental. E sem destruí-la. Como sabemos pouco e mal de nossos irmãos latino-americanos! Eu que pensava conhecer quase o mundo inteiro, só então descobri que, na Venezuela, São Paulo fica na Amazônia.

A região se chama Guayana. O Estado, Bolívar. A capital administrativa, também Bolívar. A capital industrial, Guayana. A cidade moderna, planejada, avenidas largas, arborizadas, como Brasília, Puerto Ordaz. Mas quem dá vida, e alma, e seiva, e riqueza a mais de 50% do território do país é um rio, sagrado como o Nilo, unitário como o São Francisco, generoso como Amazonas – o Orinoco, engordado pelos afluentes Caroni e Apure.

BACIA DO ORINOCO – Os números são grandiosos, amazônicos. Limitada ao norte pela Cordilheira da Costa e a Oeste pela Cordilheira dos Andes, a bacia do Orinoco, ao sul e a leste, praticamente coincide com os limites políticos do país. Fora as vertentes das duas cordilheiras, 80% do território venezuelano correspondem à bacia do rio, um território de mais de 700 mil km2, com apenas 20% da população. A região da Guayana, com 45% do território do país, tem só 3% da população total.

O Orinoco é uma imensa coluna vertebral de oeste a leste, 1200 quilômetros, e, com os afluentes, 3 mil quilômetros navegáveis, com possibilidade de integração ao Amazonas e ao Prata. E embaixo petróleo, muito petróleo. Que sempre foi a ventura e a desventura da Venezuela.

Jararacas e escorpiões, mordendo as tetas do Estado

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Charge do João Bosco (Charge Online)

Sebastião Nery

“Fedro” foi uma história que Platão inventou para conversar com Sócrates. Esopo foi um contador de histórias que os gregos ouviam na Grécia antiga. Escravo e pobre. Sócrates ensinava contando histórias a seus discípulos. Trouxeram-nos a fábula eterna do escorpião e do sapo.

É uma fábula sobre um escorpião que pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião diz que se picar o sapo, o sapo iria afundar e o escorpião iria se afogar. O sapo concorda e começa a carregar o escorpião, mas no meio do caminho, o escorpião, de fato, ferroa o sapo, condenando a ambos. Quando perguntado por que havia picado, o escorpião responde: que esta é a sua natureza e que nada poderia ser feito para mudar o destino.

LULA JARARACA – Lula acha pouco ser um escorpião. Diz que é uma jararaca. Talvez porque seja maior, mais comprido. Seus discípulos, sobretudo as graciosas meninas do PT na TV, acham pouco ser jararaca. Preferem mesmo ser escorpião. Cada palavra é uma ferroada.

Prefiro Confúcio e sua mansa sabedoria chinesa, nas primaveras e outonos com moralidade pessoal e governamental, procedimentos corretos nas relações sociais, justiça e sinceridade.

O país se pergunta para onde estamos indo. Não podemos cair na armadilha da jararaca nem do escorpião. Fábulas temos melhores, mais doces, mais mansas, mais santas.

ELITE EXTRATIVISTA – O grande problema brasileiro é a predominância de uma elite inculta e extrativista, disseminada em todo o quadrante da vida nacional. Está presente e determinando rumos na condução do Estado, na política, na economia, no sindicalismo e até nos chamados movimentos sociais. Não tem interesse e formação, por conveniência, para enxergar as potencialidades de desenvolvimento do País. Enxergam só a árvore dos seus privilégios corporativos.

Reformar o estado, modernizando-o, é defendido por quase toda sociedade desde que essas reformas não atinjam os seus mais diretos interesses. Assim é na política, na economia e amplos setores sociais.  Não é paradoxal que nos últimos anos o poder econômico tenha controlado e financiado o executivo e legislativo. A captura do Estado pelo poder econômico produziu a atual crise, onde a grande vítima é o povo brasileiro.

ALIANÇA IRRACIONAL – A manipulação da sociedade pelas diferentes corporações é a estratégia que unifica os vários interesses, no mundo político, empresarial, no sindical e afins, consolidando original aliança do capital e do trabalho. Usando um discurso ideológico, as corporações de direita, como definiu o economista Renato Fragelli, “querem um Estado grande para que ele seja saqueado pelo patrimonialismo. Enquanto a esquerda quer um Estado grande, para que seja saqueado pelo corporativismo”.

