Os bodes pretos que definiram a poltica no antigo Estado da Guanabara

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Chagas Freitas (com Cartola) gostava de se vestir de branco

Sebastio Nery

Quando o Senado e a Cmara Federal reabriram em maro de 1970, senadores e deputados governistas foram ao Alvorada para uma visita sabuja de cortesia ao novo ditador, o general Mdici. Chagas Freitas, ento deputado, foi apresentado pela primeira vez ao presidente, que lhe disse: Preciso falar com o senhor.

Chagas ficou como uma vela de culos. Puxou pelo brao o deputado Rubem Medina, da Guanabara, e um deputado da Arena de So Paulo, que tinha ouvido a conversa, e lhes perguntou, todo perturbado:

Vocs imaginam o que seja?

A sucesso carioca, evidentemente disse Medina.

Mas o deputado paulista resolveu fazer uma brincadeira:

No nada disso, e eu estou bem informado. Sua situao no est boa. No quer dizer que voc vai ser cassado. A Arena do Rio j foi avisada de que em hiptese alguma o governador ser voc. Problemas de organizao do diretrio, excessivo controle do partido. O presidente no quer uma soluo do tipo PSP (o ex-partido de Ademar) para a Guanabara.

EM PNICO – Chagas saiu do Alvorada em pnico. No dia seguinte, voltou para o Rio e chamou seu staff para uma reunio em casa: Erasmo Martins Pedro, Miro Teixeira, Rossini Lopes, presidente da Assembleia, e outros. Contou a histria e suspirou, olhando para o teto, por cima do aro dos culos:

Preciso tomar providncia urgente. J tinham me avisado que, se eu no fizer trabalhos seguros, o azar superar as possibilidades. S uma fora superior para enfrentar os servios que esto fazendo contra mim.

Erasmo, evanglico, sorriu mole, no disse nada. Rossini resolveu:

Sou cambono (aclito, ajudante de sesses de Umbanda) de Seu 7 da Lira. Dona Cacilda sabe de tudo e tem fora para desmanchar.

Tocaram para o Terreiro de Seu 7, em Santssimo. A comitiva tinha oito carros, um oficial, os demais particulares.

Chegaram exatamente meia-noite, no meio da sesso. Chagas ficou no carro, Rossini entrou sozinho, falou com dona Cacilda. Ela interrompeu a sesso, recebeu Chagas reservadamente, para ele no ser visto pela gente toda que estava l. Seu 7 fez uma cara de horror:

A situao negra. H muita gente convocando espritos maus contra o senhor. Preciso fazer, e fazer logo, um trabalho pesado com 3 bodes pretos. Nem cabra nem carneiro servem. S bode.

NA ESTRADA – Onde encontrar, naquela hora, 3 bodes pretos?Os 9 carros saram em direo a Campo Grande. Pararam beira da estrada, cabra tinha muita, mas bode nenhum. Chagas ficou com Erasmo dentro do Galaxie oficial e Rossini saiu comandando o peloto dos caadores de bode preto, todos agachados dentro do mato.

De repente, dentro da noite, vinda l do matagal, ouviu-se a voz de comando de Rossini, gritando como um possesso:

Vamos berrar que eles aparecem! Todo mundo berrando! E comearam todos a berrar:

B! B! B!

CHAGAS SUAVA… -Pelo berro ou pela sorte, s 4 da manh trs bodes pretos tinham sido capturados entre Santssimo e Campo Grande, subrbios do Rio. Chagas, aflito, suava como um co de caa. E Erasmo, todo encabulado, pensava certamente na palavra de Deus, sagrada na Bblia, que desde o Antigo Testamento proibiu adorar bodes e bezerros, mesmo quando de ouro.

Voltaram. Seu 7 abriu os trs bodes a faco, pegou as vsceras e passou, ensanguentadas, no corpo inteiro de Chagas, da cabea aos ps. A roupa branca de Chagas parecia vu de Vernica. Foi um banho de sangue.

Um ano depois, Chagas tomava posse no governo da Guanabara. Nunca mais sobrou bode preto entre Santssimo e Campo Grande.

Haja bode preto.

Alberto Silva hoje visto como um estadista em busca do impossvel

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Alberto Silva foi um dos maiores polticos do Nordeste

Sebastio Nery

O difcil a gente faz hoje. O impossvel faz-se amanh. Esta frase, lapidar, a abertura do livro Alberto Silva Uma Biografia do brilhante jornalista piauiense Zzimo Tavares. Nenhum poltico piauiense mexeu tanto com o imaginrio de uma gerao, na segunda metade do sculo 20, quanto o engenheiro Alberto Silva. Ao governar o Piau pela primeira vez, entre 1971 e 1975, consagrou um etilo de gesto que o transformaria em um mito da poltica estadual.

Com engenhosidade e capacidade incomuns de construir sonhos, tornou-se o poltico piauiense mais popular de sua poca. Em sua longa e intensa trajetria poltica, venceu e perdeu eleies; nunca, porm, perdeu a compostura.

SEM DESTEMPERO – Mesmo nos momentos mais crticos e mais tensos das campanhas eleitorais, ou nas crises mais agudas da administrao, portou-se com altivez e manteve a determinao para enfrentar e resolver os problemas.

Alberto Silva foi um dos mais impiedosamente atacados da histria do Piau, contudo, ningum jamais ouviu dele um destempero verbal. Fora do governo, amargou o ostracismo e a censura do poder, sem direito sequer de responder aos ataques desferidos pelos adversrios, por meio da imprensa.

Um otimista por natureza. Para alguns, um megalomanaco, com ideias mirabolantes e sonhos irrealizveis. O tempo, senhor de todas as verdades, mostrou que seus sonhos de fazer um Piau diferente no eram devaneios. Eram, antes de tudo, necessrios.

GRANDIOSIDADE – O tempo tambm calou seus crticos, fazendo-os reconhecer a grandiosidade de suas ideias. Embora de um jeito meio disfarado, deram o brao a torcer: Alberto era governante para um Estado como So Paulo, dono de condies econmico-financeiras e estruturais que permitem a realizao de coisas grandiosas; no para o Piau, pobre, atrasado e miseravelmente dependente da boa vontade de Braslia.

A importncia de Alberto Silva para o Piau est de tal forma gravada na cabea do piauiense que, quando algum quer demonstrar, do modo mais simples, a magnitude de sua obra, observa, apenas: Tire as obras que Alberto Silva fez no Piau e veja o que sobra.

PGINAS AMARELAS – Ele foi o nico governador do Piau a ser entrevistado nas Pginas Amarelas da Revista Veja, que se impressionou com as proezas de sua gesto! S outros dois piauienses ocupariam o mesmo e prestigiado espao, ainda assim porque exerciam destacadas posies no plano nacional: Petrnio Portella, como presidente do Congresso (1971/1973 e 1977/1979), Reis Velloso, como ministro do Planejamento (1969/1979).

Pouco, muito pouco, se escreveu sobre Alberto Silva sem objetivos e interesses polticos imediatos. Chega a ser curioso que uma figura pblica to expressiva e mltipla no tenha chamado a ateno dos historiadores e pesquisadores.

Em livros, existem poucas obras sobre ele. O jornalista Tomaz Teixeira, seu fiel escudeiro, lanou A Outra Face da Oligarquia do Piau, em 1979; e Alberto Silva O Mito e o Poltico, em 2010. So dois depoimentos sobre o dolo poltico e o seu tempo.

DOUTORADO – Na academia, a obra mais consistente e talvez a nica sobre Alberto Silva foi produzida pela professora Cludia Cristina da Silva Fontineles, da Universidade Federal do Piau (UFPI). Trata-se de O Recito do Elogio e da Crtica Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memria e na Histria do Piau. A obra fruto de sua tese de Doutorado em Histria. Foi publicada em 2015, pela Editora da UFPI, e lanada na Academia Piauiense de Letras (APL). uma densa e criteriosa pesquisa sobre o poltico Alberto Silva, seu objeto de estudo, luz de um vasto aporte terico e metodolgico.

Este livro no esgota o rico manancial sobre a vasta contribuio poltica e administrativa de Alberto Silva. No mximo, procura assimilar o essencial do homem pblico que ele foi, e de sua obra, para que sua histria seja conhecida tambm por novas e futuras geraes.

O professor e acadmico M. Paulo Nunes, um dos luminares da Academia Piauiense de Letras, costuma repetir que se dizia do educador Ansio Teixeira que ele era um homem que sonhava com as mos. Isto , um homem que pensava e realizava. O mesmo se pode dizer de Alberto Silva um homem que pensava grande e realizava, igualmente, obras grandiosas.

Futebol e poltica, numa sucesso de chutes certeiros e boas defesas

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Sergio Porto, nosso saudoso Stanislaw, dizia que no futebol a cabea o terceiro p. Os bretes o inventaram achando que aquilo era s uma brincadeira sem p nem cabea. E no entanto metade da humanidade continua em frente a uma TV.

At macacos jogam. clssica, e j contei aqui, a historia do Adalardo de Alegrete, no Rio Grande do Sul. A cidade estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado para jogar contra o Alegrete Esporte Clube. Banda de msica, bombacha e chimarro. Um furor cvico.

O GOLEIRO – Na hora do jogo, a tragdia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestirio. O primeiro reserva cara do cavalo, quebrou a perna. O outro reserva fugira na vspera com a sobrinha.

