A Amaznia devastada no comeou agora, tem 500 anos e chamava-se Mata Atlntica

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Primeiro bem explorado na colnia foi o pau brasil

Sebastio Nery

O Brasil comeou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristvo Colombo e Amrico Vespcio. Cristforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ningum acreditava nele. Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou Amrica, virou o almirante de todos os mares, e est l, de p, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a Amrica devia chamar-se Colmbia e no Amrica. Colombo foi literalmente roubado pelo bancrio depois banqueiro italiano Amrico Vespcio. Esses banqueiros!

SUBGERENTE – Amrico Vespcio, de Florena, trabalhava no banco dos Mdicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o subgerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Amrico assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Amrico Vespcio j tinha percebido que a Amrica existia mesmo e dava dinheiro. Virou tambm navegador. Em 1501, j o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi at o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi at Cabo Frio. Voltou Europa, foi Alemanha, pagou e ps o continente em seu nome, Amrica e no Colmbia, no mapa de Strasburgo em 1506. Passado para trs, Colombo morreu de desgosto em 1506.

VEIO O PEREIRA – Depois do Vespcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditrias, em 15 lotes, cada um medindo 50 lguas, cerca de 300 quilmetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo portugus, Francisco Pereira Coutinho, vindo das ndias, velho e doente, rico e duro,o Rustico.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia bons ares, boas guas, os algodes so os mais excelentes do mundo e o acar se dar quanto quiserem e a terra dar tudo que lhe deitarem.

Instalou-se na Barra, onde hoje est o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhes. Era a Vila do Pereira. Caramuru estava ali perto h 30 anos, com a Paraguau

OS TUPINAMBS – O Pereira no se meteu com Caramuru, mas comeou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambs, homens de peleja, que comearam a ser escravizados, para trabalharem nas plantaes de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatrio de Pernambuco (at hoje) queixou-se ao rei : Ele mole para resistir s doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados. Durante cinco anos a briga com os Tupinambs levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambs brandindo tacapes, lanando flechas incendiarias, produzindo nuvens txicas com a combusto de pimenta e ervas venenosas. (Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas qumicas).

PORTO SEGURO – Pereira fugiu para Porto Seguro e os ndios tomaram conta da Vila do Pereira, destruram a torre e as casas, saquearam os armazns. Caramuru, solidrio, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique Joo Ubaldo. Quem no morreu foi preso pelos ndios, inclusive o Pereira, morto ritualmente por um garoto de 5 anos, cujo irmo tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias no resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rpido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio sculo, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

SAQUEANDO – Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranho a So Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Tambm j havia o comercio de escravos e cana de acar, mas comeando. O grande negocio da poca era o pau-Brasil.

Se voc quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, v a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilmetros de Paris, na foz do Senna, norte da Frana, entre Trouville e Havre.

Aquela jia universal to francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos ndios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o Point de Carammorou. A Amaznia devastada, saqueada, no comeou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlntica, com seu pau-brasil.

Na hora de matar Lacerda, o pistoleiro errou o tiro e mudou a Histria

Lacerda é carregado por PMs após o suposto atentado

Lacerda levou um tiro no p e engessou a perna

Sebastio Nery

Morto Lampio em 1938, ngelo Roque, o Labareda, companheiro de cangao, entregou-se s autoridades de Jeremoabo, no serto da Bahia. Foi levado a jri. Tarclo Vieira de Melo, futuro lder de Juscelino na Cmara, jovem promotor mas j com sua poderosa oratria, acusou-o fortemente. Oliveira Brito, juiz, tambm depois deputado e ministro de Joo Goulart, chamou-o de desordeiro. Labareda levantou-se indignado:

Desordeiro, no, seu juiz! Os senhores me respeitem. No sou um desordeiro, sou um cangaceiro. No fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mo e me entreguei, confiando na palavra dos homens do serto.

Vieira me disse que, a partir dali, condenaram-no, mas sem atac-lo.

NA RUA TONELERO – No dia 5 de agosto, fez 65 anos que um pistoleiro errou o tiro e despachou a encomenda errada. E detonou uma das mais graves crises da histria do pais. Gregrio, chefe da Guarda de Getlio Vargas, encarregou Climrio, subordinado e compadre, de providenciar a morte de Carlos Lacerda.

Climrio pediu a Soares, tambm protegido de Gregrio na Guarda, que arranjasse algum para fazer o servio. Soares contratou o pistoleiro nordestino Alcino. Os trs pegaram o txi de Raimundo, que fazia ponto perto do Catete, e foram para a rua Tonelero, 180, onde Lacerda morava.

Mas houve um erro de luz. Alcino estava acostumado a fazer tocaia no sol do serto, naquele mundo aberto e claro, onde se v tudo o tempo todo.

ILUMINAO FRACA – No depoimento ao coronel Adil de Oliveira, chefe do Inqurito Policial-Militar instalado no Galeo, Alcino confessou que enfrentou problemas com a fraca iluminao na porta da garagem e atravessou a rua para atirar de um ngulo mais prximo. E acabou matando o major-aviador da Aeronutica Rubens Florentino Vaz, amigo e segurana de Lacerda.

Lacerda levou apenas um tiro no p. O anjo da guarda de Lacerda funcionou magnificamente. O pistoleiro fez tudo errado. E tudo o de errado que Lacerda fez acabou dando certo para ele e o salvando. Presos todos, primeiro o motorista Raimundo, que abriu o bico, depois Climrio, Soares, Alcino e Gregrio, a histria pde ser fielmente reconstituda e contada.

Alguns livros so bem detalhados: A Era Vargas (Jos Augusto Ribeiro), Carlos Lacerda, a Vida de um Lutador (John Foster Dulles), Depoimento (Lacerda), Uma Crise de Agosto : o Atentado da Rua Tonelero (Cludio Lacerda),Quem Matou Vargas? (Carlos Heitor Cony).

BANG-BANG – Foi um faroeste urbano. Aps um compromisso poltico, Lacerda e o filho Sergio, de 15 anos, chegavam em casa pouco depois da meia-noite, levados em um pequeno carro pelo major Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronutica que lhe dava proteo. O da escala, naquela noite, era o major Gustavo Borges, futuro secretrio de Segurana de Lacerda no governo da Guanabara. Mas no pde ir e foi o Rubens Vaz. Para a morte.

Na porta do edifcio onde morava Lacerda, ainda conversaram um pouco e Lacerda saltou com Sergio, em direo entrada principal iluminada do prdio. Mas Lacerda tinha esquecido as chaves e foi at a garagem pedir ao garagista para abrir a porta. Saiu do claro para a meia-luz. Com uma 45 na mo, Alcino atravessou a rua para atirar mais de perto.

Quando passava por trs do carro, o valente major Vaz saiu sem pegar seu revolver que estava no porta-luvas e se atracou com o pistoleiro, tentando tomar-lhe o revolver. Mas Alcino lhe deu dois tiros e ele morreu na hora.

TIRO NO P – Ao ouvir os tiros, Lacerda, com seu revolver na mo, quis sair para a rua, mas o filho se agarrou com ele e no deixou. Mesmo assim, da porta da garagem, Lacerda deu alguns tiros, que no atingiram ningum. E do outro lado da rua tambm houve outros tiros, um dos quais acertou Lacerda no p.

O major Vaz, j morto, e Lacerda, foram levados para o hospital Miguel Couto. Lacerda fez uma radiografia do p e extraiu a bala de um 38.

Esse tiro no p criou muitas lendas. Uns diziam que o prprio Lacerda atirou no prprio p, pois seu revolver era um 38 e o do Alcino uma 45. Outros garantiam que no houve tiro nenhum no p, que foi s engessado, tanto que no hospital no ficou registro algum. Mas algumas testemunhas viram Lacerda chegar ao hospital capengando, com o p ensanguentado.

DISSE O BRIGADEIRO – Ao sair do hospital, Lacerda foi para casa em um taxi, com Armando Falco (deputado do Cear, depois ministro da Justia de Juscelino e Geisel):

Acho que vou enlouquecer. Foi uma enorme desgraa. Talvez eu tenha matado o Vaz. Dei uns tiros a esmo, j sem culos, e tenho a impresso de que ele estava minha frente. Que horror!

Quando chegou em casa, j muita gente estava l, jornalistas e polticos. Entra o brigadeiro Eduardo Gomes e faz uma frase para a histria:

Pela honra da Nao, esse crime no ficar impune.

E fez outra para o folclore poltico:

Carlos, o melhor remdio para esse seu p fil mignon. Mande buscar um fil cru, sangrando, e ponha no ferimento. Vai ficar logo bom.

Em pleno voo, a caminho da Grcia, de repente a dvida: “H uma bomba no avio?”

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Desde o embarque, j se sentia o medo da bomba

Sebastio Nery

Na frente, um rabe com seu turbante. Atrs, um africano com seu camisolo. No meio, eu e minha namorada, com nosso medo. Impossvel no ter medo. Os aeroportos internacionais da Europa tinham virado campos humanos minados. Todo mundo desconfiava de todo mundo. Sobretudo voos em direo ao Oriente. Cada um ficava imaginando onde o outro tinha escondido a bomba, a granada, o revlver que da a pouco explodiria l no cu, o avio e todos juntos. Estvamos no aeroporto de Roma, para pegar o voo da Alitalia para a Grcia.

Na fila ao lado, para Damasco, na Sria, homens com turbantes, barba cerrada e cara fechada, mulheres de longos vestidos negros e negros vus na cabea. A fila deles comeava a andar, todos ficavam olhando, calados.

