Um país apodrecido

Garcia Marquez: “Onde encosta o dedo sai pus…”

Sebastião Nery

Éramos quase crianças, 19 anos. Eu, professor de latim e português. Ele, professor de matemática e ginástica. No ginásio de Pedra Azul, lá no infinito e saudoso norte de Minas.Os outros professores tínhamos inveja dele. Era o único que via as pernas das meninas da cidade. Não havia praia nem piscina. Nas aulas de ginástica, as alunas usavam short. João Bênio era um Salomão, naquela Jerusalém de virtudes.

Um dia, fomos embora. De quando em vez, tinha notícias dele. Ator, correu o país fazendo “As Mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch. Depois, foi para o cinema. Terminou diretor e produtor, fazendo sucesso e dinheiro.

Naquela tarde, seis anos depois, nos encontramos numa esquina de Zurique (Suíça), a caminho do “Festival Mundial da Juventude” de Moscou. Com champanha, celebramos nossa vitória sobre aquele pequeno mundo que nos quis segurar para vereador e delegado, prefeito e marido.

O trem até Praga e Moscou saia às 10. Resolvemos comprar máquinas fotográficas, com preços os menores da Europa. Chovia uma chuvinha fina, magra e feia, subdesenvolvida, poça na rua, pingo na cabeça, Os carros passavam ordeiros no asfalto, sem contramão e sem buzina.

Encostados na vitrina de uma loja ainda fechada, doídos de frio, esperávamos. Aquelas mulheres feias, cheias de luvas e capotes, pisando ligeiro o passeio molhado, brancas, branquelas, pernas finas e cara gorda, davam-nos saudade do Rio. João Bênio dizia besteiras. Cada uma que passava, um comentário. E as mulheres feias seguindo para o trabalho.

De repente, aponta uma linda. Alta, loura, rosto fino, andar esguio, parecia uma potranca árabe pisando aqueles passeios arrumadinhos. Vinha acompanhada de um homem muito alto, quase dois metros. Quando chegaram perto, bem em frente a nós, João Bênio não se conteve:

– Nesta eu dava uma dentada no pescoço.

O homem alto, muito alto, forte, muito forte, virou nos calcanhares, pôs o dedo bem no nariz de nós dois e grunhiu:

– Morder pescoço puta “parrriu”. “Trrrês anos Santa “Catarrrrina!”

A loja abriu. Pulamos dentro. E compramos nossas “Rolleiflex ”.

Não é preciso ter vivido três anos em Santa Catarina para saber que o pais está apodrecido. Cada dia um novo escândalo. Agora, na Receita, um rombo de 19 bilhões: HSBC, Santander, os grande bancos, todos bandidos.

GARCIA MARQUEZ

Quando chegamos a Moscou, no Hotel Zariá, ao lado da Universidade dos Povos (hoje Lumumba), os brasileiros logo conhecemos um jornalista colombiano, estudante de cinema, 30 anos, exilado em Paris:

– Na Colômbia está tudo tão ruim que onde se encosta o dedo sai pus.

Era Gabriel Garcia Marquez. Meio século depois, o Brasil igual.

DILMA

A recente pesquisa do “Instituto Data Folha” sobre o governo Dilma chega a ser surrealista quando analisa as diferentes regiões do pais. Consideram o governo “ruim e péssimo”, no Sudeste, 66%. No Sul, 64%; No Centro-Oeste, 75%. No Norte, 51%. No Nordeste, 55%.

Há 15 meses, em novembro de 2013, o “ruim e péssimo” do governo era de 22% no Sudeste, 20% no Sul, 17% no Centro-Oeste, 10% no Norte, e 11% no Nordeste. A “marola” da insatisfação com o governo Dilma transformou-se em um gigante “tsunami” indonésio.

RENDA E IMPOSTO

Por que essa violenta repugnância diante do governo?:

1.- A renda dos mais ricos cresceu na velocidade da Fórmula 1. O Brasil tem 50% do seu PIB nas mãos de 10% da população.

  1. – Nossa distribuição de renda é selvagemente desigual e a política tributária é confiscadora da renda da maioria da sociedade.
  2. – Vejam no Imposto de Renda. O contribuinte que ganha mais de R$ 5.000,00 tem a alíquota de 27%. Quem ganha R$ 50.000,00 ou R$ 300.000,00 por mês, tem a mesma alíquota. O sistema tributário é algoz de quem trabalha e produz. E o governo do PT escorchando quem trabalha.

JANIO DE FREITAS (Folha)

– “Se Joaquim Levy “não sabe de onde tirar os R$3 bilhões” que o governo deixará de receber se encerrada a agiotagem oficial, basta-lhe dar uma olhada no imposto cobrado à especulação financeira e às remessas de lucros – aliás não precisa olhar, porque sabe muito bem e dá a sua proteção”

O cabeleireiro de Dilma

Sebastião Nery

No enterro do professor Lineu de Albuquerque, diretor da Faculdade Nacional de Direito do Rio, o cemitério São João Batista estava lotado. Falou o reitor da Universidade do Brasil, Pedro Calmon. Falou o ministro Hermes Lima, em nome do presidente Goulart. Quando o caixão já se cobria de flores, pronto para descer, uma voz gritou lá de longe:

– Um momento!

E um desconhecido, cara modesta, voz trêmula, fez um discurso de arrepiar coveiro. Acabou assim:

– Desculpem, os senhores não me conhecem. Eu era o barbeiro do professor Lineu de Albuquerque.

Na saída, cada um dos presentes recebia o cartão de um desconhecido, cara modesta, voz trêmula. Era o barbeiro-orador.

O BARBEIRO

No enterro do poeta Augusto Frederico Schmidt, o cemitério estava também lotado. Falou Manoel Bandeira, da Academia Brasileira de Letras. Falou Francisco Parente, jornalista e poeta. Quando o caixão já se cobria de flores, pronto para descer, uma voz gritou lá de longe:

– Um momento!

E um desconhecido, cara modesta, voz trêmula, fez um discurso também de arrepiar coveiro. Acabou assim:

– Desculpem, os senhores não me conhecem. Eu era barbeiro do poeta Augusto Frederico Schmidt.

Na saída, cada um dos presentes recebia o cartão de um desconhecido, cara modesta, voz trêmula.

Era ele.

O MINISTRO

Sem ministro da Educação, em um segundo governo de dois meses, depois de inventar o slogan gaiato de “Brasil – Pátria Educadora”, a presidente Dilma sofre o vexame de não conseguir um nome para ministro.

O PT exige que o ministério seja dele. Mas não tem quem. Um partido que nasceu da rebeldia da intelectualidade nacional aliada aos movimentos sindicais não tem um nome à altura. Os que tinha perdeu. O senador Cristovam Buarque, o professor Paulo Delgado, que honrariam qualquer governo, foram isolados e tiveram que fugir do PT.

Agora Dilma tenta nomear Gabriel Chalita, um tapa-buraco. Mas é PMDB. E nomear alguém do PMDB o Cid Gomes iria pôr a peruca e dar um piti.

O Rui Falcão, mais urubu do que falcão, tenta desesperadamente arranjar um nome. Nem no Google. Petistas ainda sensatos temem que ele tente convencer a Presidente de que a saída é a do barbeiro do São João Batista: um dos cabeleireiros da Presidente. Ninguém é contra cabeleireiro.

CASA CIVIL

Não é só na Educação. A Presidente está engasgada também na Casa Civil. Lula, o proprietário da Presidente, exige que ela tire o Aloízio Mercadanta, isto é Mercadante, um peso pesado, e o substitua ao menos por um bigode menos arrogante.Mas ele é o ultimo amigo de Dilma no governo

Talvez a solução seja lembrar o sábio mineiro Negrão de Lima:

– “Política é a ordem natural das coisas”.

Por exemplo. Aloízio Mercadante é Mercadante da mãe mas é Oliva, filho do brilhante e então poderoso general Oswaldo Muniz Oliva, da Bahia, quatro estrelas, diretor da Escola Superior de Guerra. O filho dele, Aloízio Mercadante, bem poderia ser o ministro da Defesa. Ficaria em casa.

Mas iria desbancar o Jacques Wagner. E daí? Nome judaico, cabeleira judaica, pinta judaica, excelente negociador, bom de conversas, acordos e acertos, Wagner bem poderia ir para a Casa Civil, onde a Dilma está precisando de alguém que comande a articulação política.

Não cobro nada pela consultoria. Não sou Palocci nem Dirceu.

A GUERRA

Lula disse que se a oposição continuar criticando Dilma ele vai chamar e jogar na rua o Exército do Stedile “com suas botas engraxadas”. Uma semana depois, a Dilma vai ar Rio Grande do Sul e o Stedile lhe anuncia marchas, ocupações e invasões do MST no dia 7 de abril.

As redes sociais já haviam convocado novo 15 de março para 12 de abril. É a perigosa guerra das ruas oficializada pela estupidez do governo.

A pata manca

Sebastião Nery

Palácio das Laranjeiras, Rio, meia-noite de 31 de março de 1964. De Minas continuavam chegando as notícias das tropas do general Mourão Filho para derrubar o presidente João Goulart. Cercado de ministros e amigos, Jango dava telefonemas, conferenciava com militares e civis. E o nervosismo, de minuto a minuto, ia tomando conta do palácio.

De repente, o indefectível general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, que até há pouco dizia ser invencível o esquema militar do governo, aconselhou o Presidente a abandonar o palácio, por não oferecer segurança. A resistência devia ser dirigida de um local mais garantido.

TENÓRIO

Tenório Cavalcanti, que estava lá em solidariedade a Jango, soube do conselho de Assis Brasil, correu a seu gabinete:

– General, o senhor não disse há pouco ao senador Barros de Carvalho que o esquema militar do governo está tinindo?

– Disse, sim, deputado. E está.

– Por que então o senhor sugeriu que o Presidente saia daqui do Laranjeiras?

– Porque aqui ele não terá muita segurança.

– Nada disso, general, o que o senhor está dizendo é uma loucura. Não há lugar mais seguro do que este. O palácio é uma verdadeira fortaleza, dominando a colina, acessível apenas por um dos flancos, através de uma estreita garganta inexpugnável. O Presidente não deve sair daqui.

