Na Venezuela, o Jnio de l era gordo e chamava-se presidente Herrera

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Luis Herrera era uma grande orador, o rei das mentiras

Sebastio Nery

Mais uma vez desci em Caracas em 1979. Na portaria do Centro Simn Bolivar, o homem de radinho de pilha olha para mim irritado. Estava ouvindo seu futebol, como todo porteiro que se preza, seja paraibano ou venezuelano, e aparece um chato perguntando onde era o servio de telex internacional. Sbado de tarde, fechado. E no podia fazer nada para ajudar-me porque todo mundo havia ido embora.

Como que est a situao aqui para um trabalhador?

J foi mais fcil. No governo passado, a gente tinha mais direitos no trabalho e nos sindicatos, porque o partido do Presidente Perez era o partido da maioria dos trabalhadores. O presidente da Confederao dos Trabalhadores da Venezuela era deputado da Ao Democrtica, o Jos Vargas, e por isso as coisas ficavam mais fceis.

Por que ento o partido de Perez, a Ao Democrtica, perdeu as eleies para a Democracia Crist, a COPEI?

Porque o povo sempre gosta de experimentar outro Governo e aqui na Venezuela sempre foi assim: sobe a AD, depois sobe a COPEI, desce a COPEI, sobe a AD.

Por que ento os trabalhadores esto reclamando, ameaando greve geral?

Foi um erro terrvel. Eu no votei nele, mas a maioria dos trabalhadores foi na conversa de um homem perigosssimo, muito inteligente e muito esperto, que prometeu tudo. Falava tudo que o povo queria ouvir e agora que chegou ao governo est fazendo exatamente o contrrio. Est governando com os grandes grupos. Ele prometeu que desta vez a Democracia Crist na Venezuela seria democracia e seria crist, mas no est sendo, porque est fazendo um governo dos patres contra os trabalhadores.

No Brasil, j houve um Presidente que fez a mesma coisa. Prometeu governar com o povo e quando chegou l governou foi com os grandes grupos.

Como era o nome dele?

Jnio Quadros.

QUEM HERRERA? – Voltei para o hotel com uma idia na cabea: saber bem quem esse Presidente Herrera, o Jnio da Venezuela. De noite ligo a TV, estava anunciando de instante em instante: Veja hoje o Presidente que fala com o povo. Tema: A terra para quem trabalha.

Comea a falar com um jogo de voz e de gestos que mudam de pedao em pedao, ora sarcstico, ora duro, frentico e meio possesso. Quando sai do ar, voc fica numa dvida terrvel; no possvel que tudo aquilo que ele falou no seja a verdade. Pois no . Vou jantar com jornalistas de vrias tendncias, alguns inclusive ligados a entidade do governo, e acabo convencido de que o porteiro tinha razo: um fantstico enganador. E com um talento extraordinrio.

E os fatos? Bem, os fatos esto nos jornais, na dura luta poltica. preciso no esquecer que a Venezuela uma democracia provada e comprovada h anos e no passa pela cabea de ningum mudar o regime ou dar um golpe. Todos os partidos funcionam livremente, inclusive o fraco Partido Comunista e o mais forte Partido Socialista. A anistia acabou a guerrilha e os guerrilheiros esto nas ruas pacificados.

BOCA DAS URNAS – A luta poltica e quem a decide o povo na boca das urnas. O governo Andrs Perez havia aumentado muito a dvida externa e o custo de vida subiu muito com o controle cada dia maior das multinacionais sobre a maior parte da produo interna e sobretudo com a importao da maioria dos bens de consumo, inclusive alimentos.

Herrera, o grande ator, vai falando e tentando segurar o barco com palavras bonitas. Os artistas polticos podem ganhar eleies, mas nunca fazem a histria.

No Brasil, a poltica j no tem atrativo para pessoas de alto nvel moral e intelectual

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Charge do Cicero (cicero.art.br)

Sebastio Nery

A vida pblica deve ser exercida com vocao, na convico de ser um servidor do seu povo. Denegrir esse princpio no exerccio da funo pblica trair o sentido maior da representao popular. Arrivistas despreparados no exerccio da administrao pblica, em todos os nveis, vm invadindo a vida poltica brasileira com audcia incomum. O professor Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de um livro essencial para entender a representao do Brasil poltico contemporneo. Representantes de Quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna Cmara dos Deputados.

Retrata o desvirtuamento dos homens pblicos, na sua maioria, investidos de mandatos e a desarrumao geral do sistema eleitoral brasileiro.

BAIXO NVEL – O cientista poltico lamenta que os grupos qualificados fugiram da poltica e isso fez mal ao Pas. Comparando o nvel atual com o de dcadas atrs, camos em um abismo gigantesco. que a poltica, de certa maneira, deixou de ser um atrativo para segmentos da classe intelectual. Quantos escritores, professores universitrios temos hoje no Congresso? Um Florestan Fernandes, um FHC, formuladores, idelogos no sentido prprio da palavra? E lideranas empresariais e artsticas? Quantos advogados constitucionalistas? Muito menos! Creio que por causa de tantos escndalos, da decepo com a poltica em si, essas elites se afastaram do ncleo poltico. E isso faz muito mal ao Pas.

O voto obrigatrio hoje no mundo existe em poucos pases. Em apenas 31 deles, destacadamente na Amrica Latina com 13, inclusive o Brasil. O total de pases no mundo, de acordo com a ONU, so 236. Desses (desenvolvidos e em vias de desenvolvimento), no expressivo nmero de 205, o voto facultativo. Voto direito da cidadania, no obrigao. No Brasil, a legislao eleitoral punitiva e impositiva na obrigatoriedade do ato de votar.

SOLUES VAZIAS – Ajudando a alimentar narrativa falsificada da realidade, ignorando e iludindo a opinio pblica, os candidatos vendem solues fceis e vazias de contedo. Desprezam a construo de relaes de confiana entre candidato e eleitor. O que leva ao comprometimento de uma sociedade civilizada e democrtica.

Na revista Veja (28/03/2018), o articulista e analista J.R.Guzzo, destaca: No existe democracia quando os governos so escolhidos por um eleitorado que tem um dos piores nveis de educao do mundo. Em grande parte incapaz de entender direito o que l, as operaes simples de matemtica, ou noes bsicas do mundo em que vive. O que pode sair de bom disso a? O cidado precisa passar num exame para guiar uma motocicleta. Para eleger o presidente da Repblica, no precisa de nada.

EQUVOCOS – O resultado, quase sempre, so escolhas equivocadas com impacto no presente e no futuro do Brasil. Da brotam governos incompetentes, ineptos e, muitas vezes, trapaceiros que tm, em crculos repetitivos, levado a sociedade ao descrdito nas aes e diretrizes do poder pblico.

Estamos construindo um modo de vida no qual o princpio de que todos so iguais perante a lei fico. Na prtica, o princpio vale para poucos que tem assegurados os seus privilgios, com a criao de leis e sinecuras do Estado, garantindo a tirania na maioria.

“Hora de trabalhar? Pernas pro ar que ningum de ferro!”, dizia Ascenso Ferreira

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Ascenso Ferreira era um intelectual multmidia

Paulo Peres
Site Poemas & Canes

O poeta, funcionrio pblico, escritor, jornalista, compositor e radialista pernambucano Ascenso Carneiro Gonalves Ferreira (1895-1965) jocosamente registra a Filosofia de quem no gosta de trabalhar, num de seus poemas mais famosos.

FILOSOFIA
Ascenso Ferreira

Hora de comer comer!
Hora de dormir dormir!
Hora de vadiar vadiar!
Hora de trabalhar?- Pernas pro ar que ningum de ferro!

Em Florena, a arte e a poltica se uniram e inventaram o mundo moderno

Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem... Frase de Maquiavel.Sebastio Nery

Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas j sabia da vida e do mundo. Escreveu o Dirio de Florena. Stendhal, o francs, em 1826 tambm viu: Florena, pavimentada com grandes blocos de pedra branca, talvez a cidade mais limpa do universo e certamente a mais elegante. E Mary Mc Carthy, a americana, em As Pedras de Florena, diz: Os florentinos, inventaram a Renascena, o que quer dizer que inventaram o mundo moderno.

