Folclore e realidade, no dia a dia absurdo da poltica brasileira

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O homem a palavra. O mais circunstncia. A histria a palavra. O resto consequncia. Por isso a histria do homem a histria de sua palavra. a crnica de sua linguagem. o cotidiano do possvel dizer.

Na Grcia livre de Pricles, o discurso era a palavra. Na Judia oprimida do Cristo, o discurso era a parbula. Na Idade Mdia torturada de Galileu, o discurso era o silncio. O que a Bblia seno a fbula do povo judeu tiranizado sob os salgueiros da Babilnia? O que foi a tragdia grega seno a metfora da liberdade? E as fbulas do escravo Esopo, cordeiro respondendo ao inqurito do lobo? E Bernard Shaw roendo a empfia do imprio britnico?

PELO ATALHO – Menino de fazenda, cedo aprendi que quando a estrada no d caminho, toma-se o atalho. o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizvel. O humor uma linguagem absolutamente sria, necessria, eterna. Desde o comeo dos tempos, sempre foi mais proibido proibir o humor.

Folclore no histria. a verso popular da histria. Folclore poltico no histria poltica. As histrias vo mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Monteiro Lobato definiu exato: Folclore so as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro.

Se Maurice Latey diz que a histria o povo em ao, est pondo o folclore como categoria cientfica, crnica da vida comum, poema do dia a dia, o contar para o outro, o cantar dos medievais menestris.

PRIMEIRO LIVRO – Quando, em agosto de 1973, no auge do calar a boca nacional, lancei o Folclore Poltico n 1 no Clube dos Reprteres Polticos da Guanabara, com a presena de Jos Amrico de Almeida, Jos Maria Alkmin, Magalhes Pinto e mais de cinquenta colegas de jornalismo poltico, Jos Amrico com sua competente preciso de linguagem, colocou o livro nos termos preciso:

folclore. Nenhuma das histrias a meu respeito inteiramente exata, mas nenhuma inteiramente inexata, E so todas muito engaadas.

E Alkmin: Essas histrias do folclore poltico a gente nunca sabe quais so as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vo se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem que sabe quem a me do cogumelo?

A tiragem de 100 mil exemplares, em trs edies, provou inteiramente sua atualidade.

VALOR POLTICO – As histrias no so minhas. Recolhi-as, uma a uma, aqui e ali, no Pais inteiro, exatamente como me foram contadas. Mas tenho conscincia de seu valor poltico, antropolgico, sociolgico. Elas provam duas verdades verdadeiras, nestes dias de tanta verdade mentirosa.

1 A liderana histrica e permanente do homem poltico na vida nacional. No distrito, na cidade, no Estado, no Pas, sempre foi o poltico quem deu a palavra final. Da a histria das naes ser, antes de tudo, a histria de seus polticos, dos que carregam nas mos o sentimento do povo, sua representao e liderana.

2 O compromisso de dilogo e da liberdade no dia a dia da vida poltica brasileira. Os grandes personagens de nosso folclore poltico, e portanto de nossa poltica, so em geral homens bons, s vezes primrios, mas compreensivos, liberais, humanistas, sbios. A crnica do dio, da violncia, da truculncia, da tirania que tanto se v hoje por ai, no faz parte deste livro. Ela um grito, um gemido, um ai de exceo. No est no cotidiano de nosso viver.

Constatar isso j ver abertas as janelas do amanh.

Delfim Netto sempre foi assim: do poder, pelo poder, para o poder

Delfim fez uma carreira meterica no regime militar

Sebastio Nery

Em Paris, 1977, ligo para a embaixada do Brasil: O embaixador est? Sim, o senhor ministro est. Quem deseja falar com ele? assim. No o embaixador, o ministro. No o homem daqui, do exterior, o homem da, unha e carne com o dia-a-dia nacional. O homem integrado numa jogada poltica, hora a hora, minuto a minuto. O homem do poder, pelo poder, para o poder. E o poder, j ensinou a Histria, a crnica do permanente instante.

Como sabia Napoleo, insupervel guru destas plagas. No sei por que, talvez exatamente por isso, em Napoleo que penso, s 8 da manh fria desta disfarada primavera parisiense, quando entro no nmero 5 da rua Amiral dEstaing, residncia do embaixador do Brasil na Frana. No gabinete amplo, de livros at o teto, est ele como um universitrio ingls, daqueles dos filmes de antigamente, uma ilha de sabedoria cercada de papis por todos os lados.

De sabedoria, no sei. Mas certamente de informao. Encontro-o de livro na mo: The Concept of Equality in the Writings of Rousseau, Benthram and Kant, by Alfred T. Williams, 1976.

O GORDO – Quem mesmo este homem discretamente gordo, bem mais magro do que o apelido dos amigos O Gordo -, que est lendo O Conceito da Igualdade, numa fria manh de Paris, 8 horas de sbado?

Nasceu em So Paulo no dia 1 de maio de 1928. (- Condenao ao trabalho? Aparentemente. Mas tambm a liberao pelo trabalho). Pais: Antonio e Maria, imigrantes italianos, do lar. Antonio, funcionrio da Light. Modesto. Quase salrio-mnimo. Nunca bateu o olho no dr. Galloti. Cresceu no bairro do Cambuci, o Brs dois, como qualquer menino pobre, espiando as gulosas vitrines do Natal dos meninos ricos. Com dezesseis anos, ainda no ginsio, primeiro emprego para ajudar o oramento de casa: contnuo da Gessy, que ainda no era Lever. Entra na Faculdade de Cincias Econmicas e Administrativas da Universidade de So Paulo. A, disparou. Foi logo trabalhar como escriturrio do Departamento de Estradas e Rodagem, encarregado do controle de gastos de gasolina. Passou depois para a Bolsa de Mercadorias e Associao Comercial de So Paulo.

ESTILO EUROPEU – Formao toda europeia. Os americanos ainda no haviam multinacionalizado a universidade brasileira. Os professores mais marcantes eram Mr. Stevenson, ingls, que introduziu no Brasil os mtodos quantitativos na economia, a aplicao da matemtica na economia, e Lus Freitas Bueno, em torno do qual se formou o primeiro grupo da escola.

A vida pblica foi uma convocao do presidente Castelo para assumir a Secretaria da Fazenda de So Paulo, quando o Laudo, vice-governador, substituiu o Ademar. O Ministrio da Fazenda foi consequncia de uma exposio ao presidente Costa e Silva sobre os problemas agrcolas do pas. Era a primeira vez que eu o via. Nisso houve uma influncia muito grande do Andreazza. Eu tinha continuado secretrio da Fazenda do governo do Sodr. Sai de l para o Ministrio. Desde 52 sempre cooperei com o governo, participando da formulao de alguns planejamentos. No governo Carvalho Pinto, participei do Plano de Ao. Fiquei l de 59 a 63. Antes disso j tinha trabalhado no planejamento da bacia Paran-Uruguai. Em 64, 65, tinha-se criado o Consplan, com o Roberto Campos. Fui convidado para participar. Junto com o Graciano S e com um grupo que estava tentando verificar o que podia acontecer com o pas em dez anos, trabalhamos muito na formao de um plano disse Delfim em 1977, quando eu escrevia na revista Status. Ele era assim: do poder, pelo poder e para o poder.

Havia um Jos Maria Alkmin na poltica do Par

Resultado de imagem para sebastiao nery + folclore politicoSebastio Nery

A sabedoria poltica nacional acha que ela s existe em Minas, Bahia, So Paulo, no nordeste e no sul maravilha. No entanto ela est espalhada de norte a sul. Por exemplo: o Par teve um Jos Maria Alkmim que durou dcadas: Joo Botelho.

Joo Botelho foi candidato a prefeito de Belm. Passou o dia inteiro anunciando um comcio noite, na praa Brasil. Chegou l, no havia ningum. Imaginou um engano, perguntou ao secretario.

– No houve engano no, deputado, a praa esta mesma?

Foi ao bar mais perto, pediu dois caixotes de madeira, ps no centro da praa, subiu e passou a berrar alucinado:

– Socorro, socooorro, socoooooooorro!

Correu gente de todo lado para ver o que era. Assegurada a plateia, ele comeou o comcio:

– Socorro para um candidato

E fez o comcio.

MORTE DO AMIGODeputado no Rio, passou muito tempo sem ir a Belm. Quando foi, encontrou na rua o filho de um grande amigo:

– E o velho? Ainda no tive tempo de abra-lo.

- Papai faleceu, deputado.

Desculpou-se como pde, a vida absorvente do Congresso, a longa ausncia da terra:

– Aceite minhas condolncias, extensivas a todos os seus.

