A vingança da floresta caiu sobre Santana e Lula

Charge do Ique (www.ique.com.br )

Sebastião Nery

Gilberto Amado, deputado federal de Sergipe de 1915 a 1917 e de 1921 a 1926, senador de 1927 a 1930 , em 1934 queria ser governador. Já escritor famoso, honra e glória de sua gente, decidiu governá-la. A eleição era indireta, pela Assembleia, comandada pelo Catete.Foi a Getúlio:

– Presidente, quero ser governador de Sergipe.

– Por que, Gilberto?

– Porque quero. É a hora.

– Mas, Gilberto, você um homem tão grande, ser governador de um Estado tão pequeno?

– Quero dirigir minha tribo. Isto é fundamental para minha vida.

– Ora, Gilberto, conheço você muito bem. Esta não é a verdadeira razão. Não pode ser. Governar por governar, isso não existe para um homem de seu tamanho, da sua grandeza.

Gilberto Amado sentiu que era preciso apelar. Apelou:

– Pois o senhor quer que eu diga mesmo? Quero ser governador para roubar, roubar, roubar, do primeiro ao último dia. Roubar desesperadamente.

Getúlio ficou perplexo, deu uma gargalhada. Gilberto já estava de pé, andando de um lado para o outro, as mãos para o alto, os olhos incendiados:

– Isto mesmo, Presidente. Roubar, roubar, roubar!

Gilberto Amado não ganhou Sergipe. Mas Getúlio ficou tão encantado que o nomeou embaixador no Chile e Roma até 1942, depois representante permanente do Brasil na ONU. Tudo que ele queria.

MARINA

Quem conhece a Amazônia sabe que os deuses da floresta são implacáveis. Não se pisa em pescoço de preso. Mas o que o marqueteiro do PT, João Santana, e a Dilma fizeram nas eleições com a índia Marina Silva e o governador Eduardo Campos para “desconstruí-los” (no Houaiss, “destruí-los”) é quase o que o “Estado Islâmico” faz. É a maldade babante.

O olho de peixe do Santana e o chiclete da Monica são um retrato do cinismo levado ao extremo. Ele diz que não sabe quem depositou 7,5 milhões de dólares em sua conta. Ela, que cuida das contas, também não.

O que Lula, Dilma, Santana, Monica, sabem? Alô, Gilberto Amado!

LULA

Quando Lula teve sua bela vitória em 2002, o país o elegeu vendo no PT uma estrela de novos tempos, uma mensagem de ética na vida publica. Mas minha mãe adivinhou. Ela passeava com meu filho ao lado da Igreja de nossa querida cidade de Jaguaquara, na Bahia, e ele pintou o nome de Lula no longo muro branco. Depois ele pediu:

– Minha avó, vou fazer uma foto sua com o Lula.

No infinito de sua sabedoria, ela respondeu.

– Meu filho, estou com o nome, mas não estou com o homem.

Como na ironia de Gilberto Amado, esta é a dolorosa decepção que o Brasil tem hoje: o PT, que parecia ter vindo para salvar, veio para roubar.

SUPREMO

1- O jurista e professor Ives Gandra Martins publicou na “Folha de São Paulo” um artigo arrasador : “O Supremo Constituinte”. Denunciou : -“Subordinar a Casa do Povo (a Câmara) à Casa do Poder (o Senado) tornando-a uma Casa Legislativa de menor importância, como fez o Supremo Tribunal, é subverter por inteiro o Estado democrático de Direito, onde a Câmara, que tem 100% da representação popular, resta sujeita ao Senado, em que os eleitores escolhem um ou dois nomes pré-estabelecidos e que, indiscutivelmente, traz a marca de origem de ter sido a instituição que garantiu a escravidão americana por 80 nos”.

2- Absurdamente, a Câmara dos Deputados teve as suas prerrogativas constitucionais limitadas pelo ministro Luis Roberto Barroso, o “Barrosinho”, do STF. O Regimento interno, aprovado em 1989, foi adulterado pelo inacreditável parecer. E apoiado por 8 ministros enterrando o parecer jurídico do ministro Edson Fachin sobre o rito do impeachment.

3- Com indiscutível vocação pública, o advogado e constituinte Oswaldo Macedo alerta para o fato de o STF ignorar o artigo 86 da Constituição: “Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade”. O ministro Barroso, a um só tempo, ignorou a Constituição e o Regimento interno da Câmara dos Deputados, decretando que o rito do impeachment na escolha dos integrantes da Comissão Especial, ao invés do voto secreto dos parlamentares, deve ser indicação dos líderes partidários.

4- O barrento ministro delegou ao Senado a palavra final sobre o rito do impeachment, transformando a Câmara em órgão subsidiário do Senado, hierarquizando a Câmara em função subalterna, como no “pacote de Abril” de 1977, no governo Geisel, que criou os “senadores biônicos”.

Vai custar demais ao país a nomeação de cada ministro do STF.

Moro acertou no queixo de Santana, o Tio Patinhas

O ditado diz que dinheiro tem coração de coelho e patas de lebre

Sebastião Nery

O marqueteiro do PT e de Dilma Rousseff, João Santana, com seus fluidos olhos de peixe, que vende faturas políticas a partir da sinistra e amoral teoria de que “em eleição vale tudo”, imaginou que iria intimidar e atropelar o tranquilo e bravo juiz Sergio Moro, como já fez com frágeis candidatos em outras campanhas. Recebeu de Moro a sutil resposta:

– “Foram instauradas investigações que ainda tramitam em sigilo. Medida como rastreamento financeiro demanda para sua eficácia sigilo sob risco de dissipação dos registros ou dos ativos. Como diz o ditado, dinheiro tem coração de coelho e patas de lebre”…

Agora, Moro acertou no queixo do marqueteiro. Na Bahia o nome de João Santana é “Tio Patinhas”

O MUSEU DO HOMEM

A Turquia não é um país. É um mapa. É o único país do mundo que já teve 12 capitais: Troia, Hattusa, Xanthos, Sardes, Pergamo, Amaseia, Bizâncio, Constantinopla, Bursa, Edirne, Istambul e Ancara hoje. De belos e estranhos nomes, viveram desde o começo dos tempos naqueles 780 mil km2, com hoje 65 milhões de habitantes. São uma enciclopédia da humanidade, herança de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Ali há marcas do homem 100 mil anos antes de Cristo. .

A Turquia é “o maior museu a céu aberto do mundo”. Cada cidade um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações. Toda a história antiga girou em torno de brutais batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, nos estreitos de Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bosforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. Toda ela é patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Ali a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou marcas e garras, a Mesopotâmia virou Europa, o Cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio e viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Ali a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria. Ali nasceram Homero o poeta, São Paulo o jornalista, Teles de Mileto, Pitágoras, Anaxímenes, Anaximandro, Ali ensinaram Platão e Apelikon. Ali Hipódromos criou o urbanismo. Ali se fez a primeira Escola de Escultura. Ali Cleópatra e Marco Antonio se amaram.

Quando Noé ancorou sua arca foi ali, no monte Ararat (5.165 metros). O Tigre e o Eufrates são dali. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso estão (estavam) ali. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para lá e lá morreram. São Pedro falou ali, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, ali. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, pelos da barba, dente e pegadas de Maomé estão ali. Ali houve uma biblioteca de 200 mil volumes, antes de Cristo, a mais importante do Império Romano.

O terrorismo sangra a Turquia porque ela é o rosto da humanidade.

PRÊMIO NOBEL

Com imenso atraso, mas ainda em tempo, academias e acadêmicos, poetas e escritores brasileiros e gentes d’além mar lançam o nome da suave e brilhante Lygia Fagundes Telles para o Prêmio Nobel de Literatura.

Não sei se a gélida Fundação Nobel vai perceber que já premiou gente talentosa mas com menos talento que a genial escritora paulista, que há décadas faz literatura de qualidade incomparável. Lygia nos presenteou com obras monumentais: “Ciranda de Pedra” (1954), “Antes do Baile Verde” (1969), “As Horas Nuas” (1989) e outras já consagradas entre o que há de melhor na literatura em língua portuguesa. Quando entrou na Academia Brasileira de Letras, Lygia já era imortal ha muito tempo.

Conheci Lygia nos anos 50, então casada com outro monumento da cultura nacional, o jurista Goffredo da Silva Teles. Impossível saber o que é mais belo, se a literatura que ela produz ou ela mesma. Passado meio século, Lygia envelheceu linda, nobre, bela, simples, vitoriosa.

Seria uma boa oportunidade de os frios suecos quitarem uma dívida com o Brasil. Eles já nos calotearam em casos históricos: em cientistas como César Lattes e Miguel Nicolelis, escritores como Jorge Amado e Guimarães Rosa, nosso monumental Carlos Drummond de Andrade, e os Nobel da Paz merecidos e jamais concedidos aos irmãos Villas-Boas, os maiores sertanistas de todos os tempos; o marechal Cândido Rondon, um arauto da paz; o inesquecível Dom Hélder Câmara (com veto da ditadura militar através do Itamaraty, agora revelado em documentos históricos e vergonhosos); nossa santa Irmã Dulce da Bahia; o incomparável humanista Paiva Netto, líder da aguerrida LBV, distribuindo fraternidade e salvando milhões de brasileiros longe dos holofotes da mídia e dos cofres públicos; os educadores Paulo Freire e Anísio Teixeira e o professor Josué de Castro, brasileiros celebrados nos cinco continentes.

Que o Senhor do Bonfim impeça a Lygia de entrar para essa absurda galeria de injustiças.

Surge nos Estados Unidos um velho Kennedy?

Sanders é uma espécie de Kennedy de cabelos brancos

Sebastião Nery

Éramos como três adolescentes em férias, terminado o longo Congresso Internacional de Municípios em San Diego, na Califórnia, em 1960, que durou mais de duas semanas: o deputado baiano Valter Lomanto, o simpático e mais velho secretário de Saúde de Recife, João Ferreira Filho. Alugamos um carro e saímos por aí, até São Francisco.

Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista como eu, que me convidou para ser hóspede de sua cidade por uma semana e ver o que só conhecia do cinema de Hollywood.

Vavá e Ferreira também toparam a viagem toda na hora. E ainda fiz um charme. Convidei minha bela amiga Mara, já mais do que amiga, jornalista da Guatemala, cara, cabelos e grandes olhos aveludados de índia, como um desenho de Paul Gauguin, que ia voltar exatamente para lá, onde estava a representação do seu jornal e revista da Guatemala e ela morava.

O Impala Rabo de Peixe, amarelinho, capota conversível, alugado pelos três, dava perfeito para os quatro: Vavá e Ferreira dirigindo na frente, eu e a Mara namorando atrás. Rodamos a Califórnia por um mês, das praias geladas do Pacífico até a Serra Nevada, as divinas pontes de São Francisco.

Em Los Angeles liguei para meu anfitrião. Ele estava eufórico:

– Jornalista precisa mesmo ter estrela. Hoje à tarde vamos encontrar o futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Daqui a pouco estarei aí para pegá-los para o almoço e depois levá-los ao grande comício.

Exatamente naquele dia Kennedy abria sua campanha na Califórnia. Almoçamos com vinhos da Califórnia (“Sebastien” e “Augustus”) e quando chegamos ao hotel onde seria o comício ,pequena multidão já enchia as ruas próximas desde cedo. Na frente do hotel, um palanque e, tocando guitarra e pulando, um rapaz muito branco, pálido, cabelos bem pretos até a testa, arrebatava os ouvintes com seu rock meio alucinado: era Elvis Presley.