Em 1957, a primeira vez em que estive em Florena, Lucia Helena Monteiro Machado ainda era uma menina. Tantos anos rolaram e eu a redescobri em um vo de Paris para Roma, lendo o seu excelente livro Florena Bero do Renascimento, que diz tudo em 200 pginas:

1 Parece exagero. Em Florena estruturou-se a lngua italiana a partir de Dante. L Galileu deu incio cincia moderna. L nascia a nova concepo de poltica com Maquiavel e se deu a revoluo que libertaria a arte de todos os limites e preconceitos que vigoraram na Idade Mdia. Em Florena o homem redescobriu a importncia de seu papel no mundo.

2 Florena conta mais de 2 mil anos de histria. Questiona-se se seria romana ou etrusca. A origem etrusca parece ter sido comprovada nas escavaes da Piazza de la Signoria na dcada de 1980. Os etruscos chegaram regio na segunda metade do sculo VII antes de Cristo. E foram dominados pelos romanos no sculo III aC.

3 O nome Florencia, atualmente Firenze, de origem Latina, tem vrias explicaes. Alguns acham que uma referncia aos jogos florais da poca romana. Outros aos campos floridos que se estendiam pela margem do rio Arno. A hipotese menos provvel seria uma homenagem ao general de Csar, Fiorinos, que ali acampou em 63 aC. Preferimos a origem mais romantica: o smbolo da cidade a flor de lis.

4 Em 1348 uma peste matou metade da populao. E Florena um mistrio da civilizao universal. Teve trs homens que foram os precursores do Humanismo: Dante, Petrarca e Boccacio. Dante, de 1265 a 1321. Antes da Divina Comdia, sua obra prima, que estruturou a lngua italiana, ele j havia escrito em latim De Monarchia onde defendia a autonomia do poder temporal em relao ao espiritual. Depois, j em italiano, escreveu Il Convivio sobre a sabedoria.

5 – Petrarca, de 1304 a 1374, tambm poeta genial, escrevendo em latim, analisa a obra de Ccero e faz com que a Renascena adote o latim clssico como a lngua dos eruditos.

6 – Boccacio, de 1313 a 1375, deixou sua obra prima Decameron, pequenas novelas que fizeram dele o pai do conto moderno: um grupo de sete mulheres e trs homens, refugiados no campo para fugirem da peste, de seus desejos, alegrias e seus apetites de forma licenciosa e espirituosa.

Boccacio financiou a primeira traduo de Homero para o latim. E escreveu a biografia de Dante. Os trs plantaram assim a Renascena.

OS MEDICI – Desde 1382 grandes famlias dominavam Florena: os Albizzi, os Alberti, os Ricci, os Strozzi. Mas Florena no seria Florena sem os Medici. Dominaram a cidade por mais de trs sculos.

Grandes mecenas e grandes colecionadores de arte, so responsveis pelos tesouros artsticos da cidade.

As tragdias da Nicargua, ao final de uma revoluo que se perdeu

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preciso usar mscara, para no ser reconhecido

Sebastio Nery

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denncia: Os direitos humanos so trs: ver, ouvir e calar. Em outro muro, branco e limpo, a esperana: Bolvar y Sandino, este es El Camino. Nas vsperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: No podemos entregar o pas a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade da ptria. O embaixador americano sorriu: Qual? A sua ou a nossa?

A menina linda, cabelos negros e olhos puxados, estudante e guerrilheira, sentada a meu lado no avio, conta a piada para mostrar como seu povo sabia bem quais eram seus principais inimigos. E por isso que a unidade nacional to poderosa se fez na hora da luta final.

SANGUE E LUCIDEZ – A histria destes povos to miserveis e to sofridos da Amrica Central est sendo escrita com sangue, mas tambm com uma dura lucidez. Eles aprenderam em sculos de dominao e dependncia que o caminho da liberdade a deciso de lutar. Como Bolvar e Sandino ensinaram.

Deso no aeroporto, est l em letras enormes: Bem vindos Nicargua livre. E um retrato do general Augusto Cesar Sandino, o heri da independncia nas lutas contra os Estados Unidos no comeo do sculo: chapu, leno no pescoo e o lema: Ptria livre ou morrer.

No parecia que este povo acabara de derrubar uma ditadura com uma guerra civil. A alfndega apenas um rapaz olhando e carimbando o passaporte, outro abrindo e fechando as malas mecanicamente e em menos de um minuto para ver se h armas, e uma garota na caixa cobrando um dlar e meio de taxa de desembarque. Nenhum ar de desconfiana ou de receio.

DOIS GUERRILHEIROS – Armados, apenas dois guerrilheiros, com suas fardas verdes e boinas vermelhas: um jovem de no mximo vinte anos e uma menina morena, muito morena e muito menina, dizendo amavelmente: Bienvenido. E s. Nada daquele clima de terror policial que se v em tantos cantos do mundo.

Eles aprenderam, de um duro aprender, que s h uma segurana: a vontade nacional.

No sei o que aconteceu com os mais velhos nesta incrvel terra de jovens. S se veem jovens. Chego ao Palcio da Revoluo que era o Palcio Nacional tomado pelo Comando Zero e seus companheiros em agosto um garoto de farda verde e metralhadora na mo pergunta se estou armado e passa a mo em minha cintura.

Por que esse cuidado todo?

Os inimigos. Ainda no ganhamos tudo. H inimigos ainda por toda a parte.

MAIS POBRE – Volto para o Hotel Intercontinental, abro a janela do oitavo andar e de repente entendo porque tudo aconteceu. Outras vezes estive aqui, em 1958 e 1960. E percebo que esta capital da Nicargua, tantos anos depois, neste outubro de 19798, muito mais pobre e abandonada.

Claro que houve o terremoto de 1972, que destruiu o centro quase todo, mas o maior crime de Somoza foi exatamente ficar com o dinheiro da solidariedade internacional e depositar em dlares nos bancos dos Estados Unidos. Mangua a capital mais pobre de toda a Amrica Central.

UMA FAZENDA – Da janela vejo o quadro da ditadura. Somoza fez daqui uma fazenda sem metfora. Atrs do hotel, o bunker de onde ele governava. Em frente, o nico edifcio alto da cidade, o Banco da Amrica. L no fundo a catedral. E as casas de barro cobertas de papelo espalhadas por todo canto.

Tudo exatamente como em uma grande fazenda. O povo muito pobre andando nas ruas e a rdio no quarto do hotel cantando a vitria sobre a ditadura: Rdio amor, pobre, mas honrada como a Ptria.

Na Crocia de Tito, houve o casamento do socialismo e da liberdade

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Em 1948, Tito j era um dos lderes mundiais

Sebastio Nery

Em julho de 1957, estava eu em Moscou, a imprensa internacional acordou com a manchete quente: Tito e Bulganin encontram-se na fronteira da Rumnia. Bulganin, um velhinho de barbicha branca e cara muito rosada, que poucos dias antes eu vira passeando s e calmamente nos jardins do Kremlin, era o ento presidente da Unio Sovitica. Aquele papo de fronteira significava o fim de dez anos de punhos cerrados entre URSS e a Iugoslvia, com os comunistas de meio mundo acusando Tito de traidor do socialismo.

No ano seguinte, para espanto dos americanos e desespero dos stalinistas, o presidente Bulganin e Kruschev, primeiro-ministro e secretrio geral do PC sovitico, desciam em Belgrado e faziam a mais sensacional autocrtica j vista em dirigentes da URSS: na briga com Tito, os errados fomos ns. E comeou o degelo no leste.

VELHO LEO – Gomulka saiu da cadeia, reassumiu o poder na Polnia e foi ver Tito. Lembro bem, apesar dos anos j passados, quando fui pegar meu carto de jornalista estrangeiro convidado para o jantar de Tito a Gomulka, um correspondente americano me disse malicioso:

Os meninos esto arrancando os dentes do velho leo, depois de morto.

Que leo?

Stalin.

A histria rodou, a experincia socialista se fez universal, Bulganin e Kruschev perderam o poder e a vida, e tanto tempo depois, reencontro a Iugoslvia um pas inteiramente novo, reconstrudo da guerra, industrializado, em processo de desenvolvimento com ndices raros em toda a Europa, e ainda sob o comando poltico e nacional, muito mais nacional do que poltico, do mesmo Tito que arrancou a autocrtica de Bulganin e Kruschev. Por qu? Porque Tito, aos 81 anos, era muito mais do que o presidente do pas, por ser o seu grande herdeiro vivo.

