Rio brilhou nos Jogos, agora falta a Olimpíada da Pobreza

Felipe Barcelos fez esta foto e postou na internet

Sebastião Nery

Fernando Martins, jornalista, diretor da ANJ (Associação Nacional de Jornais) no Rio, conhecia o Salgueiro de “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Ia passando na boca do morro, um velho e um rapaz carregavam uma moça.

– O que é que ela tem?

– Está passando mal. Vamos levar para o hospital do INSS em Andaraí.

– Entrem aqui.

E tocou seu carro para o Andaraí.

Branca como uma nuvem, os olhos enormes saltando das pálpebras roxas, a moça tossia desesperada. O rapaz apertava a cabeça dela contra o peito e pedia baixinho:

– Calma, Gracinha, calma.

E a moça tossindo, tossindo, toda branca, como uma nuvem engasgada.

Trânsito ruim, Fernando furava o sinal, dava contramão, guardas apitando, anotando. Ligou o rádio para distrair a moça. Elisete Cardoso cantava “Chão de Estrelas”:

– “Minha vida era um palco iluminado / Eu vivia vestido de dourado / Palhaço das perdidas ilusões.”

E a moça tossindo, sufocada.

E Elisete cantando:

– “Cheio dos guizos falsos da alegria / Andei cantando minha fantasia / Entre as palmas febris dos corações.”.

A moça deu um gemido fundo, grunhiu forte.

Fernando sentiu as costas úmidas. Era a hemoptise. A mancha vermelha cresceu no ombro, escorria pelos braços. E Elisete cantando:

– “Nossas roupas comuns dependuradas / Na corda qual bandeiras agitadas / Pareciam um estranho festival./ Festa dos nossos trapos coloridos / a mostrar que nos morros mal vestidos / é sempre feriado nacional.”

O rapaz, desesperado, o rosto lavado de sangue que saia do peito dela, gritava:

– Gracinha, aguente, pare de tossir. Doutor, desculpe, estamos sujando tudo.

E as golfadas esguichando, ensopando o tapete do carro. E Elisete cantando:

– “A porta do barraco era sem trinco / e a lua furando nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão. / Tu, tu pisavas nos astros distraída / sem saber que a ventura desta vida / é a cabrocha, o luar e o violão.”

A moça pendeu a cabeça no colo do rapaz, parou de tossir. Houve um longo silêncio de segundos. O rapaz sacudiu o rosto da moça;

– Gracinha, abra os olhos. Você não pode morrer, meu amor. Cabo (Cabo era o velho), será que ela morreu, Cabo?

O velho apenas bateu com a cabeça. E passou os dez dedos calosos na testa da filha. O rapaz ficou soluçando baixinho, contido, beijando as pálpebras roxas. Tinha nos olhos o espanto dos loucos. E Elisete cantando:

– “Meu barraco no Morro do Salgueiro / Tinha o cantar alegre de um viveiro. / Foste a sonoridade que acabou. / E hoje, quando do sol a claridade / Forra meu barracão sinto saudade / Da mulher, pomba-rola que voou.”

Fernando estava na porta do hospital do INSS, em Andaraí. A moça tinha recebido alta algum tempo antes naquele mesmo hospital. Voltava morta. 21 anos, uma filha de dois meses. Comida pela tuberculose, a doença da fome.

O velho e o rapaz entraram com a moça morta. O rapaz saiu logo, o mesmo olhar de espanto dos loucos:

– Doutor, o senhor vai voltar para a cidade? Podia me deixar no serviço? Preciso avisar a meu chefe para ele não cortar meu ponto.

O rapaz era lixeiro do Departamento de Limpeza Urbana, Distrito do Salgueiro. Fernando o deixou lá, no pé do morro. Elisete já não cantava “Chão de Estrelas”.

RIO BRILHOU – Acabaram as Olimpíadas. O Rio deu magnífica demonstração da   unidade e capacidade de realização de seu povo. Agora é hora de nos mobilizarmos, nos unirmos todos e juntarmos toda essa energia para realizar as Olimpíadas da Pobreza, da Saúde, da Educação, da Segurança, da Moradia, do Saneamento. Da vida do povo.

 

Histórias de Fidel, um herói do século, que se tornou um ditador

Fidel Castro hoje trabalha como garoto-propaganda da Adidas

Sebastião Nery

No segundo semestre de 1957, 59 anos atrás, realizou-se em Moscou o Festival Mundial da Juventude. Milhares de jovens do mundo inteiro. Os brasileiros e latinoamericanos ficamos no hotel Zariá, ao lado da Universidade da Amizade dos Povos, que em 61 tornou-se a Universidade Patrice Lumumba, homenagem ao líder assassinado da independência do Congo Belga, depois Republica Democrática do Congo. Durante o ano, lá moravam estudantes russos. Homens em um hotel,mulheres em outro.

Os apartamentos eram por ordem alfabética. A Argentina antes do Brasil e a Colômbia depois. Estava lá, estudando cinema, um rapaz simpático da Colômbia, já com 30 anos, exilado de seu pais e jornalista em Paris, Gabriel Garcia Marquez, o Gabo.

No desfile de abertura, magnífico e emocionante, um mundo de bandeiras de todos os países e povos, com imensas flâmulas suspensas nos muros do Kremlin saudando a Paz – “Mir e Drusba” – (Paz e Amor) – na incomparável e iluminada Praça Vermelha, diante do Kremlin e do tumulo de Lênin, deu bem para ver que os russos já andavam rusgando com os chineses, que passaram silenciosos e pouco aplaudidos. Já os cubanos, uma pequena delegação, foram recebidos delirantemente como heróis.

Na frente deles, mais alto do que os outros, barba rala e boné verde, Fidel Castro. E Che Guevara, Camilo Cienfuegos e seus companheiros. Já lutavam nas montanhas da Sierra Maestra, apesar de os russos ainda não acreditarem na possibilidade de vitoria deles, diante do exercito do ditador cubano Batista e tão perto dos Estados Unidos.

Terminado o festival voltaram para Sierra Maestra. Em 59 venceram.

GUEVARA EM SÃO PAULO – Em 1952. Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, mas estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde pretendia ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista de Rio Preto, autor do segundo projeto de Reforma Agrária apresentado no Congresso Nacional (o primeiro foi o do baiano Nestor Duarte).

Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando as ideias do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar, montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castillo Armas, derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México. Em 1958, ele apareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camillo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes, esbugalhados, implantou a reforma agrária em Cuba, baseado no projeto do deputado Coutinho, paulista de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara.

ADEMAR E FIDEL – Em 1960, Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha lhe ofereceu um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos.

– Pois posso assegurar que só fuzilei ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Ademar de Barros.

FORMOSA CUBANA – Rômulo Pais, patrimônio de Minas, o maior compositor popular do Estado (Ataulfo, Ary Barroso, tantos outros nasceram lá, mas são cariocas), venceu carnavais sem conta, fez obras-primas, como: -“Foi pra Santa Tereza que aquela beleza o bonde pegou”.

Em 1961, fez uma música de muito sucesso: “Formosa Cubana”: – “Vamos todos cantar, cuba-libre tomar. Foi hasteada a bandeira no mastro, vitória do barbudo Fidel Castro. Vem, Lolita – formosa cubana, vem, vem pra festa e deixa a Sierra Maestra”.

Em 1964, no dia 1º de abril, Belo Horizonte incendiada pelo fogaréu de Magalhães Pinto, Rômulo entrou no bar Pólo Norte, matriz da boemia mineira. Gervásio Horta, outro grande compositor popular (alma secreta de Valdick Soriano, autor de muitos dos sucessos do padroeiro da cafonália), começa a cantar a “Formosa Cubana”. Rômulo volta rápido:

– “Rômulo, esta beleza de marcha não é sua?”

– “Nada disso. Não tenho nada com a letra nem com a música.”

Gervásio continua cantando. Rômulo faz um apelo desesperado: – “Não canta, Gervásio. Esta cubana, desde ontem, ficou muito feia”. E saiu assoviando: “Foi pra Santa Teresa…”.

O DITADOR – Fidel Castro fez 90 anos esta semana (13 de agosto). É um herói do século. Mas é um ditador.

Um homem da vida, que embelezou a humanidade

Ivo Pitanguy conseguiu embelezar a humanidade

Sebastião Nery

Quase tudo se disse sobre Ivo Pitanguy, sobretudo como um homem da beleza. Lembro-me dele principalmente como um homem da vida, o cirurgião da vida. É o que ele foi:

“A experiência que marcou mais fortemente a minha vida foi o tratamento das vítimas do incêndio do Gran Circo Norte-Americano, ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961, em Niterói”.

O que presenciei naquele dia superou os mais terríveis pesadelos. Uma multidão de 2.500 pessoas – na sua maioria crianças – sucumbiu ao fogo e à falta de atendimento adequado às gigantescas proporções do desastre. O dramático saldo registrou cerca de quinhentos mortos e outras tantas vítimas irremediavelmente desfiguradas.

Lembro-me como se fosse hoje. Estava indo para a Santa Casa quando ouvi no rádio do carro a notícia da tragédia. Desviei meu roteiro, tomei a barca e, junto com Odir Aldeia, Adolfo, Ronaldo, Ramil e outros colegas que já se encontravam em Niterói, comecei a organizar um pequeno time que pudesse nos ajudar, naquele ambiente de desespero que se apossou da cidade. Era preciso controlar a multidão, dar ordem ao caos, reabrir o Hospital Antonio Pedro, fechado por uma greve de funcionários, e criar um sistema de atendimento a todos aqueles queimados.

Fiquei impressionado com o caso de um menino de 11 anos. Havia surgido subitamente da espessa fumaça que formava uma muralha em torno do capitel em chamas. Estava gravemente queimado em 80% do corpo, mas parecia indiferente a seus ferimentos. Com as roupas em farrapos, sua única preocupação era olhar todos os outros feridos como se procurasse alguém.

– Meu amigo…

Seus lábios tremem tamanho o pavor que havia sentido antes de poder escapar da fornalha. Com o olhar alucinado, ele procura seu amigo:          

– Ele continua lá no fogo!

Sem que ninguém possa interferir, tão fulminante é sua decisão, o menino se arremete na direção do inferno.

Os apelos são inúteis. A pequena silhueta é novamente tragada pela armadilha de fumaça. Petrificados, estamos convencidos de que ele não escapará mais. De repente, as pessoas começam a gritar e correr. Urrando de terror, um elefante que arrasta em seu dorso panos incandescentes do circo, rasga uma passagem entre as chamas. Aproveitando-se do buraco, espectadores conseguem escapar:

– Olhem! O menino está ali…ali!

Uma enfermeira é a primeira a vê-lo e se precipita em sua direção para socorrê-lo. Ele caminha penosamente. Está no fim de suas forças. Mas carrega seu amigo quase desmaiado. Em seu rosto fino, inchado pelas queimaduras, seus olhos brilham loucamente com um indizível orgulho. Seu amigo está salvo.

A intrepidez e a abnegação desse menino marcaram-me para sempre. Arriscar a vida pelo outro é o mais nobre ato de um ser humano. O jovem herói chama-se Pablo. Livre de seu fardo vivo, ele cai a nossos pés. Lembro-me também desse momento exato. Enquanto eu e um assistente o instalamos cuidadosamente sobre uma maca, olho o céu que o incêndio avermelha E juro que vamos salvá-lo.

Pablo está moribundo. As chances de mantê-lo vivo são quase inexistentes. Durante mais de seis meses nós nos revezamos à sua cabeceira, prodigalizando-lhe os cuidados que nos são possíveis.

