Bolsa-Empresário

Sebastião Nery

Em Viana, no Maranhão,  o padre era do PSD. A UDN nem podia entrar na  Igreja. Na campanha eleitoral, os céus e os santos todos eram mobilizados para a vitória pessedista.

José Sarney, deputado federal pela UDN, veio ao Rio tentar resolver o problema. O secretário do senador Ruy Carneiro era “bispo” da “Igreja Brasileira”, mandou um “padre” para Viana. O padre dois chegou lá, começou a disputar o céu. À falta dos outros, monopólios do PSD, criou dois santos: Nossa Senhora Menina e São Benedito da Barreirinha.

E as cerimônias da Igreja Brasileira eram anunciadas com tambor de macumba. Foi um sucesso. Nossa Senhora Menina, jovem e colorida,  começou a ganhar de Nossa Senhora mãe. E as procissões do mulato São Benedito batiam longe o fervor das procissões de São Benedito preto.

SARNEY

Apavorado, o PSD conseguiu que a Igreja Católica entrasse na justiça contra o “padre” da Igreja Brasileira. Não adiantou. Perdeu em Viana e no Tribunal em São Luis. E pela primeira vez a UDN venceu as eleições em Viana.

Anos depois, Sarney governador, os dois padres foram tirados de lá e chegou um católico meio PSD meio UDN. Um padre Arena. Mas até hoje o povo de Viana tem saudade de sua jovem e irisada Nossa Senhor Menina e seu mulato e simpático São Benedito da Barreirinha.

FRIBOI

Sarney comprava padres e santos. O PT compra empresas. Bilhões de dinheiro público. O jornalista  David Friedlander, na “Folha de São Paulo”, contou  dias atrás (12/01/2014):

– “O empresário Joesley Batista, do Frigorífico JBS, está pedindo R$ 2,8 bilhões aos fundos de pensão Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), Petros (da Petrobrás) e Funcef (Caixa Econômica) para dobrar o tamanho da “Eldorado”, indústria de celulose controlada pela família. O projeto está orçado em R$ 7,5 bilhões. Para fechar a conta, além dos recursos das fundações, o empresário pretende conseguir financiamento de R$ 4,7 bilhões do BNDES e um fundo de desenvolvimento regional.”

EIKE

Nos últimos anos, grupos de privilegiados empresários brasileiros vêm sendo agraciados com dinheiro público na escala de bilhões de reais. Os governos Lula e Dilma cunharam a expressão “campeões nacionais” para a criação de verdadeira “Bolsa Empresário”, para os amigos do poder. A expressão é do brilhante economista e homem publico o professor Helio Duque, três vezes deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná.

O empresário Eike Batista era a face mais agressiva da estratégia dessas relações incestuosas. O Estado como escudo garantidor, pelo alavancamento de dinheiro público e privado, estimulava a criação de empresas, onde o “grupo X” era a versão de um “Midas tupiniquim”.

O atestado de “competência”, em 27 de abril de 2012, foi dado pela presidente Dilma: – “Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado.”

E Eike faliu, queimando bilhões na irresponsabilidade de Dilma.

 DILMA

A bíblia do capitalismo moderno é de Adam Smith, onde a “Riqueza das Nações” é texto básico. Nela fica explicito que o risco é inerente à atividade produtiva. No Brasil a equação está sendo invertida.

Capitalismo sem risco vem fazendo a alegria dos grandes grupos amigos dos governos petistas. O fato é reconhecido, de maneira surreal, até por ministros do governo Dilma. É o caso do ministro da Micro e Pequena Empresa, Afif Domingos: – “No Brasil só se dá prata a quem tem ouro.”

 BARROSINHO

Irrespondível a coluna do Reinaldo Azevedo na “Folha” sobre o ministro do Supremo (Ínfimo) Tribunal, Roberto Barroso, o Barrosinho :

– “ O idealismo se converteu em argentarismo”…

– “Fustigou o abominável espetáculo de hipocrisia em que todos apontam o dedo contra todos, mas mantêm seus cadáveres no armário”…

“Pego carona na metáfora. Barroso saiu do armário”…

“Ele é só um Delúbio com toga, glacê e fricotes”. “Retóricos”.