A soluo era o circo. Foram buscar o Adalardo, o macaco prodgio, que pegava coco jogado dos quatro cantos do picadeiro.

Adalardo no negou fogo. Camisa nmero um, piscando o olho e coando a cabea debaixo da trave, pegou tudo quanto foi bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delrio. Acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete cantava a trave fechada e a vitria.

Mas houve um pnalti contra o Alegrete. Adalardo achou que tinha havido uma sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que no batiam palmas? Por que no aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem todo de preto que tinha botado a bola ali na frente dele e mandara outro chutar. Antes do chute do pnalti, Adalardo enlouqueceu.

Saiu da trave aos pinotes, deu urros no meio do campo, avanou no juiz e lhe mordeu o dedo, quase arrancando. O jogo acabou empatado.

ZICO – O deputado Antonio Moraes, do MDB do Cear, professor, radialista, arranjou uma maneira de aproveitar uma Copa do Mundo para continuar a campanha contra a Arena. Ia para o rdio, pegava o microfone, comeava a irradiar uma hipottica partida de futebol:

O Coronel Virglio passa para o coronel Bezerra, o coronel Bezerra passa para o coronel Csar Cals, o coronel Cals avana, dribla, chuta .. Gooolll. Goooollll contra o Cear!

E pedia voto para o senador Mauro Benevides,o Zico de Iracema.

OSORIO – Osrio Vilas-Boas, vereador, presidente da Cmara Municipal de Salvador, candidato a prefeito, deputado do MDB, acabou cassado pelo AI-5 em 1969. Em maio de 64, era presidente do Esporte Clube Bahia, o maior do Estado. Ia embarcar para os EUA com seu time para um torneio em Nova York, recebeu ofcio do consulado americano:

Consulado Americano, Salvador, Bahia, Brasil, 19 de maio de 64.

Ilmo. Sr. Osrio Vilas-Boas, Rua Aurelino Leal, 36, nesta.

Prezado Senhor: este escritrio lamenta informar que est impossibilitado de dar o visto a V.Sa., porque se verificou que V. Sa. inelegvel (sic) para visto, sob a seguinte seo da Lei de Imigrao e Nacionalidade:

Seo 212 (a) (28) (3), a qual probe a concesso de vistos a qualquer pessoa que advogue, ou pertena ou seja filiada a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial. No entanto, poderemos dar maiores consideraes ao seu requerimento para visto se V. Sa. Obtiver e apresentar a este escritrio os seguintes documentos: atestado assinado pela polcia e pelas autoridades militares em como V. Sa. no advogou ou foi filiado a grupos que advogam a doutrina do comunismo mundial.

Atenciosamente, pelo cnsul, Roberto E. Service vice-cnsul.

Osrio acabou indo e o Bahia se vingou do consulado idiota.

VINGANA – Osrio Vilas Boas, presidente do clube Bahia por longos anos, era deputado talentoso e bom orador. Na AssemblEia, o deputado Durval Gama, mdico, no tinha condies de discutir com ele, apelou:

V. Exa. um analfabeto, no pode transformar esta casa em uma Assembleia de terceira categoria.

Sou quase analfabeto, sim, mas tenho vivncia. Conheo o mundo inteiro viajando com o Bahia. V. Exa. sabe qual a capital da Esccia?

No sei no.

Pois eu sei. Glasgow. E estive l.

Durval Gama desistiu.

NEGRO – No bar de Ipanema, no Rio, um grupo de rapazes bebia e papeava. Um deles comeou a desancar o Negro:

Nosso mal esse Negro. Vocs vo ver, vamos nos enterrar por causa dele. No tem mais jeito. O Negro est velho, cansado, preguioso. No mais aquele. Por que insistir nele? O negcio era tirar e mandar descansar. Tem muita gente melhor para o lugar do Negro.

Do lado, um policial ouvia e esperava. Quando o garoto parou para tomar flego, estava seguro:

Vamos, est preso. Est a pregando a derrubada do governador.

O senhor est maluco. Ser que neste pas a gente no pode mais falar mal nem do Pel?

Ele estava falando mal era mesmo do Negro de Lima, governador da Guanabara. Mas Pel, o outro Negro, salvou mais uma jogada.

Faroeste em famlia, na sangrenta poltica dos irmos Gis Monteiro

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Silvestre Pricles de Gois Monteiro se sentia o dono de Alagoas

Sebastio Nery

Se me aborrecerem o pau canta e no pra mais; O governador quem manda em Alagoas e o que ele faz h de ser respeitado, custe o que custar, haja o que houver; O governador me perguntou (a um deputado da oposio, preso) se eu estava armado. Respondi-lhe que no era habituado a usar armas. Sacou ento de um punhal ou faca e me ofereceu para que o matasse. Repeli. Tirou da cintura um revlver e me ofereceu para que eu o matasse.

E mais: A Assemblia est cheia de ladres pblicos. Eu vos afirmo com a responsabilidade de primeiro magistrado das Alagoas que haveremos de esmagar esses canalhas a pontaps e bofetes; Aqui quem resolve sou eu. Voc acha que eu v deixar algum meter o bedelho em Alagoas? Tenho a faca e o queijo na mo. O meu sucessor tem que sair dessa cachola. Aqui em Alagoas quem manda sou eu.

E mais ainda: Um reprter me perguntou se eu ia indicar o futuro governador. Ora, se eu sou o dono de Alagoas, como que eu ia aceitar essa coisa de indicar? Quem vai fazer o governador que me suceder sou eu. Se o general Gis me der apoio, terei 90% dos votos. Se ficar neutro, terei 70% ou 80%. Mas se o general ficar contra, pode escrever que ele apanha; A Policia Militar est pronta para cumprir e fazer cumprir a lei e at viola-la para que no seja embaraado o programa do governo. As fraquezas do regime no podem beneficiar os inimigos.

SILVESTRE PRICLES – Isso a no era conversa de Herodes, de nenhum strapa do mundo antigo ou qualquer sulto enlouquecido. Eram entrevistas de um general brasileiro, Silvestre Pricles de Goes Monteiro, governador de Alagoas entre 1947 e 1950, aos jornais do Estado, Agncia Meridional dos Dirios Associados de Assis Chateaubriand, Folha da Manh (de So Paulo), ao Correio da Manh, Tribuna da Imprensa.

O espanto nacional era tanto que seu irmo, tambm militar, o senador Ismar Gis Monteiro, do PSD, ex-interventor de Alagoas, reagiu: Alagoas est vivendo sob o regime do crer ou morrer. J esperava a sada do PSD do governador Silvestre Pricles. O seu partido o do ego e qualquer rtulo serve. O demnio anda solto em Alagoas. No pra, no cansa, enlutando lares, ceifando vidas. No sai o cheiro de enxofre, mas o cheio da plvora homicida, o odor do sangue de suas vtimas.

IMPEACHMENT – Na Assembleia, a oposio pediu impeachment ou interveno:

J disse que impeachment palavra inglesa. E interveno um termo empregado em cirurgia. Se houvesse impeachment ou interveno em Alagoas, quem poderia aplic-las era exatamente eu, porque tenho autoridade moral e patritica para faz-lo. Assassinos e roubadores esto a zombar. Aqui h muitas lagoas para afog-los

Estou aqui eleito pelo povo,no existe fora capaz de abalar-me. Repito a frase de Floriano Peixoto : Desta cadeira, s a lei ou a morte me tiram. E se existe alguma duvida sobre a minha ao, que se apressem no processo de impeachment ou interveno, para sentir as consequncias.

GOIS MONTEIRO – O general Aurlio Gis Monteiro, tambm senador do PSD, declarou: No me envolverei mais na poltica partidria de Alagoas, tradicionalmente dissolvente, e, sob certos aspectos, srdida.

Mas deu entrevista solidrio com o irmo (e contra os outros dois): Ou acabo com o PSD alagoano ou o PSD acaba comigo. Lutei durante um ano para obter um entendimento. Edgard (mais um Gis, irmo deles) tudo fez para acalmar os nimos. No h ameaas de massacre aos deputados. Ainda (sic) no h necessidade disso. Se isso vier a ser necessrio, quem comandar o massacre sou eu em pessoa.

Um poltico exemplar, chamado Paes de Andrade

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Cmara lana um livro sobre a trajetria de Paes de Andrade

Sebastio Nery

Paes de Andrade, sempre que retornava a Fortaleza, reunia em sua casa os amigos para um convescote. Chegvamos uns vinte para o almoo de carneiro e para todas aquelas relembranas da histria poltica do Cear, em que o Filho de Mombaa havia sido personagem marcante por mais de meio sculo.

O carneiro do Paes, preparado pelas mos competentes da cozinheira Francinete e apresentado em vrias modalidades culinrias, fazia o regalo dos convidados e a inveja posterior dos que, por viagem ou distrao, haviam se ausentado daquela mesa farta de sabor sertanejo e prosaica convivncia.

HOMENAGEM – Quando o nosso lder morreu, naquele malfadado 17 de junho de 2015, em Braslia, resolvemos, na semana seguinte, reunir em Fortaleza, naquele mesmo endereo da Praia de Iracema, os frequentadores do almoo do Paes para a ltima carneirada.