Dias depois, volta a encontrar-se com o rapaz:

– E o velho?

– Eu j disse, deputado. O papai faleceu.

– Ah, foi mesmo. Esta minha cabea! Mas nunca demais renovar a expresso de meu pesar. E deu-lhe um longo abrao. Semanas depois, novo encontro. Foi comeando:

– E o velho?

Mas emendou logo: – O velho sempre morto, no ? Sempre morto.

CAPITO FARDADO Secretrio de Segurana, recebeu em audincia um capito do Exrcito, fardado:

– Tenha a bondade, major.

– Major, no, doutor Botelho, capito.

– Mas major na promoo de minha amizade.

Depois, encontra um cabo eleitoral:

– Como vai? E a diletssima esposa? E as crianas?

– Tudo bem, deputado. A mulher est tima. Mas, por enquanto, um menino s.

– E eu no sei que um filho s? um menino, certo, mas que vale por muitos. Ento, como vo os meninos?

PELO TELEFONE J fora da poltica, no Rio, precisava conseguir uns esclarecimentos no Instituto Flix Pacheco. Ia saindo, o colega da Procuradoria da Caixa Econmica chamou a ateno para o calor desesperado que fazia l fora:

– Mas voc sair daqui desse ar refrigerado e enfrentar o sol da avenida, a p, at a rua Venezuela? Por que no telefona?

Disse que pelo telefone eles no informam. Mas ligou, fez voz macia:

– Meu filho, aqui fala Monsenhor Botelho, do Palcio So Joaquim. O senhor cardeal deseja uma informao.

O funcionrio anotou, saiu do telefone alguns instantes e voltou com todos os esclarecimentos.

Muito obrigado, meu filho. Que Deus abenoe e a mim no desampare. Quando puder venha tomar um caf com o velho Monsenhor Botelho.

Histrias do folclore poltico de Magalhes Barata

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Barata tornou-se o “dono” do Par

Sebastio Nery

Magalhes Barata, revolucionrio de 1924 a 1930, interventor de 1930 a 1945, constituinte de 1946 , senador de 1946 a 1954, governador de 1955 a 1959, amigo de Getlio Vargas, mandou 35 anos no Par. Um dia Abelardo Conduru, respeitvel chefe poltico, rompeu com ele. Fez carta, mandou um vaqueiro levar. Barata abriu, leu, ficou indignado. Conduru mandava tirar o nome da chapa do governo e comunicava que seria candidato pela oposio. Chamou o mensageiro at o gabinete:

Quer dizer que o doutor no quer ser mais candidato? Preciso substitu-lo hoje. Como o seu nome?

Jos Pingarrilho.

Bom nome. timo nome para voto. O senhor vai ser candidato no lugar do doutor Conduru.

No posso, governador. Sou amigo dele, empregado dele e no entendo nada de poltica.

Nada disso. Vai ser, sim. Quem manda no Par sou eu.

Pegou um papel, escreveu ao dr. Conduru:

– Recebi sua carta, lamento a desistncia, mas j providenciei o substituto. o Jos Pingarrilho, nosso amigo comum, um nome altura das tradies do Par.

Foi eleito, derrotando o patro Conduru.

TARTARUGAS – Um compadre, notrio contrabandista, chegou ao posto fiscal de Belm com muitas tartarugas e no quis pagar imposto:

As tartarugas so presente para o compadre Barata.

O fiscal telefonou para o chefe, que telefonou para o secretario do governador, que falou com o governador.

Diga ao compadre que presente se d completo. Ele que pague o imposto e mande logo as tartarugas.

MUDAR DE NOME – Foi visitar uma cidade do interior. Em frente ao trapiche, onde desembarcou, ficava o Grupo Escolar Zacarias de Assuno (o general Assuno era da UDN e tinha sido governador antes dele, derrotando-o). Chamou o prefeito:

Este grupo vai mudar de nome. Vai chamar-se Magalhes Barata, que quem manda no Par

Chama-se at hoje.

LADRO CONHECIDO – Governador, mandou fazer concorrncia para todos os fornecimentos ao Palcio. Vieram as listas de preos, ele mesmo quis conferir. De repente, v uma firma oferecendo tudo mais barato (Manoel Gonalves e Filhos, famosos pelos preos altos que sempre cobravam). Escreveu embaixo:

Indefiro. Eu te conheo, ladro.

Interventor do Par desde a revoluo de 1930, Magalhes Barata prendeu um filho de Jos Augusto Meira Dantas, professor da Faculdade de Direito, velho chefe poltico do Estado, depois senador. Meira Dantas telegrafou a Getlio Vargas protestando. Getlio encaminhou o telegrama a Vicente Rao, ministro da Justia, que mandou um rdio ordenando soltar o rapaz.

Barata estava de sada para uma solenidade no bairro da Pedreira, em Belm. Subiu ao palanque, leu o telegrama e gritou para a multido:

No vou soltar, no. Com Rao ou sem Rao, comigo no pau.

E no soltou.

LICENA-MATERNIDADE – Uma professora do Estado requereu licena-gravidez para o parto do quinto filho. Mandou investigar, soube que ela tinha votado com a oposio. Pegou o processo, deu o despacho:

– Indefiro. Nego a licena. Gravidez no doena. Apanha-se por gosto.

Tinha um candidato a prefeito de Santarm. O diretrio municipal do PSD queria outro. Vendo que ia perder, foi l, conversou, pediu, fez a eleio. Perdeu mesmo: 15 x 5. Levantou-se, pegou o microfone:

Meus senhores, pela primeira vez a minoria vai ganhar. Est escolhido o candidato que perdeu. Todo mundo bateu palmas. Ele encerrou os trabalhos:

E, pela primeira vez, a minoria ganhou por unanimidade.

O sonho do sulto e as fake news

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Donald Trump acha que agora s tem “fake news”

Sebastio Nery

Um sulto todo poderoso acordou desesperado. Sonhou que havia perdido todos os dentes. Ao despertar, mandou chamar o adivinho da Corte para as devidas interpretaes.

Que sonho terrvel! Cada dente perdido significa a perda de um parente de Vossa Majestade.

Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui, insolente!

Enfurecido, o sulto chamou os guardas e ordenou que lhe dessem 50 chibatadas.

Mandou chamar outro bruxo, que foi logo interpretando o sonho do sulto:

Meu grande e excelso senhor! Grande felicidade vos est reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.

O sulto sorriu. Sua fisionomia iluminou-se. Chamou o guarda e mandou dar 200 moedas de ouro ao novo adivinho.

Quando o adivinho saa do palcio, um guarda lhe disse ao p do ouvido:

Incrvel, sua interpretao do sonho foi a mesma de seu primeiro colega. Ao primeiro, o sulto mandou dar 50 chibatadas. A voc 200 moedas de ouro.

Meu amigo, tudo depende da maneira de dizer. O fato o mesmo, a comunicao pode ser interpretada a favor ou contra. O importante dizer o que a plateia ou o interlocutor quer ouvir.

UMA ARTE – Concluso: a comunicao uma arte. como pedra preciosa. Se atirarmos nos olhos de algum, pode ferir. Se a embalamos e oferecemos com ternura, amizade e alegria.

Em tempos de fake news, de buscar todas as mdias para se tornar conhecido e de fazer da comunicao uma ferramenta de primeira necessidade, nada como relembrar de um texto de anos atrs.

Na Frana o debate sobre as fake news esta indo a pleno vapor. Quem a favor, aplaude, quem contra, repele. O presidente Emmanuel Macron, que um lder moderno e esperto, j encontrou a soluo: vai fazer uma lei que est sendo chamada Lei da Primavera, para definir as fake news. J comea enquadrando os ingleses e americanos. Se a Frana tem como traduzir por que pedir a traduo em ingls?

APOIO DOS FRANCESES – O anncio de Macron informa que a pesquisa Odoxa mostra o apoio dos franceses ao projeto para lutar contra as fake news em perodo eleitoral.

Este movimento pode fazer temer uma rejeio macia ideia. De fato, sobre 54.300 mensagens postadas em quatro dias, praticamente a metade exprimia uma rejeio clara ao controle dos contedos pelo Estado.

O espectro da censura foi largamente denunciado mas essas reaes refletiram sobretudo a viso deformadora da realidade da opinio pblica. Em compensao a opinio pblica no conjunto, tem largamente uma posio contrria. Este o ensinamento maior da sondagem.