Entre todos os nossos pacientes, Pablo conserva uma dignidade que chama nossa atenção, e seguimos a lenta evolução de seu estado como se fôssemos seus parentes. Muitos de nossos queimados morrem. Um lençol branco recobre corpos martirizados.

Pablo sobreviverá? Nós o alimentamos com produtos dietéticos destinados a substituir os sais minerais que seu organismo perdeu. E no terceiro mês, tendo seu estado geral progredido, podemos praticar naquele corpo frágil e supliciado, os enxertos autógenos, utilizando as zonas onde a pele ainda está intacta.

Terra de crendices, de superstições e de fé, o Brasil é sensível aos signos e aos presságios. Certa manhã, uma religiosa vem ao meu encontro com seus passos miúdos, toda exaltada. Mãos juntas como para uma prece:

– Pablo vai sobreviver, doutor.

– De onde vem essa sua certeza, irmã?

Suavemente a religiosa entreabre a porta. Sobre o parapeito da janela, como a contemplar Pablo adormecido, uma pomba branca permanece imóvel.

– Deus a enviou para anunciar a sua cura! – murmura a religiosa.

Deus ou nossos cuidados? Ou Deus e nossos cuidados? Pablo se cura. Cresce. Seu corpo guarda cicatrizes do passado”.

O cirurgião Ivo Pitanguy embelezou a humanidade.

A nova Bahia e a lembrança do grande político Antonio Balbino

Balbino, governador da Bahia, quando a gente andava de trem

Sebastião Nery

SALVADOR – Quando o velho elevador do velhíssimo edifício da Rua da Quitanda, no centro do Rio, parou no escritório de advocacia do ex-governador da Bahia Antonio Balbino, eu já sabia o que ia lhe falar. Passei as quatro horas do voo germinando o “Jornal da Semana”, que ia lançar.

Não conhecia bem Balbino. Ele certamente menos a mim. Mas sempre tive uma admiração enorme pela sua biografia. Dos políticos da Bahia, só Octávio Mangabeira rivalizava com ele. Culto, talentoso, inteligente, formação universal, Balbino foi preparado “para brilhar lá fora”.

Nasceu em 1912 em berço de roça que era também um berço de ouro. O pai fazendeiro em Barreiras, extremo oeste da Bahia. E a mãe irmã de um dos brasileiros mais poderosos de seu tempo: Geraldo Rocha, homem de confiança de Getúlio Vargas, dono dos jornais “A Noite”, “A Nota”, “O Radical”, e o mais próximo amigo no Brasil do ditador argentino Perón.

ALUNO BRILHANTE – Pôs logo o sobrinho querido embaixo do braço. Balbino, moreno queimado, boca gorda, olhos apertados, estudou em Salvador e em 1929 foi para o Rio estudar Direito e trabalhar no jornal do tio, “A Noite”. Aluno brilhante, orador da turma, formou-se em 32 e foi fazer doutorado de Economia na Sorbonne em Paris, em 33 e 34. Voltou e saiu candidato à Constituinte estadual na legenda da oposição, liderada por Octávio Mangabeira, contra a chapa do interventor Juracy Magalhães. Elegeu-se.

Na Assembleia, fez parte da comissão encarregada de elaborar a Constituição do Estado. Getúlio deu o golpe de 37. Balbino foi ser professor, advogado, jornalista no “Diário de Notícias” que dirigiu de 1939 a 42. Professor, ensinava tudo: – Sociologia e Lógica, no pré-curso da Faculdade de Medicina; Finanças, na Faculdade de Direito; e História das Doutrinas Econômicas, na Faculdade de Filosofia.

FAMA DE GÊNIO – Em 45, candidato à Assembléia Nacional Constituinte, pelo pequeno PPS (Partido Popular Sindicalista), perdeu. Em janeiro de 47, já no PSD, elege-se para a Assembléia Constituinte estadual. Em 50, deputado federal. Chega ao Rio com fama de gênio.

Relator do projeto criando a Petrobras, a Lei 2004 afinal aprovada em outubro de 53, quando já era ministro da Educação e Cultura. Em 54, o PSD lhe nega a legenda para governador e lança Pedro Calmon. Balbino, com Juracy, que ganhou o Senado, saiu pelo PTB e UDN e venceu.

 

Sabia tudo da Bahia, do Brasil e do mundo. Terminado o governo, foi para a rua da Quitanda advogar e dar pareceres Em 1962, elege-se senador.

Estava em Paris na sua morte, em 1992. O Brasil foi frio. Como foi depois no seu centenário, em 2012. Não somos a Europa, que cuida de seus grandes mortos. E Balbino deixou plantada na história política do século passado uma forte presença. Era um homem excepcionalmente inteligente

NA DITADURA – Muitos de nós, que durante a ditadura militar fizemos a resistência, tivemos dele, em instantes duros, cruéis, uma solidariedade silenciosa mas sempre eficiente. Waldir Pires, Mário Lima, Hélio Ramos, eu, tantos outros que voltamos do exílio, saímos da cadeia ou nos livramos de IPMs e processos pela mão sábia e calorosa dele.

Devo-lhe uma absolvição no Superior Tribunal Militar que parecia impossível. E o fim de uma ordem de prisão na Bahia, assinada e já embalada. Ele fazia, depois sorria:

– “Tome juízo. Não os desafie. Eles têm os canhões”.

CAMINHOS ABERTOS – Balbino tem um título que a Bahia lhe deve. Foi ele quem começou a modernização do Estado. Governador em 54, entregou ao grande Rômulo Almeida o planejamento da nova Bahia. Com ele Rômulo criou a Comissão de Planejamento Econômico, da qual nasceram o Centro Industrial de Aratu, o Polo Petroquímico, a Coelba, a Tebasa, a Sabesb. Juracy, Lomanto, ACM, andaram caminhos abertos por Balbino e Rômulo.

Ministro da Indústria e Comércio de Jango, com o golpe de 1964 entrou para o MDB até 1971, quando voltou para a advocacia, no Rio, criando uma das mais poderosas bancas de advocacia do País.

Vai demorar muito para a Bahia fazer outro Balbino.

LEWANDOWSKI – O professor e economista baiano Helio Duque, tantas vezes iluminador desta coluna, mais uma vez acende a luz:

– O Conselho Nacional da Justiça, fiscalizador dos tribunais superiores na administração da Justiça, é presidido pelo ministro Lewandowski, do STF. Decisão surpreendente, em reunião do seu conselho, estabeleceu polêmica que desprestigia o Judiciário brasileiro. O ministro Lewandowski defendeu que juízes, desembargadores e membros dos tribunais superiores, ao proferir palestras promovidas por entidades privadas, ficam desobrigados de informar o valor recebido. De acordo com o jornal “O Estado de S.Paulo” (13-7-2016), teria afirmado: “Não somos obrigados a revelar quanto recebemos nas atividades privadas”.

Data vênia, Excelência. A Constituição, no artigo 95, determina que aos juízes é vedado receber, a qualquer título ou pretexto, auxilio ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou privadas, A atividade extra permitida pela Lei Orgânica é só o magistério superior.

Os ovos do brigadeiro e a eleição presidencial de 1945

Sebastião Nery

SALVADOR – Jornalismo é muitas vezes a garganta das pedras. Menino de fazenda aqui na Bahia, cedo aprendi que, quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria. necessária, eterna. Desde o começo dos tempos, sempre foi mais proibido proibir o humor.

Folclore não é história. É a versão popular da história. Folclore político não é história política. As historias do folclore vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Monteiro Lobato definiu exato:

– “Folclore são coisas que o povo sabe por boca, de contar um para o outro”:

Se Maurice Latey diz que “a história é o povo em ação”, está pondo o folclore como categoria literária, crônica da vida comum, poema do dia a dia, o contar para o outro, o cantar dos medievais menestréis.

Quando, em agosto de 1973, no auge do calar a boca nacional pela ditadura militar, lancei o “Folclore Político” no Clube dos Repórteres Políticos do Rio, com a presença de José Américo de Almeida, José Maria Alkmin, Magalhães Pinto e mais de cinquenta colegas de jornalismo político, José Américo, com sua competente precisão de linguagem, colocou o livro nos termos precisos:

-“É folclore. Nenhuma das histórias a meu respeito é inteiramente exata, mas nenhuma é inteiramente inexata. E são todas muito engraçadas”.

E José Maria Alkmin:

– “Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?”

ALCKMIN E GOMES

Outro Alckmin, o paulista Geraldo Alckmin, o exemplar e competente governador de São Paulo, relembrava nestes dias, numa solenidade, uma velha historia folclórica do Brigadeiro Eduardo Gomes.

Segundo ele, o doce feito de chocolate e leite condensado chama-se “brigadeiro”, porque, em 1945, ele candidato a Presidente da República, mulheres paulistas faziam o doce aos milhares para vendê-los nos comícios da UDN, anunciando:

– Brigadeiro, brigadeiro, é bonito e é solteiro!

Ganhou Dutra que era feio e era casado.

Isso diz o folclore paulista. Aqui na Bahia, nesse mesmo 1945, os doces “brigadeiros” faziam sucesso, mas por uma razão histórica. Nas lutas militares de 1922 e 1924, o valente e heróico Brigadeiro levou um tiro nos órgãos genitais e ficou fisicamente prejudicado.

E o que é que tem a ver o doce com o tiro? Muito simples: o “brigadeiro” é o único doce feito sem ovos.

Sou mais a sabedoria baiana.

CRISTIANO MACHADO

Mas Eduardo Gomes não é o único candidato folclorizado. Em 1950, fim do governo do marechal Dutra, o país estava partido politicamente em três pedaços: PSD com Cristiano Machado, UDN com o brigadeiro Eduardo Gomes, PTB com Getúlio Vargas. Em plena campanha eleitoral para a Presidência da República, morre dona Santinha, mulher do presidente.

A missa de sétimo dia foi na Candelária superlotada. Getúlio estava no Sul, não foi. Eduardo Gomes chegou, entrou, ficou rezando. Cristiano Machado foi entrando com seu ar discreto e sóbrio de mineirão dos velhos tempos. Um correligionário exaltado teve um acesso de puxa-saquismo, meteu o pescoço entre as pernas, suspendeu-o e saiu carregando-o igreja adentro, como um estranho andor.

Foi um escândalo. Cristiano Machado, constrangido, esperneava, grudado nos cabelos do eleitor, mas não conseguia livrar-se. O correligionário gritava:

– Viva o Dr. Cristiano Machado! Viva o futuro presidente!

E a Candelária ouviu, penalizada, o protesto aflito, quase um gemido do candidato:

– Me larga, seu imbecil!

Largou mas deixou Cristiano inchado.

A RAINHA

No avião, do Rio para Salvador, ela lia tranquilamente sua revista. As pessoas olhavam com intenso afeto, mas para não incomodá-la não a interrompiam. Passavam. Quem estava ali era uma rainha: Maria Bethania.

As mãos de Pilatos, lavadas agora na França e na Turquia

A besta satãnica do terro ressurge no verão ensolarado de Nice

Sebastião Nery

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes o Grande, e irmão de Herodes Antipas, o antipático, que deu a Salomé o pescoço de João Batista. Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos dele, disseram que era “ríspido” e “intratável”. Mas não queria matar Jesus.

Quando aquele homem de olhos mansos, todo ensanguentado, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica ”Jesus Nazarenus Rex Judeorum”-, Pilatos lhe perguntou quem ele era.

– “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

O caminho, Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. O evangelista João (18,38) conta que Pilatos então lhe perguntou: – “O que é a verdade”?

Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.Monges medievais diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta. A pergunta, em latim, era: – “Quid est veritas”? (O que é a verdade?)

