A saúde está muito doente no Brasil

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Sebastião Nery

Um terço da população não é capaz de ler e compreender um texto mais elaborado. Segundo o Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), em pesquisa nacional, só 26% do povo brasileiro é plenamente alfabetizado. Mesmo os que têm curso superior encontram dificuldades de entender suas respectivas áreas do conhecimento, em setores profissionais fundamentais para o desenvolvimento. E o mais dramático é que o Brasil investe em educação o equivalente aos países mais desenvolvidos.

A grande vítima dessa realidade é a própria população. Há anos a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vem realizando exames para os bacharéis saídos das Faculdades de Direito. A cada ano aumenta o número de reprovados para obtenção da carteira de advogado: 8 de cada 10 não alcançam o nível de conhecimento jurídico para se filiar ao órgão. É um número espantoso que atinge as centenas de milhares de saídos dos cursos de Direito, ao longo das últimas décadas.

MÉDICOS MEDÍOCRES – Agora, o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) diz que 56% dos médicos formados nas 46 escolas de medicina em atividade no Estado entram no mercado de trabalho sem conhecimentos básicos: 80% não sabem interpretar uma radiografia e 70% não conseguiram diagnosticar um paciente com crise hipertensiva, doença que atinge o quase cotidiano de 25% da população brasileira.

O Conselho Médico de SP, ao divulgar os resultados dos exames realizados em 2016, constatou que dos 2.766 inscritos, somente 43,6% atingiram a pontuação que os habilita para o pleno exercício profissional.

O médico Bráulio Luna Filho, diretor do Cremesp e coordenador dos exames, que vem realizando desde 2005, constatou:

-“Com exceção do exame de 2015, nos últimos dez anos o índice de reprovação ficou acima de 50%. É preciso que as escolas médicas promovam melhorias nos métodos de ensino e imprimam mais rigor em seus sistemas de avaliação”.

E ELES VÃO CLINICAR… – Infelizmente, as provas e o caótico resultado não impedem os futuros médicos do exercício profissional. Somente para o programa de residência médica, instituições como a USP, Unicamp, Unifesp e Santa Casa desde 2015 passaram a exigir aprovação nos exames do Cremesp, para ingresso.

A “Folha de S.Paulo” publicou em 9 de fevereiro deste ano assustadora matéria da competente jornalista Claudia Collucci, mostrando as áreas problemáticas: “As médias mais baixas foram em saúde pública/epidemiologia (49,1%); pediatria (53,3%); e obstetrícia (54,7%);- 71% dos recém-formados não acertaram diagnóstico e tratamento para hipoglicemia de recém-nascido, problema comum nos bebês”.

– “As escolas médicas privadas continuam com pior desempenho em relação às públicas (33,7% contra 62,2%) de aprovação, Em ambas houve aumento de reprovação em relação a 2015. Entre as públicas de 26% para 38%. Entre os cursos privados, de 59% para 66%.”

Sendo a saúde a suprema lei, como dizia o saudoso médico Dalton Paranaguá, ex-prefeito de Londrina, o resultado oficializado pelo Cremesp no Estado mais desenvolvido do País é devastador. Se na paulicéia onde, indiscutivelmente, o padrão da medicina hospitalar está anos à frente da totalidade dos Estados brasileiros, imaginem o que pode estar ocorrendo em outras unidades federativas.

A saúde está doente e não é só nas filas dos hospitais.

O bom e os maus ladrões na Lava Jato

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Charge do Tacho, reproduzida do Jornal NH

Sebastião Nery

Do alto do púlpito da Igreja da Misericórdia, em Lisboa, em 1655, desafiando a Inquisição, o Padre Antonio Vieira, o mais valente dos pregadores, desafiou o poderoso Império Português e seus maus ladrões:

– “Navegava Alexandre Magno em sua poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício. Porém, ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim:

– Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muitos faz os Alexandres. Se o rei da Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que fazem o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome”.

“- Ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno. Os que não só vão, mas levam, de quem eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que outro homem viu, que uma grande tropa de varas e ministros da justiça levava a enforcar uns ladrões e começou a bradar: – Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. Ditosa Grécia que tinha tal pregador! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um Cônsul ou ditador, por ter roubado uma província? E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?”

CASTELO DE AREIA – Quando, em 2011, o STJ (Superior Tribunal de Justiça), sob o pretexto de ilegalidade nas interceptações telefônicas, anulou a “Operação Castelo de Areia”, construiu um rastilho de pólvora que, três anos depois, explodiria: na Operação Lava Jato. Os brasileiros passariam a conhecer o maior escândalo de corrupção na vida política e econômica nacional, através da força-tarefa, do bravo juiz Sérgio Moro e do procurador Rodrigo Janot e seus infatigáveis companheiros.

Logo se articularam as aves de rapina e, na imprensa, no Congresso, nas OABs da vida, começaram a tentar fabricar leis para barrar a missão da Policia, da Procuradoria, da Justiça. É hora de a Nação repetir as jornadas de 2013 e voltar às ruas para salvar a Lava Jato. O povo sabe quem são seus inimigos. E como encurralá-los. Mais do que nunca, a sociedade brasileira deve multiplicar seu apoio à força-tarefa da Lava Jato.

VÊM AÍ AS CHICANAS – Os interesses poderosos contrariados, nessa fase crucial das decisões. estão escondidos, mas ainda não estão derrotados nem dormindo. Os missionários da corrupção sonham em paralisar com “chicanas” as conclusões da Lava Jato, especialmente os detentores dessa excrescência jurídica chamada “foro privilegiado” (detentores de mandatos), nos poderes Executivo e Legislativo.

Os envolvidos nos crimes de corrupção não podem alimentar o sonho da impunidade. Os brasileiros precisam acreditar que depois da Lava Jato, no Brasil, nada será como antes.

A Princesa Isabel precisa voltar

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A Princesa Isabel está fazendo muita falta a este país

Sebastião Nery

A Princesa Isabel era baixinha, feinha, mas de olhos azuis e nomes lindos : – “Isabel Cristina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga.” E no dia 13 de maio virou “A Redentora” porque assinou a Lei 3353, a Lei Áurea, da Emancipação dos Escravos”. Assim, o Brasil tornou-se o ultimo pais do continente americano a abolir a escravidão. Era um avanço mas um brutal equivoco. Os negros ganharam a rua, mas mas não ganharam a liberdade. O mestre Florestan Fernandes, em seu livro clássico “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, denunciou:

– “A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. (…) Essas facetas da situação (…) imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.

NOVA ESCRAVIDÃO – Um século e pouco depois, o Brasil ameaça repetir a tragédia do fim da escravidão sem os negros realmente livres. Querem fazer uma Lei de Aposentadoria sem garantia de dinheiro para pagar a aposentadoria. A primeira legislação sobre a Previdência fixou o teto das aposentadorias em vinte salários mínimos, depois baixaram para dez salários mínimos e hoje encontra-se no patamar de seis salários mínimos. Nesse passo dentro de poucos anos o teto limite das aposentadorias será o salário mínimo.

REFORMA INVIÁVEL – Técnicos que estudaram a proposta de reforma da previdência enviada pelo governo entendem que a mesma é inviável pelos próprios argumentos que estão em sua exposição de motivos.

1 – Dentro de alguns anos, haverá um número grande de idosos recebendo aposentadorias sendo necessário que se prolongue o prazo limite para a concessão de novas aposentadorias, afim de se manterem no mercado de trabalho pessoas suficientes para custear as aposentadorias já concedidas.

2 – Ocorre que o envelhecimento da população, e o aumento de sua expectativa de vida são acontecimentos inevitáveis, o que levará ao prolongamento excessivo da concessão das aposentadorias, chegando ao ponto de torná-la inviável ou inalcançável pelo trabalhador.

3 – Assim, é necessário que se busquem fontes alternativas de custeio da previdência. A mais indicada é: a contribuição sobre a movimentação financeira dos bancos e todo o sistema financeiro.

4 – Hoje, 1% desta contribuição representaria cerca de 170 bilhões de reais para os cofres da Previdência Social.

5- Esta é a única solução que não sacrifica os trabalhadores e o povo de um modo geral, e resolve o problema da Previdência Social, porque ela cresce em progressão geométrica, não havendo necessidade de se aumentar idade ou prazo para concessão das aposentadorias.

SEM CHAMAR ISABEL – Não seria preciso chamar novamente a Princesa Isabel. Basta fazer um levantamento anual sobre os balanços dos bancos nos últimos anos. Trazem invariavelmente lucros mínimos de mais de 20%. Alguns chegam a 30%, mesmo quando a economia está abaixo de zero.

E Lula nem queria criar o PT…

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Lula dizia que não era preciso criar um partido

Sebastião Nery

O PT não nasceu em São Bernardo. São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Estava lá. Em 1978, Walmor de Luca, combatente líder estudantil de esquerda, deputado federal catarinense de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um Seminário Trabalhista nacional com os grupos políticos que se organizavam contra a ditadura lutando pela anistia e por eleições diretas.

Lá estavam destacadas lideranças sindicais da oposição, como Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, Olívio Dutra, bancário do Rio Grande do Sul, Jacó Bittar, petroleiro de Paulínia, em São Paulo, e outros dirigentes sindicais do Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: – o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos?