FAKE NEWS – A expresso designa falsas informaes que circulam na internet, afinal vazia de sua substncia. O Figaro chama a ateno para o termo que surgiu na campanha presidencial americana. Apareceu finalmente no dicionrio de Donald Trump. Nas ltimas semanas o presidente dos Estados Unidos no parou de denunciar as fake news: compreendam, as informaes segundo as mentiras das mdias desonestas.

O que uma fake news? Dar uma definio curta que engloba todas as facetas no coisa fcil, sobretudo em francs. Sempre traduzida por falsas informaes a expresso fake news perdeu uma parte de seu senso original. O ingls distingue fake de falso, o que errado, o que falsificado.

Aventuras de David Lehrer, um guerrilheiro libertrio na volta ao mundo

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Lehrer, antes de tudo, um grande humanista

Sebastio Nery

Desci no aeroporto de Portela de Sacavm, em Lisboa, contratado pela Editora Francisco Alves para escrever um livro sobre a Revoluo dos Cravos de 25 de abril de 1974. Passei no hotel Phenix, na Rotonda do Marqus de Pombal, deixei a mala, telefonei para Marcio Moreira Alves, exilado l, cuja casa era a embaixada dos brasileiros em Lisboa. Atende outro:

Nery, aqui o David Lehrer.

O guerrilheiro africano? Estou indo para a agora.

Dez minutos e o txi me deixava na rua SantAna em Lapa, onde ouvi a mais extraordinria historia de guerra e poltica vivida por um brasileiro no exlio. Fiquei comovido:

David, vamos arranjar um gravador para escrever um livro.

Depois de quatro horas de gravao, David empacou: No d mais, Nery. Mais para a frente a gente continua.

SEM GRAVAES – No houve mais para a frente. Passei uma semana revendo os amigos, Marcito, Irineu Garcia, Moema Santiago e Domingos, Alfredo Sirkis, Mauricio Paiva, a colnia brasileira exilada, e perambulando com David pelas velhas ruas entre vinhos e bacalhaus, arrancando dele, sem gravador, pedaos de suas fantsticas historias. Logo David comeou a dar aulas na Faculdade de Medicina de Lisboa, esperando o fim do exlio.

A aventura de David explica a multisecular tragdia da frica e o fim do poder fascista do salazarismo portugus.

Paulista de 1937, filho de imigrantes poloneses, formado em 1961, em 62 era medico do Sindicato os Metalrgicos de So Paulo e se elege vereador pelo Partido Socialista. No golpe de 64, preso durante dois meses numa cela com o historiador Caio Prado Junior, o fsico Mario Shemberg e o medico Feruz Gicovati, presidente do PSB paulista. Sai e em 65 vice de Franco Montoro, do PDC para a prefeitura de So Paulo. Perdem.

ESPANCAMENTO – Em 66, deputado federal pelo MDB. No AI-5 de 13 de dezembro de 68, preso na madrugada de 17 de dezembro, barbaramente espancado, costelas e rosto quebrado. Em 31, cassado na lista de Carlos Lacerda, 10 deputados e 2 juzes.

Solto, tem a priso preventiva decretada. Atravessa clandestino a fronteira do Brasil com o Uruguai, exlio. Do Uruguai, pelo Chile, vai para o Peru. Governo do general nacionalista Alvarado. No sequestro do embaixador Elbrick, dos Estados Unidos, escreve um artigo sobre a resistncia armada no Brasil, leva revista Oyga, a melhor do pais, dizendo ao diretor Francisco Igartua que jornalista, embora nem soubesse bater maquina. Dois meses depois, j era o redator-chefe.

Em maio de 71, o maior terremoto da historia do Peru soterra varias cidades e mata 300 mil pessoas. Atravessando a p dezenas de quilmetros, por dentro do frio andino, foi o primeiro jornalista a chegar cordilheira. Nos Andes, reencontra a medicina, resolve urgncias, cura feridos, engessa braos.

VAI PARA PARIS – Volta, critica os ministros militares. Tomam seu visto. Recebe da Frana uma bolsa para estagiar em um grande hospital de Paris. Durante trs anos dedica-se cirurgia e ao vinho. Sua atividade poltica limitava-se a conseguir tratamento mdico para os exilados brasileiros sem direito Previdncia e a operar vitimas das torturas no Brasil.

Encontrei-o numa noite interminvel de vinhos e ele me disse que ia largar tudo para entrar na primeira guerra de libertao que o aceitasse.

Amanhecia sobre o Quartier Latin e David, com os passos avinhados,caminhava para alguma turbulenta trincheira do mundo.

Santa Catarina d ao Brasil uma lio de desenvolvimento

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Santa Catarina o Estado com menos desemprego

Sebastio Nery

Cmara Cascudo, gnio de Natal, iluminado pelo sol e pelo sal, ensinou h muitos anos: O Brasil no tem problemas. S solues adiadas.

Na geografia dos estados brasileiros, a relao na distribuio de renda, por habitante, indecorosa. Nas diferentes regies, das mais prsperas s mais pobres, a realidade de monstruosa concentrao de renda nacional. Na desigualdade por unidade federativa, em 2014, o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios) levantou dados para aferir o padro de vida dos brasileiros.

Em 2017, o estudo Inquality in Brazil: a regional perspective, dos economistas Izabela Karpowicz e Carlos Ges, divulgado pelo FMI e Banco Mundial, comprova a abissal distncia entre ricos e pobres. O diferencial focou a renda mensal dos 5% mais ricos e os 5% mais pobres.

DESIGUALDADE – No mais desenvolvido, o Estado de So Paulo, os 5% mais ricos tm renda de R$ 8.200,00 e os 5% mais pobres R$ 165,00. No Rio de Janeiro, fica em R$ 7.600,00 e R$ 141,00; no Paran, R$ 7.600,00 e R$ 197,00; em Minas Gerais, R$ 7.700,00 e R$ 147,00; no Rio Grande do Sul, R$ 7.700,00 e R$ 175,00; na Bahia, R$ 6.300,00 e R$ 82,00; j no Distrito Federal, a desproporo escandalosa, demonstrando o poder da burocracia pblica: os 5% mais ricos tm rendimento de R$ 12.900,00 ficando os 5% mais pobres com R$ 151,00. A desigualdade de renda, na totalidade dos Estados, tem o perfil dos nmeros exibidos naquela amostragem. Alagoas onde esse diferencial mais brutal, expresso com R$ 4.800,00 e R$ 67,00.

Nesse cenrio devastador, o Estado diferencial entre as duas faixas de renda Santa Catarina. Longe de ser um paraso quem apresenta nmeros sobre a desigualdade da renda, 30% menores do que a mdia do pas. A renda mensal mdia dos 5% mais ricos de R$ 6.400,00 e os 5% mais pobres de R$ 285,00.

A realidade catarinense no se expressa apenas nesses nmeros, ainda muito distantes do que deveria ser uma sociedade com efetiva justia social, mas retratam um nvel superior media das outras 26 unidades federativas brasileiras. Nas suas diferentes regies, vem demonstrando o que pode ser feito para o Brasil superar o estgio de brutal concentrao de renda.

MENOS DESEMPREGO – Ainda agora com o Brasil mergulhado na recesso econmica, da qual vem saindo aos poucos, o desemprego nacional de 12,4%. J em terras catarinenses, atestado pelo IBGE, o desemprego de 6,7%. Fruto de um ajuste produtivo, da modernizao industrial, da competitividade e da atrao de novas empresas de bases tecnolgicas. A educao a matriz sustentadora dessa realidade.

Se o setor produtivo tem um vigor acima da mdia brasileira, exibe no seu vasto e belo litoral uma estrutura turstica inigualvel, fruto de trabalho criativo expressado na fisionomia de um povo que tem o prazer de servir ao turista a alegria de viver. Hotis dos mais sofisticados aos mais simples, pousadas surpreendentes pelo nvel de conforto, restaurantes com padro internacional, em Florianpolis, Cambori, Itapema, Barra Velha, Joinville, Blumenau e ao longo das suas praias belssimas.

UM EXEMPLO – Nesse instante da vida nacional de descrena no futuro, de profunda crise moral, de valores abandonados e contestados, a terra de Anita Garibaldi exibe padro econmico, social e de lazer que deve merecer srias reflexes para os brasileiros que acreditam no futuro.

Esta a lio do professor paranaense Hlio Duque que entende de Paran, de Santa Catarina e do Brasil.

###Fim de ano frias. Volto em janeiro.

Um gordo chamado J (ou um gnio chamado J)

J Soares, grande artista, grande figura

Sebastio Nery

Talvez o ttulo mais correto fosse: Um Gnio Chamado J. Essa histria est recontada no magnfico livro de J Soares e Matinas Suzuki Jr, O Livro de J, da Companhia das Letras, que tanto sucesso est fazendo.

