Falta um JK

Sebastião Nery

“Um dia, quando estávamos com o ex-presidente JK na fazenda, chegou um carro com o dono da loja de artigos agrícolas que fornecia insumos para Juscelino, dizendo que havia recebido um bilhete do “Jornal do Brasil”, e um repórter do jornal precisava falar com urgência comigo.

Juscelino, desconfiado como todo bom mineiro, comentou:

– Aposto que é alguma coisa comigo…

Como não havia telefone na região, eu e Ildeu, sabendo que devia ser alguma coisa importante, pegamos o carro dele e fomos para Luziânia. No caminho, vimos, ao longe, na estrada de terra, uma nuvem de poeira. O primeiro carro que parou era do jornal “Correio Braziliense”:

– Como foi o desastre com o Presidente?

– Que desastre? Eu perguntei, perplexo.

– Mas o Presidente não morreu em um desastre de automóvel?

 

– Não, – eu disse – o Presidente está na fazenda e muito bem disposto.

O repórter, que estava com mais pessoas no carro, ficou emocionado quando ouviu a notícia de que JK estava bem, não se conteve e começou a chorar, com o cotovelo apoiado no teto do carro e a mão na testa.

CARLOS MURILO

Voltamos para a fazenda, com um monte de fotógrafos e jornalistas.

Quando eu disse ao Presidente que as rádios haviam noticiado que ele tinha morrido em um desastre de automóvel, JK deu uma gargalhada:

– Eles estão querendo me matar. Sei que tem muita gente que está desejando isso. Mas não vai ser dessa vez que eles vão conseguir.

Dali a pouco, começou a chegar mais gente na fazenda. As pessoas chegavam preocupadas. Queriam apertar sua mão ou abraçá-lo, como se quisessem ter certeza de que ele estava mesmo vivo. Aos poucos, a apreensão foi dando lugar à alegria. E no final, como sempre acontecia quando Juscelino estava feliz, o dia que começara com a notícia de sua morte acabou em festa, como uma grande homenagem à sua vida”.

Dias depois JK morreu em misterioso desastre na Via Dutra, contado em “JK–Momentos Decisivos”, de Carlos Murilo Felício dos Santos, livro definitivo sobre ele. Sábado, 12, JK teria feito 113 anos. Que falta ele faz.

FOLHA

É um velho e macabro ritual na historia brasileira. Quando os presidentes da Republica estão para cair, um jornalão dá o grito em editorial na primeira pagina. E nenhum tem resistido a essas aves de mau agouro. Foi assim com Getulio, Janio, Jango, Collor.

Domingo, de alto a baixo da primeira pagina, em letras garrafais, a “Folha de S. Paulo”, tentando disfarçar mas indisfarçadamente, anunciou a derrubada de Dilma. Não diz como nem quando. Mas logo: “ÚltimaChance”

 

‘Não há, infelizmente, como fugir de um aumento de impostos, recorrendo-se a novas alíquotas sobre a renda dos mais privilegiados e à ampliação emergencial de taxas sobre combustíveis, por exemplo.

 

Serão imensas, escusado dizer, as resistências da sociedade a iniciativas desse tipo. O país, contudo, não tem escolha. À presidente Dilma Rousseff tampouco: não lhe restará, caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa”.

DILMA

Dilma tem sido um patético espetáculo de incompetência e atabalhoamento. Diz uma coisa e faz exatamente outra. As palavras bailam em sua boca como vacas bêbadas soltas no pasto. Cada uma para um lado. Finge de espertalhona e faz do governo um ridículo bate-cabeça.

 

O ministro da Fazenda diz uma coisa e logo o do Planejamento diz outra, porque ela mandou. O Chefe da Casa Civil já nada diz, porque também não adianta, pois ninguém acredita mesmo nele. Nem ele. Confesso não ter a menor competência para entender Dilma. Ou ela passa as noites do Alvorada tomando porres homéricos ou endoideceu de vez.

BARBOSA

A desastrada “nova matriz econômica” que jogou o Brasil no precipício em que estamos vivendo teve três importantes autores:

Dilma, que se considerava ministra da Economia; Guido Mantega cumpridor das determinações presidenciais e Nelson Barbosa secretário executivo da Fazenda de 2011 a 2013. Anteriormente foi secretário Econômico de 2007 a 2008, em seguida secretário-executivo de Política Econômica de 2008 a 2010. Foi também presidente do conselho do Banco do Brasil entre 2009 e 2013 e diretor do BNDES de 2005 a 2006.

Barbosa, como se vê, foi ativo conivente com a política econômica equivocada e um dos arautos do populismo irresponsável maquiador das contas públicas. Dilma tem no ministro do Planejamento o seu porta- voz.

Lula, Dilma, Mantega, Barbosa. Não há pais que aguente essa gente.

Um governo para roubar

Sebastião Nery

Gilberto Amado, senador de Sergipe até 1930, em 1934 queria ser governador. Já escritor famoso, glória e honra de sua gente, faltava governá-la. Eleição indireta comandada pelo Governo, ele foi a Getúlio:

– Presidente, quero ser governador de Sergipe.

– Por que, Gilberto? Você, um homem tão grande, ser governador de um Estado tão pequeno?

– Quero dirigir minha tribo. Isto é fundamental para minha vida.

– Ora, Gilberto, conheço você muito bem. Esta não é a verdadeira razão. Não pode ser. Governar por governar, isso não existe para um homem de seu tamanho, da sua grandeza.

Gilberto Amado sentiu que era preciso apelar. Apelou:

– Pois o senhor quer que eu diga mesmo? Quero ser governador para roubar, roubar, do primeiro ao último dia. Roubar desesperadamente.

Gilberto já estava de pé, as mãos para o alto, os olhos incendiados:

– Isto mesmo, Presidente. Roubar, roubar, roubar!

Gilberto Amado não ganhou Sergipe. Mas Getúlio ficou tão perplexo e encantado que em 1935 o nomeou consultor jurídico do Itamaraty e em 1936 embaixador no Chile. Depois, foi representante permanente do Brasil na ONU, décadas seguidas.Tudo que ele quis.

GABEIRA

Gilberto Amado viveu a vida inteira com o salário de diplomata e direitos autorais. Hoje, se fosse para roubar, iria para um governo do PT. O exemplar jornalista e cidadão Fernando Gabeira denunciou no “Globo” :

– “O Brasil é dirigido por um governo que transformou a política numa delinquência institucional. O país acaba de descobrir o maior escândalo de corrupção da História. Gilmar Mendes colocou o ovo de pé: houve um grande escândalo de corrupção que beneficiou o PT. Dilma fez uma campanha milionária. O “Petrolão” indica que o dinheiro foi para a campanha. Empresas fantasmas já apareceram. Por que não investigar o elo entre a campanha de Dilma e as revelações da Lava-Jato? Como velho jornalista sei que os fatos são como baioneta: sentado neles, espetam”.

O PT pôs Dilma sentada em cima de uma baioneta.

PETROBRÁS

Ainda bem que neste vendaval de números desastrados que são os governos do PT, a Petrobrás, apesar de tudo, da sangria que sofreu, de toda a roubalheira a que foi submetida, não afundou totalmente. Salvou-se.

1.- Seu “Plano de Negócios e Gestão 2015/2019”, determinou corte de investimentos de US$ 206 bilhões para US$ 130 bilhões, como base estrutural na escalada da montanha, forçando a redução do seu tamanho com a venda de partes do ativo no total de US$ 58 bilhões. Hoje a Petrobrás é a empresa mais endividada do mundo: US$ 104 bilhões.

– Felizmente os fundamentos sólidos da empresa resistiram (com enorme prejuízo) aos roubos e rombos. Os acionistas minoritários são as grandes vítimas. No 2º trimestre de 2015, o lucro operacional foi de R$ 9,48 bilhões, mas o lucro líquido que refletirá nos dividendos foi de R$ 531 milhões. No seu estágio de purgatório, deduziu do resultado R$ 2,8 bilhões para quitar parcelas atrasadas do IOF, questionadas na Justiça.

PRE-SAL

– A Petrobrás pagou R$ 1,4 bilhão à Receita Federal de impostos atrasados e optou pela baixa contábil de ativos de R$ 1,2 bilhão. Resultado: o lucro líquido foi 89% menor em relação ao mesmo período do ano passado. A organização administrativa e financeira da empresa passa por essa etapa dramática, onde os brasileiros são os grandes perdedores.

4 – Dona de reservas comprovadas superiores a 12 bilhões de barris, acima da média internacional, a Petrobrás foca investimentos na produção e elevação da extração de petróleo e gás. O pós-sal e o pré-sal serão o “filet mignon” na sua lenta recuperação. Felizmente a evolução dessa produção vem ocorrendo em nível ascendente.

FORTUNE

– Fato relevante: a revista norte americana “Fortune”,especializada em economia, acaba de publicar o “ranking” mundial das 500 maiores empresas do mundo. A Petrobrás ocupa o 28º lugar, definida como a maior empresa da América Latina, dona de ativos de US$ 300 bilhões.

– E a “Fortune” ressalta que suas cicatrizes vão demorar algum tempo para sarar. Projetando os números da “Fortune” em perspectiva de futuro, sem interferência política, sem empecilhos burocráticos, sem investimentos irresponsáveis e sem roubos partidários, a empresa poderá se reencontrar com a sua história, voltando a ser orgulho dos brasileiros.

Para isso é fundamental fazer do cumprimento das Leis Anticorrupção e de Improbidade Administrativa dogmas intocáveis. O país põe nas mãos da Operação Lava-Jato, do juiz Sergio Moro e do Supremo Tribunal a certeza de que o PT não conseguiu o naufrágio da Petrobras.

Petrônio e Dilma, uma diferença abissal

Petrônio acumulava sabedoria política

Sebastião Nery

No dia 7 de maio de 1977, Brasília era um cemitério cívico coveirado pelo general Geisel, que dias antes editara o Pacote de Abril, fechara o Congresso, rasgara a Constituição da Junta Militar e passara a legislar como um Nero em sua Roma tropical. Como sempre fiz ao descer na capital, liguei para Petrônio Portela, presidente do Senado.

– Ótimo. Vamos conversar. Passe amanhã cedo lá em casa.

Fui. Gravador sobre o sofá, quatro horas de uma interminável, direta, vibrante conversa. De quando em quando, ele punha o dedo no stop, desligava e dizia coisas dos bastidores, impublicáveis, apenas para meu conhecimento. Lembro da defesa calorosa do nome do general Figueiredo (era maio de 77, dois anos antes da escolha, e ele ainda não sabia o que Geisel pensava) e uma análise crua, dura sobre o “despenhadeiro” (expressão dele) que seria a chegada do general Sylvio Frota ao Planalto.

Saí de lá, no dia seguinte o “Correio Braziliense” e a “Ultima Hora” do Rio publicavam páginas inteiras com toda a conversa, sob uma manchete que Oliveira Bastos plantou na primeira página:

“Petrônio, o Bedel do Sistema: porque não aceito a Presidência”.

PRESIDÊNCIA

– “Como? Eu, presidente da República agora em 1978? Mas, para que você não imagine que esteja a fugir de responder frontalmente a uma pergunta saindo pela via oblíqua, eu lhe diria tranquilamente: – acho que se desclassifica para o posto todo aquele que não tiver plena consciência da realidade brasileira e não souber da sua valia ou desvalia para o exercício do cargo maior da República. Eu tenho.