A CENTOPEIA DO MEDO – O pensamento coletivo boiava indisfarado, no ar. Quantos iranianos havia ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo vai andando devagar, seguindo desaparece. Agora nossa vez. O policial do controle pegou o passaporte do rabe do turbante que estava a nossa frente, olha, esmia, confere, visivelmente, constrangedoramente desconfiado. Vai ao computador, dedilha, espera, nada consta, deixa passar.

Os nossos passaportes ele mal olhou. Pergunta: Brasile? E carimba. O africano do camisolo, atrs de ns, empaca. O mesmo ritual da desconfiana. Viraram o passaporte de cabea para baixo, conferiram tudo, digitaram o computador, nada consta, mesmo assim no se conformaram, olharam agressivamente para o rosto negro, rido, meio escalavrado, do africano tenso, mandam sair da fila, chamam um chefe, sai. E a fila se arrastando medrosa.

OUTRO OBSTCULO – Depois do passaporte, outro obstculo: o controle de bagagens, bolsas, objetos pessoais e o prprio corpo. Vem a pequena passarela com detector de metais, que apita quando flagra. O rabe do turbante passou tranquilo. No havia um ninho de metralhadora escondido ali dentro. O africano no camisolo ficou.

Vem o apito fino, estirado, estridente: -piiii. Todo mundo olha. ela, a terrorista. E bem disfarada. Alta, elegante, cara de italiana, chapu vermelho de italiana, culos italianos, botas italianas. Uma terrorista italiana. Logo aparecem trs policiais femininas, levam-na ao lado, como se estivessem perguntando: Abra logo o jogo, e arma? No era. Apenas o isqueiro. Deixou o isqueiro, voltou, atravessou de novo a passarela metlica, sem apito nenhum. Se fosse um rabe ou africano, mesmo sem o segundo apito, a devassa ia continuar. O medo do terrorismo estava virando racismo.

ERA ELA, A BOMBA – Afinal, estvamos na sala de espera. Chamam nova fila. A metade passa, pedem para a outra metade esperar, porque vamos de nibus para o avio. Pelo vidro, vimos o nibus encher e seguir at o Airbus da Alitlia, l longe, no campo mido, na manh de 10 graus.

O nibus para, mas ningum salta, ningum entra. Os funcionrios da Alitlia, atenciosos e perplexos, comunicam que houve um pequeno problema, mandam-nos sair para esperar nova chamada. E os outros, dentro do nibus, junto ao avio.

No havia dvida. Era ela, a bomba. Estariam tentando desativar. E voltam os que haviam ido. O voo vai atrasar. Era para sair ao meio-dia, deu uma hora, duas horas, nada. s 15 horas, afinal, embarcamos. Um leve, lindo, macio voo sobre o azulado Mar Adritico.

PROIBIDO FUMAR – A aeromoa, bela, com seus imensos culos redondos, servia o vinho para o almoo j atrasado, quando o comandante pede ateno:

-Desculpem, mas a partir deste instante proibido fumar. Apaguem seus cigarros e os mantenham apagados at que o sinal de proibio tambm se apague. uma pequena emergncia. Espero que dentro de 15 minutos j voltemos normalidade.

Durou uma hora a proibio. No havia realmente mais dvida alguma. Era ela, a bomba. A bomba terrorista, afinal flagrada a bordo. Acender o cigarro era acender a bomba. E voar tudo pelos ares. Ela estava, certamente, descoberta e acuada pelos comissrios, como uma ona enlouquecida.

NADA ACONTECEU – O murmrio foi crescendo, ningum sabia o que estava acontecendo, tambm no foi dito. E nada, absolutamente nada aconteceu. A aeromoa de culos enormes atendeu a meu pedido, deixou comigo uma tranquilizadora garrafa de vinho tinto e logo comecei a ver as escarpadas colinas da Grcia l embaixo, como o cu crespo do cu.

Para o brasileiro, Grcia Scrates, Plato, Aristteles e Onassis. No mximo, a Jaqueline, viva de Kennedy, viva de Onassis. O teatro, o alfabeto, os oradores, a cultura, a civilizao grega esto dentro de ns, desde a escola primria, qualquer que seja o nvel educacional do brasileiro, como a nossa mais forte referncia cultural. Mas tudo coisa de sculos atrs. Dois para trs mil anos.

QUASE A ETERNIDADE – Grcia o passado, a antiguidade, quase a eternidade. A lngua, morta. A geografia, perdida ali entre o Mediterrneo, os Balcs, o fim do Ocidente, o comeo do Oriente. Grcia coisa distante. Grego, sinnimo de total desconhecimento: – Isto para mim grego.

E no entanto a Grcia est sempre junto de cada um de ns, em grande parte da lngua que falamos, e, principalmente, na poderosa herana cultural, ela que foi a me da civilizao latina, portanto, av de nossa civilizao.

Ao lado da Embaixada do Brasil, era preservada a misteriosa vida do Papa Inocncio X

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Papa Inocncio X, retratado pelo mestre Velzquez

Sebastio Nery

No dia em que se fizer o inventrio completo das injustias cometidas pelo golpe de 1964, preciso contar a ignominia que foi a alegao para a cassao do embaixador do Brasil em Roma, Hugo Gouthier.

O simptico e civilizado Gouthier (que conheci embaixador do Brasil no Ir, no governo do X da Prsia, antes de Khomeinni) foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma, o Palcio Pamphilli. A UDN alegou que foi uma negociata. No conheo negcio melhor para o pas, feito por qualquer governo.

PALCIO INVADIDO – Os herdeiros da famlia Pamphilli no sabiam o que fazer do velho palcio barroco, ocupado desde a guerra por mais de 200 famlias, que viviam nos apartamentos dos fundos, impedindo a liberao dos magnficos sales com afrescos de Pietro da Cortona, toda uma galeria de Borromini e a belssima arquitetura da Piazza Navona.

Gouthier comprou o palazzo com quatro promissrias e aos poucos foi tirando os moradores e desocupando tudo. Quando deixou a embaixada, o Brasil era dono da mais valiosa sede de embaixada em Roma (por 2 milhes, pagos em vrios anos). S as obras de arte que esto l valem dezenas de vezes o que ele gastou. Qualquer multinacional daria hoje milhes de dlares para ter uma sede como aquela.

O palcio Pamphili vai da esquina da Piazza Navona at a Igreja de Santa Ins, em frente da qual fica a magnfica Fonte dos Quatro Rios, de Bernini, o mesmo que fez a colunata da Praa de So Pedro: Ganges, Nilo, Danbio e Prata, at ento os quatro maiores do mundo, pois ainda no conheciam o Amazonas.

Quando vendeu o palcio, a famlia Pamphili no quis vender tambm o apartamento do Papa, a parte que liga o palcio Igreja de Santa Ins, da mesma altura do palcio, com os mesmos quatro andares, um anexo estreito, como se fosse uma casa de quatro andares.

RECANTO DO PAPA – Ali o Papa Inocncio X (Cardeal Giovanni Battista Pamphili), que construiu o palcio para a cunhada Olmpia Maidalchini, depois de 1600, ficava hospedado quando ia passar os fins de semana com ela. At hoje esto l, originais, a cama, os mveis, os objetos todos.

Essa mulher era uma megera, cobrava impostos sobre po e gua que o povo consumia. Conta a lenda romana que o Papa no dormia apenas l. Dormia tambm com a cunhada viva. E at hoje h quem diga que, nas noites sem lua, se ouve a carruagem de Dona Olmpia fazendo barulho na praa e nos apartamentos da embaixada. (Quando Adido Cultural do Brasil morei l, na embaixada, um punhado de tempo, e dona Olmpia no me deu a graa de v-la nem de ouvi-la).

No contrato de compra do palcio, Gouthier ps um item deixando para o Brasil a opo de compra do apartamento do Papa. Quando a famlia resolveu vender, foi no governo Figueiredo. No sei quem era o embaixador do Brasil. Devia ser um cabea de bagre. Pediram 800 mil dlares. O Brasil, que tinha direito de compra, no quis comprar. Continuaram achando que era a negociata de Gouthier.

GRANDE NEGCIO – O Brasil no quis, Berlusconi (o Roberto Marinho de Roma, dono de televises, revistas e jornais, depois deputado e primeiro-ministro) comprou por 10 milhes de dlares (s o apartamento, menos de 10% do edifcio todo, que o Brasil comprou por 2 milhes, em vrios anos).

Depois, Berlusconi vendeu o apartamento do Papa. Por 15 milhes de dlares.

E pensar que uma das razes da cassao de Juscelino por Castelo Branco foi ter autorizado a compra do Palcio Pamphili para a embaixada do Brasil. E a de Gouthier tambm.

A demisso de Said Farhat e a morte de Petrnio Portela, os “operrios da abertura”

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Said Farhat exigiu de Joo Figueiredo a redemocratizao do pas

Sebastio Nery

Jornalismo o fato. A notcia, a informao. Depois que vem a anlise. O ideal quando o jornalista pode dar a notcia em cima do fato. Mas, muitas vezes, a maioria das vezes, s decorrido algum tempo que temos o fato em todos os seus dados, Como a lua, a informao no nasce de vez. Ela se vai corporificando aos poucos, atravs da costura de numerosos elementos dispersos.

Essas histrias que conto hoje no poderia ter contado no primeiro instante. Primeiro, para no expor as fontes de informao. Mas, principalmente, porque s agora a verso surge clara, redonda, luminosa. Como uma lua, cheia de consequncias polticas.

FARHAT SE DEMITE Logo depois dos incidentes de Florianpolis, o ministro Said Farhat, da Comunicao Social, entrou cedo no gabinete do Presidente Figueiredo.

