Os 100 anos de Ulysses

Ulysses GUimarães enfrentando os cães da ditadura em Salvador

Sebastião Nery

Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

– A Polícia Militar havia cercado a praça do Campo Grande e comunicado oficialmente ao partido que não ia permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

– Isto é ilegal – disse Ulysses. – A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

– Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites.

A BATALHA

Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas, com encontro marcado em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB, no Campo Grande. Era um campo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça.

Ulysses desceu do carro, olhou, meditou, comandou:

– Vamos entrar na praça e no partido! Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados empertigados. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

– Parem! Parem!

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

– Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um, Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos à porta da sede do MDB, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

– Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado: 14 discursos e uma passeata. Graças à coragem, decisão e valentia de Ulysses.

(Meu prefácio ao livro de Ulysses Guimarães “Rompendo o Cerco” – 1978)

CENTENÁRIO

Falta pouco para o centenário de Ulysses Guimarães, quando São Paulo e o Brasil vão relembrar os 100 anos do grande brasileiro. Nascido em 6 de outubro de 1916 (e desaparecido em outubro de 1992), Ulysses está chegando ao centenário: 6.10.1916. Neste século, poucos brasileiros tiveram sua grandeza.

JK E ULYSSES

“Há muito tempo que não leio uma peça oratória tão rica em substância, e tão profunda em conteúdo como a que você proferiu na Convenção do MDB, aceitando sua candidatura (a Presidente da República) e fixando conceitos da mais alta transparência. E ouvir uma voz, como a sua, erguendo-se do fundo de todas as expectativas, enche-nos de esperanças.” (Carta de JK a Ulysses)

FÉRIAS

Como todo ano, dezembro é férias. E férias é Nordeste: Salvador, Recife, Porto de Galinhas, São Miguel dos Milagres. Até janeiro.

Uma familia empresarial

Sebastião Nery

SÃO PAULO – Agamenon Magalhães, governador, ministro, patriarca de Pernambuco, era um político sábio: – “O homem público no poder não compra, não vende, não troca”. Outro sábio, Ortega y Gasset, filósofo espanhol, em 1921, perplexo diante do desfibramento da política e da sociedade espanhola, escreveu “Espanha Invertebrada”, sobre os rumos e o futuro da Nação: – “Uma sociedade míope agrava a enfermidade pública, prestigiando políticos sem virtudes que impõem as suas vontades e interesses em detrimento dos verdadeiros valores nacionais”.

Roberto D’Ávila com seu talento e competência profissional, entrevistando Lula na Globo News, tentou tirar leite das pedras, extrair alguma luz de uma cabeça de bagre. A entrevista com Lula foi um descalabro. Uma aula torta de como mentir, mentir sempre. Roberto podia ter encerrado a conversa relendo a página 4 da “Folha de S. Paulo” de 27 de outubro último onde está a lista das 15 empresas da família Lula.

O Brasil teve durante 300 anos uma família imperial. Agora sabe-se que tem uma “família empresarial”, que fez o milagre de chegar a São Paulo carregando uma trouxa e meio século depois ser proprietária destas 15 empresas: “1 – BR4 Participações Ltda /Capital R$4milhões. 2 – FFK Participações Ltda / Capital R$ 150.000,00. 3 – G4 Entretenimento e Tecnologia Digital / Capital R$ 150.000,00. 4 – LFT Marketing Esp. Ltda / Capital R$ 100.000,00. 5 – LKT Marketing Eireli / Capital R$ 100.000,00. 6 – Flex BRT Tecnologia S.A. / Capital R$ 20.000,00. 7 – Flex BRT Ltda / Capital R$ 20.000,00. 8 – LLCS Participações Ltda / Capital R$ 1.000,00. 9 – LLF Participação Eireli / Capital R$ 80.000,00. 10 – Gamecop S.A. / Capital R$ 10.000,00. 11 – LLCS Participações Eireli / Capital R$ 1.000,00. 12 – Touchdowm Prom. de Eventos Esportivos Ltda / Capital R$ 1.000,00. 13 – Gasbom Cursino Ltda / Capital R$ 2.000,00. 14 – Gisam Comércio de Roupas Ltda / Capital R$ 5.000,00. 15 – L.I.L.S. Palestras Eventos e Publicidade / Capital R$ 100.000,00”.

É com essa L.I.L.S. que Lula assina os recibos das fajutas conferências.

SAYAD

O saudoso mestre Florestan Fernandes ensinou que o problema do Brasil é que somos um povo atrasado. E continuamos assim:

1 – O ex-ministro e professor João Sayad da USP confirma:

– “A democracia ameaça a República se for dominada pela demagogia, por eleitores mal informados. Não há república sem homens virtuosos: honestos defensores do interesse público e corajosos. A República pode se tornar tirania. República e democracia procuram um equilíbrio delicado. A República vai mal. Falta virtude. Como tornar os homens públicos virtuosos? Deveriam ler os clássicos – Cícero, Catão, Platão, Aristóteles. Só assim homens virtuosos poderiam se candidatar sem ter que jantar escondido com financiadores de currículo duvidosos”. (Valor Econômico 15/09/15)

NOGUEIRA

2 – Professor e diretor do Instituto de Políticas Públicas da UNESP, Marco Aurélio Nogueira:

– “A política ficou submetida ao mercado e a representação perdeu substância. A fragmentação e a falta de operacionalidade do sistema político fazem com que a democracia, em alguns países, fique bloqueada e, em outros, passe a ser alimentada por doses expressivas de corrupção e ilicitude. Neste ambiente, os governos e a classe política pioram dramaticamente seu desempenho e deixam suas comunidades sem muitas saídas.” (O Estado de São Paulo 26/09/15)

ALVARO MOISES

3 – Professor José Álvaro Moisés, diretor do núcleo de pesquisas de políticas públicas da USP:

– “O sistema partidário brasileiro tem algo de paradoxal: além de sua perturbadora fragmentação e da constante troca de legendas por parlamentares, os partidos são chamados a garantir a governabilidade do País no Congresso, mas dão pouca ou nenhuma importância à sua conexão com os eleitores, que desconfiam deles, não têm preferência e não querem filiar-se. O que conta não é o que os partidos significam para a sociedade, mas como seus arranjos facilitam que os dirigentes – que em muitos casos se perpetuam na direção das legendas – conquistem ou mantenham posições de poder.” (O Estado de São Paulo, 24/08/15)

O PT nasceu para ajudar a iluminar a vida política da Nação. Só fez apagar a luz. O Brasil jamais havia descido a um nível político tão invertebrado. Ortega y Gasset não viu nada.

Requiem para Paris

 Foto: GONZALO FUENTES / REUTERS

Parisienses se concentram na Catedral de Notre Dame

Sebastião Nery

RIO – Em Paris, desde a primeira vez, em 1955, eu pensava em Gilberto Amado, sergipano de Estância e universal como todo gênio: – “Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”. Para mim, o rio correu até minha Jaguaquara, na Bahia.

O sábio Paulo Rónai também lembrou Hemingway sobre Paris: – “Se tens a sorte de ter vivido em Paris quando moço, por onde quer que andes o resto de tua vida ela estará contigo porque é uma festa móvel”.

E o poeta Murilo Mendes teve medo na guerra, em um verso eterno: -“Bombardear Paris é destelhar a casa de meu pai.”

O TERROR

Cada um vê Paris com os olhos de sua alma. Meu gordo e saudoso amigo Antonio Carlos Vilaça falava dela como da primeira escola: – “Paris foi importante para minha geração, uma geração que lia autores franceses. Em Paris pensávamos, éramos”.

São 60 anos. Minha Paris é uma história de 60 anos. De 1955 quando lá estive pela primeira vez até a semana passada, quando mais uma vez deixei Paris depois de mais um mês lá, como faço todo ano. Eu enrolava minha saudade e a canalha terrorista enrolava suas bombas assassinas.

Não consigo imaginar destruída a cidade onde mais sonhei, mais aprendi, mais amei, mais cresci, mais vivi.

CONCENTRAÇÃO

Voltemos ao Brasil. Os professores Marcelo Medeiros e Pedro Souza, da Universidade de Brasília (“Estabilidade da Desigualdade”) demonstram que a concentração da renda continua imutável e ascendente. Estudiosos da desigualdade social brasileira, eles denunciam:

– O segmento do 1% mais rico da população, estimado em 1,4 milhão que ganham a partir de R$ 229 mil anuais, em 2006 tinha participação em 22,8% da renda nacional. Em 2012 cresceu para 24,4% da renda brasileira.

– Entre os 10% mais ricos, não foi diferente. A renda, no mesmo período, avançou de 51,1% para 53,8%. Já a renda dos 90% mais pobres não obteve a mesma performance, mesmo apresentando alguma melhoria.

E o PT dizia-se o partido dos trabalhadores. Virou o dos banqueiros.

DESIGUALDADE

O professor Naércio Menezes Filho, da FEA-USP e coordenador do Centro de Políticas do Insper, no jornal “Valor” (16/10/2015), no artigo “A Desigualdade Começou a Subir”, sintetiza: – “O Brasil é um país bastante desigual. Essa desigualdade tem sua origem no fato de que a maioria da população ficou excluída do nosso sistema educacional até meados do século XX. Nos últimos 20 anos, porém, o processo de inclusão social que houve fez com que a desigualdade declinasse continuamente. Será que esse processo está chegando ao fim?”

CRISE

“Com tristeza e o coração partido”, o professor e escritor Helio Duque, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, responde: – “Lamentavelmente, sim. O governo Dilma Rousseff, por incompetência e centralismo autossuficiente e autoritário, conseguiu interromper um caminho que, mesmo com limitação, se apresentava virtuoso, Os próximos anos serão de frustração do sonho de o Brasil estar marchando para a construção de uma sociedade que avança no combate à miséria e a injustiça social”.

– “Sem crescimento da economia, não existe milagre que possa sustentar a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Somente com políticas econômicas de austeridade fiscal é que se pode enfrentar essa realidade adversa: a sustentabilidade das políticas de inclusão social”.

DEFICIT

– “Historicamente, o “superávit primário”, mesmo nos momentos de crise, sempre foi obtido por diferentes administrações. Quando Dilma assumiu o governo, era de R$ 128 bilhões. Agora, de maneira inédita, a situação é inversa: o “déficit primário” consolidado seria de R$ 60 bilhões”

– “Com o agravante de o Tesouro ser obrigado a pagar as “pedaladas fiscais” (dívidas atrasadas no BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica), estimadas pelo Tribunal de Contas em R$ 40,2 bilhões”.

– “Com outros penduricalhos, o déficit ultrapassará R$ 117 bilhões. Ele foi construído naqueles anos onde a fantasia marqueteira era vendida aos brasileiros que aprovavam e aplaudiam o governo com marcas recordes de popularidade”.

ISABELITA

E de um amigo paulista, que bem conhece a Argentina, vem a definição perfeita de Dilma: – “Dilma é a Isabelita sem Perón”.