No fim da tarde, jovem, alto, flor no paletó, Kennedy subiu correndo a escada para o palco. Só quase madrugada o prefeito de Los Angeles nos apresentou para umas poucas palavras. Mas deu para ver e sentir bem, no discurso e naqueles poucos minutos, que havia “uma força estranha no ar”.

No hotel, escrevi que ele ia ganhar. Derrotou Nixon por 1%.

SAMUEL

Uma semana em Los Angeles, conversando com jornalistas e políticos, a maioria evidentemente suspeita porque do Partido Democrata, deu para sair de lá convencido de que havia alguma coisa errada na imprensa americana e também na brasileira, que já davam Nixon, vice de Eisenhower, como eleito. A Mara morava e trabalhava lá há muito tempo e tinha um grande circulo de amigos jornalistas europeus, latino-americanos e da América Central. A maioria achava que Nixon ganharia.

Em São Francisco, vimos outro comício de Kennedy. A mesma competência de comunicação, o sorriso aberto, as frases curtas e fortes e como sempre a promessa de que era preciso mudar. A cada dia a convicção aumentava. Nixon era o candidato oficial, mas quem falava ao povo era Kennedy. E a imprensa, a americana e a nossa, insistindo em Nixon.

Anos depois, o saudoso Samuel Wainer me disse em São Paulo:

-Você escreveu aquilo como em um cassino de Las Vegas. Arriscou e acertou. Naquela hora sua certeza não se justificava. O José Guilherme (Mendes, mineiro correspondente da “Última Hora” nos Estados Unidos), me disse que você ficou envolvido pelo rock de Elvis Presley.

Mas, com Elvis ou sem Elvis, quem ganhou foi Kennedy.

SANDERS

Fiquem de olho nesse Bernie Sanders. Não tem o charme e a força de Kennedy. Mas fala para os jovens, os negros, os imigrantes marginalizados, os explorados pelos banqueiros, o que o povo americano quer ouvir. Se a Hillary continuar insistindo nas mesmas velhas teses que a derrotaram para Obama, poderão ter um novo Kennedy, e socialdemocrata, de 74 anos.

AEDES CORRUPTUS

O “rombo do caixa” da Petrobrás foi ainda 10 vezes maior do que o “roubo do caixa” investigado pela Operação Lava Jato. A causa determinante da crise que vive a estatal, envolvendo grandes empresas, diretores delinquentes, funcionários graduados e políticos corruptos não é apenas a petro-roubalheira que representa R$ 6 bilhões. Há mais R$ 44 bilhões de projetos superfaturados, desviados pelo cartel das empreiteiras e outros fornecedores que ”roubaram” a Petrobrás por uma década.

A situação dramática em que está atolada veio a partir de 2003, com o aparelhamento partidário da diretoria e do Conselho de Administração presidido 7 anos por Dilma. Lula protege Dilma, Dilma defende Lula. O rombo do caixa” é o principal responsável pelo endividamento que hoje representa R$ 520 bilhões, sendo a empresa mais endividada do mundo.

Pior do que o “Aedes Aegipti” é o “Aedes Corruptus”. Para livrar-nos do “aedes corruptus”, vamos ter que tolerar o PT mais de dois anos. Dose!

O porre de Gallotti e a compra da Light

Gallotti corrompeu o governo Geisel em 79

Sebastião Nery

Era meia noite de um fim de semana de 1979. O restaurante Antonio’s, varanda lírica da República do Leblon, no Rio de Janeiro, começava seu fim de noite. Nas mesas, os profissionais da madrugada penduravam esperanças e desencantos nas beiras dos copos.

Um conversar silencioso e humilde, como do feitio dos calejados. Cada grupo em sua mesa, como monges de uma missa noturna. De repente, o tufão. A porta se abre forte e aparece, cabelos brancos displicentemente penteados, rosto queimado de sol, terno azul sem gravata, Antonio Gallotti. Foi como se Napoleão entrasse em um bistrô de Paris, mal chegando da conquista do Egito. O restaurante explodiu numa salva de palmas, calorosa, continuada, visivelmente sarcástica. Alguém gritou:

– Apaguem-se as luzes! Não precisa mais! A luz chegou!

Tarso de Castro comandou:

– Ótimo. Todas as contas pagas!

Paulo Casé, desconsolado:

– Que pena! Eu tinha acabado de pagar a conta.

Gallotti faz um gesto amplo com a mão direita, cumprimenta-nos a todos e senta-se à mesa de Miguel Lins, Mauro Salles e Otto Lara Rezende. Estava visivelmente excitado, como quem tivesse ganho na Loteria.

Tirei um pequeno bloco do bolso, a caneta, e, discretamente, atrás da garrafa de vinho, fui anotando tudo que ouvia. Otto Lara e Mauro Salles falavam baixo. Miguel Lins, sorvendo seu charuto, celestialmente, quase em transe, mal falava. Só Gallotti, com sua voz anasalada, seu sotaque de tenor italiano,“allegro, allegríssimo”, falava. Alguém pergunta:

– Como é que foi?

– No dia 12 de julho, mergulhei. Quando voltei à tona, o negócio estava garantido. Aí, viajei. Não fui morto pelos acionistas de lá porque fugi. Cheguei aqui, todo mundo contra mim.

Alguém interrompe:

– Volta, Gallotti!

– Não ganhei nada na transação. Não ganhei zero da Light. Tive só 39 da Brascan (Imaginei 39 milhões de dólares – SN).Gosto de ganhar dinheiro. Quero ganhar dinheiro. Mas, sobretudo, quero morar na glória dos amigos. Às vezes, fico pensando e na minha insensatez me digo: “Que besteira que eu fiz! Melhor, só para os acionistas da Light.”

E dá uma gargalhada nervosa, estrepitosa, delirante, quase histérica.

(E foi assim que o Brasil “comprou” de novo a Light já nossa).

O CHÔRO

Galotti pára, cala, baixa os olhos, como se estivesse triste. Alguém levanta um brinde “à vitória do negócio”. E ele atrás dos óculos de aro preto:

– Agora, vou dizer uma coisa a vocês. A vitória não foi só minha. Tive companheiros dedicados, tive juristas, tive muita gente importante a meu lado. Mas que foi bonito, foi. Foi ou não foi bonito? Foi maravilhoso! Eu estou emocionado! Eu estou chorando! Tô chorando! Me dá um lenço que eu vou chorar! Me dá teu lenço, Mauro, para eu enxugar minhas lágrimas! Eu chorei! Como no samba, eu chorei!

E as lágrimas lhe rolaram rosto abaixo, indisfarçadas. A mesa ficou tensa, calada. Gallotti, quase soluçando, tenta consertar a emoção.

Rubem Braga levanta-se, dá um abraço em Otto e lhe diz ao ouvido:

– O Sebastião Nery está anotando tudo ai atrás.

Otto olha para trás, me vê, passa as mãos pela cabeça branca, e suspira. Miguel Lins sente alguma coisa no ar, diz a Gallotti:

– Fale baixo, estão ouvindo sua conversa.

Chico Buarque levanta-se, vai saindo, Miguel Lins chama-o:

– Antonio, você conhece o Chico?

– Muito prazer, meu filho. Você ainda é muito mais charmoso pessoalmente do que nas fotos.

Chico sorri seu sorriso discreto, Gallotti insiste:

– Você sabe quem eu sou?

– Sei sim. O senhor não é o homem da história mal contada?

E sai. A mesa fica gelada. Rubem Braga vai saindo também, seu passo manso, o olhar sábio de caçador de instantes.

– Rubem, um abraço.

– Um abraço. Saibam vocês que, haja o que houver, estou neutro.

E sai. Uma mesa começa a cantar com a música do Flamengo:

– “Gallotti, Gallotti, tua glória é lucrar!/ Gallotti, Gallotti, campeão de faturar!”

Ele fala com Norma Benguel. Ela ironiza:

– O senhor é português? Tem um sotaque multinacional.

Ele volta para meu lado:

– Nery, você sabe quem eu sou?

– Claro, doutor Galotti.O senhor é a luz que ilumina o triste fim do governo Geisel.

– Não é nada disso, Nery. Leio você todos os dias, na Tribuna, conheço seus livros, vejo você todos os dias na TV Bandeirantes. Não sei se gosto mais de seu estilo, de seu talento ou de seu patriotismo. Mas confesso que às vezes me assusto com sua maledicência.

(Essa é a diferença entre a ditadura e a democracia. Depois da negociata Galotti foi para o bar. Os empreiteiros vão para a cadeia).

Cachaça não é água, não

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Lula está mais devagar e só bebe socialmente…

Sebastião Nery

O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um seminário trabalhista nacional com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia e destacadas lideranças sindicais.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador gaúcho, Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que saíra do exílio no Uruguai e articulava sua volta em Portugal.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados e Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nascia o PT, marco da historia política brasileira. Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma já rouco de falar Lula pediu:

– Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

MARCHINHA DO LULA

Em tempos de Carnaval, a marchinha é inesquecível:

– “Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não./ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão”.

Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sitio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex de Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira lá foi ele, quem construiu as suítes lá foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a Madrinha Odebrecht, a Titia OAS, o Vovô Teixeira.

ADVOGADOS FATUREIROS

Mais uma voz honrada da advocacia brasileira se levanta para protestar contra o esdrúxulo manifesto dos leguleios que, incapazes de defenderem seus clientes presos nos escândalos do Mensalão e Lava Jato, agridem o bravo juiz Sergio Moro, que vale mais do que todos eles juntos.

Em Curitiba, o mestre, advogado e escritor Antonio Carlos Ferreira publicou na “Gazeta do Povo” uma resposta acachapante aos fatureiros:

1- “A argumentação claudicante do manifesto contra a Lava Jato divulgado dias atrás não tenta atingir somente a honra do magistrado Sérgio Moro, como também a dos tribunais que referendam e referendaram continuamente suas decisões fundamentais. Se algo houvesse de errado, certamente estas seriam reformadas. Os habeas corpus têm sido julgados no Supremo Tribunal e indeferidos.Não existe a mínima condição de se imputar atos inconstitucionais ao magistrado, que respeita a lei, a ordem e os direitos individuais de quem está preso ou em prisão domiciliar”.

2 – “O manifesto ensejará um desastre à classe dos advogados perante a população farta de tanta corrupção, e o tiro sairá pela culatra. Os acusados são meros traidores da pátria, pois se locupletam com dinheiro público e não podem ficar impunes. Aqui não é o advogado que fala, mas o brasileiro farto de tantas mediocridades. Eles não representam a classe dos advogados, que são milhares a lutar pelo seu dia a dia e não são filiados a partidos políticos, ao contrário de muitos que firmaram o manifesto, isso quando não partilham de ideologias estranhas, ou então estão a justificar a condenação de seus clientes, pois muitos fazem parte da defesa de construtoras e construtores que se locupletaram”.

3 – “A argumentação do manifesto é falha, pois falta com a verdade. E, se todo juiz ou causídico é exgeta à força, como diz Carlos Maximiliano, o saber argumentar é que lhe dá expressão ao raciocínio”.e

O Samba do Advogado Doido

Técio desrespeitou a linhagem dos Lins e Silva

Sebastião Nery

RIO – Em 12 de dezembro de 1964, o “Correio da Manhã” publicou: – “Justiça Reintegra Cassados na Bahia” – “O Tribunal de Justiça da Bahia concedeu por unanimidade mandado de segurança a Ênio Mendes e Sebastião Nery, para que regressem aos mandatos de deputados. Tiveram os mandatos cassados por determinação do comando da 6ª Região Militar”.