Parecia que o general era Tenório, que logo passou a dar ordens, aos gritos, como se estivesse em sua fortaleza de Caxias:

– Sargento, coloque um grupo ali. Capitão, instale um ninho de metralhadoras ali embaixo. E os fuzis, onde estão os fuzis? Tragam fuzis!

Ao meio-dia do dia seguinte, Jango abandonou o palácio. Não acreditava nem nas teorias de Assis Brasil nem na prática de Tenório.

DILMA

História puxa história. Em 1974, o escândalo Watergate (escuta ilegal na sede do oposicionista Partido Democrata, em Washington) levou o presidente dos EUA, Richard Nixon, a renunciar. O seu vice, Spiro Agnew, já havia sido afastado por envolvimento com a corrupção. Constitucionalmente coube ao deputado Gerald Ford, presidente da Câmara, assumir a Casa Branca, no pleno exercício do poder.

Sua administração de dois anos foi marcada por incompetência e tempos tempestuosos. Foi quando o jornal “New York Times” reabilitou expressão popular em desuso há muitos anos, na realidade política e administrativa dos norte-americanos: “lame duck”. O presidente Ford seria um “pato manco”, à frente de um governo impotente e ineficaz.

Na manhã deste domingo, no palácio da Alvorada, a presidente Dilma começou zombando das manifestações. Pensou que iriam ficar restritas à matinal e domingueira praia de Copacabana:

– Não há foco. Falta foco.

Daí a pouco, a arrogante e desastrada Presidente percebeu que havia foco, sim. E no pais inteiro. Milhões nas ruas, de Manaus a Porto Alegre. O foco era ela, o foco dela, o governo dela, o PT dela, o Lula dela, o desastre.

Só em São Paulo muito mais de um milhão. O povo já fez o impeachment dela. Com que cara a pata manca vai aparecer para governar?

MARTA

O lúcido professor Milton Lahuerta, coordenador do Laboratório de Política e Governo da Universidade Estadual Paulista, adverte :

– “Em grande parte isso se deve ao ex-presidente Lula, que incentivou essa polarização do se apresentar como aquele que estava inaugurando uma nova era, uma transformação social que, em quatro séculos não havia ocorrido. Como se fosse possível traduzir toda a luta pela democracia no País a um personagem e a um partido político. Agora estamos vivendo algo muito grave”.

Outra voz sabia é a da brilhante e brava ex-ministra Marta Suplicy:

– “O que está em jogo é a governabilidade, a sobrevivência do país. Não há como continuar com uma equipe de governo que se distanciou, quase rompeu com o Congresso e que, por seus vícios sectários e métodos excludentes, estabeleceu verdadeira ruptura com a vida nacional. Se não podemos trocar de comandante em pleno voo de turbulências, o mínimo que podemos exigir é a troca imediata da equipe de comando. A começar pelo copiloto, responsável maior pela desastrada rota de voo”.

Os lábios de Dilma e a falta de governo

Dilma está subindo o “tom” no Planalto

Sebastião Nery

Padre Godinho, doutor em teologia em Roma, uma catedral de cultura, deputado federal da UDN e do MDB de São Paulo, imitava perfeitamente as vozes alheias. Uma noite, toca o telefone no apartamento do Padre Nobre (MDB de Minas) em Brasília, amigo do Padre Godinho:

– É o senhor Padre Nobre? Padre Nobre, aqui é dom José Newton, arcebispo. Soube que o senhor está na Comissão de Finanças da Câmara e estamos precisando de ajuda para as obras de assistência aos menores da arquidiocese. O senhor poderia providenciar uma verba?

– Pois não, senhor arcebispo. Com todo prazer. Farei isso amanhã.

– Muito obrigado, padre. E ajoelhe-se para receber minha benção.

No dia seguinte, na Câmara. Padre Godinho encontra padre Nobre:

– Nobre, sonhei esta noite com você ajoelhado à beira da cama, recebendo uma benção.

PADRE GODINHO

Padre Nobre entendeu o trote, ficou uma fera, mas não disse nada ao Padre Godinho. Deixou para vingar-se depois. Um mês depois, de manhã bem cedo, toca o telefone no apartamento do Padre Nobre:

– É o senhor Padre Nobre? Padre Nobre, aqui é dom José Newton,

– Vá à puta que o pariu, seu arcebispo de merda.

E bateu o telefone. À tarde, chega à Câmara, preocupado, monsenhor Ávila, secretário do arcebispo:

– Padre Nobre, o que é que houve hoje cedo durante o telefonema do senhor arcebispo para o senhor, que ele passou mal logo que desligou o telefone?

Padre Nobre ligou aflito para o arcebispo contando a história do trote de padre Godinho e pedindo desculpas. Dom José Newton ouviu, desculpou:

– Está explicado, Padre Nobre. Mas que linguajar nos lábios de um sacerdote!

Padre Nobre queria matar seu amigo Padre Godinho.

DILMA

Os amigos e assessores da presidente Dilma andam preocupados com a acelerada que a presidente deu nos seus costumeiros palavrões e despautérios. Ela sempre foi assim, mas não tanto. O hábito de xingar quem discorda dela ou aqueles de quem ela discorda vem de longe. Mas sempre teve um mínimo de limites. Agora, desandou. É palavrão aos borbotões.

Depois que a Operação Lava Jato subiu as escadarias do palácio do Planalto e cada dia ficam mais claras a omissão e conivência dela na roubalheira da Petrobras, mais ela sobe o tom e generaliza a gritaria;

Se as lânguidas colunas da curvilínea arquitetura de Niemeyer não fossem tão sólidas, algumas paredes palacianas já teriam esboroado ao sopro dos furiosos adjetivos nos turvos lábios presidenciais.

CUPIM PETISTA

Os números do governo petista cada dia mais corroem o país.

1.- A administração federal tem 39 ministérios, 128 autarquias e 141 empresas estatais A prioridade de um governo responsável é canalizar recursos para o crescimento econômico, investindo na infraestrutura e estimulando os investimentos privados em uma economia cujas carências são abismáticas, e também no fortalecimento dos gastos com os programas sociais, a exemplo do Bolsa Família que tem um custo da ordem de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Para comparar, só o pagamento de juros da dívida pública ao mercado financeiro, em 2014, fica acima de 6% do PIB. Não são os programas sociais os responsáveis pelos descontroles da economia. No ano, o Bolsa Família recebe o que os banqueiros ganham em um mês.

FALTA GOVERNO

– A Presidente deveria buscar informações na Secretaria de Gestão Pública, órgão do Ministério do Planejamento, que registra: o Executivo tem 757.158 cargos de serviços efetivos, mais 113.869 cargos de confiança e comissionados, além de 20.922 contratos temporários de trabalho.

Só a presidência da República em dezembro de 2014 era responsável por 23.008 cargos de confiança e comissionados, Na Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel dispõe de 600 funções de confiança.

O que falta ao Brasil é governo.

Quem quebrou a Petrobras

Sebastião Nery

José de Almeida Alcântara, alto, cabeleira branca exposta ao vento, talentoso, audacioso, coletor federal, prefeito, deputado, era um terror para seus adversários na política de Itabuna, sul da Bahia.

Em 1960 apoiou Jânio Quadros, da UDN. Teixeira Lott, candidato do PSD e PTB, foi a Conquista com uma grande caravana. Tão grande que o palanque não aguentou, desabou, quase quebrou a perna do velho marechal que ficou impedido de seguir para o comício de Itabuna. Ele não foi, mas a comitiva foi e fez comício na praça. No dia seguinte Alcântara, que apoiava Jânio, convocou um comício contra Lott. E fez como sempre um discurso desabusado:

– “Ontem esteve nesta praça um punhado de contrabandistas: João Goulart, contrabandista de boi para a Argentina. Batista Luzardo, contrabandista de ovelhas para o Uruguai. Orlando Moscoso, contrabandista de cacau e até o padre Nestor Passos contrabandista de…

Parou, pensou, continuou:

– “Contrabandista de almas. Encomenda as almas para o céu e manda todas para o inferno.”

Jânio ganhou em Itabuna.

ALCÂNTARA

Prefeito, Alcântara brigou com Gileno Amado, compadre do governador Juracy e líder da UDN na região. Gileno lançou uma campanha para forçar Alcântara a renunciar. Chamou o vereador da UDN Manoel Alvarandio e promoveram uma marcha popular até a prefeitura, todos gritando “impeachment! impeachment!”

Alcântara apareceu na porta da prefeitura com os brancos cabelos esvoaçantes, um pedaço de papel na mão esquerda, uma caneta na mão direita e desafiou a multidão:

-“Voces querem meu impeachment, eu renuncio. Mas antes preciso que este moleque, o vereador Alvarandio, escreva a palavra impeachment aqui neste papel.”

Alvarandio e a multidão foram dormir.

IMPEACHMENT

Março começou com o país se preparando para a grande marcha do dia 15 contra os desvarios da presidente Dilma. O povo vai dizer nas ruas porque não está engolindo esta farsa de uma candidata que ganhou a eleição dizendo uma coisa e agora, com toda a sua cara de pau, que está murchando dia a dia, faz tudo ao contrário.

Não se trata, por enquanto, de fazer impeachment agora, que é uma arma que a Constituição entrega ao país só nas horas do desastre final. Mas é preciso que cada um assuma suas responsabilidades. Essa história de Lula e Dilma rebolando nos palanques e televisões como se nada tivessem a ver com a roubalheira na Petrobrás é asquerosa e intolerável.

Cada um, presidentes da República, presidentes da Petrobrás, presidentes e membros do Conselho Administrativo, vai ter que assumir suas responsabilidades e pagar pelo que fizeram ou deixaram de fazer.

LULA

Em Angra dos Reis, no dia 7 de outubro de 2010, o presidente Lula proclamava: “No nosso governo a Petrobrás é uma caixa branca e transparente. A gente sabe o que acontece lá dentro. E a gente decide muitas coisas que ela vai fazer.”

A autossuficiência promoveu o festival de incompetência de projetos inviáveis, como as refinarias de Pernambuco, Ceará, Maranhão e Rio de Janeiro. Todas elas consideradas inviáveis pelo corpo técnico da Petrobrás. No parecer “Análise empresarial dos projetos de investimento”, de 25 de novembro de 2009, era documentado o ponto de vista técnico da empresa, atropelado e desconsiderado pelo então presidente da República, que agora queda-se em silêncio constrangedor ante as revelações da “Operação Lava Jato”.