O Bispo de Hypona

Charge de Latuff/Sul 21 (reprodução)

Sebastião Nery

RIO – Agostinho, bispo de Hypona (hoje Annaba, na Argélia), um dos construtores do Cristianismo, autor de livros imortais como “Confissões”, “Cidade de Deus” e “Doutrina Cristã”, viveu dos anos 354 a 430, enfrentando as perseguições ao Catolicismo no mundo muçulmano, fugia da policia em pequeno barco quando foi cercado saindo de Hypona:

– O senhor viu o bispo Agostinho passando por aqui?

– Não vi não.

E o policial foi embora. O barqueiro levou um susto:

– Bispo Agostinho, sua Igreja ensina a não mentir.E o senhor mentiu.

– Não menti. Fiz uma “restrição mental”. Ele perguntou se eu vi o bispo passando. E eu não vi passando. Estou passando. Estamos passando.

LOTT

E foi em frente. No Brasil, tivemos um caso semelhante. Em 1955 Juscelino Kubitschek elegeu-se presidente da Republica. A UDN e seus militares tentaram um golpe para impedir a posse de JK O vice-presidente Café Filho internou-se em um hospital e assumiu o presidente da Câmara o mineiro Carlos Luz, que demitiu o ministro da Guerra marechal Lott e nomeou o general Fiuza de Castro.

Estava armada a jogada para impedir a posse de JK. Mas o marechal Lott e o general Odilio Denis rebelaram-se e exigiram a posse provisória de Nereu Ramos, presidente do Senado. O jornalista Otto Lara Rezende, da revista “Manchete”, foi entrevistar Lott:

– Marechal, os senhores rasgaram a Constituição?

– Pelo contrario, Otto. Nós garantimos o retorno aos quadros constitucionais vigentes.

O verdadeiro golpista Carlos Luz entregou o governo, Nereu Ramos assumiu a presidência e garantiu a posse de JK e João Goulart.

CUNHA

O híbrido deputado Eduardo Cunha está fingindo de Bispo de Hypona e marechal Lott. Diz que não tem dinheiro na Suíça, apenas “ativos”. E que os “ativos” não são dele, mas dos “trusts”, dos bancos.

É uma farsa. O bispo e o marechal não mentiam. Argumentavam. Defendiam-se: um da policia e o outro do golpe contra a posse de JK.

BRASIL

Em dois meses pela Europa, a pergunta que mais ouvia era uma:

– Como está o Brasil?

Infelizmente não está bem. E os números vêm piorando a cada dia.

1.–  No PIB mundial, medido em dólares, o Brasil manteve, por alguns anos, o 7º lugar. Em primeiro lugar, os EUA, com US$ 18,12 trilhões ; depois, China, 11,21; Japão, 4,21; Alemanha, 3,41; Reino Unido, 2,85; França, 2,47. Agora, no início de outubro, o Fundo Monetário, projetando o cenário para 2015, deslocou a economia brasileira para o 9º lugar, com o PIB que era de US$ 2,35 trilhões sendo rebaixado para US$ 1,80 trilhão. A Índia passou a ser a sétima, com US$ 2,18 trilhões. E a oitava a Itália, com US$ 1,8 trilhão.

2.– O Brasil em dólares perdeu o equivalente ao PIB da Suécia que é de US$ 520 bilhões, ou da Argentina que é de US$ 474 bilhões. Analisando o impacto desse rebaixamento brasileiro, constata-se que o cenário projetado é ainda mais grave. Para o PIB de US$ 1,80 trilhão, o FMI utilizou a cotação do dólar a 3,20 reais. A conta é fácil: o PIB do Brasil em 2015 é de 5,74 trilhões de reais. Com o dólar em 3,20, alcançaríamos o total de US$ 1,793 trilhão, ou US$ 1,80 trilhão.

3.– A moeda norte americana chegou a ultrapassar 4 dólares, em relação ao real, determinando um rebaixamento ainda mais doloroso do Brasil, no “ranking” das principais economias mundiais. Com o dólar valendo R$ 3,50, a redução do PIB brasileiro iria para US$ 1,64 trilhão. Cotado a R$ 3,60, a queda seria para US$ 1,59 trilhão.Valendo R$ 4,00, o nosso PIB seria de US$ 1,43 trilhão.

4.– O “ranking” do Fundo na amostragem do PIB em dólar, em diferentes países, demonstra: a) no Canadá é de US$ 1,78 trilhão; b) na Austrália, US$ 1,44 trilhão; c) na Coréia do Sul, US$ 1,41 trilhão; d) Na Espanha, US$ 1,40 trilhão. Na América Latina, o do México US$ 1,28 trilhão. Se o dólar continuar se valorizando ante o real, agravando as contas nacionais, a recessão econômica poderá levar o nosso PIB, medido na moeda americana, a ser ultrapassado também por alguns desses países.

PEDALADAS

Há quatro anos, o então ministro Guido Mantega blasonava:

– “O FMI prevê que o Brasil será a quinta economia em 2015, mas acredito que isso ocorrerá antes”.

Em 2010, ao final do seu governo, era Lula quem afirmava:

– “Se depender de Dona Dilma e de Dom Guido, vamos ser a quinta economia do mundo. Em 2016, vamos conquistar essa medalha de ouro.”

Apenas irresponsáveis pedaladas.

Pedaços de nós, o que ficou do passado

Gorbatchev e Wojtyla, juntos, esvaíram o comunismo 

Sebastião Nery

PARIS – Aquele velho de costas curvas e cabelos brancos dirigindo seu táxi pelas largas avenidas de Barcelona, semanas atrás, e me falando orgulhoso dos tempos de suas lutas operárias no Partido Comunista espanhol, era um pedaço de nós. Aquele homem de longos cabelos brancos e mãos encarquilhadas, comendo seu pincho na Tasca de Sevilha no último domingo, e relembrando sua participação nas disputas anarquistas da Andaluzia, também era um pedaço de nós. Os dois refazem um passado que não volta mais.

Tristão de Athayde, o sábio, nos ensinou que “o passado não é o que passou, é o que ficou do que passou”.

E Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura do Peru, reconstruindo seus 80 anos em uma extraordinária entrevista ao jornal “El Pais”, acaba de dar uma lição de como não perder o que foi.

O PASSADO

60 anos atrás, vindos de todos os cantos, nós éramos um punhado de jovens participando das lutas pela paz de seus países, neles ou nas terras dos outros. Um dia era Moscou, depois Pequim, Praga, Viena, Berlim, Varsóvia, Roma, Paris. Às vezes no Congresso Mundial de Estudantes em Viena. Ou no Festival Mundial da Juventude em Moscou.

Passávamos por toda a Europa participando de lutas que não eram só nossas mas da humanidade. Agora, 60 anos depois, descobrimos quanto éramos felizes por fazer parte dos sonhos do mundo. O terrível é descobrirmos que já não somos os mesmos, e sobretudo já somos tão poucos. Os que resistimos, os que continuamos não perdemos nossas histórias. Infelizmente para tantos o passado se foi.

UBIRAJARA

O cientista nuclear Ubirajara Brito, saído da Escola de Engenharia da Bahia e ajudando a França a construir sua bomba atômica em Grenoble, e participando da construção da Universidade da Argélia com a equipe de Oscar Niemeyer, não perdeu o passado. Constrói sua Faculdade e seu Jornal lá em Vitória da Conquista, na Bahia.

Na Universidade do Sul da Bahia, o professor Sohane Nazareth continua perpetuando suas lições. Em Uberlândia, com sua beleza e suas lutas sociais, cuidando de sua fazenda com os admiráveis irmãos Azevedo, Martha Pannunzio não perdeu o charme de rainha do Festival Internacional da Juventude em Moscou em 1957.

NAPOLEÃO

Outros o passado levou como nosso simpático e inesquecível usineiro em Moscou, todo vestido de branco e o sorriso permanente no rosto, Napoleão Moreira, pai do imperador das águas de São Miguel dos Milagre, em Alagoas, Maurício Moreira. Como também levou há ainda pouco o sereno publicitário alagoano Murilo Vaz.

Tantos também se foram e não sabemos mais. Onde andará José Faerman Pathé, o cantor das multidões socialistas, vindas de São Paulo? Por onde anda o Roque, Diretor do Sindicato dos Trabalhadores de Volta Redonda no Rio com seu braço todo queimado?

Todos nos encontrávamos na “Universidade da Amizade dos Povos”, a “Universidade Lumumba”, daquela Moscou de 1955 a 57.

Gabriel Garcia Márquez, jornalista e escritor colombiano já começando a fazer sucesso, 5 anos mais velho do que nós, ainda não sonhava com o Nobel de Literatura.

KREMLIN

No desfile diante dos muros do Kremlin, os heróis daquele nosso mundo recebiam aplausos que a alguns a história depois negou, e a outros confirmou como Mao Tse Tung, Ho Chi Minh e Che Guevara.

Em Cracóvia, na Polônia, embaixo de nossos olhos, no Congresso Mundial de Estudantes, a história juntava o jovem estudante comunista da Universidade de Moscou Mikhail Gorbatchev e o diretor do Instituto Católico da Polônia padre Wojtyla, que depois se juntaram e fizeram esvair-se o comunismo no Leste europeu. Ninguém me contou, eu vi. E aquele atlético e sorridente sacerdote pôs em minhas mãos tensas a penca de chaves do seu Instituto para nele realizarmos o nosso Congresso Mundial de Estudantes.

PELICANO E BERLINGUER

Não eram apenas latino-americanos os presentes nestas histórias. Pelikano, Presidente da União dos Estudantes da Thecoslováquia e Giovanni Berlinguer, presidente da União Internacional dos Estudantes, que reencontrei como senadores italianos em Roma, lutaram até o fim.

Ao longo dos anos ambos construíram sólidas amizades com dirigentes políticos de suas gerações, como Raimundo Eirado, Presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Hoje, olhando o Sena, de cima das pontes eternas aqui de Paris, jogo meus 83 anos na balança e vejo que valeu a pena.

Falta um rei ao Brasil

Sebastião Nery

MADRID – A história tem fila. O marechal Franco morreu em 20 de novembro de 1975, depois de longa agonia. (“Francisco Franco Caudilho de Espanha Por la Gracia de Dios” e la desgracia de los hombres…).  Logo no dia 22, o príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938, neto de Afonso XIII) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática. O Rei surpreende a Espanha, e o mundo, convoca uma Constituinte, e chama o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para Presidente.

Começava a grande lição da Espanha. E eu aqui na sala de aula.

O GOLPE

Aquela Constituinte era uma lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência determinação e sabedoria de três jovens : o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez o líder da oposição, 35 anos. Os três construíram a nova Espanha. Mas não foi fácil.

Em 1981, o tenente coronel Tejero, à frente de um pelotão do Exército, invadiu o Parlamento, todos de metralhadora na mão. Os deputados esconderam-se atrás de suas bancadas. Um só, desafiador, ficou de pé e mandou o tenente-coronel respeitar o Parlamento. Era Adolfo Suarez, já então apenas um deputado.

O rei, general e brigadeiro, chefe das Forças Armadas, pôs a farda de gala, foi ao ministério do Exercito e exigiu que Tejero e seu grupo fossem imediatamente presos. Foram e o golpe acabou.