A histria mais famosa de Gilberto Amado foi relatada por Sebastio Nery no seu Folclore Poltico, envolvendo um dilogo entre ele e Getlio Vargas. Aproveitamos esse caso em meu espetculo Brasil: Da Censura Abertura, de 1980, que escrevi com Armando Costa e Jos Luiz Archanjo, baseado no anedotrio poltico nacional recolhido por Sebastio Nery, cujo elenco era composto de Marlia Pera, Sylvia Bandeira, com quem eu estava casado ento, Camila Amado, Marco Nanini e Geraldo Alves. Eis o trecho:

- Presidente, eu quero ser governador de Sergipe.

Por que, Gilberto?

Porque eu quero. a hora.

Mas, Gilberto, tu, um homem to grande, ser governador de um estado pequeno?

Eu quero dirigir minha tribo, presidente. Isso fundamental pra minha vida.

Ora, Gilberto. Eu te conheo muito bem. Essa no pode ser a verdadeira razo.

Claro que , presidente.

No pode ser. Governar por governar? Isso no existe para um homem do teu tamanho, da tua grandeza.

Tem razo, presidente. O senhor quer que eu diga, eu digo. Eu quero ser governador pra roubar, roubar, roubar do primeiro ao ltimo dia! (Andando de um lado para o outro) Roubar desesperadamente! Ouviu, presidente? Roubar! Roubar! Roubar!

UM DISCURSO DE DUTRA – Outra histria, esta em homenagem ao general Dutra:

Casado e calado. O presidente Dutra foi, talvez, o nosso poltico mais calado desde o tempo em que ele era ministro da Guerra. Levantava-se todo dia s quatro da manh, fazia uma inspeo na Vila Militar e s seis e meia estava no ministrio. Ia sempre acompanhado de um ajudante de ordens que nunca lhe ouvia a voz. Uma manh, assim que ele chegou, o ento major Humberto de Alencar Castello Branco (futuro primeiro presidente da ditadura militar), oficial de gabinete, perguntou ao ajudante de ordens, capito Fragomeni:

Ento? Como que est o homem hoje?

timo. At conversou muito comigo.

No me diga!

Conversou sim. Quando a gente chegou na altura do Maracan, ele respirou fundo e disse: T quente hoje!.

Puxa! E olhe que ele no de fazer discurso longo de manh.

UM ALMOO COM CLOUZOT -Dos 4 aos 79 anos, J ator, escritor, diretor de teatro, msico. Ele conta:

Em Paris, meu pai almoava com Gilberto Amado e eu fui encontr-los. O menu do restaurante da Maison de lAmrique Latine variava conforme o dia da semana, oferecendo um prato tpico dos pases da Amrica Latina. Sbado era o dia da feijoada e fomos nos encontrar com os brasileiros que viviam na capital francesa. Gilberto Amado estava l com sua filha Vera e o genro, o famoso cineasta francs Henri-Georges Clouzot. A atriz Vera Clouzot, como ficou conhecida, aparecera em 1953, no timo filme realizado pelo marido, O salrio do medo, que ganhou o Gran Prix no Festival de Cinema de Cannes e o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim.

Apesar do sucesso de Clouzot, seu sogro, Gilberto Amado, homem de opinies fortes, o detestava. A dada altura da feijoada o diretor se levantou para ir conversar em outra mesa, e Amado no perdeu tempo. Virou-se para Vera e falou:

Por que voc no pe chifres neste homem? Voc tem que cornear este homem, ele um chato!

O bom humor a nica qualidade divina do homem, ensinava Marzago

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No Mxico, Marzago foi dirigente da Televisa

Sebastio Nery

Eleito presidente, Tancredo Neves foi aos Estados Unidos e Europa. Passou pelo Mxico. Augusto Marzago, vice-presidente da Televisa, a maior televiso do Mxico, organizou uma entrevista coletiva. Desde a Copa de 70, quando o Brasil ganhou o tri com a maior seleo mundial de todos os tempos, os mexicanos so siderados pelo futebol brasileiro. Um jornalista perguntou a Tancredo: Presidente, fcil ser eleito presidente da Repblica no Brasil?

, sim. Difcil ser escolhido tcnico da seleo brasileira.

Eleito presidente da repblica, Jnio tambm deu suas voltas por ali: Estados Unidos, Europa. Foi ao rancho de frias do recm- eleito presidente John Kennedy. Na beira da piscina dois jovens senhores tomavam um drink. De repente Jnio percebe que eram Kennedy e Marzago, j ntimos. Jnio se espanta:

Esta demitido senhor Marzago. No meu governo nenhum auxiliar vai frente do Presidente.

Kennedy deu uma gargalhada e ficaram os trs papeando beira da piscina.

MARZAGO – Quem entendia de Augusto Marzago era Silvestre Gorgulho, amigo, aliado, irmo. O Brasil perdeu o humor e a competncia do bruxo da comunicao. Alto, elegante, culto, foi uma bela biografia internacional. Quando diretor do Instituto Brasileiro do Caf em Trieste, na velha Iugoslvia, Marzago conviveu com estadistas, jogava biriba com seu amigo Cardeal Giovanni Montini, de Milo, depois Papa Paulo VI. Tomava usque com John Kennedy beira da piscina de Camp David, casa de fim de semana dos presidentes americanos. Tinha um rol de amigos artistas e compositores na sua agenda cultural.

De volta ao Brasil, em 1965, Marzago foi trabalhar na Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, onde conheceu o advogado Carlos de Laet, que atentamente ouviu seus planos para a realizao, no Rio de Janeiro, de um Festival de Msica Popular. O governador Negro de Lima vibrou e apoiou. E assim nasceu o FIC Festival Internacional da Cano.

Os FICs mudaram e enriqueceram, no s a msica popular brasileira, mas a prpria vida inteligente do Pas. A nova musica brasileira e baiana, Joo Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, os Doces Brbaros, nasceram ali.

FAMA DE BRUXO – Marzago, em 1988, faz valer sua fama de Bruxo a servio de Jnio Quadros (eleito prefeito de So Paulo) e, depois, secretrio particular do Presidente Jos Sarney.

Seus textos, suas conferncias, seus livros e suas anedotas esto ainda muito vivos. Tenho em meus alfarrbios o projeto que Marzago preparou para fazer em Braslia um grande Festival Internacional da Cano.

Guardo em mim uma inesquecvel lio dele cada vez mais verdadeira: O bom humor a nica qualidade divina do homem.

Dom Helder sem Marx, na fase mais dura do regime militar…

Resultado de imagem para dom helder camaraSebastio Nery

A Bahia fazia 400 anos, em 1949. Houve um congresso eucarstico em Salvador. Muitos bispos e padres se hospedaram no nosso multissecular Seminrio Central, que hoje o magnfico Museu de Arte Sacra, com suas imensas janelas coloniais. Cada um de ns do Seminrio Maior ficou encarregado de secretariar um bispo ou um padre. A mim, com 17 anos, coube o magrrimo, falante e simptico padre Helder Cmara. Ajudei-lhe as missas, carreguei o Brevirio, acompanhei-o pela cidade, a caminho dos atos pblicos do congresso.

Uma noite, ele teve uma longa conversa com professores e seminaristas, sobre o pas e a poltica. Tnhamos alguns padres fervorosamente integralistas. Lembro uma frase dele: Tambm eu fui algum tempo integralista. Naquela poca, depois da revoluo de 30, o Brasil se dividia entre o Integralismo cristo e o Comunismo ateu. Fiquei com o Integralismo cristo. Hoje temos a doutrina social da Igreja, mais crist e mais profunda que o Integralismo.

UM BILHETE – Em 1964, depois do golpe, ele j arcebispo de Olinda e Recife, mandou para o quartel do 19 BC do Exercito, em Salvador, onde sabia que eu estava preso, um bilhete que s me foi entregue na sada:Meu caro sacristo. Esto maltratando voc? O Cristo h de lhe dar foras. Rezemos. (as.) Padre Helder.

Numa tarde de 1971, eu estava na avenida Rio Branco, no Rio, na pequena redao do Politika, o primeiro semanrio de oposio ao golpe de 64 (houve o Pif-Paf e havia o Pasquim, mas eram de humor).

Fundado e dirigido pelo saudoso Oliveira Bastos e por mim, o jornal enfrentava uma dura censura prvia toda semana. Apareceu o jornalista, professor e escritor pernambucano Harrison de Oliveira, mestre de histria do Colgio Pedro II e da Universidade Cndido Mendes, com uma jia rara.