“O deputado Orlando Spínola, presidente da Assembleia, foi chamado à 6º Região e ouviu do general João Costa que os deputados Ênio Mendes e Sebastião Nery não podem reassumir seus mandatos, “pois foram cassados pela Revolução, cujos atos só podem ser julgados pela história”.

“Era a primeira vez, desde o golpe de 31 de março, que um Tribunal do pais anulava um “ato revolucionário” e por unanimidade. O relator foi seu presidente, o desembargador Renato Mesquita, antigo líder integralista, homem integro e respeitado em todo o Estado. Os advogados eram os consagrados professores Josafá Marinho e Milton Tavares”.

Depois de vários meses preso em três quartéis (Barbalho, na verdade um campo de concentração, Mont Serrat e 19º BC), sem uma só acusação séria contra mim, foram obrigados a me soltar. Mas avisaram:

– “O senhor está proibido de sair de Salvador e toda semana deverá comparecer ao quartel da Marinha, em Amaralina. Se recorrer à justiça para voltar à Assembleia, será preso novamente”.

Desafiei-os. Recorri ao Tribunal de Justiça. Sabia que eles jamais deixariam a Assembleia cumprir a decisão judicial. Quando o Tribunal decidiu, a Auditoria Militar decretou novamente minha prisão.

Deram batidas em todo canto e não me encontraram. E pior: cercaram a Assembleia, humilhando os acovardados deputados.

Em 13 de dezembro, o “Correio da Manhã” continuava:

– “Bahia: – Comando Veta Posse de Deputados” – “O Comandante da 6ª Região Militar reafirmou ontem que os deputados Sebastião Nery e Ênio Mendes, beneficiados com mandado de segurança concedido unanimemente pelo Tribunal de Justiça, “não podem reassumir seus mandatos e a decisão do Tribunal não pode ser cumprida”.

Na ditadura era assim. Hoje, o leviano presidente do IAB (Instituto dos Advogados do Brasil) diz que “a Lava Jato é pior do que na ditadura”.

FERNANDO LEITE MENDES

No dia 17, o “Correio” trazia manchete de primeira página: – “Deputados Baianos Cassados Novamente”.

– “O fundamento da nova formula foi “falta de decoro parlamentar”, “não no sentido moral, como explicou ao “Correio da Manhã” o deputado Orlando Spínola, presidente da Assembleia, mas, numa interpretação mais ampla do texto constitucional, no sentido da inconveniência da permanência dos dois deputados no exercício de seus mandatos, face à situação atual e ao ambiente revolucionário. Os votos contrários à cassação foram dados pelo PSD, PL e PST. O primeiro a falar foi o deputado João Borges do PL, contra a nova cassação. No dia seguinte, 18 de dezembro, o talentoso jornalista e cronista e escritor baiano de Ilhéus, Fernando Leite Mendes, escreveu no “Correio” uma crônica magistral, inesquecível:

– “Decoro e Decoração” – “É tempo de muita palavra com sentido novo, nestes dias de lexicógrafos fardados incursionando pela semântica, com a baioneta das neodefinições. O presidente da Assembleia baiana teve o cuidado de informar à reportagem que seus pares haviam “ampliado o conceito de decoro parlamentar que, no caso, seria a inconveniências de permanecerem na Assembleia os dois deputados face à situação atual e ao ambiente revolucionário”. Isto quer dizer que para os legisladores baianos quebra do decoro é, simplesmente, não concordar com o estado de coisas instaurado no País. Pois, pelo critério baiano, os deputados servem para ornamentar a cena política com os seus de-acordos e os seus améns”.

REPÓRTER PETROBRAS

À noite, o “Repórter Petrobrás”, da Rádio Sociedade da Bahia, o de maior audiência do Estado, divulgou violenta entrevista minha dizendo que os militares “não respeitam a Justiça e a Assembleia não se respeita”.

O esquema estava antecipadamente bem montado. Enquanto o “Repórter Petrobrás” punha no ar minha entrevista, gravada com minha voz, eu já chegava a Feira de Santana, escondido no banco traseiro de um carro, e ouvia a entrevista no rádio, de luzes apagadas. Naquela noite o Exército da Bahia, com algumas dezenas de patrulhas, revirou a cidade tentando pegar-me. Eu já estava longe. Humilhei-os no Tribunal e na fuga.

TÉCIO, O ESTRANHO

Quem viveu aqueles duros e turvos dias não pode tolerar que o estranho presidente do IAB (Instituto dos Advogados do Brasil), advogado Técio Lins e Silva, venha dizer que “a Lava Jato é pior do que a ditadura”).

Devia respeitar a memória do bravo ex-presidente do IAB, o inesquecível Hermann Baeta, morto semana passada, que tanto resistiu à ditadura.

O petróleo não é do PT

Charge de Paixão (reprodução da Gazeta do Povo)

Sebastião Nery

A campanha do “O Petróleo é Nosso”, pela criação da Petrobrás, estava no auge, em 1953, eletrizando todo o país. Em Belo Horizonte, entidades estudantis, sindicais, de jornalistas e intelectuais preparamos um comício para a Praça da Estação e convidamos os parlamentares. A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. A praça cheia, cercada pela policia.

Lá na frente, servindo de palanque, vazio, pusemos um caminhão sem as laterais e com um microfone. De repente, chega o deputado federal do PTB, querido professor licenciado da Faculdade de Direito e candidato a senador, Lucio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos. Com ele, a polícia não teve coragem de barrar-nos. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:

– Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a policia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Exército, do Rio. Confesso que tive dúvidas de vir. Mas, à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo:

– Vai, Lucio, vai! Vai!

E Lucio foi. Subiu no caminhão, deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Nosso querido professor desabou. Acabou o comício.

LULA

No dia seguinte, no palácio, Juscelino dava gargalhadas:

– Eu bem disse a ele: – “Não vai, Lucio! Não vai!

Aquela queda ajudou Lucio Bittencourt, o “senador do petróleo”, a ter uma vitoria consagradora para senador em Minas, no ano seguinte.

Quando vejo o escárnio do PT gigoloteando a Petrobrás e destruindo-a, comendo por dentro como cupins, penso em tantos que, como Lucio Bittencourt 60 anos atrás, Eusébio Rocha, Rômulo Almeida,Gabriel Passos, Francisco Mangabeira , lutaram incansável e bravamente para que o petróleo fosse de fato nosso, do povo brasileiro e não de Lula e sua gangue.

Uma ação da Petrobras valer um “pixuleco” é uma afronta à historia.

LUCIO

Dois anos depois, em 1955, já criada a Petrobrás e Getulio morto, o Partido Comunista, embora ilegal, estava apoiando Juscelino e Jango para Presidente e vice, e Lucio Bittencourt, recém-eleito senador do PTB, para governador. Lucio disputava com Bias Fortes (PSD) e Bilac Pinto (UDN).

Fui destacado para ajudar a campanha de Lucio como jornalista. Haveria uma excursão ao Norte e Nordeste de Minas, ele me chamou:

– Vamos lá, você morou e foi professor em Pedra Azul, conhece bem o vale do Jequitinhonha, Araçuaí, aquela região toda.

Fiquei animado. Mas logo o “Jornal do Povo” me propôs acompanhar Juscelino ao Nordeste brasileiro. Entre o nordeste de Minas e o meu Nordeste, traí Lucio Bittencourt. Falei com ele, ele compreendeu, outro companheiro da Faculdade foi em meu lugar e fui com Juscelino.

Em Campina Grande, Juscelino estava no palanque com Rui Carneiro, Alcides Carneiro, Samuel Duarte, Abelardo Jurema, o PSD todo da Paraíba. Falava um deputado. Chega um “western” (telegrama especial da época) urgente da “Ultima Hora” informando que Lucio Bittencourt acabava de morrer em desastre de avião, em Minas, saindo de Araçuaí e quase chegando a Pedra Azul. Morreram o piloto, ele e meu substituto.

Gelei. Sentei em um canto do palanque e quase chorei. Alguém, um colega da Faculdade, morrera em meu lugar. Os assessores ficaram sem saber como dar-lhe a noticia. Nós jornalistas escolhemos Fernando Leite Mendes, o brilhante e gordo baiano da “Ultima Hora”, que Juscelino chamava de “Pero Vaz de Caminha” de sua campanha:

– Governador, uma noticia ruim, de Minas. Lucio Bittencourt morreu perto de Pedra Azul em desastre de avião.

Juscelino arregalou os olhos, fechou-os, baixou a cabeça, ficou alguns instantes em silencio, visivelmente chocado, como se estivesse rezando, e murmurou:

– Foi reza forte do Bias.

Pegou o microfone e fez comovente homenagem a Lucio Bittencourt.

DELCÍDIO

Se, pouco tempo atrás, a algum candidato de um “Enem” qualquer dessem esses nomes para dizer quem são, tiraria inapelavelmente “zero”:

Cerveró, Delcídio,Youssef, Fernando Baiano, Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Bumlai. Mas, no entanto, são capitães de longo curso. E como navio não anda sozinho, alguém os trouxe para a gangue e a porta do xadrez.

Delcídio era um guapo engenheiro de Corumbá que apareceu lá pelas bandas do Pará e logo o governador Jader Barbalho, rapaz de raro faro, o fez diretor da Eletronorte e logo ele saltou para diretor da Eletrosul, em Santa Catarina. Especializou-se em gás, gasodutos, termoelétricas e Bolívias, tendo Cerveró como fiel escudeiro. Virou senador e líder de Dilma. Deu no que deu.

Sem cara de presidente

Nicolas Maduro, sem dúvida, não tem cara de presidente

Sebastião Nery

RIO – Desço no aeroporto Simon Bolivar de Caracas, na Venezuela, em 1979. Às seis horas de uma manhã fria, dois rapazes sonolentos carimbam os passaportes e conferem as bagagens na alfândega. Não abrem nada.Fazem sinal com a mão, todos vão passando. Minha maleta gorda, estufada, passou sem uma espiada. Mas eu levava na mão revistas e um pacote de livros.Um rapaz de bigodes pretos e olhos desconfiados acordou:

– O que é isso ai?

– Revistas do Brasil. (Eram Veja, Isto É, Status)

Pegou as tres, devolveu duas. Folheou longamente a Status. Olhava as mulheres nuas, levantava os olhos para mim, admirado. A fila longa, e ele vendo as curvas morenas das moças nuas.

– E esse embrulho?

– São livros.

– Sobre que?

– Sobre política.

Meteu a mão no bolso, tirou um canivete, rasgou o pacote, foi abrindo os livros em cima do balcão. (“Portugal um Salto no Escuro”; “Socialismo com Liberdade”; “16 Derrotas que Abalaram o Brasil”.

– De quem são?

– Meus.

– Senhor, é muito cedo, estamos com pressa, não devemos brincar. Pergunto quem escreveu esses livros.

– Eu. Eu mesmo. Não tenho cara de autor?

Ele levantou os olhos, arregalou, devolveu o pacote todo aberto:

– Não tem não.

Fui-me embora, sem cara de autor.