Essa poderosa aliança de patrimonialismo e corporativismo que impede a Reforma do Estado. A inoperância das elites brasileiras em enfrentar essa realidade, tem nas instituições do Estado, em todos os níveis, formidável aliada. A maioria dos integrantes dos três poderes republicanos é resistente às reformas estruturais.

A “pilhagem” do Estado, as iniquidades sociais e ineficiência econômica tem nessa esdrúxula aliança seu grande núcleo de sustentação, impedindo a construção de um Brasil desenvolvido.

O golpe do morubixaba

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Sebastião Nery

E de repente o Procurador Geral da República quis dar o golpe do cacique, do morubixaba: “Até dia 17, a caneta estará na minha mão. Enquanto houver bambu, vai ter flecha”. No Brasil já vimos golpe de marechal, golpe de general, golpe de coronel. Agora é a primeira vez que se vê a cabeleira ensaboada da princesa Leopoldina tentando dar um golpe.

Quem denuncia é o respeitado jurista e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, com toda a autoridade de sua toga veneranda, desde nossos tempos da saudosa faculdade de Direito de Minas Gerais:

“Janot afirma que o presidente recebeu dinheiro, mas ou o dinheiro não chegou a ele ou não se tem provas disso. A denúncia se baseia mesmo em uma ilação. Não há um conjunto forte de provas. Ao meu ver, trata-se de uma denúncia inepta. Está claro que foi precipitada. Falta investigação neste caso. Basear uma denúncia apenas em uma delação? O que disse Loures? Que o dinheiro era para o presidente? A peça deveria comprovar essa tese para pedir sua condenação. Sem isso, a denúncia fica descabida. Em prol de uma melhor investigação, acho que valeria até soltar o Rocha Loures para ampliar o prazo.  O fatiamento da denúncia prejudica a própria denúncia e é totalmente político. Só serve para tumultuar o tribunal, o poder legislativo e o próprio governo. Toda essa questão deveria ser examinada de uma só vez. Não se amontoa o Supremo dessa forma. O fatiamento é despropositado, atrapalha até a investigação e a relação entre os fatos. É muito cedo para se falar em condenação ou absolvição. Nem sabemos ainda se a Câmara vai autorizar (uma eventual instauração de ação penal contra Temer no Supremo Tribunal Federal). Mas, diante do que já disse, da falta de uma conjunto robusto de provas, a denúncia fica comprometida.”

DIREITOS HUMANOS – Na promulgação do texto constitucional, nascido na Assembleia Nacional Constituinte, o grande Ulysses Guimarães anunciava a “Constituição Cidadã.” Não começava no seu capítulo I, pelo Estado, mas pela importância constitucional dos direitos humanos. Soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, além do pluralismo político é sua base introdutória.

Político com P (maiúsculo), possuidor de sólida formação jurídica, o advogado paranaense, Osvaldo Macedo, foi ativo parlamentar na elaboração da Constituição. Em encontro recente, ele destacava que deve ser missão da sociedade e dos brasileiros conscientes a defesa intransigente pelos momentos dramáticos que estamos vivendo. A redemocratização de três décadas vem enfrentando solavancos autoritários originários dos tempos do regime militar. Ela é uma pedra no caminho dos aventureiros institucionais.

LÍDERES VALENTES – Pesquisa Datafolha apontava que 69% dos brasileiros adultos acreditam “que este País necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, é de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar sua fé”.

É o populismo salvacionista em estado bruto, pavimentado no ilusionismo deslegitimador da ordem institucional. Nas eleições gerais de 2018, em momento de indignação nacional, o Estado Democrático de Direito estará no centro dos debates, com a deterioração da política partidária e o fundamental combate à agressividade da corrupção pública e privada. É nesse cenário que poderão vicejar as candidaturas que se alimentam na busca de soluções fáceis e subvertedoras dos valores democráticos.