Nesse dia todos compareceram. Eram uns trinta. Dona Zildinha, ainda muito abalada, no veio, mas ficou, de Braslia, acompanhando em tempo real toda a reunio. Estavam ali muitos familiares, filhas, genros e netos. Antigos companheiros das jornadas polticas e vrias geraes de admiradores reprisavam passagens picas ou simplesmente hilrias daquele cavaleiro andante, que por dcadas exercera mandatos legislativos e misses pblicas com desenvoltura lhaneza e afilada competncia.

UM RETRATO – Eu havia pintado um retrato do ilustre personagem, que, belamente emoldurado por providncia de Carlos Castelo, deveria ser solenemente entronizado naquela sala em que ele costumeiramente nos recebia.

Houve discursos e relatos memoriais. E, quando foi descerrado o pano, declamei o poema composto de madrugada, sob forte impacto emocional e justificada dor: Cantiga de Saudade para Paes de Andrade.

Juarez Leito, poeta, historiador, membro da academia Cearense de Letras e do Instituto do Cear, com o brilho dos poetas relembrou Paes de Andrade.

RESPEITO – Em Roma e Paris, como Adido Cultural, fui testemunha e participante do respeito com que era recebido pelas lideranas polticas e culturais, como o professor da Universidade de Coimbra, Jos Joaquim Gomes Canotilho, professor Diamantino Duro, Reitor da Universidade Lusada de Lisboa, a direo da Mason da lAmrique Latine e tantos outros.

O livro Paes de Andrade, o poltico, o jurdico, o militante democrtico editado pela Cmara dos Deputados o caloroso depoimento sobre uma poca.

Nas histrias de ministros da Agricultura, Severo Gomes piando feito macuco

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Severo Gomes entendia muito de cachaa e de macuco

Sebastio Nery

Nereu Ramos assumiu a presidncia da Repblica em 1955, para garantir a posse de Juscelino, e pediu a Antonio Balbino, governador da Bahia, um nome para o Ministrio da Agricultura. Balbino mandou chamar o deputado baiano Eduardo Catalo, fazendeiro de cacau, elegante e britnico, depois seu suplente no Senado:

Catalo, indiquei seu nome para representar a Bahia no Ministrio. J dei seu nome ao presidente Nereu, que quer conversar com voc hoje.

No, Balbino, de maneira alguma. No posso aceitar. A Bahia tem homens experientes e mais bem preparados para a funo do que eu. No justo que seja eu o ministro. E voc sabe que no tenho ambies polticas.

No nada disso, Catalo. Voc est com medo da situao nacional. Voc sabe que este um governo eventual, de crise. Se fosse em perodo normal, um governo tranquilo, voc aceitaria. Mas como poder sair do gabinete ministerial para ser fuzilado em praa pblica, no aceita.

Catalo levantou-se, inteiramente surpreendido com a veemncia do amigo, bateu a mo na mesa e encerrou a conversa:

Pois se para ser fuzilado, aceito.

Foi ministro da Agricultura. No foi fuzilado.

GOVERNO CASTELO – Oscar Thompson era secretrio da Agricultura do governo de Adhemar de Barros em So Paulo, em 1964. Depois do golpe militar, o presidente Castelo Branco mandou Adhemar indicar o ministro da Agricultura. Adhemar fez uma vasta lista. Castello vetou todos. At que aceitou Oscar Thompson, formado pela Escola Agrcola Luiz de Queirz, em Piracicaba.

Assumiu em 14 de abril. Em 16 de junho, Castello lhe telefonou mandando fazer uma demisso no ministrio. Oscar Thompson respondeu:

Tudo bem, Presidente. Mas antes vou comunicar ao governador.

Quer dizer que o senhor vai comunicar antes ao Adhemar? Pois no vai ter tempo de comunicar nada. J est demitido.

Bateu o telefone e o substituiu por Hugo Leme, diretor da Escola Agrcola Luiz de Queiroz de Piracicaba. S durou seis meses, at o AI-2 de outubro de 1965, porque Castelo precisou do cargo para dar a Ney Braga, que deixava com sucesso o governo do Paran.

COSTA E SILVA – Em 15 se maro de 1967, o general Costa e Silva assumiu a presidncia da Repblica. Ivo Arzua, ex-prefeito de Curitiba, foi indicado para presidente do BNH (Banco Nacional de Habitao), mas Mrio Trindade, o ento presidente, no queria sair e conseguiu ficar. O jeito foi Costa e Silva convidar Ivo Arzua para Agricultura.

Mas Ivo Arzua no distinguia um morango de um mamo. Desesperado, internou-se 30 dias na Copamar (Cooperativa Agrcola de Maring), onde fez um curso concentrado de agricultura. E assumiu.

SEVERO GOMES – No governo Castelo Branco, o saudoso Severo Gomes era ministro da Agricultura. Em Feira de Santana, na Bahia, presidiu uma solenidade. Depois, pediu uma cachacinha. Trouxeram sem rtulo, com o desafio:

Queremos ver se o senhor diz de onde ela .

Severo provou, gostou, arriscou: Esta cachaa de Januria.

Era. Ao lado, sorriso mole e olhos vidrados, escarrapachado numa cadeirinha de vime, um puxa-saco gordo, muito gordo, no se conteve: V entender de agricultura na puta que o pariu.

IGUAL A MACUCO – Ministro da Industria e Comercio de Geisel, Severo foi caar macuco, um fim de semana, em sua fazenda perto de Parati. Macuco se caa piando, para chamar. O ministro estava piando mato adentro, veio um puxa-saco:

Dr. Severo, o senhor pia macuco melhor do que muito macuco.

Comeo de ano tempo de festa e de relembrar algumas poesias

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H sculos os irlandeses nos ensinam esta lio. Nosso eterno poeta, o Paulo Mendes Campos, traduziu em versos de luz:

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UMA VELHA BENO IRLANDESA

Que a beno da luz
seja contigo, a luz exterior e a luz interior.

A Santa luz do Sol
brilhe sobre ti e aquea teu corao
at que ele resplandea
como um grande fogo de turfa,
e assim o forasteiro possa vir e nele se aquecer,
como tambm o amigo.

A luz brilhe de dentro de teus olhos,
como a candeia colocada na janela de uma casa,
oferecendo ao peregrino um refgio tormenta.

E a beno da chuva,
a chuva suave e boa, seja contigo.
Que ela tombe sobre tua alma
para que as pequenas flores
todas possam surgir e derramar suavidade na brisa.

A beno das grandes chuvas seja contigo,
caindo em tua alma para lav-la bem lavada,
e nela deixando muitas poas reluzentes,
onde o azul do cu possa brilhar,
e s vezes uma estrela.

E a beno da terra,
a grande terra redonda, seja contigo;
sempre tenhas uma saudao amiga
aos que passam por ti ao longo dos caminhos.
A terra seja macia debaixo de ti
quando nela repousares, cansado ao fim do dia,
e leve ela descanse sobre ti,
quando no fim te deitares debaixo dela.

To leve ela descanse sobre ti,
que a tua alma cedo se liberte de seu peso,
livre e leve, no caminho de Deus.

E agora o Senhor te abenoe,
com toda a bondade te abenoe.

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MEUS VERSOS TRISTES – Mas tambm h instantes de dor. O Anjo Azul foi um bar de Salvador por onde passaram geraes de poetas ou de bomios. No golpe militar de 1964, h meio sculo, algum no gostou de um pequeno poema meu pendurado na parede. Sua ira explodiu em um tiro que perturbou a madrugada. Eram apenas versos tristes de um sonolento jornalista:

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NO ANJO AZUL
Sebastio Nery

H um hlito de dor nestas paredes.
H arcanjos ensanguentados arrastando sombras neste cho.
Aqui o teto escuro escancara a boca em vigas tortas
E vai pingando, babando, gotas de solido em minhaalma.

Aqui meus fracassos, como cobras,
Escorregam mgoas no cimento cansado
E mulheres de olhos mortos choram crianas que eu no fui.

Aqui a vida explode,
O tempo no anda,
A morte no mata.

Voc no o meu amor.

Rubens Paiva e Eunice, um casal a ser eternamente lembrado

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Eunice e Rubens Paiva, antes do golpe militar de 64

Sebastio Nery

Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de So Sebastio, padroeiro do Rio e meu. Antes das dez da manh, a caminho da praia, parei o carro em frente casa do deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:

Diga ao Rubens que no entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abrao.

Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou:

Voc brigou com o tio Rubens? Ele estava no quarto, calando o sapato, com trs homens de palet e gravata.

Fiquei calado. Vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para ns. Quando chegamos praia, disse minha mulher :

Esto prendendo o Rubens. Aquelas kombis esto sem placas.

ERA A AERONUTICA – No fiquei tranquilo. Apressamos o banho de mar e na volta j ningum chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prdio prximo me contou:

a Aeronutica prendendo um cara daquela casa.

Voltei rpido e aflito. Era preciso espalhar urgente a notcia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marqus de So Vicente, toca o telefone:

Minha filha est com vocs?

Est, sim. O que aconteceu?

Cuidem dela.

E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir.

Z APARECIDO – Peguei o carro, fui correndo casa do Jos Aparecido. Na vspera, havamos jantado l com o Rubens. Entre outros, l estava o Bocaiva Cunha, tambm cassado e scio de Rubens numa empresa de engenharia. Na sada do jantar, Rubens pegou um carto (Rubens Paiva, engenheiro civil), escreveu dois nmeros de telefone (223.1512 e 227.5362), me entregou (guardo at hoje):

Voc anda sumido, acompanho pela Tribuna e o Politika. Vamos conversar. Passe l amanh para um usque. dia de seu padroeiro.