ERA CONTRA – Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Durante dois dias discutimos muito. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas do Rio: o trabalhista carioca José Gomes Talarico; a advogada e professora do Rio Rosa Cardoso; o gaúcho João Vicente Goulart, filho de João Goulart; eu, outros. Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido, liderado por Brizola, que havia saído do Uruguai, passado pelos Estados Unidos e estava em Portugal, voltando.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados, que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? Necessitavam de cobertura política.

Fazia frio em Criciúma. Ainda bem que a organização do Seminário foi previdente e distribuiu pequenos copinhos com magnífica grapa gaúcha.

MUDANDO DE IDÉIA – No último dia, no jantar, vi Lula já quase mudando de posição. De Criciúma ele foi para Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará, discutir suas posições. Em Salvador o saudoso petroleiro baiano Mário Lima, amigo dele, principal líder trabalhista baiano, que tinha voltado do exílio em Fernando de Noronha e sido eleito presidente do Sindicato dos Petroleiros, discordou da criação de um novo partido, entrando para o MDB.

A ligação dos dois era tão próxima que Lula e Marisa em 1974, quando se casaram, a convite de Mario foram passar a lua de mel em Salvador, no bucólico Grande Hotel de Itaparica. Não houve conta a pagar. O diretor do hotel, advogado Virgilio Mota Leal, querido amigo de Mario e meu, não deixou.

Em 1980 afinal nasceu o PT que, antes dos tantos pecados, em determinados instantes prestou grandes serviços às lutas sociais e à democracia no país.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembranças dos 100 anos de Jânio

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Dona Eloá, Jânio Quadros e a filha única Tutu

Sebastião Nery

Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão e eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na Rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado.

Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio Quadros. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos, Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Aparecido pediu um vinho branco. Jânio escandia as sílabas:

“Zé, o Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Vinho branco é uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Se vinho branco fosse vinho, a missa seria com vinho branco. Já viram missa com vinho branco? Os grandes porres da Bíblia, de Noé, de Davi, foram todos com vinho tinto, sim. Quando Jesus transformou água em vinho nas Bodas de Caná o vinho saiu tinto. E era tinto o vinho da Ultima Ceia”.

Fomos para o almoço. A mesa, farta e colorida. Já estávamos no cafezinho, antes do conhaque e do charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio encrespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelos cabelos e geme fundo:

“Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!” – as lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta: “Muriçoca! Muriçoca morreu!”

JÂNIO E A CACHORRA – Perplexos, levantamo-nos todos. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente. Dona Eloá tenta levantá-lo: “Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram”.

“Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth m`a deu. Quando me cassaram, quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, Eloá, até tu. Só a Muriçoca me acompanhou na solidão e na dor”.

Dona Eloá olhou para nós, desolada: “Não diga isso, Jânio. Sabe que não é verdade. Aqui estão os amigos”.

“Amigos, Eloá, amigos. Mas a Muriçoca era um pedaço de mim”.

Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados. Revirava os olhos e arquejava. E nos braços, o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin, Muriçoca:

“Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas, no vértice do jardim. Ficará eterna na saudade, sob uma lápide de bronze”.

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Catalunha. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

“Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até o último dia”.

Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía.

HOMENAGEM – Voltei lá outros dias. No vértice do jardim, uma lápide de bronze cobria o tumulo de Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou Muriçoca.

Na semana passada, Jânio fez 100 anos com uma justa homenagem que no Bandeirantes lhe prestou o governador Alckmin e um belo e comovido discurso do neto Jânio Quadros Neto.

Um homem do congresso, um político de verdade

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Vieira de Melo deixou um exemplo a ser seguido

Sebastião Nery

Afonso Arinos, que passou a vida entre a Câmara e o Senado, disse que ele foi “o maior parlamentar brasileiro desde 1930”. Nestes tempos de Congresso apequenado, o pais devia ter celebrado com mais calor o centenário de Tarsílo Vieira de Melo. Foi um homem do Legislativo por um quarto de século. Em 1945, com 32 anos, já se elegia para a Assembleia Constituinte. Em 1947, secretário de Educação e Saúde dos governos Otavio Mangabeira e Regis Pacheco. Eleito Juscelino presidente, foi líder da Maioria na Câmara, comandando as batalhas para livrá-lo das tentativas de golpes da UDN.

Homem de esquerda no PSD, era o secretário-geral da LEN (Liga de Emancipação Nacional). Em 1964, o golpe militar o encontrou no comando da oposição, aliado a JK, Jango e Lacerda na Frente Ampla pela volta da democracia. Dissolvidos os partidos, ajuda a fundar o MDB com Ulysses Guimarães e assume a liderança na Câmara.

Na véspera de morrer suspeitamente atropelado, lamentava:

– Não sei bem o que está acontecendo com o Brasil. Mas é cada dia menor o número dos que se dispõem a defender a liberdade e a democracia. Veja a História do Brasil. Em todas as épocas, quaisquer que fossem as circunstâncias, havia sempre um grupo de homes mais velhos, mais experimentados, jogando lideranças e às vezes a própria liberdade exatamente para defender a liberdade.

E passou a me citar nomes, de José Bonifácio a Joaquim Nabuco, de Ruy Barbosa a João Mangabeira:

– Hoje, parece que os mais velhos estão se aposentando cedo demais da liberdade, da democracia, da luta política. A UDN enrolou o lenço branco e escondeu lá no fundo do bolso. Por isso fico feliz, toda manhã, quando leio o Hélio Fernandes, o Castelo Branco, você, outros, brigando a briga diária de defender a liberdade e a democracia no Brasil. Você me conhece e sabe que não tenho mais ambições políticas, a chamada vida pública me deu o que eu podia querer de experiência e qualquer alimento para a vaidade. Um mandato de deputado, agora, para mim, pode ser até um estorvo para minha vida pessoal. Mesmo assim, vou para a Bahia buscar de novo o mandato. Não quero continuar voltando para casa, todo dia, com a sensação de que também eu me aposentei da fé na democracia.

PROFISSIONAL DA DEMOCRACIA – Vieira de Melo foi isso. Um profissional da democracia. Os homens de sua geração, os jornalistas mais antigos podem dar depoimento ainda melhor. De 1945, quando a Bahia o mandou para a Câmara Federal, até 1967, quando perdeu as eleições para o Senado pelo MDB por alguns mil votos, Vieira foi sempre um plantonista da democracia.

Quando lhe levaram provas de que ele havia ganho as eleições de 67 e tinha sido fraudado pelo mapismo eleitoral, negou-se a denunciar:

– Uma denúncia desse tipo pode acabar ajudando aqueles que querem liquidar de uma vez com o voto popular. Não a farei. Não a farei também porque o Aloísio de Carvalho é um democrata e não tem nada com isso.

Dias depois, foi misteriosamente atropelado em Copacabana, na porta de sua casa. Foi um tipo de homem que está acabando no Congresso. Mas existiu.

O urubu da Bolívia e os abutres da economia

Resultado de imagem para acidente da lamiaSebastião Nery

O inesquecível senador Vitorino Freire, do Maranhão, foi à Bolívia chefiando a delegação do Senado que discutiria os Acordos de Roboré (petróleo). Ia ficar oito dias. Dois dias depois, voltou. Perguntaram:

– Senador, já terminamos as negociações?

– Não. Mas vou lá ficar num lugar que tem 4.800 metros de altura e onde urubu tem dispneia?

Os desastres são desígnios do infinito. É preciso recebê-los, aceitá-los e absorve-los. Mas o que aconteceu com a apilantrada empresa boliviana “Lamia” e seu fajuto táxi-aéreo, assassinando 71 brasileiros de Chapecó por estar voando sem combustível, é um crime que precisa ser apurado e denunciado. Hoje já se sabe que o avião voou avisado de que o combustível era insuficiente. Mesmo assim, apenas para faturar mais, o criminoso piloto preferiu arriscar sua vida e a de todos. Era um urubu.

A GRAVE CRISE – Outros urubus. Sem rumo e sem credibilidade, o descontrole das contas públicas foi a estratégia dos governos Lula e Dilma. Ao abandonar o tripé de câmbio flutuante, superávit primário e meta de inflação, jogou a economia numa crise que levará anos para ser superada.

Três anos de recessão econômica foram o resultado da aventura populista, com o PIB encolhendo 9%, a renda per capita reduzida em mais de 10% e a taxa de desemprego atingindo 12 milhões de trabalhadores. As tarifas de energia elétrica e os combustíveis foram congelados, os Estados e municípios liberados de cumprimento das metas fiscais e bancos federais forçados a se responsabilizarem por despesas do orçamento.

As contas públicas passaram a ser maquiadas através da “Contabilidade Criativa”. Avançaram na administração da taxa de câmbio, sob o pretexto de dar garantia às exportações, pondo a economia de cabeça para baixo.

E mais: implantaram a chamada “Nova Matriz Econômica”, fazendo do ultrapassado nacional-desenvolvimentismo o carro chefe. E escolheram, algumas empresas que seriam as campeãs nacionais do desenvolvimento, financiadas pelo BNDES. Subsídios foram concedidos a esses grupos e em outros casos a renúncia fiscal, pela isenção de tributos, gerando a conhecida “Bolsa Empresário”. Um deles foi Eike Batista que tinha o X, como padrão de um tempo de desenvolvimento.