UMA ENTREVISTA Harrison tinha na pasta uma longa e polmica entrevista de Dom Helder Cmara, o valente arcebispo de Olinda e Recife, que estava desafiando a ditadura aqui dentro e denunciando-a em conferncias pelo mundo. O padre Henrique Neto, assessor dele, tinha sido barbaramente assassinado. Era no governo Mdici, uma censura terrvel e Dom Helder falava sobre o Nordeste, o Brasil, o mundo e a Igreja. Harrison, amigo e compadre dele (tem um filho chamado Helder), no conseguiu publicar a entrevista em nenhum jornal. No deixariam sair tambm no Politika.

Oliveira Bastos estava no Par, resolvi no mandar a entrevista para a censura, publicar de surpresa e ver no que dava. Deu no que deu. Fizemos a capa com uma foto grande de Dom Helder e apenas esta manchete:Dom Helder entre Cristo e Marx!

SEM MARX – Harrison telefonou avisando para Dom Helder, que vetou: No estou com Marx coisa nenhuma. Sou de Cristo e dos meus pobrezinhos.

Quando o jornal ficou pronto, estvamos preparados para o que desse e viesse. De madrugada, entupimos a kombi do jornal e iamos felizes e vitoriosos para a Distribuidora Chinaglia, na Zona Norte. Na praa Mau, j na espreita, um carro da polcia nos cercou.

Prenderam tudo: o jornal, eu e o Harrison. Foi um dia inteiro de ameaas e sufoco na Polcia Federal. Ficaram furiosos com o nosso golpe falho. Por pouco no conseguimos. Diziam: Sobre Dom Helder, nem a morte da me.

A hora da Previdncia, que foi resultado de muitas lutas histricas

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Charge do Pelicano (Charge Online)

Sebastio Nery

Os poetas sabem das coisas. Fernando Pessoa, como poucos: O homem e a hora so um s / quando Deus faz e a historia feita / O mais carne, cujo p / a terra espreita. Os trs acabam sendo uma coisa s: o homem, a hora e a histria. A histria a hora acontecendo. Na hora, o homem faz a histria acontecer. Com as lutas do homem, a histria vai surgindo do ventre do tempo.

Cada passo dado no Brasil, ao longo de dois sculos, para construir a Previdncia Social, foi fruto de todo um longo e penoso processo, permanente e irreversvel. Cada fato precedido de muitas e muitas lutas.

BELA HISTRIA – uma bela histria, que ningum contou melhor do que uma brilhante equipe do ministrio da Previdncia, comandada por Jorceli Pereira de Sousa, que pesquisou, organizou, escreveu, em 2002, com seus companheiros Mnica Cabaas Guimares, Vinicius Carvalho Pinheiro, Delubio Gomes Pereira da Silva, Tereza Augusta dos Santos Ouro e Francisco Orru de Azevedo, o livro Os 80 Anos da Previdncia Social.

Os trs grandes marcos da Previdncia no Brasil so a lei do paulista EloY Chaves, de 1923, governo de Artur Bernardes, a criao do Ministrio do Trabalho, Indstria e Comrcio (e Previdncia), por Lindolpho Collor (av de Fernando Collor), na revoluo de 30, governo de Vargas, e a Lei Orgnica da Previdncia Social (n 3.807) de 1960, governo de Juscelino, projeto do inesquecvel deputado Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte.

MUITAS LUTAS – Mas as Naes no caem do cu, como estrelas. Para cada vitria, sempre muitas lutas. A primeira medida governamental com efeito prtico foi o decreto 9.912, de 26 de maro de 1888, regulamentando o direito aposentadoria dos empregados dos Correios. Tambm em 1888, foi criada uma Caixa de Socorros em cada uma das Estradas de Ferro do Imprio.

Ainda nos fins do sculo XIX, foram institudos o Fundo de Penses do Pessoal das Oficinas de Imprensa, a aposentadoria para os empregados da Estrada de Ferro Central do Brasil, posteriormente estendida a todos os ferrovirios, o Montepio Obrigatrio dos empregados do ministrio da Fazenda e a aposentadoria por invalidez e penso por morte para os operrios do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e seus dependentes.

Era a Previdencia Social engatinhando.

SEGURO – Em 1894, Jos Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque, senador por Pernambuco, apresentou projeto criando um seguro contra acidentes do trabalho.

Em 1908, o sergipano Mauricio Graco Cardoso, e o paulista Altino Arantes, depois presidente de So Paulo, de 1916 a 20, tambm apresentaram projetos criando o seguro de acidentes do trabalho.

Em 1917, o deputado Mauricio de Lacerda, do Rio (1912 a 20), jornalista, vereador e prefeito de Vassouras, pai de Carlos Lacerda, defensor das lutas e greves dos operrios, um dos fundadores da Liga Socialista, havia apresentado um projeto criando o Cdigo do Trabalho, estabelecendo, entre outras medidas, carga horria de 8 horas dirias de trabalho e proibio de trabalho aos menores de 14 anos.

HOUVE REAO – Todo o empresariado (como sempre, no Brasil) ficou logo contra o projeto de Mauricio de Lacerda, que no foi adiante. Mas Fernando Pessoa sabe mais do que a CNI, a Fiesp, a Firjan e todos os dinossauros patronais: O homem e a hora so um s, quando Deus faz e a historia feita

Como o poeta, o povo tambm sabe: o Bolsa Famlia a Aposentadoria dos pobres e a Previdncia dos miserveis.

Comprada por FHC, a reeleio se tornou a me da corrupo

Resultado de imagem para reeleio + fhcSebastio Nery (Fotocharge reproduzida do site GGN)

H 2.500 anos, na Grcia, Pricles chamou o povo para a praa pblica e mandou decidir tudo pelo voto. Comeava ali a civilizao. Cada um valendo um. O voto o homem como um animal igual. a mais antiga e duradoura inveno social da humanidade. Com a roda, a plvora, a eletricidade, o rdio, a televiso, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. No enche barriga, mas derruba as tiranias.

A emenda da reeleio de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na botija de Sergio Motta. A reeleio uma rima de co. a vitria irrefrevel da corrupo em todos os nveis: presidncia, governadores e prefeitos.

INSULTO NAO – Quando Fernando Henrique comprou a reeleio, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justia e do Supremo Tribunal Federal, escreveu:

A reeleio um insulto Nao, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens pblicos que passaram por este pas. Se os generais tivessem querido, tambm teriam sido reeleitos. No faltariam apoios.

Pois bem. Foi preciso que chegasse presidncia da Republica no um militar, no um general, mas um civil, no um homem de caserna, mas um professor universitrio, para que o Brasil regredisse ao nvel mais baixo da Amrica Latina em matria de provimento da chefia do Estado.

A Constituio brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleio dos presidentes. Sempre se vedou a eleio de Presidente para o perodo imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito viso histrica nacional, para que a Constituio mudasse a favor de seu intento.

DISSE DA TRIBUNA – Josaf Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleio:

– A Constituio de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam outros cargos, obrigando-os a renunciarem at seis meses antes do pleito.

Se o titular dos postos executivos est obrigado a renunciar para habilitar-se eleio de outro cargo, por maior razo lgica h de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do mesmo lugar.

O fundamento moral e poltico de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o fora a deixar o cargo pretendendo outro, cresce se seu propsito ser reconduzido ao mesmo posto, de onde pode exercer influncia preponderante no processo eleitoral.

REELEIO COMPRADA – No adiantou a reao dos dois ilustres juristas e da maioria da Nao. Fernando Henrique ronivonou o Congresso e a reeleio foi comprada.

(O ex-deputado RONIVON Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleio. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corra (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleio).

A reeleio o princpio e o fim de todo tipo de corrupo por um motivo claro: no exerccio do poder governadores, presidente e prefeitos tm muito mais fora para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro pblico. O Mensalo mostrou isso e o Petrolo tirou a prova dos nove, comprovando que reeleio rima com corrupo no mais alto grau de depravao.

Voto e alternncia de poder so a mais antiga e duradoura inveno social da humanidade.

O primeiro milagre de Brasilia foi uma chuva de pedras de gelo

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Juscelino e Bloch, dois amigos de verdade

Sebastio Nery

Trs dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luzinia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Braslia. Estava triste e deprimido por tantas injustias e perseguies, e fez a esse seu primo e meu xar a seguinte confisso que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

Meu tempo, aqui na terra, est acabado. Tenho o qu, de vida? Mais dois, trs ou cinco anos? O que eu mais quero agora morrer. No tenho mais idade para esperar. Meu nico desejo era ver o Brasil retornar normalidade democrtica. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimares e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para So Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em So Paulo.