Sei que não teria agora as condições políticas indispensáveis ao exercício do cargo. Seria obrigado, na Presidência, a mostrar sempre os meus trunfos E o presidente da República é um homem que, quando senta na cadeira presidencial, já deve ostentar perante a Nação os seus títulos, os seus atributos, os seus trunfos. E marquei pontos na vida política porque sou um realista. Impõem-se títulos que não ostento”.

É uma pena que Dilma não tenha conversado com Petrônio.

HONESTIDADE

Petrônio falava e o gravador gravava:

– ”Eu diria que outro fator fundamental na minha vida pública é a honestidade com que marco minha vida em qualquer plano. Não mistifico, não adultero, não falseio, sou sempre autêntico, autêntico sem aspas, e tenho para mim que isto tem praticamente dissolvido muitas coisas que contra mim se tenta improcedentemente.

No Senado, onde de fato fiz uma carreira como poucos, jamais se arrolou contra mim gesto menos nobre, uma atitude que me abastardasse, ou me desconceituasse perante os meus companheiros. Isso me confere uma certa autoridade, da qual faço uso em qualquer posto que ocupe”.

“DILMENTIRA”

Em hipótese alguma Dilma poderia dizer isso, falar como Petrônio falava. Ninguém acredita nela e por isso ninguém a respeita. Quem se tornou a “Dilmentira” perdeu as condições para ser acreditada quando fala. A Dilma das pedaladas é a Dilma das enganações. A Dilma dos números proclamados na campanha é a Dilma dos números desmentidos dias depois.

Na campanha a Dilma mentiu tanto insistentemente, tão desfaçatezmente, que não consegue mais falar em publico porque se embrulha nas próprias frases, tropeça na própria alma, Está condenada a carregar o João Santana a tiracolo, como uma bolsa, uma Louis Vuitton da mentira, para ler apenas o que ele escreve. Sem João Santana ela engasga.

E o azar dela é que o João Santana está na Argentina. Mentindo lá.

PIAUÍ

Petrônio falava e o gravador documentava:

– “E quanto ao fato de ser do Piauí, considero um privilégio, porque tenho a impressão de que foi daquela ambiência do lar que tive, da ranzinzice de meu pai, da marginalização do meu povo, que aprendi a ser duro, resistente, tenaz, munindo-me do instrumental indispensável a algumas vitórias que considero etapas normais da vida de quem luta”.

Em um pais tão generosamente grande, onde felizmente todos somos de tantos Estados diferentes (eu sou um múltiplo baiano-mineiro- carioca), ela se perde e perde o afeto de suas gentes que não se identificam com ela. Não pode mais entrar em um restaurante em Minas ou no Rio Grande, com medo de ser vaiada. Tentou misturar-se com os bois de Barretos. Foi pior.

Deus te perdoe teus muitos pecados, Dilma. Sobretudo os da mentira.

LIVRO

(A integra da conversa com Petrônio está em meu livro “Ninguém Me Contou Eu Vi – O Brasil de Getúlio a Dilma” (Editora Geração).

É uma homenagem ao saudoso amigo, que sábado (12-9) faria 90 anos.

Getúlio e Dilma em 24 de agosto

Sebastião Nery

Aquela foi uma noite de cão, o 23 de agosto de 1954. Fez 61 anos domingo. Ninguém me contou. Eu vi, vivi e sofri.

Getúlio encurralado no Catete. Juscelino, generoso, corajoso e solidário, o havia levado a Belo Horizonte no dia 12 para inaugurar a siderúrgica Mannesman. Eu queria ver e ouvir Getúlio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Leu seu discurso com a voz forte, decidida mas tensa. Deixou claro : só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : valente, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Getúlio resolveu dormir em Minas. De manhã, depois do café, Vargas todo arrumado para viajar, com um charuto na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar. A mão miúda, gordinha, fria, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, sorriso contido mas olhar distante, de quem não estava mais ali, perguntava o jornal onde trabalhávamos, de onde éramos.

Em nenhum instante sorriu aberto. Entrou no carro sem olhar para trás, foi para o aeroporto com Juscelino, despediu-se emocionado.

SUICÍDIO

E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as rádios “Nacional”, “Tupi”, “Globo” ficaram de plantão. A “Nacional” era do governo. A “Tupi” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Carlos Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

Recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. Assinou uma licença, deu a caneta a Tancredo , foi deitar-se ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

– “ Licença coisa nenhuma. Ele não voltará ”.

Não voltou. Ficou para sempre. Suicidou-se às 8:30 da manhã.

A CARTA

Passei a madrugada ouvindo as rádios e um pianista cego, no “ Columbia ”, bar restaurante de jornalistas noturnos,na avenida Paraná.

A Carta Testamento começou a ser lida nas rádios. Corri para o palácio da Liberdade, cheio de jornalistas, políticos. Juscelino literalmente arrasado. Nas mãos, enrolada, a Carta Testamento. Pedi uma copia para mim, sai às pressas. A cidade já toda na rua. Armaram um palanque bem ao lado da escadaria da Faculdade de Direito. Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do Partido Comunista, comandavam :

– Na hora em que terminar de ler a Carta, não esqueça de apontar para o Consulado Americano e dizer :

– Quem matou Getúlio está ali! Foi o imperialismo americano!

O Consulado ficava exatamente ao lado da Faculdade, com uma Biblioteca Thomas Jefferson logo na entrada:

E fui lendo pausadamente, comovidamente. Não sei que ator baixou em mim. Não parecia que era eu. Até a voz ficou mais alta, poderosa. A multidão chorava e eu também. As ultimas frases li como se estivesse sobre o túmulo de Vargas. Antes de descer, o fogo já subia. Haviam posto gasolina nas revistas e jornais pendurados nos cavaletes, nos livros dentro das estantes e nas grandes fotografias de Lincoln e Jefferson.

Queimava tudo. Fogo sabe bem inglês.O incêndio do Consulado em Belo Horizonte foi uma das fotos mais impressionantes que correram o mundo no 24 de agosto. As Policias Federal, Militar e Civil avançaram batendo. Houve muita pancadaria. Estudantes e povo apanhamos muito.

MONTANHA

Montanha, um investigador enorme, grandalhão, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e jogou no chão, como um embrulho inútil.

Na outra mão, um revolver grande, preto. Pensei que ele ia atirar:

– Ai, meu Deus! Vou morrer aos 22 anos, como Álvares de Azevedo!

Não atirou. Bateu com o revolver no meu rosto, o sangue esguichou e saiu me arrastando para o carro da policia.Roberto e Dimas pegaram um ano de cadeia. Estudantes que derramaram a gasolina seis meses cada. A Policia acusou minhas frases de serem uma senha. Sem prova me soltaram.

 DILMA

Dom Pedro I, acuado, mandou seu recado : – “ Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico ”. Ficou pouco.

Getúlio, isolado, deu um tiro no peito. Dilma, ainda bem, não dará.

Também, e é uma pena, não sairá. Só agarrada, tirada. Falta arranjar um José Bonifácio para cuidar de Michel Temer até ele crescer.

Os políticos, ontem e hoje

Os deputados não enriqueciam, diz Tourinho

Sebastião Nery

Foi meu colega na saudosa Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas e contemporâneo na Câmara Federal (1975–83 pelo MDB e PMDB mineiro). Agora, Genival Tourinho está escrevendo um livro comparando o estilo de vida dos parlamentares de sua geração com os dos atuais: – “Quanto mais recordo mais fico indignado”.

No meio do mês, era comum que os colegas da Câmara formassem filas em uma agência da Caixa Econômica Federal para pegar um empréstimo para segurar o resto do mês:

– “Nós trocávamos avais. Eu cansei de pedir ao colega Tancredo Neves que fosse meu avalista, E eu o avalizava quando ele precisava.”

Advogado e excelente parlamentar, Genival demonstra que a Câmara nunca foi, ao longo da sua história, um clube de privilégios e mordomias. Quando era no Rio e nos primeiros anos de Brasília, os deputados não tinham gabinetes privativos. Além do subsídio mensal, havia a verba de transporte: 4 passagens aéreas de Brasília até a capital do seu Estado. Tinham direito de contratar 3 funcionários. E o apartamento funcional.

CÂMARA

Tudo mudou a partir de 1991, quando a mesa da Câmara promoveu “reforma administrativa” alargando benefícios que se estendem até hoje. Penduricalhos foram introduzidos com verbas variadas e podendo contratar até 27 funcionários. O estilo da representação mudou e não foi para melhor.

Aprovada a Constituição, o presidente da Câmara Ulysses Guimarães indicou o economista e professor Helio Duque, baiano do PMDB do Paraná, ex-presidente da Comissão de Economia da Câmara e um dos vice-presidentes da Executiva Nacional do PMDB, para integrar a Comissão de Orçamento. Sábio e experiente, Ulysses desconfiava do que acontecia lá.

Helio ficou 15 dias, renunciando e relatando ao presidente da Câmara o que lá ocorria: um grupo de parlamentares era subordinado aos interesses das grandes empreiteiras nacionais. Dois anos depois Helio não era mais deputado e o escândalo dos “Anões do Orçamento” chocou o Brasil, levando à cassação do mandato de vários dos seus membros.

O Mensalão e o Petrolão têm pai e mãe.

BANCOS

No começo do Ajuste Fiscal , o governo petista da Dilma e do Lula anunciou que ia “taxar os lucros dos bancos e financeiras, as grandes fortunas e as heranças”. O tempo foi passando e não se fala mais nisso. Mas o governo não esqueceu de taxar os salários dos trabalhadores, as aposentadorias dos trabalhadores, as pensões dos trabalhadores e aumentar os impostos das pequenas e medias empresas.

Escondido, com vergonha, os jornalões, que pertencem aos bancões, deram a noticia escabrosa: o lucro dos bancos chegou a 46%! Em um pais em recessão, com um “crescimento do PIB abaixo de 0%”, não há noticia mais pornográfica. E o Banco Central, a gorda dona do bordel, aumentou a taxa básica de juros para 14,25%, a maior do mundo, alegando despudoradamente que é para baixar a inflação. E a inflação subindo.

PIRÃO

Os jornalões não se envergonham de defender o ajuste fiscal só contra quem vive de salário ou aposentadoria e contra a indústria e comércio que produzem. Sabem por que? “O “Globo” abriu o jogo:

“O governo vai honrar o acordo feito na Câmara para não impor vetos à desoneração da folha de pagamento de setores da economia acordados com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Na negociação com a Câmara, segundo fontes do Planalto, o governo concordou em manter a desoneração para três setores: call centers, transportes e comunicações”.

Vejam bem que coisa mais sórdida. Aumento de impostos para todo mundo, menos para “comunicações” (jornais, rádios e TVs) , “transportes” (ônibus, metrôs, trens) e “call centers” (centrais telefônicas)

Eles passam dia e noite falando em “liberdade de expressão”, “igualdade de direitos”, “sacrifícios coletivos”. Mas põem a faca na garganta do governo só em defesa dos interesses deles.

Farinha pouca meu pirão primeiro.