INDULGÊNCIA DIVINA – O orçamento teve a sua autonomia financeira e administrativa atropelada pela gastança sem limites. Acreditavam que tinham indulgência divina para gastar o que não tinham. O governo gastava 45% do PIB, inclusive com os juros da dívida pública e arrecadava 36%, que é o montante da carga tributária, levando a dívida pública a disparar em ritmo de crescimento assustador. A recessão econômica em que estamos mergulhados tem nessa sequência de desajustes irresponsáveis e privilégios a sua fonte geradora.

A ilha de fantasia em que o pais se viu mergulhado na última década, ignorando o Brasil real, produziu a maior recessão econômica da vida republicana. O momento exige que o País da mentira populista se reencontre com o da verdade. Viveremos instantes dramáticos para recolocá-lo na reconstrução que o Brasil real exige.

O Imperador de Cuba

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Em 1958, Fidel Castro ainda na Sierra Maestra

Sebastião Nery

Em 1952 Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. O saudoso David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde queria ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista de Rio Preto, autor do segundo projeto de reforma agrária apresentado no Congresso (o primeiro foi o do baiano Nestor Duarte).

Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá, acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando os ideais do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar, montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castilo Armas, derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México.

Em 1958, apareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes, esbugalhados, implantou a reforma agrária em Cuba, baseada no projeto do deputado Coutinho, paulista de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara. Ia encontrar-se com Fidel Castro em Sierra Maestra.

MOSCOU – A primeira vez que vi Fidel foi em Moscou, em junho de 1957. Há 59 anos.  Ele ainda lutava em Sierra Maestra. A União Soviética recebia milhares de jovens do mundo inteiro no “Festival Mundial da Juventude”. No desfile de abertura, magnífico e emocionante, um mundo de bandeiras de todos os países e povos, com imensas flâmulas suspensas nos muros do Kremlin saudando a Paz – “Mir e Drusba” – (Paz e Amor) –  na enfeitada e iluminada Praça Vermelha, diante do Kremlin e do tumulo de Lênin. Deu bem para ver que os russos já andavam rusgando com os chineses, que passaram silenciosos e pouco aplaudidos. Já os cubanos, uma pequena delegação, foram recebidos delirantemente como heróis.

Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e seus companheiros já lutavam nas montanhas da Sierra Maestra, apesar de os russos ainda não acreditarem na possibilidade de vitoria deles, diante do exercito de Batista e tão perto dos Estados Unidos. Como o desfile era por ordem alfabética, o “B” de Brasil vinha logo à frente do “C” de Cuba e nós ali deslumbrados marchando ao lado dos heróis de nosso tempo.

Acabado o desfile, os cubanos desapareceram. Voltaram para a montanha. Mas deu bem para ver o olhar poderoso e desafiador do jovem Imperador de Cuba, que já sabia que dois anos depois ia vencer.

Do festival os brasileiros ganharam na beleza. Abriu a delegação brasileira e carregou a nossa bandeira a bela mineira Marta Azevedo, eleita a mais bonita do festival e capa da revista final.

FIDEL NO BRASIL- Vitorioso em Cuba, em 1959 Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha lhe ofereceu um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro-ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos em Cuba.

– Pois posso assegurar ao senhor que só fuzilei os ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Adhemar de Barros.

LOTT E CUBA – A vitoria de Fidel, Guevara e seus companheiros continuava empolgando a juventude latino-americana, inclusive a brasileira. A primeira pergunta para o Marechal Lott, numa entrevista coletiva na ABI, em 1960, no lançamento de sua candidatura à presidência da Republica, foi um desastre:

– General, o que o senhor acha de Fidel Castro?

– Venceu prometendo uma democracia e está governando com uma ditadura. Disse que era democrata e agora está se aliando à União Soviética que é uma ditadura.

A juventude aplaudia o Imperador de Havana, que está sendo enterrado como os imperadores: numa semana inteira. O século 20 acabou.

As duas Máfias agem igual, na Itália e no Brasil

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Charge do Simanca, reprodução da Charge Online

Sebastião Nery

Ninguém me contou. Eu vi. Durante dois anos, em 1990 e 1991, como Adido Cultural, acompanhei dia a dia, em Roma e na Sicilia, a guerra da Máfia contra a Justiça italiana que comandou a Operação “Mani Puliti” (Mãos Limpas”). A poderosa e assassina Máfia, com séculos de organização e crimes, totalmente entranhada na sociedade italiana, a começar por setores da Igreja Católica e dos partidos políticos  – a DCI (Democracia Cristã) e os Partidos Socialista e Comunista – caiu em cima dos valentes procuradores e juízes imaginando intimidá-los e calá-los.

Começaram matando o juiz Giovanni Falcone e ameaçando o procurador Antonio di Pietro. Não adiantou. Houve mais de 6 mil presos, centenas de condenados, uma dezena da suicídios. Os porta-vozes da Máfia alegavam que a Operação não fez tudo, pois Berlusconi, saído da Máfia, assumiu o governo. Mas perdeu e a Itália nunca mais foi a mesma.

“PRISÃO” DE MORO – Sábado, aqui no Brasil, vimos um espetáculo da nossa Máfia . Em manchete da pagina A14, a “Folha de S. Paulo” denunciou: “Defesa de Lula quer que Moro (o juiz Sergio Moro, da Operação Lava-Jato) seja preso por abuso de autoridade – Para advogados, juiz federal extrapolou ao determinar a condução coercitiva de Lula”.

A tática da Máfia italiana era sempre a mesma: os criminosos ameaçando prender quem os denunciava. O Brasil, depois de dois anos da Operação-Lava-Jato, já distingue de sobra quem são os bandidos e os que os combatem, os bravos procuradores do honrado juiz Sergio Moro.

A esse grupo de incansáveis servidores do Judiciário o pais deve um aplauso permanente, vigilante. É um escárnio ver Lula, contumaz enganador publico da nossa Máfia, dizer que vai processar o juiz Sergio Moro.

ESPÍRITO SUICIDA – O economista Helio Duque, três vezes deputado do PMDB do Paraná, plantonista da Pátria, está indignado. O espírito suicida de Jim Jones paira sobre o Congresso Nacional. Ele foi o criador, nos EUA, de uma seita, em 1974, dizendo-se perseguido pelo FBI. Obteve do governo da Guiana grande área de terra. Na região amazônica fundou a comunidade Jonestown. Em 1978, muitos dos seus seguidores queriam abandonar a região. Reuniu os fiéis em demoníaca confraternização, servindo um ponche de frutas misturado com veneno. No suicídio coletivo 918 pessoas morreram e o pregador fanático deu um tiro na cabeça.

Ao admitirem anistia ampla para o caixa 2, setores do Congresso seguem Jim Jones. Querem incluir no pacote anticorrupção, em tramitação na Câmara, emenda que anistiaria o caixa 2 antes da nova lei.

NA CALADA DA NOITE – A primeira tentativa foi em setembro. Na calada da noite, apareceu proposta de autor desconhecido pugnando pela anistia da corrupção. A denúncia do deputado Miro Teixeira impediu. Agora, os defensores da impunidade unificam governistas e oposicionistas para anistiar os caixas 2 e 3.

As doações ilícitas não podem merecer o indulto. Defendem a criminalização para o futuro isentando o passado, alegando que estão fortalecendo a democracia. A urgência de se aprovar uma nova legislação tem endereço certo: futuras delações atingiriam centenas de investidos de mandatos.

Imaginam seus autores que a sociedade não se mobilizará ante a imoralidade? A ministra Cármen Lúcia, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) considera que caixa 2 é crime. Está no artigo 350 do Código Eleitoral, com pena de prisão de 5 anos, como delito de falsidade ideológica. Já a Lei 8.137/1990 diz que é crime contra a ordem tributária. .

TEM CAIXA 3 – Definindo: caixa 2 é crime.Querer misturar caixa 1 com caixa 2 é ato indecoroso. Uma decorre de doações legais para campanhas declaradas à Justiça Eleitoral, não sendo ilegal. A segunda é decorrência de transações corruptas envolvendo governos, partidos, grandes corporações.

E o caixa 3 é ainda pior, mais imoral. É a corrupção continuada para financiamento de esquemas paralelos de poder. A Petrobrás foi vítima do caixa 3, envolvendo servidores e empresários, agora apontados como réus, muitos com prisão e anos de reclusão, com devolução de valores gerados na corrupção. A “propina”, o “pixuleco” é a essência do caixa 3.
                                                  (artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

Um país devastado, com a administração pública no caos

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Sebastião Nery

Em 1953, Getúlio Vargas era presidente da República. Jânio Quadros, prefeito de São Paulo; Carvalho Pinto, secretário da Fazenda de São Paulo; Coriolano Góes, diretor geral da Cexim (Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil). Uma tarde, aparecem no gabinete do diretor da Cexim, no Rio, Jânio Quadros e Carvalho Pinto. Precisavam de uma audiência urgente para uma licença especial do governo federal para importar da Alemanha peças para os ônibus da CMTC, a empresa municipal de ônibus. O chefe de gabinete, Virgilio de Góes, filho do diretor, lhes diz que o pai não costumava receber ninguém à tarde, mas que, evidentemente, tratando-se do prefeito de São Paulo, a exceção era normal.