Dilma, a falida

Sebastião Nery  

Em um jantar em São Paulo, na campanha presidencial de  2002, no aniversário de um radialista amigo, o candidato José Serra, tenso, pegou pelo braço o deputado e fundador da Força Sindical, Luiz Medeiros:

– Medeiros, desta vez você vai ficar conosco?

– Não posso, Serra. Sou PL e meu partido deve apoiar o Lula. Pela primeira vez vou ficar com o Lula. Da próxima conte comigo.

– Não haverá a próxima, Medeiros. Será agora ou nunca. Estou com 60 anos,  minhas energias e chances são agora. Vi o Montoro acabar o governo gagá, aos 70 anos. (Montoro nasceu em 16 de julho de 1916, terminou o governo em 86 e morreu em 16 de julho de 99. Serra nasceu em 19 de março de 1942. Estava com 60, agora 72). Medeiros, vai ser tudo ou nada. Vou jogar tudo e passar por cima de quem ficar na minha frente.

Não adiantou. Serra perdeu.

SERRA

Agora, doze nos depois, o PSDB expeliu a candidatura de Serra e ele, caráter sem jaça, com os cotovelos inchados, joga tudo para derrotar Aécio e vingar-se. Fazendo conferencia para “consultores financeiros” (banqueirinhos de banqueiros), Serra mordeu as canelas de Aécio :

– “Eu não vejo que o quadro econômico seja tão calamitoso quanto se divulga. Não significa que estamos bem, mas o que não vejo é que seja tão calamitoso – disse Serra, ao começar a análise da conjuntura econômica.

Há perda de manobra na área fiscal, mas não há perspectiva de descontrole na área fiscal e muito menos de calote. Não há isso”.

Será que Serra está querendo substituir Mantega?

GERENTONA

O que vocês não sabiam é que Dilma, a “gerentona” da propaganda do PT, é uma empresaria falida. Ela mesma é quem confessou, em Minas :

– “A minha experiência é essa, de muitos empresários do país”.

A ex-ministra foi microempresária entre fevereiro de 1995 e julho de 1996. Em sociedade com a ex-cunhada Sirlei Araujo, estruturou empresa de importação de produtos e brinquedos do Panamá. A sócia-gerente era a economista Dilmona, A empresa foi registrada com o nome de “Pão & Circo” (que nome! muito estranho!), em Porto Alegre, em março de 1995 e encerrou  suas atividades em julho de 1996. Falida.

MARQUETEIROS

O servilismo rafeiro de alguns institutos de pesquisa e setores dos autoproclamados formadores de opinião asseguram que Dilma  será reeleita. Os marqueteiros estipendiados pelos milhões de reais não ficam atrás. O marqueteiro-mor João Santana já definiu os dois candidatos oposicionistas como integrantes de um “picadeiro de anões”,

Traduzindo em linguagem direta: Aécio Neves e Eduardo Campos seriam figuras liliputianas na vida política brasileira. Na área oficial, enquanto o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ameaça que o “bicho vai pegar”, a re-candidata confessou, em 4/3/2013:

– “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição.”

GIRASSOL

A oposição não pode tergiversar no enfrentamento desse descalabro de incompetência. Precisa falar em sintonia com o clamor popular que hoje vive situação de orfandade. Os idos de junho de 2013 comprovaram isso. Demonstrar que falta ao Brasil um projeto de país que redefina o futuro que precisa ser planejado com competência, remodelando a estrutura do Estado.

Nos últimos anos nenhuma obra de grande importância na infraestrutura foi concluída. Os portos e rodovias estão em situação de calamidade. Os hospitais e escolas públicas vivem penoso ciclo de desintegração. Na agricultura obtemos safras recordes, mas os caminhoneiros esperam dias para descarregar, sem armazenamento.

A transposição do São Francisco é um engodo, afetando a vida de milhões de nordestinos. A ferrovia Norte Sul, aproximando-se dos 30 anos, está longe da realidade.A manipulação da verdade,propaganda massacrante e marqueteiros são os grandes agentes do “planejamento nacional.”