DILMA

A presidente do Conselho de Administração da estatal era Dilma Rousseff. Chegando depois à presidência da República, o seu governo ampliou e agravou a situação financeira da empresa. O caixa foi dilapidado à exaustão para atender ao populismo fundamentalista. Importava petróleo à média de 100 dólares/barril e vendia internamente a 75 dólares/barril. Estimava-se o prejuízo em R$ 65 bilhões.

Agora o grupo de Economia e Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro encontrou outro número. O economista Edemar de Almeida, na “GloboNews”, coordenador do Grupo, afirmou que o prejuízo da Petrobrás foi de R$ 106 bilhões. No governo Dilma Rousseff, por consequência, o endividamento da Petrobrás quadriplicou.

A maior crise da história da estatal teve pai e mãe, autênticos carrascos na mutilação da quinta maior empresa de petróleo do mundo.

A rapina foi a garantia da roubança e do conluio dos corruptos e corruptores na expropriação de bilhões de reais alimentando quadrilhas.

Lições do velho quartel

Sebastião Nery

De repente, noite alta, lá dos fundos do quartel escuro e imundo uma voz desesperada começou a gritar, urrar:

– “Ai, meu São Gonçalo! Me salve, meu padroeiro! Eles estão me matando”.

Um tombo surdo, sons pesados como patadas de elefante em filme indiano, gargalhadas histéricas e palavrões contínuos ecoavam no silencio úmido do quartel e não se ouvia mais a voz lancinante do devoto de São Gonçalo. Mas ela voltava, pastosa:

– “Me salve, meu São Gonçalo! Eles estão me matando”!

Novo tombo surdo, novas patadas, novas gargalhadas e palavrões, e caía outra vez sobre a madrugada o silêncio molhado do quartel. Para daí a pouco começar tudo de novo. Até parar no amanhecer.

A TORTURA

Da cela-porão, onde eu estava enfiado, nu, só de cueca, em maio de 1964, no infecto e multissecular quartel do Exercito, o Forte do Barbalho, em Salvador, dos tempos da invasão holandesa na Bahia, não dava para saber nem sequer imaginar o que acontecia.

Éramos mais de duzentos presos políticos no quartel. O deputado federal Mário Lima e eu, deputado estadual, estávamos confinados em dois fedorentos depósitos de tambores de gasolina, transformados em celas-solitárias. Os prefeitos Francisco Pinto, de Feira de Santana, Pedral Sampaio, de Vitória da Conquista, e outros, vereadores, professores, líderes sindicais e estudantis, amontoavam-se em celas coletivas, dormindo no chão crispado de cimento antigo e terra, sem banheiro, só com latas.

De onde viriam aqueles apelos a São Gonçalo? Ainda não havia tortura a presos políticos no quartel do Barbalho, em 1964. Ninguém era tirado da cela para apanhar. Alguns, como Mário Lima e eu, porque resistimos ao ser presos, levamos pancadas na rua, que lá dentro logo pararam. Havia a bárbara nudez sobre o chão molhado de gasolina e óleo, o dormir sobre o cimento frio, esburacado de séculos, mas tortura não havia.

“Ainda”não havia,como contou depois o Emiliano José em “Galeria F”.

O COMANDANTE

De manhã, perguntei ao discreto e humano capitão Caliga, o médico do quartel, que visitava diariamente as celas, o que tinha acontecido. Ficou constrangido:

– Deputado, não faça perguntas, sobretudo ao comandante. Pode lhe ser pior.

Mas fiz. Tirado da cela-porão pelo civilizado major Guadalupe Montezuma para depor no gabinete do comandante, o tarado capitão sergipano José Hermes de Figueiredo Ávila (como esquecer o nome dele?), apelidado ali de “Hermes 30”, porque era a pena mínima de solitária que dava a qualquer sargento ou soldado, rosnou quando lhe perguntei.

– “Deputado, não se meta no que não é de sua conta. Agradeça não ser com você”.

Apurei depois. Um soldado saiu escondido do quartel para ir ao aniversário da mãe, em São Gonçalo, no Recôncavo da Bahia. Buscaram-no no meio da festa e o Exercito o torturou a noite inteira.

Meio século depois, voltei ao velho e infecto quartel do Barbalho (hoje desativado), quando estava escrevendo meu livro “A NUVEM – O QUE FICOU DO QUE PASSOU” (Editora Geração – SP), onde contei minuciosamente as barbaridades que ali vi e vivi, meses a fio, em 1964.

Ainda ressoavam em meus ouvidos os gritos lancinantes do soldado torturado porque foi dar um beijo na mãe que fazia aniversario. De que adianta a violência se o tempo passa? A História não perdoa.

O MINISTRO

Cada dia está mais escrachado, perante o pais, o papelão desse inacreditável ministrinho Cardozo, da Justiça, escondidinho no escurinho do gabinete com as empreiteiras, tentando um golpe para anular o bravo e brilhante trabalho do juiz Sergio Moro, do Ministério Publico e da Policia Federal, que desvendaram o escândalo do “Petrolão”.

Quando os depoimentos e provas se multiplicam, através de mais de uma dezena de “delações premiadas”, e o carrossel de crimes vai chegando perto do PT, de Dilma, de Lula, dos políticos e empresas envolvidos, mais o governo se desespera e põe sua matilha de perdigueiros na rua.

Não adianta. É outra lição da História. Um dia as cortinas se abrem.

O Ministro de Patos

Ministro Cardozo mais parece o delegado de Patos, na Paraíba

Sebastião Nery

João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro muito alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam.

Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta proibindo qualquer pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho, porque ele gostava de tirar uma madorna, uma soneca, toda tarde.

JOÃO GRANDE

João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão com suas botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, deu um sorriso amarelo, afinou a voz:

– Boa taaarde!

João Grande não disse nada. O delegado também calou e não disse nada. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente a calçada, como fazia o dia inteiro, a semana toda, vinha vindo um homenzinho baixinho, pequenininho, trotando, quase correndo, com um cesto na cabeça, equilibrando numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:

– Olha o abacaxi!!!!

Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou para sua terra com as mãos enormes e as botas cravadas de ferro.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO

Em 1969, logo depois do AI-5, Carlos Petrovich, diretor do Curso de Teatro da Universidade de Brasília, ocupada e estrangulada pela ditadura, convidou o saudoso Ariano Suassuna, gênio rebelde de “A Pedra do Reino” e “Auto da Compadecida”, para uma palestra. O auditório estava cheio de arapongas do SNI. Suassuna começou contando a história de João Grande.

Esta semana, o ministro da Justiça, Eduardo Cardoso, foi apanhado em flagrante reunindo-se às escondidas, no próprio ministério, com um punhado de advogados dos réus do escândalo da “Operação Lava a Jato”, na roubalheira da Petrobrás para dar dinheiro ao PT e seus aliados.

Ora, o processo é uma gravíssima e indispensável operação da Policia Federal, do Ministério Publico Federal e do Supremo Tribunal Federal para desbaratarem “o maior escândalo financeiro da historia do pais”. O ministro da Justiça não tem o direito de estuprar a legalidade para tentar desviar e obstruir o encaminhamento das atribuições da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da Republica, da Controladoria Geral da Republica, do Tribunal de Contas da União e do Supremo Tribunal.

O ministro da Justiça precisa respeitar o pais. Se ele quer ser o delegado de Patos de um século atrás só chamando um tropeiro João Grande para jogar a placa dele na rua.

JOAQUIM BARBOSA

Tem razão o sempre lúcido, equilibrado e bravo ex-presidente do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa:

– “Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a Presidente Dilma demita imediatamente o Ministro da Justiça”.

“Reflita você: – para defender alguém em um processo judicial, ao invés de usar argumentos e métodos jurídicos perante o juiz, você vai recorrer à política?”

E logo a pior política, com o governo rasgando o processo e a lei?

A LISTA DO XILINDRÓ

O clássico do cinema americano, filme de 1993, de Steven Spielberg, chamava-se “A Lista de Schindler!”. Um poema da bravura humana.

Está chegando fevereiro. E foi para fevereiro que o Procurador Geral da Republica, Rodrigo Janot, e o ministro relator da ação no Supremo Tribunal, Teori Zavascki, prometeram a divulgação da lista dos políticos acusados na Operação Lava a Jato, por terem foro privilegiado.

Vai ser a “Lista do Xilindró”.

A andorinha da Suíça e a fábrica de lavar dinheiro

Ziegler foi relator da ONU para assuntos de alimentação

Sebastião Nery

O nome dele é Jean Ziegler (80 anos). Professor de sociologia da Universidade de Genebra, na Suíça, em 1976 lançou o livro “A Suíça Acima de Qualquer Suspeita”. Foi um Deus nos acuda, Denunciava o poderoso, intocável e corrompido sistema bancário suíço. Começava a largada para uma batalha que se prolongaria por décadas.

A repercussão do livro no mundo acadêmico, na Europa, nos Estados Unidos, mostrava a necessidade de o combate ser travado também no parlamento. Eleito deputado por alguns mandatos na Confederação Helvética (a Câmara dos Deputados da Suíça), Ziegler logo se transformou no inimigo nº 1 dos “paraísos fiscais”, que tinham na Suíça seu porto mais seguro. Como um D. Quixote moderno, viu que os bancos suíços eram os principais “moinhos” que deveria guerrear.

Brutais campanhas difamatórias patrocinadas pelos banqueiros buscaram intimidar a sua consciência crítica. Em vez de ficar amedrontado,  ele, destemido, contra-atacava. Demonstrava que os seus compatriotas eram hipócritas e falsamente liberais frente aos problemas do mundo. Estava ferindo de morte o segredo bancário que tinha “status” de sacralidade. Sua origem vinha desde 1714, ratificado por lei específica em 1934. Os banqueiros de Berna, Lausanne, Zurique e Basiléia, sentindo-se atingidos, acionaram a justiça e o processaram. E  o parlamento, submisso, promoveu a “cassação” de seu mandato e de sua imunidade parlamentar.