Jânio entrou no gabinete, ficou duas horas, saiu sorrindo, chamou Virgílio, pegou-lhe as duas mãos, encostou-as ao peito, entortou os olhos, revirou os ombros, dobrou as canelas e lhe disse pateticamente:

– “Meu jovem, devo-lhe a salvação da CMTC”.

– “Nada disso, prefeito. É apenas dever do governo federal ajudar a Prefeitura de São Paulo”.

– “Quero que me diga, qualquer dia em que precisar de alguma coisa, o que deseja, fa-lo-ei imediatamente”.

– “Muito obrigado”.

Janio foi saindo, voltou-se sobre os calcanhares retorcidos: – “Aliás, nem precisa telefonar. Pense, apenas pense, que eu atenderei”. E sumiu.

PEDINDO SOCORRO – Hoje já não se fazem Jânios como antigamente. Prefeitos e governadores estão em tais dificuldades que vivem de pires na mão pedindo socorro ao governo federal, que, também no sufoco, não pode atender.

Administrar a folha de pagamento dos Estados vem sendo a prioridade dos atuais governadores. A crise estrutural nas finanças públicas estaduais tornou-se um drama nacional. O desequilíbrio fiscal, que atingiu níveis recordes na estrutura do governo federal, estende-se praticamente a todas as unidades federativas. O ciclo de endividamento atingiu o máximo, agravado pelo populismo do mundo político. Os programas fantasias das administrações estaduais não resistem mais à realidade.

Acrescente-se o indiscutível despreparo público de vários governadores. Boa parte está mais preocupada com o seu destino e não com a população que representam. Em vez de sanearem as contas públicas, enfrentando os desafios fundamentais para o futuro, preferem o caminho fácil da propaganda mistificadora. O Estado do Rio é um exemplo de deterioração das finanças públicas.

PAGAMENTOS OBRIGATÓRIOS – E o mais grave, embora não o único: o pagamento de salários e aposentadorias vem sendo um drama. A origem está na correção das remunerações maiores do que a capacidade de arrecadação estadual, agravada com o endividamento dos Estados, tendo o Tesouro Nacional como avalista de financiamentos, em desacordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Governos populistas e submetidos às corporações (a exemplo do que ocorria no governo federal) adotaram a irresponsável contabilidade criativa. Agora estão colhendo o fruto.

O governador Rodrigo Rollemberg, de Brasília, constatou que 77% do orçamento são gastos com pessoal e inativos. Eleito pelo PSB, o partido dos socialistas, em uma coligação de esquerda, ele diz que é fundamental uma nova esquerda enfrentar o corporativismo dos sindicatos de uma velha esquerda. Ao assumir o governo, reduziu de 38 para 19 o número de secretarias e cortou 5 mil cargos de livre provimento.

-“O corporativismo está contribuindo para amplificar e aprofundar as desigualdades sociais. Quando o Estado perde a capacidade de fazer investimentos nas áreas de infraestrutura, porque os recursos estão sendo drenados para o pagamento de salários, estamos aprofundando um cenário de desigualdade social”.

DÉFICIT CRESCENTE – Hoje o déficit dos regimes próprios estaduais está por volta de R$ 64 bilhões, podendo em 2020 atingir os R$ 101 bilhões. Nos Estados existem 1.440 milhão de servidores aposentados e mais 490 mil pensionistas. Já os servidores ativos são 2,6 milhões, equivalendo a diferença dos ativos e inativos a uma proporção insustentável.

Em 1960, Kennedy também ia perder para Nixon…

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Vitória de Kennedy  também foi surpresa

Sebastião Nery

Naquele outubro de 1960, terminado o longo e monumental Congresso Internacional de Municípios em San Diego, na Califórnia, que durara duas semanas, um grupo de jornalistas baianos alugou um carro e saímos até São Francisco. Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista como eu, que me convidou para hospede de sua cidade por uma semana e conhecer além do que mostrava o cinema de Hollywood.

Embora só eu fosse ter a mordomia da hospedagem em Los Angeles, os outros toparam a viagem toda. E convidei minha bela amiga Mara, jornalista da Guatemala, já mais do que amiga, cara, cabelos e grandes olhos aveludados de índia, parecendo um desenho de Paul Gauguin. Ela ia voltar exatamente para lá, onde morava e estava instalada a representação do seu jornal e revista da Guatemala.

O Impala rabo de peixe, capota conversível, dava perfeito para cinco.

RUMO AO DOWNTOWN – Pedimos algumas informações no primeiro posto policial, aprendi que o macete era seguir sempre o “Downtown”. E lá fomos nós atrás do “Downtown”. Uma ponte, duas pontes, milhares de pontes, um viaduto, dois viadutos, milhares de viadutos, vários trevos e perdemos nosso “Downtown”. Tocamos em frente. Não sabíamos para onde íamos, mas íamos.

De repente escrito numa placa: Hollywood. Mais à frente, outra placa: Beverly Hills. Viramos numa curva e apareceu uma casa com uma placa:

– “Nesta casa viveu Carmen Miranda”, etc.

Morrera cinco anos antes, em 1955. Paramos. Exploramos Hollywood toda. À noite, o “Down-town” nos levou ao centro.

COMÍCIO DE KENNEDY – Acordamos evidentemente cansados. Meu anfitrião estava eufórico:

– “Vocês brasileiros têm mesmo estrela. Hoje à tarde vão ser recebidos pelo futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Daqui a pouco estarei aí para pegá-los para o almoço e depois levá-los ao grande comício”.

Kennedy abria sua campanha na Califórnia. Quando chegamos ao hotel onde seria o comício, pequena multidão já enchia as ruas próximas. Na frente do hotel, um palanque e, tocando guitarra e pulando montado em um microfone de pé um rapaz claro, muito branco, pálido, cabelos bem pretos até a testa, arrebatava os ouvintes com seu rock alucinado: era Elvis Presley.

No fim da tarde, bem jovem, alto, elegante, de gravata, uma flor no bolso do paletó, Kennedy subiu correndo a escada que dava para o palco levantado em frente ao hotel e fez seu primeiro discurso. Depois, um segundo lá dentro, no grande salão, todo enfeitado de bandeiras e balões;

POUCAS PALAVRAS – Só quase madrugada o presidente do Conselho de Los Angeles nos apresentou ao candidato para um cumprimento e nada além de umas poucas palavras. A fila era enorme. Mas deu para ver e sentir bem, nos dois discursos e naqueles dez minutos do encontro, que havia “uma força estranha no ar”.

Uma semana toda em Los Angeles, conversando com jornalistas e políticos, a maioria suspeita porque do Partido Democrata, deu para sair de lá convencido de que havia alguma coisa errada na imprensa americana e também na brasileira, que já davam Nixon, vice de Eisenhower, como eleito. A Mara trabalhava lá há muito tempo e tinha um grande circulo de amigos jornalistas, principalmente europeus, latino-americanos e da América Central, cujos jornais e revistas sediavam em Los Angeles seus correspondentes. Conversei com eles. E em São Francisco fomos ainda a mais dois comícios de Kennedy. A mesma comunicação, o sorriso aberto, as frases curtas e fortes e a promessa de que era preciso mudar. E a imprensa insistindo em Nixon.

Apertado, menos de 1%, 130 mil votos, mas Kennedy ganhou. Anos depois, o saudoso Samuel Wainer me disse:

-“Você escreveu aquilo como em um cassino de Las Vegas. Arriscou e acertou. O José Guilherme (Mendes, mineiro correspondente da “Última Hora” nos Estados Unidos), me disse que você ficou envolvido pelo rock de Elvis Presley”.

Mas quem ganhou foi Kennedy.

Hoje, meio século depois, a Hillary é uma hilária e o Trump uma trampa.

Palocci, Bernardo e o ajuste que a oposição quer destruir

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Em 2005, Dilma derrubou o ajuste e implantou a gastança

Sebastião Nery

Esta é quase uma historia de horror. Em 2005, no primeiro governo de Lula, os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo, dois poderosos ministros do governo, prepararam um PAF (Plano de Ajuste Fiscal), um projeto de ajuste fiscal realista, fixando o limite de gastos públicos por dez anos, impedindo seu crescimento acima do PIB (Produto Interno Bruto). Quando o PAF chegou à Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff liquidou o projeto, fundamental para o equilíbrio das finanças públicas, com uma frase de quatro palavras: – “É um ajuste rudimentar”. Era um tiro de escopeta. Pareciam tempos de Hitler ou Stalin.

Os dois ministros, ao invés de enfrentarem o primarismo da Dilma e convencerem o presidente da República da importância de uma base orçamentária realista, aceitaram a qualificação de “rudimentares”.

DILMA E MANTEGA – Com o afastamento do ministro Palocci, assumiria a Fazenda Guido Mantega, o anti-Palocci, adepto da gastança, que permaneceria nos governos Lula e Dilma.