A empresaria falida que se cuide. As elites políticas e empresariais brasileiras são como girassol, vivem cultivando o sol. E o que nasce é mais poderoso do que o que se recolhe no fim do dia.

Jornalistas e pesquisas compradas não ganham eleição.

Os black bandidos

Sebastião Nery

Morto Lampião, Ângelo Roque, o “Labareda”, cangaceiro, terceiro na hierarquia do bando, logo depois de Virgulino e Corisco, entregou-se às autoridades de Geremoabo, no sertão da Bahia. Foi a Júri. Tarcílo Vieira de Melo, o promotor, depois líder de Juscelino na Câmara Federal, acusou-o com agressividade. Oliveira Brito, Juiz, depois ministro do governo João Goulart, chamou-o de “desordeiro”.Labareda” levantou-se do banco de réu:

– Desordeiro, não. Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão, com minha cara limpa, meu corpo e minha vontade e me entreguei, confiando na palavra das leis.

Ninguém mais o agrediu.

LABAREDA

“Labareda”, pequenininho e valente, não disse mais palavra. Quando acabou tudo, condenado, ele se queixou ao meu amigo o  tenente e advogado João Nô, que o prendera nos sertões da Bahia:

– Tenente, perdi meu tempo no cangaço. Eu pensava que a pior coisa deste mundo era soldado de polícia. Passei a vida empiquetando (emboscando) soldado de polícia  Hoje, chego aqui preso, os soldados me tratam bem e  não disseram uma palavra contra mim. Mas aquele promotor falador e aquele juiz magrelo me disseram tudo quanto foi desaforo. Se eu soubesse, tinha passado meu cangaço empiquetando promotor e juiz.

LAMPIÃO

Cangaceiro era desordeiro, era criminoso, mas tinha caráter. Lutava com a cara de fora. Jogava a vida nas estradas.

Não viviam  escondidos atrás de máscaras, como esses black blocs nazifascistas, andróginos, sem ideologia e sem projeto, cuja histeria é sair quebrando tudo, janelas  e vitrines comerciais, sinais de trânsito e placas de rua, prédios públicos e privados, seculares monumentos nacionais, Palácios, sedes de Governo, Câmaras e Assembleias.

OAB E SEPE

Causa espanto, vergonha e asco ver entidades que têm deveres com a Nação, como a OAB, SEPE (Sindicato de Professores), jornalistas experientes, vereadores, deputados, partidos políticos, como babás do mal, acoitando, defendendo, protegendo, tentando justificar  esses covardes bandidinhos de capa preta.

Em alguns países vivi, em outros estive, onde fascismo e nazismo, brutais ditaduras, começaram. E começaram sempre assim: blocos de ataque escondendo-se atrás de roupas pretas, bonés e mascaras pretas,calças e camisas pretas ou marrons. E cabeças rolando nas avenidas ensanguentadas.

Levianamente desvairadas elites levam suas irresponsabilidades  e malditos interesses até um dia acordarem e não dá mais tempo. Seus filhos e netos levantarão muros e museus para chorarem o passado.

IMPRENSA

Escrevi essa coluna  ai em 22 de outubro de 2013. Em nenhum instante deixei-me enganar pelo vandalismo dos black blocs.

Surpreendia-me a estranha ingenuidade ou má fé de alguns colegas da imprensa, a serviço não sei de quem, mas evidentemente daqueles que tinham interesse em detonar as manifestações populares com as máscaras e  botas pretas. O nome deles era óbvio: capitães do mato do governo.

Agora estamos todos aqui desolados com o assassinato do Santiago.

HELOISA

Sempre brilhante e lúcida, a jornalista e escritora Heloisa Seixas pôs o dedo na ferida, em artigo no “Globo”:

“- Os black blocs, ou seja lá  que nome tenham, vinham dando sinais nos quais devíamos ter prestado mais atenção: havia  tintas de neonazistas no comportamento deles, inclusive na hostilidade à imprensa…

Poucos de nós, na imprensa, tivemos coragem de escrever contra eles com a força necessária… Melhor ficarmos quietos, em nome da democracia. Em nome do direito à livre manifestação – mesmo com bombas e pedras. E agora estamos assim, como meu amigo da Bandeirantes. Com esse nó na garganta, essa pergunta presa no peito: será que nosso silêncio constrangido nos faz cúmplices na morte de Santiago?”