No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

Ele deu-me um abrao to forte e to prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Braslia.

E morreu dormindo. Mas, desde a vspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a So Paulo busc-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje : por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real inteno de no ir para Braslia e sim de retornar ao Rio? No queria que dona Sarah soubesse? Seria algum encontro amoroso? E era.

Esta uma das muitas, numerosas histrias contadas pelo veterano jornalista e acadmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revoluo de 30), com mais de meio sculo de redaes, em seu livro, Tempo Diferente (primorosa edio da Topbooks, sobre 20 personalidades da poltica, da literatura e do jornalismo brasileiro:

PEDRAS DE GELO – Naquela nossa primeira noite em Braslia, aps um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de usque, que era bebido ao natural, isto , quente, porque em Braslia no havia ainda energia eltrica e, portanto, no havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou :

Vocs sabem que eu no gosto de usque. Mas que uma pedrinha de gelo, a nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o cu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele Planalto, levando os bomios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar usque com gelo.

Era o primeiro milagre de Braslia.

BILHETE DE ADOLPHO – E este bilhete de Adolfo Bloch a Carlos Murilo, j na Manchete em Braslia:

 

Murilo, ai vai esta lancha para voc fazer relaes pblicas no lago de Braslia. No faa economia em relaes publicas. Ns, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relaes pblicas. E fizemos um mau negcio, porque um homem como aquele no se perde.

No h Republica sem homens honestos

Resultado de imagem para Ortega y GassetSebastio Nery

Agamenon Magalhes, governador, ministro, patriarca de Pernambuco, era um poltico sbio: – O homem pblico no poder no compra, no vende, no troca. Outro sbio, Ortega y Gasset, filsofo espanhol, em 1921, perplexo diante do desfibramento da poltica e da sociedade espanhola, escreveu Espanha Invertebrada, sobre os rumos e o futuro da Nao: – Uma sociedade mope agrava a enfermidade pblica, prestigiando polticos sem virtudes que impem as suas vontades e interesses em detrimento dos verdadeiros valores nacionais.

Roberto Dvila, com seu talento e competncia profissional, entrevistando Lula, na Globo News, tentou tirar leite das pedras, extrair alguma luz de uma cabea de bagre. A entrevista foi um descalabro. Uma aula torta de como mentir. Podia ter encerrado a conversa relendo relatrio da Polcia Federal, publicado na Folha de S. Paulo que lista as 15 empresas da famlia Lula.

FAMLIA IMPERIAL – O Brasil teve durante 300 anos uma famlia imperial. Agora sabe-se que tem uma famlia empresarial, que fez o milagre de chegar a So Paulo carregando uma trouxa e meio sculo depois ser proprietria destas 15 empresas:

1 BR4 Participaes Ltda /Capital R$ 4 milhes.

2 FFK Participaes Ltda / Capital R$ 150.000,00.

3 G4 Entretenimento e Tecnologia Digital / Capital R$ 150.000,00.

4 LFT Marketing Esp. Ltda / Capital R$ 100.000,00.

5 LKT Marketing Eireli / Capital R$ 100.000,00.

6 Flex BRT Tecnologia S.A. / Capital R$ 20.000,00.

7 Flex BRT Ltda / Capital R$ 20.000,00.

8 LLCS Participaes Ltda / Capital R$ 1.000,00.

9 LLF Participao Eireli / Capital R$ 80.000,00.

10 Gamecop S.A. / Capital R$ 10.000,00.

11 LLCS Participaes Eireli / Capital R$ 1.000,00.

12 Touchdowm Prom. de Eventos Esportivos Ltda / Capital R$ 1.000,00.

13 Gasbom Cursino Ltda / Capital R$ 2.000,00.

14 Gisam Comrcio de Roupas Ltda / Capital R$ 5.000,00.

15 L.I.L.S. Palestras Eventos e Publicidade / Capital R$ 100.000,00.

com essa L.I.L.S. que Lula assina os recibos das fajutas conferncias.

POVO ATRASADO – O mestre Florestan Fernandes ensinou que o problema do Brasil que somos um povo atrasado.

1 O ex-ministro e professor Joo Sayad, da USP, confirma: – A Democracia ameaa a Repblica se for dominada pela demagogia, por eleitores mal informados. No h repblica sem homens virtuosos: honestos defensores do interesse pblico e corajosos. A Repblica pode se tornar tirania. Repblica e democracia procuram um equilbrio delicado. A Repblica vai mal. Falta virtude. Como tornar os homens pblicos virtuosos? Deveriam ler os clssicos Ccero, Cato, Plato, Aristteles. S assim homens virtuosos poderiam se candidatar sem ter que jantar escondido com financiadores de currculo duvidosos. (Valor Econmico)

2 Professor e diretor do Instituto de Polticas Pblicas da UNESP, Marco Aurlio Nogueira: – A poltica ficou submetida ao mercado e a representao perdeu substncia. A fragmentao e a falta de operacionalidade do sistema poltico fazem com que a democracia, em alguns pases, fique bloqueada e, em outros, passe a ser alimentada por doses expressivas de corrupo e ilicitude. Neste ambiente, os governos e a classe poltica pioram dramaticamente seu desempenho e deixam suas comunidades sem muitas sadas. (O Estado de So Paulo)

O PT nasceu para ajudar a iluminar a vida poltica da Nao. Mas s fez apagar a luz. O Brasil jamais havia descido a um nvel poltico to invertebrado. Ortega y Gasset no viu nada.

O que acontecer a Barcelona, a cidade de Augusto?

Protesto contra a violncia policial no centro de Barcelona

Aps o plebiscito, protesto contra a violncia policial

Sebastio Nery

Ela uma, mas sempre foi muitas, tantas, numerosssimas. Nasceu Laye, cidade ibrica conquistada no ano 133 antes de Cristo pelo romano Lcio Cornlio Scipio, colnia romana nos tempos do imperador Augusto (de 27 antes de Cristo a 14 depois de Cristo), com o mltiplo, imperial e soberbo nome de Faventia Julia Augusta Paterna Barcino, a cidade de Augusto, dos Augustos como eu.

De Barcino para Barcelona foram sculos. Plantada sobre um pequeno monte, o Taber, em meio plancie entre os rios Bsos e Llobregat, s beiras do Mediterrneo, protegida dos ventos norte pela serra da Collserola, a cidade cresceu na rea que hoje o Bairro Gtico onde se podem ver ainda as imponentes colunas do templo de Augusto, cercada de muralhas at o sculo IV quando foi ocupada pelos francos.

INDEPENDNCIA – Ludovico Pio chega ao sul dos Pirineus e nasce o Condado de Barcelona quando se destaca Vifredo o Velloso (Guifr el Pils) e a cidade se desenvolve permanentemente at a invaso de Almamzor (ano 985) que a arrasa e cuja independncia s vai ser restabelecida com o Condado do Conde Borell II no ano 988:

O esplendoroso desenvolvimento de Barcelona acontece a partir do sculo XI com a unio de Catalunha e Arago. No sculo XII, Afonso I torna-se o primeiro conde rei. Jaime I, o conquistador, estende seu reinado at o sul, no reino de Valencia e atravs do Mediterrneo com a conquista de Maiorca, criando a grande confederao Catal-Aragoneza no sculo XIII, com as mximas obras arquitetnicas do gtico e as grandes instituies como o Cdigo dels Usatges, que define a personalidade histrica da Catalunha e de Barcelona.(Escudo de Oro)

COLOMBO – L do alto de sua esttua, na praa ampla, olhando a avenida larga e o mar infinito, Cristovo Colombo o heri universal que descobriu as Amricas. Mas antes de voltar, era apenas uma anedota. A partir dele que vm a Exposio Universal de 1888 e a Exposio Internacional de 1929, at 1992 com os Jogos Olmpicos que definiram o novo urbanismo e a nova arquitetura da nova cidade.

Barcelona smbolo de todos os mundos, do romano at hoje. Neste primeiro de outubro de 2017, uma crise geopoltica abala a Espanha: o referendo pela independncia da Catalunha venceu com 90% dos votos, segundo o governo catalo. Enquanto o presidente catalo diz que Catalunha ‘ganhou direito de ser um Estado’, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, no reconhece o resultado e diz que ‘no houve referendo’.

Apesar da proibio pela Justia, mais de 2,26 milhes votaram no plebiscito e o Sim venceu com 90,09% (2.020.144 votos). O No teve 7,87% (176.565 votos), votos em branco foram 2,03% (45.586) e nulos foram 0,89% (20.129).