No podia continuar no governo e por isso apresentava seu pedido de demisso, que pedia ao Presidente para aceitar. Desde o primeiro instante, ele deixara claro que ia para o governo ajudar o Presidente em seu projeto de abertura poltica, nico caminho vivel para o Brasil transformar-se numa nao socialmente equilibrada e economicamente poderosa.

Figueiredo atalhou logo dizendo que aquele era, e continuaria sendo o objetivo de seu Governo. Por isso, no estava entendendo o gesto do ministro e amigo.

Farhat ps o dedo na ferida. Disse ao Presidente que dentro do Planalto no havia essa unanimidade que ele imaginava em torno do projeto de abertura, ao menos em torno do ritmo, da velocidade do projeto. Alguns tinham, dentro de si, um projeto diferente e sempre agiam em funo disso. Com os episdios de Florianpolis, haviam chegado a um nvel intolervel as disfaradas ou indisfaradas hostilidades a ele, Farhat. Por isso, achava que devia sair para que o Presidente pudesse montar uma equipe realmente unida.

Figueiredo cortou a conversa textualmente: Ns dois viemos para c realizar juntos um projeto de Governo. S sairemos juntos. No aceito a demisso de maneira nenhuma.

MORTE DE PETRNIO – Um jornal de manchetes sensacionalistas poderia ter noticiado assim a morte do ex-ministro da Justia Petrnio Assassinado pelo Planalto. A Bblia ensinou que ao homem no dado discutir os desgnios da Providncia. Mas, a notcia humana, exata, da morte do operrio da abertura (a inteligente manchete do Correio Braziliense), mostra que a candidatura de Petrnio Presidncia da Repblica em 1984 que foi a responsvel por todos os equvocos mdicos que deixaram um ministro da Justia morrer com uma assistncia mdica to minguada.

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Petrnio Portela era o candidato civil Presidncia

Primeiro, ele j tinha passado muito mal na noite de quinta para sexta-feira durante uma viagem de Florianpolis para Laguna onde foi representar o presidente. Volta de helicptero para Florianpolis. Chega a Laguna, faz o eletrocardiograma, acusa o enfarte. No aceitou ficar internado.

Petrnio exigiu dos mdicos levarem-no para Braslia. Na Casa de Sade Santa Lucia, o eletro acusa o enfarte em Santa Catarina mas Petrnio no aceita ficar internado. Em casa teve o segundo enfarte e no resistiu.

UM OBSTINADO – Como exigiu, sempre falavam em distrbio gstrico, que era consequncia e no causa. Eu sempre fui obstinado, ele me dizia na entrevista que o Correio Braziliense publicou. No fim de todo seu longo projeto de abertura estava, j mais ou menos pacfica, sua candidatura civil (a nica at ento aceita pelo sistema) para a sucesso de Figueiredo.

Petrnio sabia que, com um pulmo s, na hora em que entrasse em um CTI enfartado, temporariamente afastado do Ministrio, os adversrios de sua candidatura teriam o argumento definitivo: um doente, no pode.

Ele se obstinou para derrotar a morte e ganhar o poder. No conseguiu. E deixou a Nao perplexa e com medo da abertura sem seu operrio.

O Path, que se recusou a ser Pateta, fez um tremendo sucesso em Moscou

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Chamava-se Path, Jos Fayermann Path, e Fayermann dos pais judeus, Path de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

Pateta no. Ento fica Path.

Ficou. Encontrei-o como Path no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politcnica da Universidade de So Paulo e membro da nossa numerosa delegao brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rog Ferreira.

ERA A ALEGRIA – Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonado, muito feio, Path era a prpria alegria. E, com um violo que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zari, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros pases com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas s sabia trs msicas: Conceio, Trem das Onze e Aquarela do Brasil.

Um dia, fomos levados para um festival artstico na Associao Sovitica de Escritores. Um salo enorme, como um ginsio, apinhado, centenas de pessoas. Cada pas subia no palco e ia apresentando suas coisas: bal, circo, msica clssica, danas folclricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegao brasileira no tinha sido avisada e no ia apresentar nada. Ia ser uma humilhao, um vexame.

Tive uma ideia maluca: s o Path. Levamos o Path para uma sala e uma comisso o enquadrou no centralismo democrtico da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Path tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violo com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mo de Path e o anunciamos:

Agora, o jovem e consagrado cantor-revelao do Brasil, Path.

SALTOS E MURROS – Path enlouqueceu. Sentado atrs, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violo sobre a cabea, com a mo esquerda, e atravessa a longa passarela at o palco dando saltos e murros no ar com a mo direita, como um enlouquecido. O auditrio, at ento muito barulhento, ficou em absoluto silncio.

Path puxou uma cadeira, ps um p em cima, bateu forte no violo e comeou:

Conceio, estava no morro a sonhar

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeiro explodiu:

Se subiu, ningum sabe, ningum viu.

Comearam os aplausos, Path andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violo, acabou Conceio e emendou com Aquarela do Brasil. Um delrio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os ps no cho e Path, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

Moscou de p aplaude, Path, Path, Path!

E o auditrio, j tambm endoidado, repetia:

Path,Path, Path!

Naquela tarde, em Moscou, no sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austracos, as piruetas dos cossacos, para ningum. Como um Elvis Presley dos trpicos, Path tomou conta da festa.

Santorini, a ilha vulco da Grcia, recebe mais turistas do que o Brasil

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Meca do turismo, Santorini considerada a mais bela ilha grega

Sebastio Nery

Ela vem voando, leve, linda, longe, toda branca. Como uma flecha de Deus. Vai chegando perto, cada vez mais perto, o bico estirado, as asas presas, os ps retos. A um metro. Vejo-lhe, perfeitamente, os olhos midos, midos, infinitos. Jogo um pedao de po, ela pega, passa. E faz uma doce, graciosa, sensual curva sobre o mar. a gaivota. Um claro do Mar Egeu.

Outras vezes as vi, aqui, na primavera, no vero. surpreendente que sejam as mesmas no outono e no inverno. O mundo inteiro tem gaivotas, as bailarinas do mar. Gostam de seguir os barcos, os navios. So inesquecveis as de Rotterdam, Liverpool, Hamburgo, Npoles. So marinheiras dos cus. Vivem sobretudo nos portos, nos golfos, atrs do que resta dos barcos no mar.

ESQUADRILHAS – Mas, como as daqui da Grcia, os claros, jamais vi. Milhares e milhares, incansveis, esquadrilhas voando baixo, rente ao navio, dando mergulhos nas guas balanadas ou sobre o convs. E so democrticas. No invadem as ilhas e os portos das outras. Seguem os navios at certo ponto e voltam.

Da a pouco, quando comea a aparecer outro porto, outra cidade, outra ilha, l vm outras gaivotas, outros claros, no mais as que ficaram atrs, mas as dali. E o bal sobre o navio e o mar comea de novo.

De avio, de carro com ferry-boats ou de navio, se v a Grcia e suas ilhas encantadas. A vantagem do navio comea pelas gaivotas.

ATLNTIDA – A lenda a primeira doida da histria. ela quem diz que aqui em Santorini foi a Atlntida, de que falavam os papiros egpcios e sobre a qual escreveu Plato (no Timeon e no Criton): Um grande e admirvel Estado, soberano de outras ilhas, duas, uma maior e outra menor (a maior era Creta e a menor Santorini).

Em 1625 antes de Cristo, o corao da ilha explodiu, o mar invadiu, formou uma grande baia, uma caldeira, de 10 quilmetros de comprimento e 7 de largura e as guas profundas de 400 metros.

uma das mais belas e extravagantes paisagens do universo. L embaixo o mar muito azul, cercado de escarpas pretas, marrons, rosas, brancas e verde claro, que passam de 300 metros de altura e sobre elas as casas brancas, como de bonecas. Os gregos tm razo de dizer que a mais bonita das ilhas do pas.

SEM GUA – O centro a velha cidadezinha de Thera, anterior ao Imprio romano, hoje Fira. Toda ilha no tem gua nenhuma, nem rio nem lago. s gua de cisterna e de chuva. E o vulco ainda ativo. De quando em quando acorda de mau humor e cospe fogo. O solo vulcnico tem sua serventia: 36 variedades de uvas. A maior produo da ilha vinho (tinto, forte, levemente doce, que vem ganhando sucesso internacional). Um dos vinhos muito bom, ao menos o nome: Nery. daqui o Boutari, o mais conhecido dos vinhos gregos.

O Mosteiro de Profitis Elis (profeta Elias), no alto da montanha, um orgulho nacional: fundado em 1711, durante sculos, quando os turcos invadiram, ocuparam e devastaram a Grcia, foi uma escola secreta, ensinando a lngua e a cultura grega.

Uma ilhazinha to pequena (embora to fantstica) recebe tantos turistas quanto o Brasil inteiro.

Uma viagem com Jorge Amado e Zlia Gattai, at os mistrios da Siclia

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Ele no queria ir de avio. Preferia o trem, de Roma at o sul da Itlia e de l para a Siclia. Zlia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, achavam demorado. Acabou se convencendo e voamos direto para Palermo. Jorge Amado passou em Roma em 1990, deu entrevistas como sempre, participou como jurado da entrega do Prmio Internacional Unio Latina de Literatura e fez um debate no Centro de Estudos Brasileiros, na embaixada brasileira, ali na magnfica Piazza Navona, onde eu era adido cultural.

Ele ia receber em Palermo, capital da Siclia, o Prmio Mediterrneo, mais importante da Siclia.

EMBAIXADOR – Jorge foi, durante dcadas, o embaixador da cultura brasileira no mundo e o autor brasileiro mais lido em todos os pases. Zlia Gattai fez muito bem em eterniz-lo, fazendo da casa do Rio Vermelho o Memorial Jorge Amado.