Com as 14 letras da pergunta se escreve a resposta: – “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).

A verdade é que nem a própria Verdade disse o que é a verdade. E, até o fim dos tempos, jamais alguém saberá.

Toda a tragédia, e todo o ridículo, do homem é que passam os séculos sobre os séculos e nunca ele saberá o que é a verdade. A vida, afinal, é a bela e fugaz busca de Pilatos, querendo em vão saber o que é a verdade. E ninguém saberá, porque ela é muitas. Por isso, Pilatos lavou as mãos e foi dormir.

O QUE É A VERDADE? – Desde o começo dos tempos, o grande conflito das civilizações sempre foi a tentativa de uns imporem aos outros sua verdade. Como ela nunca está com uns nem com outros, porque jamais existiu uma só verdade, a coação ideológica é a grande desgraça dos povos.

Todos os sistemas religiosos, filosóficos, políticos, acabaram se esvaindo pela impossibilidade de se implantarem absolutos. Um dia, o homem sacode a cangalha e pula livre para o campo.

O mais humano e generoso movimento político dos dois últimos séculos foi o socialismo. E acabou se degenerando na brutalidade hegemônica do nazismo, do fascismo, do comunismo. Da mesma forma que a direita sempre tentou e continua tentando impor seu pensamento único, chame-se colonialismo, imperialismo, neoliberalismo, globalização, também a esquerda imaginou e imagina possível encarneirar a humanidade em um curral ideológico único, universal, inexorável.

FANTASIA E PESADELO – Um dia, infelizmente a tão duro custo, a humanidade acaba descobrindo que tudo não passou de fantasia ou pesadelo. Tudo isso, por tão óbvio, é banal e fácil de dizer. Difícil é enfrentar o dragão radical, solto no poder, na sociedade, no trabalho, na vida. A coragem de dizer não, como Ortega y Gasset:

– “Ser da esquerda, como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas são formas de hemiplegia moral”.

Intelectual é sinônimo de liberdade, de independência. E o primeiro dever de quem fala, escreve, participa da vida coletiva, é a coragem de ser livre. Para dizer o que pensa porque sabe o que diz.

Seguir a caravana, entrar na correnteza, deixar-se levar pela onda, é cômodo, mas medíocre. E inútil. Perguntem a Pilatos, que por isso lavou as mãos e foi dormir.

TERROR EM NICE – O mundo foi abalado mais uma vez pela besta satânica do terrorismo. E logo, outra vez, exatamente na França, o mais democrático dos países. Parece uma maldição e é. Logo em um balneário da França, Nice, cidade de repouso e férias, em pleno e ensolarado verão.

Um caminhão, um terrorista dirigindo o caminhão em zigue-zague, na hora em que milhares de pessoas olhavam o céu vendo a explosão de fogos comemorativos do “14 de Julho”, a maior festa nacional , e 84 pessoas atropeladas e mortas e centenas de feridos na fileira da morte.

Um só matando 84 e ferindo centenas. Alguém dirá que o terrorista era um louco. Mas uma sociedade que produz esse tipo de loucura também é uma sociedade enlouquecida. Como Pilatos, ela deve lavar as mãos e ir dormir, imaginando que não tem nada a ver com a loucura coletiva.

Os filhos de Pilatos estão pagando o preço de suas mãos lavadas.

E NA TURQUIA… – Desgraça nunca vem só. Depois da tragédia terrorista da França, militares da Turquia tentam golpe de Estado, bombardeiam o parlamento, cercam o presidente no palácio e ameaçam massacrar a população que honra sua bela historia e vai para as ruas defender a democracia.

Mãe da Grécia e avó de Roma, a Turquia não merece isso. Não há desculpa. Golpe militar com as armas da nação é canalhice.

Alysson Paulinelli foi o JK do agronegócio brasileiro

Alysson Paulinelli, o criador da Embrapa, um grande brasileiro

Sebastião Nery

Um grande brasileiro está completando 80 anos: Alysson Paulinelli, meu contemporâneo de política estudantil em Minas, professor e reitor da Universidade de Lavras, ministro da Agricultura de Geisel, o melhor que o Brasil teve durante anos, criador da Embrapa e pai da nova agricultura brasileira. Ele foi para a agricultura o que Juscelino foi para a indústria.

Naquela manhã de 30 de março de 1978, entrei no seu gabinete em Brasília. O jornalista mineiro e assessor de imprensa, meu amigo Silvestre Gorgulho, me recebeu ansioso. Abriu a “Sinopse” do dia (“Sinopse”, hoje “Clipping”, era um boletim mimeografado de 10 a 12 paginas, tamanho oficio, tipo corpo 12, meia hora de leitura, preparado de madrugada pela Agencia Nacional, sob a responsabilidade da Casa Civil da presidência da Republica, com a síntese do que diziam jornais e revistas). Edição limitada, reservada, só o primeiro escalão a recebia: o Presidente, vice, ministros, chefes dos outros poderes, Legislativo e Judiciário, comando militar.

Silvestre sabia a preciosidade que tinha: – “Veja o que o “Estado de Minas”, que representa 90% da imprensa mineira, está dizendo na edição de hoje, primeira pagina: – “Apesar dos 14 disputantes à vaga do governador Aureliano Chaves, o nome do presidente nacional da Arena, deputado Francelino Pereira, continua o mais cotado.Até o MDB já se pronunciou a favor”
Silvestre explicou: -Acontece que o “Estado de Minas” não diz nada.   Já telefonei para lá. Não tem nada. E também nada no “Diário de Minas”. Estão enxertando a “Sinopse” do alemão? Vou fazer um escândalo.

Cada dia uma manchete inventada. -“Diário de Minas”. O anúncio do futuro governador do Estado está sendo aguardado para o próximo dia 10 de abril. Até o momento o deputado Francelino Pereira é o mais cotado”. Pura invenção. Estavam engravidando o Geisel.

FUI PARA MINAS – Peguei as “Sinopses”, enrolei, sai às pressas. Fui direto para o aeroporto, tomei um avião para Belo Horizonte. Lá, passei nos jornais, comprei os citados e fui marcando. Nada conferia.No dia 31 a “Sinopse” atribuía ao “Estado de Minas”: -“Políticos mineiros veem em Francelino uma força total na ajuda ao presidente Geisel e ao general João Figueiredo”.  Fui à primeira banca, o “Estado de Minas” nada dizia. Enchi a mala de jornais, voltei para Brasília. No “Hotel Nacional”, onde me hospedava, encontrei no elevador o Mino Carta, diretor da revista “Isto É”, que me havia mandado para Paris entrevistar o embaixador Delfim Netto e para a Espanha cobrir a campanha da Constituinte espanhola:
– Mino, tenho uma “bomba” para você. Aqui na mala.

Em cinco minutos, Mino entendeu tudo. As “Sinopses” fraudadas e os jornais provando a fraude: – “Vá para São Paulo, leve tudo. Amanhã estarei lá”.

Saiu uma capa gritada: – “FranSinopse – Mentiram Para Geisel”.Na semana seguinte, outra capa da “Isto É”:-“O Minasgate”. O escândalo desaguou em todas as redações. A imprensa queria saber o que o governo ia fazer com a fraude na “Sinopse” do poderoso imperador Geisel.

INQUÉRITO – O governo abriu um inquérito na Agência Nacional em Brasília e na sucursal da Agencia Nacional em Belo Horizonte. O SNI (Serviço Nacional de Informações), que bisbilhotava a vida de todo mundo,foi desmoralizado. Eram fajutas as notícias que punham nas mãos de Geisel. Veio para cima de mim. Queria saber como eu tinha acesso à “Sinopse”, se era reservada para o Presidente e ministros. Dei um balão neles. Disse que havia pegado na mesa do ministro Petronio Portela.

No ministério, Paulinelli comandou sua revolução agrícola com o sábio mineiro Eliseu Alves criando a Embrapa, abrindo o Cerrado, implantando a Codevasf e multiplicando em milhões a safra agrícola.

Veio o “Premio Esso” de 1978, dividido com meus colegas da “Folha”, Getulio Bittencourt e Haroldo Lima.Prometi a Silvestre rachar o cheque. Não cumpri. Chamei a namorada, bebemos o vinho em Paris.

ADVOGADOS – O brilhante economista, professor e ex-deputado do MDB do Paraná Helio Duque fez uma pesquisa sobre os estudos de Direito no Brasil :

1.- O Brasil tem mais faculdades de Direito do que todos os demais países do mundo juntos. Haja Lava-Jato! O advogado Jefferson Kravchyn afirma: “Temos 1.240 Faculdades de Direito. No restante do mundo, incluindo China, Estados Unidos, Europa e África, são 1.100 cursos. O número de advogados inscritos na OAB, chega a 900 mil. Se não tivéssemos a OAB teríamos um número maior de advogados do que todo o mundo. Temos mais de 3 milhões de bacharéis não inscritos na Ordem”.

2. – O número aumentou de mais 26 faculdades, totalizando 1.266 cursos de Direito no Brasil. No final de 2015, a OAB selecionou, com “selo de qualidade”, 139 cursos em todo o País. Entre as faculdades, 78 são públicas e 61 privadas. Marcos Vinicius Coelho, à época presidente da OAB, advertiu: “Precisamos proteger a sociedade contra o estelionato educacional, que, sem qualquer qualidade, vende ilusão”.

Desculpem os colegas bacharéis. Precisamos de mais escolas de Agronomia do que de Direito.

A Turquia é o rosto do mundo

Terrorismo sangra a Turquia, um dos berços da civlização

Sebastião Nery

A Turquia não é um país. É um mapa. É o único país do mundo que já teve 12 capitais: Troia, Hattusa, Xanthos, Sardes, Pergamo, Amaseia, Bizâncio, Constantinopla, Bursa, Edirne, Istambul e Ancara hoje. Com belos e estranhos nomes, viveram desde o começo dos tempos naqueles 780 mil km2 e hoje tem 65 milhões de habitantes. São uma enciclopédia da humanidade, herança de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Ali há marcas do homem 100 mil anos antes de Cristo.

A Turquia é o maior museu a céu aberto do mundo. Cada cidade um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações. Toda a história antiga girou em torno de brutais batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, nos estreitos de nomes lindos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bosforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. Toda ela é patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Ali a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou marcas e garras, a Mesopotâmia virou Europa, o Cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio e viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Ali a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria. Ali nasceram Homero o maior dos poetas e São Paulo o maior dos jornalistas, Tales de Mileto, Pitágoras, Anaximandro,

DE PLATÃO A SÃO PEDRO – Ali ensinaram Platão e Apelikon de Teos, os maiores dos professores e bibliotecários. Ali Hipódromos criou o urbanismo Ali se fez a primeira Escola de Escultura. Ali Cleópatra e Marco Antonio se amaram.

Quando Noé ancorou sua arca foi ali, no monte Ararat (5.165 metros). O Tigre e o Eufrates são dali. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso estão (estavam) ali. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram de Jerusalem para lá e lá morreram. São Pedro falou ali, pela primeira vez, a palavra cristão.

A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, ali. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, pelos da barba, dente e pegadas de Maomé estão ali. Ali houve uma biblioteca de 200 mil volumes, antes de Cristo, a mais importante do Império Romano.

Assassino, desarvorado, o terrorismo planta na Turquia sua barbárie, duas vezes em poucos meses, contra a Mesquita Azul, a Praça do Sultão, o aeroporto monumental. O terrorismo sangra a Turquia porque ela é o rosto da humanidade.

CASTELO DE AREIA – Agora, histórias outras. Nossas histórias.