ANTAGONISMO – Para o presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, a independncia agora no um assunto interno da Espanha. um assunto da Unio Europeia.

J o primeiro-ministro Mariano Rajoy foi contundente: “No houve um referendo de autodeterminao da Catalunha. Nosso Estado de Direito mantm sua vigncia. No vimos qualquer tipo de consulta, seno uma mera encenao a mais contra a legalidade.

O mundo est ansioso para saber o futuro da Catalunha, uma das 17 regies autnomas da Espanha com quase 8 milhes de habitantes, e responsvel por quase um quinto do PIB espanhol.

A pedra de Minas e a posio dos militares

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Charge do Alpino (Yahoo Brasil)

Sebastio Nery

No restaurante do aeroporto Santos Dumont, no Rio, almoaram, em 1942, cinco amigos, mineiros ilustres: Virglio de Mell

o Franco, Lus Camilo de Oliveira Neto, Pedro Aleixo, Afonso Arinos de Melo Franco e Jos de Magalhes Pinto. Conversavam sobre o livro do padre Jos Antonio Marinho, Histria do Movimento Poltico de 1842, a histrica batalha de Santa Luzia, perto de Belo Horizonte, em que trs mil mineiros em armas, completamente equipados, inclusive com artilharia, haviam enfrentado as foras imperiais.

Os cinco mineiros buscavam uma maneira de comemorar o centenrio da rebelio mineira. Eles queriam fazer alguma coisa que sinalizasse a reao ditadura. No conseguiram. Quem comemorou foi a ditadura de Getlio Vargas, numa cerimnia, no local da batalha perdida, em Santa Luzia, em homenagem a Caxias, o general que esmagou os mineiros rebeldes.

PROTESTO NO IAB – Em agosto de 1943, a delegao de Minas ao congresso jurdico nacional, organizado pelo Instituto de Advogados do Brasil, retirou-se, em companhia da delegao do Rio, em protesto porque o governo proibiu o congresso de tomar deliberaes sobre pontos da maior importncia.

Um almoo de desagravo, no Rio, reuniu 150 pessoas em solidariedade a Pedro Aleixo, presidente da delegao da Ordem dos Advogados Mineiros ao congresso.

Uma tarde, no Banco do Brasil, onde ambos eram advogados, Afonso Arinos e Odilon Braga discutiam a necessidade de ser preparado e divulgado um documento, um manifesto aos mineiros sobre a situao nacional. Odilon Braga escreveu logo um esboo. Virglio de Mello Franco, sabendo do assunto, preparou tambm um anteprojeto.

NO AEROPORTO – Um terceiro texto foi escrito por Dario de Almeida Magalhes. Fizeram uma reunio na casa de Virglio e juntaram os trs em um s. E em um almoo no restaurante do aeroporto, a que compareceram os trs redatores e mais Lus Camilo, Afonso Arinos, Pedro Aleixo e Magalhes Pinto, foi aprovado. E ainda mandaram para Belo Horizonte, para Milton Campos dar seus palpites.

Lus Camilo e Virglio de Mello Franco encarregados de pegaram as assinaturas, no maior sigilo, porque, se a polcia de Vargas tomasse conhecimento, iria abortar. Na ltima hora, como acontece no Congresso, alguns que j haviam assinado retiraram as assinaturas.

Mas saiu. Assinado por 88 lderes mineiros, impresso s escondidas em uma tipografia de Barbacena, com a data de 24 de outubro de 1943, aniversrio da revoluo de 30), o Manifesto dos Mineiros, sob o ttulo de Ao Povo Mineiro, comeou a ser mandado aos pacotes e distribudo, tambm sigilosamente, em todo o pas.

PEDRA DA MONTANHA – Numa manh, em que ia para o centro do Rio com o cunhado Jos Toms Nabuco, Virglio de Mello Franco cruzou na praia de Botafogo com o chefe de Polcia do Rio, Joo Alberto, que lhe disse: “quela pedra que vocs lanaram da montanha ningum mais pode parar”.

Getlio sabia o peso que aquela pedra tinha.

Setenta e cinco anos depois o Brasil esta precisando de quem jogue uma nova pedra. Os partidos no sabem para onde vo. A universidade est sem caminho. A imprensa. perdida em interesses midos. Chegou a hora de se construir uma bandeira que comande as esperanas nacionais. As eleies de 2018 esto ai, na porta. Os idiotas da direita e da esquerda imaginam uma soluo fora da Constituio. Iluso. Pela primeira vez, 75 anos depois, as Foras Armadas esto ensinando que fora da Constituio no h salvao.

Marcello Cerqueira, a imagem de um advogado de verdade

Cerqueira foi defensor dos perseguidos polticos

Sebastio Nery

No dia 12 de abril de 1972, no horror da ditadura Mdici, escrevi em minha coluna na Tribuna da Imprensa e tantos outros jornais: Marcelo Caetano, primeiro-ministro de Portugal: Portugal jamais abandonar o controle sobre suas provncias da frica. Mussolini tambm disse que a Itlia jamais sairia da Abissnia. Acabou berrando de cabea para baixo em um posto de gasolina de Milo. Como um bode imundo. Hitler tambm disse que a Alemanha jamais sairia da Iugoslvia. Acabou enterrado nos pores de Berlim. Como um verme imundo.

No mesmo dia, o embaixador Manoel Fragoso, de Portugal, foi ao Ministrio das Relaes Exteriores e exigiu do ministro Mrio Gibson Barbosa que eu fosse enquadrado no artigo 21 da Lei de Segurana Nacional: Ofender publicamente, por palavras ou por escrito, chefe de governo de nao estrangeira. Pena: recluso de 2 a 6 anos.

ABRIU PROCESSO – O ministro Mrio Gibson oficiou imediatamente ao ministrio da Justia. O ministro Alfredo Buzaid abriu processo.

Era a primeira vez, no Brasil, que algum era enquadrado no artigo 21 da Lei de Segurana. O processo andou rpido. Meu brilhante e gratuito advogado e amigo o jurista Marcelo Cerqueira que, com seu generoso talento j me absolvera outras vezes, brincava comigo: - Nery, voc esta frito. Por menos que isso porque chamou Augusto Pinochet de ditador em pleno exerccio do seu mandato de deputado federal, Chico Pinto foi condenado, tirado da Cmara e levado para a cadeia. Desta vez voc no escapa.

Eu havia decidido comparecer ao julgamento da Primeira Auditoria da Marinha no Rio de Janeiro. Desse no que desse.

RUMO A SO PAULO – Mas nas vsperas do julgamento meus fraternos amigos Graa e Hlio Duque, companheiros de luta na Bahia e de clandestinidade em So Paulo, passaram pelo Rio e no concordaram com a minha ideia de arriscar. Na vspera do julgamento, de madrugada, no carro deles, samos para So Paulo onde esperaramos o resultado no dia seguinte.

Condenado iria para Londrina, de l at a fronteira seguiria para o exlio no Chile e depois Paris. De manh liguei para Jos Aparecido em So Paulo. Ele convidou: - Vamos almoar com o presidente Jnio Quadros na casa do Pedroso (lder do MDB).

Jnio chegou de camisa esporte: - Nery, estava sabendo pelos jornais e o nosso Z me disse que voc ser condenado. No sem razes, sabe-se.

TOMANDO VINHO – Os trs dissolvendo minha tenso com um Borgonha. Pedroso silencioso, sorria, e eu com a cabea na Auditoria da Marinha. s 6 da tarde Marcelo telefona: - Eles so uns desprevenidos. Te absolveram por 4 a 2.

Marcelo havia levantado a tese irrespondvel: a lei de segurana falava em Chefe de Estado que era o almirante Amrico Tomas, presidente de Portugal. Marcelo Caetano no era Chefe de Estado, era Primeiro-Ministro, Chefe de Governo.

O promotor Militar recorreu para o Superior Tribunal Militar. Meses depois compareci ao julgamento. O promotor militar, que no me conhecia, disse que tanto eu tinha certeza de no ter razo que no tive coragem de comparecer ao julgamento. Marcelo disse apenas:

- Senhor presidente do Tribunal, senhores Ministros, apresento-lhes o ru aqui presente. E apontou para mim. Fui absolvido por unanimidade.

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O Rio acaba de fazer uma festa para o lanamento do livro de Marcelo Cerqueira, cidado da cidade e meu advogado imbatvel. Dezenas de amigos foram Livraria da Travessa Leblon abra-lo pelo seu excelente Fragmentos de Vida Memrias.