Eu o conhecia desde 1953. Em 1962, nos elegemos, ele deputado federal por So Paulo, eu estadual pela Bahia. E nos encontrvamos nas lutas do governo Jango. Ele foi diretor do Jornal de Debates e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direo da Ultima Hora de So Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.

AVISAR OS AMIGOS – Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos casa de Bocaiva e tambm de Waldir Pires. Ningum devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Mdici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de So Paulo e Braslia, fazer um cerco antes do pior.

No adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notrio Brigadeiro Bournier, da Aeronutica, e de l entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Baro de Mesquita.

J no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal O Dia, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que o carro que o transportava do comando da 3 Zona Area da Aeronutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam sequestrado.

Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicvel durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Morreu na semana passada.

Como entender o fracasso da educao pblica num pas como o Brasil

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Charge do Junio (junio.com.br)

Sebastio Nery

A educao de qualidade o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequncia, do desenvolvimento. Sua ausncia determina baixssima qualificao da mo de obra resultando na baixa produtividade. Educao e economia esto integradas na ordem direta de um pas responsvel que almeje pela elevao da renda incluso social. Sem priorizar a educao torna-se impossvel a construo de uma nao desenvolvida. Buscar um padro educacional moderno a exemplo de pases como a Finlndia, Coria do Sul, Japo e vrios outros que construram modelos educacionais que mudaram a realidade do seu povo deve ser o grande objetivo de um ministro da Educao comprometido com a modernizao.

Segundo o excelente analista Rolf Kuntz, em O Estado de S.Paulo (25-11-2018), qualquer candidato a cuidar da educao brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questes:

1) Por que os alunos brasileiros vo to mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliao de Estudantes?

2) Como melhorar os nveis fundamental e mdio do ensino brasileiro, obviamente em condies muito ms?

3) Como adaptar o ensino s condies impostas (sim, impostas) pela chamada revoluo 4.0?

4) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do sculo 21?

5) Que experincias bem sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernizao educacional?

INEFICINCIA – Rolf Kuntz destaca que padres ideolgicos ou religiosos no podem prevalecer na conduo da educao brasileira. A ineficincia da educao brasileira tem vrias causas e uma delas no decorrente de o Brasil investir pouco na formao educacional. A baixssima qualidade da educao nacional no tem como responsvel a insuficincia de recursos.

Sua origem est na inexistncia de uma poltica educacional sria, competente e realista. Educao poltica de Estado e pauta suprapartidria. A incompetncia e irresponsabilidade na gesto dos recursos pblicos pela Unio, Estados e Municpios alimentam e agravam o caos educacional.

O economista, engenheiro eletrnico pelo Instituto Tecnolgico da Aeronutica e professor Ricardo Paes de Barros, ante essa realidade indaga: Como voc coloca 6% do PIB na educao e eles dizem que no sabem como garantir resultados?

SEM PRIORIDADE – Em 2017, o governo da Unio aplicou R$ 117,2 bilhes em educao. Sendo R$ 75,4 bilhes no ensino superior e R$ 34,6 bilhes na educao bsica. O governo federal nos ensinos bsicos e fundamental tem papel supletivo em relao aos Estados e Municpios. A diferena do montante de recursos exemplifica o porqu de o ensino bsico e fundamental sofre de dficit educacional histrico. Exatamente as reas que deveriam ter prioridade maior no recebimento de recursos pblicos.

A sntese disso tudo pode ser resumida em uma estrutura educacional viciada, envolvendo Unio, Estados e Municpios. Prioridades erradas na administrao dos recursos destinados formao das novas geraes realidade inquestionvel. A deficincia no aprendizado, fruto de uma educao sofrvel no ensino bsico, agravada pela elevada evaso no ensino mdio, travando a construo do futuro de novas geraes e aprofundando a desigualdade da renda e a pobreza para milhes de brasileiros. Todos vtimas de uma pssima educao, como mostra o professor universitrio Hlio Duque, autor de vrios livros sobre economia brasileira e trs vezes deputado federal pelo Paran.

Novos governadores esto condenados a administrar situaes de pr-falncia

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Sebastio Nery

Ao ignorar o limite para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dvida pblica, bloqueando investimentos e atingindo a populao na prestao de servios pblicos. Os novos governadores vo receber uma herana maldita: a crise fiscal, buscando urgncia no ajuste das contas pblicas. Adiar essa questo levar insolvncia muitas unidades federativas.

gravssima a situao fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumiro o poder herdaro a falta de prudncia das administraes passadas, elevao de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadao.

REFORMAS PROFUNDAS – A carncia de investimentos dos Estados est se refletindo na ausncia de recursos nas reas de educao, sade, segurana pblica e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramtica realidade. A alternativa buscar disciplinada poltica fiscal, e reformas profundas.

Vai exigir coragem de estadistas, no temendo a impopularidade momentnea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos servios pblicos. Um exemplo a extrapolao das despesas com salrios e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatrio do Tesouro Nacional atesta que essa questo vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto mximo de 60% da Receita Corrente Lquida para a folha de pessoal.

ACIMA DO LIMITE – O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente lquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita esto: Distrito Federal, Piau, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paran e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abro Costa, ex-secretria da Fazenda de Gois oportuno: Todos os Estados esto na mesma correnteza, com uma grande queda frente na qual alguns j foram tragados. trajetria insustentvel. Se os Estados no fizerem ajustes, as despesas com pessoal vo consumir toda a receita, determinando o colapso dos servios pblicos. O economista Raul Velloso na mesma direo lembra que a principal fonte de desequilbrio est na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

PREVIDNCIA – O Anurio Estatstico da Previdncia Social traduz em nmeros essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos so 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos so 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro so ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, so ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o nmero de servidores ativos ainda maior com diferenas mnimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos prximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas pblicas pela maquiagem contbil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a poltica de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preo da falsificao dos nmeros. Desequilbrio oramentrio caminho seguro para o insucesso de qualquer administrao.

Insanidade nas redes sociais significa retrocesso aps avano do iluminismo

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Charge do Edra (Arquivo Google)

Sebastio Nery

Quem bom no falha. O professor paranaense Hlio Duque continua incansvel: No ciclo evolutivo da humanidade, o iluminismo no sculo XVIII imps o predomnio da razo sobre a viso teocntrica (religiosa) que dominou a Europa por toda a Idade Mdia. Fundamentava-se no pensamento racional e na evoluo do humanismo, da ser qualificado como o sculo das luzes. Influenciou a Revoluo Francesa com o trinmio Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Igualmente a Revoluo Americana com a independncia das colnias inglesas que originou nos Estados Unidos da Amrica.

Redigida em 1789, a Declarao dos Direitos Humanos filha legtima do iluminismo. O francs Franois-Marie Arouet, adotando o pseudnimo Voltaire, sublimou a sua essncia: No concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei at o ltimo instante seu direito de diz-la.

VALORES A PRESERVAR Diz Helio Duque que, nesse tempo digital, de internet e redes sociais, preciso preservar os valores civilizatrios do iluminismo. Poderosa tecnologia, as redes sociais vm se desenvolvendo com dinamismo incomum, para o bem e para o mal, gerando grandes contribuies na informao instantnea seja nos celulares, facebook, instagram ou whatsapp.

Na outra ponta vem adulterando a realidade derivado da proliferao das chamadas fakes news. Introduziram um novo padro nos modelos tradicionais nas relaes pessoais, influenciando a formao da opinio pblica, alm dos veculos tradicionais de comunicao.

Passou a ser parte integrante do cotidiano das pessoas. Negar a importncia das redes sociais nas relaes contemporneas seria desconhecer a realidade.

TERRITRIO LIVRE – O ponto crtico que vm se tornando fora poderosa na disseminao de conflitos pessoais, polticos, tnicos e outras gradaes. o territrio livre para a expresso de opinies sobre qualquer assunto, mesmo quando no se conhece o que se debate. Agrega-se que questes pessoais tm aflorado de maneira perigosa. O bom senso e equilbrio deixam de existir pela agresso gratuita, transformando o oponente em inimigo.

No caso, a mentira e a calnia so protegidas pela ausncia de uma legislao punitiva. Protege o delinquente ante a infmia proferida. Crimes digitais e chantagens encontram nas redes sociais terreno frtil, exigindo o mximo de cuidado e responsabilidade pela enorme quantidade de notcias falsas veiculados nas redes sociais. Em certo casos esto fazendo aflorar o que o ser humano tem de pior.

UMA SNTESE – O jornalista Diego Escosteguy, sintetizou: Abrir as redes sociais tornou-se um ato de f e de coragem; a cada esquina digital, esbarra-se na ignorncia orgulhosa, na incivilidade boal, na intolerncia odiosa.

oportuno o fato do cientista pioneiro de computao e um dos maiores conhecedores da realidade virtual no mundo, o norte americano Jaron Lanier, ter o seu quinto livro lanado no Brasil. A polmica comea pelo ttulo Dez argumentos para voc deletar agora suas redes sociais. Fixando o prazo de seis meses para o internauta retomar a conscincia de si prprio.