1.- Em 2009, a “Operação Castelo de Areia” já contava valores e fazia cálculos na divisão de propina na Transpetro da Petrobrás . A força tarefa daquela operação encontra anotações do diretor financeiro Pietro Bianchi, da construtora Camargo Correa, associados a Sérgio Machado. O Ministério Público detalha a conta da Camargo Correa no Banco de Andorra transferindo valores para o HSBC Private Bank Zurich, em benefício da Jaravy Investments Inc. com sede no Panamá.

Ao anular a “Operação Castelo de Areia”, o Superior Tribunal de Justiça impediu as investigações, só retomadas com a Operação Lava Jato.

SERGIO MACHADO – Como o tempo é o senhor da razão, em dezembro a Polícia Federal executou mandados de busca e apreensão na Transpetro e nos endereços de Sérgio Machado. Ele era alcançado pela chamada “República de Curitiba”. Apareciam contas no exterior envolvendo seus filhos no esquema de corrupção montado na estatal.

Antecipando a possível prisão pela Lava Jato do bravo, exemplar e intransigente juiz Sergio Moro, Machado buscou em Brasília a Procuradoria Geral da República (PGR), garantindo entregar todo o esquema corrupto e os benefícios políticos dos desvios milionários dos recursos transferidos para os senadores que garantiram sua nomeação, por longo tempo, na presidência da Transpetro.

Na deleção premiada, o infame saía de gravador escondido até em camas de hospital, captando conversas com Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, surgindo secretos diálogos não conseguindo gravar os senadores Edson Lobão e Jader Barbalho, nominou os cinco parlamentares como recebedores de vários milhões de reais da fortuna corrupta que administra. Na PGR, garantiu a devolução de R$ 75 milhões incorporados a seu patrimônio. No fim teve homologada pelo ministro Teori Zavascki, do STF, a sua delação que atingiu a cúpula do Senado no PMDB.

Machado cumprirá pena de dois anos e pouco na confortável residência na praia do Futuro, em Fortaleza, “em paz com a sua consciência”, como afirma. Nesse tempo de reclusão, contemplará os verdes mares cearenses sonhando com “pedras preciosas” da riqueza no seu “dolce far niente”.

CANTANHÊDE – A incansável e incomparável jornalista Eliane Cantanhêde, em “O Estado de São Paulo”, sob o título “Pena Leve”, constatou:

“Machado roubou mais para ele do que para qualquer partido. Quem devolve R$ 75 milhões desviou quanto? Ainda fica com quanto? Multa e tornozeleira desacreditam a máxima de que o crime não compensa”.

E tudo começou em Londrina

Bernardo ia ser nomeado diretor-geral da Itaipu Binacional

Sebastião Nery

Em 1954, o principal líder estudantil e presidente da União Paraibana de Estudantes era o François, de Campina Grande, na Paraíba. Preparando o congresso nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes) que seria no Rio, uma comissão foi ao Norte e Nordeste. Em Campina Grande, o François nos garantiu que a maioria da delegação paraibana votaria com a esquerda. E votou. 20 anos depois, em 1974, recebi no Rio um telefonema de Londrina: “Nery, aqui é o Leite Chaves, o François de Campina Grande. Sou candidato a senador pelo MDB do Paraná. Queria que você viesse ao comício de lançamento de minha campanha, para dar um depoimento sobre minha atuação no movimento estudantil, no nosso tempo da UNE”.

Cheguei à tarde. O comício era à noite.No aeroporto,faixas e uma charanga tocando a musica da campanha.Vi logo o François: “François, companheiro!”

François deu um passo à frente, me abraçou e disse ao ouvido: “Nery, não fale em François, pelo amor de Deus. Aqui em Londrina sou o doutor Leite Chaves, advogado. François aqui é cabeleireiro”.

UM SENADOR EXEMPLAR – O doutor Leite Chaves, em plena ditadura, fez uma campanha brilhante pela oposição, ganhou e foi um senador valente e exemplar.

Infelizmente em Londrina não havia apenas a banda boa do Leite Chaves, com seus companheiros José Richa prefeito, senador e governador, Alencar Furtado várias vezes deputado, Helio Duque três vezes deputado, Álvaro Dias governador e senador, Luiz Gonzaga e tantos outros. Também havia a banda podre que nasceu lá atrás com José Janene deputado, Alberto Youssef doleiro, Antonio Belinati deputado e duas vezes prefeito cassado.

O Mensalão estava em Londrina com Janene. O Petrolão também está em Londrina com o mesmo Youssef do Mensalão. E reaparece a historia rocambolesca do Janene, depois feito cadáver insepulto. E não é que quem assinou o atestado de óbito do Janene foi o Youssef?

BERNARDO E GLEISI – Na “Folha de São Paulo” a Estelita Carazzai e a Marina Dias contam que quando o governo de Lula surfava em popularidade, seu ministro Paulo Bernardo e a senadora Gleisi Hoffmann (PT), mulher dele, tinham agenda cheia no Paraná.

Afastado do ministério, Bernardo foi enfim preso e depois solto. À frente do Planejamento entre 2005 e 2010, com o orçamento federal na mão, aproximou-se de prefeitos e deputados. Apesar de eleito para três mandatos, era conhecido apenas em sua base eleitoral, o norte do Paraná, para onde se mudou em 1982. Lá iniciou carreira no sindicalismo, dirigindo o Sindicato dos Bancários de Londrina.

PARCERIA POLÍTICA – Com a mulher, Bernardo construiu uma parceria política. Em 1999, ela o acompanhou para ser secretária de Estado no Mato Grosso do Sul, durante a gestão Zeca do PT – ele assumiu a pasta da Fazenda. Também foi assim em Londrina, em 2001 e 2002, quando foram secretários municipais.

Em 2003, quando voltou à Câmara e ela assumiu a diretoria financeira de Itaipu (onde há dinheiro o PT vai atrás), as carreiras do casal decolaram. Bernardo era um dos principais articuladores das campanhas de Hoffmann. Embora parte da militância torcesse o nariz (logo o narizinho!) para eles, não conseguiram conquistar o eleitor paranaense, avesso ao PT.

Com a rejeição ao governo Dilma e as denúncias envolvendo o PT, o plano foi abaixo. A votação de Hoffmann caiu de 2,2 milhões em 2006, quando concorreu ao Senado, para 881 mil na sua última campanha ao governo, em 2014. A senadora chegou a ser hostilizada no aeroporto de Curitiba. Em maio, ela e Bernardo foram denunciados ao STF (Supremo Tribunal Federal) sob acusação de corrupção.

MIÚDO MIUDINHO – Agora a Lava Jato descobriu o golpe do roubo “miúdo miudinho”, como no “xaxadinho”, sobre os empréstimos consignados dos pobres, pensionistas e aposentados.

Bernardo tinha medo de ser preso desde 10 de abril de 2015, quando o ex-deputado André Vargas era levado à prisão pela operação Lava Jato. Vargas era conhecido como operador de Paulo Bernardo desde que era deputado no Paraná. Quando o ex-secretário de comunicação do PT foi preso, Bernardo achava que seria o próximo. Em 2015, Dilma suspendeu a nomeação de seu ex-ministro das Comunicações para a diretoria-geral brasileira da hidrelétrica Itaipu.

Está na hora de Londrina deixar os Janenes dormirem em paz.

Vida, paixão e morte do PT

Charge do Fred, reprodução de Notícias UOL

Sebastião Nery

O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina, Em 1978, o jovem prefeito de Criciúma Walmor de Luca, líder estudantil de esquerda, deputado federal de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um seminário trabalhista nacional com os grupos políticos que se reorganizavam no país lutando pela anistia e as eleições diretas e com as mais destacadas lideranças sindicais da oposição.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, líder dos bancários do Rio Grande do Sul. Perguntei a Lula:

– Quem é esse Olívio?

– É o melhor de nós. Olívio é quem vocês pensam que eu sou.

Também estavam lá Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo, e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, do Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará, o pais quase todo.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: o movimento sindical deve ter partido político? As lideranças sindicais devem entrar para partidos políticos?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Durante dois dias discutimos muito. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas, cassados ou não, ligados a Leonel Brizola (José Talarico, Rosa Cardoso, João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido, liderado por Brizola, que havia saído do Uruguai e ido para os Estados Unidos.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os do Rio Grande do Sul, de Minas, de São Paulo, do ABC, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? Esses necessitavam de cobertura política. Lembrei os sindicatos do fumo e cacau no Recôncavo e no sul da Bahia.

LULA PEDIU UMA ÁGUA -No último dia, no jantar, vi Lula mudando de posição. Já rouco de discutir, pediu uma água. Veio, toda branquinha, em uma garrafinha. Pedi um gole. Era uma cachaça mineira. Pediu outra. E fez um belo discurso, caloroso, defendendo as lutas dos trabalhadores nos seus sindicatos. Mas não combateu mais os partidos. Concordou que era uma luta só.

De Criciúma Lula saiu direto para Belo Horizonte e Salvador. Foi conversar com os petroleiros de Minas e da Bahia, onde já o esperava o presidente do Sindicato do Petróleo e deputado socialista Mario Lima.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho do PT.

SOB AS BÊNÇÃOS DA IGREJA – No dia 10 de fevereiro de1980, em um colégio de freiras, em São Paulo, sob as bênçãos da Igreja e nos braços dos trabalhadores do ABC, nascia o PT, o mais luminoso partido da história política brasileira. Mais até que a Revolução de 30, um parto das oligarquias, o PT era um filho do povo, comandado pelos trabalhadores e acalentado pelos estudantes nas faculdades, pelos padres nas sacristias. Sob as bênçãos de Deus.

Em Santo André, vigilante, firme e lúcido, Dom Jorge Marcos de Oliveira, o bispo do PT. Apoiando-o com seu quase silêncio e sua sabedoria, o arcebispo Dom Evaristo Arns e Dom Balduino, Dom Pedro Casaldaliga, Dom Jairo Matos no sertão baiano. Logo a melhor juventude brasileira começou a ver no PT uma tocha para as suas esperanças. E a universidade, que mal sabia onde ficavam os sindicatos, viu no PT o seu futuro. Mas de repente chegou o poder. E o PT mergulhou profundamente no lamaçal da corrupção.

LULA DESCOBRIU O DINHEIRO – Lula, o operário do ABC, descobriu o dinheiro. E o triplex de Guarujá e o sítio de Atibaia, o contubérnio com as empreiteiras e, mais grave, o escândalo dos escândalos que está surgindo agora nas lanternas da Lava Jato: os 50 bilhões de dólares do BNDES distribuídos com os ditadores amigos e em propinas externas que já estão surgindo.

O advogado Luiz Francisco Correa Barboza disse ao Globo: “Não só Lula sabia do Mensalão como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora”.

No dia 12 de agosto de 2005, em um pronunciamento, pela TV, a todo o povo brasileiro, Lula pediu “desculpas pelo escândalo”. Os companheiros do partido no banco dos réus e ele, só ele, de fora. Logo ele que é o grande réu, “o réu”.

Um gênio chamado Glauber e a união de Educação e Cultura

Glauber, fazendo seu primeiro filme, “Barravento”

Sebastião Nery

Na boate do Hotel da Bahia, onde eu morava, em Salvador, em 1963, numa noite de sexta-feira, depois do jantar, eu ouvia o Blecaute, o negro cantor de voz calorosa, com suas canções americanas, acompanhado de uma jovem alta, esguia e bela, gaúcha e também negra, bem negra, com olhos de amêndoa. Depois de cantar, veio sentar-se à minha mesa.