Entrei no Hotel Hilton para a “Conferencia Internacional Sobre o Exílio na América Latina”, onde o Brasil estava representado por Jorge Amado, Rute Escobar e por mim e encontro no hall Júlio Cortázar, o argentino dos contos fantásticos.

Realista como sua maravilhosa ficção, alto, 1 metro e 90, longos cabelos negros, olhos azuis no rosto branco e amassado, incrivelmente jovem apesar de seus mais de 60 anos, um garotão com sorriso de menino. E lembrando Hemingway. As mãos pareciam de outro. Velhas, enrugadas, veias grossas e pintas negras. Mãos de avô.

Quando vejo Nicolas Maduro na TV lembro a alfândega de Caracas.

Com aquele bigode de pistoleiro ele não tem cara de Presidente.

AMÉRICA LATINA

No almoço, conto a Cortázar a conversa na alfândega, ele ri muito:

– Há pouco tempo, chegando ao México, o homem pergunta:

– Profissão?

– Escritor.

– Sim, escritor. Mas em que coisa o senhor trabalha?

Ele falava com seu rosto de meninão gigante:

– Comecei a preocupar-me a fundo com os problemas da América Latina a partir da revolução cubana. Eu era um homem apolítico e indiferente e vivia em meu mundo de literatura, no qual aliás continuo e em que me sinto muito bem. Mas a revolução cubana detonou minha consciência pessoal e me mostrou que eu era latino-americano e portanto tinha obrigações para com nossos povos.

– Como você consegue compor política com a literatura?

– Esse é um velho e sempre novo problema com que todos nos defrontamos diariamente. Estou acostumado a ler muitos livros onde se faz política através da literatura e o resultado é que se o conteúdo literário não tem qualidade suficiente para transmitir o conteúdo político, resulta um livro medíocre. Esse difícil equilíbrio de não sacrificar a literatura à política nem a política à literatura é o fio da navalha.

– Garcia Marquez disse que só escreveria quando Pinochet caísse.

– Gostaria de ter mais tempo e tranquilidade para meus livros. É por isso que nos últimos anos tenho escrito apenas contos. Primeiro, porque gosto de contos e também porque podem ser escritos em pouco tempo, entre duas viagens e duas entrevistas. Já uma novela exige uma disponibilidade muito grande da qual a história hoje nos priva. A culpa de eu e o Gabo (Gabriel Garcia Marquez) não escrevermos novelas é de Pinochet e Vidella, para citar apenas dois, porque, na medida em que lutamos contra eles, não restam senão tiras de tempo para escrever. Nossa literatura sai perdendo, mas creio que nem o Gabo nem eu lamentamos.

EXÍLIO

– E o exílio? Como vai o longo exílio em Paris, tantos anos longe de sua Buenos Aires?

– Claro que não podemos esquecer a infâmia, a ignomínia, a profunda injustiça que é o exílio. O exílio é o limbo na penumbra. Mas nós todos exilados ou lutadores contra o exílio precisamos mudar a visão do exílio, Tirar sua visão negativa, que é a grande vitória das ditaduras e transformar o exílio numa visão dinâmica, numa formosa e combativa posição de luta. Precisamos ver o exílio como outra maneira de viver. Destruir o exílio dentro do exílio e fazer dele um sol de luta.

Saiu andando com suas pernas de gigante e cara de menino grande.

Brizola, herói, na Justiça da História

Brizola era o inimigo número um da ditadura militar

Sebastião Nery

RIO – No fétido campo de concentração do Exercito no Barbalho, em Salvador, depois do golpe militar de 1964, o coronel depois general Guadalupe Montezuma e seu cachimbo inglês chegaram de Pernambuco para fazer o IPM baiano e queriam saber mais de Brizola do que de mim:

– Nesse mês em que o senhor esteve clandestino entre o Rio e a Bahia, depois do 31 de Março, até ser preso aqui, teve noticias de Brizola? Ele está organizando uma força militar para invadir o Brasil.

– Coronel, aqui preso não sei nem o que Lomanto está fazendo.

– E antes de ser preso? Eu quero é saber o que o senhor sabe de Brizola. Ele hoje é nosso maior inimigo. O Jango é rico, vai cuidar da vida dele. O Arraes está em Fernando de Noronha. O Prestes já deu sua palavra aos comunistas para não repetir o erro de 1935. Brizola, não. Vai lutar até o fim. Nos desafiou em 61 e ganhou a posse de Jango. Agora foi apanhado de surpresa, não teve como reagir. Mas não ficará satisfeito com os discursos violentos que o senhor e outros amigos dele fizeram nas rádios Mayrink Veiga e Nacional. Esse é o nosso inimigo. E o senhor é aliado dele.

– Politicamente, sim. Mas não acredito em insurreição no Brasil contra o poder militar. Aqui, desde a Monarquia e a Republica, e em 1930, 35, 37, 45, 61, agora, as soluções sempre foram militares. Os civis só voltarão com um paciente trabalho político no dia em que os militares se dividirem. Sempre foi assim. No Brasil, os civis que quiseram enfrentar militares com armas se deram mal: Antonio Conselheiro e Lampião.

O coronel repousava a cabeça na cadeira alta e tragava silenciosamente seu cachimbo, com um sorriso maroto:

– Deputado vim ouvi-lo e estou ouvindo a pregação de um derrotado.

– Inconformado com um governo militar estou. Não dará certo. Mas insurreição civil não. Passei oito anos com os padres e oito com os comunistas. Aprendi que na historia é preciso muita paciência. Brasileiro só briga atrás de militar. E Brizola não tem militar.Tinha o general Assis Brasil, o do “dispositivo”que Juscelino disse que era um “supositório”.

Não gostou da piada, fechou a cara, levantou-se, saiu. Agora, a presidente Dilma pôs Brizola no Panteon dos Heróis. A justiça da História.

O CORONEL

Em 1964, o coronel deve ter ido limpar o cachimbo. Voltou:

– Foi bom o senhor não querer me enganar e negar suas ligações com o Brizola. Em três anos de seu jornal, o único político com quem o senhor fez uma grande entrevista, com enorme foto na capa e duas paginas lá dentro, foi ele. Nos seus discursos na Assembleia, o senhor não elogiava o Jango e ainda bem que não elogiava o Prestes. Só elogiava e defendia o Brizola. E ele nem é de seu partido. É do PTB. O senhor sempre foi do Partido Socialista. Está vendo como pesquisei sua vida? Por isso mesmo tenho certeza de que, quando sair daqui, o senhor será aliado dele.

– Aliado político, sim, coronel. Mas esse será um processo longo. Me desculpe, mas o que houve no Brasil foi um golpe militar. Um dia haverá anistia e novamente uma vida política normal, com eleições. No Brasil, depois da ditadura de Getulio e em todos os países acontece assim. Nessa hora, aparecem ou reaparecem os herdeiros da democracia. Na França, foram De Gaulle e Mitterrand. Na Yugoslávia, Tito. Quem será no Brasil? Prestes, nunca. Comanda um partido internacional. Jango já foi presidente, não é um dirigente determinado. Arraes é muito concentrado no Nordeste. Sobrarão dois lideres nacionais, se estiverem vivos : Juscelino e Brizola. E Brizola tem mais chance de esperar, por ser mais novo. O líder nacional mais importante que surgirá, quando a democracia voltar, se estiver vivo, deverá ser Brizola. Tem a melhor biografia e imagem.

O CACHIMBO

Enquanto ele me deixava falar, fui falando. Interrompeu:

– Estou quase me arrependendo de lhe haver dito que iria pedir o fim de sua prisão. Mas meu IPM é sobre a Bahia e o senhor está em vários IPMs do Rio, Minas, rádios, UNE. Vou deixar essa historia de Brizola para resolverem lá. Mas não se engane. Vamos ficar de olho no senhor e nos aliados do Brizola. O senhor sabe que ele é nosso maior inimigo.

Fez um discreto elogio à minha “lealdade” e mandou embora. Bons tempos em que havia coronéis de cachimbo e ainda não havia tortura.

O GETULISTA

Um dia, em Brasília, anos depois, deputado do PMDB, não do PDT, encontrei o general Montezuma em um jantar. Elegantemente, me cobrou :

– Deputado, quando leio seus artigos hoje dizendo que o Brizola “no Rio não está sendo um democrata, mas um getulista”, fico lembrando de nossa demorada conversa em Salvador. Então era um “não democrata” que seria o “herdeiro da democracia”? Seu pecado era ser um brizolista.

Os 100 anos de Ulysses

Ulysses GUimarães enfrentando os cães da ditadura em Salvador

Sebastião Nery

Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

– A Polícia Militar havia cercado a praça do Campo Grande e comunicado oficialmente ao partido que não ia permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

– Isto é ilegal – disse Ulysses. – A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

– Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites.

A BATALHA

Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas, com encontro marcado em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB, no Campo Grande. Era um campo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça.

Ulysses desceu do carro, olhou, meditou, comandou:

– Vamos entrar na praça e no partido! Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados empertigados. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

– Parem! Parem!

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

– Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um, Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos à porta da sede do MDB, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

– Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado: 14 discursos e uma passeata. Graças à coragem, decisão e valentia de Ulysses.

(Meu prefácio ao livro de Ulysses Guimarães “Rompendo o Cerco” – 1978)

CENTENÁRIO

Falta pouco para o centenário de Ulysses Guimarães, quando São Paulo e o Brasil vão relembrar os 100 anos do grande brasileiro. Nascido em 6 de outubro de 1916 (e desaparecido em outubro de 1992), Ulysses está chegando ao centenário: 6.10.1916. Neste século, poucos brasileiros tiveram sua grandeza.

JK E ULYSSES

“Há muito tempo que não leio uma peça oratória tão rica em substância, e tão profunda em conteúdo como a que você proferiu na Convenção do MDB, aceitando sua candidatura (a Presidente da República) e fixando conceitos da mais alta transparência. E ouvir uma voz, como a sua, erguendo-se do fundo de todas as expectativas, enche-nos de esperanças.” (Carta de JK a Ulysses)

FÉRIAS

Como todo ano, dezembro é férias. E férias é Nordeste: Salvador, Recife, Porto de Galinhas, São Miguel dos Milagres. Até janeiro.

Uma familia empresarial

Sebastião Nery

SÃO PAULO – Agamenon Magalhães, governador, ministro, patriarca de Pernambuco, era um político sábio: – “O homem público no poder não compra, não vende, não troca”. Outro sábio, Ortega y Gasset, filósofo espanhol, em 1921, perplexo diante do desfibramento da política e da sociedade espanhola, escreveu “Espanha Invertebrada”, sobre os rumos e o futuro da Nação: – “Uma sociedade míope agrava a enfermidade pública, prestigiando políticos sem virtudes que impõem as suas vontades e interesses em detrimento dos verdadeiros valores nacionais”.

Roberto D’Ávila com seu talento e competência profissional, entrevistando Lula na Globo News, tentou tirar leite das pedras, extrair alguma luz de uma cabeça de bagre. A entrevista com Lula foi um descalabro. Uma aula torta de como mentir, mentir sempre. Roberto podia ter encerrado a conversa relendo a página 4 da “Folha de S. Paulo” de 27 de outubro último onde está a lista das 15 empresas da família Lula.