BOMBA JUCÁ

O senador Jucá, do PMDB de Roraima, líder da Dilma no primeiro mandato, jogou um bomba no Planalto na “Folha de S. Paulo” de sabado:

1.- “O quadro de uma eventual deposição da presidente da República não está maduro. Ou o governo muda ou o povo muda o governo”.

2.- “Vai piorar. A arrecadação federal está caindo, a atividade econômica está caindo, os Estados estão começando a quebrar, os setores que ainda empregaram no primeiro semestre, como o comércio e serviços, vão desempregar no segundo semestre, com a classe média com risco de desemprego. Então todo mundo vai ser o mais conservador possível.”

3.- “O governo está na UTI. Pelo amor de Deus não racionem o oxigênio porque depois vai morrer e ai não adianta, já passou a hora”.

Minas era diferente

Aparecido, um mineiro inesquecível

Sebastião Nery

Minas não esquece. Minas é boa de lembranças. Livro de mineiro está sempre relembrando. O passado é o adubo da alma. Como em Guimarães Rosa e Pedro Nava. Ou em Drummond. Mais um belo livro de mineiro contando historias de Minas. O jornalista e poeta (luminoso poeta) Petrônio Souza Gonçalves (“Quem soltou a borboleta azul na tarde triste?”) pagou uma divida de Minas. Lançou “José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo”

50% do texto é do Petrônio. Texto leve, livre, solto. Cada frase um fato. Bem editado, bem ilustrado, rico em fotos e testemunhos. Os outros 50% são depoimentos de jornalistas e escritores mineiros sobre Aparecido:

Benito Barreto: -“O Homem e o Amigo”.

José Bento Teixeira de Salles”: “Assim Era Ele”.

Orlando Vaz: – “Articulador Político e Talento Admirável”.

José Augusto Ribeiro: “Dois Raros Momentos da Dupla Jânio-Aparecido”.

Gervásio Horta: ’Poucas e Boas”.

Mauro Werkema: “José de Todos os Amigos”.

Aristóteles Drummond: “O Zé Carioca”.

Guy de Almeida: “Aparecido no DF”.

Angelo Oswaldo: “O Compromisso Cultural de José Aparecido”.

Wilson Figueiredo: – “A Arte de Negociar Divergências”.

Paulo Casé: “Manifesto AAZA”.

Oscar Niemeyer: “JAO”.

Ziraldo: “As Aventuras de José Aparecido”.

Mauro Santayana: “Conversações na Rua Caraça”.

Alberto Pinto Coelho: “Demiurgo das Utopias Realizáveis”.

Silvestre Gorgulho: “Lições e Segredos de Um Mestre”.

E eu: “12 Historias de José Aparecido”.

Por ultimo, o José Maria Rabelo, porque algumas lembranças dele me deixaram a alma dolorida. Em 1950/60 nós éramos jornalistas e ativistas políticos vendo a pátria, o povo, o futuro. Nossos heróis, mesmo quando deles divergíamos, não nos envergonhavam. Hoje, a Operação Lava Jato mostrou uma elite política que afunda no dinheiro, na corrupção.

O José Dirceu, tão preparado e tão guloso,é um desperdício nacional.

JOSÉ MARIA

1.- “A Praça Sete era naqueles tempos, por volta de 1950, o coração político de Belo Horizonte, onde nós, estudantes idealistas, passávamos horas do dia discutindo os problemas daqui e do resto do mundo”.

– “Ao lado de Hélio Pellegrino, Palmius Paixão Carneiro, Fernando Correia Dias, Bernardino Machado de Lima, Wilson Vidigal e outros insensatos salvadores da pátria, todos pertencentes ao antigo Partido Socialista Brasileiro, eu participava ativamente das discussões na praça, não poupando munição contra os adversários: de um lado os integralistas, de outro os comunistas stalinistas. Nós tínhamos a chama da verdade, o socialismo democrático, com a qual iríamos incendiar o planeta”.

– “Um dia, eu estava lá, fazendo minha pregação e distribuindo impropérios à direita e à esquerda. Foi quando um grupo de integralistas se aproximou, com alguns deles passando a insultar-me e ameaçar-me de agressão. Aí surgiu meu futuro amigo, e usando um porrete, que não sei de onde tirara,avançou sobre os provocadores,forçando-os a fugir praça afora”

– “O Zé Aparecido me explicou por que tomara aquela atitude quixotesca, que poderia ter tido outras consequências. Primeiro, porque nunca admitira a ideologia integralista, herdeira do fascismo, de gente como aquela, fanática e totalitária. Segundo, pela iminência de um ato de covardia, diante de seus olhos, com um bando de provocadores lançando-se contra uma pessoa sozinha, unicamente por divergir deles”.

– “A partir daquele episódio, nasceu entre nós uma grande amizade, que se manteria inabalável por mais de meio século, apesar das contingências de tão extensa travessia. Mais tarde, ele foi morar em nossa república, que ficava numa velha casa. Parece-me que hoje tombada pelo patrimônio histórico da capital mineira, no cruzamento das ruas Aimorés e Maranhão, Bairro dos Funcionários. Ali, eu e o Euro Arantes vivíamos e redigimos os primeiros números de nosso jornal “Binômio”.

PETROLÃO

– “Todos levávamos uma vida muito apertada, estudando e ganhando algum dinheiro como jornalistas principiantes. Lembro-me que o Zé Aparecido possuía apenas dois trajes, ou, como se dizia, duas mudas de roupa. Um deles era um terno jaquetão preto, que o acompanhou por longo e longo tempo. De tal forma o jaquetão preto se identificou com o portador, que muita gente achava que ele fazia questão de usar por esquisitice”.

– Nesse tempo, graças a suas relações com a UDN, conseguiu uma cópia do famoso inquérito do Banco do Brasil, revelando uma grossa negociata no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Entre os denunciados, apareciam importantíssimas figuras da República”.

Corrupção sempre houve. Mas o petrolão e o PT são incomparáveis.

A Catta Preta e os Capas Pretas

Ortolani queria fugir para o Brasil

Sebastião Nery

Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da “Blackfriars Bridge” (“a Ponte dos Irmãos Negros”), o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar, e tinha como diretores o cardeal Marcinkus, o conde Umberto Ortolani e o chefe da P-2 italiana (maçonaria), Licio Gelli.

Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados vários outros ligados a Calvi. Não é só em Santo André que se limpa a área. No meio da confusão estava Ortolani, um dos quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Quando, a partir de 1990, a “Operação Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia :

– Isso não vai acabar bem.

O ministério Publico e a Justiça enfrentaram a aliança, que vinha desde 1945, no fim da guerra, entre a Democracia Cristã e a Máfia italiana. Houve centenas de prisões, suicídios. Nunca antes a máfia tinha sido tão encurralada. Responderam com bombas detonando carros de procuradores e juizes. Os grandes partidos aliados (Democrata Cristão, Socialista, Liberal) explodiram. O Partido Comunista, conivente, desintegrou-se. E meu amigo conde, condenado a 19 anos, morreu em 2002, aos 90 anos.

MÃOS LIMPAS

A “Operação Mãos Limpas” não teria havido se um punhado de bravos jovens valentes e alucinados, das Brigadas Vermelhas e dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), não tivesse enfrentado o Estado mafioso. O governo, desmoralizado, usava a Máfia para eliminá-los. Eles reagiam,houve mortos de lado a lado e prisões dos lideres intelectuais, como o filósofo De Negri (asilado na França) e o romancista Cesare Battisti, asilado no Brasil. Eu estava lá, era Adido Cultural, vi tudo, escrevi.

Foram eles, os jovens rebeldes das décadas de 70 a 90, que começaram a salvar a Itália. Se não se levantassem de armas na mão, a aliança Democracia Cristã, Partido Socialista, Liberais e Máfia estariam lá até hoje. Berlusconi foi o feto podre que restou, mas logo foi expelido.

O juiz Falcone (assassinado) e o procurador Pietro (hoje no Senado) comandaram a “Operação Mãos Limpas”. Foram o juiz Sergio Moro de lá.

O CONDE

O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 90 e 91. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata. Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim pobre marquês, adido cultural.

Íamos a discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em Grottaferrata, a poucos quilômetros de Roma. Simpático, vivido, o conde Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o jornal “La Republica”). Mal falava, só perguntava.

Dele eu sabia que era conde da Santa Sé,“gentiluomo di sua Santitá”, banqueiro do Vaticano, sócio-diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Eu o havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 1984, apresentado pelo jornalista José Nêumanne, do “Estado de S. Paulo”.

A MAFIA

O que ele queria de mim? Queria que eu convencesse o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois passaportes que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.

Levou-me a seu escritório na Via Condotti 9, em cima da “Bulgari” :

– Desta sala saíram sete primeiros-ministros : Andreotti, Craxi, etc. O conde era a historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, daquele cardeal Marcinkus até hoje foragido nos Estados Unidos. Há um livro imperdível : “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco Ambrosiano”), do jornalista italiano Ferruccio Pinotti, abrindo as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro com governos, partidos. No “Globo”, o lúcido Merval Pereira denuncia a “lógica da gangue”:

– “Os advogados do empresário Julio Camargo, Figueiredo Basto e Adriano Breta, dizem que Eduardo Cunha está agindo com a lógica da gangue. Acusam Cunha de agir “astuciosamente” para desacreditar os depoimentos do delator (Camargo). Para eles está em vigor a moral da gangue, que acredita triunfar pela vingança, intimidação e corrupção”.

O “BAGUNÇA”

Em Caxias, no Estado Rio, há um restaurante chamado “Bagunça”. É do deputado do PMDB Celso Pansera, que persegue a brava advogada Beatriz Catta Preta na CPI da Petrobrás: Capas Pretas contra a Catta Preta.

O dono da oca

Juruna com seu gravador, dando entrevista

Sebastião Nery

Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças,estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que em Brasília “governo de branco mente”.

Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que levasse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysaneas Maciel e a mim para recebermos o cacique no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, em Copacabana, onde Brizola e Darcy nos esperavam. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado… Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando solene para Brizola.

Darcy disse a Brizola que ele não se sentou porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele sentou-se. Brizola pensou em lançá-lo para o Senado, lançou para deputado, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

Quando saímos do apartamento de Brizola para levar Juruna a um pequeno hotel em Copacabana, perguntei ao cacique porque ele não se sentou ao chegar à casa de Brizola.

– É a lei.

E nada mais disse. Pela lei do índio quem manda é o dono da oca.

SUPREMO

No Brasil, nos países democráticos, a “oca” é o Supremo Tribunal. O STF é a lei. Até chegar a ele, a sociedade tem numerosos degraus legais: delegados, procuradores, juízes, tribunais intermediários. Mas só o Supremo manda sentar-se e levantar-se, dá a palavra final.

Aquelas 11 togas ali sentadas é que abençoam ou amaldiçoam uma lei. Elas são a voz, a garganta da Constituição. Há meses o bravo e sereno juiz Sergio Moro, o hábil procurador Janot, a Policia Federal dão ao pais o magnífico exemplo de cumprimento do dever conduzindo a Operação Lava Jato. Agora, chegará tudo ao Supremo. Ele vai comandar a lavagem final.

Com a palavra os donos da oca.