Nas ruas de Roma, nas esquinas da Siclia, era inacreditvel a alegria do casal Hilda e Geangaspare Ferro em Palermo, ela brasileira, numa feijoada perfeita, estavam quatro casais que se conheceram por causa dos livros dele.

Eram italianos ou italianas que descobriram o Brasil, a Bahia, o Rio, nos livros dele, vieram conhecer o pas, aqui encontraram brasileiras ou brasileiros, conheceram-se, casaram e foram agradecer a Jorge, santo casamenteiro. E algumas belas Gabrielas nascidas do romance de 1958.

MISCIGENAO – Na Faculdade de Lnguas e Literatura de Palermo, com os muros cobertos de slogans da esquerda, Jorge dez, durante horas, um debate com os estudantes. O que eles mais queriam saber era como o Brasil conseguiu misturar suas raas e a Europa vive cada dia mais envolvida no brutal conflito entre suas populaes nativas e os imigrantes. Jorge ensinou sua sabedoria:

Racismo s acaba na cama. Quando o primeiro portugus amou a primeira ndia, comeava no Brasil o mistrio da nossa lngua e nossa Nao.

noite, na entrega do prmio, no Parlamento lotado, l estava a Siclia oficial: o governador da provncia, o presidente do Parlamento regional, o pomposo cardeal Salvatore Pappalardo, escritores, professores, jornalistas.

AV MAFIOSA – O grego Homero a chamou Ilha do Sol. Mas quem a definiu foi Goethe: Sem ver a Siclia, no se pode fazer uma ideia da Itlia. na Siclia que se encontra a chave de tudo. Tomasi di Lampedusa, escritor siciliano, disse no clssico Il Gattopardo.

Somos velhos, velhssimos. H 25 sculos, ao menos, carregamos mas costas o peso de magnficas civilizaes heterogneas, todas vindas de fora, nenhuma germinada aqui. Somos to brancos quanto a rainha da Inglaterra. No entanto, h 2 mil anos somos colnia.

A Siclia no filha da Itlia. me. No veio do Imprio Romano. anterior. A civilizao grega, antes de chegar a Roma, j estava na Siclia. Roma a me da Europa. A Siclia a av. Uma vov mafiosa, mas vov.

PALERMO – Os fencios, j instalados no norte da frica, em Cartago, chegaram Siclia e criaram sua primeira cidade, Panormo, hoje Palermo matriz fencia e grega, depois romana, da Europa. S no sculo III antes de Cristo, Roma chega Siclia, com Pirro, para ajudar os gregos contra os fencios. Roma derrota Cartago, expulsa os gregos e fica dona da ilha.

Durante sculos a Siclia foi o mais importante centro da civilizao ocidental: desde o ano 1000 antes de Cristo, com os fencios; depois, nos anos 500 antes de Cristo, com os gregos; antes de Roma foi o centro do Imprio Romano, com os romanos; e com os normandos, quando o Imprio Romano desabou, at 1250, quando morreu Frederico II e os franceses e espanhis, protegidos pelos Papas, puseram a Siclia em sculos de opresso.

Primeira universidade do mundo e primeiro parlamento do mundo, em Palermo, em 1130, a Siclia surpreendeu Jorge Amado. Na catedral, flores frescas, do dia, no tumulo de Frederico II, o rei sbio, enterrado l. At hoje o povo enfeita sua morte, uma espantosa ternura por quem viveu at 1250.

No folclore poltico, Golbery explicava a diferena entre “informe” e “informao”

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Golbery era uma espcie de Rasputin brasileiro

Sebastio Nery

Para preencher cargos-chave do governo, havia norma de consultar o SNI (Servio Nacional de Informaes), para saber os antecedentes da pessoa. Logo que o governador Paulo Egdio assumiu o ministrio (Industria e Comercio, do governo Castelo), Golbery explicou: A diferena entre um informe e uma informao a seguinte: o informe ouvi dizer, para ser verificado, um primeiro boato. A informao um fato que est comprovado. Quando voc receber uma informao com um visto meu, para cumprir.

Um dia recebeu uma informao com o visto do Golbery, dizendo que um alto funcionrio do Ministrio era um pederasta que mantinha relaes com contnuos no gabinete dele. Pedia que o demitisse.

NO DEMITIU – Comeou a levantar a vida do tal rapaz. Como no constatou nada, no assinou nenhum decreto. Golbery cobrou:

Ministro, lamento muito mas no constatei aquelas informaes.

Paulo eu no disse a voc que uma informao com o meu visto era para ser cumprida?

O senhor disse, mas acontece que caberia a mim a responsabilidade de exoner-lo. No constatei nada. No cumpri.

Mas isso muito grave. Precisa ser cumprido.

Ento ponha outro ministro no meu lugar, porque no vou cumprir.

Na sada de uma outra reunio, Golbery deu-lhe um tapinha nas costas:

Paulo, voc se lembra daquele caso? Voc tinha razo. Era um homnimo. Assunto encerrado.

AUMENTO PROIBIDO – Castelo tinha assinado um decreto, publicado no Dirio Oficial, proibindo o aumento de salrio dos procuradores pblicos. Lenidas Brio, considerando o IBC (Instituto Brasileiro do Caf) uma autarquia, concedeu um aumento aos procuradores do Instituto. O presidente interpelou Brio diretamente:

O senhor no comunicou ao seu ministro. Como explica isso?

Sou presidente de uma autarquia e considero que cabe a mim.

O senhor no est entendendo a poltica de meu governo. No est entendendo coisa alguma. Vai ter que revogar isso de qualquer maneira.

O presidente bateu na mesa, ficou transtornado. Foi uma cena muito desagradvel.

Brio recuou, foi at o fim do governo como presidente do IBC.

EM LIMOEIRO… – O coronel Chico Herclio, de Limoeiro, o mais poderoso do Nordeste, jogou tudo em 1950 na campanha de Agamenon Magalhes contra Joo Clefas, para governador de Pernambuco. Deu-lhe mais de 70% dos votos de sua regio. Depois da eleio, foi ao palcio. Agamenon eufrico:

Chico, use e abuse de meu governo.

Muito obrigado, governador. A secretaria da Fazenda e a de Segurana o senhor no d a ningum. As outras no valem nada. S peo para colocar gua em Limoeiro e pelos meus amigos, quando for preciso.

Um dia, voltou ao palcio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de funo. Agamenon no podia atender:

Mas, Chico, isso muito difcil.

Se fosse fcil, eu no vinha lhe pedir. Governo existe para fazer as coisas difceis. As fceis a gente mesmo faz.

O CARROCEIRO – Z Pequeno era o lder dos carroceiros de Joo Pessoa. Comandava desfiles de carroas em homenagem ao interventor Argemiro Figueiredo e ao prefeito Fernando Nbrega, na ditadura de Getulio Vargas.

De repente, Argemiro caiu, Nbrega tambm. Z Pequeno guardou sua carroa, plantou-se dentro de casa. Um dia, dois, ningum o viu mais. No terceiro dia, engraxou os sapatos, vestiu a roupa de domingo, ps a gravata e passou pela casa de Fernando Nbrega:

Chefe, vou ao palcio apoiar o novo interventor, Rui Carneiro.

Por que tanta pressa, Z Pequeno?

Ah, doutor, trs dias longe do governo demais. Se eu ainda fosse um Z Grande, mas sou apenas o Z Pequeno…

Os gols de Dutra na vitria do Brasil na Copa de 1958 e as incertezas da seleo de Tite

Sebastio Nery

Em 1958, o Brasil jogava com a Sucia na Copa. Os radialistas Rubens Amaral e Lus Brunini e o deputado Augusto de Gregrio sofriam o comeo do jogo em um apartamento na rua Redentor, em Ipanema, no Rio. Brasil perdendo de 1 a 0, nada de fazer gol.

Toca a campainha. Era o ex-presidente Dutra, que morava ao lado. Dutra entra na sala. O locutor grita: Goooool! O Brasil empatou.

Dutra comemora, conversa um pouco, sai. Nada de o Brasil desempatar. Toca novamente a campainha. Era Dutra de volta. O locutor grita: Goooool! O Brasil desempatou.

S deixaram o velho sair depois do jogo. O Brasil derrotou a Sucia por 5 a 2 e ganhou a Copa de 58. Tite devia invocar socorro a Dutra.

DEMISSO DE JANGO – Joo Goulart assumiu o Ministrio do Trabalho, no segundo governo de Getlio Vargas (1953).Os militares da UDN comearam a conspirao que acabou no Manifesto dos Coronis, redigido pelos coronis do Exrcito Bizarria Mamede e Golbery do Couto e Silva, e assinado em primeiro lugar pelo coronel Amauri Kruel (por fora da ordem alfabtica), exigindo a derrubada de Jango, que Getlio afinal aceitou.

Murilo Melo Filho, colunista poltico da revista Manchete, telefonou a Ansio Rocha, amigo do marechal Dutra, e foram os dois rua Redentor, em Ipanema, para o calado ex-presidente dizer alguma coisa:

Presidente, o que o senhor achou do Manifesto dos Coronis?

No sei de nada, meu filho. Li nos jornais, mas no achei nada. No vou falar, no. No ajuda. Alis, nem li os jornais direito, porque esta noite entrou aqui em casa um ladro e me atrapalhou a manh.

HISTRIA DO LADRO Murilo Melo Filho insistiu, pedindo que Dutra ento contasse a tal histria do ladro.

Mas, meu filho, uma revista to importante ficar preocupada com histria de ladro? No foi nada demais. Ele entrou, pegou algumas coisas e foi embora. S isso. No teve importncia.