Eleita presidente em 2010, Dilma Rousseff implantaria a desastrada “Nova Matriz Econômica”, onde o BNDES foi vítima e por extensão toda a sociedade brasileira. Dilma adotaria verdadeiramente uma “política econômica rudimentar”. O País iria afundar em dívidas impagáveis, juros na estratosfera, queda de arrecadação, desemprego na escala de milhões, renda per capita encolhendo em 10%, dívida pública bruta acima de R$ 4,3 trilhões, levando os Estados federativos a situações pré-falimentares.

APARELHAMENTO – Tudo isso foi gerado pelo gasto público irresponsável e aparelhamento do Estado por corporações que usufruíram vantagens de todo tipo: algumas empresas ganharam o apelido de “campeãs nacionais do desenvolvimento”. Um dos exemplos, mas não único, foi o empresário Eike Batista e suas empresas simbolizadas no X de multiplicação, hoje todas elas em situação falimentar. As outras, a “Lava Jato” está revelando.

Se em 2005 o Ajuste Fiscal de Palocci e Paulo Bernardo tivesse sido aprovado, o Brasil não estaria mergulhado no cenário de horror e brutal recessão econômica. A PEC que limita os gastos públicos, agora aprovada na Câmara dos Deputados, poderia ter se transformado em realidade onze anos atrás. Seus fundamentos básicos já estavam presentes na proposta dos dois ministros do PT.

PRISÕES – Satanás não perde tempo. Desolados com seu partido e seu governo, Palocci e Bernardo enveredaram pelos becos do pecado, pelos caminhos do mal. A Lava Jato os pegou na esquina do dinheiro sujo. Palocci está na cadeia, Paulo Bernardo aguardando tornozeleira nas pernas. E Lula se escondendo da Policia quando pensa no juiz Sergio Moro.

O líder do PT na Câmara, o alegre baiano Afonso Florence, ignorando essa realidade, ainda afirma: – “A aprovação da PEC do teto dos gastos representará o desmonte de todas as políticas públicas do Brasil”.

É seguido pela amazônica senadora Vanessa Grazziotin, ao qualificar a PEC 241 de “PEC da maldade”: – “Quem vota a favor da PEC 241 vota contra o Brasil.”

Eles acreditam que o dinheiro público é infinito, desconhecendo que sem o ajuste o resultado será a explosão da inflação, da dívida pública, do desemprego, da falência de empresas e falta de recursos para os investimentos sociais.

APENAS O COMEÇO – O despenhadeiro em que jogaram o Brasil exigirá muito tempo para tirá-lo de lá. O ajuste das contas públicas é apenas o começo. As reformas na estrutura estatal, destacadamente na Previdência, na legislação trabalhista e na área tributária, são imprescindíveis.

Sem o enfrentamento dessas reformas, o desequilíbrio fiscal estrutural estará presente na economia brasileira. Exigirá coragem, determinação e consciência de saber estar construindo, para o futuro, o País que o seu povo merece e tem direito.

O voto secreto e o coronel Chico Heráclio

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Charge do Mário, reprodução da Tribuna de Minas

Sebastião Nery

Chico Heráclio, o mais famoso coronel do Nordeste, mandava e desmandava em Limoeiro, Pernambuco.Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria. Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito:

– Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa: – Em quem foi que votei?

– Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

GUETO – No mundo existem 236 países. Em 205 é adotado o voto facultativo como tradição democrática. Já o voto obrigatório fica em um “gueto” de 31 países, a maioria na América Latina, onde imperam as oligarquias, aliadas do atraso e da antimodernização. Entre as 15 maiores economias do mundo, só no Brasil o voto é obrigatório. A totalidade dos países desenvolvidos, ao adotar o voto facultativo, demonstra que esse devia ser o caminho da sociedade brasileira.

Pesquisa do DataFolha mostra que 64% dos brasileiros são contra o voto obrigatório. A Agência Senado consultou 2.542 brasileiros e encontrou 85% de apoio ao voto facultativo.

O voto é um direito da cidadania, não um dever, como exige a atrasada legislação eleitoral brasileira. O percentual recorde de abstenção, mais nulo mais branco, na última eleição municipal, deixou lição que precisa ser aprendida. O desprezo pelo voto obrigatório, de acordo com a Ecopolítica (do Tribunal Superior Eleitoral), foi de 43% em Belo Horizonte; 42% no Rio e 38% em São Paulo. O recado das três capitais estende-se por todo o País.

Em São Paulo, o prefeito João Dória foi brilhantemente eleito no primeiro turno, com o total de 3.085.167 votos. Já a abstenção, o voto nulo e os brancos foram superiores: 3.096.304 nulos. O total dos inválidos foi maior do que os válidos.

VOTO OBRIGATÓRIO – No Brasil o voto é exigência legal, punindo o eleitor ausente que deve justificar-se na Justiça Eleitoral, para não ter interditado os seus direitos políticos. A punição é severa, não podendo participar de concurso público, matricular-se em universidades federais, tirar carteira de identidade, passaporte ou obter empréstimos em bancos públicos. O voto obrigatório é uma clara tutela do cidadão, determinando arbitrariamente punição em um regime democrático. A obrigatoriedade de votar no Brasil é um exemplo de subdesenvolvimento político.

Os seus defensores estão enquistados nos três poderes republicanos. Os diferentes partidos em todos os padrões ideológicos, direita, esquerda, centro e adjacências, defendem a obrigatoriedade do voto. No Judiciário, amplos setores entendem que os brasileiros não estão preparados para o voto facultativo. No Executivo não é diferente. Já no mundo desenvolvido, onde as populações têm mais elevados índices de integração humana e democrática, prevalece o voto facultativo.

ALVARO DIAS – Antenado com o desejo dos brasileiros, o senador Álvaro Dias (PV-PR) formulou Emenda Constitucional defendendo o fim do voto obrigatório, por ser incompatível com as liberdades individuais.

– “O voto obrigatório no Brasil estimula os altos índices de abstenção, votos nulos e brancos, bem como escolha de qualquer candidato só para cumprir obrigação jurídica de votar e escapar das sanções legais”.

No Supremo, o ministro Marco Aurélio, defensor do voto facultativo, entende que o voto obrigatório deva ser abolido. No Tribunal Superior Eleitoral, a sua grande maioria expressa essa tese anacrônica.

O voto facultativo é a expressão máxima de uma democracia real, o voto obrigatório uma clara anomalia democrática. A verdadeira reforma política deveria começar pela revogação da obrigatoriedade do voto. Ela é uma das causas da corrupção política.

Circulando com Ulysses em Roma

Resultado de imagem para ULYSSES GUIMARÃES EM ROMASebastião Nery

Em abril de 1991 tive uma grande alegria em Roma, onde era Adido Cultural. Fui ao aeroporto Fiumicino receber Ulysses e dona Mora. Ele chegava magoado com o PMDB que lhe havia tirado a presidência do partido. Durante duas semanas ciceroneei os dois, a irmã e uma amiga de dona Mora, dirigindo meu carro pelos monumentos, palácios, igrejas, ruínas, catacumbas e restaurantes romanos.

No bar do estrelado Hotel d’Inghilterra, onde a nobreza paulista costumava hospedar-se, na via Bocca di Leone, abaixo da Piazza di Spagna, enquanto esperava dona Mora e a irmã descerem do apartamento para jantarmos na primeira noite, o velho Ulysses só pensava no Brasil.

Queixava-se de não ter continuado na presidência do partido. Achava que o PMDB lhe devia isso, sobretudo depois da derrota eleitoral para a Presidência da Republica. (Collor ganhou). Mas em tantas conversas de horas seguidas, eles passeando e eu pajeando-os dirigindo meu carro com carinho e emoção pelos caminhos eternos de Roma, nem uma vez ele reclamou do comportamento do governador Orestes Quércia na eleição.

APOIO DE QUÉRCIA – Pelo contrário. Citou vários governadores do PMDB e sobretudo as bancadas no Senado e na Câmara, que não tinham acreditado na sua candidatura e por isso não se empenharam na campanha. Lamentava que nem seu dileto amigo Pedro Simon, governador do Rio Grande do Sul, tivesse se empolgado com sua campanha, tanto que foi a São Paulo convidar Quércia, em nome dos demais governadores, a ser o candidato:

– “Se o Simon chamou o Quércia é porque não acreditava”.

Também falou no erro da candidatura de Waldir Pires a vice:

– “Não sei por que o Waldir deixou o governo da Bahia para ser vice, se durante toda a campanha em nenhum instante acreditou nela”.

E contou a dramática reunião de Brasília, na véspera da convenção, na casa dele, em que quase todos os governadores do PMDB, mobilizados por Moreira Franco, governador do Rio, foram lá pedir-lhe que desistisse, porque não teria chances. Quem falou por todos foi Pedro Simon. Quando Ulysses perguntou quem seria o candidato no lugar dele, todos se calaram:

– “Ali tive a certeza de que o Calabrês (assim às vezes se referia a Quércia) não estava me traindo. Foi correto comigo, como outros não foram. Se tivesse aceito o insistente convite dos outros para ser o candidato bastava que o indicassem e eu teria retirado meu nome. Mas ninguém disse nada. A Mora ficou irritada, foi buscar um café e a conversa acabou ali”.