Nas redes sociais, os filhos da Imprensa Marrom

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Charge do Marcus (Gazeta do Cerrado)

Sebastião Nery

O progresso nunca vem só. Antes era a imprensa marrom maculando a comunicação. Mas seu alcance era limitado. De repente as redes sociais invadiram a vida do cidadão. É preciso resistir para não sermos absorvidos por elas. Cada um se sente no direito de ser o jornal de si mesmo. E vai escrevendo, publicando, dando sua opinião a torto e a direito, sem controle e sem critério. Quem diz o que quer ouve o que não quer. Daí esta infinidade de jornais e jornalecos borbulhando online.

Não consultam fontes, não vão as enciclopédias, não leem, não estudam, não pesquisam. Acham que o que pensam tem que ser ouvido e aceito pelos outros. É o império da verborreia. Resultado, as escolas foram invadidas por professores sem aulas.

NÍVEL DESABOU – Depois queixam-se de que o nível de ensino caiu muito. Não caiu, desabou. A consequência disso na política, então, é devastadora e aparecem líderes, falsos líderes, liderecos que o povo ouve e começa a seguir. É o exemplo típico de Lula que se vangloria de não ter estudado, não estudar e não gostar de quem estudou. É o país das jararacas, só servem para morder e envenenar. A consequência disso é uma distorção total da vida pública.

Em Salvador, o advogado Antonio Pessoa Cardoso, diante da “delação premiada” de Joesley Batista, foi certeiro:

– “Não se pode aceitar como delator criminoso confesso que obtém a permissão de autoridades para esmiuçar a vida alheia e “fabricar” provas com gravações e outras artimanhas com o objetivo exclusivo de livrar-se de processos e da cadeia. A prova preparada para obter o perdão não condiz com o sistema legal de delação. A sensação de tornar-se herói no mar de lama que vivemos permite o uso de todos os recursos”.

É POSSÍVEL ANULAR – Os benefícios exagerados concedidos pela PGR (Procuradoria Geral da República) e, agora, homologados parcialmente pelo STF, não são matéria consensual. Alguns ministros do Supremo votaram pelo respeito legal ao princípio das delações, mas destacaram que, no caso JBS, se sólidas provas factuais não se sustentarem, a anulação dos benefícios pessoais obtidos poderá acontecer.

A rigor, na vida republicana brasileira, a corrupção alastrou-se pelas artérias da nação. E tem na sua estrutura de poder, em todos os níveis, o principal responsável. É muito mais ampla do que os fatos até agora investigados vêm comprovando. A aliança de corruptores o corruptos no Brasil não mais é fato recente. O dinheiro público foi drenado e assaltado em velocidade de “fórmula 1”. Grupos oportunistas apelidados de campeões nacionais do desenvolvimento deitaram e rolaram.

OS BATISTAS – Quem não se lembra de Eike Batista, que queria ser o homem mais rico do mundo? Suas empresas viraram pó e atualmente cumpre prisão domiciliar.

Os outros Batistas, os irmãos Joesley e Wesley, montaram a maior empresa do mundo em proteína animal, com dinheiro público. De média empresa em 2003, a JBS em 2006 já faturava R$ 4 bilhões. Graças ao financiamento público em escala incontrolável e sociedade com o BNDES.

Com os bilhões que acumulam os corruptos põem a seu serviço exércitos de falsos jornalistas escondidos atrás de redes sociais. São os filhos da imprensa marrom.

Pavão Misterioso, teu nome é Rodrigo Janot

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Sebastião Nery

“Pavão misterioso/ pássaro formoso/ tudo é mistério/ nesse seu voar/ mas se eu corresse assim/ tantos céus assim/ muita história/ eu tinha pra contar” – começa assim a bela canção do cearense Ednardo. Agora apareceu outro pavão, o procurador-geral da República, cheio de poses, bocas e madeixas medievais. Nas mãos dele se embala o boiadeiro trambiqueiro goiano.

Surgiram os verdadeiros números e nomes do império bovino. É quase todo público disfarçado atrás das asas do pavão:

1 – A estrutura do grupo JBS é toda construída pelo dinheiro público: o BNESPAR é dono de 22% de todo o seu capital e a Caixa Econômica Federal dona de 5%. Logo 27% de recursos públicos.

2 – A compra nos Estados Unidos do Grupo Swift foi de 2,7 bilhões de reais, totalmente financiado pelo BNDES.