Ento, presidente, voltemos ao manifesto. O senhor acha que os coronis vo derrubar o Jango do Ministrio do Trabalho?

Dutra ficou calado, pensou um pouco, sorriu:

Olha, Murilo, melhor falar do ladro.

E falou.

VICTORINO FREIRE – De manh bem cedo, em 1969, a brutal Junta Militar no poder, eu deputado cassado mas trabalhando em jornal e TV, toca o telefone de minha casa, aqui no Rio. Era o colega e amigo jornalista Tarcisio Holanda:

Nery, saia agora, no fale com ningum e v urgente para o Palcio do Monroe, na Cinelndia. O senador Victorino Freire espera voc l.

Encontrei Victorino j entrando no carro para sair:

Sebastio, me espere no gabinete do senador Dinarte Mariz. Tranque-se l dentro e no abra para ningum, nem para ele. Volto j.

Obedeci, o corao aos pulos. Duas horas depois, chega Victorino:

Pode ir. No vai mais ser preso. Mas nunca mais conte histrias contra o general Dutra. Depois de Caxias, o sinnimo do Exrcito brasileiro ele. A floresta tem tanto bicho, para que mexer logo com o leo?

IXTO E AXIM – Em minha coluna na Tribuna da Imprensa, naquele dia, eu contava algumas historias engraadas do marechal Dutra, que puxava muito no X (isto era ixto, assim era axim) e sobre o governo dele.

Dois oficiais saram cedo do comando do Exrcito atrs de mim em minha casa e no jornal. Victorino soube, avisou a Tarcsio e foi a Ipanema, casa de Dutra, que telefonou para o comando do Primeiro Exrcito:

O Laxerda e o David Naxer me criticaram todos os dias de meu governo e eu nunca os mandei prender. O Victorino est me dizendo que vocs vo prender o Sebastio Nery pelo que escreveu hoje. No faxam ixo no. Eu at gosto do que ele escreve.

O melhor de ns acaba de ir aos 80 anos, em Salvador o padre Carlos Formigli

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Padre Carlos Formigli era muito conhecido na Bahia

Sebastio Nery

ramos onze. Hoje j somos dois. Morreu em Salvador o melhor de todos ns: Padre Carlos Formigli. Estudou Filosofia em Salvador, 1950/52; na Pontifcia Academia Romana de Santo Tomas de Aquino e na Pontifcia Universidade Gregoriana de Roma, 1953/55. Teologia na Pontifcia Universidade Gregoriana Roma Itlia, 1952/56. Pos-Graduao em Cincias Humanas e Sociais Monografia: Le Tiers-Monde Sous le Signe de la Transformation Faculdades Catlicas de Lilli Frana 1970/72. Professor de latim e grego, presidente da Fundao da Criana e do Adolescente, FUNDAC, 1991/2007 Salvador.

Estvamos entre os primeiros alunos do Seminrio da Imaculada Conceio de Amargosa, na Bahia. A prefeitura ia inaugurar a Biblioteca Pedro Calmon, filho mais ilustre da cidade. Estavam l o homenageado, professor, escritor, acadmico e orgulho da terra. O prefeito, vereadores, o bispo Dom Florncio Sisnio Vieira, os professores do seminrio e os locais, e um jovem estudante de Direito tambm nascido l, Waldir Pires.

DILOGO EM LATIM – Padre Correia escreveu um texto em latim, um dilogo, como se fosse teatro, para Carlos Formigli e eu dizermos. Lembro bem de duas coisas: o medo de comear e a alegria de terminar debaixo de palmas, No erramos nada. Carlos aparecia de repente, de surpresa e eu, ali ao lado, o interrogava em latim:

Eus, Carole, quo vadis? (Al, Carlos, para onde vais?)

E Carlos respondia que ia para a inaugurao da biblioteca. Falvamos sobre a importncia da biblioteca, a justa homenagem a Pedro Calmon e uma saudao cidade.

Tudo em latim. Em um latim perfeito, clssico, claro, que pronunciamos com segurana, at porque o autor estava ali e, se errssemos, era capaz de nos matar. E foi o primeiro a aplaudir.

CARTA DE CARLOS

Tenho aqui em mos, a carta que o Carlos me fez quando completei 80 anos:

Caro Sebastio, eis que estamos chegando aos oitenta anos. Uma longa caminhada pontilhada de muitas coisas boas. Basta um olhar para o passado e certamente nos surpreenderemos com as vitrias conquistadas, as dificuldades vencidas, os servios prestados. Com certeza, no fomos inteis e, nem to pouco, mais um na histria do mundo, caminhando ao sabor dos ventos. Conheo sua histria (a NUVEM no deixa dvidas) e voc sabe por onde andei, tentando realizar a minha misso de sacerdote e educador. Aos oitenta anos, se no optamos pelo repouso, j sentimos que a idade nos alerta para a necessidade de desacelerar e caminhar com mais prudncia.

Voc, meu caro, tem uma histria rica de momentos empolgantes e no duvido em afirmar que os dias de priso contriburam, e muito, para fazer do Nery, o cara destemido, o jornalista polmico, o cidado consciente dos direitos e dos deveres decorrentes de sua cidadania.

Parabns, Sebastio, pelo seu aniversrio, pela sua vida, pela sua histria, pelo que voc fez em defesa dos direitos da pessoa humana e da democracia.

Com voc, agradeo a Deus o dom de nossas vidas e as oportunidades que tivemos de semear a boa semente.

Em Alagoas, quem mandava na poltica eram os trs irmos que eram seis

Silvestre Pricles, ex-governador,um dos generais de sua famlia

Sebastio Nery

Pedro, general, ex-ministro da Guerra, senador do PSD, telegrafou ao presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas: Ciente senador Ismar (irmo de Pedro e Silvestre e tambm general, do PSD e ex interventor) e seus asseclas tm em vista provocaes ocasio comparecimento governador (Silvestre, igualmente militar e do PSD e irmo dos outros dois), aconselhei a este a no ir.

Silvestre mandou expor o telegrama no Largo do Relgio, centro da cidade. Ismar se dirigiu para o local onde estava a copia do telegrama do general Gis e a rompeu, rasgando-a vista de muitos. Ao saber do gesto ousado, o governador Silvestre vai pessoalmente ao Largo do Relgio Oficial, para onde fizera se deslocar um contingente de policiais armados e, em espalhafatosa exibio, deu ordem at de fuzilamento. Se tentassem rasgar o telegrama fuzilassem e, se fosse o senador Ismar, que o prendessem, o amarrassem e levassem para o quartel.

No dia seguinte, os jornais publicavam a resposta do senador Ismar: O governador sabe, e se no sabe fique sabendo, que nunca deixarei de honrar meu mandato. Se o governador duvidar, que tente, vindo pessoalmente comandar a diligncia, j que no respeita o cargo que ocupa

GATO E CACHORRO – Eram assim, como gato e cachorro, os trs irmos militares de Alagoas, entre 1945 e 50: dois generais e um auditor de Guerra, dois senadores e um governador. Eles eram meia dzia. Ainda houve mais trs: Ccero, que morreu no levante paulista de 1932; Manuel, senador de 1935 a 37; e Edgar, interventor do Estado depois da queda de Getulio em 1945.

caso nico na historia do Brasil, de seis irmos polticos atuando ao mesmo tempo.

1 – Logo depois da proclamao da Independncia, os irmos Jos Bonifacio Andrada, Antonio Carlos e Martim Francisco foram constituintes de 1823. Dom Pedro I fechou para impor sua Constituio de 1824.

2 Os irmos Mangabeira, baianos : Otavio, Joo e Carlos. Em outubro de 1934, Otavio e Joo elegeram-se deputados pela Bahia. Carlos, farmacutico e prefeito de Bag, no Rio Grande do Sul, tambm foi eleito deputado federal pelo Rio Grande. No golpe de 1937, cassados os trs.

3 Na dcada de 90, Alagoas teve trs irmos no Congresso ao mesmo tempo: Renan e Olavo Calheiros, eleitos por Alagoas, e Renildo Calheiros, eleito por Pernambuco: depois prefeito de Olinda, pelo PC do B. Democracia no voto e no na bala.

ELEIES DE 1950 – O general-governador Silvestre Gis Monteiro levou o maior susto quando comearam a ser contados os votos das eleies de 3 de outubro de 1950. Depois de quatro anos de ameaas dirias, espancamentos e assassinatos, ele tinha absoluta certeza de que o eleitorado de Alagoas no teria coragem de votar contra seus candidatos a governador, Campos Teixeira, e a senador, seu irmo o poderoso general Aurlio Gis Monteiro.

E teve. Abertas as primeiras urnas, o candidato da oposio (UDN), o jovem jornalista alagoano Arnon de Mello, que morava no Rio e topou desafi-lo, disparou. O candidato a senador, Jernimo da Rocha, tambm. Silvestre enlouqueceu. Dizia abertamente que no passaria o governo.

No comando do 20 Batalho de Caadores do Exrcito, em Alagoas, um major inteligente, tranquilo e com senso da histria, anotava tudo, que, depois, reformado, reuniu em surpreendente livro: Sururu Apimentado, de Mario de Carvalho Lima, editado pela Universidade Federal de Alagoas. E a histria foi assim.

Jos Aparecido, o mltiplo embaixador que uniu os pases de lngua portuguesa

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O mltiplo embaixador Jos Aparecido estaria hoje com 90 anos

Sebastio Nery

O Embaixador Jos Aparecido de Oliveira era um lusfilo incorrigvel. Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freyre. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceio do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos ps, mas preciso ter pacincia. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crdito poltico histrico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em So Lus do Maranho, em 3 de novembro de 1989, o 1 Encontro dos Pases da Lngua Portuguesa, surgindo da a criao do Instituto Internacional da Lngua Portuguesa.