Era a Leila. Entrou Glauber Rocha, agitado e falando atropeladamente no filme que ia fazer, “Barravento”. Apresentei-lhe a Leila. Ainda de pé, Glauber olhou longamente para ela, chegou bem perto do rosto e gritou alto:

– Sophia Loren em negativo!

Sentou-se. A Leila ficou surpresa, assustada. Ele continuou:

– Você nunca fez cinema? Nunca a chamaram para filmar?

– Não. Sou de Porto Alegre. Eu só canto.

– Você vai fazer um teste de fotos e de fago.

Ela ficou parada, ansiosa. Falei-lhe mais do Glauber, de sua liderança em um grupo de jovens intelectuais baianos, ela sorriu aliviada:

– Claro que aceito. Sempre sonhei com isso. Quando será?

– Amanhã. Mas antes temos que resolver um problema. Seu nome. Leila é bonito, mas não é nome de atriz. Tem que ser outro.

E ficou pensando. Entrei na conversa:

– Que tal Luiza?

– Ótimo, disse Glauber. É simples e forte. Mas tem que ser duplo.

Levantou-se, foi até o bar, pediu uma água, voltou:

– Já tenho o nome: Luiza Maranhão.

Tímida, a gaúcha Leila, a nova Luiza, respirou fundo:

– Também gostei muito. E você, Nery?

– Ótimo. Para manchete de jornal e capa de revista é perfeito.

E nasceu ali a deslumbrante e queridíssima atriz Luiza Maranhão. Marcamos encontro para as fotos no dia seguinte, na redação do “Jornal da Bahia”, onde Glauber era editor de Polícia e eu colunista. Ela só voltou a Porto Alegre depois de filmar “Barravento”, primeiro longa de Glauber. Depois Glauber fez o clássico “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e outros. Ele era isso: um “vulcão cultural”, como o chamou em magnífico livro o João Carlos Teixeira Gomes, o primoroso poeta Joca.

CINEMA NOVO – A revista francesa “Cahiers du Cinema”, a bíblia dos cinéfilos, elogiou o filme “Cinema Novo”, que recebeu a “Palma de Ouro” de documentário no Festival de Cannes, na França. O documentário é de Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha (1939-1981). A revista diz assim:

– “O Cinema Novo é o cinema do futuro: Eryk Rocha restitui a força criativa, a energia incandescente, o desejo e a paixão de um movimento que nunca deixou de ser contemporâneo”.

Como dizia Otavio Mangabeira, “baiano bom é o que brilha lá fora”.

CPC-UNE

Eram mil coisas ao mesmo tempo, naqueles tumultuados dias do governo João Goulart. Impulsionado pelo meu “Jornal da Semana”, tinha acabado de me eleger deputado. O candidato do PCB (Partido Comunista) a deputado estadual, meu amigo Aristeu Nogueira, não se elegeu. Ficou como primeiro suplente do Partido Socialista.

O PCB queria criar na Bahia o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) e não tinha recursos. Fui a Brasília. O perene e incansável Waldir Pires, então Consultor Geral da Republica, me encaminhou ao MEC (ministro da Educação e Cultura, Julio Sambaqui). O dinheiro só poderia ir através da Inspetoria Seccional do MEC em Salvador. Era um grande baiano, ex-prefeito de Mutuípe, Julival Rebouças. Para cuidar da verba, um funcionário federal, Noenio Spinola, depois consagrado jornalista, diretor de redação do “Jornal do Brasil”.

E foi assim que, também com a lucidez e o estimulo do grande reitor da Universidade Federal da Bahia, o professor Edgard Santos, começaram a nascer esses maravilhosos tsunamis culturais baianos que foram o “Cinema Novo” e a nova “Musica Baiana”.

Instalado no sub-solo da Faculdade de Direito, ali na Piedade, o CPC trouxe Gilberto Gil de São Paulo, Tom Zé de Irará, Caetano e Maria Betânia de Santo Amaro e outros de outros lugares e setores, como as artes plásticas, a musica clássica, o teatro, escritores como João Ubaldo Ribeiro, Flavio Costa, Paulo Gil Soares. Outros, como o pioneiro Gilberto Gil, já ensinavam.

Hoje, estão ai ridículos e desinformados, faturadores da Lei Rouannet combatendo a união da Educação com a Cultura, como se a principal revolução cultural brasileira deste século não tivesse nascido exatamente da junção da Educação com a Cultura no CPC do PCB. Perguntem a Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor (Paulo Pontes e Vianinha não respondem mais).

As duas esquerdas (positiva e negativa) de Santiago Dantas

Tancredo e Santiago, dois gênios

Sebastião Nery

Naquela noite de 1963, já quase 1964, Santiago Dantas jogou sua ultima cartada. Doente, muito pálido, falando com dificuldade, comido por um câncer atroz, já arrumando as gavetas da vida com a violência de sua luminosa lucidez, convidou deputados, líderes sindicais, dirigentes estudantis e, sobretudo, o comando da Frente de Mobilização Popular de Brizola, para uma conversa em sua casa da rua Dona Mariana, no Rio de Janeiro, cercado de arvores e livros. Tentou um último esforço para salvar o barco da República, que adernava, escorregando o governo de João Goulart para o naufrágio.

Santiago imaginou, elaborou, articulou, coordenou uma Frente Ampla (a de Lacerda, em 1966, foi a segunda; o nome é direito autoral de Santiago) que conseguisse reunir do PSD ao Partido Comunista, passando pelo PTB e pelo PSB, todas as forças naquele momento comprometidas com a defesa da democracia, para evitar que a radicalização do processo político acabasse levando, como levou, o País ao impasse do golpe militar.

SEM ENTENDIMENTO
Foi impossível um entendimento. A esquerda (o PTB, o Partido Socialista, o Partido Comunista e outras forças reunidas na Frente de Mobilização Popular de Brizola) já havia dado um salto para a radicalização do processo, denunciando “a política de conciliação de João Goulart” e a “aliança com o PSD”, que Santiago considerava o lastro do pacto político e social do País.

Depois de horas de debates, Santiago, exausto, visivelmente desencantado, tirou o lenço do bolso, limpou longamente os óculos, pôs a mão no ombro do deputado Mário Lima, presidente do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, um dos poucos que ali aceitavam a proposta de Santiago, e suspirou:

– Tenho a impressão de que o resto desta discussão será da cadeia.

Foi. Sem ele, que logo depois morreria, mas com todos nós presos.

SANTIAGO
No Governo de João Goulart, Celso Furtado formulou o Plano Trienal com disciplina na política econômica e forte ajuste fiscal. Foi combatido e boicotado por uma parte da esquerda no governo. Santiago apoiou Celso dizendo que no Brasil havia duas esquerdas, a positiva e a negativa. Não teve tempo de dizer, mas a negativa ajudou a derrubar Jango.

Santiago, que já nasceu sábio, fazia parte do “Grupo de Itatiaia”, com Augusto Schmidt, Jorge Serpa, Antonio Balbino, Chagas Freitas, Antonio Galotti, Gerardo Mello Mourão, filósofos, poetas, juristas que se especializaram em variadas sabedorias. Na Faculdade Nacional de Direito, onde a maioria estudou, Santiago disse a Balbino:

– Sou cristão. Como cristão, devo ser modesto. Só peço a Deus que me dê três coisas: cultura, dinheiro e poder.

Quando já tinha cultura e dinheiro, Santiago foi a João Goulart:

– Presidente, quero entrar no PTB porque não sou burro.

– Mas o senhor não é o grande advogado das empresas estrangeiras? A linha do PTB é nacionalista, professor.

– Presidente, se o senhor me der sua licença e me ajudar, eu mudo.

A partir daquele dia, Santiago foi conselheiro de Jango.

Santiago candidatou-se a deputado federal por Minas, em 1958. Jango pediu a Doutel de Andrade e Raul Ryff que fossem lá “ajudar o professor na campanha”. Chegaram a uma cidade do interior, foram almoçar com um velho magrinho, muito calado, desconfiado, chefe político do PTB local. Santiago, como sempre fazia, começou a falar aplicadamente sobre a história da cidade, seus fundadores, sua economia. Sabia tudo. Não entrava num município sem se preparar convenientemente. Encantou a todos: prefeito, vereadores. E o velho magrinho, calado, desconfiado, na cabeceira da mesa. Quando se fez silêncio, o velhinho levantou a voz:

– Quer dizer, professor, que o senhor quer ganhar só no “boquejo”?

O professor não queria. Abriu a pasta, fez um cheque, teve os votos.

EM CRACÓVIA
Santiago estava na Polônia, recebendo o título de doutor “Honoris Causa” da multissecular Universidade de Cracóvia. Na solenidade, deu-se conta de que não preparara por escrito o discurso de agradecimento.

Mas era preciso não ser indelicado. Chamou o embaixador Marcílio Marques Moreira, seu assessor, pediu-lhe algumas folhas em branco, levantou-se com elas nas mãos e, fitando-as com firmeza, pronunciou longo discurso em francês, como se estivesse lendo. Só Marcílio sabia.

BALANÇO DO PT
1.- O professor Marcelo Medeiros, da Universidade de Brasília e os pesquisadores Pedro Ferreira e Fábio de Castro, do Ipea, constatam que não houve queda na desigualdade da renda do Brasil (como dizem Lula e o PT): os 5% mais ricos em 2006 tinham 40% da renda total. Em 2012 já era 44%.

2.- Os encargos e juros da dívida pública pagam, em um ano, o equivalente a 15 anos do “Bolsa Família”.Na outra ponta de apropriação de renda, a “Bolsa Empresário” foi ativa integrante da agenda daqueles governos. E não ficou apenas no BNDES, mas se estendeu a subsídios, desonerações e regimes diferenciados para setores privilegiados.

Vi a morte na tarde azul, junto com Tancredo e Ulysses

Ulysses e Tancredo estavam juntos, na aterrissagem forçada

Sebastião Nery

Treze horas na sala Vip do Aeroporto de Brasília. A “Frente de Redemocratização” se preparava para o voo da Vasp para Goiânia, onde fariam um comício. Sentados nas macias poltronas negras, Magalhães Pinto e dona Berenice, deputados Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, senadores Teotônio Vilela, Mauro Benevides e Evandro Cunha Lima, deputado Rafael Almeida Magalhães, jornalistas Sílvia Fonseca, de O Globo, Marcondes Sampaio, Nélson Penteado e eu, da Folha.

O general Euler Bentes e os senadores Roberto Saturnino e Marcos Freire haviam vindo ao Rio e seguido de automóvel com o jornalista Pompeu de Souza. Chega uma jovem da Vasp e avisa que o voo ia atrasar porque o avião estava em conserto, na pista. Quando anunciaram o voo, pela porta víamos na pista mecânicos deitados embaixo do avião, puxando carrinhos e consertando coisas. Fomos. Exatamente às 16:00, o avião rolou na pista, foi até o fim, decolou, mas em visível dificuldade.

Começou a voar baixo, muito baixo, sobre o planalto verde. A asa direita bastante inclinada, os motores trêmulos, entrou em longa curva e a arquitetura branca de Brasília ali cada vez mais perto. Voou alguns minutos e, de repente, a aeromoça, com voz tensa, informa:

– Senhores passageiros, vamos voltar para o Aeroporto de Brasília, em emergência. Fiquem tranquilos, vai dar tudo certo, é uma pane no sistema hidráulico. Façam o obséquio de tirar canetas, objetos, folgar as gravatas, tirar os relógios, anéis, alianças e curvar o corpo sobre os joelhos.

A PANE

E a aeromoça morena, muito calma, e duas bem alvas, nem tão calmas, passaram a distribuir travesseiros e cobertores para o apoio do rosto, e pegar embrulhos, objetos e levar lá para o fundo. Um passageiro, atrás do deputado Tancredo Neves, chama a aeromoça baixinho:

– Não estou entendendo porque tirar tudo.