FILHOS DA MORTE – Os heris so filhos da morte. Nascem na sepultura. Mas a histria s vezes faz alguns coabitarem com a glria e, em vida, serem sinnimos de sua ptria. Quando De Gaulle dizia Se quero saber o que a Frana pensa, pergunto a mim mesmo ele estava apenas traduzindo a sua conscincia de heri vivo. Tito era o De Gaulle socialista da Iugoslvia. Um homem sinnimo de seu pas e de seu povo.

Nossa filosofia bsica de governo o respeito liberdade dos homens e o desenvolvimento natural de nosso sistema socialista dizia-me em almoo no clube de imprensa o ministro Dragoyub Budimovski, um jornalista que, em 1941, deixou a redao e foi para as montanhas, de fuzil na mo, aos 18 anos, fazer guerrilha contra as tropas de Hitler que tinham invadido seu pais. Gordo, forte, vermelho, parece campons eslavo. E no outra coisa esse filho da Crocia, sorrindo largo, comendo muito e falando apaixonadamente da experincia nacional de seu povo:

Quer dizer que aqui socialismo e liberdade se casaram.

a nica maneira de dar bons filhos.

E riu largo, aberto, vermelho, como os camponeses da Crocia.

Transiberiana, a ferrovia do sonho que deveria servir de exemplo ao Brasil

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A clebre ferrovia est em operao desde 1903

Sebastio Nery

H sempre um trem de ferro na infncia de cada um. Mas sempre houve um na infncia de todos: A Transiberiana. Cantada em prosa e verso, cenrio de romances, histria de filmes, mas sobretudo mistrio e aventura nos contos infantis, a Transiberiana um patrimnio da humanidade.

E agora ela est aqui, ao meu lado, com seus trilhos nevados, sua respirao profunda, ofegante, suspirosa, seu cheiro de sonho, invadindo a floresta, mergulhando montanhas, saltando rios, cortando a sia de ponta a ponta, de Moscou a Vladivostock, 11 mil quilmetros, 10 horas de fusos horrios diferentes, uma semana inteira, dia e noite, a mais de 80 quilmetros por hora, ligando dois mundos.

1 Quem domina a distncia, domina a Sibria, dizem os siberianos. Eles sabem que, antigamente, as naes eram ocupadas por tanques. Hoje, por trilhos. Por isso, da Transiberiana acaba de nascer uma nova estrada, monumental como ela, outra epopeia da engenharia, cortando a Sibria mais pelo centro (a Transiberiana mais pelo Sul), dentro da floresta: a Baikal-Amour, ligando o lago Baikal, no corao da Sibria Oriental, ao Pacfico, na regio do rio Amour.

2 A BAM, como eles chamam, 3.200 quilmetros, toda eletrificada, duas longas bitolas, correndo a 120 quilmetros por hora, carregando 3 mil toneladas, usando locomotivas e vages especialmente construdos para ela, e controlada por um sistema de televiso. S a infra estrutura na regio, preparando a construo, custou 15 bilhes de dlares, mais do que foi gasto na prpria estrada e quase um quarto do oramento nacional anual de um pas como a Frana.

3 Em cinco anos de construo, movimentou 270 milhes de metros cbicos de terreno, ou seja, mais de cem pirmides de Qheops. Tem mais de 1.500 pontes, mais de 10 tneis, e quase 2 mil quilmetros de estradas paralelas, em um raio de 1.600 quilmetros, Cem mil homens, com uma idade mdia de 23/25 anos, a fizeram.

4 Nas montanhas que a BAM atravessa, so frequentes as avalanches de gelo. Em certas regies por onde passa, h at 2 mil tremores de terra por ano.

5 Alis, como tudo na Sibria imenso, por causa de seu tamanho, tambm nos outros transportes os nmeros so sempre grandiosos: 10 mil quilmetros de rios navegveis, ligando por exemplo, a Sibria a Londres. Navios de 3 mil toneladas sobem e descem os rios Enissei e Angara, unindo as fronteiras sul e norte da Sibria, ao longo de 3.200 quilmetros.

6 Em 1978, o transporte de passageiros em todo o pas foi assim: estradas de rodagem (40.365 milhes), estradas de ferro (3 bilhes), fluvial (144 milhes), areo (97,8 milhes), martimo (50,3 milhes).

7 Tambm em 1978, o transporte de mercadorias no pas inteiro foi assim: estradas de ferro (3.429 milhes de toneladas por quilmetro), oleodutos e gasodutos (1.049 milhes de ton/km), martimo (815.700 mil ton/km, fluvial (243.500 mil ton/km), areo (2.086 mil ton/km).

8 Esses nmeros mostram que os pases de grandes extenses como a Russia, os Estados Unidos, o Canad, o Brasil, tec., no podem basear seu transporte sobre rodovias, sobretudo depois da crise do petrleo. preciso articular estradas de ferro, rios, mares, rodovias e avies. Aqui na Sibria se diz: automvel, s at 400 quilmetros.

Vou anotando esses nmeros enquanto a Transiberiana, longa e esguia, mergulha floresta adentro, no infinito branco da neve. Como nas histrias e nos sonhos da infncia.

 

Baikal, o imenso lago sagrado que guarda as riquezas da Sibria

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a maior reserva mundial de gua potvel

Sebastio Nery

Em 1905, a Rssia estava em guerra com o Japo. Era preciso atravessar o rio Angara, afluente do Enissei, que corta a Sibria de sul a norte. No havia ponte e as tropas deviam passar. S havia um jeito: por cima do lago Baikal. E foi sobre o lago Baikal, gelado, que eles construram uma estrada de ferro de dezenas de quilmetros e as tropas passaram.

Isso a histria. Mas no s por fora da histria que o lago Baikal o lago sagrado da tradio russa. que nele, em torno dele, sobre ele e embaixo dele h riquezas tais que fazem dele o corao amado e sagrado da Sibria. Sem falar em sua beleza, longo e plcido, no inverso gelo, no vero lmina azul. Cada povo tem seus desvelos geogrficos, seus encantamentos naturais: a lagoa do Abaet, de Itapo; o So Francisco, Pai Chico, da Bahia; o Guaiba, dos gachos; o Jaguaribe, do Cear; o Capibaribe, dos poemas de Carlos Pena Filho, no Recife. O lago Baikal assim: est na boca de seus cantores, nos versos dos seus poetas. E com razo.

1 a maior concentrao de gua doce do mundo: 20% de suas reservas: 23 mil quilmetros cbicos de gua. Mais que o Mar Bltico. At o fim do sculo, eles imaginam que o lago vai ser uma fonte de gua potvel de qualidadeS excepcionais.

2 Com 636 quilmetros de comprimento e uma superfcie equivalente da Blgica e da Holanda juntas, o 8 lago do mundo em superfcie. Mas, graas a sua profundeza ( o primeiro, com 1620 metros de fundo), na primavera veem-se objetos brancos at a 40 metros abaixo.

3 336 rios, grandes e pequenos, acabam nele. Um s nasce, o Angara, filho de um lar to manso e no entanto um dos rios mais caudalosos que se conhecem.

4 Mais de 600 plantas nele e em torno dele vivem, e uma fauna de 1300 espcies, das quais mais de 900 no se encontram em nenhuma outra parte: a foca do Baikal, o peixe golomianca, o omul, etc.

5 E as pedras preciosas, metais, minerais? Uma variedade infinita. Visitei o Museu do Baikal, beira do lago, em 1957. E o Museu de Geologia, em Irkutsk, a 70 quilmetros , mantido pelo Instituto Politcnico. um mundo de riquezas minerais. A diretora vai mostrando e contando os mistrios de cada pedra, muitas conhecidas e muitas s da regio do lago, ao menos na variedade de tipos e cores.

  1. a) A opala, smbolo da mulher traidora.
  2. b) A ametista, em que a mulher de Jpiter converteu sua empregada, porque queria transar com Baco. At hoje smbolo do controle da bebida. Os armnios dizem que a ametista ajuda nos negcios, porque voc pode beber e negociar. No deixa embebedar.
  3. c) A cerdolic, avermelhada, que os egpcios punham no lugar do corao dos faras, arrancando antes de serem enterrados nas pirmides.
  4. d) As nifrites, verdes e luminosas, smbolos de vida longa.
  5. e) E calcitios, fluorites, lazurites, tchanoites, um belo mundo mineral em ites.