FELIPE

No dia 6 de setembro de 1988, como fazia toda terça-feira, o carro do chefe do governo, Felipe Gonzalez, parou às 10 da manhã na porta do Palácio Zarzuela. Sobe ao 1º andar e entra no gabinete do rei:

– Senhor, quero aproveitar este primeiro encontro depois do verão para comentar uma coisa em que tenho pensado muito. Não é nenhuma comunicação oficial. Simplesmente o resultado de uma reflexão.

O rei tomou um susto: – O que é que há?

– Senhor, há quase 6 anos sou presidente do governo e me faltam dois de legislatura. Creio que 8 anos são um período suficiente e estou pensando na conveniência de não me apresentar para as eleições de 1990.

– Não continue. Peço-te que pense mais sobre isso e voltaremos a falar mais adiante.

– Desculpe que insista. Quero dizer-lhe que não desejo falar sobre o assunto. Nem agora nem nunca. Só queria que soubesse que há esta possibilidade e, em minha maneira de ser e de entender o jogo político, não quero que algum dia o senhor se surpreenda quando vier ao palácio entregar minha carta de demissão.

– Quero dizer-te não. É impossível. O país neste momento não pode prescindir de tua pessoa. A democracia e o senso de responsabilidade histórica estão acima do teu desejo de ir embora. Tens que continuar conduzindo o país.

Continuou, disputou e ganhou ainda as eleições de 90 e só saiu em 94 quando não disputou mais e o Partido Popular de José Maria Aznar venceu o partido Socialista, já liderado por outro.

Durante muito tempo se disse em Madri que a Espanha tinha um rei e um vice-rei. O vice-rei era Felipe, o ex Isidoro cabeludo.

Com comícios, eleições, o povo na rua, governo eleito, o jornal “El Pais” nascendo, a revista “Cambio 16” circulando livre, a Espanha de 1977 já era bem outra, muito diferente da Espanha fascista, que eu tinha conhecido antes, com Franco e o franquismo ainda vivos, em 1963 e 73.

A BRUXA

No Brasil é terrível constatar nossa desvalida República. Estamos precisando de um rei que como Juan Carlos da Espanha tivesse autoridade, respeitabilidade e assumisse o comando político na hora em que o país entrasse em perigo com sua unidade nacional abalada.

O espetáculo dantesco que o Congresso Nacional está dando todos os dias, abrindo as entranhas com divisões de interesses baratos e cada um buscando um naco de poder pode levar o pais a um impasse. É assim que as nações se esfarelam, se dissolvem.

Se tivéssemos uma presidente da República que não pensasse só em comprar a sua permanência no poder tudo seria mais fácil. Como estamos, em determinado instante alguma esfera legal do poder, (o Legislativo, o Judiciário) vão ter que interferir. Quem não tem rei caça com gato.

É inacreditável como uma Nação leva uma rasteira de uma Presidente. Imaginávamos que Dona Dilma, eleita, aplicaria seus talentos públicos para construir um país sólido e sereno. Como em uma história de carochinha, ela abriu a panela e passou a fazer maldades. Para que? Ate agora para nada.

Estamos assim sem Rei, sem Rainha, nas mãos de uma bruxa.

De volta a Alhambra de Granada

Alhambra é um dos redutos históricos mais belos do mundo

Sebastião Nery

GRANADA – A primeira vez em que vim a Granada foi no violão de meu pai lá nas noites da roça. Agustín Lara, o barroco mexicano Ángel Agustín Maria Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, embolerava as noites com as canções “Granada”, “Solamente una Vez”, “Noche de Ronda”, “Palmeras” (o nome da nossa fazendinha) e outras.

A segunda vez em que vim a Granada foi nos iluminados comícios da Constituinte espanhola de 1977, quando a Espanha reaprendeu a democracia, a luta política e a liberdade.

A terceira vez em que vim a Granada foi na Exposição Internacional de Sevilha em 1992 quando o então presidente espanhol Felipe Gonzalez acompanhou o presidente Fernando Collor numa visita aos eternos labirintos de Alhambra, soluço incontido da história e Patrimônio Cultural da Humanidade, soberbos séculos construídos pelos árabes e pelo cristianismo desde os fenícios, os romanos, os gregos.

LABIRINTOS

A quarta vez em que vim a Granada foi agora. Mas não vim a Granada porque vir a Granada sem ir a Alhambra é não ir a Alhambra nem vir a Granada. Aqueles magníficos e perturbadores palácios, brotando de dentro das florestas de ciprestes são um dos mais apocalípticos documentos da espiritualidade humana. A partir do ano 712 os árabes dominaram o reino de Granada durante 536 anos. Em 1248 Fernando III, O Santo, conquistou Sevilha e Granada para a cristandade.

Os mulçumanos foram embora de Granada ficando apenas cristãos e judeus. Em 5 séculos construíram dezenas de palácios e quilômetros de caminhos nas colinas vermelhas da Alhambra. Sevilha é um símbolo da união do mundo árabe com o mundo cristão. Na catedral toda em ouro, está o túmulo de Cristovão Colombo, todo em prata.

Cheguei a um tempo em que caminhar horas é maratona. Vou voltar a Alhambra ouvindo Granada de Agustín Lara.

CAPITALISMO

O jornal “El Pais”, o maior da Espanha e da Europa, publicou uma pesquisa assustadora: “O 1% mais rico tem tanto patrimônio quanto todo o resto do mundo”:

– “2015 será relembrado como o primeiro ano da série histórica em que a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor de todos os ativos. Em outras palavras: o 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares têm tanto dinheiro liquido ou investido como os 99% do restante da população mundial. Esta enorme faixa entre privilegiados e o resto da humanidade, continuou ampliando-se desde o inicio da Grande Recessão, em 2008”.

– “A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, chega já a uma leitura possível: os ricos sairão das crises ainda mais ricos, em termos absolutos como relativos, e os pobres relativamente mais pobres”.

ELEIÇÕES

No dia 20 de dezembro a Espanha vai às urnas para escolher o novo Chefe do Governo que, como o regime é parlamentarista, sairá da maioria conquistada por cada partido. Estes números que estão ai em cima comandam o debate eleitoral. Como também os números do orçamento nacional.

Aqui não há pedaladas. Como a União Europeia achou que os números do orçamento para 2015 estavam sem objetividade, reclamou e pediu que o Governo Espanhol seja mais objetivo para que não só a população espanhola como os governos de todos os estados da União Europeia possam caminhar seguros diante dos números.

No dia 20 a palavra final é das urnas.

A lição da Espanha

Felipe Gonzalez, Adolfo Suárez e o rei Juan Carlos

Sebastião Nery

MADRID – Mino Carta, diretor da “Isto É”, me convidou em 1977 para ir à Espanha acompanhar a campanha eleitoral da Constituinte espanhola, que deveria ser convocada para breve. O general Franco morrera em 20 de novembro de 1975 e o franquismo estrebuchava seus 41 anos de ditadura. Logo no dia 22, o príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática.

E o Rei surpreende a Espanha e o mundo. Chama o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para presidente. Começava a grande lição da Espanha. E eu lá na aula. Cheguei a Madri com a Constituinte convocada e os partidos saindo da clandestinidade e começando a campanha eleitoral. Além da “Isto É”, escrevi para a “Tribuna da Imprensa” (Rio) e o “Correio Braziliense” (Brasília) e escreveria meu livro “A Lição da Espanha”.

ENCONTRAR OS LÍDERES

Vim para cá com um projeto na cabeça: conversar primeiro com os lideres dos principais partidos, ainda escondidos. Não conhecia ninguém. Levei o telefone do jovem e brilhante empresário Pedro Grossi, que tinha um escritório em Madri. Na sala pequena, só a mesa dele e outra, menor, de um jovem assessor sentado ao lado. Contei meu problema. Como fazer para falar com Santiago Carrillo, o velho líder do Partido Comunista?

O Grossi sorriu. E o rapaz me perguntou se iria com ele a Barcelona encontrar Carrillo. Claro que sim. Mas e a policia? Ele não esta escondido? Estava, mas, indo com ele, Carrillo me receberia sem problema.

– Como é que você pode me garantir que irei seguro?

– Porque ele é meu pai.

Ele me pegou cedo no hotel e lá fomos nós, no carro dele. Baixo, rechonchudo, 62 anos, testa larga, cabelos escuros, cara de padre sem batina, ar tranquilo e bonachão de quem estava em paz com a vida, Carrillo já tinha saído do exilio na França e vivia em uma casa discreta no subúrbio de Barcelona. Era um dirigente comunista simples e modesto. A longa entrevista dele fez sucesso no Brasil, na Europa e na Espanha.

Começava com sorte minha maratona espanhola.

OS TRÊS

O nome dele era Isidoro. Todo mundo sabia quem era, mas ninguém sabia como ele era. Secretário-geral do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), o mais antigo do pais, fundado por Pablo Iglesias em 1879, era o grande enigma da abertura que viria. Nascido em 5 de março de 1942, na Faculdade atua entre os grupos universitários católicos. Em 1962, conhece um grupo de colegas socialistas já organizados (são como irmãos até hoje), Afonso Guerra, Guilhermo Galeote e Luis Yanez. Tinham um projeto: assumir o comando do Partido Socialista em Sevilha, a partir daí o governo. Vinte anos depois, em 1982, conseguiram.

Em 72, vão ao congresso do PSOE na França, entram para a direção nacional. Em 74, Isidoro se elege secretário-geral, derrotando o velho Rodolpho Lopis, 79 anos, herói da guerra civil. Muda-se para Madri, sempre clandestino e sempre Isidoro. Foi aqui que o conheci, em 1977, os cabelos negros, cheios, caindo sobre o pescoço, a barba cerrada, um discurso forte e 35 anos. Em dezembro de 76, havia convocado a imprensa e anunciado que o PSOE voltava à legalidade depois de 40 anos proibido.

ERA FELIPE

Já não era mais Isidoro. Era Felipe, Felipe Gonzalez, “El caballo” (o cavalo). Nas eleições de 15 de junho de 77 para a Constituinte, seu partido fez 28,51%% dos votos. O Partido Comunista de Santiago Carrillo, 9,025%. A Aliança Popular, a direita ex-franquista, do galego Fraga Iribarne, 8,19%. O Partido Socialista Popular, do velho professor da Universidade de Salamanca, Tierno Galvan, 4,29%. Ganhou a UCD (União do Centro Democrático) de Adolfo Suarez, chefe do governo, com 34,34%.

Só em 82 Felipe e seu PSOE ganhariam as eleições. Mas aquela Constituinte era uma lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência, determinação e sabedoria de três jovens: o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez o líder da oposição, 35 anos.

Os três construíram a nova Espanha. Em 1992, em Madri, nos 500 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, ouvi Felipe Gonzalez, presidente da Espanha, dizer a Fernando Collor, presidente do Brasil:

– Fernando, governar é resistir.

COMO JK

Uma noite de lua, na praça de velhas pedras gastas de Diamantina em Minas, um grupo de garotos conversava sobre o que iam fazer da vida:

– Eu vou ser presidente da República.

E Juscelino Kubitschek foi presidente da República.

Uma noite de verão, na praça de velhíssimas pedras gastas de Ávila, na Espanha, um grupo de jovens conversava sobre o que iam fazer da vida.