– Meu senhor, há uma pane no sistema hidráulico. Se, ao tocar o chão, o avião virar, haverá incêndio e é preciso sair rápido.

Olhei o relógio, 16:22. Tive consciência da gravidade e me preparei para ver o máximo de detalhes. À minha frente, a Sílvia tira a aliança. Põe novamente no dedo e diz a Marcondes, que era uma pedra de tranquilidade:

– Não vou tirar a aliança não. Sei que vou morrer e só poderei ser reconhecida por ela. Não quero meu marido chorando em cova errada.

Imediatamente peguei meu relógio, que havia posto no bolso, e pus novamente no pulso. Também queria ser reconhecido. Atrás de mim, Magalhães Pinto segura forte a mão de dona Berenice que, de olhos fechados, reza profundamente. Ulysses e Tancredo, impassíveis, olham em frente sem piscar o olho. Teotônio aperta ao máximo o cinto e Rafael folga a gravata e curva o corpo sobre os joelhos. Mauro Benevides olha pela janela em silêncio. Evandro Cunha Lima, vermelho. Lá na frente, uma mulher chora, mas chora baixo. A seu lado, uma cigana toda de roxo treme e reza lívida, os olhos molhados. Sílvia sorri:

– Meu Deus, olha uma cigana!

Sílvia volta o rosto sobre a cadeira:

– Nery, você está pálido.

– O que é que você queria? Que, com esse medo estivesse luminoso?

O MEDO

E ela ficou longamente olhando pela janela, serena, como os que sabem que vão morrer e se conformam.O avião vai descendo, passa baixo sobre um campo verde. Ao longe três grandes carros vermelhos dos Bombeiros, uma ambulância e dois carros azuis da Aeronáutica. Fico olhando o azul muito azul da tarde linda, nuvens brancas esgarçadas lá longe no horizonte interminável do planalto, uma novilha esgalga andando mansa no pasto e o avião trêmulo mas tranquilo, descendo empenado.

Amarrei o medo dentro de mim como um louco incontrolável, e por segundos mergulhei infinitamente nos braços da morte. Uma procissão de amor passou em relâmpago: meus pais, filhos, a infância, meu amor azul, Santo Afonso Maria de Liguori nas “Meditações sobre a Morte”, de manhã, no Seminário da Bahia: “É preciso conquistar a intimidade da morte”.

O avião avançava sobre a pista e entre faíscas se arrastou até o fim.

O medo voltou frio, e o “Domingo Azul do mar”, de Paulo Mendes Campos, entrou olhos a dentro, na estupidez de morrer na tarde azul.

O CATA MILHO

Não seria um ministério. Seria um cata-milho. De tal maneira o PT abastardou a vida pública nacional que agora queriam o MINC (Ministério da Cultura) reduzido a um lupanar de picaretas arrancando verbas em troca de votos. Iludem-se imaginando que o pais não vê.

Os verdadeiros criadores culturais continuarão nos palcos com suas peças, seus filmes, seus espetáculos, seus livros, suas artes, honrando a cultura e a vida da Nação. Pouco importam os impostores. A historia sempre caminhou para a frente e a máfia cultural vai ficando atrás.

O que conta são os o que contam. O que contou foi Gustavo Capanema, Anísio Teixeira, José Aparecido, Celso Furtado, Antonio Houaiss, Luis Roberto Nascimento Silva, Francisco Weffort.

O beijo de Judas de Sérgio Machado e o gravador do Juruna

Juruna era um Sergio Machado com caráter

Sebastião Nery

Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças, Mato Grosso, estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que, em Brasília, “governo de branco mente”.  Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que trouxesse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysâneas Maciel e a mim para recebermos Juruna no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, na Avenida Atlântica, em Copacabana, onde Darcy os esperava. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado. Mal falava português. Na mão, uma pasta aberta. Na pasta aberta um gravador.

Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando duro para Brizola. Darcy disse a Brizola que ele não se sentava porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele se sentou.

Brizola pensou em lançá-lo para o Senado, mas Juruna saiu candidato a deputado federal, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

LENDO OS JORNAIS

Em Brasilia, com 12 filhos, Juruna morava no 1º andar da quadra 202 Norte, prédio dos deputados, e eu no 5ºandar. Quase toda manhã, sempre entre as nove e as dez, Juruna chegava com um punhado de jornais, tocava a campainha, todo solene, não cumprimentava ninguém, só perguntava:

– Nerú tá?

Ia para meu escritório, jogava os jornais na mesa, trancava a porta:

– Nerú, Juruna confia em Nerú. Nerú não conta pra ninguém que Juruna não sabe ler. Jornal fala de Juruna?

Eu já tinha lido alguns, olhava rápido os outros, lia para ele, marcava o nome dele em lápis vermelho, ele rasgava o pedaço, dobrava, punha no bolso e saía sem se despedir, sem falar nada.

GENIAL ANALFABETO

Na Câmara, Juruna entregava os recortes à sua assessoria, como se fosse ele que tivesse lido, dizia o discurso que queria fazer na tribuna, como queria fazer, o que queria dizer. Escreviam o discurso para ele, liam e reliam, ele ia para a tribuna, repetia tudo, e ia passando lauda por lauda e pondo fora, à direita, sobre a estante, como se estivesse lendo.

Juruna ia falando mais ou menos o que estava em cada uma. É só conferir nas notas taquigráficas da Câmara. O que ele falava era mais ou menos o que estava escrito, mas não era exatamente o que estava escrito, porque Juruna não sabia ler, só escrevia o nome. Era um genial analfabeto. Esse é um segredo que guardei enquanto ele viveu. Cumpri.

ÍNDIO FILHO DA PUTA

Enganava 500 políticos que se consideravam muito mais sábios e espertos do que ele. Um dia, em Roma, muito tempo depois, à beira de um Brunello Di Montalcino, contei essa história ao inesquecível Ulysses Guimarães. Ele ficou besta. Riu muito:

– Que índio filho da puta. Me enganou quatro anos.

SERGIO MACHADO

O paíis se estarrece com as delações do ex-senador do Ceará Sergio Machado à Operação Lava-Jato comandada pelo exemplar juiz Sergio Moro de Curitiba. A “delação premiada” é um recurso legal que a justiça usa para ouvir depoimentos em troca de vantagens a prisioneiros. Há em quase todos os países. Alguns cretinos dizem que ela é como uma tortura na ditadura. Quem fala isso não sabe o que é ditadura nem nunca foi torturado. A “delação premiada” é uma troca de informações que o preso dá ou não dá. A decisão é dele. Delator traiçoeiro é diferente.É um canalha.

Temos dois exemplos para mostrar a diferença. O deputado Pedro Corrêa, de Pernambuco, depois de uma dezena de mandatos, contou minuciosamente à “Veja” sua atuação de presidente do PP (Partido Progressista), sobretudo as negociações com Lula Presidente.

Já o Sergio Machado ia visitar seus amigos em casa, 7 horas da manhã, com um gravador escondido e os atraia para armadilhas políticas. Fez isso com o ministro Jucá, o senador Renan e o presidente Sarney. Logo os três que garantiram seu emprego na Petrobrás durante 12 anos. Depois negociava as conversas. Com Sarney cometeu a suprema canalhice. Foi visitá-lo no hospital, beijou-lhe a mão e o rosto e vendeu seus segredos.

Como Judas. O Judas do Ceará.

O GRAVADOR

Juruna tinha razão de desconfiar do homem branco. Ficamos amigos na campanha de 1982, nós dois candidatos a deputado no Rio. Íamos para o subúrbio, o interior, Brizola me dizia: – “Tu estás eleito. Fala no índio”.

Eu falava, pedia votos para ele, ficou meu amigo eterno.

Tinha birra do Bocaiúva Cunha, que gostava muito dele mas o achava engraçado, ria dele, Juruna detestava quem risse dele. Desconfiava que as notas engraçadas que o Zózimo dava sobre ele na coluna eram fornecidas por Bocaiúva. Vivia dizendo que ia bater em Bocaiúva:

Chamava o saudoso Zózimo de “Gosmo”. Um dia me perguntou:

– Nerú, “Gosmo” todo dia fala de Juruna. O que é que “Gosmo” quer?

Juruna era índio. Um homem verdadeiro. Sempre de gravador aberto.

Os cinco deputados do Piantella, 14 anos depois

Acompanhados de Jucá, os cinco deputados do Piantella

Sebastião Nery

Tarde de sábado no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganho as eleições presidenciais de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estávamos a um canto, almoçando e conversando sobre o pais. De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Eliseu Padilha, da direção nacional do PMDB, e começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Voltariam logo.

Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para Chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

MAIORIA NO CONGRESSO

Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia exatamente os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.

Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB. Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso.

– Compra os pequenos partidos – disse Lula. Fica mais barato.

NASCIA O MENSALÃO

Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro da Justiça e a Previdência ficou para resolver lá na frente. E assim nasceu o Mensalão.

Quinta-feira, quatorze anos depois, na posse do governo Temer no palácio do Planalto, na primeira fila, lá estavam precisamente os “Cinco do Piantella” daquela tarde de domingo: Michel, Moreira, Padilha, GedDel e Henrique: o presidente e seus mais próximos amigos.

A RESPOSTA DA HISTÓRIA

É unânime: dos mais de 60 discursos feitos da tribuna do Senado, na noite de quarta para quinta-feira, o mais brilhante e primoroso, o mais profundo e inteligente, um discurso que ficará na Historia dos grandes discursos do Parlamento brasileiro, foi o do ex-presidente e senador Fernando Collor. O Senado o ouviu do começo ao fim em total silêncio. Como nos grandes dias do Congresso.

Infelizmente, lá não estavam, para ouvi-lo, o presidente Mauro Benevides e o relator Amir Lando, derrotados, os ex-deputados Lula, José Dirceu, José Genoino, Aloísio Mercadante, o marqueteiro João Santana, da tropa de choque da acusação, prisioneiros ou quase, e outros.

A História anda devagarinho, mas sempre chega.

GETÚLIO

Se consultar os “Anais do Congresso Nacional”, o brasileiro lerá ali um discurso do general deputado Euclydes de Figueiredo, da UDN do Rio, herói da Revolução Constitucionalista Paulista de 1932, que na Constituinte de 1946 pedia a convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para “apurar os crimes da ditadura”.

E ele dizia, da tribuna da Câmara, que foram crimes que estarreceram a nação, escandalizaram o Brasil diante do mundo e, por isso, era preciso que a Câmara os investigasse, punisse os responsáveis, para que servisse de lição para as próximas gerações. E o principal réu era o ditador, Vargas.

Por que agora esconder Lula atrás das cortinas?

OS MUÇULMANOS

Dois em um só mês. Em trinta dias, dois ilustres muçulmanos, um inglês e um brasileiro assumiram o comando de sua capital ou de seu país: o prefeito de Londres, Sadic Khan e o presidente do Brasil, Michel Miguel Elias Temer Lulia. E ainda há os idiotas que fazem discriminação racial.

Jânio Quadros, a morte da muriçoca e a dívida pública

Em família: Jânio Quadros, dona Eloá e a filha Tutu

Sebastião Nery

Chegamos cedo, dez da manhã. O ex-deputado José Aparecido, o poeta Gerardo Mello Mourão, eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na Rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado. Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos. Esperávamos Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Aparecido pediu um vinho branco. Janio escandia as sílabas:

– Não há vinho branco, Zé. O Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Vinho branco é uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Se vinho branco fosse vinho, a missa seria com vinho branco. Já viu missa com vinho branco? Os grandes porres da Bíblia, o de Noé, o de Davi, foram com vinho tinto Quando Jesus transformou água em vinho nas Bodas de Caná o vinho saiu tinto. E era tinto o vinho da Ultima Ceia.