Vai acabar sendo o Guga

Sebastião Nery

RIO – Antonio Carlos, governador da Bahia, entrou agitado no Hotel Lancaster, em Copacabana, Rio, de manhã, chegando de Brasília. Ligou para Salvador, chamou o professor Jorge Novis, da Escola de Medicina, e convidou-o para ser Ministro da Saúde. O famoso médico baiano não aceitou. Antonio Carlos insistiu, desistiu, desligou:

– Vai acabar sendo o Guga.

Ligou para o professor Clementino Fraga Filho, convidou, não aceitou, insistiu, discutiu, nada. Antonio Carlos desligou irritado:

– Ninguém quer nada. Vai acabar sendo o Guga.

Ligou para outro médico baiano. A conversa já começou a ser ríspida. O homem não queria, Antonio Carlos falava alto, quase aos gritos, acabou pedindo para falar com a filha dele. Ela devia convencer o pai a aceitar, era um serviço que ele devia prestar à Bahia. Não houve apelo, o terceiro não quis. Antonio Carlos desligou aos berros:

ACM

 – É sempre assim.Dizem que nós políticos não temos espírito público,  só indicamos pessoas ligadas pessoalmente a nós, por interesses pessoais ou de grupo. Convenci o General Figueiredo, depois de uma luta dura, a dar o Ministério da Saúde à Bahia. Convido os três mais importantes médicos do Estado, nenhum quer fazer força, dar contribuição nenhuma.

Senta-se à beira da cama, suspira:

– Vai acabar sendo o Guga.

No dia seguinte, em  Brasília, Antonio Carlos apresentou  o médico baiano Mário Augusto Castro Lima, futuro Ministro da Saúde. Na Escola de Medicina, onde foram colegas, Mário Augusto tinha o apelido de Guga.

Acabou sendo o Guga.

 MINISTERIO

A presidente Dilma anunciou no fim do ano que em fevereiro faria a reforma do Ministério. Começou. E está sendo uma frustração, um desastre. Esperava-se que, no quarto ano da administração ela ia aproveitar a oportunidade para compor um governo à altura das necessidades do pais.

E transformou tudo em um vagabundo mercadinho chinês, um compra-compra, um troca-troca para arranjar mais tempo de campanha na TV e apoio dos partidecos nanicos. Até o PSD do melífluo Kassab está batendo na mesa. E o PMDB, sempre invertebrado, de repente toma pudor, desacata a Presidente e joga pela janela seus ministeriozinhos de mentira

Com quem ela quer governar? Vai acabar sendo o Guga.

RISÉRIO

Ainda bem que sempre há quem esteja pensando o pais com talento e seriedade. Em longa e densa pagina e meia no “Estado de S. Paulo”, o historiador e antropólogo baiano Antonio Risério denuncia um crime devastador que se comete hoje: – “Em Busca do Urbanismo Perdido”

1 – “Nossos governantes, numa verdadeira marcha da insensatez, abrem mão da reforma urbana. Precisaríamos de prefeitos que não se comportassem como agentes da especulação imobiliária, com uma vontade coletiva de sair do buraco.As cidades brasileiras vivem dias especificamente difíceis, de uma ponta a outra do país. Estão maltratadas, sujas, agressivas.”

2 – “As promessas não se transformam em realidade. O Minha Casa, Minha Vida constrói hoje as favelas do futuro. Todos precisamos de um lugar onde Morar.Mas por que até hoje isso não acontece? Milhões de brasileiros, depois de 10 anos de governos socialdemocratas, continuam amontoados em alojamentos deprimentes. Em nenhum outro lugar a desigualdade social é tão clara e brutal quanto na moradia.”