– Eu vou ser o presidente da Espanha depois de Franco.

E Suarez foi o primeiro presidente da Espanha depois de Franco.

Em Barcelona, a cidade de Augusto

Thomas Piketty está assessorando o partido Podemos

Sebastião Nery

BARCELONA – Ela é uma mas sempre foi muitas, tantas, numerosíssimas. Nasceu Laye, cidade ibérica conquistada no ano 133 antes de Cristo pelo romano Lúcio Cornélio Scipião, colônia romana nos tempos do imperador Augusto (de 27 antes de Cristo a 14 depois de Cristo), com o múltiplo, imperial e soberbo nome de Faventia Julia Augusta Paterna Barcino, a cidade de Augusto, dos Augustos como eu.

De Barcino para Barcelona foram séculos. Plantada sobre um pequeno monte, o Taber, em meio à planície entre os rios Bésos e Llobregat, às beiras do Mediterrâneo, protegida dos ventos norte pela serra da Collserola, a cidade cresceu na área que é hoje o Bairro Gótico onde se podem ver ainda as imponentes colunas do templo de Augusto, cercada de muralhas até o século IV quando foi ocupada pelos francos.

Ludovico Pio chega ao sul dos Pirineus e nasce o Condado de Barcelona quando se destaca Vifredo o Velloso (Guifré el Pilós) e a cidade se desenvolve permanentemente até a invasão de Almamzor (ano 985) que a arrasa e cuja independência só vai ser restabelecida com o Condado do Conde Borell II no ano 988:

– “O esplendoroso desenvolvimento de Barcelona acontece a partir do século XI com a união de Catalunha e Aragão. No século XII, Afonso I torna-se o primeiro conde rei. Jaime I, o conquistador, estende seu reinado até o sul, no reino de Valencia e através do Mediterrâneo com a conquista de Maiorca, criando a grande confederação Catalã-Aragoneza no século XIII, com as máximas obras arquitetônicas do gótico e as grandes instituições como o Código dels Usatges, que define a personalidade histórica da Catalunha e de Barcelona.” (“Escudo de Oro”)

COLOMBO

Hoje, lá do alto de sua estátua, na praça ampla, olhando a avenida larga e o mar infinito, Cristovão Colombo é o herói universal que descobriu as Américas. Mas antes de voltar era “apenas uma anedota”. A partir dele é que veem a Exposição Universal de 1888 e a Exposição Internacional de 1929, até 1992 com os Jogos Olímpicos que definiram o novo urbanismo e a nova arquitetura da nova cidade.

Barcelona é símbolo de todos os mundos, do romano até hoje.

ADOLFO SUAREZ

Em 1975 estive aqui. Franco tinha acabado de morrer e as asas negras da ditadura haviam voado para fora da Espanha. Em 1977 voltei. Santiago Carrilho e Dolores Ibarrure, a Passionária, líderes do partido Comunista, voltavam do longo exílio em Moscou e na França. Isidoro, nome de guerra do jovem Felipe Gonzalez, saído da clandestinidade convocava entrevista coletiva para anunciar a refundação do secular PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol).

Federica Montseny, líder anarquista, primeira mulher ministra da Espanha, voltando do exílio em Lyon, reuniu multidões nas praças de Touros. E eu lá.

Manuel Fraga, da Galícia, fundava o partido Popular e Adolfo Suarez, o grande, incomparável estadista, entendia-se com o rei e começavam a construção da nova Espanha legalizando todos os partidos políticos, instalando a liberdade de imprensa, convocando a Constituinte e comandando as eleições de 1977.

A NOVA ESPANHA

A nova Espanha nasceu das mãos valentes de um jovem rei, o Juan Carlos, que desafiou pessoalmente e esmagou um golpe militar, de um jovem político como Adolfo Suarez que refundou o partido franquista e de jovens dirigentes partidários como Felipe Gonzalez do PSOE e José Maria Aznar do PP. O que a Espanha é hoje deve muito, deve tudo a eles.

A Espanha provou a democracia e gostou. Em julho, nas eleições regionais, uma mulher, Manuela Carmena, de 71 anos, elegeu-se prefeita da capital Madri pelo novo partido de esquerda, o “Podemos”. Também pelo “Podemos” a jovem e bela Ada Colau, de 41 anos, se elegeu prefeita da segunda maior cidade da Espanha, esta Barcelona.

No fim do ano serão realizadas as eleições gerais para o novo parlamento que definirá o novo governo. Mariano Rajoy, do PP, que hoje comanda a Espanha, pode entregar o governo ao centro esquerda PSOE ou ao “Podemos” aliado à “Esquerda Unida”. As pesquisas de hoje dão 28,2% para o PP, 24,9% para o PSOE e 15,7% para o “Podemos”.

NOVAS FORÇAS

Mas existem novas forças como a “Esquerda Plural” com 10,3% e o direitista “Cidadãos” com menos de 10%. Se toda esquerda (“Podemos”, “Esquerda Unida” e “Esquerda Plural”) se unir a Espanha poderá ter o primeiro governo de esquerda depois da vitória do PSOE de Felipe Gonzalez, que durou de 1981 a 1996.

Um fato novo na política espanhola é a presença do economista francês Thomas Piketty, famoso com seu best seller mundial “O Capital do século XXI”, ao lado do “Podemos”. Ele elaborou um “Plano Integral de Luta Contra as Desigualdades”:

– “Precisamos de novas forças políticas para mudar a Europa”.

A Espanha continua ensinando democracia.

 

Lições de democracia

Melina Mercouri, ministra da Cultura, e Papandreou

Sebastião Nery

PARIS – Naquela tarde, o aeroporto de Atenas era pequeno demais para uma multidão tão grande. A ditadura militar do coronel Georgios Papadopoulos, que dera o golpe em 1967, caíra de podre e violências, derrubada por ondas de protestos nas ruas no turbulento julho de 1974. Eu estava lá, escrevendo o meu livro “Socialismo com Liberdade”.

Os militares foram obrigados a chamar de volta do exílio, em Paris, devolvendo-lhe o governo, o ex-primeiro-ministro Konstantinos Karamanlis, da ND (“Nova Democracia”), partido de centro, que organizou um governo de transição, convocou eleições gerais e ganhou.

Mas aquela festa era de Andreas Papandreou, fundador e líder do Partido Socialista, o Pasok (“Movimento Socialista Pan-Helenico”), também exilado em Paris, que voltava para disputar as eleições.

Minha amiga grega já me havia levado para jantar com um grupo de dirigentes socialistas correligionários dela. Eu a conhecera dez anos antes, em 1963, eu eleito deputado na Bahia, ela ainda na Universidade, jovem, linda, rosto longo e fino de deusa grega, olhos bem negros, misteriosos, estudando português, apaixonada pelo Brasil.

MELINA MERCOURI

A caminho do aeroporto no carro de um dos secretários internacionais do partido, ele nos avisou:

– Vai haver muita gente na chegada. Guardem o numero deste carro e o nome do motorista. Se nos perdermos, entrem nele, porque vamos direto para o comício na praça do Parlamento e ele levará vocês até lá.

Papandreou apareceu na escada do avião, a multidão em delírio. Atrás dele, uma bonita e sorridente mulher, loura de olhos claros, cujo nome o povo gritava mas eu não entendia. Imaginei ser a mulher dele. Ele foi posto em cima de um carro tipo de bombeiros e fez-se o cortejo.

A bela mulher do avião entrou no nosso carro, deu um beijo em cada um, abriu a janela e passou a saudar a multidão. Era a divina Melina Mercouri, atriz de “Stela” “Fedra” e “Nunca aos Domingos”.

Os gregos ensinavam como derrubar uma ditadura. Com o povo.

TSIPRAS

Passados 40 anos, a Grécia voltou aos tumultuados dias de 1974. Ainda bem que sem ditadura, mas tendo que enfrentar nas ruas e praças a brutal ladroagem dos banqueiros internacionais acoitados em suas instituições cada dia mais poderosas e vorazes: Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Bancos alemães e ingleses.

Mais uma vez a velha Grécia de Péricles, que há 2.500 anos construiu a democracia, reunindo o povo na praça e ensinando-o a votar, dá ao mundo lições de liberdade e união popular. Dois jovens em torno dos 40 anos comandam essa batalha que é uma festa de coragem.

Alexis Tsipras, fundador e líder do Syriza (Aliança Socialista Radical) e Vangelis Meimarakis, líder da “Nova Democracia”, honram os que vieram antes deles no Pasok e na “Nova Democracia”, com todas as diferenças que os novos tempos trouxeram para o mundo e para a Grécia.

BATALHA PARLAMENTAR

A Grécia é um regime parlamentar. Faz o governo com a maioria que saiu das eleições. A bravura política do Tsipras e seus companheiros mostrou mais uma lição grega. Saiu das anteriores eleições com maioria simples, teve dificuldade de compor um governo majoritário, foi encurralado pela insaciável gula dos banqueiros e devolveu a palavra ao povo: renunciou à chefia do governo, suspendeu o parlamento e convocou novas eleições para o país dar a palavra final.

As eleições de domingo premiaram-lhe a bravura: o Syriza elegeu 145 deputados, 5 a menos para completar a maioria absoluta de 150 (em um total de 300). O segundo mais votado, o velho Nova Democracia liderado por Meimarakis, fez 75. O neo-nazista Aurora Dourada 19. O antigo Pasok 17 e o KKE 14. O Syriza já garantiu maioria em aliança que esta sendo negociada com o Pasok (17) e o KKE (14).

ANGELA MERKEL

É uma pena que a esvoaçante Melina Mercouri, com sua coragem e fidelidade ao povo, e os Papandreous não possam estar ai celebrando a firmeza de seus discípulos, quaisquer que sejam as divergências de hoje.

A Grécia precisa estar forte para enfrentar os gangsters da agiotagem internacional, acoitados pela bênçãos melífluas da madre superiora alemã Angela Merkel. Apesar das sofridas concessões que a Grécia fez, o insuspeito jornal espanhol “El Pais” confessa:

“- Se a Gran Recesión foi a maneira de ensinar ao mundo um pouco de economia, a crise do euro obriga o gregos a aprenderem que, votem em quem votem, terão duros ajustes daqui por diante.”

O nome disso é chantagem.

Hungria de novo?

Hungria quer botar na cadeia os refugiados

Sebastião Nery

PARIS – O brutal massacre de Budapeste pelos russos em 1956 traumatizou a Europa e ensanguentou o Leste Europeu, que nunca mais foi o mesmo. Cheguei lá logo depois, indo de Moscou, Varsóvia e Praga. Foi uma historia de horror, pior do que os poloneses e tchecos contaram.

Os húngaros traziam atravessado na garganta o fuzilamento de Lazlo Rajk, seu ministro do Interior, acusado por Stalin de colaborar com Tito, condenado e executado. Janos Kadar, amigo de Rajk, não foi fuzilado, mas foi para a cadeia. Rakosi, o líder do partido que assumira o governo em 1952 apoiado pelas tropas russas, era um stalinzinho sanguinário.

CZEPEL

Em março de 56, com o Relatório de Khrushev, Rajk foi reabilitado, a Hungria se levantou exigindo a saída de Rakosi, que passou o governo para Imre Nagy. Mas era tarde.