O Brasil teve durante 300 anos uma família imperial. Agora sabe-se que tem uma “família empresarial”, que fez o milagre de chegar a São Paulo carregando uma trouxa e meio século depois ser proprietária destas 15 empresas: “1 – BR4 Participações Ltda /Capital R$4milhões. 2 – FFK Participações Ltda / Capital R$ 150.000,00. 3 – G4 Entretenimento e Tecnologia Digital / Capital R$ 150.000,00. 4 – LFT Marketing Esp. Ltda / Capital R$ 100.000,00. 5 – LKT Marketing Eireli / Capital R$ 100.000,00. 6 – Flex BRT Tecnologia S.A. / Capital R$ 20.000,00. 7 – Flex BRT Ltda / Capital R$ 20.000,00. 8 – LLCS Participações Ltda / Capital R$ 1.000,00. 9 – LLF Participação Eireli / Capital R$ 80.000,00. 10 – Gamecop S.A. / Capital R$ 10.000,00. 11 – LLCS Participações Eireli / Capital R$ 1.000,00. 12 – Touchdowm Prom. de Eventos Esportivos Ltda / Capital R$ 1.000,00. 13 – Gasbom Cursino Ltda / Capital R$ 2.000,00. 14 – Gisam Comércio de Roupas Ltda / Capital R$ 5.000,00. 15 – L.I.L.S. Palestras Eventos e Publicidade / Capital R$ 100.000,00”.

É com essa L.I.L.S. que Lula assina os recibos das fajutas conferências.

SAYAD

O saudoso mestre Florestan Fernandes ensinou que o problema do Brasil é que somos um povo atrasado. E continuamos assim:

1 – O ex-ministro e professor João Sayad da USP confirma:

– “A democracia ameaça a República se for dominada pela demagogia, por eleitores mal informados. Não há república sem homens virtuosos: honestos defensores do interesse público e corajosos. A República pode se tornar tirania. República e democracia procuram um equilíbrio delicado. A República vai mal. Falta virtude. Como tornar os homens públicos virtuosos? Deveriam ler os clássicos – Cícero, Catão, Platão, Aristóteles. Só assim homens virtuosos poderiam se candidatar sem ter que jantar escondido com financiadores de currículo duvidosos”. (Valor Econômico 15/09/15)

NOGUEIRA

2 – Professor e diretor do Instituto de Políticas Públicas da UNESP, Marco Aurélio Nogueira:

– “A política ficou submetida ao mercado e a representação perdeu substância. A fragmentação e a falta de operacionalidade do sistema político fazem com que a democracia, em alguns países, fique bloqueada e, em outros, passe a ser alimentada por doses expressivas de corrupção e ilicitude. Neste ambiente, os governos e a classe política pioram dramaticamente seu desempenho e deixam suas comunidades sem muitas saídas.” (O Estado de São Paulo 26/09/15)

ALVARO MOISES

3 – Professor José Álvaro Moisés, diretor do núcleo de pesquisas de políticas públicas da USP:

– “O sistema partidário brasileiro tem algo de paradoxal: além de sua perturbadora fragmentação e da constante troca de legendas por parlamentares, os partidos são chamados a garantir a governabilidade do País no Congresso, mas dão pouca ou nenhuma importância à sua conexão com os eleitores, que desconfiam deles, não têm preferência e não querem filiar-se. O que conta não é o que os partidos significam para a sociedade, mas como seus arranjos facilitam que os dirigentes – que em muitos casos se perpetuam na direção das legendas – conquistem ou mantenham posições de poder.” (O Estado de São Paulo, 24/08/15)

O PT nasceu para ajudar a iluminar a vida política da Nação. Só fez apagar a luz. O Brasil jamais havia descido a um nível político tão invertebrado. Ortega y Gasset não viu nada.

Requiem para Paris

 Foto: GONZALO FUENTES / REUTERS

Parisienses se concentram na Catedral de Notre Dame

Sebastião Nery

RIO – Em Paris, desde a primeira vez, em 1955, eu pensava em Gilberto Amado, sergipano de Estância e universal como todo gênio: – “Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”. Para mim, o rio correu até minha Jaguaquara, na Bahia.

O sábio Paulo Rónai também lembrou Hemingway sobre Paris: – “Se tens a sorte de ter vivido em Paris quando moço, por onde quer que andes o resto de tua vida ela estará contigo porque é uma festa móvel”.

E o poeta Murilo Mendes teve medo na guerra, em um verso eterno: -“Bombardear Paris é destelhar a casa de meu pai.”

O TERROR

Cada um vê Paris com os olhos de sua alma. Meu gordo e saudoso amigo Antonio Carlos Vilaça falava dela como da primeira escola: – “Paris foi importante para minha geração, uma geração que lia autores franceses. Em Paris pensávamos, éramos”.

São 60 anos. Minha Paris é uma história de 60 anos. De 1955 quando lá estive pela primeira vez até a semana passada, quando mais uma vez deixei Paris depois de mais um mês lá, como faço todo ano. Eu enrolava minha saudade e a canalha terrorista enrolava suas bombas assassinas.

Não consigo imaginar destruída a cidade onde mais sonhei, mais aprendi, mais amei, mais cresci, mais vivi.

CONCENTRAÇÃO

Voltemos ao Brasil. Os professores Marcelo Medeiros e Pedro Souza, da Universidade de Brasília (“Estabilidade da Desigualdade”) demonstram que a concentração da renda continua imutável e ascendente. Estudiosos da desigualdade social brasileira, eles denunciam:

– O segmento do 1% mais rico da população, estimado em 1,4 milhão que ganham a partir de R$ 229 mil anuais, em 2006 tinha participação em 22,8% da renda nacional. Em 2012 cresceu para 24,4% da renda brasileira.

– Entre os 10% mais ricos, não foi diferente. A renda, no mesmo período, avançou de 51,1% para 53,8%. Já a renda dos 90% mais pobres não obteve a mesma performance, mesmo apresentando alguma melhoria.

E o PT dizia-se o partido dos trabalhadores. Virou o dos banqueiros.

DESIGUALDADE

O professor Naércio Menezes Filho, da FEA-USP e coordenador do Centro de Políticas do Insper, no jornal “Valor” (16/10/2015), no artigo “A Desigualdade Começou a Subir”, sintetiza: – “O Brasil é um país bastante desigual. Essa desigualdade tem sua origem no fato de que a maioria da população ficou excluída do nosso sistema educacional até meados do século XX. Nos últimos 20 anos, porém, o processo de inclusão social que houve fez com que a desigualdade declinasse continuamente. Será que esse processo está chegando ao fim?”

CRISE

“Com tristeza e o coração partido”, o professor e escritor Helio Duque, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, responde: – “Lamentavelmente, sim. O governo Dilma Rousseff, por incompetência e centralismo autossuficiente e autoritário, conseguiu interromper um caminho que, mesmo com limitação, se apresentava virtuoso, Os próximos anos serão de frustração do sonho de o Brasil estar marchando para a construção de uma sociedade que avança no combate à miséria e a injustiça social”.

– “Sem crescimento da economia, não existe milagre que possa sustentar a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Somente com políticas econômicas de austeridade fiscal é que se pode enfrentar essa realidade adversa: a sustentabilidade das políticas de inclusão social”.

DEFICIT

– “Historicamente, o “superávit primário”, mesmo nos momentos de crise, sempre foi obtido por diferentes administrações. Quando Dilma assumiu o governo, era de R$ 128 bilhões. Agora, de maneira inédita, a situação é inversa: o “déficit primário” consolidado seria de R$ 60 bilhões”

– “Com o agravante de o Tesouro ser obrigado a pagar as “pedaladas fiscais” (dívidas atrasadas no BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica), estimadas pelo Tribunal de Contas em R$ 40,2 bilhões”.

– “Com outros penduricalhos, o déficit ultrapassará R$ 117 bilhões. Ele foi construído naqueles anos onde a fantasia marqueteira era vendida aos brasileiros que aprovavam e aplaudiam o governo com marcas recordes de popularidade”.

ISABELITA

E de um amigo paulista, que bem conhece a Argentina, vem a definição perfeita de Dilma: – “Dilma é a Isabelita sem Perón”.

O Bispo de Hypona

Charge de Latuff/Sul 21 (reprodução)

Sebastião Nery

RIO – Agostinho, bispo de Hypona (hoje Annaba, na Argélia), um dos construtores do Cristianismo, autor de livros imortais como “Confissões”, “Cidade de Deus” e “Doutrina Cristã”, viveu dos anos 354 a 430, enfrentando as perseguições ao Catolicismo no mundo muçulmano, fugia da policia em pequeno barco quando foi cercado saindo de Hypona:

– O senhor viu o bispo Agostinho passando por aqui?

– Não vi não.

E o policial foi embora. O barqueiro levou um susto:

– Bispo Agostinho, sua Igreja ensina a não mentir.E o senhor mentiu.

– Não menti. Fiz uma “restrição mental”. Ele perguntou se eu vi o bispo passando. E eu não vi passando. Estou passando. Estamos passando.

LOTT

E foi em frente. No Brasil, tivemos um caso semelhante. Em 1955 Juscelino Kubitschek elegeu-se presidente da Republica. A UDN e seus militares tentaram um golpe para impedir a posse de JK O vice-presidente Café Filho internou-se em um hospital e assumiu o presidente da Câmara o mineiro Carlos Luz, que demitiu o ministro da Guerra marechal Lott e nomeou o general Fiuza de Castro.

Estava armada a jogada para impedir a posse de JK. Mas o marechal Lott e o general Odilio Denis rebelaram-se e exigiram a posse provisória de Nereu Ramos, presidente do Senado. O jornalista Otto Lara Rezende, da revista “Manchete”, foi entrevistar Lott:

– Marechal, os senhores rasgaram a Constituição?

– Pelo contrario, Otto. Nós garantimos o retorno aos quadros constitucionais vigentes.

O verdadeiro golpista Carlos Luz entregou o governo, Nereu Ramos assumiu a presidência e garantiu a posse de JK e João Goulart.

CUNHA

O híbrido deputado Eduardo Cunha está fingindo de Bispo de Hypona e marechal Lott. Diz que não tem dinheiro na Suíça, apenas “ativos”. E que os “ativos” não são dele, mas dos “trusts”, dos bancos.

É uma farsa. O bispo e o marechal não mentiam. Argumentavam. Defendiam-se: um da policia e o outro do golpe contra a posse de JK.

BRASIL

Em dois meses pela Europa, a pergunta que mais ouvia era uma:

– Como está o Brasil?

Infelizmente não está bem. E os números vêm piorando a cada dia.

1.–  No PIB mundial, medido em dólares, o Brasil manteve, por alguns anos, o 7º lugar. Em primeiro lugar, os EUA, com US$ 18,12 trilhões ; depois, China, 11,21; Japão, 4,21; Alemanha, 3,41; Reino Unido, 2,85; França, 2,47. Agora, no início de outubro, o Fundo Monetário, projetando o cenário para 2015, deslocou a economia brasileira para o 9º lugar, com o PIB que era de US$ 2,35 trilhões sendo rebaixado para US$ 1,80 trilhão. A Índia passou a ser a sétima, com US$ 2,18 trilhões. E a oitava a Itália, com US$ 1,8 trilhão.

2.– O Brasil em dólares perdeu o equivalente ao PIB da Suécia que é de US$ 520 bilhões, ou da Argentina que é de US$ 474 bilhões. Analisando o impacto desse rebaixamento brasileiro, constata-se que o cenário projetado é ainda mais grave. Para o PIB de US$ 1,80 trilhão, o FMI utilizou a cotação do dólar a 3,20 reais. A conta é fácil: o PIB do Brasil em 2015 é de 5,74 trilhões de reais. Com o dólar em 3,20, alcançaríamos o total de US$ 1,793 trilhão, ou US$ 1,80 trilhão.