EXEMPLO DE GRATIDÃO – Em outro jantar, na hora do “poire”, Ulysses disse que depois soube o que Quércia respondeu a Pedro Simon e aos que foram a São Paulo convidá-lo para ser o candidato:

– “Enquanto doutor Ulysses for candidato, não aceito nem tratar do assunto. Ele é o nome natural do partido, por tudo que ele é, pelo que fez e porque o país o vê como símbolo do PMDB. Alem disso, preciso terminar meu governo, ainda faltam quase dois anos. Se um dia doutor Ulysses retirasse a candidatura, só então eu poderia conversar. Tenho gratidão e deveres com ele. Ainda muito jovem, quis ser candidato a deputado estadual, ele me apoiou. Fui prefeito de Campinas com apoio dele. Participou de minha campanha para senador. Jamais disputaria com ele”.

UMA CARTA DE ULYSSES – Quando voltou ao Brasil, Ulysses me mandou esta carta:

“Brasília, 17 de abril de 1991

Meu querido Sebastião Nery,

Você é demais. Suas palavras me convenceram. Seu artigo (sobre Ulysses e o Parlamentarismo) teve ampla e consagrada repercussão. Todo mundo me fala dele. Deus lhe pague!

Mora e suas amigas ficaram deslumbradas com seu talento, sua erudição, a fluência e competência com que nos instruiu sobre coisas inéditas da eterna Roma.

Eu sou sua velha e barulhenta “macaca de auditório”.

Se tiver coisas sobre o parlamentarismo, envie. O parlamentarismo republicano, com a eleição de Presidente, não o monárquico sem eleição.

Dê notícias e quando vier ao Brasil não se esqueça de aparecer ao fraterno amigo e convicto admirador,

Ulysses Guimarães”.

 Não era uma carta. Era uma condecoração.

O naufrágio do PT e a necessidade da reforma política

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Fotomontagem reproduzida do Arquivo Google

Sebastião Nery

A história da humanidade tem naufrágios que ultrapassaram os tempos, como o do cônsul Pompeu voltando da África para Roma. No Brasil a Bahia nasceu do naufrágio do valente aventureiro Caramuru. Perdemos o bispo Sardinha nas costas do nordeste. E na história universal o Titanic, o supernavio afundado. Nesta semana mais um naufrágio veio para carimbar a história da política brasileira. Depois de 30 anos de belas vitórias, muitas loucuras, falcatruas e numerosas prisões, o PT naufragou de norte a sul do país. Não sobrou nenhuma liderança.

Lula está lá em São Bernardo escondendo-se da Polícia Federal. Dilma não quer ficar em Porto Alegre, mas fora de lá não tem onde se esconder. José Dirceu, Palocci, Vaccari, não podem atender o telefone. Preso não atende telefone. Não sobrou ninguém. Nem o talentoso ex-ministro Tarso Genro, porque ninguém quer papo com ele.

Perder São Paulo já seria uma derrota dolorosa, mas compreensível. O que é inexplicável é o PT, depois de tantos mandatos, ser escorraçado da capital, sem conseguir sequer chegar a um segundo turno. Nem isso. Foi derrotado, humilhado e ofendido.

O RETRATO – Com exceção do distante, minúsculo e boliviano Acre, em todos os estados onde tentou disputar alguma coisa foi varrido pelos eleitores. Não se salvaram nem o Rio Grande do Sul onde já teve berço e cama. Nem o ABC paulista com seus numerosos sindicatos e alguns outrora poderosos diretórios políticos e sequer no Nordeste que já foi um dia proclamado como território sagrado do partido. De tanto esconder-se, dele os eleitores e as urnas se esconderam. Como a Itabira do poeta, o PT ficou reduzido a um retrato na parede. Mas como dói.

Algum tempo vai ser preciso, mas logo logo o país sentirá o alívio que foi o sumiço do PT. Chegará ao fim a ladainha escondida atrás de discursos demagógicos, explorando a ingenuidade popular. Nunca mais ninguém dirá que nunca antes na história deste país houve alguém como ele ou que é mais honesto do que Jesus Cristo.

NOVOS TEMPOS – Parece pressa, mas chegou a hora. O Congresso tem o dever de começar uma reforma política para ficar pronta antes de 2018. Houve avanços, mas ainda são poucos. Acabar com o financiamento empresarial das eleições foi um salto. Mas não basta. É preciso regulamentar o financiamento individual para que espertos não finjam estar dando dinheiro que é dele quando não é.

Muita coisa há para reformular. Por exemplo: por que não começar a discutir um sistema parlamentarista que seja integral ou ao menos um que seja misto? O país está maduro para esta reforma. Mais urgente ainda é acabar com o vergonhoso carnaval dos partidos. Cinquenta partidos (funcionando ou a funcionar) tornam a democracia um fantoche. Eles passam a ser fundados ou a existirem apenas em função da teta gorda do Fundo Partidário e dos negociáveis tempos de TV e de rádio.

Mais de 10 partidos já seriam um exagero, e 50? Tornam-se um sórdido balcão de negócios. É claro que essas coisas não se implantam do dia para a noite. Mas na hora em que algumas dezenas de parlamentares sérios, que existem no Congresso, se dispuserem a preparar um projeto de cláusula de barreira, como existe em todas as democracias, a pressão da opinião pública virá irresistível. É preciso querer e fazer.

O excelente deputado Miro Teixeira tem tempo, independência e autoridade para começar esta batalha.

A escravidão também jamais iria acabar. Mas um dia acabou.

Jango em Paris, quando ainda tinha esperança de viver

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Jango desobedecia aos médicos e continuava fumando

Sebastião Nery

Faz 40 anos, neste setembro da 2016. Em 1976, acabada a Constituinte portuguesa (quando escrevi “Portugal, Um Salto no Escuro”, para a Francisco Alves), com vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, iria começar a da Espanha. Viajei pela “IstoÉ” e “Correio Braziliense”. Antes dos comícios da Espanha, fui passar duas semanas em Paris e soube que o ex-presidente João Goulart estava na cidade, cuidando do sofrido e alquebrado coração. Estava hospedado no hotel Claridge (Champs Élysées, 74). Fui lá deixar-lhe um cartão com um abraço brasileiro. Saindo do hotel, encontrei o Carlos Castello Branco, do “Jornal do Brasil”, que fora conversar com ele. Estava preocupado:                                                              – O Jango não está bem, muito pálido e inconformado com o exílio.

Deixei um bilhete, com o telefone do hotel onde estava hospedado (o “Argentine”, ao lado do Arco do Triunfo). No dia seguinte, um recado do Presidente. Esperava-me para uma conversa. Conversamos horas. O Castelinho tinha razão. A ditadura militar estava assassinando Jango.

HITLER – Talvez eu tenha sido inábil ao lembrar-lhe a história rocambolesca do hotel dele. O “Claridge”, onde tantas vezes me hospedei quando era no máximo de 200 dólares a diária, faz parte da história cultural, política e militar de Paris. Nele viveram artistas, escritores e generais alemães. Colette, a dama das letras, morou lá, como o cantor Maurice Chevalier. Quando Hitler invadiu Paris em 1940, o marechal Von Rundstedt, com seu ajudante de ordem o coronel Paulus, ocupou a suíte central , a mais bonita.

Finda a guerra, o diretor M Machenaud, serviçal e puxa saco, foi preso e executado pelas tropas de De Gaulle. Em agosto de 45 os nazistas derrotados foram substituídos por gente melhor, como Marlene Dietrich e Jean Gabin, a divina Edith Piaf, o automobilista argentino Manoel Fangio, Evita e Juan Perón, Ella Fitzgerald, Scott Fitzgerald, o poeta Ezra Pound, o cantor Ray Charles, a atriz Jane Mansfield, o ator Curt Jurgens, o cineasta Luis Buñuel, de novo Perón em 73, já agora com sua Izabelita.E Pavarotti.   Jango espichava a dura perna direita, olhava os móveis e cortinas do bar, bebia mais um uísque, ficava calado e infinitamente triste. Ia morrer.

EXCELENTE BIOGRAFIA – Voltei ao Brasil lendo a excelente biografia de João Goulart, bem documentada e sobretudo verdadeira, do professor e historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPQ. Não era novidade para quem conhecia suas exemplares e convincentes pesquisas sobre o trabalhismo brasileiro: “O Imaginário Trabalhista – Getulismo, PTB e Cultura Política Popular”, “Prisioneiros do Mito – Cultura e Imaginário Político dos Comunistas no Brasil”, “O Populismo e sua Historia”.

Jango viajara para a Europa para fugir das ameaças que passara a sofrer na Argentina e tomar providências para encontrar uma residência em Paris, onde residiria até o retorno ao Brasil.

EXILIO – Em Paris, Jango encontrou-se com Abelardo Jurema e José Gomes Talarico, a quem pediu que procurasse Mário Soares para agradecer-lhe o convite para ir a Portugal. Não deveria aceitar, pelo constrangimento que causaria ao líder português, no início do mandato. Mas pedia que ele regularizasse a situação dos exilados brasileiros. Mário Soares manifestara preocupação com Brizola vivendo sob a ditadura uruguaia. E sugeriu que ele fosse para Portugal. Brizola foi.