DEZ ARGUMENTOS – A jornalista Paula Soprana, especialista em on-line e novas tecnologias influenciadoras de comportamentos da sociedade, fez na Folha de S.Paulo importante entrevista com o autor, destacando os 10 argumentos de Jaron Lanier, sobre a internet:

1 -Voc est perdendo o seu livre-arbtrio; 2- Largar as redes sociais a maneira mais certeira de resistir insanidade dos nossos tempos; 3-As redes sociais esto tornando voc um babaca; 4-As redes sociais minam a verdade; 5-As redes sociais transformam o que voc diz em algo sem sentido; 6-As redes sociais destroem sua capacidade de empatia; 7-As redes sociais deixam voc infeliz; 8-As redes sociais no querem que voc tenha dignidade econmica; 9-As redes sociais tornam a poltica impossvel; e 10-As redes sociais odeiam sua alma.

O polmico livro de Jaron Lanier, sendo ele pioneiro da realidade virtual mundial, no pode deixar se ser lido pelos internautas responsveis e adeptos da informao sria e consistente. Certamente a maioria daqueles que frequentam marginalmente as redes sociais, militantes da guerrilha virtual, desqualificaro as observaes do experiente cientista, ignorando ser ele um dos internautas mais importantes do mundo e fiel defensor dos valores humanistas, recomenda o prof. Helio Duque.

Recomenda-se o novo livro de Ricupero: A diplomacia na construo do Brasil”

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Ricpero relembra o que fazer diplomacia de verdade

Sebastio Nery

Nas relaes internacionais a diplomacia exerce papel fundamental na construo e consolidao da viso que o mundo tem sobre o pas. O livro A diplomacia na construo do Brasil: 1750-2016, do embaixador Rubens Ricupero, leitura fascinante. Revela 266 anos, desde os tempos coloniais, da luta dos brasileiros para integrar o pas com o mundo. Enfatiza, da colnia portuguesa at a contemporaneidade, o objetivo brasileiro de ter presena na comunidade internacional.

Leitura recomendvel para os futuros ocupantes do poder que, a partir de 1 de janeiro de 2019, tero a misso de governar o Brasil. Devem estar conscientes da importncia do Ministrio das Relaes Exteriores na manuteno de relaes harmnicas entre Estados soberanos. Fundamentada nos ensinamentos da histria, entendendo que a diplomacia busca resolver conflitos sem uso da ofensa ou da violncia nas relaes internacionais.

POLTICA DE ESTADO – Como disse a jornalista Eliane Cantanhde poltica externa de Estado e no de governo. Em poltica externa o interesse do Brasil acima de tudo e de todos.

No existe ideologia nas relaes econmicas e comerciais. John Foster Dulles, secretrio de Estado dos EUA, definiu: Uma nao no tem amigos, tem interesses. A defesa dos interesses nacionais o grande balizador. O governo de Jair Bolsonaro produziu na rea externa, antes de assumir o poder, trs extravagncias diplomticas contra Argentina, China e pases rabes.

Em relao Argentina, foi ignorado o fato de ser o maior mercado na exportao de bens manufaturados. E slidas relaes econmicas e comerciais. A China, desde 2009 o principal parceiro e mercado mundial para os produtos brasileiros, com supervits crescentes na escala de 20 bilhes de dlares, no comrcio externo.

VAI CUSTAR CARO – Um alinhamento brasileiro com a poltica exterior do presidente dos Estados Unidos, em relao aos chineses, como em editorial do jornal China Daily, principal porta voz do governo, alertou pode custar caro ao Brasil. Os investimentos da China no Brasil so estimados em R$ 124 bilhes. No comrcio exterior, as exportaes do Brasil, at agosto, atingiram US$ 74 bilhes. Com elevado saldo que nos favorece nas exportaes.

O anncio da mudana da nossa Embaixada de Tel Aviv para Jerusalm, gratuita hostilidade aos pases rabes. Negando o papel histrico do brasileiro Oswaldo Aranha, quando presidente da Assembleia Geral, apoiava a criao do Estado de Israel e defendeu igualmente a criao de um Estado rabe palestino. O Brasil sempre teve posio definida defendendo dois Estados na regio. Se mantida a deciso, os reflexos econmicos e comerciais sero claros.

SUPERVIT – Em 2017, as exportaes brasileiras para o mundo rabe representaram US$ 13,7 bilhes com supervit favorvel ao Brasil de US$ 7,7 bilhes. Hoje a quarta parceria comercial do Brasil com o mundo, tem nos pases rabes mercado em ascenso, destacadamente para os produtos do agronegcio. Os EUA, ao transferir a sua Embaixada para Jerusalm, tem a nica companhia de um pas perifrico, Guatemala, que presidida pelo pastor evanglico Jimmy Morales, adepto da chamada verdade bblica da eterna Jerusalm.

Por tudo isso, no deve o novo governo brasileiro insistir nas relaes internacionais em posies de confronto.

Democracia respeito ao voto sem veto, para enfim buscar o desenvolvimento

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Charge do Laerte ( laerte.com)

Sebastio Nery

No jogo democrtico ganha a eleio quem faz mais votos. Na democracia, a manifestao popular deve ser respeitada e acatada mesmo pelos que no gostem do resultado. Nas sociedades civilizadas os descontentes tm a responsabilidade de aguardar as prximas eleies. Os brasileiros se manifestaram contra a corrupo e pela renovao poltica. Muitos detentores de mandatos no executivo e no legislativo achavam-se ungidos e herdeiros hereditrios. Muitos foram aposentados compulsoriamente pelas urnas. Outros, em menor nmero, sobreviveram nas provncias menos desenvolvidas.

O clima de crispao, azedando as relaes sociais, em muitos casos, teve no discurso do dio e da intolerncia seu ncleo alimentador. dever do presidente eleito reconhecer que o Estado Democrtico de Direito o principal balizador no impedimento de aventuras autoritrias.

TODOS IGUAIS – Na democracia todos so iguais e tm o mesmo direito de manifestao nos limites que impe o Estado de Direito. Na ordem democrtica a divergncia no pode e no deve ser catalogada como ao de adversrios da ordem estabelecida. necessrio ter a conscincia de que um Presidente da Repblica pode fazer muita coisa, mas no pode tudo. A harmonia dos poderes Executivo, Legislativo e Judicirio fundamental na garantia do Estado de Direito.

O resultado eleitoral de 28 de outubro traduziu em nmeros essa realidade. O candidato Jair Bolsonaro teve 57,5% milhes de voto. O opositor Fernando Haddad obteve 46,5 milhes de votos. Destacadamente a soma das abstenes, mais votos brancos e nulos, atingiu 42,4 milhes.

O vitorioso Bolsonaro teve 39,2 da totalidade dos eleitores registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Numa clara demonstrao de vontade da sociedade de ver o clima beligerante e dio irracional banida do cotidiano dos brasileiros. O mandato conferido ao novo presidente, pelo voto, no admite contestao, reconhecido pelo prprio candidato opositor.

OS DESAFIOS – Infelizmente os grandes problemas econmicos e sociais que atingem diretamente a vida de milhes de brasileiros estiveram ausentea na disputa eleitoral. O grande desafio agora enxergar um Brasil que precisa retomar a razo e implantar o caminho do reencontro consigo mesmo, buscando o desenvolvimento, aps viver a maior recesso econmica da sua histria.

Fruto de governos irresponsveis e incompetentes que dividiram a nao entre ns e eles. Nesses governos a corrupo se implantou como poltica de Estado e alargou-se em todas as reas da administrao pblica. Nas unidades federativas, o exemplo do governador Sergio Cabral no fato isolado. A corrupo sistmica e organizada marcou um tempo que precisa ser sepultado.

O novo governo da Repblica, ao assumir em 1 de janeiro de 2019, encontrar um Brasil que superou, graas a uma equipe econmica competente, a brutal recesso que determinou uma dcada perdida no desenvolvimento nacional.

AGENDA POSITIVA – A realidade que o espera permitir que amplie uma agenda positiva. E prestigie nomes como de Ilan Goldfajn, no Banco Central e economistas competentes como Mansueto Almeida, Ana Paula Vescovi, Marcelo Caetano, Jorge Rachid e outros notveis administradores da mquina pblica comprometidos unicamente a servir ao Estado brasileiro.

O futuro governo dar um tiro de largada muito bem servido na estrutura pblica. Enxergando o futuro e propondo solues para a crise estrutural da economia brasileira deve ser o caminho adotado. Enfrentando a corrupo, a violncia nos centros urbanos, a falncia da sade pblica, a deplorvel qualidade da educao e o corporativismo nos trs poderes da Repblica.

Uma agenda reformista, confrontando o rombo das contas pblicas, privatizao de empresas ineficientes, reforma da previdncia, so medidas iniciais impopulares, mas fundamentais para recolocar o Brasil na rota segura do desenvolvimento.

Memrias de Bosco Tenorio, caminhando e contando casos mundo afora

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Bosco Tenrio, um nome na Histria

Sebastio Nery

O Tejo mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo no mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. / Porque o Tejo no o rio que corre pela minha aldeia dizia Fernando Pessoa, assinando como Alberto Caieiro

Em 1958 um rio da histria correu pelo Brasil. Juscelino era Presidente e Celso Furtado criava a Sudene com Romulo Almeida. Os dois no sabiam que comeava ali um novo captulo da histria nacional.