HISTÓRIA

O professor e ex-deputado Helio Duque, sempre patrioticamente atento ao que acontece no pais, relembra a historia do Supremo:

– D. João VI, em 1808, desembarcou com sua comitiva real no Rio de Janeiro e imediatamente instalou o principal órgão da Justiça Nacional: a Casa de Suplicação do Brasil. Em Portugal, a corte suprema tinha o nome de Casa da Suplicação. Essa é a origem histórica do STF (Supremo Tribunal Federal). Uma casa de Suplicações ou de Suplícios?

– No Império e na República o Supremo sempre foi o guardião da Constituição, mas nas ditaduras o perfil da Corte sofreu reveses. Em 1968, com o AI-5, foram cassados os ministros Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Em reação à violência, os ministros Gonçalves de Oliveira, presidente do STF, e Antonio Carlos Lafayette de Andrada renunciaram em solidariedade aos ministros vítimas da violência.

– No governo Castelo Branco, o ministro Ribeiro da Costa, presidente do STF, advertia: “Pretende-se atualmente fazer com que o Supremo dê a impressão de ser composto por onze carneiros que expressam debilidade moral, fraqueza e submissão.”

SARNEY

Vozes cavernosas e de um passado triste já começam a desavergonhadamente se manifestar. O notório José Sarney, que sempre sabe do que e por que está com medo, acusa:

“O Sergio Moro sequestrou a Constituição e o país. O Supremo Tribunal Federal não pode se apequenar”.

Em artigo o juiz sugere que Sarney é mafioso: “Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é aparentemente favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas”.

NO MUNDO

A duração dos mandatos varia de pais para pais. No Brasil, agora, os ministros dos tribunais superiores têm mandato até os 75 anos, como os demais servidores públicos. Na Alemanha, no Tribunal Constitucional, os ministros têm mandato de 12 anos. Na França, 9 anos. Na Itália, também 9 anos, como na Espanha. À exceção dos EUA e outros poucos, são raros os mandatos vitalícios.

A “vanguarda do atraso” (como o saudoso Fernando Lyra chamava Sarney) vem conspirando para derrubar, nos tribunais, a “Operação Lava Jato”, acreditando que a vitaliciedade poderá ser uma aliada na impunidade geral e irrestrita dos delinquentes.

A oca vai dizer se os tempos mudaram no Brasil.

O cabaré do dinheiro

Sebastião Nery

Em Alegrete, que os gaúchos chamam de “a Londres Gaúcha” e por isso foi apelidada de “Alegraite”, havia um famoso cabaré: o “Lulu dos Caçadores”. Toda noite tinha briga. Ia tudo calmo, tudo alegre, mas quando dava duas horas da manhã era batata. A briga estourava.

Oswaldo Aranha, muito jovem, foi ser prefeito de Alegrete. Sabia do “Lulu dos Caçadores”, sabia das brigas. Uma noite, apareceu lá, tomou um uísque, saiu ás três da manhã, não houve briga nenhuma. Gostou, no dia seguinte estava lá de novo. E no outro, no outro. As brigas acabaram.

No quinto dia, quando Oswaldo Aranha entrou, pendurada na parede do cabaré, estava uma faixa grande:

– “Dr. Oswaldo Aranha, acabaram-se as considerações”.

Às duas da manhã, o pau quebrou.

LEVY

Quando o doutor Joaquim Levy chegou, convocado pela Dilma para organizar o cabaré das finanças nacionais, que está uma zorra total, ele pediu a compreensão e contribuição do país inteiro, porque seriam necessários sacrifícios de todos, ricos e pobres, para o pais sair do buraco.

A maioria da Nação o apoiou e aplaudiu. Mas os dias foram passando e ele aos poucos deixando descoberto seu jogo alemão de Angela Merkel dos pobres: cortar salários, pensões, aposentadorias, aumentar impostos de pequenas e médias empresas, perdoando as grandes, para garantir o pagamento dos escorchantes juros dos banqueiros e de velhas e escabrosas dividas ao FMI (Fundo Monetário) e ao BC (Banco Central).

Está correto o desafio do bravo professor Vladimir Safatle (Folha): – “Se ele (Joaquim Levy) realmente quisesse tratar educação nacional como prioridade poderia lutar por criar um imposto, vinculado exclusivamente à educação, sobre os lucros bancários estratosféricos, sobre grandes fortunas, sobre heranças ou sobre transações bancárias”.

No cabaré do dinheiro o banqueiro sacode a pança e o povo “dança”.

JUSTIÇA SOCIAL

O governo diz que faz “justiça social” com a Bolsa Família. É o mínimo que uma sociedade alarmantemente injusta devia fazer. Vejam os números:

1.- Para 2015, o custo da Bolsa Família será de R$ 27,1 bilhões. Já a “Bolsa Banqueiro”, com a taxa de juros Selic em 13,75%, custará R$ 420 bilhões, decorrente da dívida pública federal de R$ 2,5 trilhões. Por mês o sistema financeiro receberá, como remuneração dos juros, R$35 bilhões. O custo da Bolsa Família em relação ao PIB é de 0,45% e a “Bolsa Banqueiro” é de 6,3%. Em 23 dias (valor diário de R$ 1.166 bilhão) os bancos receberão de juros o valor anual destinado à Bolsa Família.

2.- E o mais dramático: para os anos de 2016/18, as despesas com juros serão ainda maiores, ante a projeção da dívida pública atingir 70% do PIB. É fundamental entender que a sociedade brasileira é desigual e concentradora da renda. Quem constata é o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no último censo, demonstrando que os assalariados que ganham até 10 salários mínimos correspondem a 3,1% da população. Acima de 10 mínimos, o número é inacreditável: 0,9% dos brasileiros. Somos um País onde os 10%mais ricos acumulam 90% da riqueza nacional.

3.- No Brasil, México, Chile, Estados Unidos e outros países foram criados projetos destinados a garantir o direito de se alimentar a milhões de famílias. A “Comunidade Solidária”, nascida no governo Fernando Henrique, foi o início no Brasil. Nos EUA, a partir de Nova York, foi criado o “Oportunity” para combater a miséria .No México, o programa tem o nome de “Progressa” e atende a 10 milhões de famílias. No Chile, chama-se “Solidário” e atende a quase 1 milhão de domicílios. Todos focalizam os mais pobres, sendo claramente de assistência social.

4.- O PT e os seus candidatos vêm fazendo da Bolsa Família um notável cabo eleitoral em todo o País, principalmente nas regiões norte e nordeste. Na última eleição, a candidata Dilma obteve no Maranhão uma diferença de 3,8 milhões de votos sobre Aécio Neves, anulando a diferença obtida pelo concorrente nos três Estados do Sul (RS, SC, PR). No Ceará, Bahia, Minas, Rio de Janeiro e Piauí, não foi diferente. O grande cabo eleitoral foi a “Bolsa Família”. O PT acusa que se o adversário ganhar irá extinguir o programa. Isso é terrorismo do Estado Islâmico. Como enfrentar a chantagem? A oposição deveria definir o Bolsa Família como política de Estado. Combater a desigualdade é missão estatal, das Nações.

O PT literalmente bateu a carteira da Bolsa Família.

Toda censura é burra

Sebastião Nery

Illia Ehrenburg era o Jorge Amado da União Soviética. Eu não admitia ir a Moscou sem vê-lo. Em 1957, viajando pela Rússia, procurei, pedi, insisti, esperei, até que marcaram um encontro com ele, na casa dele.

A foto está aqui, amarelada, depois de quase 60 anos. Somos uma meia dúzia de jovens estudantes brasileiros em torno daquele velho simpático, silencioso, numa cadeira de balanço, no canto da sala.

As paredes cobertas de quadros de pintores franceses, Picasso, Monet, Rodin, de quando ele foi embaixador da União Soviética na França.

A conversa começou obvia, sobre a vida dele, a literatura dele, sobretudo seu ultimo livro, de 1954, “Ottiepel”, “O Degelo”, um sucesso mundial, que tinha acabado de ler e que consagrou o nome do começo da abertura na União Soviética, um ano depois da morte de Stalin e de Khrushev fazer seu histórico Relatório de 1956 ao XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética denunciando “os crimes de Stalin”.

Ilia Grigorievith Ehrenburg nasceu em Kiev, capital da Ucrânia, em 1891 e morreu em Moscou em 1967. Embaixador em Paris, voltou para Moscou quando a França foi ocupada por Hitler em 1940. Tornou-se popular com seus programas de radio durante a guerra. Eu não podia deixar de fazer a pergunta inevitável:

– E Stalin?

O intérprete ouviu, não traduziu, fechou a cara. Ele entendeu bem. Olhou para mim com uns olhos infinitamente tristes, tive a impressão de que ia chorar. Mal mexeu com a boca :

– Stalin? Hummm… Hummm…

E fez um gesto leve com a mão, como quem espanta um pássaro. Estava espantando um pesadelo. Já vi muitos olhos tristes. Nunca vi olhos tão tristes quanto os de Illia Ehrenburg.

Tentei ver Cholokov e Pasternak. Viviam no interior, exilados, proibidos. Não me deixaram vê-los. Mikhail Cholokov também nasceu na Ucrania e se tornou escritor universal com “O Don Silencioso”, painel das terras dos cossacos onde corre o Don, pano de fundo da primeira guerra mundial. Em 1965 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Morreu em 1984.

DOUTOR JIVAGO

Pasternak, Boris Pasternack, nasceu em Moscou em 1890 e morreu em 1960. Tradutor de escritores franceses, ingleses e alemães, era considerado pelo regime comunista “um esteta anacrônico” apenas tolerado (suas traduções de Shakespeare são as melhores em língua russa).

Poeta consagrado, Pasternak em 1957 publicou escondido na Itália o romance “Doktor Jivago”, “Doutor Jivago”, proibido na União Soviética, que ganhou o mundo com estrondoso sucesso, virou filme e lhe deu o Premio Nobel de Literatura de 1958, que foi impedido de ir receber e foi expulso do poderoso e stalinista sindicato dos escritores soviéticos.

Que diferença fazia ver Ehrenburg e Cholokov e Pasternak não? As ditaduras são irracionais, estúpidas.

OMAR SHARIF

Essa semana morreu no Egito o ator Omar Sharif, Globo de Ouro e indicado para o Oscar por sua soberba interpretação no filme “Doutor Jivago”, de 1965. Enquanto os soviéticos perseguiam seu genial poeta e romancista e proibiam na União Sovietica o romance e o filme do romance, os americanos levavam a eterna história de amor do Doutor Jivago a todos os cantos do mundo, embalada pela inesquecível canção ‘Tema de Lara’.

Toda ditadura é estúpida, toda censura é burra.

PETROLÃO

Nos últimos 12 anos, os governos Lula/Dilma seguiram a filosofia do marqueteiro João Santana: não lidar com conceitos como verdade. A mentira é mais fácil de absorver. Nos primeiros 4 anos, colheu os frutos do Plano Real,uma economia sustentável com avanço social garantido pela estabilização econômica. No segundo mandato de Lula e no primeiro de Dilma, ao abandonarem os fundamentos que alicerçavam o Plano Real e não promoverem as reformas que modernizariam a economia brasileira, era questão de tempo a débâcle, que estão vivendo os brasileiros com a crise vitimando trabalhadores, classe média e importantes setores produtivos.