3.– A moeda norte americana chegou a ultrapassar 4 dólares, em relação ao real, determinando um rebaixamento ainda mais doloroso do Brasil, no “ranking” das principais economias mundiais. Com o dólar valendo R$ 3,50, a redução do PIB brasileiro iria para US$ 1,64 trilhão. Cotado a R$ 3,60, a queda seria para US$ 1,59 trilhão.Valendo R$ 4,00, o nosso PIB seria de US$ 1,43 trilhão.

4.– O “ranking” do Fundo na amostragem do PIB em dólar, em diferentes países, demonstra: a) no Canadá é de US$ 1,78 trilhão; b) na Austrália, US$ 1,44 trilhão; c) na Coréia do Sul, US$ 1,41 trilhão; d) Na Espanha, US$ 1,40 trilhão. Na América Latina, o do México US$ 1,28 trilhão. Se o dólar continuar se valorizando ante o real, agravando as contas nacionais, a recessão econômica poderá levar o nosso PIB, medido na moeda americana, a ser ultrapassado também por alguns desses países.

PEDALADAS

Há quatro anos, o então ministro Guido Mantega blasonava:

– “O FMI prevê que o Brasil será a quinta economia em 2015, mas acredito que isso ocorrerá antes”.

Em 2010, ao final do seu governo, era Lula quem afirmava:

– “Se depender de Dona Dilma e de Dom Guido, vamos ser a quinta economia do mundo. Em 2016, vamos conquistar essa medalha de ouro.”

Apenas irresponsáveis pedaladas.

Pedaços de nós, o que ficou do passado

Gorbatchev e Wojtyla, juntos, esvaíram o comunismo 

Sebastião Nery

PARIS – Aquele velho de costas curvas e cabelos brancos dirigindo seu táxi pelas largas avenidas de Barcelona, semanas atrás, e me falando orgulhoso dos tempos de suas lutas operárias no Partido Comunista espanhol, era um pedaço de nós. Aquele homem de longos cabelos brancos e mãos encarquilhadas, comendo seu pincho na Tasca de Sevilha no último domingo, e relembrando sua participação nas disputas anarquistas da Andaluzia, também era um pedaço de nós. Os dois refazem um passado que não volta mais.

Tristão de Athayde, o sábio, nos ensinou que “o passado não é o que passou, é o que ficou do que passou”.

E Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura do Peru, reconstruindo seus 80 anos em uma extraordinária entrevista ao jornal “El Pais”, acaba de dar uma lição de como não perder o que foi.

O PASSADO

60 anos atrás, vindos de todos os cantos, nós éramos um punhado de jovens participando das lutas pela paz de seus países, neles ou nas terras dos outros. Um dia era Moscou, depois Pequim, Praga, Viena, Berlim, Varsóvia, Roma, Paris. Às vezes no Congresso Mundial de Estudantes em Viena. Ou no Festival Mundial da Juventude em Moscou.

Passávamos por toda a Europa participando de lutas que não eram só nossas mas da humanidade. Agora, 60 anos depois, descobrimos quanto éramos felizes por fazer parte dos sonhos do mundo. O terrível é descobrirmos que já não somos os mesmos, e sobretudo já somos tão poucos. Os que resistimos, os que continuamos não perdemos nossas histórias. Infelizmente para tantos o passado se foi.

UBIRAJARA

O cientista nuclear Ubirajara Brito, saído da Escola de Engenharia da Bahia e ajudando a França a construir sua bomba atômica em Grenoble, e participando da construção da Universidade da Argélia com a equipe de Oscar Niemeyer, não perdeu o passado. Constrói sua Faculdade e seu Jornal lá em Vitória da Conquista, na Bahia.

Na Universidade do Sul da Bahia, o professor Sohane Nazareth continua perpetuando suas lições. Em Uberlândia, com sua beleza e suas lutas sociais, cuidando de sua fazenda com os admiráveis irmãos Azevedo, Martha Pannunzio não perdeu o charme de rainha do Festival Internacional da Juventude em Moscou em 1957.

NAPOLEÃO

Outros o passado levou como nosso simpático e inesquecível usineiro em Moscou, todo vestido de branco e o sorriso permanente no rosto, Napoleão Moreira, pai do imperador das águas de São Miguel dos Milagre, em Alagoas, Maurício Moreira. Como também levou há ainda pouco o sereno publicitário alagoano Murilo Vaz.

Tantos também se foram e não sabemos mais. Onde andará José Faerman Pathé, o cantor das multidões socialistas, vindas de São Paulo? Por onde anda o Roque, Diretor do Sindicato dos Trabalhadores de Volta Redonda no Rio com seu braço todo queimado?

Todos nos encontrávamos na “Universidade da Amizade dos Povos”, a “Universidade Lumumba”, daquela Moscou de 1955 a 57.

Gabriel Garcia Márquez, jornalista e escritor colombiano já começando a fazer sucesso, 5 anos mais velho do que nós, ainda não sonhava com o Nobel de Literatura.

KREMLIN

No desfile diante dos muros do Kremlin, os heróis daquele nosso mundo recebiam aplausos que a alguns a história depois negou, e a outros confirmou como Mao Tse Tung, Ho Chi Minh e Che Guevara.

Em Cracóvia, na Polônia, embaixo de nossos olhos, no Congresso Mundial de Estudantes, a história juntava o jovem estudante comunista da Universidade de Moscou Mikhail Gorbatchev e o diretor do Instituto Católico da Polônia padre Wojtyla, que depois se juntaram e fizeram esvair-se o comunismo no Leste europeu. Ninguém me contou, eu vi. E aquele atlético e sorridente sacerdote pôs em minhas mãos tensas a penca de chaves do seu Instituto para nele realizarmos o nosso Congresso Mundial de Estudantes.

PELICANO E BERLINGUER

Não eram apenas latino-americanos os presentes nestas histórias. Pelikano, Presidente da União dos Estudantes da Thecoslováquia e Giovanni Berlinguer, presidente da União Internacional dos Estudantes, que reencontrei como senadores italianos em Roma, lutaram até o fim.

Ao longo dos anos ambos construíram sólidas amizades com dirigentes políticos de suas gerações, como Raimundo Eirado, Presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Hoje, olhando o Sena, de cima das pontes eternas aqui de Paris, jogo meus 83 anos na balança e vejo que valeu a pena.

Falta um rei ao Brasil

Sebastião Nery

MADRID – A história tem fila. O marechal Franco morreu em 20 de novembro de 1975, depois de longa agonia. (“Francisco Franco Caudilho de Espanha Por la Gracia de Dios” e la desgracia de los hombres…).  Logo no dia 22, o príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938, neto de Afonso XIII) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática. O Rei surpreende a Espanha, e o mundo, convoca uma Constituinte, e chama o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para Presidente.

Começava a grande lição da Espanha. E eu aqui na sala de aula.

O GOLPE

Aquela Constituinte era uma lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência determinação e sabedoria de três jovens : o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez o líder da oposição, 35 anos. Os três construíram a nova Espanha. Mas não foi fácil.

Em 1981, o tenente coronel Tejero, à frente de um pelotão do Exército, invadiu o Parlamento, todos de metralhadora na mão. Os deputados esconderam-se atrás de suas bancadas. Um só, desafiador, ficou de pé e mandou o tenente-coronel respeitar o Parlamento. Era Adolfo Suarez, já então apenas um deputado.

O rei, general e brigadeiro, chefe das Forças Armadas, pôs a farda de gala, foi ao ministério do Exercito e exigiu que Tejero e seu grupo fossem imediatamente presos. Foram e o golpe acabou.

FELIPE

No dia 6 de setembro de 1988, como fazia toda terça-feira, o carro do chefe do governo, Felipe Gonzalez, parou às 10 da manhã na porta do Palácio Zarzuela. Sobe ao 1º andar e entra no gabinete do rei:

– Senhor, quero aproveitar este primeiro encontro depois do verão para comentar uma coisa em que tenho pensado muito. Não é nenhuma comunicação oficial. Simplesmente o resultado de uma reflexão.

O rei tomou um susto: – O que é que há?

– Senhor, há quase 6 anos sou presidente do governo e me faltam dois de legislatura. Creio que 8 anos são um período suficiente e estou pensando na conveniência de não me apresentar para as eleições de 1990.

– Não continue. Peço-te que pense mais sobre isso e voltaremos a falar mais adiante.

– Desculpe que insista. Quero dizer-lhe que não desejo falar sobre o assunto. Nem agora nem nunca. Só queria que soubesse que há esta possibilidade e, em minha maneira de ser e de entender o jogo político, não quero que algum dia o senhor se surpreenda quando vier ao palácio entregar minha carta de demissão.

– Quero dizer-te não. É impossível. O país neste momento não pode prescindir de tua pessoa. A democracia e o senso de responsabilidade histórica estão acima do teu desejo de ir embora. Tens que continuar conduzindo o país.

Continuou, disputou e ganhou ainda as eleições de 90 e só saiu em 94 quando não disputou mais e o Partido Popular de José Maria Aznar venceu o partido Socialista, já liderado por outro.

Durante muito tempo se disse em Madri que a Espanha tinha um rei e um vice-rei. O vice-rei era Felipe, o ex Isidoro cabeludo.

Com comícios, eleições, o povo na rua, governo eleito, o jornal “El Pais” nascendo, a revista “Cambio 16” circulando livre, a Espanha de 1977 já era bem outra, muito diferente da Espanha fascista, que eu tinha conhecido antes, com Franco e o franquismo ainda vivos, em 1963 e 73.

A BRUXA

No Brasil é terrível constatar nossa desvalida República. Estamos precisando de um rei que como Juan Carlos da Espanha tivesse autoridade, respeitabilidade e assumisse o comando político na hora em que o país entrasse em perigo com sua unidade nacional abalada.

O espetáculo dantesco que o Congresso Nacional está dando todos os dias, abrindo as entranhas com divisões de interesses baratos e cada um buscando um naco de poder pode levar o pais a um impasse. É assim que as nações se esfarelam, se dissolvem.

Se tivéssemos uma presidente da República que não pensasse só em comprar a sua permanência no poder tudo seria mais fácil. Como estamos, em determinado instante alguma esfera legal do poder, (o Legislativo, o Judiciário) vão ter que interferir. Quem não tem rei caça com gato.

É inacreditável como uma Nação leva uma rasteira de uma Presidente. Imaginávamos que Dona Dilma, eleita, aplicaria seus talentos públicos para construir um país sólido e sereno. Como em uma história de carochinha, ela abriu a panela e passou a fazer maldades. Para que? Ate agora para nada.

Estamos assim sem Rei, sem Rainha, nas mãos de uma bruxa.

De volta a Alhambra de Granada

Alhambra é um dos redutos históricos mais belos do mundo

Sebastião Nery

GRANADA – A primeira vez em que vim a Granada foi no violão de meu pai lá nas noites da roça. Agustín Lara, o barroco mexicano Ángel Agustín Maria Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, embolerava as noites com as canções “Granada”, “Solamente una Vez”, “Noche de Ronda”, “Palmeras” (o nome da nossa fazendinha) e outras.