Getlio, eleito Presidente em 1950, convocara o economista baiano Romulo Almeida, secretario de Planejamento do governador da Bahia Antonio Balbino, com a misso de construir um novo caminho para a economia nacional, assessorado pelos economistas Roberto Campos, Jesus Soares Pereira, Ottolmy Strauch, Cleantho de Paiva Leite, Juvenal Osrio, Roland Corbisier, Hlio Jaguaribe, reunidos no ISEB, (Instituto Superior de Estudos Brasileiros).

DEPOIS, A SUDENE – Dela nasceram o BNDES, o Banco do Nordeste. Dois anos depois, em 1958, Juscelino eleito presidente, o convocado foi Celso Furtado, e criaram a Sudene a partir de uma reunio em Garanhuns. Uma vez por ms, Celso e Romulo se reuniam em Salvador convocando amigos e assessores para ampliarem aliados e liderados. Como assessor do Romulo, acabei criando o Jornal da Semana e me elegendo Deputado na Assembleia da Bahia.

Numa dessas reunies, conheci em Recife o brilhante lder estudantil Joo Bosco Tenrio Galvo, cassado da Faculdade de Direito de Recife, e eleito vereador. Aos poucos a Sudene ia reunindo em torno de si uma gama enorme de jovens lideranas que l iam discutir os problemas de Pernambuco e do pais com as mais diversas posies polticas e ideolgicas. Por exemplo: o governador Moura Cavalcante e seu chefe de gabinete Jlio Arajo, o lder estudantil de Natal Sileno Ribeiro, os jornalistas Anchieta Hlcias e ngelo Castelo Branco. A partir da, logo Bosco Tenorio assumiu uma ativa liderana em toda a Universidade e em vrios estados.

SOUBE FAZER A HORA – Este livro um poderoso depoimento de algum que soube fazer a hora e no esperou acontecer. Capitulo a capitulo, Bosco vai evocando fatos que viveu e situaes do seu tempo. Por exemplo:

A Primavera de Praga; A UNICAP (Universidade Catlica de Pernambuco) e 1968; Abaixo da Linha do Equador; Alegria, Alegria; Amizades que Perduram; Antonio Correa de Oliveira Andrade Filho; Atenas e Jerusalm; Azar do Mxico; Che Guevara O Cupido do Caribe; Chuva em Am.

Leiam esse livro. No todo dia que se encontra um texto to claro e to interessante.

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Este o prefcio que fiz para o livro Caminhando e Contando casos mundo afora e ser lanado amanh, dia 7, em Recife.

O Joezil Carvalho j arrebanhou gente de toda nao pernambucana, Olinda e alm mar. Por enquanto a festa comea no Recife.

A lio de 1974 e a resposta das urnas nesta eleio de 2018

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Ulysses, Tancredo e Montoro, em defesa da democracia

Sebastio Nery

Quando meu saudoso colega e amigo Csar Mesquita, diretor da Editora Francisco Alves, me telefonou, no dia 15 de outubro de 1974, intimando-me a escrever um livro sobre as eleies de 15 de novembro, tive medo de mim e do tempo. Ele me disse: Nery, temos exatamente sessenta dias para coloc-lo nas bancas. Um ms para voc escrever at 15 de novembro e um ms para editarmos.

Mas, Cesar, o Brasil muito grande. So 22 Estados. E no o farei sem visitar, pesquisar, testemunhar um a um. E ainda publicar o resultado.

Vire-se. preciso guardar para a histria a nitidez dos acontecimentos ainda no deformados pelo correr do tempo, nem ao sabor das interpretaes. Precisamos dar ao pas um livro-documento sobre as eleies de 15 de novembro. Tem que sair at 15 de dezembro.

ESCREVENDO – Sai viajando e escrevendo. Conversando e escrevendo. Documentando e escrevendo. O governo, poderoso e soberbo, achava que a Arena ganharia tudo, porque, em 1970, quase havia eliminado a oposio, a ponto de muita gente do MDB achar que a oposio devia desistir e fechar o MDB.

Mas os povos s conquistam o amanh quando tm lderes que os ensinam a pensar. Os profetas, os sbios do Oriente, os filsofos gregos, os enciclopedistas, os pais da Independncia Americana, os estadistas ingleses e franceses, esses que plantaram a histria com as mos.

Veneza passou sete sculos sem que os doges pudessem transferir o poder para um herdeiro. Foi a mais longa repblica democrtica da histria.

REAO SILENCIOSA – medida que ia chegando aos maiores Estados fui percebendo que havia uma reao silenciosa na populao e o governo podia levar um susto.

E levou. Mais do que um susto, o governo foi literalmente atropelado. Perdeu em 16 Estados e s ganhou em 6, como contei e documentei no livro que fez tanto sucesso : As 16 Derrotas que Abalaram o Brasil. Dos seis maiores Estados, perdeu em cinco: So Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paran. E s ganhou em um: Bahia.

No pais, a votao do MDB, somada, foi maior do que a da Arena. S as vitrias em dez dos onze maiores Estados (So Paulo, Rio Grande do Sul, Guanabara, Minas, Paran, Pernambuco, Estado do Rio, Gois, Santa Catarina, Paraba, menos Bahia) mostraram que, se fosse para a presidncia da Republica, a oposio teria feito o Presidente e 16 governadores.

DUPLO SEGREDO – Qual o segredo da campanha e da vitoria? Era duplo. Um, orgulhosa cabeleira grisalha de gal de antigamente. O outro, modestos fiapos de cabelos inteiramente brancos na cabea nua. Um, mestre da ctedra. O outro, catedrtico da poltica. E aos dois, mais do que a quaisquer outros, o Brasil ficou devendo, em 1974, o reaprender da velha lio, eterna como a humanidade, do poder da palavra.

Ulysses Guimares e Franco Montoro foram os generais da guerra que a oposio ganhou no pas. E brigaram na garganta. Poucas vezes, na histria do Brasil, dois homens falaram tanto a tanta gente em to pouco tempo. Basta pesquisar jornais e revistas do segundo semestre de 1974. Eles estavam l, dia a dia, indormidos, no planto da palavra.

NAVEGAR PRECISO – Desde o magnfico discurso com que, em 1973, navegando com Fernando Pessoa, iniciou sua campanha de anticandidato presidncia da Repblica, Ulysses Guimares havia continuado o caminho aberto um ano antes pela bravura de Oscar Pedroso Horta, da volta do bom texto poltica brasileira. Na sesso do Congresso que elegeu Geisel, Ulysses de novo despertou o pas com um pronunciamento exemplarmente bem escrito.

E poderosamente forte. No parou mais. Nas TVs ou na imprensa, o presidente da oposio fornecia aos candidatos do MDB uma dose macia e permanente de ideias e frases que logo eram repetidas em milhares de palanques. E quando a vitria chegou, ele a recebeu lcido como sempre.

O tom de Franco Montoro era mais ameno, didtico. Ensinava: Na vida pblica, como na cincia, os erros devem ser investigados e no escondidos. S a crtica pode corrigir as falhas e promover o progresso.

SIMPLES COMO A VERDADE – Tudo simples, exato e evidente como a verdade. Por isso seus programas de TV, nos Estados, estouravam ndices de audincia:

Montoro chegou, falou, virou.

Era o poder da palavra que Padre Vieira chamava de sagrado poder.

A oposio, hoje, est perdida como o MDB de 1970. Falta-lhe um Ulysses, um Montoro, que mostre ao pais a verdade escondida nas gavetas dos Mensales e da corrupo governamental comandada pelo PT. Lula fala com a arrogncia e a certeza da impunidade dos generais de 1974.

Grossas grossuras, com Pedro II, Sarney, Senghor e Ademar de Barros

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Ademar de Barros fez uma das maiores grosserias

Sebastio Nery

Uma tarde, no Imprio, enquanto passeava a cavalo, o Imperador Dom Pedro II caiu do cavalo. O Rio se encheu de boatos. O Imperador estava mal, seria internado e, quem sabe, talvez tivesse que ir tratar-se em Lisboa ou Paris. Ainda no havia Incor, Srio-Libans etc.

Os boatos continuaram. O Imperador apareceu na sacada do Pao Imperial apoiado em duas muletas. O jornal Aurora Fluminense, dirigido por Evaristo da Veiga, nosso bravo patrono, nome da rua onde est hoje o Sindicato dos Jornalistas do Rio, publicou que o Imperador apareceu na sacada do Pao apoiado em duas maletas. No dia seguinte, o Aurora consertou:

Ontem, por lamentvel equvoco, nosso jornal publicou que o Imperador apareceu na sacada do Pao Imperial apoiado em duas maletas. Na verdade, o Imperador estava apoiado em duas mulatas.

A emenda ficou pior do que o soneto.

HOSPITALIZADO – Quando presidente da Republica, Sarney veio ao Rio e foi xingado por um grupo de brizolistas que quebrou as janelas de um nibus da Presidncia onde ele estava. Na TV Manchete, a jornalista Jacyra Lucas se atrapalhou e disse que ele foi hospitalizado em vez de hostilizado.

Com Sarney no foi nem muleta, nem maleta, nem mulata. Foi mesmo a maleita do Poder.

POETA SENGHOR – Negro, alto, elegante, Leopold Senghor (1906-2001) foi o grande heri do Senegal, desde quando colnia francesa. Poeta, terico da negritude e da poesia africana, formado na Sorbonne, professor em Dacar, deputado na Assembleia Nacional da Frana, em 58 ajudou a fundar o PUA (Partido da Unidade Africana).