O ex-presidente Lula, apostando na falta de memória do povo, assume ares de oposição, ignorando que foi no seu governo que ocorreu o maior assalto ao dinheiro público na história do país. Semana passada, em Brasília, durante reunião com dirigentes do PMDB, disse que a apuração da roubalheira contamina a política e a economia:

-“A Lava Jato não pode ser a agenda do País”.

Resta perguntar: por que a operação tão bem conduzida pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal, Receita Federal e a competência jurídica do juiz Sergio Moro teve que pautar o Brasil? Porque o PT fez da Petrobras uma sórdida gazua de fabricar dinheiro.

A mãe da democracia disse não

Sebastião Nery

Ao lado do hotel estaciona um caminhão. Leio na carroceria: – “Metáforas”. Pergunto ao porteiro italiano:

– O que é isso?

– Caminhão de “metáforas”.

Não era uma jamanta de poesia. Era apenas um caminhão de mudanças. “Metáfora” é mudança. Como se fosse o apartamento de Drummond levado para Itabira. São os mistérios das línguas, tão diversos e tão diversas, embora o grego seja a avó do português, que é filho do latim.

Mesmo para quem como eu inutilmente estudou grego no Seminário é impraticável no dia a dia. E o grego moderno, depois de tantas invasões, mudou muito o velho grego clássico. Para esperar o ônibus você não fica no “ponto”, mas no “êxtase”. Quando você sai do ônibus, do restaurante, da igreja, não sai pela “saída”. Sai pelo “êxodo”. Como Moisés.

A França não é França, lugarzinho onde viveram Napoleão e De Gaulle. É “Gália”, como dizia Julio César o imperador-jornalista, E a própria Grécia não é Grécia. É “Hellas”, “Helada”. Homero puro.

PÉRICLES

O rosto sereno, os olhos vazados, a barba encaracolada, no famoso busto que os ingleses roubaram e levaram para o Museu de Londres, onde está lá até hoje, durante 30 anos ele fez questão de se submeter, todos os anos, ao voto do povo, a eleições livres. E foi sempre reeleito.

A democracia, a mais perfeita instituição política que o homem conseguiu criar em toda a sua história, da qual Churchill disse que é a “pior forma de governo, com exceção de todas as outras”, nasceu sobretudo de suas mãos, de seu exemplo, de sua vida, 500 anos antes de Cristo.

Quando Péricles, o ateniense, deu aos representantes da “terceira classe” o direito de serem “arcontes” (parlamentar, magistrado com poder de legislar e executor das leis); quando distribuiu dinheiro aos pobres para que também eles pudessem exercer funções públicas; quando deu aos indigentes o direito de irem ao teatro de graça, Péricles estava instalando a primeira constituinte democrática, fazendo a primeira Constituição democrática, criando a democracia, 2.500 anos atrás.

O que dói na Grécia dói em mim.

GRÉCIA

Em Atenas, em janeiro de 1988, dei uma entrevista a TVs, rádios, revistas e jornais sobre o Brasil e a Constituinte que tinha acabado de aprovar nossa nova Constituição. Era difícil explicar-lhes como sair de uma ditadura de 20 anos sem punir os militares golpistas. Os deles estão presos.

Dois dias depois, era 17 de janeiro, lá estava eu nas bancas de jornais, com fotos e tudo, no meio daquelas manchetes incompreensíveis em letras do alfabeto grego, numa pagina inteira de entrevista ao jornal “Eleftherotypia”, assinada pela jornalista Stela Hoyda:

– “A Grécia continua uma janela aberta ao mundo. Sócrates e Péricles não passaram – disse-nos o jornalista Sebastião Nery, escritor, político, que já esteve aqui outras vezes e prepara um livro – “Grécia, a Mãe da Democracia” – cuja história antiga e moderna conhece, e destaca como personagem importante Markos Vafiadis, o comandante “Narkos” da resistência aos alemães e aos ingleses, na década de 1940”.

Desde 1958, sempre voltei à Grécia. Em 1963 e varias outras vezes, viajei o país todo, terras e ilhas, pesquisando, escrevi dezenas de textos, reuni tudo numa síntese histórica e política, mas nunca editei meu livro sobre a Grécia. Traí Sócrates, Péricles, a Stela Hoida. E minha deusa grega.

ABISMO

O Plebiscito de domingo mostrou um pais sofrido, dilacerado, esquartejado pela gula dos banqueiros internacionais, sobretudo os europeus. Quem fez a dívida brutal que hoje estrangula a Grécia e a jogou no abismo não foi o atual governo, com meses no poder. Foram os anteriores.

Foi a alemã dona Angela Merkel, que há mais de dez anos comanda seus aliados, os banqueiros alemães, e estimulou o endividamento grego. Foi o FMI (Fundo Monetário Internacional), já há vários anos dirigido por essa estranha girafa rebolante, a dona Christine Lagarde. Foi a direita grega reunida na “Nova Democracia”, sempre aliada, associada, submissa e servil aos banqueiros europeus, alemães, ingleses, suíços. Todos vorazes.

Tinha razão o lúcido historiador brasileiro Daniel Aarão Reis:

– “No referendo, o povo grego escolherá entre a submissão e a autonomia. Entre os velhos engravatados da Europa dos bancos e os jovens de Atenas, da Europa da solidariedade e das indumentárias informais. O comportamento deles evoca uma frase de Hélio Pellegrino, referindo-se aos líderes estudantis das passeatas brasileiras de 1968, barrados no Palácio do Planalto por impropriamente vestidos: “Não têm gravatas mas têm caráter.”

NÃO

A Grécia de Alexandre, que um dia derrotou a Pérsia, e Hitler e Stalin e os ingleses, derrotou os banqueiros europeus dizendo-lhes “Não”.

O que canta na Grécia encanta em mim.

O turbante e o camisolão

É hora de acabar com o reinado do marketing político

Sebastião Nery

Na frente, um árabe com seu turbante. Atrás, um africano com seu camisolão. No meio, eu e a namorada com nosso medo. Impossível não ter medo aéreo naquele final da década de 1980. Os aeroportos da Europa tinham virado campos humanos minados.Todos desconfiando de todos.Cada um imaginando onde o outro estava escondendo a bomba, a granada, que daí a pouco poderia explodir, lá no céu, o avião e todos.

Nós na fila do voo da Alitália para Atenas e, ao lado, a fila para a Tunísia, homens com turbantes, barbas cerradas e caras fechadas e mulheres de longos vestidos negros e negros véus na cabeça. A fila deles começou a andar, ficamos olhando, calados. O pensamento coletivo boiava indisfarçado no ar. Quantos iranianos haveria ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo foi andando devagar, desapareceu.

Era nossa vez. O policial do controle pega o passaporte do árabe do turbante que está à nossa frente, olha, esmiúça, confere, desconfiado. Vai ao computador, dedilha, espera, nada consta, deixa passar. Os nossos passaportes ele mal olhou. Só perguntou: – Brasile? Carimbou e passamos.

O africano do camisolão, atrás de nós, empacou. O mesmo rito da desconfiança. Conferem tudo, digitam o computador, nada consta. Olham agressivamente para o rosto negro, árido, escalavrado, do africano tenso, mandam sair da fila, chamam um chefe, saiu com ele. E a fila medrosa.

Depois do passaporte, outro obstáculo: o controle de bagagens, bolsas, objetos pessoais, o corpo. Vem o detector de metais, que apita quando flagra. O árabe do turbante passa tranquilo. Não tinha um ninho de metralhadora ali dentro. O africano do camisolão ficara lá com o chefe.

E vem um apito fino, estirado, “piiiii”! Todo mundo olha. É ela, a terrorista. E bem disfarçada. Alta, elegante, cara de italiana, chapéu italiano, óculos italianos, botas italianas. Aparecem três policiais femininas, olhos aflitos, levam-na ao lado como se já estivessem acusando: – “Abra o jogo e a arma!” Não era. Apenas o isqueiro. Entregou, passou. Sem apito.

O medo do terrorismo tinha virado racismo e paranoia.

A BOMBA

Afinal, estávamos na sala de embarque. Chamam. Vamos de ônibus para o avião, um “Airbus” da Alitalia, lá longe no campo úmido, na manhã de 10 graus. O ônibus pára, mas ninguém salta, ninguém entra. Vamos esperar. “Houve um pequeno problema”, explicam os funcionários. Era ela. Só podia ser ela. A bomba. Estariam tentando desativar?

Embarcamos. Um leve, lindo, macio voo sobre o azulado Adriático. A aeromoça, com enormes óculos redondos, servia vinho para o almoço, quando o comandante pede atenção:

– “A partir deste instante é proibido fumar. Apaguem seus cigarros, até que o sinal de proibição também se apague. É uma pequena emergência. Espero que dentro de quinze minutos já voltemos à normalidade”.

Só podia ser ela, a bomba terrorista, afinal flagrada e acuada pelos comissários, como uma onça enlouquecida. Acender cigarro era acender a bomba e voar tudo pelos ares. Iam desativar. O murmúrio foi crescendo e absolutamente nada aconteceu. Não havia bomba nenhuma.

A aeromoça de óculos redondos deixou comigo uma oportuna garrafinha de vinho e logo comecei a ver, lá embaixo, as escarpadas colinas da Grécia, como o chão crespo do céu.

MARQUETEIROS

O advogado Airton Soares foi um grande deputado. Dias atrás, no jornal da TV-Cultura, de São Paulo, onde debate assuntos nacionais com o também brilhante historiador Marco Antonio Villa, mostrava que o “marketing político” transformou as eleições em autentica farsa. O debate público foi substituído pelos textos escritos pelos marqueteiros, com os candidatos lendo nos “teleprompter”, como “bonecos falantes”,

É preciso restaurar o sentido verdadeiro do horário político, eliminando a maquiagem eletrônica que consagra a mentira e o despreparo. O “marketing político” só pensa em enganar o eleitor.O “marketing público” pensa no cidadão e debate as políticas públicas, começando por enquadrar o “marketing político” no Código de Defesa do Consumidor, que no artigo 37 diz que “é proibida toda publicidade enganosa ou abusiva”.O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária define:

– “Todo anuncio deve ser honesto e verdadeiro e respeitar as leis”.

Os marqueteiros políticos atropelam a Lei, com a conivência do Tribunal Superior Eleitoral e dos Tribunais Regionais Eleitorais. Continuam iludindo multidões, como fizeram nas últimas eleições presidenciais , com os truques do marqueteiro João Santana.

Na Velha Grécia, Sócrates já alertava com ironia:

– Para construir uma casa ou um navio as pessoas escolhem gente competente, já o Estado, pode ser entregue a qualquer um?

O guerreiro Paes De Andrade

Paes de Andrade disse “não” à eleição de Castelo Branco

Sebastião Nery

Presidente da Câmara dos Deputados, Paes de Andrade foi à Alemanha participar de uma celebração internacional sobre o fim da II Guerra Mundial. Sentado ao lado do embaixador do Brasil, estava em um banquete, em Bonn, oferecido pelo Parlamento alemão, quando um secretário da embaixada brasileira aproximou-se do embaixador e lhe cochichou uma notícia ao ouvido.

O embaixador ficou perplexo, excitado e feliz. Automaticamente, pegou o copo de vinho, em frente, fez um brinde ao infinito, sorriu e não disse nada. Paes percebeu o estranho gesto, perguntou o que tinha havido.