A falta que Juscelino ainda faz

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Ao assumir, JK foi capa da revista “Time”

Sebastio Nery

O telefone tocou na casa de praia de Madame Schneider, uma francesa amiga de Juscelino Kubitschek, a 20 quilmetros de Saint Tropez, no sul da Frana, onde ele, dona Sarah, as filhas Mrcia e Maristela e o ex-secretrio amigo dileto Olavo Drummond, passavam uns dias descansando, depois de deixar a presidncia da Repblica em 31 de janeiro de 1961.

Era o empresrio, poeta e redator de alguns dos histricos discursos de Juscelino, Augusto Frederico Schmidt, falando do Rio: Juscelino, estou recebendo um clipping das revistas dos EUA. A revista Time est dizendo que voc a stima fortuna do mundo.

Conversaram, Schmidt desligou e Juscelino ficou deprimido, amargurado.

AO LADO DA BRIGITTE – Olavo o chamou para darem uma volta: Presidente, hoje de manh, quando fui comprar os jornais, quem estava na banca era a Brigitte Bardot. Podemos encontr-la de novo.

Juscelino riu. Saram. A primeira pessoa que viram foi a Brigitte Bardot, no auge do sucesso, com aquela carinha de paraso terrestre depois da ma, cercada de fs, tirando fotografias. Juscelino se afastou:

Olavo, se eu sair com essa mulher em um fundo de fotografia, a imprensa vai dizer no Brasil que estou namorando com ela.

Mas no esqueceu a histria da stima fortuna do mundo.

Quatro anos depois, a embaixada da Inglaterra no Brasil mandaria a Londres um documento para o Foreign Office, sob o cd.371/179250: O ex-presidente Kubitschek retornou ao Brasil. No h dvida de que ele popular, com seu charme e suas ideias.

AGRESSO DE JNIO Na vspera de passar o governo a Jnio Quadros em 31 de janeiro de 1961, Juscelino reuniu um grupo de ministros, auxiliares e amigos no Palcio da Alvorada. Chega Jose Maria Alkmin:

Juscelino, estou seguramente informado de que o Jnio vai fazer um discurso agressivo contra voc, na sua frente, na solenidade de transmisso do cargo, no Palcio do Planalto.

Vou passar o cargo ao presidente que o povo elegeu. S o Dutra passou. Quero dar uma demonstrao ao mundo de nossa Democracia.

E se ele fizer um discurso agressivo?

Dou-lhe uma bofetada na cara e o derrubo no meio do salo. Vai ser o maior escndalo da histria da Repblica.

No houve discurso nem bofetada.

Foi em 22 de agosto de 1976 que ele se foi. O Brasil o perdeu e nunca mais tivemos um presidente igual. E que falta ele faz.

PT QUEBROU O PAIS – O pas est fiscalmente quebrado. Os gastos pblicos so superiores arrecadao, produzindo um dficit primrio de 2,2% do PIB (Produto Interno Pblico).

Sobretudo no governo de Dilma, os investimentos em infraestrutura, sade, segurana, educao e outros foram as principais vtimas. A dvida bruta em relao ao PIB produziu o desastre em que estamos mergulhados.

Em 2017, o dficit primrio previsto de R$ 159 bilhes. Para 2018, o cenrio no ser diferente.

A falta de rudimentares conhecimentos da economia da maioria dos polticos e de muitos analistas na rea jornalstica, no enxerga a gravidade do momento em que est mergulhada a economia brasileira. No Congresso e na imprensa prevalece a falta de racionalidade no enfrentamento realista, com propostas que se mostrem consistentes, seja direita ou esquerda.

O reencontro com Waldir Pires e a perda de Carlos Arajo

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O velrio de Arajo foi no saguo da Assemblia gacha

Sebastio Nery

Nestes tempos de mediocridade triunfante, carncia de vocaes pblicas, foi uma festa na casa do advogado Carlos Sodr, em Salvador, o reencontro com velhos amigos como Waldir Pires, Virgildsio Sena, Roberto Santos, Joacy Goes, Hlio Duque, Joo Carlos Teixeira Gomes (o poeta Joca), outros, relembrando uma parte da histria poltica brasileira.

Por exemplo, aos 91 anos, Waldir lcido e ativo na defesa da democracia, nos ensina: A poltica a nica forma de produzir mudanas na sociedade. O governo democrtico no o governo da vontade pessoal do governante. No h falta de inteligncia nos dias atuais. H falta de carter. A civilizao no pode ser a corrupo e o caos, a ansiedade e a opresso. A dignidade humana, os direitos existenciais, os valores da liberdade, devem ser o balizamento na sociedade democrtica. o ser humano a medida e o fim da sociedade.

CARLOS ARAJO – E l se foi um grande gacho e grande brasileiro, o advogado e ex-deputado do PDT Carlos Arajo. Valente e exemplar na luta armada contra a ditadura militar, no movimento estudantil e nas disputas partidrias, na organizao do PDT, sempre com liderana, patriotismo e desprendimento.

Macunama no brasileiro

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Macunama no brasileiro, venezuelano. Quem me ensinou foi o ento embaixador do Brasil em Caracas, Renato Prado Guimares, jovem e competente que l me deu inesquecveis lies.Teodor Koch Grumberg, um alemo aventureiro que se meteu pela floresta amaznica no princpio do sculo, publicou em Berlim, em 1917, em cinco volumes, a histria de suas viagens: De Roraima ao Orinoco. Recolheu lendas da regio, inclusive a de Urariquera e suas peripcias. Nosso Mrio de Andrade, culto e gnio, leu Grumberg no original e mudou Urariquera para Macunama, mito, heri e retrato de nossos povos irmos.

NDIO LIVRE – O brasileiro tem, com o venezuelano, uma marca hereditria fundamental: alm de descendentes de europeus e negros, somos filhos de ndios da plancie, bem diferentes dos ndios das montanhas. O ndio amaznico no est preso s geleiras dos Andes, amarrado a caminhos nvios. o ndio livre, solto, nmade, da plancie. Isso distingue e diferencia brasileiros e venezuelanos dos outros povos da Amrica andina. A jovialidade, a alegria, a musicalidade, a extrema facilidade de comunicao, uma abertura irresistvel para o exterior, tudo isso so coisas muito nossas e deles, muito iguais.

Voc entra em um avio, sai pela Amrica Central, pelo Caribe, e logo percebe quando h brasileiros ou venezuelanos: sempre mais alegria, barulho e graa a bordo. E as mulheres, modstia parte, irresistivelmente mais belas, mais charmosas. o caminhar liberto de Urariquera, alis Macunama, na floresta sem neve e sem fronteiras.

GRANDE SAVANA – Se houvesse neve e a floresta fosse branca e esqulida na infinita taig, ali seria a Sibria deles. Como a grande savana, cercada da floresta tropical, com rios gordos e revoltos, mesmo a Amaznia da Venezuela. Na Sibria vi a mais grandiosa obra humana de ocupao planejada de uma regio deserta, solitria. No Orinoco vi o maior projeto de industrializao e desenvolvimento na Amaznia continental. E sem destru-la. Como sabemos pouco e mal de nossos irmos latino-americanos! Eu que pensava conhecer quase o mundo inteiro, s ento descobri que, na Venezuela, So Paulo fica na Amaznia.

A regio se chama Guayana. O Estado, Bolvar. A capital administrativa, tambm Bolvar. A capital industrial, Guayana. A cidade moderna, planejada, avenidas largas, arborizadas, como Braslia, Puerto Ordaz. Mas quem d vida, e alma, e seiva, e riqueza a mais de 50% do territrio do pas um rio, sagrado como o Nilo, unitrio como o So Francisco, generoso como Amazonas o Orinoco, engordado pelos afluentes Caroni e Apure.

BACIA DO ORINOCO – Os nmeros so grandiosos, amaznicos. Limitada ao norte pela Cordilheira da Costa e a Oeste pela Cordilheira dos Andes, a bacia do Orinoco, ao sul e a leste, praticamente coincide com os limites polticos do pas. Fora as vertentes das duas cordilheiras, 80% do territrio venezuelano correspondem bacia do rio, um territrio de mais de 700 mil km2, com apenas 20% da populao. A regio da Guayana, com 45% do territrio do pas, tem s 3% da populao total.

O Orinoco uma imensa coluna vertebral de oeste a leste, 1200 quilmetros, e, com os afluentes, 3 mil quilmetros navegveis, com possibilidade de integrao ao Amazonas e ao Prata. E embaixo petrleo, muito petrleo. Que sempre foi a ventura e a desventura da Venezuela.