Liderou a independncia do Senegal, prendeu o ditador Mamadou Dia e em 1960 foi o primeiro presidente eleito de seu pais.

Em 1965, Senghor esteve no Brasil como presidente. Ademar de Barros era governador de So Paulo. O programa elaborado pelo Itamaraty previa uma visita ao Estado. Senghor, conhecido por sua cultura, falava diversas lnguas, inclusive o portugus, ficou bem vontade no Brasil.

Quando o chefe do cerimonial do Palcio dos Bandeirantes anunciou a presena do visitante, Ademar gritou l de dentro:

Manda o crioulo entrar.

Senghor ouviu, mas fingiu que ignorava o portugus e cumprimentou Ademar em francs. Ademar, que tambm falava vrias lnguas, continuou com suas irreverncias, conversando em francs com o presidente e entremeando a conversa com frases em portugus:

Estou maluco para ver as canelas desse crioulo. Se forem finas e de calcanhar alto, ele bom de enxada, conforme dizia meu av na fazenda.

Ademar levou-o a visitar a cidade, a Assembleia, o Ibirapuera, os cartes de visita. No dia seguinte, foi at o aeroporto de Congonhas, de onde Senghor seguiu para Braslia. Depois, Ademar disse aos jornalistas:

Vejam s. No sei o que esse pretinho veio fazer aqui. Comprar o qu? Assinar o qu? Nem sei onde fica o Senegal.

Senghor vingou-se. Contou tudo no livro que escreveu sobre o Brasil.

Nenhum governo ter xito se no adotar as reformas fundamentais

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Sebastio Nery

Mais uma vez o pas estar definindo seu futuro. Diante do presidencialismo de coaliso, quem for eleito agora tem um desafio: vai governar para o povo ou vai se submeter ao fisiologismo do Congresso Nacional, agravados com descontrole da dvida pblica bruta atual de 88% do PIB, que pode atingir 95% em 2023, de acordo com projeo do FMI. Nos pases emergentes a mdia de 40%. No perodo, algumas polticas sociais introduziram mecanismos que amenizaram, mas no resolveram a dramtica pobreza brasileira.

A questo social grave pela concentrao da renda, gerando privilgios indecorosos. Na outra ponta a renda do trabalhador, da classe mdia assalariada, est em processo de reduo expressivo. O desemprego estrutural agrava essa realidade. So temas ridos da economia, que afetam a vida da maioria da populao, mas ignorados nos programas presidenciveis.

PRIVILGIOS – Diante dessa realidade, a farra dos privilgios invencvel na vida econmica nacional. No perodo de 2003 a 2016 (governos Lula, Dilma e Temer) o grande capital foi vitorioso, como demonstram os nmeros. Os subsdios financeiros, desoneraes e as renncias tributrias, benefcios fiscais, custaram ao pas R$ 3,5 trilhes (quase 1 trilho de dlares). Isto em um governo que se dizia popular.

Em verdade, foi o beneficiador de grupos econmicos e bolsos de quem menos tem necessidade de favores oficiais, afetando diretamente o desenvolvimento, impactando a modernizao produtiva e reduzindo a criao de um emprego.

A rigor, a administrao pblica brasileira, em diferentes governos, vem sendo capturada e vai elevando ano aps ano a renncia fiscal como poltica econmica de Estado. A elevada carga tributria brasileira , tambm, consequncia desses privilgios.

DFICIT PBLICO – No ano passado o dficit pblico nominal, diferena entre receitas e despesas, incluindo os juros da dvida pblica, atingiu R$ 562 bilhes. Os brasileiros, pela ao do governo e viso parcial da mdia jornalstica, omitem o dficit nominal e do destaque somente ao dficit primrio (excluindo os juros) que foi de R$ 155 bilhes.

Em 2019, quando assumir o novo presidente da Repblica, as renncias e benefcios tributrios crescero em 8%. Atingiro R$ 306 bilhes, agravando ainda mais a situao econmica no primeiro ano do novo governo. Os grupos de interesses, formalizado no Congresso nas suas corporativas frentes parlamentares, no abrem mo dos seus privilgios.

Resta indagar: esse vis de poltica econmica no um dos responsveis pela desigualdade da renda nacional?

JUROS DO BNDES – Um exemplo dessa deformao tem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social) como protagonista. Entre 2008 e 2015, o Tesouro Nacional captou a preos de mercado R$ 500 bilhes, depois emprestado a grandes empresas (a exemplo da JBS) a taxas de juros subsidiados, a TJLP, muito inferior Selic.

Quem paga o subsdio implcito a sociedade. Acrescente que poderosas empresas, a exemplo da indstria automobilstica, usam largamente de incentivos tributrios e redutveis ao longo das ltimas dcadas.

Trabalho do Instituto Fiscal Independente constatou que, somente com emprstimos e financiamentos, o governo federal tem a receber R$ 1.545 trilho. Os dois principais devedores so o BNDES, com R$ 636,3 bilhes e os Estados e Municpios, no total de R$ 577,0 bilhes. So questes dramticas que sero enfrentadas por quem venha a ser eleito.

DESAFIOS SATNICOS – Se renascidos de volta ao mundo temporal, Jesus, Maom ou Moiss, eleitos presidente da Repblica, teriam desafios satnicos e diablicos para colocar o Brasil em nvel civilizatrio na sua administrao pblica.

Ajuste fiscal, equilbrio das contas pblicas, abertura comercial, desconcentrao da renda e justia social seriam frentes de combate permanente. Valendo dizer que nenhum governo ter xito se no adotar reformas fundamentais para o futuro do Brasil.

“Foi o Kim-1 que me prendeu, porque errei de Coreia”

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Nery ( esquerda) quando ainda errava de Coreia

Sebastio Nery

Alucinante aquela tera-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira pgina de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. H apenas dois anos, ainda no seminrio, de batina, piedoso, estudava Filosofia, para ser padre, talvez um dia bispo, qui cardeal. Na Tribuna de Minas a manchete era minha:

Confirmam-se as Acusaes da TM sobre as Ligaes do sr. Jos Mendona com Elementos Comunistas. Preso ontem um redator de O Dirio, justamente o homem de confiana do presidente do sindicato dos jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Veem de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastio Nery.

O Diario da Tarde, tambm com manchete na primeira pgina:

Desmantelada Pela Policia uma Reunio Comunista Varejada a sala de um prdio da rua Carijs. Efetuadas numerosas prises. Apreendido farto material de propaganda vermelha.

O Estado de Minas, como o Dirio da Tarde tambm dos Dirios Associados de Assis Chateaubriand, o maior jornal de Minas (o mais importante era O Dirio), abriu manchete:

Mais de 40 Pessoas Foram Detidas Pelas Autoridades.

O campeo de ttulos berrantes era o Dirio de Minas:

Surpreendidos os comunistas quando tramavam planos de ao.

NO XADREZ Dia seguinte, 31 de dezembro, Ano Novo, continuvamos presos, rveillon no xadrez, e a Tribuna de Minas no me dava folga:

Esse rapaz que apareceu nos jornais de ontem, fotografado com esse sorriso todo dentes, como se tivesse acabado de praticar a ao mais louvvel desse mundo, o tarefeiro comunista Sebastio Nery, de O Dirio, o jornal do arcebispado, amigo e confidente do senhor Jos Mendona, redator-chefe do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Sebastio Nery foi preso com uma malta de desclassificados.

Hoje, 66 anos depois, vejo os jornais e me surpreendo. ramos todos muito jovens, nenhum de cara triste nem inocente. Sabamos muito bem que estvamos em uma ao poltica proibida pela polcia e que, mais dia menos dia, seriamos soltos. No havia crime nenhum.

S uma frustrao. Elegante, terno claro, gravata bonita, lencinho no bolso esquerdo do palet, cabelo bem penteado, sorridente, meio abusado e desafiador, eu era bonito e no sabia, porque ningum me dizia.

Quando a policia chegou inaugurao do Movimento Mundial da Paz em Minas, estvamos l jovens estudantes e velhos lideres: Armando Ziller, venerando dirigente dos bancrios e ex-deputado comunista, sua bela filha Helia Ziller, estudante; Luis Bicalho, nosso professor na Faculdade de Filosofia; Aluisio Ordones, meu colega de Faculdade e vrios outros.

Todos presos, socados em rdio-patrulhas. Lembro-me bem da calma da Helia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.

Depois de receber alguns tabefes, percebi que o simptico e magrrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido. Tinha sumido na hora. Dias depois, j solto, encontrei-o em outra reunio:

O senhor muito rpido, coronel. Foi o nico que conseguiu fugir.

Meu filho, no repita isso. No fugi. Um oficial do Exercito brasileiro no foge. Bate em retirada.

AO DISFARADA – A reunio era uma ao disfarada do Partido Comunista e da UJC, Unio da Juventude Comunista, drasticamente reprimidos pela polcia. Para atuarmos politicamente, lanvamos mo de atividades legais. Naquele dia, discutamos o Brasil e o mundo e instalvamos em Minas o Movimento Mundial da Paz, criado na Finlndia paracombater a guerra.

A guerra da Coreia dividia a opinio pblica mundial e estvamos indignados com a Coria do Sul, capitalista e ligada aos Estados Unidos, que, segundo pensvamos e denuncivamos, havia criminosamente invadido a Coria do Norte, socialista e aliada da Unio Sovitica e China.