O médico suíço concluiu que o coração de Jango era frágil como o de um homem de 80 anos, quando, na época, tinha 56. O médico francês disse que sem perder peso e parar de fumar a medicina nada poderia fazer:

-“Monsieur President, si on ne veut pas vivre, on ne vit pas.” (“Senhor Presidente, se não se quer viver, não se vive”)

Negava-se a parar de fumar. Escreveu para Cláudio Braga:

– “Estou concluindo exames com resultados bem razoáveis, especialmente considerando que não me sujeito a prescrições”.

Em dezembro de 76 Jango morria numa fazenda na Argentina. Por mais que fuçassem sua vida, os militares brasileiros e americanos nada encontraram para denunciá-lo. Seus ministros da Fazenda eram Moreira Sales e Santiago Dantas. Não eram o prisioneiro Mantega nem Palocci.

O velho e o rio

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O Velho Chico era defendido pelo velho Manoel Novaes

Sebastião Nery

Manoel Novaes fazia comício em Barra, à beira do São Francisco, nos estorricados sertões da Bahia. Um candidato a vereador fala ao povo, apinhado na praça da feira:

– Minha gente, quem deu a perfuratriz?

– Foi Novaes.

– O que é que a perfuratriz faz?

– Fura e tira água do rio.

– A vaca que dá leite a nossos filhos bebe o quê?

– Bebe água.

– Então quem dá leite a nossos filhos?

– É Novaes.

– Então Novaes é a vaca santa do rio e do sertão.

Durante mais de meio século, Manoel Cavalcanti de Novaes, alto, dois metros, voz de trovoada, cara grande e generosa de sertanejo, olhos fortes, ensolarados, foi isso: a vaca santa, sagrada, que dava água e leite, esperança e trabalho no infinito sertão do São Francisco.

O grande homem é aquele que se faz sinônimo de sua gente, de seu chão. Manoel Novaes foi uma vida a serviço de um rio muito longo e um sertão muito seco. Deixou o umbigo e o destino nas barrancas molhadas do São Francisco e no pó amarelo do sertão.

SÃO FRANCISCO – A tragédia que afogou o ator da TV Globo Domingos Montagner trouxe novamente o rio São Francisco para as manchetes nacionais. E com ela o rio sinônimo da Nação, centro, sul e norte, símbolo da unidade nacional.

Novaes foi uma vida a serviço de sua gente. Pernambucano, em maio de 1933 elege-se para a Assembleia Nacional Constituinte pelo Partido Social Democrata da Bahia. Reeleito em 1934, não parou mais. Foi um dos mais perenes parlamentares do mundo, com uma dúzia de mandatos consecutivos. Fora a interrupção da ditadura de Vargas, entre 1937 e 1945, com o Congresso fechado, Novaes passou a vida na Câmara.

Novamente constituinte em 1945, conseguiu aprovar 1% da receita tributária da União, durante 20 anos, para aplicação no Vale do São Francisco. Em 1946 já presidia, na Câmara, a Comissão Permanente de Transportes e a Comissão Especial da Bacia do São Francisco. Sempre reeleito, em 1950, 54, 58, 62, 66, 70, 74, 78, 82, participou da direção do “Centro de Estudos e Defesa do Petróleo”, que a partir de 1948 comandou a luta pelo monopólio estatal do petróleo. Até 1987, quando deixou o Congresso, sua luta, sua tarefa foi a defesa do Vale do São Francisco, para que um rio tão gordo não deixasse seco um sertão tão magro.

LAVA-JATO  – Houve um tempo, longo tempo, nas décadas de 50 e 60, em que Novaes não era apenas um mandato, era uma bancada. Decidia a eleição de muita gente, bancadas inteiras. Líder do PR (Partido Republicano), era o fiel de balança nas eleições para o Governo da Bahia.. Quando se aliava ao PSD-PTB, ganhavam juntos. Aliado à UDN-PTB, também ganhavam. Novaes era o “Barão do São Francisco”, o “líder do sertão e da caatinga.”

Aos 81 anos, fora do Congresso, onde viveu 47 anos, Novaes não se aposentou. Sentou-se à máquina e escreveu as “Memórias do São Francisco”, história da vida de um rio que também é história da vida de um homem. Um rio que, hoje, graças a ele e à competência do professor e cientista Eliseu Alves e sua equipe na Codevasf e na Embrapa, é símbolo e prova de que a irrigação é o caminho para salvar o sertão e o Nordeste. Foi um homem-exemplo de dedicação, desprendimento, generosidade e serviço público, com austeridade e honradez de monge.

DE MÃOS LÍMPIDAS – Esse homem que mobilizou, comandou, distribuiu, aplicou, durante 20 anos, uma das maiores verbas orçamentárias específicas do país e teve um peso político e eleitoral tantas vezes decisivo nos Governos da Bahia e do país, esse homem que passou a vida com o dinheiro público em suas mãos ou nas mãos daqueles que ele indicava para gerir, aplicar, esse homem chegou aos 80 anos e se afastou da vida pública pobre, honrado, incorrompido, incorruptível, fora e acima de qualquer Lava-Jato

Como os profetas, entrou e saiu da cidade do poder de mãos límpidas.

A falta que Juscelino Kubitschek faz

Resultado de imagem para juscelino kibitschekSebastião Nery

O telefone tocou na casa de praia de Madame Schneider, uma francesa amiga de Juscelino Kubitschek, a 20 quilômetros de Saint Tropez, no sul da França, onde ele, dona Sara, as filhas Márcia e Maristela e o ex-secretário amigo dileto Olavo Drummond passavam uns dias descansando, depois de deixar a presidência da República em 31 de janeiro de 1961.

Era o empresário, poeta e redator de alguns dos históricos discursos de Juscelino, Augusto Frederico Schmidt, falando do Rio: “Juscelino, estou recebendo um clipping das revistas dos EUA. A revista “Time” está dizendo que você é “a sétima fortuna do mundo”.

Conversaram, Schmidt desligou e Juscelino ficou deprimido, amargurado. Olavo o chamou para darem uma volta:

“Presidente, hoje de manhã, quando fui comprar os jornais, quem estava na banca era a Brigitte Bardot. Podemos encontrá-la de novo”.

Juscelino riu. Saíram. A primeira pessoa que viram foi a Brigitte Bardot, no auge do sucesso, com aquela carinha de paraíso terrestre depois da maçã, cercada de fãs, tirando fotografias. Juscelino se afastou:

“Olavo, se eu sair com essa mulher em um fundo de fotografia, a imprensa vai dizer no Brasil que estou namorando com ela.”

Mas não esqueceu a história da “sétima fortuna do mundo”.

MENTIRA REPETIDA – Quatro anos depois, a embaixada da Inglaterra no Brasil mandaria a Londres um documento para o “Foreign Office”, sob o cód.371/179250:

“O ex-presidente Kubitschek retornou ao Brasil. Não há dúvida de que ele é popular, com seu charme e suas ideias expansivas e grandiosas. Mas ele era um verdadeiro símbolo da corrupção, saiu da pobreza para a posição de sétimo homem mais rico do mundo, segundo a revista “Time”.

Essa história do “sétimo homem mais rico do mundo” era então exaustivamente repetida pelo ex-deputado da UDN baiana Aliomar Baleeiro, e outros udenistas, civis e militares, depois do “Golpe de 64”.

Era uma velha indignidade. Na véspera de passar o governo a Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961, Juscelino reuniu um grupo de ministros, auxiliares e amigos no Palácio da Alvorada. Chega Jose Maria Alkmin: “Juscelino, estou seguramente informado de que o Jânio vai fazer um discurso agressivo contra você, na sua frente, na solenidade de transmissão do cargo, no Palácio do Planalto”.

“Vou passar o cargo ao presidente que o povo elegeu. Só o Dutra passou. Quero dar uma demonstração ao mundo de nossa democracia”.

“E se ele fizer um discurso agressivo?

“Dou-lhe uma bofetada na cara e o derrubo no meio do salão. Vai ser o maior escândalo da história da República”.

Não houve discurso nem bofetada.

CARTA DE JK – “Rio de Janeiro (GB) 15 de agosto de 1973.

Meu caro Sebastião Nery.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que Sarah e eu ficamos encantados com a dedicatória com que nos distinguiu. Ao oferecer suas 350 Histórias do Folclore Político.

Palavras, não do fulgurante jornalista, mas do amigo de sempre, fiel e querido. Realmente, você tem razão: os políticos, os dirigentes dos países, os estadistas não fazem a história. Nem a compõem tampouco os heróis de Carlyle. Os homens públicos apenas se agitam, quando muito, como você o diz, lançam a semente.

O seu excelente livro fez-me a alegria de uns dias intermináveis, porque a cada anedota, a cada uma dessas admiráveis blagues eu voltava com ansiedade e o riso renovado.

Ainda bem que os homens do passado fizeram a crônica dos tempos políticos não com a violência, mas com a graça, o humor e esta extraordinária sensação da consciência limpa e tranquila.

O que você conta se renova, através da força com que reveste o dito e dá festa de sol e calor a esses casos isolados do interior que na sua pena de mestre se projetam na grande página da capital.