PRIMEIRO ENCONTRO – Ali aconteceu o primeiro encontro depois da libertao das antigas colnias de Portugal na frica com a primeira reunio dos presidentes das ex-colnias de Portugal, o Presidente do Brasil, Jos Sarney, com Mrio Soares, de Portugal, Joaquim Chissano, de Moambique, Manuel Pinto da Costa, ento presidente de So Tom e Prncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, Joo Bernardo Vieira, Nino, da Guin Bissau, e Lopo do Nascimento, de Angola, representando o presidente Jos Eduardo Santos, que no saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Jonas Savimbi.

Uma noite, em Braslia, um grupo de jornalistas na casa do ento governador Aparecido, jantvamos com o presidente da Guin Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

AS EX-COLNIAS – Aparecido no conhecia s Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colnias. Mrio Palmrio, romancista dos infinitos Confins de Minas, tambm ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na histria do Itamarati s trs diplomatas conheceram bem as cinco ex-colnias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi l. Duas vezes.

O inesquecvel Carlos Heitor Cony, j havia percebido e escrito antes: Esta , basicamente, a ideia de Jos Aparecido de Oliveira. A lngua portuguesa a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma populao de mais de 230 milhes. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusfonos ser estritamente poltica e cultural, o que j muita coisa. Evidente que os povos que falam o portugus so em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geogrfico no tem impedido a formao de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma lngua. Esse bloco de milhes de pessoas que falam o portugus tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-no-vers-criana-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilizao comum. Basta um pouco de imaginao para se obter a projeo do que pode representar, a curto, mdio e longo prazos, a formao de um bloco de naes reunidas sob um ncleo de tal amplitude. Essa imaginao no faltou ao nico embaixador que no dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.

HOMENAGEM – No por acaso, a Academia Brasileira de Letras acaba de prestar homenagem aos 90 anos de Jos Aparecido. Seus amigos acadmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro organizaram o Seminrio Jos Aparecido de Oliveira, o embaixador da Lngua Portuguesa, realizado no Teatro Raimundo Magalhes Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras Rio de Janeiro. Nada mais justo.

Entenda por que a Turquia concentra grande parte da Histria da Humanidade

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A importncia histrica da Turquia realmente incomparvel

Sebastio Nery

A Turquia no um pas. uma salada de frutas. A Macednia tambm j foi. Tantos povos moraram e mandavam l, que na Itlia a salada de frutas se chama macednia. Pois a Turquia muito mais. o nico pas do mundo que j teve 12 capitais.

Primeiro, Troia, capital dos Hatitas (3.500 anos antes de Cristo). Depois, Hattusa, capital dos Hititas (do sculo 18 ao sculo 17 antes de Cristo). E vieram Xanthos, capital da Lcia (de 600 a 200 antes de Cristo); Sardes, capital da Lidia; Prgamo, capital do reino de Prgamo, (de 283 a 133 antes de Cristo); Amaseia, capital do reino do Pontus; Bizncio, fundada pelo grego Bizas, que virou Constantinopla, em 330 depois de Cristo, quando Constantino criou o Imprio Otomano, antes de os otomanos tomarem Constantinopla; Edirne, segunda capital do Imprio Otomano, tambm antes da tomada de Constantinopla; Istambul, que denominou a antiga Constantinopla; Niceia, quando a IV Cruzada crist tomou Istambul, de 1204 a 1261 (depois de Cristo). E Ancara, a capital hoje.

HERANA DE TODOS – Os povos que vieram e construram tm nomes estranhos e belos, vieram desde o comeo dos tempos, neste pequeno e fantstico pas de 780 mil quilmetros quadrados e 75 milhes de habitantes.

Os turcos so herana de todos eles, de civilizaes superpostas, desde o incio dos tempos. H marcas de presena humana 100 mil anos antes de Cristo. Esta sua grandeza mas tambm sua tragdia.

Os turcos dizem que a Turquia o maior museu a cu aberto do mundo. E por causa de sua fantstica histria. Cada cidade tem um pedao de eternidade. Em cada canto um resto de civilizao que se perdeu nas dobras da histria e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizaes.

BELIGERNCIA – Como manter tudo isso na mais beligerante encruzilhada da historia humana, a ligao da Europa com a sia, do Mediterrneo com o Mar Negro, da civilizao ocidental com a civilizao islmica, dos projetos de dominao mundial dos Estados Unidos com a muralha que a Unio Europeia?

Toda a histria antiga girou em torno de eternas batalhas pela conquista de ligaes de terras e mares, de estreitos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bsforo. Hoje, entre a Europa e a sia, h um novo estreito, feito de terra e cho, a Turquia. por causa dele que os Estados Unidos e a Europa ameaam fazer da Turquia uma nova Palestina, uma nova Bsnia.

UM PATRIMNIO – A Turquia, como a Grcia, Roma, Jerusalm, Paris, China, tantos outros, um Patrimnio Histrico e Cultural da Humanidade. Talvez nenhum outro espao to pequeno, nem mesmo na sagrada Grcia e na Roma divina, haja, to numerosa e diversa, a presena da humanidade atravs da histria.

Aqui, a Grcia esteve durante sculos, o Imprio Romano deixou sua marca e suas garras, a Mesopotmia virou Europa. Aqui, o cristianismo viveu seus trs primeiros sculos de perseguies e exlio. E viveu seus trs primeiros sculos de poder oficial. Aqui, a Alemanha perdeu uma guerra e Hitler outra. Aqui, a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria:

1 Aqui nasceram Homero, o poeta, So Paulo, o jornalista, Tales de Mileto, Pitagoras, Anaximenes, Anaximandro, sbios. Aqui ensinaram Plato e Apelokon. Aqui Hipodromos criou o urbanismo. Aqui se fez a primeira Escola de Escultura. Aqui Cleopatra e Marco Antonio se amaram.

2 Quando No ancorou sua arca, foi aqui, no monte Ararat (5.165 metros) O Tigre e Eufrates, dois dos trs mais importantes rios da antiguidade, so daqui. O templo de Artemisa e o Mausolu de Halicarnasso, duas das sete maravilhas do mundo, esto (estavam) aqui.

3 Para se asilarem, Nossa Senhora e So Joo fugiram para c e aqui morreram. So Pedro falou aqui, pela primeira vez, a palavra cristo. A gruta do patriarca Abrao, padroeiro dos judeus, era em Urfa, aqui. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, os pelos da barba, o dente e as pegadas de Maom tambm esto aqui.

4 A primeira moeda foi cunhada aqui, em Prgamo, aqui, se descobriu o pergaminho e houve uma biblioteca de 200 mil volumes antes de Cristo, a mais importante do Imprio Romano. A primeira cereja que chegou a Europa saiu daqui.

5 Aqui, a histria troca de roupa: os gregos construam o templo, os romanos trocavam o deus grego por um romano, os cristos transformavam o templo em igreja, os otomanos faziam delas mesquitas, os ingleses, franceses, italianos, austracos, alemes, arrancavam deuses, altares, minaretes, colunas e monumentos inteiros e levavam para seus museus maravilhosos.

Mesmo assim, a Turquia continua a ser o imenso museu do homem.

Folclore poltico de FHC, Jnio Quadros, Miguel Arraes, Djalma Falco e Chagas Freitas

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Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de So Paulo, socilogo. Fez a campanha de Lott para presidente da Repblica, contra Jnio, em 1960. Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jnio: Pedroso Horta, Jos Aparecido, Roberto Gusmo, Fernando Pedreira, Antonio Angarita. Quando Jnio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na poca. Fernando Henrique no era economista, mas no precisava ser. Aparecido, Gusmo, Oscar e outros indicaram a Jnio o nome de Fernando Henrique. Jnio mandou Aparecido convid-lo.

Fernando Henrique no aceitou. Primeiro, porque no havia votado em Jnio (embora Jnio tivesse dito que isso no tinha importncia). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadmica, na Universidade.

Jnio recebeu a resposta e disse a Aparecido: Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posio dessas aos 30 anos porque planeja outras muito mais altas aos 60.

GROSSO E MAL EDUCADO – Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falco (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Macei. Djalma foi a uma reunio da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

O governador quer ver voc hoje, s 12 horas. Mandou convid-lo para uma conversa no Palcio.

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, lder da esquerda nordestina. Ao meio-dia, estava l, foi levado ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sof, um casal. Arraes recebe Djalma de p, porta:

Djalma, infelizmente no vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoar.

Djalma olhou seco para Arraes:

Governador, no lhe pedi audincia, no solicitei que me recebesse. O senhor que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era to grosso e mal educado no teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

AMIGO DE CHAGAS – Em 1966, Djalma Falco chegou Cmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

Preciso de um grande favor seu. Voc presidente do MDB de Alagoas. O Aurlio Viana, alagoano, senador do MDB do Rio, mas no tem condies de reeleio. Quero eleger trs: Nelson, Danton e Farah. O Aurlio tem vaga cativa na chapa. preciso tir-lo do Rio e lev-lo para Alagoas. Convena-o a disputar por l. Arranjo 5 milhes para a campanha dele.

Chagas, se voc falar em dinheiro com o Aurlio, ele no vai. Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurlio, que saiu do Rio e perdeu as eleies em Alagoas.

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, mdico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Macei. Foi ao Rio com o amigo, pediu audincia a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palcio e Chagas no o recebeu.