JEAN  ZIEGLER

Fora do legislativo, o contra-ataque de Jean Ziegler foi devastador. Lançou o livro “A Suíça Lava Mais Branco”, que se transformaria em “best-seller” mundial, inclusive no Brasil. Suas ideias marcaram a sociedade moderna, onde a avassaladora supremacia financeira no mundo contemporâneo encontrou nele um resistente irremovível. Seus opositores, políticos e banqueiros, diziam que eliminar o segredo bancário do “dinheiro sujo” seria uma catástrofe econômica. Ele respondia:

– “O manejo do dinheiro  na Suíça se reveste de um caráter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos atos que se revestem de uma majestade ontológica que nenhuma palavra deve macular e se realizam em silêncio e recolhimento.”

Ziegler calculava em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros “offshore” do mundo, à frente do Caribe, Luxemburgo e Extremo Oriente. Demonstrava que o dinheiro sem origem lícita, fruto do caixa 2, da corrupção pública e privada,  movimentava US$ 6 trilhões.

Continuou lutando. Seu livro seguinte, “Os Senhores do Crime”, é obra irretocável sobre a delinquência dos poderosos do mundo. Quando a Confederação Helvética cassou sua imunidade parlamentar, o governo suíço chegou a patrocinar emenda constitucional para que “o segredo bancário seja inscrito e garantido pela Constituição Federal”. A repercussão do livro “A Suíça Lava Mais Branco” foi tal que a iniciativa não teve êxito.

Mas a roda da historia rola para a frente. Neste  2015, o governo da Suíça e sua estrutura jurídica tornaram-se aliados no combate à lavagem do “dinheiro sujo” no mundo. A radical mudança do governo suíço teve como fator determinante a luta solitária do parlamentar e intelectual talentoso, dono de coragem e destemor invulgar.Processado pelos poderosos, cassado pelo parlamento, continuou a lutar e ao final foi o grande vitorioso.

Meu amigo o bravo professor e escritor baiano Helio Duque, três vezes deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná, tem razão :

– “A luta do valente suíço deveria servir de exemplo para muitos homens públicos brasileiros. Às vezes uma andorinha só faz verão”.

A BAHIA NO SUPREMO

Desde Rui Barbosa, eleito pelo Conselho da Liga das Nações para a Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda, a Bahia  é sinônimo de Direito, Justiça e Lei, Sempre esteve presente no Supremo Tribunal.Os últimos foram Amarílio Benjamin, Adalício Nogueira, Hermes Lima, Aliomar Baleeiro, Ilmar Galvão. Agora, toda a Bahia se une para ver no Supremo seu mais ilustre jurista de hoje, o professor Augusto Aras.

É uma bela e grandiosa biografia: mestre e doutor em Direito, subprocurador-geral da Republica com assento no STJ, professor das Faculdades de Direito das Universidades Federais de Brasília e da Bahia, membro da Comissão de Juristas do Ministério da Justiça, Procurador da Fazenda, vários livros de Direito publicados, sobretudo de Direito Eleitoral,

Tem currículo, tem sabedoria e tem nome de ministro.

Apagão do governo

Sebastião Nery

Major Irineu de Princesa Isabel, na Paraíba, rico, pão duro e ateu, não dava um tostão para a igreja. A mulher pedia, o padre pedia, nada. Uma noite chegaram aflitos dois empregados:

– Coronel, o açude está subindo. A água já está no respaldo.

Major Irineu começou a andar de um lado para outro. Água no respaldo era açude em perigo. E se o açude rompesse, a fazenda estava inundada. A mulher pedia:

– Velho, vá ao Santuário, leve o óbolo e faça uma promessa. Precisamos salvar o açude.

E ele andando. E novos emissários chegando. E a água já em cima. Major Irineu entrou no quarto, abriu o nicho, pegou as imagens dos santos, enrolou todos em um cobertor, selou o cavalo, montou, tocou para o açude. Na barragem, de metro em metro pôs um santo:

– Rapaziada, vocês mesmos é que sabem aonde querem ir.

A água baixou.

DILMA

Dilma nem santo tem para pendurar no açude. É o maior desastre de governo que já se viu no pais. Os generais ditadores eram impostos, enfiados garganta abaixo da Nação. Mas Dilma nem esta desculpa tem: foi eleita pelo povo. Na base da mais sórdida violência oficial e da mais deslavada corrupção, mas foi votada, escolhida. Ganhou.

Agora, já indisfarçadamente arrependido, o povo chia, se queixa, reclama. É tarde. Golpe não. A não ser uma CPI e um “impeachment” bem alicerçados na Constituição (e o “petrolão” já dá razões de sobra para isso), temos que esperar 2018. Democracia é assim: ensina até no meio do lodo.

A imprensa é e tem que ser a foto do abismo de um pais falido: crescimento zero, inflação já mais de 7, juros mais de 12, indústria demitindo de norte a sul, inclusive o protegido automobilismo, dívida publica de 2 trilhões e 300 bilhões, rombo de 32 bilhões, maior da historia.

Apagão de luz, apagão de água, apagão da saúde, apagão da educação, mas desgraça mesmo é o apagão de Governo. É Dilma Roscofe.

O PISTOLEIRO

Um livro exemplar e oportuno: ““João Santana: Um Marqueteiro no Poder””, de Luiz Maklouf (Editora Record). É o retrato não de um coronel, mas de um pistoleiro. No Colégio da Bahia, em Salvador, Santana era chamado de “Tio Patinhas” : doido por dinheiro. Continuou e piorou.

No Globo de 23 de janeiro está ele lá, ao lado da Dilma, com seus olhos fluidos, agredindo desrespeitosamente Duda Mendonça, seu ex-sócio:

– “O Duda é a bicha mais invejosa que tem”. E mais -“O pensamento de que quem bate perde eleição é falso. Perde é quem não sabe bater. A política é ao mesmo tempo a sublimação e o exercício da violência”.

Não é um marqueteiro, é um pistoleiro.

Os cães da Bahia

Ulysses e Tancredo enfrentaram os cães da ditadura

Sebastião Nery

SALVADOR – Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita  da direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

– A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao MDB que não vai permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

– Isto é ilegal, disse Ulysses. – A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

– Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites.

ULYSSES

Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um campo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça. Ulysses olhou, meditou, comandou:

– Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo Filho, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impávidos. Quando nos aproximamos,  um oficial gritou:

–Parem! Parem! Ninguém passa!

O COMÍCIO

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

– Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo todo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses. Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um. Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos à porta do partido, entramos aos tombos e solavancos.

Ulysses chega à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

– Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E seus cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado: 14 discursos e uma passeata. Graças à batalha de Itararé da Bahia.

O LIVRO

Livro é como banana na feira. Se o feirante não anuncia o freguês não compra. Continuo minha maratona nacional de lançamento de meu último livro, “NINGUÉM ME CONTOU EU VI – De Getúlio a Dilma” (Geração Editorial – São Paulo).

Cada semana uma capital. Na semana passada foi no Recife. Ontem, terça-feira, aqui em minha Salvador, na Livraria Cultura (Salvador Shopping). Uma onda de autógrafos.

PETROLÃO

Quem duvidava que a Procuradoria Geral da República e a Justiça Brasileira fossem cumprir seu dever e explodir o escândalo da Petrobrás enganou-se. O juiz Moro do Paraná e o ministro Teori do Supremo estão escrevendo uma nova e magnífica página na história do pais.

FÉRIAS

Como todo ano, desde 1952, quando entrei pela primeira vez em um jornal, janeiro é férias, férias é na Bahia e Bahia é Jaguaquara.

Volto em fevereiro.

Histórias pernambucanas, de Julião a Arraes

Sebastião Nery

RECIFE – Vim a Recife quase com Mauricio de Nassau. Em 1954, já lá se vão 60 anos, estava eu por aqui ajudando a organizar nossas tropas da esquerda para o congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). E nunca mais passei um ano sem voltar e sem gostar. Pernambuco e política são sinônimos. Esta a sua principal lição.

JULIÃO

Francisco Julião me roubou a China. Acabado o Festival Mundial da Juventude pela Paz e Contra a Guerra, em Moscou, em 1957, cada um foi tomando o rumo de casa. Muitos, como eu, sairíamos de lá para visitar outros países ligados à União Soviética. A indicação evidentemente era das direções da Juventude Comunista e do Partido Comunista do Brasil.

Consultado, preferi a China. Era tão mais distante quanto mais misteriosa e Mao Tse Tung uma estátua ambulante do século XX.

Tudo certo, iríamos um pequeno grupo de brasileiros. Mas meu amigo Francisco Julião, sem saber de nada, atrapalhou tudo.   Fundador das Ligas Camponesas, deputado estadual de Pernambuco pelo nosso PSB (Partido Socialista Brasileiro) em que eu me elegera vereador em Belo Horizonte, apareceu em Moscou à frente de uma delegação de 22 deputados estaduais pernambucanos e pediu ao PCB, que decidia com os russos as coisas do Brasil, para irem a Pequim.

O argumento era irreplicável: os jovens companheiros deveríamos dar o lugar aos deputados, porque sempre teríamos outra oportunidade. E lá foram eles e não fomos nós. Mas haveria compensações. A minha estava na minha ficha: – “estudante, jornalista, professor”.

EM MOSCOU

Em vez de ir à China, iria passar meses participando de programas de radio e de debates sobre o Brasil e a juventude brasileira na Universidade da Amizade dos Povos e entre estudantes e operários de Moscou. E depois, em Leningrado e Stalingrado. E Varsóvia, Praga, Budapeste e Berlim, o mundo mítico do comunismo mundial.

Fui a todos. Deixei a China para quando ela se vestia de azul.

CID SAMPAIO

Em Pernambuco, em 1958, encontrei o rastro luminoso de João Doria, o criador do marketing político brasileiro, pai do talentoso João Dória Júnior e “avô” do nosso hoje imbatível Duda Mendonça.

João Doria havia assumido a propaganda das “Oposições Unidas de Pernambuco”, em torno da renovadora candidatura do industrial Cid Sampaio, da UDN, e concunhado de Miguel Arraes, depois secretário da Fazenda do governo de Cid.