Fomos para o almoço. A mesa, farta e colorida. Já estávamos no cafezinho, antes do conhaque e do charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio encrespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelos cabelos e geme fundo: – Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!

As lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta e grita: – Muriçoca! Muriçoca morreu!

Pensei que era alguma desgraça com a filha Tutu. Perplexos, levantamo-nos todos. Ele andando na frente, nós atrás. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente.

Dona Eloá tenta levantá-lo: – Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram.

– Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth m`a deu. Quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, Eloá, até tu. E tu também, Aparecido. Até tu. Só a Muriçoca me acompanhou na solidão e na dor.

Dona Eloá olhou para nós, desolada:

– Não diga isso, Jânio. Você sabe que não é verdade. Aqui estão seus amigos. Aqui está o Aparecido.

– Amigos, Eloá. Mas a Muriçoca era um pedaço da minha alma.

Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados, sem ter o que fazer. Revirava os olhos e arquejava: – Deixem-me só. Deixem-me com minha dor.

Aparecido quis acabar com aquilo: – Presidente, vamos para o gabinete. Os empregados enterrarão a Muriçoca debaixo das árvores.

Ele deu um salto, ficou de pé, a cachorrinha nos braços, com o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin: – Eles não, Zé. Eu. Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas, no vértice do jardim. Ficará eterna na minha saudade, sob uma lápide de bronze. Prometi-lhe, cumprirei.

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, os cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Andaluzia. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

– Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até o último dia.

JANIO EM LÁGRIMAS

Um rapaz trouxe uma picareta, Janio começou a cavar. Vermelho, em lágrimas, cavava e suava. Luis Carlos Santos e Robertão chegaram com a cal. A cova estava pronta. Dona Eloá pediu flores ao empregado. Jânio pôs Muriçoca na cova, cobriu-a de flores, disse uma série de coisas incompreensíveis, chamou o padre Godinho:

– Padre, uma prece última, por favor. Ela era um ser humano. Reze liturgicamente a derradeira prece.

Padre Godinho, entre a liturgia, que não permitia, e o amigo enlouquecido, olhou para mim e começou a recitar, em seu perfeito latim, um belo poema do poeta romano Horácio. Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía.

Voltei lá outros dias. No vértice do jardim, com o nome da Muriçoca e a saudade de Janio, uma lápide de bronze cobria o túmulo de Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou a Muriçoca.

DÍVIDA PÚBLICA

No final de fevereiro, a dívida bruta da União, Estados e Municípios ultrapassou R$ 4 trilhões, crescendo R$ 4,2 bilhões por dia. A dívida pública federal responde por R$ 2,9 trilhões. No ano passado, a União, os Estados e municípios cortaram 35% dos investimentos. Em contrapartida os investimentos privados seguiram no mesmo rumo. O investimento público e o privado é que elevam a capacidade produtiva da economia.

A previsão da morte de Tancredo e a vidente do Alvorada

Sebastião Nery

Ela chegou com um sorriso aberto no rosto jovem e bonito, elegante, simpática, turbante na cabeça, colares, braceletes, joias esfuziantes nos dedos e um olhar distante, misterioso. Era dona Flávia, a mulher do presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã, Mário José Batista, gauchão vermelho, com cara de terra e sol. Lembro-me bem, era 8 de março de 1985, meu aniversário. As testemunhas continuam ai: Carlos Monforte, da TV Globo, Silvestre Gorgulho, do Jornal de Brasília, Milano Lopes, do Estado de S. Paulo, eu e outros jornalistas, na festa da maçã, que todo ano se realiza lá no Sul.

Jantávamos no belo Hotel Laje de Pedra, em Gramado. Faltava uma semana para a posse de Tancredo na Presidência. Surgiu o nome dele. Dona Flávia falava sobre a magia da Bahia e outras sabedorias. Ficou tensa: – Os senhores são amigos do doutor Tancredo?

– Somos, sim.

O marido, ao lado, não gostou: – Flávia, estamos aqui na nossa festa e comemorando o aniversário do Nery, não vamos falar de coisas tristes.

Silvestre insistiu: – Que coisas tristes?

Dona Flávia ficou corada, olhou serenamente para o marido: – Desculpem os senhores que são amigos dele, mas devo dar uma notícia ruim, que peço que fique aqui. Infelizmente nosso querido doutor Tancredo não vai ser Presidente, não vai assumir no dia 15. Ele vai morrer.

– Vai morrer de quê? De doença ou de um golpe militar? -perguntei.

– Não sei o que será. Mas posse ele não tomará. Tenho rezado muito para ele e para o doutor Sarney, que vai assumir. Estou vendo e conferindo toda manhã. Está nos globos, mapas, cristais, cartas, búzios, no escritório, onde os senhores estão convidados para almoçar conosco amanhã. Não sou uma profissional. Não trabalho por dinheiro. É apenas um dom, uma curiosidade intelectual, recebo amigos para sessões.

Ficamos lívidos. No dia seguinte, antes do almoço, ela nos mostrou, no vasto escritório ao lado do casarão, seus mapas, globos, cristais, baralhos e búzios. Balançando os coloridos balangandãs, apontava: – Vejam. Está aqui. Ele não vai assumir. Não vai ser Presidente.

Um leão enorme rugia e dava saltos numa jaula de ferro, aberta em cima, no meio do gramado do jardim. Fizemos um acordo. Ninguém publicaria. Alguns ficaram indignados: – Essa mulher é uma maluca.

Não era. Uma semana depois, todos já aqui em Brasília, Tancredo se internou e não voltou nunca mais.

ESTRANHA MAGIA

Agora, Brasília está vivendo dias alucinantes de estranha magia. Ninguém dá mais um tostão pelo mandato da presidente Dilma. Todo mundo já sabe que no dia 11 de maio o Senado vai aprovar a primeira fase do impeachment por uma diferença enorme de votos. O pais não aguenta mais o abismo em que o desastrado governo dela o lançou. Vai para casa.

Mas a lei lhe dá 180 dias de vadiagem no palácio da Alvorada, proibida de assinar qualquer ato ou dar palpite no governo. Mas como mantê-la seis meses sem nada fazer? Tenho uma sugestão: ela instala uma banca de magia no Alvorada e despacha com seus fantasmas: Lula, PT.

DIZ DILMA

1.- “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Teria sido a resposta de Dilma, então ministra das Minas e Energia, quando um empresário a alertou sobre os escândalos que ocorriam na Petrobrás. O bem informado jornalista Elio Gaspari, na “Folha de São Paulo” (18/04/2016) transcreveu o diálogo. À época, ela presidia o Conselho de Administração da estatal. Ao não se preocupar com “pequenas ilegalidades”, deixou o terreno fertilizado para as “grandes ilegalidades”. Seria o eixo garantidor da ação livre, leve e solta dos corruptores e corruptos na empresa. E veio logo a desastrada compra da Refinaria de Pasadena.

2.- Fato pouco destacado: nos dois governos de Lula, Dilma ao deixar o Ministério das Minas e Energia, assumindo a Casa Civil em 2005, manteve, de maneira inédita, a presidência do Conselho de Administração da Petrobrás. Eleita Presidente, ela designou o ministro Guido Mantega para a presidência do Conselho. Controlava assim a Petrobrás.

PETROBRÁS

– Em quatro anos, somente com o subsídio à gasolina, ao diesel e outros derivados, acumulou um prejuízo (atualizado) de R$ 100 bilhões. Importava o barril de petróleo na média de 100 dólares e o revendia na variável de 70/75 dólares, para mascarar os índices inflacionários.

– Há décadas, paralelamente à exploração do “pós-sal” na Bacia de Campos, o seu corpo técnico desenvolvia estudos e pesquisas para uma nova fronteira geológica: o “pré-sal”, que foi mentirosamente anunciada como o milagroso descobrimento realizado pelo governo Lula.

– A sua carnavalização, aliada ao oportunismo político e eleitoral, em falácia do mais baixo nível, atropelou a racionalidade do verdadeiro debate público que envolveria as potencialidades do “pré-sal”. Em seu lugar, a demagogia populista atropelou a realidade com o “pré-sal político”, ignorando que, nas décadas de 80 e 90 foram perfurados mais de 150 poços no “pré-sal”.

A falta que fazem os grandes parlamentares

Sebastião Nery

Um dia, quando sobre nossos dias ainda mais se dobrarem as páginas do tempo e a crua crônica daquela nossa época for totalmente escrita, muito se há de dizer daqueles homens que construíram aqueles tempos. Volto a Brasília anos depois e, como dizia o poeta, “em cada canto uma saudade”. Não há colinas como em Roma, mas colunas como no Alvorada. Penso em Juscelino, Lucio Costa, Niemeyer. Mas também em Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Burle Max.

O tempo não volta. O tempo rola. Não há por que querer o passado agarrado nas nossas pernas. Entro no Congresso e não podia mesmo ser o mesmo. O país muda, o voto muda, os lideres mudam. Mas também não precisa aquele deprimente espetáculo de baixo nível mental na votação do Impeachment, chamando a vovozinha, a mãezinha, o filhinho, o netinho.

A Nação não precisava esperar votos da altitude intelectual de Otavio Mangabeira e Carlos Lacerda, de Vieira de Melo e Ulysses Guimarães. O voto de hoje é assim porque os lideres de hoje não são mais Tancredo Neves, Leonel Brizola, Franco Montoro, Miguel Arraes, Orestes Quércia, Pedroso Horta, Petrônio Portela. José Aparecido, Teotônio Vilela.

OS ELEITORES

Não culpemos o povo. O povo vota em quem conhece. Um dia as escolas formarão eleitores que votarão melhor. Sem choro nem vela.

Saímos do “Mensalão” para o “Petrolão”, a caminho do “Fundão”. O novo escândalo está vindo aí. A poupança voluntária, administrada pelos fundos de pensão, é instrumento do desenvolvimento. A poupança interna brasileira tem, na riqueza gerada dos seus assalariados de classe média e trabalhadores, poderoso instrumento na maximização da prosperidade em algumas das maiores empresas e empreendimentos na economia brasileira. O fator segurança nesses investimentos decorre da visão de longo prazo para o seu fluxo de caixa em um universo temporal de 35 a 50 anos. O gestor deve ter disponibilidade de recursos para atender as necessidades decorrentes dos pagamentos dos aposentados e pensionistas.

HÁ 278 FUNDOS

Existem no Brasil 278 fundos de pensão públicos e privados. Os dez maiores são vinculados a empresas estatais e representam 53% do total do patrimônio e real capacidade de investimento. O grande patrimônio formado pela poupança voluntária de milhões de trabalhadores não pode ser administrado ignorando os critérios de competência técnica.

Com a chegada do PT ao poder e o ativismo sindical originário do Sindicato dos Bancários de São Paulo, a competência técnica foi substituída pelos sindicalistas-gestores. Transformaram-se em instrumento de governo, patrocinando investimentos nada ortodoxos, arrombando a Previdência Complementar.

O grande teórico do modelo foi o falecido sindicalista Luiz Gushiken, ex-deputado federal e ex-presidente do sindicato paulista, ao ser nomeado chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

O sindicalista Berzoini ocuparia o Ministério da Previdência, enquanto João Vaccari assumia a presidência do Sindicato em São Paulo.