6 E as pirites? Um sueco caiu dentro de uma mina de pirites, morreu l embaixo e, anos depois, encontraram-no inteiro, inteirinho, preservado e empedrado.

O Baikal isso: por cima, a beleza gelada do inverno e o lmpido azul de suas guas no vero. Por baixo e pelos lados, uma riqueza inesgotvel. Em cima dele, como Cristo, andei. No era gua, era pedra de gua, gelo puro, com um metro de grossura.

E nas noites de lua gorda, a neve cobrindo as margens e o gelo cobrindo as guas, o Baikal parece coisa de histria de encantamento: um lenol luminoso onde a Sibria adormece o cansao de sua caminhada apressada para o sculo XXI.

Um milagre do esforo humano, no enfrentamento ao gelo eterno

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Blocos de gelo, nas ruas de Norilsk, no Norte da Rssia

Sebastio Nery

Bris Kolesnikov, menino asitico, vivia com o pai, a me e trs irms menores no sul da Sibria, fronteira com a Monglia e a China. Em 1946, morre o pai e ele decide fazer a grande aventura. Pe um saco s costas, ganha mundo, pega o rio Angara, depois o Enissei, e vem para o Polo Norte, que se estende da fronteira da Finlndia at o estreito de Bhering, no Alasca), onde mora, todo vestido de branco, o gelo eterno.

Hoje, Boris diretor geral do complexo industrial de Norilsk, o mais importante de todo o polo Norte mundial: um combinado metalrgico-mineral na pennsula de Taimyr. Ele testemunha e parte de uma das mais fantsticas histrias da aventura humana.

PARALELO 69 – Norilsk, cidade transpolar, localizada no polo rtico, acima do paralelo 69. Acreditava-se que era impossvel a quem viesse de fora suportar viver onde h insuficincia de vitaminas e de raios ultravioleta e onde se sentiria oprimido pelas longas noites polares e os dias curtos, muito curtos, ou s vezes nenhum, pois durante 47 dias, cada ano, no h dia, a noite eterna.

impossvel sair passeando, porque o vento furioso das tempestades de neve, capaz de derrubar gente grande, sopra sem parar cortando fino como navalha de bandido.

Nos nove meses do inverno, mais de 100 milhes de metros cbicos de neve caem sobre a cidade, Durante 280 dias, cada ano, os ventos rticos sopram a 30 metros por segundo e o frio de 55 graus abaixo de zero, chegando s vezes a 71.

VIDA COMUM? – Construda sobre o gelo e a neve, sobre a merzlota, em cima de pilotis de cimento armado, com edifcios altos, Norilsk derrotou a neve e o gelo. Tem tudo que em uma cidade normal, biblioteca de 3 milhes de volumes e uma vida e uma atividade de trabalho como qualquer outra. Com o sul, ela est ligada atravs do rio Enissei, navegvel. Com o extremo norte, atravs de uma ferrovia eletrificada de 120 quilmetros, que vai at o porto de Doudinka, o maior do polo Norte, porto de sada da Sibria para os caminhos do oceano rtico.

Toda esta enorme e carssima infra estrutura foi montada por causa das riquezas da pennsula de Taimyr: petrleo, gs, os diamantes de Yakoutie, as apatitas de Khibiny, ouro, minrios, 14 metais no ferrosos, fora a caa e a pesca, a criao de renas.

O complexo industrial est implantado sobre a central hidreltrica de Oust-Khantai, um gasoduto de 263 quilmetros e imensas usinas metalrgicas, com suas torres metlicas espetando o branco infinito, como brinquedos de Deus.

CIDADE PIONEIRA – Institutos cientficos, grupos de pesquisas de todo o pas, laboratrios e tcnicos das mais variadas especialidades estudam, planejam e acompanham, permanentemente, a realizao de cada nova experincia em Norilsk, uma cidade pioneira, uma cidade de aventura.

Tambm cientistas de vrios outros pases do polo Norte (Estados Unidos, Canad, Groelndia, Islndia, Noruega, Sucia e Finlndia) seguem, desde o comeo, a lio, o exemplo, o modelo de Norilsk para a conquista das regies de difcil acesso do globo.

E Trudeau, ento primeiro ministro do Canad, nico chefe de Governo estrangeiro a visitar Norilsk, olhando a tempestade de neve soprando novelos brancos, suspirou:

Isto uma lio, um exemplo. Mas sobretudo, um milagre.

Dentro do tubo de neve em que a Rssia se transforma, todo ano

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Operrio retira a neve que se acumulou na fuselagem

 

Sebastio Nery

Na Recordao da Casa dos Mortos, de Dostoievski, editado pela Jos Olympio, o genial Goeldi comoveu geraes de leitores com suas ilustraes inesquecveis: aquelas filas interminveis de russos, humilhados, ofendidos e recurvados, enrolados em trapos negros, caminhando sobre a neve para a Sibria, enxotados pela tirania dos tzares.

Chego ao aeroporto de Domodedovo, um dos quatro de Moscou, para pegar o avio at Volgogrado, primeira etapa da minha viagem Sibria e, das janelas, vejo uma cena bela: longos e elegantes TUS/2 turbinas (correspondem ao Boeing 737; os Iliushin correspondem ao 707/4 turbinas, mas so mais compridos e mais finos) esto pousados sobre um tapete branco e infinito e, andando para eles, grupos e mais grupos de homens, mulheres e crianas, todos bem-vestidos, bem calados, grandes gorros peludos, de couro de veado, botas pretas, marrons, vermelhas, luvas e capotes de pele de todos os tipos e de todas as elegncias.

A Unesco proclamou 1981 o ano de Dostoievski: em fevereiro fez 100 anos que ele morreu e em novembro 160 que ele nasceu. Um sculo e a mudana foi total. Logo, no h por que desacreditar da capacidade do homem de construir seu amanh.

RASPANDO A NEVE – A neve cai sem parar, grossa, intensa. Como possvel os avies chegarem e sarem? Caminhes enormes, como jamantas, empurrando largas navalhas negras, do tamanho das pistas, vo passando e raspando a neve. O avio desce, a neve volta, vem de novo o caminho com sua navalha. Um avio, um caminho, um avio, um caminho, na brincadeira de derrotar a neve.

s 9 horas da noite, chamam meu voo. Perto do avio, um susto. Est absolutamente coberto de neve. Um meigo e longilneo tubo de neve, como doce fantasma, arriado sobre o lenol branco. Ser que vai decolar? As turbinas esquentam? L dentro, um aviso. Vamos ter que esperar um pouco para tirarem a neve que cobre o aparelho. Tiram na hora, porque, se tirarem um pouco antes, ela cai de novo e novamente encobre. Um caminho se aproxima com grossos tubos, soprando bafo e derretendo a capa branca. So turbinas de velhos avies que eles usam para, engatados nos caminhes, lanarem os jatos de ar.

ESPERAR NA PISTA – Da a pouco, outro aviso: o aeroporto de Volgogrado fechou. A neve l cai to forte que se torna um guarda-chuva compacto sobre as pistas, impossibilitando a descida. preciso esperar, e esperar na pista, para, quando abrir l, haver tempo de limpar de novo nosso tudo, decolar rpido e ver se descemos uma hora e meia depois, antes que a borrasca volte e feche mais uma vez. Uma hora, duas, trs. Meia-noite, levantamos. Dois minutos depois, uma lua gorda boiando no cu azul-marinho, todo estrelado. Dez mil metros de altura e aquela lmina slida, cinza, como acrlico l embaixo.

E fico a pensar como vrio o mundo, to diferente as realidades. Por mais que saibamos o que a neve mesmo depois vista aqui e ali em tantos pases, uma coisa voc v-la como turista, entrar e sair do hotel, dar uma andada na rua, e outra, muito outra, a experincia de um povo que tem de conviver, cada ano, meses inteiros, 6, 8, 10, 12, com tudo coberto de gelo e frio. Os rios e lagos endurecem. As ruas e caladas sobem centmetros, nos parques metros de neve acumulada. E preciso ir tirando, e ela voltando, hora a hora, dia a dia, cada manh, meses direto. Uma batalha interminvel. Brinco com os russos:

Eu pensava que vocs tinham ficado livres de Napoleo, que atolou sua invaso na neve das estepes russas. Mas no, todo ano uma guerra certa, fixa, marcada, de meses, guardando tudo, reservando tudo, diminuindo a produo, at a primavera voltar e com ela o sol e as flores e os frutos da terra.