3 – A compra do Grupo Alparcatas foi totalmente financiada pela Caixa Econômica: 2,3 bilhões de reais.

4 – A Eldorado Celulose foi montada com dinheiro do FGTS, dos Fundos de Pensão Petros, Previ e Funcef. A dívida total hoje do grupo Eldorado, que está a venda, é de 8,5 bilhões de reais junto a estas instituições de propriedade dos trabalhadores.

5 – O Banco Original, que está a venda, tem dívida total de 3,5 bilhões de reais junto ao FGC – Fundo Garantidor de Crédito. O patrimônio líquido do Banco é de 2,1 bilhões de reais.

6 – Hoje a dívida bruta do grupo JBS é de 58,6 bilhões de reais, com agravante de que 31% têm vencimento nos próximos 12 meses.

7 – As linhas de crédito do JBS para o exterior que garantem a presença deles no mundo, tem esse perfil: Banco do Brasil – 5 bilhões de reais; na Caixa Econômica – 10 bilhões. Nos bancos privados: Santander 4,5 bilhões de reais, no Bradesco 3,2 bilhões de reais e no Itaú 1,5 bilhões.

Este é o retrato financeiro do grupo JBS.

Ainda bem que Procurador da República se troca de dois em dois anos. Este de agora, quando setembro vier.

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PS:
Está nas livrarias de Portugal e do Brasil, um livro fundamental sobre a Revolução dos Cravos: “Portugal A Revolução e a Descolonização”, do mestre mineiro, exilado pelo golpe militar de 1964, Maurício Paiva, que viveu por dentro e por fora aqueles dias tumultuosos. É um olhar de quem viu e viveu os acontecimentos que narra. Autor de depoimentos básicos sobre os golpes de 1964 no Brasil e no Chile, “Transição ao Socialismo: As lições do Chile”, “O Sonho Exilado”. (S.N.)

Meu amor bandido era o açougueiro cheio de dinheiro

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Ilustração reproduzida do Humor Político

Sebastião Nery

Era um país inteiro reverenciando um açougueiro cheio de dinheiro. Distribuía carne enlatada, carne empacotada, carne iluminada por uma moça linda que trocou um Jornal Nacional pela Friboi. E ele se tornou o aidodói do empresariado. Todos queriam ser o boiadeiro de Goiás. E os políticos encheram-no de dinheiro. Dinheiro dos bancos públicos, dinheiro dos bilhões de impostos que sonegava, dinheiro dos bancos que comprava, dinheiro das negociatas que promovia dentro e fora do país. Até a Procuradoria Geral da República, que devia vigiá-lo, caiu-lhe nos encantos. Abençoou uma delação premiada que premiava seus crimes.

O São Francisco de cabelos brancos assinou embaixo de seus crimes. O sereno ministro do Supremo também endossou suas negociatas. E a poderosa e monopolista televisão logo virou aliada de seus piores pecados. Até que um dia o pais acorda e descobre o óbvio: de quem ele estava roubando para distribuir tanto? Onde ficava o cofre que ele assaltou? Ora, ora, era tudo dinheiro público. Tudo dinheiro do país. Tudo dinheiro do povo.

FOI DE JATINHO – Caíra a máscara do mais esperto e audacioso bandido nacional. E ele fugiu em avião de luxo com proteção da justiça. Mas era pouco para a sua audácia. Convocou uma espalhafatosa entrevista e saiu denunciando, um a um, seus parceiros, os sócios de suas falcatruas. Agora a nação está de olho aberto para ver se os poderes podem, se a justiça é justa, se o bandido vai devolver o dinheiro roubado e parar na cadeia.

A corrupção sistemática nunca foi tão radiografada, demonstrando que está enraizada e penetrando como doença grave nas vísceras da nação, levando a força tarefa da Operação Lava Jato a ser referência na tentativa de regeneração nacional. Focada inicialmente no assalto oficial à Petrobrás, teve desdobramentos comprovando a aliança pública e privada. Os corruptores privados e os corruptos estatais capturaram o Estado brasileiro. A “res publica” foi transformada em verdadeira “cosa nostra”. Apoderaram-se do Estado em proveito próprio.