A fábrica “Czepel”, que fazia as famosas motos “Czepel” (meu irmão tinha uma linda e poderosa lá no interior da Bahia), chamada de “Ilha Vermelha” porque ficava em uma pequena ilha do Danúbio, à beira de Budapeste, com 10 mil operários, rebelou-se.

A fábrica criou uma comissão operaria e o processo disparou. Em 24 horas já haviam sido criadas milhares de “comissões operarias” A universidade foi para as ruas, os intelectuais para as rádios e jornais. Imry Nagi convocou os antigos socialistas e os sociais democratas, para um governo de unidade nacional. A estatua de Stalin, imensa, foi derrubada.

RUSSOS

De madrugada, os russos, chamados pelo traidor, atravessaram a fronteira e literalmente fuzilaram as esperanças e a alegria do povo que, aos milhões, comemorava a liberdade nas ruas. Foi um massacre. Milhares de mortos e presos. A abertura de Khrushev era só para os russos. Para as colônias, bala. Nagy cometeu a ingenuidade de ir ao comando militar soviético para negociar. Foi levado para Moscou e fuzilado.

Foi com emoção e comoção que vi, na “Ilha Vermelha” do Danúbio, os rombos enormes dos canhões soviéticos nas paredes da “Czepel”.

‘SPACIBA”

Quando disse, em russo, “spaciba” (“obrigado”), ao motorista de taxi que me levou para ver o que restou da “Ilha Vermelha”, ele fechou a cara irado, na porta do hotel em Budapeste:

– “Spaciba no! Spaciba ruski”!(Spaciba não! Spaciba é russo!”)

Não era um protesto. Era um ponto final dele. E meu. Os escassos dólares que me restavam eram para Paris e Roma, até o navio em Genova, já de passagem comprada e volta marcada para o Brasil.

Vendi três “Laikas” em uma loja de materiais fotográficos e fui para a Yugoslávia, para Belgrado. Não eram só os partidos comunistas que crepitavam. Minha cabeça também tinha sido incendiada.

EUROPA

Quase 58 anos depois, aqui estou, nesta mesma Europa, perplexo com a brutalidade do conflito entre levas de populações inteiras de refugiados arrastando famílias e tentando fugir de suas dores e guerras, através de mares que levam a naufrágios, ou fronteiras cada dia mais fechadas de povos que séculos atrás sofreram os mesmos tormentos. Jornais, revistas e televisões repetem uma dolorosa tragédia diária.

  1. – Os 28 ministros do Interior da União Europeia deixaram Bruxelas sem decisão sobre o plano que prevê distribuir em cotas, por países do bloco, 120 mil refugiados. A proposta soma-se ao anúncio anterior de que a União Europeia distribuiria 40 mil asilos. Mesmo se executada, a ideia deixa no limbo 58% dos 380 mil refugiados que a ONU estima terem chegado neste ano à Europa pelo Mediterrâneo, a maioria vinda da Síria, país em guerra civil desde 2011.
  2. – A proposta de cotas, apoiada por Alemanha e França, havia sido anunciada pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Clauder Juncker. Apesar do discurso do ministro alemão Thomaz de Maiziere de que todos “concordam” com o princípio de abrigá-los, nada foi selado. A próxima reunião está marcada apenas para 8 de outubro. Pode ser tarde.

HUNGRIA

As medidas mais extremas são as da Hungria, onde entrou em vigor nessa terça (15) uma lei que prevê a prisão e a deportação de imigrantes sem visto, que passam a ser considerados criminosos(e não contraventores). O primeiro-ministro conservador Viktor Orban é um dos opositores mais radicais da acolhida aos refugiados. Seu país abriga 50 mil pessoas que ali ficaram ao tentar fazer a rota entre a Grécia e a rica Alemanha.

Orban mandou erguer uma cerca na fronteira da Servia, que não é da União Europeia. A historia é assim. Os Stalin e Hitler sempre voltam.

Falta um JK

Sebastião Nery

“Um dia, quando estávamos com o ex-presidente JK na fazenda, chegou um carro com o dono da loja de artigos agrícolas que fornecia insumos para Juscelino, dizendo que havia recebido um bilhete do “Jornal do Brasil”, e um repórter do jornal precisava falar com urgência comigo.

Juscelino, desconfiado como todo bom mineiro, comentou:

– Aposto que é alguma coisa comigo…

Como não havia telefone na região, eu e Ildeu, sabendo que devia ser alguma coisa importante, pegamos o carro dele e fomos para Luziânia. No caminho, vimos, ao longe, na estrada de terra, uma nuvem de poeira. O primeiro carro que parou era do jornal “Correio Braziliense”:

– Como foi o desastre com o Presidente?

– Que desastre? Eu perguntei, perplexo.

– Mas o Presidente não morreu em um desastre de automóvel?

 

– Não, – eu disse – o Presidente está na fazenda e muito bem disposto.

O repórter, que estava com mais pessoas no carro, ficou emocionado quando ouviu a notícia de que JK estava bem, não se conteve e começou a chorar, com o cotovelo apoiado no teto do carro e a mão na testa.

CARLOS MURILO

Voltamos para a fazenda, com um monte de fotógrafos e jornalistas.

Quando eu disse ao Presidente que as rádios haviam noticiado que ele tinha morrido em um desastre de automóvel, JK deu uma gargalhada:

– Eles estão querendo me matar. Sei que tem muita gente que está desejando isso. Mas não vai ser dessa vez que eles vão conseguir.

Dali a pouco, começou a chegar mais gente na fazenda. As pessoas chegavam preocupadas. Queriam apertar sua mão ou abraçá-lo, como se quisessem ter certeza de que ele estava mesmo vivo. Aos poucos, a apreensão foi dando lugar à alegria. E no final, como sempre acontecia quando Juscelino estava feliz, o dia que começara com a notícia de sua morte acabou em festa, como uma grande homenagem à sua vida”.

Dias depois JK morreu em misterioso desastre na Via Dutra, contado em “JK–Momentos Decisivos”, de Carlos Murilo Felício dos Santos, livro definitivo sobre ele. Sábado, 12, JK teria feito 113 anos. Que falta ele faz.

FOLHA

É um velho e macabro ritual na historia brasileira. Quando os presidentes da Republica estão para cair, um jornalão dá o grito em editorial na primeira pagina. E nenhum tem resistido a essas aves de mau agouro. Foi assim com Getulio, Janio, Jango, Collor.

Domingo, de alto a baixo da primeira pagina, em letras garrafais, a “Folha de S. Paulo”, tentando disfarçar mas indisfarçadamente, anunciou a derrubada de Dilma. Não diz como nem quando. Mas logo: “ÚltimaChance”

 

‘Não há, infelizmente, como fugir de um aumento de impostos, recorrendo-se a novas alíquotas sobre a renda dos mais privilegiados e à ampliação emergencial de taxas sobre combustíveis, por exemplo.

 

Serão imensas, escusado dizer, as resistências da sociedade a iniciativas desse tipo. O país, contudo, não tem escolha. À presidente Dilma Rousseff tampouco: não lhe restará, caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa”.

DILMA

Dilma tem sido um patético espetáculo de incompetência e atabalhoamento. Diz uma coisa e faz exatamente outra. As palavras bailam em sua boca como vacas bêbadas soltas no pasto. Cada uma para um lado. Finge de espertalhona e faz do governo um ridículo bate-cabeça.

 

O ministro da Fazenda diz uma coisa e logo o do Planejamento diz outra, porque ela mandou. O Chefe da Casa Civil já nada diz, porque também não adianta, pois ninguém acredita mesmo nele. Nem ele. Confesso não ter a menor competência para entender Dilma. Ou ela passa as noites do Alvorada tomando porres homéricos ou endoideceu de vez.

BARBOSA

A desastrada “nova matriz econômica” que jogou o Brasil no precipício em que estamos vivendo teve três importantes autores:

Dilma, que se considerava ministra da Economia; Guido Mantega cumpridor das determinações presidenciais e Nelson Barbosa secretário executivo da Fazenda de 2011 a 2013. Anteriormente foi secretário Econômico de 2007 a 2008, em seguida secretário-executivo de Política Econômica de 2008 a 2010. Foi também presidente do conselho do Banco do Brasil entre 2009 e 2013 e diretor do BNDES de 2005 a 2006.

Barbosa, como se vê, foi ativo conivente com a política econômica equivocada e um dos arautos do populismo irresponsável maquiador das contas públicas. Dilma tem no ministro do Planejamento o seu porta- voz.

Lula, Dilma, Mantega, Barbosa. Não há pais que aguente essa gente.

Um governo para roubar

Sebastião Nery

Gilberto Amado, senador de Sergipe até 1930, em 1934 queria ser governador. Já escritor famoso, glória e honra de sua gente, faltava governá-la. Eleição indireta comandada pelo Governo, ele foi a Getúlio:

– Presidente, quero ser governador de Sergipe.

– Por que, Gilberto? Você, um homem tão grande, ser governador de um Estado tão pequeno?

– Quero dirigir minha tribo. Isto é fundamental para minha vida.

– Ora, Gilberto, conheço você muito bem. Esta não é a verdadeira razão. Não pode ser. Governar por governar, isso não existe para um homem de seu tamanho, da sua grandeza.

Gilberto Amado sentiu que era preciso apelar. Apelou:

– Pois o senhor quer que eu diga mesmo? Quero ser governador para roubar, roubar, do primeiro ao último dia. Roubar desesperadamente.

Gilberto já estava de pé, as mãos para o alto, os olhos incendiados:

– Isto mesmo, Presidente. Roubar, roubar, roubar!

Gilberto Amado não ganhou Sergipe. Mas Getúlio ficou tão perplexo e encantado que em 1935 o nomeou consultor jurídico do Itamaraty e em 1936 embaixador no Chile. Depois, foi representante permanente do Brasil na ONU, décadas seguidas.Tudo que ele quis.

GABEIRA

Gilberto Amado viveu a vida inteira com o salário de diplomata e direitos autorais. Hoje, se fosse para roubar, iria para um governo do PT. O exemplar jornalista e cidadão Fernando Gabeira denunciou no “Globo” :

– “O Brasil é dirigido por um governo que transformou a política numa delinquência institucional. O país acaba de descobrir o maior escândalo de corrupção da História. Gilmar Mendes colocou o ovo de pé: houve um grande escândalo de corrupção que beneficiou o PT. Dilma fez uma campanha milionária. O “Petrolão” indica que o dinheiro foi para a campanha. Empresas fantasmas já apareceram. Por que não investigar o elo entre a campanha de Dilma e as revelações da Lava-Jato? Como velho jornalista sei que os fatos são como baioneta: sentado neles, espetam”.

O PT pôs Dilma sentada em cima de uma baioneta.

PETROBRÁS

Ainda bem que neste vendaval de números desastrados que são os governos do PT, a Petrobrás, apesar de tudo, da sangria que sofreu, de toda a roubalheira a que foi submetida, não afundou totalmente. Salvou-se.