E eles me respondem, sbios:

, mas o inverno que nos faz fortes. Ele nos acostuma a resistir e esperar. E, sobretudo, a saber vencer as dificuldades.

Lembrai-vos de 1964 e do “dispositivo militar” do general Assis Brasil

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“Dispositivo” de Assis Brasil era uma iluso

 


Sebastio Nery

Queiroz Junior, jornalista e escritor, conta que, no primeiro semestre de 1937, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, veio ao Rio visitar Getulio. Os dois de charuto na boca:

Sabe, Flores, os tempos so outros, vou fazer as eleies e a dificuldade em que me encontro a de escolher um homem verdadeiramente altura do cargo, que possa continuar minha obra.

Quem sabe o Aranha (Oswaldo Aranha).

Tenho pensado nele, mas no serve. O Oswaldo comprometeu-se demasiadamente com os norte-americanos e considero essa poltica de submisso muito perigosa.

Talvez o Z Amrico.

Jos Amrico um grande romancista, mas um pssimo poltico.

Quem sabe se, esquecendo ressentimentos pessoais, no teria chegado o momento de voc indicar o Eduardo Gomes.

Impossvel. O Brigadeiro honesto, ntegro, mas um carola. S vive metido com padres e bispos. Com ele no poder, a religio absorveria inteiramente o Estado.

E o Gis Monteiro?

O Gis bebe demais. No pode ser o timoneiro do barco nacional. Poderamos todos ir ao fundo.

Ento, s nos resta o Ademar.

Deus nos livre, Flores!

Bem, nesse caso voc est num beco sem sada.

Getulio deu uma longa baforada no charuto:

Flores, quem sabe se no isso mesmo que eu quero?

E era. Em 10 de novembro de 37, Getulio deu o golpe.

JANGO E BRIZOLA – No fim de 1963, vim ao Rio (era deputado na Bahia, pelo MTR-PSB), para uma reunio da Frente de Mobilizao Popular, comandada por Brizola. Lembro-me bem do Max da Costa Santos e Roland Corbisier (deputados federais do PSB e PTB da Guanabara), do Jos Gomes Talarico (deputado estadual do PTB da Guanabara e amigo intimo do presidente Joo Goulart), do Clodesmidt Riani, Oswaldo Pacheco e outros lideres do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), do Jos Serra e Marcelo Cerqueira (presidente e vice-presidente da UNE), do Paulo Ribeiro e Tarso de Castro (a turma do jornal Panfleto) e alguns dos Grupos dos Onze.

Pareciam todos judeus, comandados por Moiss, atravessando o Mar Vermelho e chegando Terra Prometida. Ningum tinha dvida nenhuma de que no haveria fora humana capaz de nos tirar do poder. A nica dvida ali era sobre quem seria o presidente depois do fim do mandato de Jango, em 65: o prprio Jango ou Brizola.

JK E LACERDA – De Juscelino (meu candidato) e Lacerda, j lanados pelo PSD e UDN, no tomavam conhecimento. Juscelino, por estar superado. Lacerda, porque no podia assumir. Mas Jango era inelegvel (no havia reeleio) e Brizola tambm, por parentesco (porm, cunhado no parente). A Constituio seria modificada, na lei ou na marra.

Jango havia dito a meu saudoso amigo (e dele tambm) Alaim Melo, um dos lideres do PTB da Bahia : No vou trair a memria do Velho Getulio. Ao Lacerda no passo o governo, em nenhuma hiptese.

ASSIS BRASIL – Depois da reunio, eu disse a Brizola e ao Max (tambm baiano):

Os militares, l na Bahia, esto conspirando o tempo todo. A Marinha, no sei. Mas at eu j fui convidado por amigos para reunies com gente do Exercito e da Aeronutica.

Brizola pediu alguns detalhes, eu dei, no falou nada.O Max zombou:

a UDN militar, Nery. Essa gente no aguenta um tiro do dispositivo militar do general Assis Brasil (chefe da Casa Militar de Jango).

Quatro meses depois, estvamos todos, sem uma exceo, cassados, presos ou exilados. O dispositivo militar do Assis Brasil no dispositivou um tirinho sequer. Os Grupos dos 11 eram romanos: Grupos dos II.

Democracia no s ter eleio a cada quatro anos, democracia viver sem medo

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Em muitas ocasies. era preciso enfrentar o medo

Sebastio Nery

Velho, muito velho, terno sempre azul e cabea toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Terespolis mas tambm em Petrpolis: revendedor h muitos anos da Loteria Federal. A sorte s chegava a Terespolis e s vezes a Petrpolis pelas mos j mirradas do seu Manuel.

Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um fregus permanente para seus bilhetes: Geisel. Toda extrao, ele levava um bilhete inteiro para o stio dos Cinamomos, do ex-presidente. Era venda segura e a comisso certa.

GEISEL – De repente, Geisel passou a receber no Rio, toda semana, diretamente da Loteria, cinco bilhetes inteiros. Como essa era a cota mnima de um revendedor, o ex- presidente ganhava o desconto de revendedor e seu Manuel perdia sua comisso. Mas no se queixava:

Quem pode, pode. E ele tem sorte. Uma vez ganhou.

Um cliente de Petrpolis lhe perguntou:

Seu Manuel, por que o senhor no se queixa l na Caixa?

Porque tenho medo.

Mas o homem j no mais presidente.

Eu sei. Ele saiu do governo, mas meu medo do governo ficou.

PAULO ANTONIO – Na saudosa e histrica Adega dos Frades, um grupo de polticos, jornalistas, empresrios, relembrava os tempos de medo da ditadura. Paulo Antonio Carneiro, diretor do Dirio de Petrpolis, ento jovem dirigente do MDB municipal, revendo seus papeis, encontrou umas laudas escritas mo.

Candidato em 1974 a deputado federal pelo MDB do antigo Estado do Rio, em dobradinha com o vereador Carlos Portella, candidato a estadual, os dois ento bem jovens, com menos de 30 anos, Paulo Antonio pediu sugestes para sua primeira apario no horrio do TRE na TV.

O SNI fazia uma presso brutal, no Tribunal Regional Eleitoral, contra os candidatos do MDB, censurando-lhes os pronunciamentos, sobretudo dos mais jovens e aguerridos. Era preciso ser rpido no gatilho e aproveitar bem aqueles rpidos instantes, com declaraes curtas e fortes.

ILHA DO MEDO – Paulo Antonio foi para a TV com uma pequena lista delas no bolso. Na sua vez de falar, reviu,memorizou e comeou exatamente pela primeira:

Democracia no s ter eleio de quatro em quatro anos. Democracia viver sem medo.

Na mesma hora, saram os trs do ar: o programa, Paulo Antonio e a frase. Dias depois, tambm eram vetadas e saram da lista eleitoral do MDB fluminense as candidaturas dele e de seu fiel companheiro Portella.

No silncio da noite, voando sobre o Atlntico, uma mensagem acorda Jango

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Se o avio fizesse escala no Brasil, Jango seria preso

Sebastio Nery

De repente, no silncio da noite, como na cano de Peninha cantada por Caetano, voando sobre o Atlntico, j prximo de Pernambuco, ele acordou com a voz do comandante, falando em espanhol: Ateno, por favor, senhores passageiros. Os fortes ventos que estamos enfrentando nos obrigam a fazer uma escala tcnica em Recife, para recarregar o combustvel. A demora no aeroporto ser de aproximadamente 45 minutos. Obrigado.

Ele percebe o perigo e diz ao jornalista uruguaio Jorge Otero, seu companheiro de viagem e vizinho de poltrona:

Estou proibido de entrar em territrio brasileiro. Comprei esta passagem da Aerolneas Argentinas com o compromisso de no fazer uma s escala. Ento, que o avio retorne Europa.

E foram os dois cabine falar com o comandante. Um comissrio de bordo tentou impedir. Mas, afinal, o comandante saiu e o ouviu:

Sou o ex-presidente Joo Goulart, do Brasil. Estou como asilado na Argentina. (Era no Uruguai, mas vivia mais na Argentina). Se o avio descer no Brasil, serei preso, O senhor deve devolver-me Europa ou levar-me aonde quiser, a qualquer lugar, menos no Brasil.