Particularmente, sinto-me honrado de figurar neste seu suave repositório de verve e de sutil perspicácia, repleto de uma cordialidade que nos une e nos comove.

Receba meus parabéns e sinceros agradecimentos.

Com muita amizade e crescente admiração, do amigo de sempre

Juscelino Kubitschek”

(No dia 22 de agosto fez 40 anos que JK morreu. Foi o maior presidente que o pais teve. E a falta que ele faz!)

As dores de Dilma e a verdade histórica

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Oficiais ocultava os rostos  para não serem reconhecidos

Sebastião Nery

A ministra sentou-se numa cadeira para conversar com o médico. Falaram sobre o tratamento inadiável, doloroso e incômodo. O exame definitivo tinha chegado de um laboratório de Houston, nos Estados Unidos, naquela sexta, 17 de abril (2009). Um breve silêncio foi quebrado por um suspiro longo: “A vida não é fácil. Nunca foi”.

A ministra seguiu para a entrevista coletiva. Parecia segura. Vestia um casaco de linho vermelho sobre a blusa de seda preta, o decote redondo acompanhava a curva do colar de pérolas. Era a Dilma de sempre”…

Essa historia está em um retrato forte e verdadeiro da ex-presidente Dilma : “A Vida Quer é Coragem”, do experiente e serio jornalista Ricardo (Batista) Amaral (Editora Primeira Pessoa – Sextante RJ).

Há a vida difícil e a brutal, às vezes militarmente bárbara. Ela contou: “Entrei no pátio da Operação Bandeirante (Exercito, em São Paulo) e começaram a gritar: – “Mata!”, “Tira a Roupa”!, “Terrorista!”, “Filha da Puta”! A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Palmatória. Levei muita palmatória. Mandaram tirar a roupa. Não tirei. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram com o resto no pau de arara. Aí me tiraram a roupa toda. Fizeram choque, muito choque. Eu me lembro que nos primeiros dias eu tinha uma exaustão física que eu queria desmaiar. Não aguentava mais tanto choque. Comecei a ter hemorragia. Choques nos pés, mãos, na parte interna das coxas, nas orelhas. Na cabeça é um horror. No bico do seio. Botavam uma coisa no bico do seio, que prendia, segurava… Não comer. O frio. A noite. Aguentei. Não disse nem onde morava. Não disse quem era o Max (Carlos Araujo, o marido)”.(22 dias de tortura e 3 anos de prisão).

“Pedro Roussef (pai da presidente Dilma) proporcionou uma vida de conforto à família. Seus negócios se estabilizaram e ele prosperou de vez quando a alemã Mannesmann, maior fabricante de tubos de aço do mundo, decidiu construir a siderúrgica do Barreiro, na região industrial de Belo Horizonte.A inauguração da fabrica, em agosto (12) de 1954, foi a ultima aparição publica de Getulio antes do suicídio. Estava ao lado de JK.

Getúlio foi recebido no centro de Belo Horizonte com vaias de estudantes ligados à UDN, e ao Partido Comunista. JK o levou para ser aplaudido pelos operários no Barreiro.Duas semanas depois, quando chegou à cidade a notícia do suicídio, multidões enfurecidas cercaram a sede do jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Numa manobra desesperada, um estudante comunista fez um discurso inflamado contra os “verdadeiros responsáveis” pela desgraça do presidente morto:os trustes norte-americanos e os entreguistas da UDN” .

O jovem comunista juntou um latão de gasolina, e começou o incêndio do consulado dos Estados Unidos Dilminha tinha seis anos”.

EXATIDÃO HISTÓRICA – O que transcrevi ai acima tropeça na exatidão histórica. Realmente, “Getulio foi recebido no centro de Belo Horizonte com vaias de estudantes ligados à UDN e ao PCB, e JK o levou para ser aplaudido pelos operários no Barreiro (Cidade Industrial). Mas não é verdade que “duas semanas depois, quando chegou à cidade a noticia do suicídio, multidões enfurecidas cercaram a sede do jornal do PCB)…. A sede cercada e quebrada foi a da UDN e seu jornal, o “Correio do Dia”.

E não é verdade que “o jovem comunista juntou às palavras um latão de gasolina e assim começou o incêndio do Consulado dos Estados Unidos em Belo Horizonte”. De fato houve o discurso, o latão de gasolina e o incêndio do Consulado. Mas quem fez o discurso não levou o latão nem começou o incêndio. Não daria tempo para o orador descer do palanque, um caminhão aberto, em frente às escadarias da Faculdade de Direito.

Essa segunda tarefa foi cumprida por outros, comandados pelos dirigentes do Partido Comunista em Minas, Roberto Costa e Dimas Perrin, presos no local e condenados a um ano de cadeia. O orador apenas leu a Carta Testamento, deu a senha do fogo e ia saindo rápido quando foi atacado e derrubado pela policia e quebrou o nariz.

Sei bem, porque o “estudante comunista” que fez o “discurso inflamado” fui eu.(“A Nuvem – O Que Ficou Do Que Passou – 50 Anos de Historia do Brasil Geração”.

Dilma é uma contemporânea da Historia.

Principal inimigo que detonou Dilma foi o pecado da soberba

Dilma só se preocupava em fazer “caras e bocas”

Sebastião Nery

Dilma diz que foi derrubada por um golpe do Congresso. Se tivesse o bom hábito de ler os doutores da Igreja saberia que o pecado foi dela: a soberba. Sem ouvir ninguém, sem ler ninguém, sem conversar com ninguém, ela empurrou a economia do país para o abismo. E ainda queria ficar mais dois anos brincando de casinha de boneca no Palácio do Planalto.

Encontro aqui em Salvador um mestre guardião da pátria: o doutor em economia, baiano, três vezes deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná, Hélio Duque, que com sua sabedoria, me mostra que Dilma não foi empurrada. Ela pulou.

1 – A pobreza do debate público no Brasil não fica limitada à sociedade. Penetra na política. A proposta do Governo de emenda constitucional para limitar o crescimento do gasto público vem sendo combatida pelos que não entendem a importância de uma gestão fiscal responsável. Sem forte ajuste nas contas públicas, impedindo que as despesas cresçam mais do que as receitas, torna-se impossível retomar o crescimento econômico. A brutal recessão que mergulhou a vida nacional na crise tem no descontrole das despesas sua origem.

2 – O Estado não é gerador de riqueza, mas arrecadador de tributos para devolver em benefício da sociedade, com investimentos em áreas essenciais para o desenvolvimento humano e econômico. Responsabilidade fiscal é um valor que deve ser cultivado pela sociedade, acima de preferências pessoais ou ideológicas. O governante deve em primeiro lugar estruturar uma boa administração econômica. Sem ela o fracasso é garantido. Governos populistas e corporativistas geram a disfuncionalidade do Estado.

3 – Grupos organizados no Congresso ensaiam, através de emendas incabíveis, torpedear o programa de ajuste e limitação das contas públicas. Desejam a perpetuação da tragédia econômica e social que pode ser vista na recessão econômica dos últimos anos: desemprego de 11 milhões de trabalhadores e um déficit fiscal de mais de 10% do PIB (Produto Interno Bruto), aumento da relação dívida bruta/PIB de 53% para 70% e déficit acumulado de mais de 400 bilhões de dólares. E uma taxa de inflação atingindo o poder aquisitivo dos assalariados, com imensa redução na inclusão social e distribuição de renda.

4 – A situação real da economia brasileira foi escondida da população por largo tempo, com a conivência dos partidos políticos que apoiavam o governo. Lamentavelmente, para muitos homens públicos política econômica e política social são coisas diferentes. Os populistas e os seus agregados infantilizados acreditam que a primeira é defensora dos ricos, poderosos e privilegiados, enquanto a segunda é uma conquista dos pobres e deve integrar o seu universo existencial. Nada mais falso. Elas estão integradas. São ligadas umbilicalmente. Os recursos gerados pela política econômica é que garantem o dinheiro para o investimento em educação,  saúde, segurança, nos programas assistenciais e nos programas sociais. Não existe política social sem dinheiro, desde tempos imemoriais. Quando faltam recursos, a desigualdade social aumenta.

5 – Até 2014, a melhoria do padrão de vida de milhões de brasileiros permitiu que muitos ascendessem à baixa classe média, comprovando que sem crescimento da economia que gera emprego e salários melhores, é impossível garantir a ascensão social. A perversa e cruel realidade foi responsabilidade de um governo que acreditava que os recursos públicos são infinitos, não aceitando disciplina e responsabilidade na administração do dinheiro público.

6 – Os parlamentares brasileiros deveriam meditar sobre essa realidade, empenhando-se na aprovação das reformas sem as quais a crise econômica se agravará.

O economista Mansueto Almeida, do Ministério da Fazenda sintetizou: “Se o Congresso não quiser aprovar a PEC contra o crescimento do gasto nem reforma da Previdência, não haverá ajuste fiscal.”

E sem ajuste fiscal, o governo terá de se financiar com juros crescentes, levando à explosão da dívida pública. Seria o descontrole da inflação e um tiro fatal na retomada do crescimento econômico.

O país está de olho no Congresso.