1.- Seu “Plano de Negócios e Gestão 2015/2019”, determinou corte de investimentos de US$ 206 bilhões para US$ 130 bilhões, como base estrutural na escalada da montanha, forçando a redução do seu tamanho com a venda de partes do ativo no total de US$ 58 bilhões. Hoje a Petrobrás é a empresa mais endividada do mundo: US$ 104 bilhões.

– Felizmente os fundamentos sólidos da empresa resistiram (com enorme prejuízo) aos roubos e rombos. Os acionistas minoritários são as grandes vítimas. No 2º trimestre de 2015, o lucro operacional foi de R$ 9,48 bilhões, mas o lucro líquido que refletirá nos dividendos foi de R$ 531 milhões. No seu estágio de purgatório, deduziu do resultado R$ 2,8 bilhões para quitar parcelas atrasadas do IOF, questionadas na Justiça.

PRE-SAL

– A Petrobrás pagou R$ 1,4 bilhão à Receita Federal de impostos atrasados e optou pela baixa contábil de ativos de R$ 1,2 bilhão. Resultado: o lucro líquido foi 89% menor em relação ao mesmo período do ano passado. A organização administrativa e financeira da empresa passa por essa etapa dramática, onde os brasileiros são os grandes perdedores.

4 – Dona de reservas comprovadas superiores a 12 bilhões de barris, acima da média internacional, a Petrobrás foca investimentos na produção e elevação da extração de petróleo e gás. O pós-sal e o pré-sal serão o “filet mignon” na sua lenta recuperação. Felizmente a evolução dessa produção vem ocorrendo em nível ascendente.

FORTUNE

– Fato relevante: a revista norte americana “Fortune”,especializada em economia, acaba de publicar o “ranking” mundial das 500 maiores empresas do mundo. A Petrobrás ocupa o 28º lugar, definida como a maior empresa da América Latina, dona de ativos de US$ 300 bilhões.

– E a “Fortune” ressalta que suas cicatrizes vão demorar algum tempo para sarar. Projetando os números da “Fortune” em perspectiva de futuro, sem interferência política, sem empecilhos burocráticos, sem investimentos irresponsáveis e sem roubos partidários, a empresa poderá se reencontrar com a sua história, voltando a ser orgulho dos brasileiros.

Para isso é fundamental fazer do cumprimento das Leis Anticorrupção e de Improbidade Administrativa dogmas intocáveis. O país põe nas mãos da Operação Lava-Jato, do juiz Sergio Moro e do Supremo Tribunal a certeza de que o PT não conseguiu o naufrágio da Petrobras.

Petrônio e Dilma, uma diferença abissal

Petrônio acumulava sabedoria política

Sebastião Nery

No dia 7 de maio de 1977, Brasília era um cemitério cívico coveirado pelo general Geisel, que dias antes editara o Pacote de Abril, fechara o Congresso, rasgara a Constituição da Junta Militar e passara a legislar como um Nero em sua Roma tropical. Como sempre fiz ao descer na capital, liguei para Petrônio Portela, presidente do Senado.

– Ótimo. Vamos conversar. Passe amanhã cedo lá em casa.

Fui. Gravador sobre o sofá, quatro horas de uma interminável, direta, vibrante conversa. De quando em quando, ele punha o dedo no stop, desligava e dizia coisas dos bastidores, impublicáveis, apenas para meu conhecimento. Lembro da defesa calorosa do nome do general Figueiredo (era maio de 77, dois anos antes da escolha, e ele ainda não sabia o que Geisel pensava) e uma análise crua, dura sobre o “despenhadeiro” (expressão dele) que seria a chegada do general Sylvio Frota ao Planalto.

Saí de lá, no dia seguinte o “Correio Braziliense” e a “Ultima Hora” do Rio publicavam páginas inteiras com toda a conversa, sob uma manchete que Oliveira Bastos plantou na primeira página:

“Petrônio, o Bedel do Sistema: porque não aceito a Presidência”.

PRESIDÊNCIA

– “Como? Eu, presidente da República agora em 1978? Mas, para que você não imagine que esteja a fugir de responder frontalmente a uma pergunta saindo pela via oblíqua, eu lhe diria tranquilamente: – acho que se desclassifica para o posto todo aquele que não tiver plena consciência da realidade brasileira e não souber da sua valia ou desvalia para o exercício do cargo maior da República. Eu tenho.

Sei que não teria agora as condições políticas indispensáveis ao exercício do cargo. Seria obrigado, na Presidência, a mostrar sempre os meus trunfos E o presidente da República é um homem que, quando senta na cadeira presidencial, já deve ostentar perante a Nação os seus títulos, os seus atributos, os seus trunfos. E marquei pontos na vida política porque sou um realista. Impõem-se títulos que não ostento”.

É uma pena que Dilma não tenha conversado com Petrônio.

HONESTIDADE

Petrônio falava e o gravador gravava:

– ”Eu diria que outro fator fundamental na minha vida pública é a honestidade com que marco minha vida em qualquer plano. Não mistifico, não adultero, não falseio, sou sempre autêntico, autêntico sem aspas, e tenho para mim que isto tem praticamente dissolvido muitas coisas que contra mim se tenta improcedentemente.

No Senado, onde de fato fiz uma carreira como poucos, jamais se arrolou contra mim gesto menos nobre, uma atitude que me abastardasse, ou me desconceituasse perante os meus companheiros. Isso me confere uma certa autoridade, da qual faço uso em qualquer posto que ocupe”.

“DILMENTIRA”

Em hipótese alguma Dilma poderia dizer isso, falar como Petrônio falava. Ninguém acredita nela e por isso ninguém a respeita. Quem se tornou a “Dilmentira” perdeu as condições para ser acreditada quando fala. A Dilma das pedaladas é a Dilma das enganações. A Dilma dos números proclamados na campanha é a Dilma dos números desmentidos dias depois.

Na campanha a Dilma mentiu tanto insistentemente, tão desfaçatezmente, que não consegue mais falar em publico porque se embrulha nas próprias frases, tropeça na própria alma, Está condenada a carregar o João Santana a tiracolo, como uma bolsa, uma Louis Vuitton da mentira, para ler apenas o que ele escreve. Sem João Santana ela engasga.

E o azar dela é que o João Santana está na Argentina. Mentindo lá.

PIAUÍ

Petrônio falava e o gravador documentava:

– “E quanto ao fato de ser do Piauí, considero um privilégio, porque tenho a impressão de que foi daquela ambiência do lar que tive, da ranzinzice de meu pai, da marginalização do meu povo, que aprendi a ser duro, resistente, tenaz, munindo-me do instrumental indispensável a algumas vitórias que considero etapas normais da vida de quem luta”.

Em um pais tão generosamente grande, onde felizmente todos somos de tantos Estados diferentes (eu sou um múltiplo baiano-mineiro- carioca), ela se perde e perde o afeto de suas gentes que não se identificam com ela. Não pode mais entrar em um restaurante em Minas ou no Rio Grande, com medo de ser vaiada. Tentou misturar-se com os bois de Barretos. Foi pior.

Deus te perdoe teus muitos pecados, Dilma. Sobretudo os da mentira.

LIVRO

(A integra da conversa com Petrônio está em meu livro “Ninguém Me Contou Eu Vi – O Brasil de Getúlio a Dilma” (Editora Geração).

É uma homenagem ao saudoso amigo, que sábado (12-9) faria 90 anos.

Getúlio e Dilma em 24 de agosto

Sebastião Nery

Aquela foi uma noite de cão, o 23 de agosto de 1954. Fez 61 anos domingo. Ninguém me contou. Eu vi, vivi e sofri.

Getúlio encurralado no Catete. Juscelino, generoso, corajoso e solidário, o havia levado a Belo Horizonte no dia 12 para inaugurar a siderúrgica Mannesman. Eu queria ver e ouvir Getúlio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Leu seu discurso com a voz forte, decidida mas tensa. Deixou claro : só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : valente, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Getúlio resolveu dormir em Minas. De manhã, depois do café, Vargas todo arrumado para viajar, com um charuto na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar. A mão miúda, gordinha, fria, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, sorriso contido mas olhar distante, de quem não estava mais ali, perguntava o jornal onde trabalhávamos, de onde éramos.

Em nenhum instante sorriu aberto. Entrou no carro sem olhar para trás, foi para o aeroporto com Juscelino, despediu-se emocionado.

SUICÍDIO

E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as rádios “Nacional”, “Tupi”, “Globo” ficaram de plantão. A “Nacional” era do governo. A “Tupi” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Carlos Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

Recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. Assinou uma licença, deu a caneta a Tancredo , foi deitar-se ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

– “ Licença coisa nenhuma. Ele não voltará ”.

Não voltou. Ficou para sempre. Suicidou-se às 8:30 da manhã.

A CARTA

Passei a madrugada ouvindo as rádios e um pianista cego, no “ Columbia ”, bar restaurante de jornalistas noturnos,na avenida Paraná.

A Carta Testamento começou a ser lida nas rádios. Corri para o palácio da Liberdade, cheio de jornalistas, políticos. Juscelino literalmente arrasado. Nas mãos, enrolada, a Carta Testamento. Pedi uma copia para mim, sai às pressas. A cidade já toda na rua. Armaram um palanque bem ao lado da escadaria da Faculdade de Direito. Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do Partido Comunista, comandavam :

– Na hora em que terminar de ler a Carta, não esqueça de apontar para o Consulado Americano e dizer :

– Quem matou Getúlio está ali! Foi o imperialismo americano!

O Consulado ficava exatamente ao lado da Faculdade, com uma Biblioteca Thomas Jefferson logo na entrada:

E fui lendo pausadamente, comovidamente. Não sei que ator baixou em mim. Não parecia que era eu. Até a voz ficou mais alta, poderosa. A multidão chorava e eu também. As ultimas frases li como se estivesse sobre o túmulo de Vargas. Antes de descer, o fogo já subia. Haviam posto gasolina nas revistas e jornais pendurados nos cavaletes, nos livros dentro das estantes e nas grandes fotografias de Lincoln e Jefferson.

Queimava tudo. Fogo sabe bem inglês.O incêndio do Consulado em Belo Horizonte foi uma das fotos mais impressionantes que correram o mundo no 24 de agosto. As Policias Federal, Militar e Civil avançaram batendo. Houve muita pancadaria. Estudantes e povo apanhamos muito.

MONTANHA

Montanha, um investigador enorme, grandalhão, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e jogou no chão, como um embrulho inútil.

Na outra mão, um revolver grande, preto. Pensei que ele ia atirar:

– Ai, meu Deus! Vou morrer aos 22 anos, como Álvares de Azevedo!

Não atirou. Bateu com o revolver no meu rosto, o sangue esguichou e saiu me arrastando para o carro da policia.Roberto e Dimas pegaram um ano de cadeia. Estudantes que derramaram a gasolina seis meses cada. A Policia acusou minhas frases de serem uma senha. Sem prova me soltaram.

 DILMA

Dom Pedro I, acuado, mandou seu recado : – “ Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico ”. Ficou pouco.

Getúlio, isolado, deu um tiro no peito. Dilma, ainda bem, não dará.

Também, e é uma pena, não sairá. Só agarrada, tirada. Falta arranjar um José Bonifácio para cuidar de Michel Temer até ele crescer.