O adversário de Cid era o respeitado professor, ex-deputado e senador Jarbas Maranhão, do PSD. Doria criou nas rádios uma devastadora campanha contra ele. Às seis da manhã, um relógio despertava, o locutor chamava: -“Acorda, Jarbas! Cid já acordou!”

Às sete horas, de novo o despertador tocando e o locutor :

– “Acorda, Jarbas! Cid já acordou”!

E assim às oito, às nove, às dez, às onze. Às doze, afinal : – “Jarbas acordou! Muito bem, Jarbas! Mas agora é tarde demais. Cid já ganhou”.

E ganhou mesmo. Em 1960, Cid me disse que ele e a UDN de Pernambuco iriam votar em Juracy Magalhães, mas achava muito difícil a UDN resistir à avalanche da aliança de Janio com Lacerda. E não resistiu.

ARRAES

A história é a crônica do novo contra o velho. Cristo construiu a mais eterna das instituições aos 30 anos. Maomé, aos 40, era o guia de seu povo. Buda, aos 29, estava nas montanhas mudando a cabeça do Oriente. Lênin, aos 30, era o principal criador do partido que ia mudar a história do século. Napoleão, aos 27, presidia o “Diretório” e comandava a França. Bolívar, aos 24, já havia libertado 4 países e voltava herói à Venezuela, em carro aberto puxado por dez virgens. Churchill, aos 40, carregava a Inglaterra na cinza de seu charuto. Mitterrand, aos 29, ajudava Charles de Gaulle a reconstruir a França libertada.

No dia 13 de maio de 1989, Waldir Pires deixou o governo da Bahia para ser candidato a vice-presidente na chapa de Ulysses Guimarães. Depois da transmissão do cargo ao vice-governador Nilo Coelho, houve almoço. Dirigentes do PMDB de quase todos os Estados foram saindo para pegar seus aviões de volta. Ficamos, numa mesa, tomando um conhaque, Waldir, os governadores Miguel Arraes de Pernambuco e Pedro Simon do Rio Grande do Sul, e eu.

Arraes, fumando seu charuto cubano, com seu ar de professor marxista, estava impressionado com a penetração de Fernando Collor no Brasil e em Pernambuco:

– Os prefeitos e vereadores chegam do sertão de Pernambuco me dizendo que o povo quer votar no “caçador de marajás” de Alagoas. É um fenômeno político que precisa ser decifrado.

Waldir e Pedro Simon em silêncio. Arraes não conversava, falava. Fiquei ouvindo aquilo sem saber se vinha da crispada boca sertaneja de Arraes ou da fumaça de seu charuto.

Vinha era de sua continuada e indestrutível sabedoria.

O juiz Moro italiano

Di Pietro conduziu a operação “Mãos Limpas” na Itália

Sebastião Nery

O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 1991. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata.  Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim, pobre marquês, Adido Cultural.

Íamos aos mais discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em Grottaferrata, a poucos quilômetros de Roma.

Simpático, vivido, o conde Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o jornal “La Republica”). Mal falava, só perguntava. Dele eu sabia que era conde da Santa Sé, “gentiluomo di sua Santitá”, banqueiro do Banco Ambrosiano do Vaticano, diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Eu o havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 1984, apresentado pelo jornalista  José Nêumanne Pinto, do “Estadão”.

PASSAPORTE

O que ele queria de mim? Queria o Brasil. Queria que eu convencesse o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa a convencer o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois também tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.

Impossível. Quem tomou o passaporte foi o governo italiano. O Brasil nada tinha com aquilo. Mas ele achava que, insistindo, talvez conseguisse. Queria fugir de novo. Ou não tinha companhia melhor para sua conversa admirável sobre a política italiana e seus magníficos vinhos? Levou-me a seu escritório na Via Condotti 9, em cima da Bulgari:

– Desta sala saíram sete primeiros-ministros: Andreotti, Craxi etc.

O conde é uma historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando, como ele, um banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, daquele cardeal Marcinkus  foragido nos Estados Unidos.

MÃOS LIMPAS

No comando da “Operação Mãos Limpas” havia o juiz Di Pietro, Sergio Moro de lá. Quando, a partir de 1991, a  “Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia:

– Isso não vai acabar bem.

Depende o que é acabar bem. Em 17 de fevereiro de 1992, o bravo juiz Di Pietro prendeu em Milão Mario Chiesa, diretor de uma instituição filantrópica e pública, dando inicio à “Operação Mãos Limpas” (“Mani Pulite”). Chiesa aceitou fazer uma “delação premiada”, alegando que “tutti rubiamo cosi” (”todos roubamos assim”). Houve suicídios, assassinatos. Foram 2993 mandados de prisão, 6.059 pessoas sob investigação, mais de 3 mil suspeitos e milhões de liras descobertas como propina e suborno.

O centro do problema é que há muito a Máfia assumira o comando da política: da política, do governo e do Estado italianos. Os três maiores partidos explodiram:a Democracia Cristã de Andreotti,  o Partido Socialista de Betino Craxi e o Partido Comunista de D’Alema. Todos devastados. Políticos foram para a cadeia, cardeais fugiram, diretores de jornais sumiram, meu amigo Conde pegou 20 anos de prisão, morreu com 90 anos.

PRIETO E MORO

A história às vezes demora de acontecer, à espera de que apareçam homens à altura do instante. Sempre há diferenças de tamanho e violência. A Máfia é muito mais violenta do que o PT, embora ambos matem pelo poder – lembrai-vos de Santo André. Na Itália o juiz Falcone, no Brasil o prefeito Celso Daniel.

São grandes as semelhanças entre as “Mãos Limpas” de Di Prietro na Itália e a “Lava-Jato” de Sergio Moro aqui no Brasil.  Prietro estudou no interior (no Seminário), formou-se em Direito por uma Faculdade do interior e aos 42 anos assumiu sua primeira grande causa, como Sergio Moro também se formou em Direito por uma Faculdade de Umuarama, no Paraná, e apareceu exatamente aos 42 anos. A historia consagrou Di Prieto. De sua valentia e sua luta nasceu uma nova Itália. Será que da Operação Lava-Jato surgirá um novo Brasil?

MEU LIVRO

Quarta-feira, 10, a partir das 19 horas, estarei no Clube Português no Recife (Av. Conselheiro Rosa e Silva, 172, Graças), lançando meu último livro “Ninguém me Contou Eu vi – De Getúlio a Dilma” (Geração Editorial SP), com o patrocínio do glorioso “Diário de Pernambuco” (dois séculos).

www.sebastiaonery.com   nerysebastiao@gmail.com

Lembranças de Juscelino, segundo Murilo Melo Filho

Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

-Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, três ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo.

No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

-Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília.

E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo buscá-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilômetro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje: por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse?  Seria algum encontro amoroso?

E era.

Esta é uma das muitas, numerosas historias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro “Tempo Diferente” (primorosa edição da Topbooks) sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro.

HISTÓRIAS REAIS

-Aqui estão contadas histórias reais e verazes, acontecidas com tantos homens importantes no universo literário e político do pais, que viveram num tempo diferente: Getúlio, JK, Jânio, Café Filho, Lacerda, Chateaubriand, Tristão de Athayde, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Evandro Lins, Austregésilo de Athayde, Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do rego, Rachel de Queiroz, Raimundo Faoro, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende.

É bom relembrar outras historias contadas pelo depoimento de testemunha de Murilo, no capitulo “JK, do Seminarista ao Estadista”.

-Eu era então (em 56) chefe da seção política da “Tribuna da Imprensa”, jornal de oposição, dirigido por Carlos Lacerda, que movia feroz campanha contra JK. Apesar disso, Juscelino sempre me distinguiu com especial atenção e, na sua segunda viagem a Brasília, me convidou para acompanhá-lo.

Saímos do Rio num Convair da Aerovias-Brasil e aterrissamos numa pista improvisada, perto do Catetinho, que tinha sido inaugurado no dia 1o de novembro. Às quatro horas da madrugada do dia seguinte, ainda noite escura, JK já estava de paletó esporte, camisa de gola rolê, chapéu de aba larga, botinas e um rebenque, batendo à porta de nossos quartos, e convidando-nos para irmos com ele visitar as obras de Brasília, naquele imenso descampado:

-Aqui será o Senado, ao lado da Câmara, mais adiante os Ministérios. No outro lado, o Supremo e o palácio do Planalto, onde irei despachar.

-Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia elétrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou:

-Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo.

Era o primeiro milagre de Brasília.

BILHETE DE ADOLFO BLOCH

E este bilhete de Adolfo Bloch a Murilo, já na “Manchete” em Brasília:

-Murilo, ai vai esta lancha para você fazer relações publicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações publicas. E fizemos um mau negócio, porque um homem como aquele não se perde.

O presidente do “Clube”

Sebastião Nery

Abreu Sodré estava deixando o governo de São Paulo, em 1970, e o general  Medici articulava a escolha dos novos governadores. Mandou pelos Estados, numa sondagem prévia, o presidente da Arena, Rondon Pacheco, carregando uma pasta cheia de papéis em branco, com aquele ar e aquela gorda palidez de comissário do povo. Uma tarde, Abreu Sodré entrou no Palácio do Planalto para uma conversa com Médici:

– Presidente, sei que o governador será escolhido pelo senhor. Trago-lhe, como colaboração, essa lista dos 15 nomes lembrados em São Paulo.

E começou a ler a lista. Medici o interrompeu:

– Governador. Agradeço-lhe a colaboração. Vou estudar depois.

– Presidente, desejava dizer-lhe apenas uma coisa. Não tenho candidato. Mas, desses 15, há dois nomes que eu não poderia aceitar, porque são adversários e romperam relações comigo: o deputado Herbert Levy, que foi meu secretário de Agricultura e saiu brigado comigo, e o ex-governador Laudo Natel, que me hostiliza desde o primeiro dia de governo.

Sodré voltou para São Paulo e no dia seguinte me dizia, no palácio: –  Sei que nesta cadeira pode não sentar-se quem eu quero. Mas sei também que não se sentará quem eu não quero.

Dias depois, Brasília anunciava o novo governador: Laudo Natel.