– Nada demais, deputado. O Filinto Muller acaba de morrer em Paris, em um desastre de avião. Morreu como devia ter morrido: o avião se transformou numa câmara de gás. Os assassinos públicos devem morrer mesmo em câmeras, como cães danados.

Paes, cearense e cristão de alma generosa, que tinha se encontrado com Filinto na véspera, no Congresso, em Brasília, levou um susto:

– Por que esse ódio todo, embaixador?

– Ele torturou meu pai. Os verdugos de todos os tempos são iguais. Mais dia menos dia acabam pagando seus crimes.

E tomou gostosamente um gole de vinho, bebendo o gás de Filinto.

Dias depois, em Paris, Paes de Andrade me contou a historia:

– Nery, os pecados dos homens deixemos para Deus julgá-los. Mas os torturadores jamais terão o perdão da Historia.

NÃO À DITADURA

Vitorioso o golpe militar de 1964, Juscelino Kubitschek comandou o PSD e encontrou-se com o general Castelo Branco na casa do deputado Joaquim Ramos (PSD-SC). Falso de alma, Castelo jurou que, escolhido presidente da Republica, garantiria as eleições já convocadas para 1865.

JK levou o PSD a votar em Castelo e indicou José Maria Alkmin para vice. Só dois não foram na conversa de Castelo: Tancredo Neves e Paes de Andrade. Do plenário gritaram “nãos” que todo o Congresso ouviu. Ajudaram a fundar o MDB e resistiram à ditadura até o fim.

Nessa semana deixou-nos o queridíssimo Paes de Andrade. O Ceará tem o direito e o dever de chorar seu grande filho.

JARBAS

Em junho de 1971, o bravo Jarbas Vasconcelos, deputado estadual e presidente do MDB de Pernambuco, convocou um Seminário em Recife. Pedroso Horta, líder do partido na Câmara, mandou preparar um documento, redigido por Francisco Pinto (MDB-BA) e Paes de Andrade (MDB-CE) propondo Anistia e Assembleia Constituinte,

O Seminário quase termina em pancadaria. Clemens Sampaio, do MDB da Bahia, chamou Chico Pinto de “chefe dos comunistas”. Aprovado o documento dos “Autênticos”, Pedroso deu a Freitas Nobre para ler na Câmara. E pediu a Chico Pinto para falar pelo partido no Dia do Soldado.

O Diário Oficial ficou uma semana sem rodar, mas teve que publicar.

TESTAMENTO DE LULA

Desta vez Lula não vai poder desmentir o que falou, como faz sempre. No seu “Instituto Lula”, em São Paulo, reuniu bispos, padres, frades, freiras e seu assessor religioso o ex-ministro Gilberto Carvalho, para uma conversa sobre a situação nacional. E Lula falou e a imprensa deu:

  1. – “Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto eu estou no volume morto. Todos estamos numa situação muito ruim”
  2. – “Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo”.
  3. – “Aquele gabinete (presidencial) é uma desgraça. Não entra ninguém para dar uma notícia boa. Os caras só entram para pedir alguma coisa.”
  4. “- Os ministros têm de falar. Parece um governo de mudos. Os ministros que viajam são os que não são do PT. Kassab já visitou 23 estados, não sei quem já visitou não sei quantos.”
  5. – “Estamos há seis meses discutindo ajuste. Ajuste não é programa de governo. Depois de ajuste vem o quê?”

Nesse momento, Lula lembrou as promessas não cumpridas por Dilma durante a última campanha eleitoral.

– “ Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: “Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa”.

– “E mexeu. Tem outra frase, que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: “Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano”.

– “E fez . E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso (no programa de TV do partido) e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado”.

Isso não é uma confissão. É um testamento. Para o “Lava-Jato”de Lula.

O Reizinho do BNDES

Sebastião Nery

Meses depois da renúncia em agosto de 1961, Jânio Quadros voltou da Europa em 1962 e se candidatou a governador de São Paulo, com um slogan do saudoso deputado baiano, cassado em 1964, João Dória: -“A renúncia foi uma denúncia”.

Por sugestão de José Aparecido de Oliveira, Luís Lopes Coelho, presidente do “Barzinho do Museu”, em São Paulo, reuniu alguns jornalistas e intelectuais amigos, de São Paulo e do Rio, na casa dele, para uma conversa com Jânio: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Mário Neme, Darwin Brandão, eu, outros. Jânio estava alegre, até que Darwin perguntou:

– Presidente, o senhor prometeu que, quando voltasse da Europa, denunciaria as “forças ocultas” que o levaram à renúncia. Quais foram?

Jânio ficou irritado: – Meu caro Darwin, não falei em “forças ocultas”, mas em “forças terríveis”! É o que disse. E mantenho. Forças muito poderosas!

Revirou os olhos e se calou. Pegou o uísque, levantou-se, chamou Paulo Mendes Campos a um canto da sala:

– Meu caro Paulinho, quero dizer-te uma coisa. Não é fácil renunciar a tanto poder. O Presidente, neste País, meu caro Paulinho, é um rei. Fui um reizinho! Um reizinho, Paulinho, tu sabes!

A reunião acabou. Sobre a renúncia, nada. Morreu sem explicar.

LULA

O Brasil está com um reizinho de coroa suja, agora enlameada na Operação Lava Jato. Lula saiu do governo e criou algumas arapucas para fabricar dinheiro fácil.  Ele diz que o Instituto Lula e o LILS (Palestras, Eventos e Publicidade) são para articularem suas “conferências”.

Mas que “conferências”? Quando, onde, sobre que assunto? Ele chama de “conferências” suas baboseiras nas reuniões do PT. Quem já assistiu a uma “conferência” de Lula? Ele não faz “conferencias”. Faz “transferências”. Só a Camargo Correia transferiu 3 milhões de dólares para o cofre do Instituto Lula e mais 1 milhão e meio para o cofre do LILS.

Apesar da conhecida esperteza do reizinho, o escândalo ia acabar nas manchetes dos jornais como Globo e capas de revistas como Época e Veja.

BNDES

Todo reizinho tem seu trono. O de Lula está instalado no BNDES. É lá que ele fatura seus lobes viajando pela America Latina e África nos jatinhos das empreiteiras, de preferência a serviço de um ditador corrupto.

1.-No primeiro trimestre deste ano, o BNDES tinha R$ 202 bilhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 40% do total dos recursos do FAT. Com a transferência de dinheiro do Tesouro, o banco tinha uma carteira para investimentos de R$ 500 bilhões. O governo paga a taxa selic de 13,75%, ao ano, elevando a dívida pública, pela transferência de dinheiro caro para subsidiar os banqueiros “amigos”.

  1. – As dez maiores empresas brasileiras concentram 40% dos recursos destinados aos investimentos interno e externo. Juros baixos e prazos longuíssimos caracterizam esses empréstimos. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje está em 6% ao ano, com prazos variáveis de 10 até 25 anos. Nos últimos anos, as empresas apelidadas de “campeões do desenvolvimento” concentraram a quase totalidade dos investimentos.
  2. – Obrigado pelo TCU e STF, o BNDES divulgou obras realizadas por empresas brasileiras de engenharia. Elas têm do banco, lá fora, crédito mais barato do que os praticados quando o investimento é realizado no Brasil. Aqui, na área de infraestrutura, o financiamento mais barato é o Programa de Investimento em Logística (7% ao ano).Em Honduras, em junho de 2013, em financiamento de US$ 145 milhões, o BNDES fixou juros em 2,83%. Em Angola, os juros foram de 2,79%.

MÃE DILMA

  1. – O BNDES investiu US$ 11,9 bilhões em projetos das empreiteiras lá fora. As maiores beneficiárias são Odebrecht (US$ 8,2 bilhões, 69% dos recursos), Andrade Gutierrez (US$ 2,81 bilhões), Queiroz Galvão (US$ 388 milhões); OAS (US$ 354 milhões); Camargo Correa (US$ 255 milhões).
  2. – O BNDES, com garantia do Tesouro, a taxas de juros “amigas”, opera em Angola com empréstimos de US$ 3.383 bilhões e juros de 5,32%; na Venezuela US$ 2.252 bilhões e juros de  4,29%; na República Dominicana US$ 2.204 bilhões e juros 4,85%, na Argentina US$ 1.872 bilhão e juros de 4,83%, em Cuba US$ 847 milhões e juros de 5,38%.
  3. – Em Moçambique US$ 444 milhões e juros de 4,89%, na Guatemala US$ 280 milhões e juros de 4,94%, no Equador US$ 228 milhões e juros de 3,75%; em Gana US$ 216 milhões e juros de 3,75%, em Honduras US$ 145 milhões e juros de 2,83%; e Costa Rica US$ 44,2 milhões e juros de 4,07%.

Aqui dentro é a “Mãe Dilma” do PT. Lá fora, a “Filha de Lula”.

Os coronéis da Fifa

Blatter e Valcke transformaram a Fifa numa verdadeira máfia

Sebastião Nery

Dia de festa em Limoeiro, Pernambuco. O time da cidade ia jogar com o escrete de Garanhuns, disputando o primeiro lugar no Campeonato Intermunicipal. O coronel Chico Heráclio chegou todo de branco, sentou-se na sua cadeira de vime, a partida começou.

Primeiro tempo, segundo tempo, nada de gol. Zero a zero. Cinco minutos para acabar o jogo, o juiz, que tinha ido do Recife, marcou pênalti contra Limoeiro. A torcida endoidou, invadiu o campo. O juiz correu para junto do coronel Heráclio com medo de ser linchado. O coronel levantou a bengala, todo mundo parou:

– O que é que houve, seu juiz?

– Um pênalti que eu marquei, coronel.

– O que é esse negócio de pênalti?

– É quando o jogador comete uma falta dentro de sua própria área. Aí, a bola fica ali naquela marca, em frente à trave e um jogador adversário chuta. Só ele e o goleiro.

– E faz o gol, seu juiz?

– Geralmente faz, coronel, é difícil goleiro pegar pênalti.

– Muito bem, seu juiz. Sua explicação é muito boa. E eu não vou tirar sua autoridade. Já que houve o tal do pênalti, faça como a regra do futebol manda. Só que o senhor, em vez de botar a bola na frente da trave de Limoeiro, faça o favor de botar do outro lado, em frente à trave de Garanhuns e mandar um jogador daqui da cidade chutar.

– Mas, coronel, isso é contra a lei.

– Pois já ficou a favor. Aqui em Limoeiro a lei sou eu.

Limoeiro chutou, Limoeiro ganhou.

MUJICA

O sempre brilhante e verdadeiro ex-presidente do Uruguai, José Mujica,  definiu magistralmente o escândalo da Fifa:

– “É um punhado de velhinho ladrão”.

Os coronéis da Fifa são muito diferentes do coronel de Limoeiro. O coronel Chico Heraclio roubava no jogo, no esporte, na brincadeira. Os coronéis da Fifa roubam no cofre, no orçamento, nos tesouros nacionais.

O inexplicável é que, quase todos já tão velhinhos, com mais de 80 anos, ainda continuem roubando, roubando, insaciavelmente roubando.

BANCO CENTRAL

Mais uma vez o Banco Central estuprou o país com seus escandalosos aumentos de juros, já os mais altos do mundo. Novidade nenhuma. No Brasil, Banco Central existe para isso: garantir cada vez mais juros escorchantes para os banqueiros.