Os políticos, ontem e hoje

Os deputados não enriqueciam, diz Tourinho

Sebastião Nery

Foi meu colega na saudosa Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas e contemporâneo na Câmara Federal (1975–83 pelo MDB e PMDB mineiro). Agora, Genival Tourinho está escrevendo um livro comparando o estilo de vida dos parlamentares de sua geração com os dos atuais: – “Quanto mais recordo mais fico indignado”.

No meio do mês, era comum que os colegas da Câmara formassem filas em uma agência da Caixa Econômica Federal para pegar um empréstimo para segurar o resto do mês:

– “Nós trocávamos avais. Eu cansei de pedir ao colega Tancredo Neves que fosse meu avalista, E eu o avalizava quando ele precisava.”

Advogado e excelente parlamentar, Genival demonstra que a Câmara nunca foi, ao longo da sua história, um clube de privilégios e mordomias. Quando era no Rio e nos primeiros anos de Brasília, os deputados não tinham gabinetes privativos. Além do subsídio mensal, havia a verba de transporte: 4 passagens aéreas de Brasília até a capital do seu Estado. Tinham direito de contratar 3 funcionários. E o apartamento funcional.

CÂMARA

Tudo mudou a partir de 1991, quando a mesa da Câmara promoveu “reforma administrativa” alargando benefícios que se estendem até hoje. Penduricalhos foram introduzidos com verbas variadas e podendo contratar até 27 funcionários. O estilo da representação mudou e não foi para melhor.

Aprovada a Constituição, o presidente da Câmara Ulysses Guimarães indicou o economista e professor Helio Duque, baiano do PMDB do Paraná, ex-presidente da Comissão de Economia da Câmara e um dos vice-presidentes da Executiva Nacional do PMDB, para integrar a Comissão de Orçamento. Sábio e experiente, Ulysses desconfiava do que acontecia lá.

Helio ficou 15 dias, renunciando e relatando ao presidente da Câmara o que lá ocorria: um grupo de parlamentares era subordinado aos interesses das grandes empreiteiras nacionais. Dois anos depois Helio não era mais deputado e o escândalo dos “Anões do Orçamento” chocou o Brasil, levando à cassação do mandato de vários dos seus membros.

O Mensalão e o Petrolão têm pai e mãe.

BANCOS

No começo do Ajuste Fiscal , o governo petista da Dilma e do Lula anunciou que ia “taxar os lucros dos bancos e financeiras, as grandes fortunas e as heranças”. O tempo foi passando e não se fala mais nisso. Mas o governo não esqueceu de taxar os salários dos trabalhadores, as aposentadorias dos trabalhadores, as pensões dos trabalhadores e aumentar os impostos das pequenas e medias empresas.

Escondido, com vergonha, os jornalões, que pertencem aos bancões, deram a noticia escabrosa: o lucro dos bancos chegou a 46%! Em um pais em recessão, com um “crescimento do PIB abaixo de 0%”, não há noticia mais pornográfica. E o Banco Central, a gorda dona do bordel, aumentou a taxa básica de juros para 14,25%, a maior do mundo, alegando despudoradamente que é para baixar a inflação. E a inflação subindo.

PIRÃO

Os jornalões não se envergonham de defender o ajuste fiscal só contra quem vive de salário ou aposentadoria e contra a indústria e comércio que produzem. Sabem por que? “O “Globo” abriu o jogo:

“O governo vai honrar o acordo feito na Câmara para não impor vetos à desoneração da folha de pagamento de setores da economia acordados com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Na negociação com a Câmara, segundo fontes do Planalto, o governo concordou em manter a desoneração para três setores: call centers, transportes e comunicações”.

Vejam bem que coisa mais sórdida. Aumento de impostos para todo mundo, menos para “comunicações” (jornais, rádios e TVs) , “transportes” (ônibus, metrôs, trens) e “call centers” (centrais telefônicas)

Eles passam dia e noite falando em “liberdade de expressão”, “igualdade de direitos”, “sacrifícios coletivos”. Mas põem a faca na garganta do governo só em defesa dos interesses deles.

Farinha pouca meu pirão primeiro.

BOMBA JUCÁ

O senador Jucá, do PMDB de Roraima, líder da Dilma no primeiro mandato, jogou um bomba no Planalto na “Folha de S. Paulo” de sabado:

1.- “O quadro de uma eventual deposição da presidente da República não está maduro. Ou o governo muda ou o povo muda o governo”.

2.- “Vai piorar. A arrecadação federal está caindo, a atividade econômica está caindo, os Estados estão começando a quebrar, os setores que ainda empregaram no primeiro semestre, como o comércio e serviços, vão desempregar no segundo semestre, com a classe média com risco de desemprego. Então todo mundo vai ser o mais conservador possível.”

3.- “O governo está na UTI. Pelo amor de Deus não racionem o oxigênio porque depois vai morrer e ai não adianta, já passou a hora”.

Minas era diferente

Aparecido, um mineiro inesquecível

Sebastião Nery

Minas não esquece. Minas é boa de lembranças. Livro de mineiro está sempre relembrando. O passado é o adubo da alma. Como em Guimarães Rosa e Pedro Nava. Ou em Drummond. Mais um belo livro de mineiro contando historias de Minas. O jornalista e poeta (luminoso poeta) Petrônio Souza Gonçalves (“Quem soltou a borboleta azul na tarde triste?”) pagou uma divida de Minas. Lançou “José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo”

50% do texto é do Petrônio. Texto leve, livre, solto. Cada frase um fato. Bem editado, bem ilustrado, rico em fotos e testemunhos. Os outros 50% são depoimentos de jornalistas e escritores mineiros sobre Aparecido:

Benito Barreto: -“O Homem e o Amigo”.

José Bento Teixeira de Salles”: “Assim Era Ele”.

Orlando Vaz: – “Articulador Político e Talento Admirável”.

José Augusto Ribeiro: “Dois Raros Momentos da Dupla Jânio-Aparecido”.

Gervásio Horta: ’Poucas e Boas”.

Mauro Werkema: “José de Todos os Amigos”.

Aristóteles Drummond: “O Zé Carioca”.

Guy de Almeida: “Aparecido no DF”.

Angelo Oswaldo: “O Compromisso Cultural de José Aparecido”.

Wilson Figueiredo: – “A Arte de Negociar Divergências”.

Paulo Casé: “Manifesto AAZA”.

Oscar Niemeyer: “JAO”.

Ziraldo: “As Aventuras de José Aparecido”.

Mauro Santayana: “Conversações na Rua Caraça”.

Alberto Pinto Coelho: “Demiurgo das Utopias Realizáveis”.

Silvestre Gorgulho: “Lições e Segredos de Um Mestre”.

E eu: “12 Historias de José Aparecido”.

Por ultimo, o José Maria Rabelo, porque algumas lembranças dele me deixaram a alma dolorida. Em 1950/60 nós éramos jornalistas e ativistas políticos vendo a pátria, o povo, o futuro. Nossos heróis, mesmo quando deles divergíamos, não nos envergonhavam. Hoje, a Operação Lava Jato mostrou uma elite política que afunda no dinheiro, na corrupção.

O José Dirceu, tão preparado e tão guloso,é um desperdício nacional.

JOSÉ MARIA

1.- “A Praça Sete era naqueles tempos, por volta de 1950, o coração político de Belo Horizonte, onde nós, estudantes idealistas, passávamos horas do dia discutindo os problemas daqui e do resto do mundo”.

– “Ao lado de Hélio Pellegrino, Palmius Paixão Carneiro, Fernando Correia Dias, Bernardino Machado de Lima, Wilson Vidigal e outros insensatos salvadores da pátria, todos pertencentes ao antigo Partido Socialista Brasileiro, eu participava ativamente das discussões na praça, não poupando munição contra os adversários: de um lado os integralistas, de outro os comunistas stalinistas. Nós tínhamos a chama da verdade, o socialismo democrático, com a qual iríamos incendiar o planeta”.

– “Um dia, eu estava lá, fazendo minha pregação e distribuindo impropérios à direita e à esquerda. Foi quando um grupo de integralistas se aproximou, com alguns deles passando a insultar-me e ameaçar-me de agressão. Aí surgiu meu futuro amigo, e usando um porrete, que não sei de onde tirara,avançou sobre os provocadores,forçando-os a fugir praça afora”

– “O Zé Aparecido me explicou por que tomara aquela atitude quixotesca, que poderia ter tido outras consequências. Primeiro, porque nunca admitira a ideologia integralista, herdeira do fascismo, de gente como aquela, fanática e totalitária. Segundo, pela iminência de um ato de covardia, diante de seus olhos, com um bando de provocadores lançando-se contra uma pessoa sozinha, unicamente por divergir deles”.

– “A partir daquele episódio, nasceu entre nós uma grande amizade, que se manteria inabalável por mais de meio século, apesar das contingências de tão extensa travessia. Mais tarde, ele foi morar em nossa república, que ficava numa velha casa. Parece-me que hoje tombada pelo patrimônio histórico da capital mineira, no cruzamento das ruas Aimorés e Maranhão, Bairro dos Funcionários. Ali, eu e o Euro Arantes vivíamos e redigimos os primeiros números de nosso jornal “Binômio”.

PETROLÃO

– “Todos levávamos uma vida muito apertada, estudando e ganhando algum dinheiro como jornalistas principiantes. Lembro-me que o Zé Aparecido possuía apenas dois trajes, ou, como se dizia, duas mudas de roupa. Um deles era um terno jaquetão preto, que o acompanhou por longo e longo tempo. De tal forma o jaquetão preto se identificou com o portador, que muita gente achava que ele fazia questão de usar por esquisitice”.

– Nesse tempo, graças a suas relações com a UDN, conseguiu uma cópia do famoso inquérito do Banco do Brasil, revelando uma grossa negociata no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Entre os denunciados, apareciam importantíssimas figuras da República”.

Corrupção sempre houve. Mas o petrolão e o PT são incomparáveis.

A Catta Preta e os Capas Pretas

Ortolani queria fugir para o Brasil

Sebastião Nery

Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da “Blackfriars Bridge” (“a Ponte dos Irmãos Negros”), o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar, e tinha como diretores o cardeal Marcinkus, o conde Umberto Ortolani e o chefe da P-2 italiana (maçonaria), Licio Gelli.

Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados vários outros ligados a Calvi. Não é só em Santo André que se limpa a área. No meio da confusão estava Ortolani, um dos quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Quando, a partir de 1990, a “Operação Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia :

– Isso não vai acabar bem.

O ministério Publico e a Justiça enfrentaram a aliança, que vinha desde 1945, no fim da guerra, entre a Democracia Cristã e a Máfia italiana. Houve centenas de prisões, suicídios. Nunca antes a máfia tinha sido tão encurralada. Responderam com bombas detonando carros de procuradores e juizes. Os grandes partidos aliados (Democrata Cristão, Socialista, Liberal) explodiram. O Partido Comunista, conivente, desintegrou-se. E meu amigo conde, condenado a 19 anos, morreu em 2002, aos 90 anos.