3 – “O Brasil tende a ser o paraíso de autoengano. Depois de Antonio Palocci, a política econômica do governo meteu os pés pelas mãos.Estamos combinando crescimento medíocre e inflação controlada artificialmente. A prioridade deveria ser contra a favelização do País, por casas decentes e serviços públicos de qualidade, contra a violência e o narcotráfico, contra a podridão do sistema político e pelo direito de todos à cidade.”

4- “Lula e Dilma, com sua ênfase consumista, privilegiam o comércio de automóveis, dando uma contribuição imensa para encalacrar de vez nossas cidades. Além de não atender a maioria da população, o carro individual sai caro demais para o governo. Carro novo na rua obriga o governo a usar recursos para fazer ruas, pontes, viadutos. Gasto absurdo”.

Acabaram chamando o Guga.  

A Rainha de Sabá

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Sebastião Nery     

Era uma vez uma rainha muito negra e muito bela, soberana do antigo reino de Sabá, “o mais poderoso da Arábia Feliz”, que incluía a Etiópia, o Egito e a Arábia. Os etíopes a chamavam de Makeda. Os árabes de Balkis ou Bilkis. Flávio Josefo, historiador romano judeu, de Nikaula.

Viveu no século X antes de Cristo. Arqueólogos da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, descobriram os restos do palácio da rainha de Sabá em Axum, cidade sagrada da Etiópia. Segundo o Velho Testamento ela teria ouvido falar na grande sabedoria do rei Salomão, juntou quatro toneladas e meia de ouro, cruzou os desertos da Arábia, através da Etiópia e do Egito, pela costa do mar Vermelho, até chegar a Jerusalém, onde se encontrou com ele.

O rei também já tinha ouvido falar em um reino governado por uma rainha negra, muito bela e muito rica, cujo povo venerava o sol. Mandou-lhe uma carta convidando-a para visitá-lo. Recebeu-a com presentes “e tudo que ela desejou”. A tradição etíope garante que Salomão realmente seduziu e engravidou sua convidada e teve com ela o filho Menelik I, primeiro imperador da Etiópia.

Os afrescos de Piero della Francesca (1466), que estão no Batistério de Florença, contêm dois painéis sobre a visita da rainha de Sabá a Salomão. Giovani Boccaccio, em seu livro “Sobre as Mulheres Famosas” (“De Mulieribus Claris”) conta que ela era não só rainha da Etiópia e do Egito como também da Arábia. “Tinha um palácio luxuoso numa ilha muito grande chamada Meroé, localizada em algum lugar próximo ao rio Nilo, praticamente no outro lado do mundo”.

DILMA

As enciclopédias, todas elas, contam essa história com o charme que a rainha de Sabá mereceu. Seria um mítico quem quisesse comparar a presidente Dilma à Rainha de Sabá. Dilma não viaja com o ouro, as joias e a comitiva da rainha da Etiópia. Nem tem o rei Salomão esperando-a na sua corte. É só um bacalhauzinho em Lisboa e Fidel Castro em Havana. Os tempos e os reinos são outros. Até por isso ela não tem o direito de esbanjar pompas e grandezas por ai, raspando o baú de ossos da Presidência. Para que hospedar mais de 50 assessores nos dois mais caros hotéis de Lisboa?

Tem razão a cada dia mais brilhante Eliane Cantanhede  (Folha): – “ Enquanto discutimos a passadinha da Presidente para comer bacalhau em Lisboa, o que deve estar chateando mais a própria Dilma é aquela foto de cara lavada. Com umas olheiras medonhas. É claro que presidentes têm direito a folga, a lazer, a bacalhau bom e a hotel melhor ainda. Muito justo. Mas, pera lá, às escondidas? E reservando 45 suítes (!) nos dois hotéis mais caros? Aliás, para que viajar com meia centena de funcionários? Não precisava exagerar”.

Salomão nunca disse que a rainha de Sabá tinha “olheiras medonhas”

HELENA

O PT devora seus melhores filhos. A exemplar Helena Chagas, como jornalista e como ministra da Comunicação, acabou sentindo na pele o horror de trabalhar com um partido gangsterizado. Ela se negou a distribuir  verbas de propaganda do Governo para o jornalismo sujo da “mídia suja” do PT em seus blogs sujos, seus sites sujos. E foi covardemente derrubada.