Na Quinta das Lgrimas, onde Ins de Castro chorou tanto, antes de ser morta

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Este o tmulo de Ins de Castro, coroada rainha aps a morte

Sebastio Nery

Na Arcada da Capela, o belo restaurante do hotel Quinta das Lgrimas, em Coimbra, Portugal, beira do camoniano Rio Mondego, sob as bnos da milenar Universidade de Dom Diniz, a mineira famlia Gorgulho-Juca escolheu para rever amigos portugueses.

O lugar perfeito. Desde a idade mdia (a partir de 1350), a Quinta das Lgrimas, que j foi da Universidade e de uma ordem religiosa, cercada de matas e jardins cheios de araucrias e palmeiras, pltanos e figueiras, sequoias e agapantos, o osis de paz da cidade das tensas ctedras, das rebelies e dos abismos polticos de Portugal.

INSPIRAO – Esta uma casa de punhaladas, um smbolo universal das intrigas, brutalidades, violncias e assassinatos a servio da loucura humana.

Por isso a Quinta das Lgrimas se fez tema e inspirao da literatura mundial. Voltaire, Victor Hugo, Stendhal, Ezra Pound, tantos j escreveram sobre ela. Mas nenhum com a fora e a genialidade de Luiz de Cames, que no Canto III dos Lusadas celebrou o amor e o martrio de Ins de Castro, ibrica e trgica Julieta (Estavas, linda Ins, posta em sossego), que depois de morta foi rainha e cujo amor impossvel est eternizado em pedra e gua na Fonte das Lgrimas.

As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram/ E por memoria eterna em fonte pura/ As lgrimas choradas transformaram,/ O nome lhe puseram que ainda dura/ Dos amores de Ins que ali passaram,/ Vede que fresca fonte rega as flores/ Que as lgrimas so gua e o nome amores.

Maior e mais fantstica do que a poesia de Cames o milagre de sua vida. Soldado, doca e nufrago, com um poema fundou uma nao.

INS DE CASTRO – Como todas as eternas novelas maravilhosas, a de Ins de Castro tinha de tudo. Dom Afonso era rei de Portugal, dom Pedro, filho dele, era prncipe. E andava pela corte uma galega magnfica, filha bastarda de um dos homens mais poderosos da Espanha, neto do rei Sancho, de Castela, que o prncipe dom Pedro tambm era. Pedro e Ins eram primos. E se apaixonaram.

Comeou o maior tititi na corte, porque o prncipe Dom Pedro, que morava na Quinta, era casado com dona Constana, tambm prima dos dois. Ins vivia no Convento de Santa Clara, a meio quilmetro da Quinta, e Dom Pedro lhe mandava cartas em barquinhos de madeira que saiam da Quinta e chegavam at o convento por um crrego que, em um cano, passa at hoje.

Dom Pedro acabou levando Ins para a Quinta e tiveram filhos. Dom Afonso, o rei pai, no queria aquilo e, um dia em que Dom Pedro estava nas matas, caando, mandou trs homens matarem Ins de Castro a facadas.

FONTE DAS LGRIMAS – Ela chorou tanto, pedindo para no morrer, que fez nascer a Fonte das Lgrimas, onde h quem veja, ainda hoje, gravada na rocha, a mancha vermelha do sangue de Ins. No sei o que , mas tem cor de sangue.

O prncipe Dom Pedro se rebelou, organizou um pequeno exrcito e assolou o pas, tentando derrubar o pai. No conseguiu, mas logo depois o pai morreu, Dom Pedro assumiu o trono, prendeu dois dos assassinos, arrancou-lhes os coraes a facadas, anunciou que havia casado secretamente com Ins antes de ela morrer e mandou construir o monumental tmulo de Alcobaa.

O rei fez uma marcha fnebre de Coimbra ate Alcobaa e obrigou toda a nobreza a acompanhar, beijando a mo da morta. E ps o corpo dela no tmulo, onde tambm o dele est. Por isso, Ins depois de morta foi rainha.

Este buclico recanto do romantismo universal, sobretudo um testemunho secular do dio e da violncia poltica. O poder mata mais do que dengue e febre amarela. E mata a facadas.

O vice exemplar deixou de ser presidente na hora de Jos Sarney fazer xixi…

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O vice Marco Maciel, esqulido, ganhou o apelido de “Mapa do Chile”

Sebastio Nery

Era um rapaz magricela, calva longa e olhar triste de seminarista de castigo, as mos soltas na ponta dos punhos, como bales vazios, e um pescoo longo, muito longo entre Modigliani e o gog da ema da praia de Pajuara em Macei. Duas vezes vi Marco Maciel, presidente da Cmara, em pnico, na crise de abril de 1977. Quando Francelino Pereira chegou ao Planalto dizendo que a situao era gravssima, foi ao gabinete dele, trancaram-se. L de fora, pela vidraa, vi Marco Maciel bater as mos na mesa, esmurrar os joelhos, pular na cadeira como numa sela de potro bravo. Depois, foi na volta do encontro com o presidente, quando lhe foi comunicado o recesso do Congresso, estava plido, lvido, o rosto como cera, e o suor correndo fino pelas tmporas. Quando Clio Borja, sibilino e corts, lhe passou a presidncia da Cmara, abraou-o:

– Eu quero que Deus o proteja. Marco.

– E tem protegido!

GRANDE EVENTO – Mendes de Barros, ex-deputado, candidato do MDB ao Senado em 1970 e Richelieu da oposio de Alagoas, organizou na Assembleia Legislativa um Crculo de Estudos Polticos com Teotnio Vilela, Marco Maciel, Divaldo Suruagy, Marcos Freire, Carlos Castelo Branco, Carlos Chagas e outros.

No dia em que Marco Maciel chegou a Macei, Mendes de Barros estava doente. Guilherme Palmeira, candidato da Arena ao Governo e amigo dos dois, levou Marco para visitar Mendes. Tocam a campainha, o filho de Mendes, Antonio, v Marco com seus quase dois metros de magreza e finura, corre at o quarto:

– Painho, o mapa do Chile est a com o Guilherme.

FRENTE LIBERAL – Marco Maciel, Guilherme Palmeira e Jorge Bornhausen, senadores do PDS, comearam a reunir-se, em 1984, para organizar a Frente Liberal, uma dissidncia do PDS destinada a apoiar a candidatura de Tancredo Neves a presidente da Repblica, contra Paulo Maluf.

Aureliano Chaves, vice-presidente de Figueiredo, logo assumiu a liderana do grupo. Um dia, marcaram uma reunio com Ulysses Guimares para discutirem a formao da Ao Democrtica, a aliana do PMDB com a Frente Liberal. Quando Ulysses chegou, tomou um susto. Aureliano tinha levado um gravador e posto sobre a mesa, ligado. Era o Juruna mineiro.

VICE DE TANCREDO – Mais no fim do ano, antes de o Colgio Eleitoral reunir-se, em janeiro, a Frente Liberal, j formada, fez uma reunio para acertar quem iriam propor a Tancredo como vice-presidente e quais ministrios iriam reivindicar.

Marco Maciel, o primeiro sugerido pelo grupo, dizia que no queria ser vice. No convencia muito, Sarney, o segundo, tambm dizia, mas no convencia nada. Resolveram tratar antes dos ministrios. Marco Maciel props pedirem primeiro o da Educao. Sarney foi contra. Era um abacaxi, cheio de armadilhas, professores reivindicando e estudantes fazendo greves.

Preferia o da Previdncia, que tinha recursos e bandeiras sociais. Marco no concordava, o debate continuava.

NA HORA DO XIXI – De repente, Sarney saiu para ir ao banheiro. Guilherme Palmeira foi atrs. Enquanto Sarney fazia xixi, Palmeira encostado na porta, catequizava:

– Sarney, o Marco quer a Educao para ele, o sonho dele. E a nica maneira de voc ser o vice.

Sarney voltou rpido e defendeu o ministrio da Educao. Para Marco Maciel. E a vice caiu sobre a cabea de Sarney como uma tonsura. Sarney saiu para vice, Marco Maciel para a Educao e Aureliano para Minas e Energia. Sarney foi feito vice-presidente em um xixi do PFL.

Orgulho mineiro de no pedir nada ao adversrio, nem mesmo demisso do cargo

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Augusto de Lima Jnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte (o pai foi um dos patriarcas mineiros), criou a Medalha da Inconfidncia, e Juscelino o nomeou Chanceler perptuo. O governador s dava a medalha a quem Liminha aprovava.

Bias Fortes chegou ao governo, queria dar a Medalha de Tiradentes sogra. Augusto de Lima Jnior protestou, no adiantou nada. Bias assinou o ato, Liminha pediu demisso e no dia seguinte O Estado de Minas publicava longa carta do chanceler demissionrio, com o seguinte ttulo: Parir mulher de governador no d direito a medalha.

INDIGNAO – Morreu a mulher de Augusto de Lima Jnior. Alkmin no foi ao enterro, no telefonou, no telegrafou, no foi missa de stimo dia, no deu sinal de vida. E eram amigos ntimo de longa data. Liminha ficou indignado, nunca mais procurou Alkmin.

Uma tarde, encontram-se em Belo Horizonte, rua da Bahia, na Livraria Itatiaia.

– Como vai, meu carssimo Lima?

– Vou bem. At logo.

– Por que a pressa? Noto que voc est triste. O que que significa essa gravata preta? Morreu algum prximo?

– Morreu sim, Alkmin. Morreu minha mulher.

– No me diga. Eu no sabia. Meus psames.

– Ela deixou essa vida com nojo dos homens, cada dia mais canalhas. Cada dia mais canalhas, Alkmin, at logo.

– isso mesmo, Lima. A vida no est mais para gente como

ns. A vida hoje s mesmo para os canalhas. Gente como ns j no tem por que viver.