Eles dizem que aumentam os juros para derrubar a inflação. E quanto mais os juros sobem, mais a inflação também sobe. De duas uma: ou são idiotas demais ou espertos demais. Como não são idiotas, são é espertos.

O economista Amir Khair, em “O Estado de São Paulo”, escreve que só no primeiro trimestre (janeiro-fevereiro-março de 2015) “as despesas com juros atingiram R$ 85 bilhões. Dado ainda mais estarrecedor é o aumento neste primeiro trimestre da dívida bruta: R$ 227,8 bilhões! No passado, o economista foi fundador e ativo militante do PT.

Para o ano de 2015, o ex-ministro Delfim Neto (muito consultado por Lula e Dilma), afirma que os juros para pagamento da dívida pública serão R$ 400 bilhões. A dívida bruta em relação ao PIB representará 63%, sendo responsável direta pela enormidade dos recursos transferidos para o sistema financeiro, os bancos, o que eles chamam de “mercado”. Os títulos da Dívida Pública ficam com os bancos.Cada aumento de juros é uma farra.

Segundo Relatório do Tesouro Nacional, em abril a Dívida Pública Federal era de R$ 2,452 trilhões. E só vem crescendo. Os números da economia afetam a realidade social, atingindo fortemente o equilíbrio na distribuição da renda. O resultado é taxa de desemprego crescente, afetando a vida do brasileiro para pior. E queda real do salário para quem está empregado. A retração no consumo é consequência direta. A fraqueza da economia lema milhares de famílias a situações desesperadoras.

 CRACK NO MUNICIPAL

Na “Folha”, a experiente Paula Cesarino conta “A Batalha do Crack”:

– “Ao som de uma batida forte o jovem se arrasta no palco escuro… Entra o funk…-“Uma noite chuvosa/ Acordei embaixo do viaduto/   Gosto de enxofre na boca/  Cheiro de esgoto na roupa/ Parecendo um zumbi /Eu cheguei a confundir/Sangue com ketchup/, Antares com Hollywood”.

“O público, na maioria negro e jovem, ovaciona, grita, se emociona.

“A descrição aflitiva da rotina do viciado no funk na “Batalha do Crack”  transformou o Teatro Municipal do Rio… Graças a um festival de dança de rua, agora conheceu a devastação provocada pelo crack”.

A “Batalha” se encerra com um verso sucinto:

– “Nem a guerra do Iraque/É mais forte que o crack”.

Ao final uma espectadora foi interrompida pelo  filho:

“- Mãe, assistimos a um evento histórico, não a um espetáculo teatral!”. Ele havia compreendido tudo”. Ele e os leitores da “Folha”.

 

O Lava-Bife lulôôooo!!!

Foto

Com o fim da ditadura Vargas, Washington Luiz volta do exílio

Sebastião Nery

Com o fim da ditadura de Vargas em 1945, o ex-Presidente Washington Luiz voltou do longo exílio. Veio de navio, foi recebido na Praça Mauá por uma multidão emocionada. Saudou-o o general Euclides de Figueiredo, da Revolução Constitucionalista de São Paulo, pai do escritor Guilherme de Figueiredo e do general João Baptista de Figueiredo.

Depois do discurso, Washington Luiz entrou em um carro aberto e saiu desfilando pela Avenida Rio Branco, lotada de gente. A seu lado, o general Alcio Souto, Chefe da Casa Militar do então Presidente Dutra.

Na esquina da Presidente Vargas, o jovem líder estudantil e jornalista baiano Nilson de Oliva César, o “Pixoxó”, do “Diário Trabalhista”, totalmente de porre, pulou no carro de Washington Luiz e começou a gritar:

– Viva! Vivôôô!!! Viva!!! Vivôôô!!!

O velhinho ex-presidente, a barba toda branca e o terno preto, sorria manso e passava a mão na cabeça de Nilson. De repente, outras pessoas começaram a subir também no carro aberto. E Nilson gritando:

– Vivaaa!!! Vivôôôô!!! Vivôôoo!!!

Na esquina de Almirante Barroso, o carro não resistiu ao peso e parou. O general Alcio Souto mandou os caronas todos saírem:

– Desce todo mundo, exceto o neto.

O falso ‘neto’ era Nilson, de porre, gritando Vivôôôô!

FRIBOI

Como no brinquedo “Chicotinho Queimado”, está esquentando o escândalo do BNDES com a “Friboi”. Quem levantou a lebre foi o Tribunal de Contas, que pediu ao BNDES informações sobre o empréstimo de 7 bilhões e meio à “Friboi”. O BNDES, atrevidamente, respondeu que nada tinha a responder porque o “sigilo bancário” o obrigava ao segredo.

O BNDES, como o Banco do Brasil, a Caixa, o Banco do Nordeste, são públicos, submetidos à fiscalização do Tribunal de Contas, Polícia Federal, Procuradoria da Republica, Controladoria da União. Convocado, o ministro Fux, do Supremo, determinou que o BNDES entregasse tudo.

Essa história da Friboi com o BNDES é uma Lulada, uma Frilula, uma Frilulinha. Está apenas começando. Vem aí uma CPI, uma Lava-Bife.

MARSHALL

Leio um texto como sempre brilhante e lúcido do economista e professor Helio Duque, baiano-paranaense, três vezes deputado federal, sobre o ultimo relatório da Petrobrás, que começa a sair do abismo do PT.

O Plano Marshall, programa implantado na Europa depois da II Guerra Mundial, de 1945 até 1951, sob o comando do general americano George Marshall, para salvar a Europa estraçalhada pelos bombardeios, teve o custo de 13 bilhões de dólares. Atualizando aqueles valores para os dias atuais, equivaleria a 110 bilhões de dólares, dois terços investidos na reconstrução da infraestrutura da Alemanha Ocidental, ancorados em reforma monetária estabilizadora, executada pelo notável economista Ludwig Erhard, ministro da Economia e criador da economia de mercado social, foi base fundamental para o reerguimento da Alemanha, até hoje.

PETROBRÁS

  1. – No balanço, a Petrobrás registrou dívida líquida de 332 bilhões de reais. Em dólares, equivale ao montante dos recursos aplicados pelo Plano Marshall na reconstrução europeia. No “Relatório da Administração e Demonstrações Contábeis Auditadas” de 2014, os números são impressionantes. Os ativos imobilizados têm valor de 580 bilhões de reais.
  2. – Os financiamentos para amortização do endividamento têm escala variável de 1 a 5 anos, sendo aproximadamente 80% em dólar. Os investimentos temerários são citados, dentre outros o das refinarias Premium I (no Maranhão) e Premium II (no Ceará), projetos desativados por serem inviáveis, representando prejuízo de 2.825 bilhões.
  3. – No Japão, a refinaria de Okinawa, comprada na gestão Gabrielli, com capacidade para processar 100 mil barris/dia, vai ter suas atividades encerradas por inviabilidade econômica. A refinaria de Passadena no Texas, não merece considerações. Outros investimentos desastrosos são mencionados, destacadamente as investigações na operação da lava jato.
  4. – O relatório destaca: “Ao longo de 61 anos, construímos uma trajetória de superação de desafios, tornando-nos líderes mundiais em tecnologia para exploração e produção em águas profundas e ultraprofundas onde estão cerca de 90% das nossas reservas”.

PETISMO

A indiscutível competência técnica dos profissionais de carreira é responsável e construtora dessa Petrobras que orgulha os brasileiros, infelizmente levada a viver o inferno astral que estamos assistindo.A sua ressurreição ocorrerá nos anos próximos, se a interferência descabida e incompetente do governo Dilma não atrapalhar,impedindo o aparelhamento da estrutura administrativa como empreguismo terceirizado.

A nova diretoria descobriu estarrecida que o setor de comunicação, dirigido por 12 anos pelo sindicalista Wilson Santarosa (já demitido), tinha 1.146 funcionários contratados. No Banco do Brasil, o setor tem 105 servidores; na Vale, são 46.É o retrato do empreguismo irresponsável.

Patrimonialismo constitucional

https://sandromeira12.files.wordpress.com/2008/09/neoliberalismo1.jpgSebastião Nery

As diferentes Constituições brasileiras, as elaboradas por constituintes ou impostas pelo autoritarismo, têm um consenso: o Estado burocrático e patrimonialista é intocável. O notável escritor latino-americano Otávio Paz definiu que “patrimonialismo é a vida privada incrustada na vida pública”.

No Brasil, o patrimonialismo é secular. Muito bem definido pelo jurista e historiador Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”, ele demonstra que na herança ibérica, ao lançarem as bases para a formação do Estado tutor, “o governo tudo sabe, administra e provê, distribuindo riqueza e qualificando os opulentos.”

Na mesma perspectiva, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, comprova que o patrimonialismo brasileiro tem profunda resistência à meritocracia e impessoalidade na administração da gestão pública. Certamente havia lido “Economia e Sociedade” de Max Weber, adaptando o seu pensamento à realidade brasileira.

Nele, Weber afirma que o patrimonialismo é quando o governo se apodera de recursos do Estado, distribuindo para grupos poderosos na economia. O interesse público e o privado tornam-se aliados intocáveis na dominação e usufruto da máquina do Estado.

BNDES

Um exemplo: na última década o Tesouro Nacional transferiu R$ 435 bilhões de recursos para o BNDES, pagando taxas de mercado. São emprestados a juros negativos, a TJLP, para empresas “apelidadas” de campeões nacionais do desenvolvimento. Hoje o grupo JBS (Friboi) tem 25% de participação do banco e outros como Eike Batista deram com os burros n´água. A fila é gigantesca. Hoje a TJLP – Taxa de Juros de Longo Prazo é de 6% ao ano.

Podem esperar. Depois da roubalheira na Petrobras, explodida pela coragem do juiz Sergio Moro e seus companheiros do Ministério Publico e da Policia Federal, um dia há de aparecer a podridão do BNDES e seus Fribois, Lulas e Lulinhas. E vamos ter saudade da Petrobras.

FIGUEIREDO

Não se escreve sobre livro que não se leu mais da metade. Ainda estou no meio de “1964 – O Ultimo Ato”, de Wilson Figueiredo (Editora Gryphus). Quem como eu viveu e sofreu o turbilhão do golpe militar de 1964 fica até hoje surpreso com a inacreditável lucidez e sabedoria com que o poeta, escritor e redator do Jornal do Brasil, com seu estilo brilhante, fulgurante, testemunhou e interpretou, dia a dia, aqueles turvos dias.

Tudo começou em Londrina

Sebastião Nery 

Em 1954, o principal líder estudantil e presidente da União Paraibana  de Estudantes era o François, de Campina Grande. Preparando o congresso nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes) que seria no Rio, uma comissão foi ao Norte e Nordeste. Em Campina Grande, o François nos garantiu que a maioria da delegação paraibana votaria com a esquerda. E votou. 20 anos depois, em 1974, recebi no Rio um telefonema de Londrina :

– Nery, aqui é o Leite Chaves, o François de Campina Grande. Sou candidato a senador pelo MDB do Paraná. Queria que você viesse ao comício de lançamento, para dar um depoimento sobre minha atuação no movimento estudantil, no nosso tempo da UNE.