JANGO – O comandante estava rgido e surpreso, com burocrtica energia:

impossvel atend-lo. Os ventos frontais foram muito superiores aos previstos e por isso gastamos muito mais combustvel do que habitualmente. Quando o senhor comprou a passagem, tinha que saber das escalas assinaladas para uma emergncia. Recife o aeroporto mais perto.

Mas, comandante, ningum me avisou nada. Serei retirado do avio e preso. E o senhor ser o responsvel.

Senhor, no entrar ningum no avio. A esta hora s est acordado o responsvel pela torre de controle, que vai chamar o pessoal do abastecimento. No h ningum no aeroporto.

Desculpe, comandante. Mas meu nome est na lista de passageiros, que o senhor dever entregar. Ser s questo de minutos que venham do quartel e me levem preso. Contra mim, foi decretada uma ordem de priso pela ditadura brasileira. No posso entrar no Brasil, porque serei preso.

Senhor, este um avio argentino, sob meu comando. No permitirei a ningum que leve nenhum dos passageiros sob minha responsabilidade. Estamos em territrio argentino.

Comandante, esta uma aeronave civil. O senhor no vai poder fazer nada quando um punhado de soldados entrar aqui. A responsabilidade por isso, que surpreender o mundo, ser exclusivamente do senhor.

Vou ver o que posso fazer, mas no alimentem muitas esperanas.

RECIFE, NO – E voltou para a cabine. Jango e seu amigo para os lugares deles. O jornalista uruguaio tentou aliviar a tenso de Jango:

Presidente, o senhor me disse que em Madrid comprou a passagem em nome de Belchior Marques. Talvez no se deem conta de quem .

possvel, Jorge. Mas o chefe da guarnio militar de Recife foi promovido por mim. Tem que saber quem o passageiro Belchior Marques

O tempo vai passando e nada. De repente, a voz do comandante:

Ateno, por favor. Aqui fala o comandante. Quero informar que os clculos do combustvel que resta e a sensvel melhora nos ventos tornam desnecessrio descer em Recife. O voo ser sem escalas at Buenos Aires.

Jango, afinal, voltou a dormir. Era 12 de outubro de 76.

Saudades do Jos Geraldo Grossi, um patriota e um homem universal.

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Grossi foi um dos maiores criminalistas do pas

Sebastio Nery

Estudante em Belo Horizonte, na dcada de 50, a Republica da JUCera santo abrigo: casaro cercado de jardins, frutas e flores, quase esquina com a Av. Amazonas, a 200 metros da Faculdade, dirigida pelo santo padre Viegas e liderada por Joo Bosco Cavalcanti Lana, da JUC de Direito.

A Universidade quase toda representada ali: Jos Gerardo Grossi, o grande advogado e ministro, j tinha cara de advogado. Fabio Lucas, hoje consagrado escritor e critico literrio, j escrevia e publicava.

UM PASTOR ALEMO – Um alemo, vizinho, que morava sozinho, tinha um co enorme, que latia a noite toda. No deixava ningum estudar, ler ou dormir em paz. Algum teve a idia de dar um bolo com veneno, logo eliminada. Creio que foi do Fabio Lucas a idia genial. Um anuncio no Estado de Minas:

Por motivo de viagem urgente, doa-se um belo pastor alemo a quem prometer cuidar bem dele. Favor comparecer s seis da manh de amanh, rua tal, numero tal, tocar campainha.

O alemo quase enlouqueceu. A fila foi l na Avenida Amazonas. No adiantava ele gritar que era mentira. Todo mundo mostrava o recorte do jornal. tarde, ele procurou padre Viegas e fez um pacto de paz: o co no ia mais latir de noite. E cumpriu.

UMA REUNIO – Jos Gerardo Grossi, da Faculdade de Direito e da Republica da JUC e o Alosio Ordones, meu colega da Filosofia, convidaram-me para uma reunio onde seriam discutidos os problemas da Universidade e do pas. Fui. L, fiquei sabendo que era um encontro do Comit Universitrio da UJC, a Unio da Juventude Comunista. Discutiram-se teorias e posies polticas. Mas sobretudo se tratou do que e como fazer.

Troquei de letras. Da JUC, passei para a UJC. E com tarefas concretas. Como orador do Diretrio, que tinha seu jornal oficial, o Filosofia, minha primeira tarefa foi fundar, dirigir e ser o responsvel por um pequeno jornal mimeografado que exprimisse nossas posies sem dizer que eram as propostas da UJC. E nasceu A Onda.

EM UBERABA – Primeiro ano de Faculdade, orador do Diretrio Acadmico, sa de Uberaba eleito para o Parlamento do Estudante Mineiro. Foi meu batismo em congressos de estudantes, a que compareci a quase todos, nos trs anos de Filosofia e nos cinco de Direito.

Em Uberaba, ns, da oposio (Dario de Paula, Helio Pontes, Fabio Lucas, Mauricio Leite Junqueira, Rivadavia Xavier Nunes, Paulino Cicero, Moacir Laterza, Joo Bosco Lana, Adnis Moreira, Jos Gerardo Grossi, eu, tantos outros) fomos dispostos a disputar a diretoria da UEE (Unio Estadual dos Estudantes), com chapa prpria, no voto, na democracia.

O presidente da UEE e do congresso, o Andradinha, era uma parada. Desde o primeiro dia comeou a lutar para no perder a eleio. Vetava delegados, obstrua os trabalhos. A cada hora as sesses e os debates iam ficando mais difceis, mais complicados, mais tensos, com a mesa usando e abusando do direito de ser situao.

JOVENS PROMISSORES – No sculo passado a Faculdade de Direito de Minas era uma das mais importantes do pais. E se no era a mais agitada, como a Filosofia, era o mais importante centro universitrio do Estado. Comandava a UEE (Unio Estadual de Estudantes).

Na dcada de 50, l estavam e vivamente atuando no movimento estudantil, Helio Garcia depois governador, Murilo Badar depois senador e ministro, Bonifacio Tamm de Andrada, o Andradinha, at hoje deputado, Genival Tourinho, Nelson Thibau, tambm deputados, Rivadavia Xavier Nunes, depois poltico em Gois, Jos Gerardo Grossi, jurista, ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Seplveda Pertence, depois ministro do Supremo Tribunal Federal, Geraldo Nunes, Fabio Lucas escritor, e numerosos outros.

Sexta-feira, morreu em Braslia, 86 anos, Jos Gerardo Grossi. Um patriota e um homem universal. Ajudou a iluminar nossa juventude.

Nery errou de Coreia e foi preso em 1952 como militante comunista

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Nery conta como ocorreu sua primeira priso

Sebastio Nery

Jamais esquecerei aquela tera-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci na primeira pgina de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Havia dois anos apenas, ainda no seminrio, de batina, piedoso, estudava filosofia e teologia, certo de que logo seria padre e um dia bispo, qui cardeal. Em um dos jornais, a manchete era minha, exclusiva, letras enormes: Confirmam-se as acusaes de Tribuna de Minas sobre as ligaes do Sr. Jos Mendona com os elementos comunistas.

E no longo subttulo, minha sentena de morte: Preso ontem um redator de O Dirio, justamente o homem de confiana do presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Vm de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastio Nery.

INSTRUMENTO – A matria comeava assim, sempre na primeira pgina:

Um fato policial vem confirmar as denncias que Tribuna de Minas tem feito, em sucessivos editoriais, de que o rgo do pensamento catlico no Estado, atravs da ao consciente ou no de seu redator-chefe, est servindo de instrumento nas mos dos comunistas em Minas. Referimo-nos priso do universitrio Sebastio Nery, redator de O Dirio e protegido do Sr. Jos Mendona naquele jornal.

Na tarde de ontem, a polcia varejou uma clula vermelha na rua Carijs, 774, onde se reuniam componentes das conferncias pr-defesa dos direitos da juventude, organizao esta que j tivemos oportunidade de denunciar. Durante sua represso, os policiais detiveram diversos elementos ligados s classes estudantis e agitadores, entre os quais se encontrava o referido redator de O Dirio.

LIO DE JORNALISMO – Aquela cadeia foi minha primeira grande lio de jornalismo. Ela me ensinou o que a imprensa muito mais do que os meses em que eu j vinha trabalhando no jornal. Nada do que os vrios jornais publicaram sobre mim e meus colegas presos era inteiramente falso.

A Tribuna de Minas era um jornal de Ademar de Barros, dirigido por Alexandre Konder, catarinense de talento e coragem, texto brilhante, borbulhante, confessadamente fascista, primo do senador Jorge Konder Bornhausen.