E abraou Liminha, lgrimas nos olhos.

O ORADOR – Augusto de Lima Jnior gostava muito de fazer discurso. Em 40, Getlio o nomeou ministro Plenipotencirio do Brasil durante as solenidades de mais um centenrio da independncia de Portugal. Liminha chegou l de discurso no bolso, feliz com a histria e a retrica.

No dia seguinte, chega Joo Neves da Fontoura, ministro do Exterior, acompanhado de ilustre comitiva, e anuncia que vai falar em nome do Brasil. Liminha enlouqueceu. noite, poucos instantes antes da solenidade, telefona para o hotel, diz a Joo Neves que chegou embaixada um telegrama urgente do Brasil para ele.

Joo Neves corre para l, tranca-se numa sala com Liminha para ler o telegrama, no havia telegrama nenhum. Quando Joo Neves comea a reclamar da brincadeira, Liminha sai, fecha a sala por fora. Os funcionrios haviam sado, Joo Neves fica preso. Liminha vai solenidade, l seu discurso, tranquilo e orgulhoso.

Mal acaba, chega Joo Neves, suado, zangado, indignado, e, por cima, mentindo, pedindo desculpas s autoridades portuguesas pelo equvoco quanto ao horrio, que o fez atrasar-se.

Voltou ao Rio, foi queixar-se a Getlio. Getlio caiu na gargalhada:

– E voc no sabia que o Liminha maluco?

FRASE CLSSICA – Artur Bernardes, que governou Minas e sitiou o Pas durante quatro anos, cunhou a frase clssica: Para os correligionrios, tudo. Para os adversrios, a lei, quando possvel.

Em 1918, Bernardes assumiu o governo mineiro e comeou a demitir o outro lado. Era diretor da Imprensa Oficial o velho Augusto de Lima, adversrio de Bernardes. Bernardes no quis demiti-lo logo e mandou um amigo conversar, para que ele pedisse demisso. O homem chegou l sem jeito:

– Augusto de Lima, como o senhor sabe, o Dr. Artur Bernardes

– J sei, j sei.

– Vou falar logo, Dr. Augusto de Lima. O Dr. Artur Bernardes mandou sugerir que o senhor pea demisso.

– Alto l. Ao adversrio, no peo nada. Nem demisso.

No dia seguinte, Bernardes demitiu Augusto de Lima.

Jimmy Carter em Recife, sem saber que ia ser presidente dos Estados Unidos

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Rosalynn e Jimmy Carter, ao embarcarem de volta aos EUA

Sebastio Nery

Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Georgia, foi colega de colgio da mulher de Carter, Rosalynn, e continuaram amigas pela vida a fora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.

Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoo a Jimmy Carter, no Palcio. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimares, gordo e barroco, lanando a candidatura de Carter Presidncia dos Estados Unidos:

Vossa Excelncia, senhor governador da Georgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que ser o prximo ocupante da Casa Branca.

Carter apenas sorriu. No dia seguinte, Camilo Steiner convidou alguns jornalistas pernambucanos para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Hlcias, secretario de Industria e Comrcio de Pernambuco, perguntou a Carter se ele tinha condies de sair candidato pelo Partido Democrata em 1976. Carter respondeu com outra pergunta:

– Qual o estado mais pobre do Brasil?

– O Piau.

– Pois a Georgia o Piau de l. O senhor acha que o governador do Piau tem condies de ser Presidente do Brasil?

Anchieta tambm achava que no. Acontece que o povo americano achava que sim.

CANDIDATO DOIDO – George Pires Chaves, advogado e cnsul do Piau no Rio de Janeiro, voltou a Teresina para visitar um cliente, Miguel Faria. Encontrou-o louco, internado no Sanatrio Meduna, dirigido pelo psiquiatra, ex-presidente do IPASE e deputado cassado Clidenor de Freitas.

Miguel recebeu doutor George em sua tranquila e chestertoneana loucura. Mas no queria saber nada de negcios. S de poltica:

– George, o Piau precisa de sua ajuda. Ns estamos cansados de eleger governadores sos. Nenhum deles prestou. Agora queremos um doido para o governo do Estado.

– E quem o candidato, Miguel?

– aqui o nosso colega doutor Clidenor.

OUTRA DE LOUCO – Mo Cheinha era louco no Cear. Levaram-no para o Sanatrio Meduna, de Clidenor de Freitas, em Teresina. Com o tempo, Mo Cheinha virou louco-chefe. Tomava conta dos outros. H sempre um louco cuidando dos bons.

No sanatrio, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mo Cheinha no entendia aquilo. Um dia, chamou oito loucos:

– Olha, minha gente, vocs so mangas maduras. Vo l para cima. Quando eu gritar, as mangas caem, porque manga madura cai. Uma a uma.

Os oito subiram. Mo Cheinha, c de baixo, gritou:

– Manga um!

Poff. E um louco se esborrachou no cho.

– Manga dois! Manga trs! Manga quatro!

E eles iam se largando l de cima e arrebentando-se c embaixo.

Mo Cheinha gritou: – Manga sete!

O sete respondeu: – Mo Cheinha, chama a Manga oito, que eu ainda estou verde.

Almoando com um gnio antigo e imortal, que se chamava Agripino Grieco

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Agripino Grieco criticava a literatura e tudo o mais

Sebastio Nery

Sa do almoo, fui direto enciclopdia ver a definio de guia: Ave de soberbo voo, garras potentes e tarsos plumosos, nidifica e habita nas montanhas. Era ele. Nunca ningum me dera to forte a ideia de ave, de uma ave soberba. Cara de ave, nariz de ave, longos dedos de ave, finos e saltitantes olhos de ave, apesar de tudo no voava nem cantava. Era um homem. Um homem excepcional, como a guia uma ave excepcional.

Milton Reis, deputado cassado, poeta, me telefonou convidando para almoar em sua casa com Agripino Grieco. Fui pensando nos 85 anos do velho mestre que de to longe me abriu as cancelas da literatura, nos primeiros anos do seminrio, atravs de seus livros que me encantaram pela limpidez, pela autenticidade, pela coragem de dizer que A era A e Z era Z mesmo, pela agressiva competncia com que exerceu a crtica literria acima de todas as corriolas da chamada vida literria, furando sem piedade a pana inflada de muito Sancho, com seu estilo de espada em punho de Dom Quixote.

AOS 85 ANOS – Carcaas Gloriosas, Zeros Esquerda, Amigos e Inimigos do Brasil, O Boletim de Ariel, o rodap em O Jornal, eu lera tudo h tanto tempo que fui imaginando encontrar os restos de um homem comido pela exausto de setenta anos de contnua atividade intelectual.

Pois no era nada disso. Da porta, a voz entrou sala adentro, tinindo, retumbante, como de um jovem. E passou trs horas falando, contando histrias, opinando, discutindo, citando trechos e trechos, prosa e verso, como torcedor de futebol cita escalao de time, com a naturalidade e o vigor de quem fez das ideias o po de cada dia.

A memria era inimaginvel, inesgotvel. Sabia e lembrava tudo da literatura universal e nacional, autores, livros, personagens, datas, dias, meses, anos, mincias, detalhes, como se fosse a vida dos filhos.

PALAVRA EXATA – E numa linguagem forte, enxuta, precisa, a palavra exata como fio de navalha, as frases saltando da boca, tonada, semicantadas, troantes, irrepreensveis. E, sobretudo, vivas, vivssimas, surpreendentemente acordadas e ensolaradas em um homem de oitenta e cinco anos.

As trs horas de conversa dariam meio livro. Guardei um pouco apenas do que ele disse entre o aperitivo, o excelente almoo e a sobremesa. Milton Reis, Geraldo Mascarenhas, Aurlio Ferreira Guimares foram testemunhas de que no vai aqui nem um tero do que ele lampejou, como diria com propriedade um jornalista de seu tempo. Quer dizer, de seu primeiro tempo, porque ele foi um homem de todos os tempos.

1 Tenho memria trgica, recordo tudo. Se houvesse fosfato para diminuir memria, tomava. s vezes ela di.

2 Elegeram-me presidente de honra da Academia de Letras de Caxias. Agora, sou duas vezes imortal: tomei posse e voltei.

3 O Jorge Amado trocou a Gabriela pela Tereza Batista. o lenocnio literrio.

4 Mineiro d bom dia porque bom dia volta logo. a terra onde olho v, mo tira e p corre. Por isso d tanto banqueiro l. O que o batedor de carteira seno um banqueiro apressado?

5 O primeiro artigo sobre o Gilberto Freyre quem escreveu fui eu. Casa Grande e Senzala um livro bem pensado e mal escrito. Pensado da casa grande e escrito na senzala.

6 H sujeitos muito burros que s vezes conseguem fazer uma coisa boa. a fasca da ferradura na calada.

7 Em 1906, eu era funcionrio do Ministrio da Viao e ia ser promovido. O decreto estava lavrado. Fiz um discurso para o Aaro Reis, meu chefe, e no me contive. Disse que ele era o primeiro de nossos engenheiros, em ordem alfabtica. Ganhei a frase e perdi o cargo.

8 O Ea de Queirs estava hospedado em hotel de vora. Chamaram-no. Saiu parecendo um sudrio com aquele caco de vidro no olho. Queriam um adjetivo original, extico, para uma placa em homenagem a um advogado. Respondeu: Honesto.

9 O Carneiro Leo entrou na Academia. Estranhei: At agora os animais tinham entrado de um a um. Dois de uma vez demais.

10 Algum me pergunta se deixei a Academia em paz. (At hoje ningum criticou tanto os imortais da Presidente Wilson como o gnio irnico do Mier).