ANULAR PUNIÇÕES – Não é sem propósito que a ampla aliança dos corruptos e corruptores tente, com manobras indecorosas, combater e tentar anular as punições decorrentes das investigações.

O polêmico perdão a crimes capazes de render dezenas de anos de cadeia está indignando a sociedade brasileira e alimentando esperança entre os malandros de colarinho branco que vêm se movimentando em tentativa de desgaste e desmoralização das investigações. Articulam no legislativo, no executivo e até em áreas judiciárias manobras desesperadas objetivando enfraquecer e até anular as já proferidas e as futuras punições. A PGR e o STF, deram aos corruptos brasileiros um falacioso argumento. Um combustível tóxico para os conspiradores contra o Estado de Direito.

Consciências eram compradas com a mesma naturalidade de se estar adquirindo um rebanho bovino. O delator obteria no acordo de leniência vantagens e benefícios nunca vistos.

HÁ CONTROVÉRSIAS – No próprio Ministério Público vozes críticas condenando os privilégios excessivos, se fizeram ouvir. Dois procuradores da República, candidatos à chefia da PGR, não se omitiram: Eitel Santiago entende que “o Ministério Público se precipitou e o acordo não merece os benefícios que tiveram” e a ex-vice-procuradora-geral, Sandra Cureau, foi direta:

“Se alguém faz uma delação premiada, não é para que não se sujeite a nenhum tipo de punição.”

E a Globo perdeu a guerra

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Charge do Miguel (JC/PE)

Sebastião Nery

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, a Globo começou uma guerra de manhã e de noite já tinha perdido. A Bolsa disparou, o dólar apavorou, o mercado faturou, mas nada mais aconteceu. O presidente não caiu e a Globo assustava a nação com manchetes alarmantes o dia inteiro. Acionaram todo seu exercito gráfico repetindo as ordens da Lopes Quintas.  Por mais que labutassem nada acontecia. De manhã o Globo mixava nas bancas.

A madre superiora entregou os cristãos aos lobos. O mascote do camarote saltitou dia e noite de redação em redação procurando amarrar as ideias e não conseguia. As doces e alopradas globetes  chegaram a exaustão. A outra, sádica, ligou a carretilha  e não desligou mais. A ruiva verbosa deu azar: estava no pedaço em dia que não era de férias. A que não é prima apareceu tarde na tarde, perdeu tempo, no ar até hoje. A paulista do mensalão comandava a infantaria.

BRASIL DO FUTURO – A tarde passou e quanto mais a Globo repetia a renuncia esfriava as notícias. A solução foi pedir socorro ao janota que todo dia promete à Folha nova artilharia pesada.

Não se pensa em construir o Brasil do futuro, cultiva-se o Brasil arcaico, onde as ideias não florescem e em seu lugar o ódio, a raiva e a incompetência encontra terreno fértil. A sociedade torna-se amorfa alimentando sua esperança em falsos salvadores da Pátria. Caminho seguro para vender sonhos em um estado paternalista que possa mobilizar a população. É caminho certo para o desastre se as propostas populistas prevalecerem no cenário político de 2018, quando das eleições presidenciais. É rota segura para nos levar ao naufrágio, ao invés da prosperidade.

REUNIÕES DE LOBBIES – O professor Roberto Romano, de Ética Política da Unicamp, analisando o Legislativo, foi certeiro: “As chamadas bancadas do Congresso são reuniões de lobbies que vão de interesses econômicos a religiosos. São pessoas que não representam o eleitor indiferenciado, formal, mas interesses materiais muito específicos e opostos a outros interesses que foram preteridos. Isso traz problemas sérios, até mesmo ao desenvolvimento econômico.”

Em tradução direta, significa que a ação política praticada, em vastos setores, não tem compromisso com a população. Mas é preciso destacar que nela ainda habitam homens e mulheres honestos, competentes e dotados de espírito público. A restauração da verdadeira política tem neles a esperança de construção de realidade diferente do presente que vivemos. Enxergando o futuro.