LULA

Anos depois, eu voltava ao palácio Bandeirantes. Atrás de uma mesa quadrada e amarela, sentado numa cadeira com cara de trono, o governador Paulo Egídio apontou-me o retrato de Rodrigues Alves, ex-governador de São Paulo e ex-presidente da Republica, bem à sua frente:

– Está ali Rodrigues Alves. A cadeira não é mais a mesma, mas a mesa é. Ele dizia: “Quem tem força não sou eu. É esta cadeira”.

Contei-lhe que anos atrás o governador Abreu Sodré me dissera a mesma coisa: que podia não fazer o sucessor que queria, mas naquela cadeira não se sentaria quem ele não quisesse. Meses depois, estava sentado ali o governador Laudo Natel, adversário e inimigo pessoal de Sodré.

Lula dizia que Dilma podia escolher quem quisesse , “menos um economista neoliberal, gente ligada ao PSDB e ao Aécio”. Deu no Levy.

DILMA

O empresário Ricardo Pessoa, presidente da empreiteira UPC e do “Clube” do cartel das 13 empresas, que o professor Helio Duque chama de “Clube da Roubança”, ainda hoje preso na Policia Federal, confessou :

– “Só tenho um amigo no governo, o Lula”

É por isso que de repente Lula sumiu. Ele está sentindo a batata assando perto dele. As “delações premiadas” continuam, cada dia mais numerosas e mais reveladoras. O Ministério Publico já começou a encaminhar ao Supremo Tribunal Federal, que é o relator da ação, as confissões, denúncias e provas de crimes  de políticos ou onde os políticos são citadas ou denunciados. Um paiol de escândalos. Lula e Dilma já ardem.

O doleiro confessou que Lula e Dilma sabiam de tudo. E é evidente que sabiam. Com tantos milhões de dólares escorrendo por cima e por baixo das mesas e gavetas deles, seria impensável não saberem de nada.

Quando deixou o Governo, Lula saiu pelo mundo, em jatinhos dos empreiteiros, financiado pelos empreiteiros, fingindo que estava fazendo “conferências lá fora” (logo ele que mal e tropegamente fala o  português), mas na verdade fazendo lobby para os empreiteiros, patrões do “Clube”.

GANDULA

Carlos Alberto di Franco, intelectual respeitado, doutor pela Universidade de Navarra, na Espanha, e diretor do IICS (Instituto Internacional de Ciencias Sociais) escandaliza-se com o cinismo deles:

1- “Os pronunciamentos da presidente só podem ter duas explicações : cinismo ou preocupante desligamento da realidade. A presidente não é uma espectadora passiva. O escândalo permeou os mandatos de Lula e estourou com força no atual governo. Dilma foi ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do Conselho da Administração da Petrobrás no governo Lula. Não pode fazer de conta que está em outro planeta. Ela está, queira ou não, no olho do furacão”.

2. – “Dois recentes editoriais do “Estado de S. Paulo” (“Lula e Dilma Sempre Souberam” e Crime de Responsabilidade”) mostram com total clareza o que parcela significativa da sociedade já intuía : Lula e Dilma são responsáveis pelo descalabro da Petrobrás. Diante do esquema de corrupção armado para carrear recursos para o PT e seus aliados, não surpreende que os dois presidentes soubessem o que estava ocorrendo”.

Lula é o presidente do “Clube”. Dilma, a gandula.

Com Dilma e o PT, o Brasil no fundo do poço

Sebastião Nery

Nos fins de 1963, os jornalistas Murilo Marroquim e Benedito Coutinho, então os dois mais antigos repórteres políticos de Brasília, foram chamados à Granja do Torto, uma das residências oficiais do Presidente. João Goulart os esperava à beira da piscina, sozinho.Serviu uísque aos dois:

– Vocês já estiveram na Rússia?

Murilo já, Benedito não.

– Pois se preparem que brevemente iremos a Moscou. Isso é inteiramente confidencial. Só sabem disso eu, o embaixador soviético e, agora, vocês.Vamos construir a hidrelétrica de Sete Quedas (Itaipu).

– Com que recursos, presidente?

– São 12 milhões de quilowatts. Técnicos brasileiros e soviéticos. Três planos quinquenais. Financiamento russo a juros mínimos. Grandes exportações de produtos agrícolas brasileiros para a União Soviética, para facilitar o pagamento. Só os russos têm hoje turbinas para o porte de Sete Quedas. A energia ociosa do Paraguai será comprada por nós. O embaixador soviético me disse que eles não têm interesse em disputar o mercado ocidental. Interessam-lhe obras como a de Assuan, no Egito.

JANGO

Os dois ouviam espantados, Jango sorriu:

– Vocês não acreditam? Tem mais. O plano global inclui a ligação do Amazonas ao Prata. Vamos realizar o velho sonho brasileiro.

Murilo Marroquim interrompeu:

– O plano é maravilhoso, mas o senhor não vai executar. A Rússia não fará uma Assuan na América Latina. Os americanos não vão deixar.

– Somos um país livre, independente. Contarei com as Forças Armadas para resistir a qualquer pressão externa, e com o povo. Vou fazer.

Três meses depois João Goulart era derrubado pelo golpe militar de 1964 a serviço dos Estados Unidos. Itaipu foi feita com dinheiro americano a preços absurdos e juros máximos. Meio século depois, a presidente Dilma confessa que a dívida pública explodiu e o Brasil chegou ao fundo do poço.

GABEIRA

No começo deste ano o ministro Guido Mantega anunciava que o “superávit primário” (poupança para pagar juros da divida)  seria de R$ 99 bilhões. Ocorreu o contrário. Até outubro havia um “déficit” de R$ 15,3 bilhões e só há R$10 bi para os juros da divida. A lei de Responsabilidade Fiscal foi rasgada. Nesse ano eleitoral as despesas cresceram 7,2%.

A “Folha de S. Paulo “ denunciou na primeira pagina de domingo :

– “Rombo de R$100 Bilhões Desafiará Novos Ministros”.

Até o sereno e sábio Fernando Gabeira está assustado no “Globo”:

– Será preciso muita humildade para sobreviver. E isso não é forte de quem quer dobrar a aritmética nas contas publicas, esconde o salto de 122% do desmatamento das Amazônia e põe para baixo do tapete números da redução da miséria. Para preservar o emprego, dizia Dilma. E 30.283 pessoas perderam seus empregos no mês em que ela se reelegeu”.

FGV E BC

Este é o governo Dilma :

1) crescimento econômico em 2014, zero;

2) investimento nas atividades produtivas em queda crescente;

3) consumidores com  endividamentos angustiantes;

4) perda de competitividade no comércio externo;

5) dívida pública em crescimento cavalar;

6) inflação aumentando e ultrapassando a meta no seu teto máximo;

7) bancos públicos com “creditos podres” para “amigos do poder”.

A economista Silvia Matos, da Fundação Getúlio Vargas, já prevê:

– “O crescimento em 2015 será fraco, perto de 1%. Depois de um ano de crescimento zero, é muito pouco”.

Ex-diretor do Banco Central no governo Lula, o economista Alexandre Schwartsman (“Folha” de (5/11/2014) afirma:

– “O tamanho do ajuste fiscal requerido para pôr a casa em ordem é  sem precedentes. É inviável atingir tal melhora em apenas um ano. Trata-se de um programa de ajuste para ser realizado em três anos, contra o pano de fundo de uma administração que não só se mostrou incapaz de atingir suas metas mas também deliberadamente produziu a maior deterioração fiscal de que se tem notícia no país nos últimos 20 anos”.

Dilma e o PT jogaram o Brasil no fundo do poço.

O escândalo tem nome. Chama-se Dilma.

Sebastião Nery

Severo Gomes, industrial, ministro da Agricultura  no governo Castelo Branco e da Industria e Comercio no governo Geisel, senador por São Paulo, culto e patriota, chegou a Tutóia, pequeno porto do Parnaíba, no Piauí. Entrou no bar miúdo, ponta de rua. Na cabeceira da mesa, cabelos grisalhos, olhos esfuziantes, paletó e gravata, o velho professor do grupo escolar contava histórias de muito longe:

– Alexandre, o grande Alexandre, o maior dos generais da antiguidade, filho de Felipe da Macedônia, nas batalhas era uma águia, depois das batalhas um deus, bom e clemente. Um dia, ao fim de um combate terrível, foi visitar os prisioneiros e encontrou os generais do exército inimigo de joelhos, prontos para serem degolados. Um se levanta:

– Grande Alexandre, vamos morrer. Mas nossa morte será a maior das vitórias. Porque não há maior glória do que ter a cabeça cortada pela espada do grande Alexandre.

Alexandre olhou para o alto, como um deus:

– Levantem-se! Homens dessa bravura não podem morrer.

O bar estava calado, embriagado nos lábios do velho professor, que se ergueu, foi saindo devagar e já lá da rua encerrou a história:

– E o grande Alexandre levou todos para a sua Casa Civil.

DILMA

Pronto. A solução está ai. Vem lá de Tutóia, no Piauí.  Dilma já pode resolver o insolúvel problema de como compor os 40 ministérios de seu novo governo, quando ela não conseguiu até agora nomear sequer o novo ministro da Fazenda, para substituir Mantega, o ex-futuro-quem sabe.

Dilma pode pedir ao bravo e lúcido juiz Sergio Moro, do Paraná, a lista de seus convidados para a cadeia da Policia Federal de Curitiba e leva-los todos para sua Casa Civil, como fez o grande Alexandre da Macedônia.

Eles vão sentir-se em casa. Todos a conhecem muito bem, desde 2003, no primeiro governo de Lula, quando ela foi ser ministra de Minas e Energia, pôs a Petrobrás embaixo do braço, levou para casa e não devolveu.

BAHIA

Em 3 de outubro de 1963 a Petrobrás fazia 10 anos. Em Salvador, uma iluminada torre de petróleo foi erguida na praça do Campo Grande, em frente ao Teatro Castro Alves, onde se realizou um comício para milhares e milhares de pessoas, com a presença dos governadores da Bahia Lomanto Junior, de Pernambuco Miguel Arraes e de Sergipe Seixas Doria.

Também no palanque Waldir Pires, Consultor Geral da Republica, deputados federais Fernando Santana, Henrique Lima Santos e Mario Lima, deputados estaduais Enio Mendes, Newton Valença e eu. Seis meses depois, com a única exceção do governador Lomanto da Bahia, fomos todos cassados pelo raivoso, histérico e americano golpe militar de 1964.