A segunda vez em que vim a Granada foi nos iluminados comícios da Constituinte espanhola de 1977, quando a Espanha reaprendeu a democracia, a luta política e a liberdade.

A terceira vez em que vim a Granada foi na Exposição Internacional de Sevilha em 1992 quando o então presidente espanhol Felipe Gonzalez acompanhou o presidente Fernando Collor numa visita aos eternos labirintos de Alhambra, soluço incontido da história e Patrimônio Cultural da Humanidade, soberbos séculos construídos pelos árabes e pelo cristianismo desde os fenícios, os romanos, os gregos.

LABIRINTOS

A quarta vez em que vim a Granada foi agora. Mas não vim a Granada porque vir a Granada sem ir a Alhambra é não ir a Alhambra nem vir a Granada. Aqueles magníficos e perturbadores palácios, brotando de dentro das florestas de ciprestes são um dos mais apocalípticos documentos da espiritualidade humana. A partir do ano 712 os árabes dominaram o reino de Granada durante 536 anos. Em 1248 Fernando III, O Santo, conquistou Sevilha e Granada para a cristandade.

Os mulçumanos foram embora de Granada ficando apenas cristãos e judeus. Em 5 séculos construíram dezenas de palácios e quilômetros de caminhos nas colinas vermelhas da Alhambra. Sevilha é um símbolo da união do mundo árabe com o mundo cristão. Na catedral toda em ouro, está o túmulo de Cristovão Colombo, todo em prata.

Cheguei a um tempo em que caminhar horas é maratona. Vou voltar a Alhambra ouvindo Granada de Agustín Lara.

CAPITALISMO

O jornal “El Pais”, o maior da Espanha e da Europa, publicou uma pesquisa assustadora: “O 1% mais rico tem tanto patrimônio quanto todo o resto do mundo”:

– “2015 será relembrado como o primeiro ano da série histórica em que a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor de todos os ativos. Em outras palavras: o 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares têm tanto dinheiro liquido ou investido como os 99% do restante da população mundial. Esta enorme faixa entre privilegiados e o resto da humanidade, continuou ampliando-se desde o inicio da Grande Recessão, em 2008”.

– “A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, chega já a uma leitura possível: os ricos sairão das crises ainda mais ricos, em termos absolutos como relativos, e os pobres relativamente mais pobres”.

ELEIÇÕES

No dia 20 de dezembro a Espanha vai às urnas para escolher o novo Chefe do Governo que, como o regime é parlamentarista, sairá da maioria conquistada por cada partido. Estes números que estão ai em cima comandam o debate eleitoral. Como também os números do orçamento nacional.

Aqui não há pedaladas. Como a União Europeia achou que os números do orçamento para 2015 estavam sem objetividade, reclamou e pediu que o Governo Espanhol seja mais objetivo para que não só a população espanhola como os governos de todos os estados da União Europeia possam caminhar seguros diante dos números.

No dia 20 a palavra final é das urnas.

A lição da Espanha

Felipe Gonzalez, Adolfo Suárez e o rei Juan Carlos

Sebastião Nery

MADRID – Mino Carta, diretor da “Isto É”, me convidou em 1977 para ir à Espanha acompanhar a campanha eleitoral da Constituinte espanhola, que deveria ser convocada para breve. O general Franco morrera em 20 de novembro de 1975 e o franquismo estrebuchava seus 41 anos de ditadura. Logo no dia 22, o príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática.

E o Rei surpreende a Espanha e o mundo. Chama o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para presidente. Começava a grande lição da Espanha. E eu lá na aula. Cheguei a Madri com a Constituinte convocada e os partidos saindo da clandestinidade e começando a campanha eleitoral. Além da “Isto É”, escrevi para a “Tribuna da Imprensa” (Rio) e o “Correio Braziliense” (Brasília) e escreveria meu livro “A Lição da Espanha”.

ENCONTRAR OS LÍDERES

Vim para cá com um projeto na cabeça: conversar primeiro com os lideres dos principais partidos, ainda escondidos. Não conhecia ninguém. Levei o telefone do jovem e brilhante empresário Pedro Grossi, que tinha um escritório em Madri. Na sala pequena, só a mesa dele e outra, menor, de um jovem assessor sentado ao lado. Contei meu problema. Como fazer para falar com Santiago Carrillo, o velho líder do Partido Comunista?

O Grossi sorriu. E o rapaz me perguntou se iria com ele a Barcelona encontrar Carrillo. Claro que sim. Mas e a policia? Ele não esta escondido? Estava, mas, indo com ele, Carrillo me receberia sem problema.

– Como é que você pode me garantir que irei seguro?

– Porque ele é meu pai.

Ele me pegou cedo no hotel e lá fomos nós, no carro dele. Baixo, rechonchudo, 62 anos, testa larga, cabelos escuros, cara de padre sem batina, ar tranquilo e bonachão de quem estava em paz com a vida, Carrillo já tinha saído do exilio na França e vivia em uma casa discreta no subúrbio de Barcelona. Era um dirigente comunista simples e modesto. A longa entrevista dele fez sucesso no Brasil, na Europa e na Espanha.

Começava com sorte minha maratona espanhola.

OS TRÊS

O nome dele era Isidoro. Todo mundo sabia quem era, mas ninguém sabia como ele era. Secretário-geral do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), o mais antigo do pais, fundado por Pablo Iglesias em 1879, era o grande enigma da abertura que viria. Nascido em 5 de março de 1942, na Faculdade atua entre os grupos universitários católicos. Em 1962, conhece um grupo de colegas socialistas já organizados (são como irmãos até hoje), Afonso Guerra, Guilhermo Galeote e Luis Yanez. Tinham um projeto: assumir o comando do Partido Socialista em Sevilha, a partir daí o governo. Vinte anos depois, em 1982, conseguiram.

Em 72, vão ao congresso do PSOE na França, entram para a direção nacional. Em 74, Isidoro se elege secretário-geral, derrotando o velho Rodolpho Lopis, 79 anos, herói da guerra civil. Muda-se para Madri, sempre clandestino e sempre Isidoro. Foi aqui que o conheci, em 1977, os cabelos negros, cheios, caindo sobre o pescoço, a barba cerrada, um discurso forte e 35 anos. Em dezembro de 76, havia convocado a imprensa e anunciado que o PSOE voltava à legalidade depois de 40 anos proibido.

ERA FELIPE

Já não era mais Isidoro. Era Felipe, Felipe Gonzalez, “El caballo” (o cavalo). Nas eleições de 15 de junho de 77 para a Constituinte, seu partido fez 28,51%% dos votos. O Partido Comunista de Santiago Carrillo, 9,025%. A Aliança Popular, a direita ex-franquista, do galego Fraga Iribarne, 8,19%. O Partido Socialista Popular, do velho professor da Universidade de Salamanca, Tierno Galvan, 4,29%. Ganhou a UCD (União do Centro Democrático) de Adolfo Suarez, chefe do governo, com 34,34%.

Só em 82 Felipe e seu PSOE ganhariam as eleições. Mas aquela Constituinte era uma lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência, determinação e sabedoria de três jovens: o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez o líder da oposição, 35 anos.

Os três construíram a nova Espanha. Em 1992, em Madri, nos 500 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, ouvi Felipe Gonzalez, presidente da Espanha, dizer a Fernando Collor, presidente do Brasil:

– Fernando, governar é resistir.

COMO JK

Uma noite de lua, na praça de velhas pedras gastas de Diamantina em Minas, um grupo de garotos conversava sobre o que iam fazer da vida:

– Eu vou ser presidente da República.

E Juscelino Kubitschek foi presidente da República.

Uma noite de verão, na praça de velhíssimas pedras gastas de Ávila, na Espanha, um grupo de jovens conversava sobre o que iam fazer da vida.

– Eu vou ser o presidente da Espanha depois de Franco.

E Suarez foi o primeiro presidente da Espanha depois de Franco.

Em Barcelona, a cidade de Augusto

Thomas Piketty está assessorando o partido Podemos

Sebastião Nery

BARCELONA – Ela é uma mas sempre foi muitas, tantas, numerosíssimas. Nasceu Laye, cidade ibérica conquistada no ano 133 antes de Cristo pelo romano Lúcio Cornélio Scipião, colônia romana nos tempos do imperador Augusto (de 27 antes de Cristo a 14 depois de Cristo), com o múltiplo, imperial e soberbo nome de Faventia Julia Augusta Paterna Barcino, a cidade de Augusto, dos Augustos como eu.

De Barcino para Barcelona foram séculos. Plantada sobre um pequeno monte, o Taber, em meio à planície entre os rios Bésos e Llobregat, às beiras do Mediterrâneo, protegida dos ventos norte pela serra da Collserola, a cidade cresceu na área que é hoje o Bairro Gótico onde se podem ver ainda as imponentes colunas do templo de Augusto, cercada de muralhas até o século IV quando foi ocupada pelos francos.

Ludovico Pio chega ao sul dos Pirineus e nasce o Condado de Barcelona quando se destaca Vifredo o Velloso (Guifré el Pilós) e a cidade se desenvolve permanentemente até a invasão de Almamzor (ano 985) que a arrasa e cuja independência só vai ser restabelecida com o Condado do Conde Borell II no ano 988:

– “O esplendoroso desenvolvimento de Barcelona acontece a partir do século XI com a união de Catalunha e Aragão. No século XII, Afonso I torna-se o primeiro conde rei. Jaime I, o conquistador, estende seu reinado até o sul, no reino de Valencia e através do Mediterrâneo com a conquista de Maiorca, criando a grande confederação Catalã-Aragoneza no século XIII, com as máximas obras arquitetônicas do gótico e as grandes instituições como o Código dels Usatges, que define a personalidade histórica da Catalunha e de Barcelona.” (“Escudo de Oro”)

COLOMBO

Hoje, lá do alto de sua estátua, na praça ampla, olhando a avenida larga e o mar infinito, Cristovão Colombo é o herói universal que descobriu as Américas. Mas antes de voltar era “apenas uma anedota”. A partir dele é que veem a Exposição Universal de 1888 e a Exposição Internacional de 1929, até 1992 com os Jogos Olímpicos que definiram o novo urbanismo e a nova arquitetura da nova cidade.

Barcelona é símbolo de todos os mundos, do romano até hoje.

ADOLFO SUAREZ

Em 1975 estive aqui. Franco tinha acabado de morrer e as asas negras da ditadura haviam voado para fora da Espanha. Em 1977 voltei. Santiago Carrilho e Dolores Ibarrure, a Passionária, líderes do partido Comunista, voltavam do longo exílio em Moscou e na França. Isidoro, nome de guerra do jovem Felipe Gonzalez, saído da clandestinidade convocava entrevista coletiva para anunciar a refundação do secular PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol).

Federica Montseny, líder anarquista, primeira mulher ministra da Espanha, voltando do exílio em Lyon, reuniu multidões nas praças de Touros. E eu lá.

Manuel Fraga, da Galícia, fundava o partido Popular e Adolfo Suarez, o grande, incomparável estadista, entendia-se com o rei e começavam a construção da nova Espanha legalizando todos os partidos políticos, instalando a liberdade de imprensa, convocando a Constituinte e comandando as eleições de 1977.