O insuspeito “Globo” contou :a guerra suja pelos “capilés” públicos:

– “Em uma das reuniões do presidente do PT, Rui Falcão, com a bancada e integrantes do Diretório Nacional, para discutir saídas para a crise depois das manifestações de junho, houve um debate sobre pontos fracos na equipe ministerial, com críticas à comunicação do governo e da Presidente. A reclamação era em relação à pequena margem de financiamento dos chamados “blogs sujos”, que fazem o enfrentamento com a mídia tradicional e atacam a oposição”.

– “A comunicação do governo é uma porcaria! O governo não tem a estratégia de comunicação nas redes sociais. O Lula mantinha uma canalização de recursos para alguns blogs, mas a Dilma cortou tudo, – reclamou naquela reunião o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PR), segundo petistas presentes”.

– Na época, Vargas desmentiu as críticas. Mas, diante da notícia da saída de Helena Chagas, disse ao GLOBO: – “Não gosto dela. A Helena foi pro pau! Beleza”.

Os olhos são o espelho da alma. A Helena pode dormir e acordar em paz, vingada. Jamais se dirá que ela tem “olheiras medonhas”.

A maionese do PT

Sebastião Nery

RIO – Juarez Távora, ministro da Viação do governo de Castelo Branco, foi a Jaguaribe, sertão do Ceará, inaugurar uma obra. O prefeito, sabendo da velha úlcera de Juarez, ficou preocupado com a alimentação dele e procurou informar-se. Disseram-lhe que o ministro se alimentava muito pouco. Bastava uma maionese de camarão e um copo de leite.

Em Jaguaribe não há camarão, o prefeito mandou buscar em Fortaleza. A maionese foi de avião, no dia, prontinha. Na hora do almoço, a mesa imensa e lauta como as mesas ricas do Nordeste. E, na cabeceira, protegida por um guardanapo de linho, a travessa com a maionese de camarão para Juarez, como uma joia.

Mal sentaram-se, o presidente da Câmara Municipal puxou o braço do secretário da Câmara Municipal:

– O que é isso aí?

– Maionese de camarão.

– Me dá que eu adoro.

E o presidente da Câmara Municipal jogou a metade no prato dele. O prefeito viu, ficou em pânico, falou no ouvido do secretário da Câmara:

– Diz a ele que essa maionese é do ministro, O ministro gosta muito.

– Mas ninguém gosta mais do que eu.

E o secretário da Câmara jogou a outra metade no prato dele.

Juarez almoçou leite.

DILMA

Dilma está chegando de Davos e de Cuba com uma guerra para enfrentar: a gula do PT na reforma do Ministério. O PT acha que os aliados (PMDB, PP, PR, PSD) só servem para bater palmas e votar no Congresso a favor do governo.A maionese do poder tem que ser toda deles.

E é uma hora ingrata. Dilma volta carregando nas costas o pesado saco de vãs promessas feitas em Davos e aqui encontra as devastadoras  manchetes da Economia gritando nas TVs e primeiras paginas dos jornais:

– “US$ 81,4 Bilhões foi o tamanho do rombo das contas externas brasileiras em 2013. O déficit passou de 2,41% do PIB em 2012 para 3,66% do PIB no ano passado. As contas externas brasileiras tiveram um rombo recorde de US$ 81,4% bilhões em 2013. De acordo com os dados do Banco Central (BC), divulgados sexta-feira, o déficit de todas as trocas de serviços e do comércio do Brasil com o resto do mundo aumentou 50% no ano passado e extrapolou a projeção do BC que era encerrar o ano com um déficit de US$ 79 bilhões. Apesar da alta de 14,6% do dólar, o comercio exterior deteriorou-se e os gastos lá fora explodiram. Para os especialistas, o resultado confirma um quadro de vulnerabilidade externa”. ( O Globo).