Konder tinha horror ao presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas, Jos Mendona, meu mestre e de geraes de jornalistas, redator-chefe de O Dirio, jornal da Igreja Catlica, onde em 1952 fiz meu batismo profissional, porque Fernando Henrique ainda no havia acabado com a era Vargas e o Sindicato exigia que Konder cumprisse as obrigaes trabalhistas.

NA CLANDESTINIDADE – O Partido Comunista e a UJC (Unio da Juventude Comunista), a que pertencamos, eram ilegais e drasticamente reprimidos pela polcia. Para atuar politicamente, lanvamos mo de atividades mais amplas ou disfaradas.

Nas conferncias de defesa da juventude, discutamos o Brasil e o mundo. Nesse dia, instalvamos em Minas o Movimento Mundial da Paz. A guerra da Coria dividia o mundo e estvamos indignados com a Coria do Sul, capitalista e dependente dos Estados Unidos, que havia criminosamente invadido a Coria do Norte, socialista e irm da Unio Sovitica.

Muitos anos depois, em Roma, numa entrevista coletiva, perguntei a Gorbatchev e ouvi, perplexo, que foi a Coria do Norte que invadiu a do Sul, e no o contrrio, como me disseram na poca.

Fui preso merecidamente. Errei de Coria.

Uma famlia heroica perde agora seu lado artstico

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Agildo Ribeiro, grande mestre do humor

Sebastio Nery

Agildo Barata, heri dos tenentes dos anos 1920, dos capites de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgio, filsofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getlio Vargas.

Um guarda enorme, bruto e violento, sempre armado, estava espancando presos, que se reuniram e encarregaram Agildo de falar com ele para dar um basta. Na hora da chamada matinal, todos no ptio, Agildo, baixinho, mozinha mida, deu dois passos frente, ficou algum tempo parado diante do brutamontes, enfiou o dedo no nariz dele e disse que, na primeira vez em que ele batesse em um preso, iria mat-lo em pblico.

CAIU DURO – O guarda ficou parado, imvel, arregalou os olhos e bomba!, caiu duro. Comeou o corre-corre. Chamaram o mdico do presdio. Antes dele, chegou chorando a mulher, debruou-se sobre ele, gritando desesperada:

Meu amor, no morra! Voc no pode morrer! No me deixe!

Punha a mo nos olhos, no corao, pegava o pulso, conferindo. Chegou o mdico. No adiantava mais nada. O guarda estava morto. A mulher gritava:

Doutor, me diga. Ele morreu mesmo? Ser que no s um desmaio?

No, minha senhora. Morreu. Acalme-se. No h mais o que fazer.

ERA UM BANDIDO – A mulher ajoelhou-se, enfiou os dedos nos olhos dele, convenceu-se e se levantou, sorrindo histrica:

Graas a Deus, doutor! Ele est morto mesmo! Morreu tarde! Isso era um bandido, um canalha. Me batia, quase me matava todo dia. Morreu tarde. Todo poderoso, todo valento um dia se acaba!

Quando os polticos eram estadistas, deixavam lies e no fortunas

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Ulysses enfrentava at os ces da ditadura

Sebastio Nery

Houve um tempo em que os lderes polticos se preocupavam em deixar lies e no fortunas. Esta histria de Ulysses Guimares e seu exrcito em Salvador, na Bahia, em 1978, um exemplo de como se pode fazer poltica sem pensar sobretudo em dinheiro. Ningum me contou. Eu vi. Estava l. s 19 horas de um sbado, em 1978, no hall do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimares, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direo do MDB da Bahia com a notcia nervosa:

A Polcia Militar cercou a praa do Campo Grande e comunicou oficialmente ao partido que no vai permitir a reunio para lanamento das candidaturas da Oposio da Bahia ao Senado.

Isto ilegal, disse Ulysses. A portaria do Ministrio da Justia probe concentraes em praa pblica, mas no em recinto fechado. A sede do partido inviolvel.

Ulysses esfregou as mos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. uma arbitrariedade sem limites.

EM FRENTE AO TEATRO – Em vrios automveis, samos todos, polticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praa era um capo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhes-transporte, dezenas de patrulhas, lana-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praa. Ulysses olhou, meditou, comandou:

Vamos rpido, sem conversar.

Avanou. Atrs dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rmulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermgenes Prncipe (os trs candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarslo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impvidos. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

Parem! Parem!

Ulysses levantou os braos e gritou mais alto:

Respeitem o presidente da Oposio!

FOMOS EM FRENTE Ulysses meteu a mo no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o brao em outro, passou. O grupo foi em frente. Trs imensos ces pastores saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre d um ponta-p na boca de um, Rmulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos porta, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe janela, ligam os alto-falantes para a praa:

Soldados da minha Ptria! Baioneta no voto, boca de cachorro no urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comcio que no tinha sido planejado. 14 discursos e uma passeata. Graas batalha de Itarar da Bahia.

Um pequeno Supremo tenta neutralizar a grande Lava Jato

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Sebastio Nery

Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar trs ministros do Supremo: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. Tinham sido indicados para o Supremo pelos ex-presidentes cassados Juscelino Kubistchek e Joo Goulart. O ministro Alvaro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo, com o apoio de todo o colegiado, avisou a Castelo: havendo cassaes fecharia o STF e entregaria as chaves ao porteiro do Palcio do Planalto. O governo recuou.

Cinco anos depois, em 1969, com o draconiano Ato Institucional n 5, os trs ministros seriam afastados do Supremo. O mineiro Gonalves de Oliveira, presidente, e o seu sucessor Antonio Carlos Lafayette Andrada, por discordarem da punio. saram do Tribunal.

CONTRA A CENSURA – Outro episdio histrico foi em 1971. O ministro Adauto Lcio Cardoso, indicado por Castelo Branco, em 1966, reagiu com ferocidade ao Decreto-Lei 1.077, do presidente Emlio Mdici. Chamada Lei da Mordaa, implantaria a censura prvia a imprensa e todas as publicaes editoriais. Aprovada a lei antidemocrtica, Adauto Lcio Cardoso, arrancou a toga preta e lanou sobre o plenrio do Tribunal, abandonando a sesso e o cargo de ministro. Nunca mais voltou ao Supremo, envergonhado com a deciso de seus pares.

Os dois episdios retratam um tempo em que, nos conflitos jurdicos que atentavam contra a Constituio, os seus ministros reagiam como guardies da ordem democrtica. No tinha lugar para a teratologia que significa deciso absurda, contrria lgica e a prpria realidade.

DEFINIO – Chefe de redao do jornal Valor (4-4-2018), Rosngela Bittar, definiu o STF atual: composto por professores e, sobretudo, por advogados se digladiando diante de um jri imaginrio em torno de nada, at que retome a leitura enfadonha do seu empolado voto. At um decano age como promotor e preciso ter compaixo da sua sina atual, a de exegeta dos votos, to dspares e cheios de firulas que precisam ser compatibilizados para que a presidncia possa proferir o veredito.

No artigo Meu doutorado contra o seu, Rosngela Bittar, destacava: Em todas as pocas e composies o Supremo enfrentou dificuldades. Mas eram catedrticos, polticos veteranos e experientes, embaixadores, presidentes da Cmara e do Senado, presidente de tribunais de Justia dos principais Estados e at advogados que passaram pela poltica. Octavio Gallotti, Oswaldo Trigueiro, Bilac Pinto, Aleomar Baleeiro. Paulo Brossard, Clio Borja, Oscar Correa, Prado Kelly, Lins e Silva, Victor Nunes Leal, Hermes Lima, Vilas Boas, Gonalves de Oliveira. Pessoas que emprestavam sua biografia ao Supremo e no foram l para fazer biografia.

PELA IMPUNIDADE – Infelizmente hoje a intolerncia da vida pblica brasileira retrata uma crise em que Executivo, Legislativo e Judicirio se igualam na sua sustentao. Republicanismo parece ser valor secundrio para os integrantes dos trs poderes. No Judicirio, a deciso de priso aps a segunda instncia aprovada pelo STF, por 65, firmando jurisprudncia, questionada pelos seus prprios integrantes. Um dos ministros, Gilmar Mendes que votara a favor, agora ao mudar o seu voto, deseja alterar a jurisprudncia. Se ocorrer a mudana com o estabelecimento das quatro instncias de julgamento de um ru, a prescrio de penas aplicada garantir a impunidade. Prescrio a subverso garantidora de novos crimes e consolidadora do caos jurdico.