TIPOS DE CORRUPÇÃO – Ante os escândalos recorrentes de corrupção que vem marcando o tempo atual no Brasil, o professor José de Souza Martins, da USP, constata que somos muito originais: temos a “corrupção altruísta”, a “corrupção cívica”, que pode dilapidar o patrimônio do Estado e a “corrupção Robin Hood”, que visaria o bem comum. Com ironia afirma: “Corrupção de esquerda não é corrupção. Corrupção de esquerda é corrupção para o bem, não é para enriquecimento privado. Há esse equívoco permeando todo esse processo. Isso é um tremendo equívoco, porque é corrupção do mesmo jeito.”

Encarneirada nessa realidade, onde corrupção é adjetivada, boa parte da classe política está mais preocupada com o seu destino e não com a sociedade que se fazem representar, submetem-se as Odebrechts e JBSs. Os interesses do País são secundários. Sanear contas públicas, modernizar o Estado com reformas, garantindo a retomada do crescimento econômico, deixa de ser programa de governo.

De Platão a Lacerda, a arte da política

Resultado de imagem para platão frasesSebastião Nery

Desde que o homem acendeu uma fogueira e com outros homens começou a conversar dentro da caverna, política é a arte do bem comum. Esta é a lição dos sábios, já no começo dos tempos. Platão, o velho grego, ensinou: “Não há nada de errado com quem não gosta de política. Simplesmente será governado por aquele que gosta”.

Aristóteles, o discípulo preferido, aprendeu a lição: “Política é a ciência da felicidade humana.”

AQUINO E ROBESPIERRE – Lá na frente Santo Thomaz de Aquino, gordo e sábio, reafirmava: “Política é a arte de formar homens e administrar visando o bem comum.”

Caminha a história e em 1793, em plena Revolução Francesa, Robespierre cobrava: “As funções públicas não podem ser consideradas nem sinais de superioridade nem recompensa, mas como deveres públicos. Os delitos dos mandatários do povo devem ser severa e agilmente punidos.” E dois séculos depois a lição de Robespierre seria incorporada à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”.

VOLTAIRE E NAPOLEÃO – Outro sábio daquele tempo, o filósofo triste e pessimista Voltaire: “A política tem a sua fonte antes na perversidade do que na grandeza do espírito humano.”

Cristão era Napoleão: “ Em política, convém curar os males, nunca vingá-los.”

O poeta Paul Valéry era mesmo um poeta: “Toda política baseia-se na indiferença da maioria dos interessados, sem a qual não há política possível. A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem no que lhes concerne. Numa época seguinte, acresceram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidirem sobre o que não entendem.”

DE GAULLE E MAO – Do alto de seus 2 metros, De Gaulle não gostava dos pequenos: “A política mais dispendiosa, mais ruinosa, é ser pequeno…”

Outro grande no físico e na luta, MaoTsé-Tung: “A política é a guerra sem derramamento de sangue, enquanto que a guerra é política com derramamento de sangue.”

Churchill, contemporâneo e parceiro de De Gaulle no sangue, no suor e nas lágrimas: “A política é quase tão excitante como a guerra, e não menos perigosa. Na guerra a gente só pode ser morto uma vez, mas na política diversas vezes.”

DUQUE ESPERANÇOSO – Apesar disso o professor Hélio Duque, baiano do Paraná, não perde a esperança:

“A aliança de corruptores, empresários poderosos e corruptos, investidos de mandatos nos poderes executivo e legislativo, tem levado muitos brasileiros a julgar que a política é geradora da corrupção. Na verdade nada é mais falso quando se tenta nivelar a política como sinônimo de assalto ao dinheiro público. A canalhice política militante é dotada de uma cultura de vassalagem e abomina princípios e fundamentos éticos e morais. São fiéis seguidores da frase ouvida no interior de Minas Gerais, pelo médico e escritor Pedro Nava: – “Haveremos de resguardar a canalhice necessária para aderir no tempo oportuno.”

MAIS EXIGENTES – Nesse tempo de engodo não se pode prescindir dos homens públicos que cultivam a ética e não se submetem ao jogo da corrupção. Os brasileiros deveriam ser mais exigentes e seletivos na escolha dos seus representantes, ao invés de alimentar demagogos e falsos salvadores da Pátria como alternativa de poder.