PETROBRÁS

A Petrobrás tinha acabado de ter grandes presidentes, patriotas e honrados: o deputado amazonense Janary Nunes (governo JK), o gaúcho general Idalio Sardenberg (governo JK) e os baianos Geonisio Barroso (governo Janio Quadros) e Francisco Mangabeira (governo João Goulart). Os militares mantiveram o padrão e Ernesto Geisel presidiu a Petrobrás.

Não havia o ministério de Minas e Energia. Era o Conselho Nacional do Petróleo, presidido no governo Janio por Josafá Marinho. Para presidir o Conselho de Administração da Petrobrás, Janio criou o ministério de Minas e Energia, cujo primeiro titular foi o ministro paraibano João Agripino.

JK

No governo Juscelino (1956-1961) o general Idalio Sardenberg comandou um grande salto da Petrobrás: novas unidades das refinarias Landulfo Alves na Bahia e Duque de Caxias no Rio, o terminal e oleoduto da Ilha D’água no Rio, o terminal Madre de Deus na Bahia, a fabrica de Borracha Sintética em Duque de Caxias, dobrou a capacidade da refinaria de Cubatão em São Paulo e a produção total de petróleo passou de 60 mil barris/dia em 59 para 72 mil em 60 e o refino foi a 300 mil barris diários.

Tudo isso e nunca se ouviu falar em escândalo. Veio o primeiro governo Lula e Dilma caiu em cima da Petrobrás como uma ave de rapina. Saiu das Minas e Energia para a Casa Civil e levou a Petrobrás com ela, para ela, continuando como presidente do Conselho de Administração. Esse escândalo de agora, o maior da historia do pais, tem nome: Dilma.

Tempos de Jânio Quadros

Para onde vamos, Jânio Quadros?

Sebastião Nery

RIO – Em 1968, nos turvos dias entre a passeata dos 100 mil no Rio e o AI-5, Jânio Quadros, cassado e longe de qualquer atividade política (ficou fora até da Frente Ampla de Juscelino e Lacerda) pediu ao deputado estadual Fernando Perrone, do MDB de São Paulo, um encontro com a esquerda. Queria conversar mais para saber melhor.Perrone, líder estudantil ligado ao Partido Comunista, inteligente e atuante, tinha amigos nos vários grupos da esquerda que começavam a se preparar para a luta armada.

Na primavera e invasão de Praga pelos tanques soviéticos. Perrone tinha estado lá e fez um belo livro-depoimento. Depois do AI-5, foi para Paris, onde seu apartamento era uma embaixada da esquerda paulista exilada: Aloysio Nunes Ferreira, José Aníbal, Itobi, tantos outros.

PERRONE

O encontro com Jânio, Perrone não quis fazer na casa dele porque muitos já estavam na clandestinidade. Arranjou a suíte do Hotel Comodoro, no centro, na Duque de Caxias. Jânio e Perrone, legais, chegaram primeiro. Os outros foram entrando, um a um, separadamente, cheios de cuidados.

Um deles, já na legalidade, estava se separando litigiosamente da mulher, que contratou dois detetives, de máquina fotográfica em punho, para pegá-lo em flagrante de adultério. A mulher, dentro do carro, viu o marido chegar sozinho. Os detetives subiram atrás e tocaram a campainha.

Como ainda faltava um, Perrone abriu naturalmente a porta. Os flashs das máquinas começaram a pipocar e os detetives entrando gritando:

– Cadê a mulher? Cadê a mulher?

Não havia mulher nenhuma. Foi uma correria louca, todo mundo saindo aos empurrões, escada abaixo. Perrone ficou com Jânio, que, sentado a um canto, com seu uísque na mão, arregalava os olhos e interrogava os detetives:

– Se-nho-res, o que é is-so? Não es-tou en-ten-den-do!

Eles também não.

A “base aliada” de Dilma está como Janio : sem entender nada. Quanto menos senadores e deputados elegeu, mais o PT quer impor.

LULA

Outra historia. Jânio era governador de São Paulo em 1955 e apoiava a candidatura de Juarez Távora (UDN) a presidente da República, contra Juscelino (PSD-PTB) e Ademar (PSP). Lacerda reclamou que a campanha de Juarez em São Paulo estava fraca. Jânio fez uma grande reunião com secretarias, presidentes de empresas estatais, empresários e banqueiros:

– Como sabem os senhores, o general não pode perder em São Paulo. Seria o fim de minha vida publica. Vamos mobilizar apoios, recursos, muitos recursos. Temos que conseguir imediatamente umas 140 “peruas”.

Entra na sala o deputado Fauze Carlos, amigo de Jânio, e lhe mostra a última pesquisa nacional, com Juarez na frente. Jânio disse a Fauze:

– Va-mos pa-rar, meu ca-ro, se-não o ho-mem ga-nha!

A sala ouviu, não entendeu nada, sobretudo quando ele encerrou a reunião. Jânio queria que Juarez ganhasse em São Paulo, mas não demais, para não ganhar no País, porque ele já era candidato a presidente em 1960 e preferia disputar na oposição, como sempre fez quando ganhou.

Juarez ganhou em São Paulo, Ademar no Rio e Juscelino no País. Como Jânio queria, já pensando em 1960.

Lula é o Janio de agora. Vai ficar o tempo inteiro de olho em Dilma. Não quer que ela faça um bom governo porque isso pode atrapalhar seus planos. Lula acha que quanto mais o pais estiver em dificuldades mais espaços haverá entre “o povão” para uma candidatura dele em 2018.

CAMARA E SENADO

Está tudo errado. Estão pisando na Constituição e chutando para debaixo da mesa. O presidente da Câmara Federal, deputado Henrique Eduardo, foi “chamado”, “convocado” pelo ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante para uma reunião no palácio do Planalto.E foi.

Ora, o presidente da Câmara é o terceiro homem na liturgia da Republica. Acima dele só a Presidente e o vice-presidente. Quem tinha que chamar, convocar, era ele. E o ministro da Casa Civil, se queria reunir-se com ele, é quem tinha que ir à Câmara. É assim nas democracias.

A “Folha”: “A expectativa é de que o presidente do Senado, Renan Calheiros, seja chamado (!) para uma conversa com o ministro Berzoini”.

O presidente do Senado é o chefe do Poder Legislativo. Como pode ser “chamado” por um ministreco qualquer? O ministro é que tem que ir.

O professor de grego e a corrupção

Sebastião Nery

RIO – Faustino de Albuquerque era Promotor no interior do Ceará.  Um amigo deu-lhe o filho para batizar e ainda pôs o nome dele no menino. Depois, Faustino foi juiz, desembargador, presidente do Tribunal de Justiça e acabou governador. Uma tarde, entra no palácio o afilhado Faustino de Albuquerque Silva com uma carta do compadre pedindo um emprego para o filho. Não havia vagas. A muito custo, o governador descobriu uma de professor de grego. Nomeou Faustino de Albuquerque Silva.

– Mas, padrinho, eu não sei grego.

– Não precisa saber, porque não há aluno de grego. Vá embora e não me crie problemas.

Todo fim de mês, Faustino de Albuquerque Silva passava no Liceu, recebia seu ordenado de professor de grego. Até que apareceu um ex-seminarista muito piedoso, muito estudioso, querendo estudar grego. O afilhado correu ao palácio:

– Padrinho, me demita que apareceu um aluno de grego.

– Vá embora e não me crie problemas.

No fim do mês, Faustino de Albuquerque Silva foi ao Liceu receber o ordenado, procurou o diretor:

– Onde está o ex-seminarista que queria estudar grego?

– Não sei. Aconteceu uma coisa horrível com ele. Era tão bonzinho, tão piedoso, tão estudioso, andava na biblioteca estudando, veio a polícia, levou. E nunca mais ele apareceu.

FAZENDA E JUSTIÇA

O primeiro ministro da Fazenda do Brasil era corrupto. O primeiro ministro da Justiça do Brasil era corrupto. O governador–geral Tomé de Souza, nomeado pelo rei de Portugal, desembarcou em Salvador em 1549, instalando a primeira capital do Brasil. Os dois principais colaboradores do nascente poder colonial eram fidalgos portugueses com prestígio na corte de Lisboa. O primeiro, Antonio Cardoso de Barros,  “Provedor-mor”, responsável pela arrecadação de impostos. O segundo, Pero Borges, “Ouvidor-mor”, administrava a justiça. Roubaram muito,ficaram riquíssimos

Pero Borges, não veio por vontade própria. Havia sido condenado pela justiça portuguesa por ato de corrupção. Motivo: administrador  da obra, desviara parte do dinheiro destinado à construção do aqueduto de Mafra, cidade próxima a Lisboa. Ao invés da prisão, as relações familiares de prestígio na Casa Real negociaram sua vinda ao Brasil.

Antonio Cardoso de Barros seria o administrador das finanças públicas e gestor da economia. Sua missão: arranjar recursos para a construção da cidade de Salvador e áreas do Recôncavo baiano. Era de fato o ministro da Fazenda, tributando com rigor os poucos engenhos de açúcar existentes. Partes dos recursos eram incorporadas ao seu patrimônio pessoal. Ficou milionário, tornando-se proprietário de engenhos açucareiros, acumulando poder e fortuna. Era o tiro de largada na “roubalheira” do patrimônio público no Brasil.

BOLIVAR E MURILO

Cinco séculos depois, 2014, o professor e cientista político Bolívar Lamounier, no livro “A Cultura da Transgressão no Brasil”, afirma:

– “O Brasil é essencialmente corrupto e precisamos encarar isso. É falso que a elite é ruim mas o povo é essencialmente bom. Essa impressão é profundamente artificial.”

O professor José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, traduziu essa realidade:

– “Há uma cultura generalizada de transgressão que afeta as classes sociais, de alto a baixo. Furtam o político, o empresário, alguns magistrados, de um lado. Furtam, do outro, o profissional liberal, o policial, o trabalhador informal. Tal cultura tem a ver com valores e instituições. O valor republicano de respeito à lei e à coisa pública não existe.”