FUNDÃO

O aparelhamento nominal dos Fundos se daria com a ida dos sindicalistas Sérgio Rosa para a direção da Previ, do Banco do Brasil; Wagner Pinheiro para a Petros, da Petrobrás; e Guilherme Lacerda para o Funcef, da Caixa Econômica. A ocupação dos fundos de outras estatais seguiria a mesma filosofia. Todos vinculados â CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Agora, em 2015, a conta do aparelhamento se expressa nos prejuízos causados pelas operações temerárias e perdas de bilhões de reais, provocados por incompetência generalizada. No ano passado, o acumulo de déficits, destacadamente na Previ, Petros e Funcef atingiu R$ 77,8 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira de Previdência Privada, confirmado pela Superintendência de Previdência Complementar (Previc) considerada o grande xerife do setor.

Nos outros fundos de pensão o cenário não é diferente, afetando o futuro de mais de 500 mil aposentados e pensionistas.

POSTALIS

O mais dramático e chocante ocorreu no Fundo Postalis, dos Correios, que afetará a vida de 100 mil trabalhadores da ativa e aposentados. O déficit de R$ 5,6 bilhões será arcado por 71mil trabalhadores da ativa e por 30 mil aposentados.

De maneira injusta e cruel, por um período de 23 anos, a partir de maio, pagarão em 279 meses, até o ano de 2039, um déficit milionário gerado por corrupção e administração temerária. Terão descontos do salário de 17,92%, mensalmente, desfalcando o orçamento de dezenas de famílias.

A medida injusta foi aprovada pelo Conselho de Administração dos Correios. A dilapidação patrimonial do Fundo será paga pelos próprios funcionários.

Golpe de estado foi o que ocorreu em 1964

Em 1964, o golpe militar nada tinha de democrático

Sebastião Nery

O Centro Edgard Leuenroth, da Universidade Estadual de Campinas, onde toda a documentação do Ibope está arquivada desde sua fundação, tem depositada uma documentação do Ibope provando que nas vésperas do golpe militar de 31 de março de 1964 a popularidade do presidente João Goulart era de 74%. O levantamento foi feito entre os dias 9 e 26 de março de 1964, incluindo oito capitais brasileiras, atestando que Goulart tinha 74% de apoio dos brasileiros.

Em tempo: Dilma Rousseff tem hoje também 70%, mas de impopularidade. Exatamente o contrário). No Estado de São Paulo, principal base de combate ao seu governo, 69% dos paulistanos apoiavam Goulart, com a seguinte distribuição: 15% consideravam a administração “ótima”; 30% “boa” e 24% “regular”; e 16% entendiam ser um governo “péssimo”.

Durante 35 anos a Pesquisa Ibope, contratada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, permaneceu sigilosa, proibida pelos militares de ser divulgada. A pesquisa atestava também que 59% dos brasileiros apoiavam as “reformas de base”, seu programa de governo.

GOLPE DE 64

Neste ano de 2016, Lula e Dilma Rousseff buscaram traçar paralelo entre a situação atual e a crise que levou ao “Golpe de 64”. É um delírio dos ignorantes da história. A substituição de uma presidente da República pelo impeachment, obedecendo a todo o rito constitucional, é um ato democrático amparado pela Constituição. Acreditar que a ação golpista contra Goulart tinha na “impopularidade” o seu fundamento é de uma falsidade gritante. Ao contrário, o ‘pecado’ de Jango foi exatamente a popularidade de seu governo, determinante para a sua deposição.

Certos de que Juscelino Kubitschek ganharia as eleições do ano seguinte (1965), comandantes militares brasileiros e americanos, dominados pelos interesses dos Estados Unidos, juntaram-se à UDN de Carlos Lacerda e outros e deram o golpe sem nenhuma reação. Ao contrário do que dizia a UDN, o povo não tinha armas. E Jango não quis jogar o país numa guerra civil e entre militares brasileiros.

CELSO FURTADO

A defesa dos interesses nacionais e não a corrupção, em tempos de radicalização da “Guerra Fria”, foi testemunhada e demonstrada por Celso Furtado na obra autobiográfica “A Fantasia Desfeita” (II tomo, página 253), onde relata episódio insólito. Celso era ministro do Planejamento. Tramitava no Congresso Nacional, por iniciativa parlamentar, um projeto de reforma bancária. O ministro da Fazenda San Tiago Dantas recebeu ultimato do banqueiro americano David Rockefeller:

– “Ou vocês tiram de imediato esse projeto de lei ou mando cortar todas as linhas de crédito que hoje beneficiam o Brasil”.

E continua Celso Furtado:

– “San Tiago dava a impressão de estar arrasado. Mas longe de esmorecer, continuava a empenhar-se para criar um clima de compreensão nos círculos de negócios dos Estados Unidos. Se fracassasse na tentativa, as incertezas cresceriam com respeito ao processo político brasileiro.”

E foi o que aconteceu em 1964: tanques na rua e nós na cadeia.

Isso sim é que é golpe.

DILMA PERDIDA

Domingo foi diferente : foi um dia de desfile democrático diante das televisões. Um a um, os 513 deputados foram chamados para darem seus votos, livremente, abertamente, sem coações partidárias. Salvo um ou outro caso de partidos que fecharam questão, a imensa maioria votou como quis, anunciando de viva voz e justificando os votos em pequenos discursos.

Os números finais atestam o flagrante isolamento do governo, que só conseguiu 137 votos enquanto a oposição fez 367. Mais de um terço.

LAVA VOTO

A Operação Lava Jato e o juiz Sergio Moro, além de tudo que a Nação já lhes deve, ficaram credores de mais uma: caiu significativamente o nível de corrupção nas negociações espúrias de compra e venda de votos nos três palácios: Alvorada, Planalto e Royal Tulip.

Deputados que entravam lá imaginando saírem com nomeações, empregos e até “presentes” em dinheiro eram advertidos logo ao chegarem de que ali não se falava em troca-troca, cambalacho, dinheiro fácil. Era preciso ficar de olho na Lava Jato. Se alguém fosse flagrado numa operação de delação premiada seria um escândalo sem conserto.

Imaginem se o santo vigário da Paróquia de Brasília, que ajudava Gim Argello a limpar o dinheiro sujo das propinas, fosse flagrado com R$ 350 milhões de “esmola”? Desde que Jesus Cristo fundou a sua igreja há 2 mil anos jamais se viu uma “esmola” tão generosa.

DESPACHO

A preocupação do PT no final da noite de sábado era “aonde a Dilma vai despachar” nos próximos meses antes de o processo chegar ao final. Isso não é mais problema. Ela já foi “despachada” pela Câmara Federal

O supremo telefone contornou a crise política

Charge do Ivan Cabral, reprodução da Charge Online

Sebastião Nery

No dia 11 de novembro de 1955, internado Café Filho, presidente da República, com problemas cardíacos, o presidente da Câmara, Carlos Luz, que estava exercendo a Presidência da Republica, tentou demitir o general Lott do Ministério da Guerra, para impedir a posse de Juscelino e João Goulart, que haviam ganho as eleições de 3 de outubro.

Mas não conseguiu. A Câmara reuniu-se, derrubou Carlos Luz e pôs Nereu Ramos, presidente do Senado, lá no Catete.

Antonio Balbino, governador da Bahia, amigo de Nereu, veio para o Rio visitá-lo. Nereu acabava de receber uma carta de Café Filho, comunicando-lhe que ia reassumir a Presidência. Mas o General Denis, comandante do I Exército, já havia mandado cercar a casa de Café para ele não sair de lá.

Quando Balbino chegou ao Catete, o general Lima Brayner, chefe da Casa Militar de Nereu e muito amigo de Balbino, pediu-lhe que convencesse Nereu a não devolver o governo a Café. Nereu foi claro:

– Só vou agir dentro da lei. O Café, através de Prado Kelly e Adauto Cardoso, entrou com mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal. Se o STF conceder o mandado, entrego o governo a ele e volto para o Senado.

Lott soube da conversa, chamou Balbino:

– Vá conversar com o presidente do Supremo.

Balbino foi. O velhinho estava em casa, noite alta, já de pijama:

– Ministro, o país está vivendo um momento difícil. Compreenda. A casa do Café Filho está cercada pelo Exercito. O Catete está cercado. Nereu não vai poder passar o governo.

– Mas o mandado de segurança está em pauta para amanhã. Se o Tribunal conceder, o Café vai reassumir.

– Ministro, entenda. Enquanto se fecha o Legislativo, ainda se entende. Mas, e se o Judiciário for fechado? Para onde vamos?

O presidente do Supremo levantou-se, passou para o escritório, pegou um telefone negro, antigo, daqueles de gancho, e começou a ligar para os outros ministros, falando baixinho, cochichando, cochichando.

Da sala, Balbino só ouvia fiapos de conversas. No dia seguinte, o mandado de segurança não entrou em pauta. Café continuou em casa, Nereu no Catete e JK assumiu no dia em que a Constituição mandava.

DÍVIDA PUBLICA

1.- No final de 2015, a dívida bruta do governo brasileiro atingiu 66,2% do PIB (Produto Interno Bruto). Analistas de diferentes instituições financeiras projetaram que, no ritmo atual, ao final de 2018, poderá atingir 85% do PIB. Representaria quase toda a riqueza produzida pelo País para a sua liquidação. O economista Armínio Fraga considera que “o crescimento da dívida pública é galopante e põe em risco o trabalho de décadas”, agravada pela maior recessão econômica da história no período republicano

2.- Anteriormente, no biênio 1930-1931, com a Revolução de 30 e a quebra da Bolsa de Nova York, nosso PIB encolheu por dois anos. Agora a recessão foi de 4% em 2015, projeta 4% para 2016 e 1% para 2017.

Significa três anos de contração da economia brasileira. Se os indicadores econômicos são negativos, os sociais são brutalizadores, de acordo com a pesquisa “Pnad Contínua” do IBGE, que aponta o desemprego alcançando 13,5% em 2017, representando perda de emprego e renda para os trabalhadores.

JUROS À BRASILEIRA

No Brasil, a dívida pública é remunerada na taxa Selic de 14,25% ao ano. Em 2015, significou o pagamento de juros acima de R$ 502 bilhões. No Japão, a taxa de juros é negativa de 0,05%, com títulos de dez anos do Tesouro japonês. A confiabilidade e a certeza de que o governo não vai mudar a política econômica são fator de segurança.

Nos EUA, os títulos da dívida pública são remunerados em 1,7% ao ano. Na Alemanha, a remuneração é de 1%. Na Itália, por volta de 1,5%. Os títulos da dívida pública desses países têm esse perfil de resgate decorrente do nível de confiabilidade nos seus governos. No caso do Japão, ao final de dez anos o investidor receberá valor menor do que o total do seu investimento. Resgatará menos do que aplicou.

O AZEVEDO

Vi na TV o rosto sereno do presidente (ex) da empreiteira mineira Andrade Gutierrez, Octavio Marques de Azevedo, que “propinou” as campanhas da Dilma Rousseff em 2010 e 2014, coagida pelo PT.

Nunca vi o empresário antes. Mas aquele rosto e aquele Azevedo não me enganam. Os Azevedo de Minas eu os conheço há mais de 60 anos. Em 1954, o jovem engenheiro Celso Melo de Azevedo, fundador e presidente da “Construtora Melo de Azevedo”, desafiou as velhas forças políticas de Minas (PSD, PTB, UDN), saiu candidato a prefeito de Belo Horizonte por uma aliança de pequenos partidos (PSB, PDC) com apoio das “esquerdas”, ganhou (eu me elegi vereador) e fez uma administração moderna, exemplar. Ao final do mandato, elegeu-se presidente da “Associação Brasileira dos Municípios”. O comandante de suas campanhas era o jovem jornalista José Aparecido de Oliveira.