Cheguei à tarde. O comício era à noite. No aeroporto,faixas e uma charanga tocando a musica da campanha.Vi logo o François:

– François, meu companheiro!

François deu um passo à frente, me abraçou e disse ao ouvido :

– Nery, não fale em François, pelo amor de Deus. Aqui em Londrina sou o doutor Leite Chaves, advogado. François aqui é cabeleireiro ou veado.

O doutor Leite Chaves, em plena ditadura, fez uma campanha brilhante pela oposição, ganhou e foi um senador valente e exemplar.

JANENE

Infelizmente em Londrina não havia apenas a banda boa do Leite Chaves com seus companheiros José Richa prefeito, senador e governador, Alencar Furtado varias vezes deputado, Helio Duque três vezes deputado, Álvaro Dias governador e senador e tantos outros.

Também havia a banda podre que nasceu lá atrás com José Janene deputado, Alberto Youssef doleiro, Antonio Belinati deputado duas vezes prefeito e duas vezes cassado e tantos outros.

O Mensalão estava em Londrina com Janene. O Petrolão também está em Londrina com o mesmo Youssef do Mensalão. E reaparece a  historia rocambolesca do Janene, agora feito cadáver insepulto. E não é que  quem assinou o atestado de óbito do Janene foi o Youssef?

Está na hora de Londrina deixar o Janene dormir em paz.

As quedas de Lucio Bittencourt e os juízes de Brasília

Sebastião Nery

A campanha nacional do “O Petróleo é Nosso”, pela criação da Petrobrás, estava no auge, em 1953. Em Belo Horizonte, estudantes, lideres sindicais, jornalistas e intelectuais de esquerda convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares. A polícia proibiu, dizendo que era dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais, na praça cheia, cercada pela polícia.

Na frente, servindo de palanque, um caminhão sem as laterais e com um microfone. De repente, chegou o deputado federal do PTB e candidato a senador, Lucio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigode preto, e foi direto para o caminhão. Fomos juntos. Com ele, a polícia não teve coragem de barrar-nos. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou :

– Ontem, li nos jornais que a policia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive duvidas de vir. Mas, à noite ouvi o povo me dizendo:

– Vai, Lucio, vai! Vai!

E Lucio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Rasgou. Nosso querido professor da Faculdade de Direito desabou. Acabou o comício.

No dia seguinte, no palácio, Juscelino dava gargalhadas:

– Eu bem que disse a ele : – “Não vai, Lucio! Não vai”

Afinal, a bela noticia. A Petrobrás, livrando-se do bando de ladrões comandados pelo PT, já teve lucro de 5 bilhões em três meses.

Lucio, nosso querido professor de Direito, não caiu em vão.

LUCIO BITTENCOURT

Dois anos depois, em 1955, o Partido Comunista apoiava Juscelino e Jango para presidente e vice, e Lucio Bittencourt do PTB para governador. Ele disputava com Bias Fortes do PSD e Bilac Pinto da UDN. Fui destacado como jornalista para viajar com ele pelo interior. Ele me chamou:

– Vamos lá, você ensinou em Pedra Azul, conhece bem a região.

Mas logo o “Jornal do Povo” me propôs acompanhar Juscelino ao Nordeste. Falei com ele, outro companheiro foi em meu lugar e fui com JK.

Em Campina Grande, Juscelino estava no palanque com Rui Carneiro, Alcides Carneiro, Samuel Duarte, Abelardo Jurema, o PSD todo da Paraíba. Chega um telegrama especial da “Ultima Hora” informando que Lucio Bittencourt acabava de morrer em desastre de avião, em Minas, quase chegando a Pedra Azul. Morreram o piloto, ele e meu substituto.

Era setembro de 1955. Faz 60 anos

O MOINHO E O REI

O rei da Prússia, Frederico II, um “déspota esclarecido”, com sólida formação cultural, em 1745, querendo ampliar o castelo de Sans Souci, sua residência de verão próxima a Berlim, propôs ao dono de um pequeno moinho ao lado a compra da sua área. Mas o moleiro recusou, porque ali estavam enterrados os seus antepassados. Ante a recusa, o rei ameaçou:

– Você bem sabe que, mesmo que não me venda a terra, eu como rei poderia tomar-lhe sem nada lhe pagar.

– O Senhor tomar-me o moinho? Ainda há juízes em Berlim!

Frederico II recuou e desistiu da ampliação do castelo. O moleiro, dono da propriedade ameaçada, demonstrava a certeza de que seu direito seria reconhecido pela justiça, mesmo lutando contra a Casa Real.

JUSTIÇA

No Brasil, na “Operação Banestado”, com as contas secretas enviando ilegalmente recursos para o exterior, apesar de toda a luta do bravo juiz Sérgio Moro, com o tempo os processos contra os banqueiros e doleiros prescreveram. E os corruptos deliquentes não foram punidos.

Na “Operação Castelo de Areia”, onde evasão de divisas, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e ilicitudes foram amplamente comprovadas pelo Ministério Público e a Polícia Federal, em 2011, o STJ (Superior Tribunal Justiça) anulou as provas com a alegação de a operação ter se originado de denúncias anônimas e escutas telefônicas ilegais.

Em fevereiro deste ano, o Ministério Público de São Paulo recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) tentando reabrir a “Castelo de Areia”. O ministro Luiz Roberto Barroso negou o recurso com a alegação de que seria necessário o reexame de todas as provas. Os corruptos ficaram com o “castelo” e o Ministério Público e a Polícia Federal com a “areia”.

ALDO MORO

Como em todas as ações criminais, também na Operação Lava-Jato, depois das sentenças de primeira instância, medidas protelatórias, claramente retardatárias, certamente chegarão ao Supremo Tribunal Federal. O professor Oscar Vilhena Vieira, de Direito Constitucional da FGV (Fundação Getúlio Vargas), adverte:

-“A Lava Jato ou qualquer processo judicial no Brasil não está livre de acabar na prescrição. A prescrição ocorre quando se encerra o prazo legal para o Estado executar a sua capacidade punitiva. O que leva a opinião pública a acreditar que o sistema jurídico favorece a impunidade”.

Mas o pais, que aplaude nas ruas e dá flores ao exemplar juiz Sergio Moro, está de olhos abertos. Vamos saber se ainda há juízes em Brasília.

Lembranças de guerra

Os judeus foram vítimas da “purificação racial” de Hitler

Sebastião Nery

Fazia frio naquela manhã de 8 de maio de 1945, no Seminário de Amargosa, na Bahia. Às 8 horas o Padre Feliciano já nos dava sua aula de italiano. Baixinho, compenetrado, vaidoso por sua pronúncia perfeita, balançava as pernas curtas que não chegavam ao chão.

De repente, pelas janelas abertas, começamos a ouvir um rumor que ia crescendo na praça em frente, com o povo pulando e cantando:

– “Hitler morreu, o urubu comeu, o couro é teu”!

O padre tentou impedir, mas corremos para a calçada e pulamos e cantamos também. A guerra tinha acabado: 8 de maio de 45. Tinha 12 anos. Escrevi a meu pai:

– “Aqui todos muito alegres pela paz, pelo fim desta terrível guerra. Ontem, benção com Te Deum, missa cantada, parada e festas na rua. Hoje, uma missa pelos soldados mortos”.

A guerra havia atingido a humanidade inteira

STALINGRADO

Dez anos depois, eu estava comemorando o fim da guerra do outro lado do mundo, em Stalingrado (hoje Volgogrado), a “cidade – martírio”: o “Morro da Mamãe” foi 9 vezes tomado pelos alemães e 9 vezes retomado pelos russos (o chão é um cascalho de cascas de balas), e onde estão enterrados mais de 200 mil habitantes, mortos pelas tropas de Hitler.

Foi lá que se entregou prisioneiro o general alemão Von Paulus, com todo o Exercito de Hitler, marcando o começo do fim da guerra. Estive dentro da casinha em que o general se apresentou preso. A gente sente bem de perto a tragédia que os russos sofreram com bombas caindo sobre a cidade 5 meses inteiros, dia e noite e 27 milhões de soldados mortos.

LENINGRADO

Stalingrado é sul. Lá em cima é Leningrado (hoje São Petersburgo), outra “cidade martírio”. O rio Neva corta Leningrado de todos os lados. São mil hectares de parques e jardins públicos, 101 ilhas, 65 canais, 48 pontes. E 3 milhões de habitantes. A cidade foi cercada, encurralada durante 3 anos, de 1941 a 1944, pelos alemães e toda bombardeada.

Voltei lá agora. Leningrado ainda tem a cara do horror da guerra.

VARSÓVIA

Varsóvia também é uma “cidade martírio”. Numa madrugada branca, toda pingada de neve, naquele já quase inverno de 1957, o velho motorista de táxi, olhos azuis e cabelos fogueados, ia me contando coisas de sua vida, entre o restaurante Krokodila e o hotel Bristol. De repente, a praça imensa, quadrada, seca, vazia, absolutamente vazia, como um pedaço de deserto caído sobre a cidade, com um discreto monumento negro ao centro.

– O que é isso, esta praça estranha?

– Aqui foi o gueto de Varsóvia. Aqui perdi pai, mãe, irmãos, filhos, minha família inteira. Aqui vivíamos, nós, os judeus. Em 1943, cansados do cerco de Hitler, indignados com as perseguições, violências e assassinatos diários dos nazistas, explodimos. Fizemos um levante armado, um desesperado suicídio. Fomos arrasados pela superioridade militar dos nazistas. Sobramos poucos, pouquíssimos. Fui um deles.

Arrastando seu francês cansado, o velho motorista de Varsóvia parou o carro pequeno de quatro lugares, saltou, chegou junto ao monumento e passou as gordas e avermelhadas mãos sobre a pedra negra, como se alisasse o rosto inútil dos pais, irmãos e filhos mortos. Tremi de frio e angústia na madrugada branca de Varsóvia vendo aquele homem encardido de desesperanças acarinhando a saudade de tudo que ele foi e a vida dilacerou nas garras da violência, do radicalismo, do racismo.

HITLER

Cheguei ao hotel, comecei a escrever uma série de indignadas reportagens sobre os crimes de Hitler contra os judeus: Treblinka, às margens do rio Buz, onde foram cremados os heróis do gueto de Varsóvia. Auschwitz, hoje museu da loucura dos homens, onde 3 milhões de judeus (180 mil franceses, holandeses, russos) foram massacrados e queimados.

Os campos todos da ignomínia, da barbárie racista alemã visitei e guardei a convicção de que, na dura luta do homem pela existência, uma coisa sobretudo não se justifica; a agressão pelo preconceito, a violência em nome da religião e a invasão dos países mais fracos para vender armas.

GUERRA

Faz 70 anos o fim desse festival de horrores. E o mundo não consegue festejar a paz. Por toda parte continuam pipocando guerras. Há sempre um tarado fabricando armas e um pais vendendo. Drummond sabia.

– “Toda guerra é ganha pelos generais e perdida pelos soldados”.

Como Hitler, hoje os Estados Unidos inventam guerras para vender armas. Eles, os grandes gigolôs da guerra, os maiores fabricantes de armas do mundo, não resistiram a Hitler como os ingleses, os franceses. Hoje invadem Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, África.

Lembrai-vos de Hitler!