Na política aristotélica o dever de dizer a verdade, em quaisquer circunstâncias, é inegociável. Infelizmente a maioria prefere o bom mocismo do riso fácil dos candidatos garantindo voto ao embusteiro não sabendo que o preço da escolha equivocada será cobrado no futuro, como estamos assistindo agora com a detonação de uma crise política, econômica e social inédita na vida republicana. Carlos Lacerda sabia: “Devemos dizer ao povo o que ele precisa saber e não o que gostaria de ouvir. Não confie em homens públicos que só sabem dar boas notícias.”

Os Irmãos Trombadinhas

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Charge sem assinatura (Arquivo Google)

Sebastião Nery

São João Batista, fugindo de Roma e exilado na ilha de Patmos, na Grécia, nos anos 91 a 96 depois de Cristo, vivia numa caverna onde recebeu a revelação divina do “Apocalipse” e hoje é Patrimônio Cultural da Humanidade, segundo a Unesco. No Brasil os irmãos Batista também recebem inspiração, mas de satanás. Na estratégia dos governos Lula e Dilma de criar “campeãs nacionais” do desenvolvimento, o JBS, o maior devedor do sistema previdenciário, começou em pequeno frigorífico de Goiás, na década de 50.

A partir de 2007, com recursos do BNDES, além de expandir-se no mercado interno, começou agressivo plano de inserir-se no mercado internacional: comprou a“Swift Foods” e em 2009 a “Pilgrim’s”, norte-americanas. No mesmo pacote foi comprada a “Smithfield Beef”, consolidando posição no mercado de carne bovina e de aves nos EUA. Tem liderança no setor, inclusive no mercado de carnes na Austrália e outros países. Para esse gigantismo empresarial teve a âncora segura do BNDES e do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, como consultor econômico.

SUBSIDIÁRIA – Através da “BNDESpar” tem 20,4% das suas ações e da Caixa Econômica Federal 6,9%. O restante da sua composição acionária é assim distribuído: 42,4% do acionista controlador; 25,5% dos acionistas minoritários; e, 4,8% de ações na Tesouraria. Não obstante os dois agentes públicos serem subscritores de 27,3% do seu capital, em 2016, o governo foi obrigado a impedir a transferência da sede da empresa para a Irlanda. A organização, através da subsidiária JBS Foods Internacional, pretendia fixar o seu domicílio fiscal no Reino Unido, ficando a parte que opera no Brasil como subsidiária.

A “Operação Bullish” revela uma triste história de fraude, suborno e corrupção,  radiografando a apropriação do Estado por grupos corporativos nas relações econômicas espúrias com o poder político. O adultério envolvendo os interesses do setor privado com o público assumiu proporções de escândalo.

MARSHALL TUPINIQUIM – Nos últimos anos o BNDES (2003 a 2014), foi o instrumento para sustentar grupos empresariais que se autointitulavam “campeãs do desenvolvimento”. As empresas adjetivadas de “players”, em condições privilegiadas, receberam de R$ 400 bilhões. O economista Samuel Pessoa, associado à Fundação Getúlio Vargas, traduz o que significa esse volume de dinheiro:

“O Plano Marshall, entre 1948 e 1951, para reconstrução de 16 países da Europa, após a II Guerra Mundial, custou aos EUA US$ 13 bilhões. Atualizado, aos preços atuais, significaria US$ 100 bilhões. Com o dólar cotado a R$ 3,15, representaria R$ 315 bilhões”. No Brasil gastamos mais do que o “Plano Marshall” na concessão de crédito subsidiado aos grupos econômicos com bom relacionamento com o poder.

A “Operação Bullish”, da Polícia Federal enfoca as relações do grupo JBS e o BNDES. Ela é o prosseguimento das operações “Sépsis”, “Greenfield”, “Cui Bono” e “Carne Fraca”, todas envolvendo as empresas controladas pela holding J&L (JBS). “Sépsis” investiga recursos suspeitos para a empresa; Eldorado Celulose (JBS), no fundo de investimento do FGTS; “Greenfield”, recursos irregulares para a Eldorado, dos Fundos de Pensão das estatais; “Cui Bono”, esquema de concessão de crédito pela Caixa Econômica, com propina para políticos; e “Carne Fraca”, corrupção de fiscais do Ministério da Agricultura, responsáveis pela liberação de carnes adulteradas. Todas envolvendo recursos financeiros e interesses assustadores.