HELIO DUQUE

O professor Helio Duque, doutor em economia pela Unesp, adverte:

– “Nos próximos meses o Brasil viverá crise institucional de gravidade inédita. A cassação de mandatos será consequência das delações feitas pelo ex-diretor da estatal e pelo doleiro lavador das fortunas desviadas da roubalheira da Petrobrás. Foram mais de dez anos (governos Lula e Dilma) de assalto para favorecer “larápios políticos” investidos de funções públicas. Daí ser fácil entender porque nas recentes CPIS sobre a Petrobrás. a maioria governista sempre foi contra investigações sérias”.

Não adianta nem ensinar grego. O trovão “Sergio Moro” vem ai.

O voto de Minas

Sebastião Nery

Barbosa Lima Sobrinho, pelo PSD, e Neto Campelo Júnior, pela UDN, tinham disputado o governo de Pernambuco depois da ditadura de Getúlio, em 1947: Barbosa Lima, candidato de Agamenon Magalhães, e Neto Campelo, ministro da Agricultura de Dutra, candidato da Oposição.

Na apuração, quase empate. Urna a urna, Pernambuco disputava, pelas rádios e alto-falantes, voto por voto. Ganhou Barbosa Lima. Mas houve muitas urnas impugnadas e as decisões passaram para o Tribunal Eleitoral. Continuou o impasse. Nas esquinas, nos bares, nas casas, o povo ao pé do rádio e dos alto-falantes para saber da chegada final.

Nequinho Azevedo, figura popular do Recife, estava num botequim torcendo por Barbosa Lima. Era a última decisão sobre a última urna, onde Barbosa Lima havia vencido bem. Anulada, estaria derrotado.

BARBOSA LIMA

O locutor fez um suspense:

– Atenção, senhoras e senhores, última urna! O Tribunal aprovou a urna pelo voto de Minerva! Confirmada a eleição de Barbosa Lima!

Começou a festa. Nequinho Azevedo, cheio de cachaça, comemorava. Alguém perguntou lá do fundo:

– O que é o voto de Minerva?

Ninguém respondeu, Nequinho pôs o copo no balcão:

– Um voto maior do que os outros.

– De que tamanho?

– Vale uns 300.

Valia mais. Valia a eleição.

MINAS

Quem conhece Minas sabe : mineiro não vota contra governo.

O primeiro que votou, Tiradentes, perdeu o pescoço. E nunca mais ninguém ousou. Aécio Neves, mineiro, mineiríssimo, dois avós ilustres (Tancredo Neves e Tristão da Cunha), disputou com a gaucha Dilma, que apenas nasceu em Minas; mas saiu da votação tomando chimarrão.

Minas decidiu. Ganhou a eleição. Com o governo. Contra Minas.

DIVIDA  EXTERNA

Dilma acordou da vitória com uma bomba explodindo nas mãos: a divida externa. Em agosto de 2014 o Banco Central informava que a dívida externa bruta totalizava US$ 333,1 bilhões. E atestava que as reservas internacionais totalizam US$ 379,4 bilhões. O Brasil integra o ranking dos 15 países com maior dívida externa, segundo relatório do Banco Mundial.

O economista, professor e três vezes deputado pelo PMDB do Paraná, Helio Duque, adverte que a manipulação marqueteira,  misturando reservas internacionais e dívida externa, para induzir os brasileiros a acreditarem na liquidação do endividamento externo, é criminosa.

Como as “reservas” são maiores do que o montante da dívida externa, alimenta-se a tese mentirosa. Mas é a dívida interna pública que cresce e sustenta a emissão de títulos públicos, para acumular “reservas” e trocar, paralelamente, títulos da dívida externa por papéis da dívida pública do Tesouro, garantindo a ciranda financeira do endividamento brasileiro.

O economista Marco Mendes é didático: “Quando o governo se endivida para comprar dólares, ele ao mesmo tempo aumenta o seu passivo (pelo aumento da dívida interna) e o seu ativo (pela compra de dólares). Significa que a dívida líquida (passivo mais ativo) não se altera”. O custo efetivo da captação de recursos se reflete na “taxa selic”,em torno de 12%”.

“RESERVAS”

Do total das “reservas” de  US$ 379,4 bilhões, dois terços são aplicados em títulos do Tesouro dos EUA, de grande liquidez, com remuneração média de 1,9% ao ano. O custo da diferença de quase R$ 50 bilhões decorre da disparidade entre os 12% pagos para captação de 1,9% recebido como remuneração é bancado pela sociedade. Vale dizer as “reservas” custam caro para o Brasil.

O economista e professor Reinaldo Gonçalves, titular de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro exemplifica:

– “A China e o Japão acumulam reservas para ampliar o poder na economia global e se contrapor aos EUA. O Brasil, até agora, só formou “reservas” para administrar custos altos”.

Hoje a dívida pública interna federal está por volta de R$2,2 trilhões, Quando o PT assumiu,  a divida interna era de R$ 640 bilhões e a dívida externa de R$ 212 bilhões, somando uma dívida real de R$ 852 bilhões. Quase triplicou o endividamento interno nos 12 anos do PT.

Dilma e o Diabo na Terra do Sol

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Um criativo protesto de produtores rurais no interior da Paraíba

Sebastião Nery

PARIS – Se o saudoso e talentoso baiano Glauber Rocha estivesse aqui, teria que trocar o título de seu belo filme (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”) para “Deus e Dilma na Terra do Sol”.

Ela não enganou ninguém. No começo da campanha Dilma disse a jornalistas no Palácio da Alvorada:

– “Numa eleição a gente faz o diabo”.

E como está fazendo! No primeiro turno Dilma escalpelou, martirizou, torturou a elegante e tímida Marina, que preferia calar-se a responder à altura a mentiralhada e as grosserias de Dilma.

Agora vem o campeão do cinismo, esse inefável Lula, e acusa Aécio de ser “grosseiro” com Dilma porque “uma mulher não pode ser chamada de leviana”. Ora, a coisa mais leve que se pode dizer de Dilma é que é uma “leviana”. Na verdade o que a Dilma é é uma profissional da mentira. Como dizia o Padre Antonio Vieira dos ladrões, ela mente, mente, mente mais ainda, mente sempre, sempre, não pára de mentir.

Dilma agride a oposição com as palavras mais duras e até gestos obscenos. Perguntem a seus ministros o que é que ela faz quando é contrariada. E Lula quer convencer o país de que ela é só gordinha, uma inocente, pobrezinha, coitadinha, tão fragilzinha, santinha do pau oco.

DICIONÁRIO

O país gasta bilhões para ensinar a língua a seus alunos e aparece a Dilma estuprando a língua e criando novo dicionário. Quando a maioria de seus ministros apareceu enlameada em falcatruas, em vez de dizer que eles estavam fazendo roubalheiras ela inventou que o que eles faziam era apenas “malfeitos”. E porque era só “malfeitos” voltaram todos ao governo nos mesmos ministérios ou em penduricalhos do governo.

Quando explodiu o escândalo da roubalheira na Petrobras o país sabia que o que havia era roubo mesmo. Enfiaram a mão no dinheiro. Pois volta a dona Dilma a pôr os corruptos embaixo de suas vastas saias e os protege dizendo que não houve roubo. Houve apenas “desvios”.

O grave é que o hábito do cachimbo põe a boca torta. De tanto defender os corruptos do seu governo dona Dilma pode acabar agarrada pelo Supremo Tribunal Federal no “Mensalão da Dilma”.

O escândalo da Petrobrás é tão geral, tão amplo, tão vasto, que ninguém vai impedir que toda essa história acabe em uma rumorosa CPI no Congresso atingindo o dicionário, os “mal feitos” e os “desvios” da Presidente. Ela vai ter que providenciar um novo dicionário só dela.

TSE

Esta campanha eleitoral desmoralizou uma banda fundamental da política brasileira. Por exemplo, o uso do dinheiro público pelos candidatos oficiais. Dona Dilma transformou o Palácio da Alvorada em um escritoriozinho de segunda categoria onde ela reúne cabos eleitorais e apaniguados todos os dias. E tudo com dinheiro público.

Quem é que está controlando a farra aérea da Presidente com os aviões oficiais? Quem é que vai cobrar os gastos públicos da Presidente em toda a sua campanha pelo pais afora? Já sei. Vocês vão dizer que é o Tribunal Superior Eleitoral. Ora, o Tribunal Superior Eleitoral, com perdão da palavra, é um escritório eleitoral do Palácio do Planalto.

Afinal a maioria deles foi nomeada pela Presidente e está devolvendo em violações ilegais a nomeação que ganharam.

PESQUISAS

Ufa, passamos uma semana sem ouvir falar em pesquisas. Os principais institutos nacionais de pesquisas têm mais de meio século. Mas no primeiro turno de tal forma alguns chafurdaram na corrupção do governo que acabaram totalmente desmoralizados. O país com vergonha deles e eles, com mais vergonha ainda deles, calaram a boca, sumiram.

Mas evidente que esta semana eles vão voltar. Não perderiam a última faturada. Como dizem amigos meus, estudiosos de pesquisas, da Universidade de Brasília, as pesquisas brasileiras se transformaram no melhor negócio do mundo: você contrata uma pesquisa, negocia com outro instituto, os dois fingem que fazem a pesquisa e os dois apresentam o mesmo resultado, faturando ambos duas vezes de cada lado: com os jornais e  televisões que publicaram as pesquisas e com os candidatos protegidos pelas pesquisas fajutas. Isso se chama mamão com açúcar.

IMPRENSA

Sócia e apaniguada dos falsos institutos de pesquisa, a nossa querida imprensa vai sair gravemente atropelada desta eleição. E em tantas armações entraram que os leitores, por  não serem bobos,  já perceberam que tudo não passa de uma trapaça geral. Como vai ficar a fidelidade dos leitores? Como vão ficar as compras nas bancas e as assinaturas? Como vão ficar os hábitos de leitura vindos de gerações?

E os anúncios? As agências de publicidades, os empresários vão engolir assim essa agressão escancarada aos leitores?

O pior é que atrás dos espertos veem os espertinhos, os chamados “formadores de opinião”. Envergonhados de mentirem por conta própria, inventaram agora as “pesquisas qualitativas”. O gordinho sinistro da página 2 do “Globo” rola e embola inventando “pesquisas qualitativas”. Isto é uma asquerosa falta de respeito aos leitores e assinantes como eu.