MÃOS LIMPAS

A “Operação Mãos Limpas” não teria havido se um punhado de bravos jovens valentes e alucinados, das Brigadas Vermelhas e dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), não tivesse enfrentado o Estado mafioso. O governo, desmoralizado, usava a Máfia para eliminá-los. Eles reagiam,houve mortos de lado a lado e prisões dos lideres intelectuais, como o filósofo De Negri (asilado na França) e o romancista Cesare Battisti, asilado no Brasil. Eu estava lá, era Adido Cultural, vi tudo, escrevi.

Foram eles, os jovens rebeldes das décadas de 70 a 90, que começaram a salvar a Itália. Se não se levantassem de armas na mão, a aliança Democracia Cristã, Partido Socialista, Liberais e Máfia estariam lá até hoje. Berlusconi foi o feto podre que restou, mas logo foi expelido.

O juiz Falcone (assassinado) e o procurador Pietro (hoje no Senado) comandaram a “Operação Mãos Limpas”. Foram o juiz Sergio Moro de lá.

O CONDE

O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 90 e 91. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata. Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim pobre marquês, adido cultural.

Íamos a discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em Grottaferrata, a poucos quilômetros de Roma. Simpático, vivido, o conde Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o jornal “La Republica”). Mal falava, só perguntava.

Dele eu sabia que era conde da Santa Sé,“gentiluomo di sua Santitá”, banqueiro do Vaticano, sócio-diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Eu o havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 1984, apresentado pelo jornalista José Nêumanne, do “Estado de S. Paulo”.

A MAFIA

O que ele queria de mim? Queria que eu convencesse o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois passaportes que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.

Levou-me a seu escritório na Via Condotti 9, em cima da “Bulgari” :

– Desta sala saíram sete primeiros-ministros : Andreotti, Craxi, etc. O conde era a historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, daquele cardeal Marcinkus até hoje foragido nos Estados Unidos. Há um livro imperdível : “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco Ambrosiano”), do jornalista italiano Ferruccio Pinotti, abrindo as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro com governos, partidos. No “Globo”, o lúcido Merval Pereira denuncia a “lógica da gangue”:

– “Os advogados do empresário Julio Camargo, Figueiredo Basto e Adriano Breta, dizem que Eduardo Cunha está agindo com a lógica da gangue. Acusam Cunha de agir “astuciosamente” para desacreditar os depoimentos do delator (Camargo). Para eles está em vigor a moral da gangue, que acredita triunfar pela vingança, intimidação e corrupção”.

O “BAGUNÇA”

Em Caxias, no Estado Rio, há um restaurante chamado “Bagunça”. É do deputado do PMDB Celso Pansera, que persegue a brava advogada Beatriz Catta Preta na CPI da Petrobrás: Capas Pretas contra a Catta Preta.

O dono da oca

Juruna com seu gravador, dando entrevista

Sebastião Nery

Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças,estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que em Brasília “governo de branco mente”.

Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que levasse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysaneas Maciel e a mim para recebermos o cacique no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, em Copacabana, onde Brizola e Darcy nos esperavam. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado… Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando solene para Brizola.

Darcy disse a Brizola que ele não se sentou porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele sentou-se. Brizola pensou em lançá-lo para o Senado, lançou para deputado, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

Quando saímos do apartamento de Brizola para levar Juruna a um pequeno hotel em Copacabana, perguntei ao cacique porque ele não se sentou ao chegar à casa de Brizola.

– É a lei.

E nada mais disse. Pela lei do índio quem manda é o dono da oca.

SUPREMO

No Brasil, nos países democráticos, a “oca” é o Supremo Tribunal. O STF é a lei. Até chegar a ele, a sociedade tem numerosos degraus legais: delegados, procuradores, juízes, tribunais intermediários. Mas só o Supremo manda sentar-se e levantar-se, dá a palavra final.

Aquelas 11 togas ali sentadas é que abençoam ou amaldiçoam uma lei. Elas são a voz, a garganta da Constituição. Há meses o bravo e sereno juiz Sergio Moro, o hábil procurador Janot, a Policia Federal dão ao pais o magnífico exemplo de cumprimento do dever conduzindo a Operação Lava Jato. Agora, chegará tudo ao Supremo. Ele vai comandar a lavagem final.

Com a palavra os donos da oca.

HISTÓRIA

O professor e ex-deputado Helio Duque, sempre patrioticamente atento ao que acontece no pais, relembra a historia do Supremo:

– D. João VI, em 1808, desembarcou com sua comitiva real no Rio de Janeiro e imediatamente instalou o principal órgão da Justiça Nacional: a Casa de Suplicação do Brasil. Em Portugal, a corte suprema tinha o nome de Casa da Suplicação. Essa é a origem histórica do STF (Supremo Tribunal Federal). Uma casa de Suplicações ou de Suplícios?

– No Império e na República o Supremo sempre foi o guardião da Constituição, mas nas ditaduras o perfil da Corte sofreu reveses. Em 1968, com o AI-5, foram cassados os ministros Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Em reação à violência, os ministros Gonçalves de Oliveira, presidente do STF, e Antonio Carlos Lafayette de Andrada renunciaram em solidariedade aos ministros vítimas da violência.

– No governo Castelo Branco, o ministro Ribeiro da Costa, presidente do STF, advertia: “Pretende-se atualmente fazer com que o Supremo dê a impressão de ser composto por onze carneiros que expressam debilidade moral, fraqueza e submissão.”

SARNEY

Vozes cavernosas e de um passado triste já começam a desavergonhadamente se manifestar. O notório José Sarney, que sempre sabe do que e por que está com medo, acusa:

“O Sergio Moro sequestrou a Constituição e o país. O Supremo Tribunal Federal não pode se apequenar”.

Em artigo o juiz sugere que Sarney é mafioso: “Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é aparentemente favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas”.

NO MUNDO

A duração dos mandatos varia de pais para pais. No Brasil, agora, os ministros dos tribunais superiores têm mandato até os 75 anos, como os demais servidores públicos. Na Alemanha, no Tribunal Constitucional, os ministros têm mandato de 12 anos. Na França, 9 anos. Na Itália, também 9 anos, como na Espanha. À exceção dos EUA e outros poucos, são raros os mandatos vitalícios.

A “vanguarda do atraso” (como o saudoso Fernando Lyra chamava Sarney) vem conspirando para derrubar, nos tribunais, a “Operação Lava Jato”, acreditando que a vitaliciedade poderá ser uma aliada na impunidade geral e irrestrita dos delinquentes.

A oca vai dizer se os tempos mudaram no Brasil.

O cabaré do dinheiro

Sebastião Nery

Em Alegrete, que os gaúchos chamam de “a Londres Gaúcha” e por isso foi apelidada de “Alegraite”, havia um famoso cabaré: o “Lulu dos Caçadores”. Toda noite tinha briga. Ia tudo calmo, tudo alegre, mas quando dava duas horas da manhã era batata. A briga estourava.

Oswaldo Aranha, muito jovem, foi ser prefeito de Alegrete. Sabia do “Lulu dos Caçadores”, sabia das brigas. Uma noite, apareceu lá, tomou um uísque, saiu ás três da manhã, não houve briga nenhuma. Gostou, no dia seguinte estava lá de novo. E no outro, no outro. As brigas acabaram.

No quinto dia, quando Oswaldo Aranha entrou, pendurada na parede do cabaré, estava uma faixa grande:

– “Dr. Oswaldo Aranha, acabaram-se as considerações”.

Às duas da manhã, o pau quebrou.

LEVY

Quando o doutor Joaquim Levy chegou, convocado pela Dilma para organizar o cabaré das finanças nacionais, que está uma zorra total, ele pediu a compreensão e contribuição do país inteiro, porque seriam necessários sacrifícios de todos, ricos e pobres, para o pais sair do buraco.

A maioria da Nação o apoiou e aplaudiu. Mas os dias foram passando e ele aos poucos deixando descoberto seu jogo alemão de Angela Merkel dos pobres: cortar salários, pensões, aposentadorias, aumentar impostos de pequenas e médias empresas, perdoando as grandes, para garantir o pagamento dos escorchantes juros dos banqueiros e de velhas e escabrosas dividas ao FMI (Fundo Monetário) e ao BC (Banco Central).

Está correto o desafio do bravo professor Vladimir Safatle (Folha): – “Se ele (Joaquim Levy) realmente quisesse tratar educação nacional como prioridade poderia lutar por criar um imposto, vinculado exclusivamente à educação, sobre os lucros bancários estratosféricos, sobre grandes fortunas, sobre heranças ou sobre transações bancárias”.

No cabaré do dinheiro o banqueiro sacode a pança e o povo “dança”.

JUSTIÇA SOCIAL

O governo diz que faz “justiça social” com a Bolsa Família. É o mínimo que uma sociedade alarmantemente injusta devia fazer. Vejam os números:

1.- Para 2015, o custo da Bolsa Família será de R$ 27,1 bilhões. Já a “Bolsa Banqueiro”, com a taxa de juros Selic em 13,75%, custará R$ 420 bilhões, decorrente da dívida pública federal de R$ 2,5 trilhões. Por mês o sistema financeiro receberá, como remuneração dos juros, R$35 bilhões. O custo da Bolsa Família em relação ao PIB é de 0,45% e a “Bolsa Banqueiro” é de 6,3%. Em 23 dias (valor diário de R$ 1.166 bilhão) os bancos receberão de juros o valor anual destinado à Bolsa Família.

2.- E o mais dramático: para os anos de 2016/18, as despesas com juros serão ainda maiores, ante a projeção da dívida pública atingir 70% do PIB. É fundamental entender que a sociedade brasileira é desigual e concentradora da renda. Quem constata é o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no último censo, demonstrando que os assalariados que ganham até 10 salários mínimos correspondem a 3,1% da população. Acima de 10 mínimos, o número é inacreditável: 0,9% dos brasileiros. Somos um País onde os 10%mais ricos acumulam 90% da riqueza nacional.

3.- No Brasil, México, Chile, Estados Unidos e outros países foram criados projetos destinados a garantir o direito de se alimentar a milhões de famílias. A “Comunidade Solidária”, nascida no governo Fernando Henrique, foi o início no Brasil. Nos EUA, a partir de Nova York, foi criado o “Oportunity” para combater a miséria .No México, o programa tem o nome de “Progressa” e atende a 10 milhões de famílias. No Chile, chama-se “Solidário” e atende a quase 1 milhão de domicílios. Todos focalizam os mais pobres, sendo claramente de assistência social.

4.- O PT e os seus candidatos vêm fazendo da Bolsa Família um notável cabo eleitoral em todo o País, principalmente nas regiões norte e nordeste. Na última eleição, a candidata Dilma obteve no Maranhão uma diferença de 3,8 milhões de votos sobre Aécio Neves, anulando a diferença obtida pelo concorrente nos três Estados do Sul (RS, SC, PR). No Ceará, Bahia, Minas, Rio de Janeiro e Piauí, não foi diferente. O grande cabo eleitoral foi a “Bolsa Família”. O PT acusa que se o adversário ganhar irá extinguir o programa. Isso é terrorismo do Estado Islâmico. Como enfrentar a chantagem? A oposição deveria definir o Bolsa Família como política de Estado. Combater a desigualdade é missão estatal, das Nações.

O PT literalmente bateu a carteira da Bolsa Família.