A NOVA ESPANHA

A nova Espanha nasceu das mãos valentes de um jovem rei, o Juan Carlos, que desafiou pessoalmente e esmagou um golpe militar, de um jovem político como Adolfo Suarez que refundou o partido franquista e de jovens dirigentes partidários como Felipe Gonzalez do PSOE e José Maria Aznar do PP. O que a Espanha é hoje deve muito, deve tudo a eles.

A Espanha provou a democracia e gostou. Em julho, nas eleições regionais, uma mulher, Manuela Carmena, de 71 anos, elegeu-se prefeita da capital Madri pelo novo partido de esquerda, o “Podemos”. Também pelo “Podemos” a jovem e bela Ada Colau, de 41 anos, se elegeu prefeita da segunda maior cidade da Espanha, esta Barcelona.

No fim do ano serão realizadas as eleições gerais para o novo parlamento que definirá o novo governo. Mariano Rajoy, do PP, que hoje comanda a Espanha, pode entregar o governo ao centro esquerda PSOE ou ao “Podemos” aliado à “Esquerda Unida”. As pesquisas de hoje dão 28,2% para o PP, 24,9% para o PSOE e 15,7% para o “Podemos”.

NOVAS FORÇAS

Mas existem novas forças como a “Esquerda Plural” com 10,3% e o direitista “Cidadãos” com menos de 10%. Se toda esquerda (“Podemos”, “Esquerda Unida” e “Esquerda Plural”) se unir a Espanha poderá ter o primeiro governo de esquerda depois da vitória do PSOE de Felipe Gonzalez, que durou de 1981 a 1996.

Um fato novo na política espanhola é a presença do economista francês Thomas Piketty, famoso com seu best seller mundial “O Capital do século XXI”, ao lado do “Podemos”. Ele elaborou um “Plano Integral de Luta Contra as Desigualdades”:

– “Precisamos de novas forças políticas para mudar a Europa”.

A Espanha continua ensinando democracia.

 

Lições de democracia

Melina Mercouri, ministra da Cultura, e Papandreou

Sebastião Nery

PARIS – Naquela tarde, o aeroporto de Atenas era pequeno demais para uma multidão tão grande. A ditadura militar do coronel Georgios Papadopoulos, que dera o golpe em 1967, caíra de podre e violências, derrubada por ondas de protestos nas ruas no turbulento julho de 1974. Eu estava lá, escrevendo o meu livro “Socialismo com Liberdade”.

Os militares foram obrigados a chamar de volta do exílio, em Paris, devolvendo-lhe o governo, o ex-primeiro-ministro Konstantinos Karamanlis, da ND (“Nova Democracia”), partido de centro, que organizou um governo de transição, convocou eleições gerais e ganhou.

Mas aquela festa era de Andreas Papandreou, fundador e líder do Partido Socialista, o Pasok (“Movimento Socialista Pan-Helenico”), também exilado em Paris, que voltava para disputar as eleições.

Minha amiga grega já me havia levado para jantar com um grupo de dirigentes socialistas correligionários dela. Eu a conhecera dez anos antes, em 1963, eu eleito deputado na Bahia, ela ainda na Universidade, jovem, linda, rosto longo e fino de deusa grega, olhos bem negros, misteriosos, estudando português, apaixonada pelo Brasil.

MELINA MERCOURI

A caminho do aeroporto no carro de um dos secretários internacionais do partido, ele nos avisou:

– Vai haver muita gente na chegada. Guardem o numero deste carro e o nome do motorista. Se nos perdermos, entrem nele, porque vamos direto para o comício na praça do Parlamento e ele levará vocês até lá.

Papandreou apareceu na escada do avião, a multidão em delírio. Atrás dele, uma bonita e sorridente mulher, loura de olhos claros, cujo nome o povo gritava mas eu não entendia. Imaginei ser a mulher dele. Ele foi posto em cima de um carro tipo de bombeiros e fez-se o cortejo.

A bela mulher do avião entrou no nosso carro, deu um beijo em cada um, abriu a janela e passou a saudar a multidão. Era a divina Melina Mercouri, atriz de “Stela” “Fedra” e “Nunca aos Domingos”.

Os gregos ensinavam como derrubar uma ditadura. Com o povo.

TSIPRAS

Passados 40 anos, a Grécia voltou aos tumultuados dias de 1974. Ainda bem que sem ditadura, mas tendo que enfrentar nas ruas e praças a brutal ladroagem dos banqueiros internacionais acoitados em suas instituições cada dia mais poderosas e vorazes: Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Bancos alemães e ingleses.

Mais uma vez a velha Grécia de Péricles, que há 2.500 anos construiu a democracia, reunindo o povo na praça e ensinando-o a votar, dá ao mundo lições de liberdade e união popular. Dois jovens em torno dos 40 anos comandam essa batalha que é uma festa de coragem.

Alexis Tsipras, fundador e líder do Syriza (Aliança Socialista Radical) e Vangelis Meimarakis, líder da “Nova Democracia”, honram os que vieram antes deles no Pasok e na “Nova Democracia”, com todas as diferenças que os novos tempos trouxeram para o mundo e para a Grécia.

BATALHA PARLAMENTAR

A Grécia é um regime parlamentar. Faz o governo com a maioria que saiu das eleições. A bravura política do Tsipras e seus companheiros mostrou mais uma lição grega. Saiu das anteriores eleições com maioria simples, teve dificuldade de compor um governo majoritário, foi encurralado pela insaciável gula dos banqueiros e devolveu a palavra ao povo: renunciou à chefia do governo, suspendeu o parlamento e convocou novas eleições para o país dar a palavra final.

As eleições de domingo premiaram-lhe a bravura: o Syriza elegeu 145 deputados, 5 a menos para completar a maioria absoluta de 150 (em um total de 300). O segundo mais votado, o velho Nova Democracia liderado por Meimarakis, fez 75. O neo-nazista Aurora Dourada 19. O antigo Pasok 17 e o KKE 14. O Syriza já garantiu maioria em aliança que esta sendo negociada com o Pasok (17) e o KKE (14).

ANGELA MERKEL

É uma pena que a esvoaçante Melina Mercouri, com sua coragem e fidelidade ao povo, e os Papandreous não possam estar ai celebrando a firmeza de seus discípulos, quaisquer que sejam as divergências de hoje.

A Grécia precisa estar forte para enfrentar os gangsters da agiotagem internacional, acoitados pela bênçãos melífluas da madre superiora alemã Angela Merkel. Apesar das sofridas concessões que a Grécia fez, o insuspeito jornal espanhol “El Pais” confessa:

“- Se a Gran Recesión foi a maneira de ensinar ao mundo um pouco de economia, a crise do euro obriga o gregos a aprenderem que, votem em quem votem, terão duros ajustes daqui por diante.”

O nome disso é chantagem.

Hungria de novo?

Hungria quer botar na cadeia os refugiados

Sebastião Nery

PARIS – O brutal massacre de Budapeste pelos russos em 1956 traumatizou a Europa e ensanguentou o Leste Europeu, que nunca mais foi o mesmo. Cheguei lá logo depois, indo de Moscou, Varsóvia e Praga. Foi uma historia de horror, pior do que os poloneses e tchecos contaram.

Os húngaros traziam atravessado na garganta o fuzilamento de Lazlo Rajk, seu ministro do Interior, acusado por Stalin de colaborar com Tito, condenado e executado. Janos Kadar, amigo de Rajk, não foi fuzilado, mas foi para a cadeia. Rakosi, o líder do partido que assumira o governo em 1952 apoiado pelas tropas russas, era um stalinzinho sanguinário.

CZEPEL

Em março de 56, com o Relatório de Khrushev, Rajk foi reabilitado, a Hungria se levantou exigindo a saída de Rakosi, que passou o governo para Imre Nagy. Mas era tarde.

A fábrica “Czepel”, que fazia as famosas motos “Czepel” (meu irmão tinha uma linda e poderosa lá no interior da Bahia), chamada de “Ilha Vermelha” porque ficava em uma pequena ilha do Danúbio, à beira de Budapeste, com 10 mil operários, rebelou-se.

A fábrica criou uma comissão operaria e o processo disparou. Em 24 horas já haviam sido criadas milhares de “comissões operarias” A universidade foi para as ruas, os intelectuais para as rádios e jornais. Imry Nagi convocou os antigos socialistas e os sociais democratas, para um governo de unidade nacional. A estatua de Stalin, imensa, foi derrubada.

RUSSOS

De madrugada, os russos, chamados pelo traidor, atravessaram a fronteira e literalmente fuzilaram as esperanças e a alegria do povo que, aos milhões, comemorava a liberdade nas ruas. Foi um massacre. Milhares de mortos e presos. A abertura de Khrushev era só para os russos. Para as colônias, bala. Nagy cometeu a ingenuidade de ir ao comando militar soviético para negociar. Foi levado para Moscou e fuzilado.

Foi com emoção e comoção que vi, na “Ilha Vermelha” do Danúbio, os rombos enormes dos canhões soviéticos nas paredes da “Czepel”.

‘SPACIBA”

Quando disse, em russo, “spaciba” (“obrigado”), ao motorista de taxi que me levou para ver o que restou da “Ilha Vermelha”, ele fechou a cara irado, na porta do hotel em Budapeste:

– “Spaciba no! Spaciba ruski”!(Spaciba não! Spaciba é russo!”)

Não era um protesto. Era um ponto final dele. E meu. Os escassos dólares que me restavam eram para Paris e Roma, até o navio em Genova, já de passagem comprada e volta marcada para o Brasil.

Vendi três “Laikas” em uma loja de materiais fotográficos e fui para a Yugoslávia, para Belgrado. Não eram só os partidos comunistas que crepitavam. Minha cabeça também tinha sido incendiada.

EUROPA

Quase 58 anos depois, aqui estou, nesta mesma Europa, perplexo com a brutalidade do conflito entre levas de populações inteiras de refugiados arrastando famílias e tentando fugir de suas dores e guerras, através de mares que levam a naufrágios, ou fronteiras cada dia mais fechadas de povos que séculos atrás sofreram os mesmos tormentos. Jornais, revistas e televisões repetem uma dolorosa tragédia diária.

  1. – Os 28 ministros do Interior da União Europeia deixaram Bruxelas sem decisão sobre o plano que prevê distribuir em cotas, por países do bloco, 120 mil refugiados. A proposta soma-se ao anúncio anterior de que a União Europeia distribuiria 40 mil asilos. Mesmo se executada, a ideia deixa no limbo 58% dos 380 mil refugiados que a ONU estima terem chegado neste ano à Europa pelo Mediterrâneo, a maioria vinda da Síria, país em guerra civil desde 2011.
  2. – A proposta de cotas, apoiada por Alemanha e França, havia sido anunciada pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Clauder Juncker. Apesar do discurso do ministro alemão Thomaz de Maiziere de que todos “concordam” com o princípio de abrigá-los, nada foi selado. A próxima reunião está marcada apenas para 8 de outubro. Pode ser tarde.

HUNGRIA

As medidas mais extremas são as da Hungria, onde entrou em vigor nessa terça (15) uma lei que prevê a prisão e a deportação de imigrantes sem visto, que passam a ser considerados criminosos(e não contraventores). O primeiro-ministro conservador Viktor Orban é um dos opositores mais radicais da acolhida aos refugiados. Seu país abriga 50 mil pessoas que ali ficaram ao tentar fazer a rota entre a Grécia e a rica Alemanha.

Orban mandou erguer uma cerca na fronteira da Servia, que não é da União Europeia. A historia é assim. Os Stalin e Hitler sempre voltam.