A mudana de posio do ministro ocorre exatamente quando os oligarcas da poltica no PT, no PMDB, no PSDB, e nos partidos- satlites da base de diferentes governos, em funo da Operao Lava Jato, sabem que podero ser presos. A condenao do ex-presidente Lula, no fato isolado, da o pnico dos poderosos da vida poltica brasileira. A mudana do voto de Gilmar Mendes atende ao desejo desses delinquentes polticos. E o mais grave: ocorrendo a reviso da jurisprudncia do STF, a corrupo ser a grande vitoriosa. a alternativa para neutralizar a Operao Lava Jato.

A lio de Juscelino continua valendo: ‘Deus me poupou o sentimento do medo’

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Niemeyer e JK, dois gigantes brasileiros

Sebastio Nery

Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo Pas visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

– Qual a verdadeira posio do Caf?

– Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

– Juscelino, vamos rever o assunto de fazer a unio nacional.

– Etelvino, j sei que voc est contra mim, Quando voc fala em unio nacional, na verdade est pensando em Unio Democrtica Nacional.

– Ento voc no quer a unio?

– Ora, Etelvino, candidato no faz unio. Candidato disputa. Quem faz unio governo, depois de empossado.

NO TINHA MEDO – E JK voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidncia da Repblica, Juarez Tvora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Caf Filho um documento em que as altas autoridades militares apelavam para uma colaborao interpartidria, um candidato nico e civil.

O documento s foi divulgado no dia 27 de janeiro, em A Voz do Brasil. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral: Deus me poupou o sentimento do medo

A QUEDA DE LCIO – Lcio Bittencourt, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, era um bravo nacionalista. Quando os estudantes comearam em Minas a campanha de O petrleo nosso, em 1953, convocamos um comcio para a praa da estao e convidamos os parlamentares.

A polcia proibiu, alegando que era comcio dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais e dirigentes estudantis na praa cheia, cercada pela polcia. E l na frente, servindo de palanque, vazio, s o microfone, um caminho sem as laterais.

De repente, chega o deputado e j candidato a senador Lcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminho. Fomos juntos, A polcia no teve coragem de barr-los. Alguns de ns falamos. Ele pegou o microfone e comeou:

Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a polcia havia proibido este comcio. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive dvidas de vir. Mas noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo: Vai, Lcio, vai! Vai!

E Lcio foi. Deu um passo frente e caiu embaixo do caminho. Ainda tentei segur-lo pela ponta do palet, no adiantou. Desabou. Acabou o comcio. No dia seguinte, no Palcio, Juscelino dava gargalhadas:

– Eu bem que disse a ele. No vai, Lcio, no vai! No vai!

ANISTIA – Mal JK tomou posse na Presidncia da Repblica, em 31 de janeiro de 1956, comearam os levantes militares para derrub-lo. Juscelino sufocou e mandou para o Congresso um projeto de anistia. A bancada do PTB ficou contra. Oswaldo Lima Filho, lder da bancada, liga para Jurema e comunica que o partido est contra a anistia aos militares sequestradores de avio. Jurema informou a Juscelino, que, do outro lado do telefone, justificou:

Jurema, diga aos petebistas que no quero governar com mrtires.

A anistia foi aprovada.

PROMOO – Pena Botto, almirante psicopata, entrou na lista de promoes. Juscelino promoveu. Os amigos protestaram. Juscelino explicou:

– Pode ser um mau poltico, mas um timo marinheiro.

E Juscelino convidou Aberlado Jurema para lder do governo na Cmara.

Abelardo lembrou que havia outros em melhores condies, como Ulysses Guimares. Juscelino reagiu:

– Voc est doido, Jurema. Ulysses na liderana, j no outro dia est pensando em ser candidato Presidncia. E a, adeus Juscelino.

RASTEIRA DE DILMA – Lula entregou o governo a Dilma e levou uma rasteira. Quando quis substitui-la, era tarde.

Michel entregou a Procuradoria-Geral da Repblica doutora Raquel Dodge, que est gostando muito do poder, e agora Temer foi atropelado por ela e pelo melfluo Barrosinho, herana de Dilma.

O beijo de Ludmila, a “Rosa de Moscou” que cresceu aprisionada

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Foto reproduzida do Arquivo Google

Sebastio Nery

Ludmila era interprete, jovem e bela. Falava espanhol e portugus, no Festival Mundial da Juventude, em Moscou, em 1957. Tinha a me em Moscou, um irmo em Praga e um av no Cucaso.Acabado o Festival, destacaram-na para acompanhar-me como tradutora em debates e palestras em Moscou, na Universidade da Amizade dos Povos.

No fim dos debates, almovamos ou jantvamos juntos. Cada dia mais debates, cada dia mais juntos. Falvamos de tudo, sobretudo de ns, que tnhamos exatamente os mesmos 25 anos e os mesmos sonhos. Quando eu passava para a poltica sovitica, ela sorria um sorriso enigmtico e calava. Estava profissionalmente impedida de avanar o sinal poltico.

UM POEMA – Ela no avanava, avancei eu. J me desmanchando de encantos, depois de um doce jantar no restaurante do hotel Ukraina.

Escrevi ali um poema, se que podia chamar de poema. Era um beijo grfico, quente e tmido como os beijos de amor: Rosa de Moscou. Falava dos jardins de papoulas que cobriam Moscou naquele outono. Pediu para assinar, assinei: Para Ludmila, Rosa de Moscou.

Ela no podia subir a meu apartamento, eu no podia ir casa dela. Nunca mais fomos os mesmos.

NA CASA DELA – Uma outra noite, caminhando depois do jantar no jardim de papoulas perto do hotel, Ludmila comeou a cantar Mscova Vtchera (Tardes de Moscou) e pela primeira vez me levou sua casa. O av estava doente, sua me fora para o Cucaso. A casa, nos subrbios de Moscou, pequena e ajardinada, era nossa para o fim de semana. E de metr. Na sala, emoldurado e pendurado, meu Rosa de Moscou para ela. Ludmila no falava do pai. Eu perguntava, ela ficava calada, os grandes olhos caucasianos parados, longe. Insisti, disse apenas:

Morreu. Era jornalista, como voc.

E chorou devagarinho. De madrugada, j quietos de amor, forcei Seu pai morreu de qu?

Ludmila passou a mo embaixo do queixo, como se fosse uma navalha, fez uma cara de horror e disse baixinho: Stalin.

E dormiu chorando em meus braos a saudade do pai assassinado por Stalin.

GUARDEI A ROSA – No fim de semana em Moscou, voltamos casinha pequena e ajardinada. O av de Ludmila nunca mais voltou do Cucaso. Morreu l, sem ela rev-lo. Prometi jamais escrever-lhe nem falar em seu nome no que escrevesse ou publicasse. Perderia emprego, carreira, quem sabe a liberdade. Guardei minha Rosa de Moscou s para mim.

Quando Ludmila apareceu no hotel de manh, com o bilhete na mo, para levar-me at a estao ferroviria, meu corao vacilou. Sabia que ia perd-la para sempre. Aquele era um mundo que engolia as pessoas. Como poderia dar-lhe um beijo de despedida? Queria, mas no devia. Percebeu:

No fique triste assim, que ainda vai ser pior para mim do que j . No falta muito para eu perder voc. Nunca pensei que aquele jantar, aquele poema, aquelas noites, fossem fazer comigo o que fizeram. Se eu pudesse, sumiria com voc. Mas no vamos estragar nosso ultimo almoo. Marquei seu trem para o fim da tarde. Vamos almoar em um restaurante pequeno, muito bonitinho, perto da ferroviria. Juro que no vou chorar.

E chorou. No fim, brindamos nossa devastadora e silenciosa dor como Stalin brindava com Churchill. Com um conhaque da Gergia. Quando o trem deu o segundo aviso de partida, fraquejei:

Perdo, no resisto, vou lhe dar um beijo.

Aqui h olhos de todo lado.

Nunca mais a vi. Em 1990, Adido Cultural em Paris, voltei a Moscou para tentar descobri-la. Impossvel. Cada esquina continuou uma fantasia.

Um pedao de mim est at hoje na estao de Ludmila.