ERREI DE CORIA – E por defender a Coreia do Norte e denunciar a Coreia do Sul que tnhamos sido presos. Anos depois, Adido Cultural em Roma, fui a uma recepo ao ex-lder sovitico Mikhail Gorbachev, que tinha acabado de ganhar o Prmio Nobel da Paz e recebia grande homenagem da Itlia.

Perguntei a Gorbachev quem, na guerra da Coreia, havia comeado as hostilidades, quem tinha atacado quem e dele ouvi, perplexo, que a Coreia do Norte que tinha invadido a Coreia do Sul e no como dizamos.

Em 1952 eu estava enganado. Fui preso por causa do Kim-1, pai do Kim-2. Fui preso merecidamente. Errei de Coria.

Asfalto e calamento se tornaram sinnimo de corrupo na poltica

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jurema foi lder de JK na Cmara

Sebastio Nery

Uma tarde, tocou o telefone na liderana do governo na Cmara Federal. Era o presidente Juscelino. Pedia urgncia urgentssima na aprovao do crdito de 8 bilhes para o asfaltamento da estrada Rio-Bahia. s 8 da noite, o lder Abelardo Jurema ligou para o Catete: Crdito aprovado, presidente.

Juscelino saiu do Planalto, foi jantar na casa do empresrio mineiro Marco Plo. E fez os maiores elogios a Jurema:

o lder mais barato que eu j tive. Me d tudo e no pede nada.

O empreiteiro Spitzman Jordan ouvia a conversa, saiu e foi casa de Jurema:

Dr. Jurema, acabei de ouvir o Presidente fazer as mais calorosas referncias ao senhor. Percebi que o que o senhor lhe pedir, ele d. Tenho uma construtora. O senhor poderia pedir ao presidente que recomendasse ao DNER para me entregar um dos trechos?

Dr. Jordan, o lder s cuida de problemas polticos.

Dr. Jurema, podemos ver a coisa sob o aspecto poltico. O senhor o candidato do PSD ao governo da Paraba. Uma campanha eleitoral, hoje, exige muitos recursos. Posso depositar 100 milhes disposio do PSD da Paraba, para ajudar o partido. E, ajudando o partido, assegura sua eleio.

Abelardo desviou o assunto, falaram de outras coisas. Mas Jordan insistiu no asfalto da Rio-Bahia. Jurema encerrou a conversa:

Doutor Jordan, se o senhor me conhecesse melhor j saberia que no esse o tipo de poltica que eu fao. De qualquer maneira, se o senhor quer fazer o pedido ao Presidente, procure a bancada da Bahia. O asfaltamento foi uma reivindicao dela. Problema administrativo eu s encaminho os da Paraba e por delegao da bancada ou do governador.

No dia seguinte, Spitzman Jordan procurou o senador Rui Carneiro, lder do PSD da Paraba :

Seu Carneiro, seu amigo Abelardo Jurema vai morrer pobre.

No governo de Joo Goulart, Jurema foi ministro da Justia. No golpe militar de 64, foi cassado e exilado. E morreu pobre.

VAI SAIR RICO… – Outra histria antiga e exemplar. Draiton Nejaim foi prefeito de Caruaru, em Pernambuco, e era deputado estadual da Arena. Francelino Pereira, presidente nacional do partido, foi a Recife, Draiton encontrou-o:

Dr. Francelino, pode pr nos seus clculos que a Arena vai derrotar o deputado Fernando Lira em Caruaru e tomar a Prefeitura do MDB. Sou candidato e vou ganhar. Agora vai ser tudo diferente. Da outra vez, quando fui prefeito da UDN, me acusaram de roubo e eu sa pobre, inteiramente liso. Para me eleger deputado e depois eleger minha mulher, foi um sofrimento, um sufoco. No se pode fazer poltica sem dinheiro, sem muito dinheiro, sobretudo no Nordeste. Desta vez vou sair rico da Prefeitura. Nunca mais volto a ser pobre.

Sair rico, como, deputado? O senhor sabe o que est falando?

Sei, sim, presidente. Vou roubar mesmo. Mas no vou roubar para mim. Vou roubar para nosso partido. Roubar para ter dinheiro e nunca mais a oposio ganhar eleio em Caruaru.

Francelino ficou perplexo:

Mas isso uma confisso louca, deputado. No pode ser, o partido no pode permitir nem sequer ouvir isso. Seria um escndalo.

No, dr. Francelino, no vai ter escndalo, no. Ningum fica sabendo. Tenho uma receita perfeita: calamentos e aterro. Ningum mede, nem conta nem pode fiscalizar calamento e aterro.

Draiton derrotou o MDB, reelegeu-se prefeito de Caruaru. No sei se cumpriu a palavra. Mas, s fez calamento e aterro.

Asfalto e calamento eram sinnimos de progresso. Tornaram-se smbolo de corrupo.

Lies e saudade de um democrata chamado Juscelino Kubitschek

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JK era chamado de “O Homem que Ri”

Sebastio Nery

Ningum me contou, eu vi. Foi h muito tempo, na dcada de 50. Eu morava, estudava e trabalhava em Minas como jornalista poltico (O Dirio, Dirio da Tarde e Jornal do Povo). Juscelino havia resistido ao golpe que levou Getlio Vargas ao suicdio em 24 de agosto de 1954 e era candidato natural do PSD, do PTB e das esquerdas Presidncia da Repblica, em 1955.

Todos os dias, invariavelmente, amos ao Palcio da Liberdade ver o governador e saber o que havia no pas e em Minas. Juscelino era um forte sitiado. A UDN mobilizou um cerco nacional no Congresso, na imprensa e sobretudo nos quartis para vetar e impedir a candidatura de JK. Ele nunca perdeu o sorriso aberto com os olhos apertados.

UM GUERREIRO – Enfrentou tudo: a oposio desvairada de Lacerda na imprensa, o jogo duplo, s vezes triplo, de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho nos seus jornais e televiso e, sobretudo, a resistncia de uma banda do PSD dentro do seu partido, a comear por Benedito Valadares, em Minas.

Para comemorar os 116 anos de nascimento de JK, agora dia 12 de setembro, vale lembrar a grande virtude de JK cantada em verso e prosas, hoje, pela classe poltica brasileira:

Juscelino era um determinado. Sem condies materiais, estudou, formou-se e se aperfeioou em medicina em Paris. Nunca olhou para trs. Sempre para frente.

ARTILHARIA – O que a UDN fez, naquela poca, para detonar a candidatura de JK pareceria hoje inacreditvel. S no era pior do que a artilharia do PT hoje. Como vimos em Juiz de Fora essa semana com o atentado ao lder nas pesquisas Presidncia da Repblica.

A UDN de Minas, achando pouco ter quase a unanimidade da imprensa nacional, ainda criou um jornal de luta, bem feito, bem escrito, com dinheiro vontade: Correio do Dia. Nele escreviam os lderes nacionais da UDN como os de Minas, a maioria nossos brilhantes e queridos professores nas faculdades de Direito e de Filosofia.

JK OS DERROTOU – Nas salas de aula, eram sbios vares gregos. Nos palanques e jornais, demnios: Pedro Aleixo, Milton Campos, J M de Carvalho, Jos Cabral, Horta Pereira, Afonso Arinos, tantos outros. Pareciam imbatveis, no entanto foram derrotados todos, um a um, e mais seus aliados Magalhes Pinto, Zezinho Bonifcio, pelo determinado JK.

Para ganhar tiveram que rasgar a histria libertria de Minas, inclusive o valente Manifesto dos Mineiros, de 1943, indo buscar nos quartis os generais hoje envergonhados do golpe de 1964. JK resistiu a tudo, venceu dentro de seu partido, o PSD, ganhou o apoio dos trabalhistas e da esquerda e, em outubro de 1955, elegeu-se Presidente.

UNIO EM MINAS – Em 1955, a UDN dizia que Minas massacraria Juscelino na eleio. Quem garantiu a vitria de JK com 36,8% dos votos nacionais (no havia segundo turno, o mais votado do primeiro era o eleito) foi a votao esmagadora que Minas deu a Juscelino, anulando a vitria de Adhemar de Barros, em So Paulo, e de Juarez Tvora, no Rio. Assim como Minas e tirando Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o resto do Pas tambm deu a vitria a Juscelino.

Agora, em 2018, a eleio bate novamente nossa porta. O Brasil cansou de conviver com as maracutaias e falcatruas de Lula, da Dilma e do PT com escndalos como do Mensalo, do Petrolo, do BNDES e tantos outros que surpreenderam at os fundadores do Partido.

ORCRIM DE LULA – Agora a nao j sabe que o PT (Lula, Dilma, Gleisi, Jos Dirceu, Palocci, Vaccari, Haddad e toda direo nacional) instalou na Petrobrs e nas empreiteiras amigas a mesma organizao criminosa que a Polcia Federal, o Ministrio Pblico, o juiz Srgio Moro e os Tribunais Superiores denunciaram, condenaram e prenderam.

As investigaes mostraram que Lula, o operrio do ABC, descobriu o dinheiro. O triplex de Guaruj e o stio de Atibaia, o contubrnio com as empreiteiras e, mais grave, o escndalo dos escndalos que est surgindo agora nas lanternas da Lava Jato: os 50 bilhes de dlares do BNDES distribudos com os ditadores amigos e em propinas externas.

Saudade do democrata Juscelino Kubitschek de Oliveira.