E o PT exigindo e querendo comer a maionese inteira do Governo.

IBGE

A Pesquisa Mensal de Emprego abrangia só as seis maiores regiões metropolitanas: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Recife e Porto Alegre. Segundo ela, no segundo trimestre de 2013 o desemprego teria sido de 5,9%. Agora, pela nova metodologia do serio e indiscutível IBGE,a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio em 3.500 cidades diz que a taxa de desemprego no mesmo período no Brasil foi de 7,4%.

A diferença no número de desempregados, medido pela Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio, comparativamente à Pesquisa Mensal de Emprego, demonstra que a taxa de desemprego por regiões é expressiva: no Norte 8,3%. No Nordeste 10%. No Centro-Oeste 6%. No Sudeste, 7,2%. No Sul 4,3%.Já o emprego com carteira assinada,segundo o IBGE,é : Norte 65,3%, Nordeste 61,5%, Centro-Oeste 77,4%, Sudeste 80,8%, Sul 84%.

Na nova metodologia do IBGE, a população economicamente ativa é a Força de Trabalho: quem está empregado e quem procura emprego. A idade mínima foi elevada de 10 para 14 anos, contemplando a designação de aprendiz. Segundo o IBGE, 38,5% da população em idade para trabalhar não tem ocupação e nem procura emprego, não entrando nas estatísticas de desemprego. Verdadeiro exercito de 61 milhões de brasileiros.

Os brasileiros com 14 anos ou mais, que não têm nem procuram emprego, são: entre 14 e 17 anos, 10,9 milhões. Entre 18 e 21 anos, 7 milhões. De 25 a 39 anos, 9 milhões. De 40 a 59 anos, 13,9 milhões. A partir de 60 anos, 20,5 milhões, totalizando 61,3 milhões. Uma nação.

Entre os que não procuram emprego e não trabalham a não-educação aparece chocante: 55,4% não terminaram o ensino fundamental, A nova metodologia do IBGE radiografará o desemprego na economia. Com realismo e sem o propagandísmo dos marqueteiros de plantão.

A vovó de Davos

Sebastião Nery

Logo após o golpe militar de 1964, que está fazendo 50 anos, o ditador Castelo Branco despachou Lacerda, governador da Guanabara, para uma viagem à Europa e Estados Unidos, a fim de tentar “explicar” a lambança. Lacerda andou por Paris, Bonn, Londres, Lisboa, Nova York.

Em Nova York, Lacerda foi jantar com Juracy Magalhães, embaixador em Washington, o editor Alfredo Machado (Editora Record) e o editor norte americano Alfred Knopf. Chegou o garçom com a sopa:

– Oh, governador, o senhor por aqui?

– Oh, rapaz, você é brasileiro?

– Sou. Sou de Belo Horizonte.

JURACY

Quando o garçom serviu Juracy, não o reconheceu, Juracy ficou chateado mas não disse nada. Alfredo Machado estava sendo servido:

– Quanto é que você faz aqui?

– Bem, doutor, ganho um total de 700 a 800 dólares por mês.

– Poxa, esse mineirinho ganha quase como um embaixador.

– É, mas nós trabalhamos.

Juracy, e com razão, explodiu:

– É por isso é que a vida pública é uma coisa insuportável. A gente se sacrifica o tempo inteiro e quando chega à idade a que cheguei, depois de todos os serviços que prestei ao Brasil, um menino diz que trabalha mais do que um embaixador. Então ele acha que eu vim aqui como vagabundo?

O garçom desapareceu no fundo do restaurante.

DILMA

Ainda bem que, apesar de cada dia mais gorda e bojuda,  ninguém vai deixar de reconhecer Dilma no Fórum Econômico de Davos, que começa esta semana na Suíça. O perigo é ela jogar o pais no ridículo, tentando dar uma de Vovó de Davos, a avó sabichona, querendo ensinar tudo ao mundo, falando lá fora como fala aqui dentro, mentindo deslavadamente sobre os tristes números da economia brasileira. O mundo ficou um só. Depois do Obama, todo mundo sabe tudo de todo mundo.

Infelizmente a Dilma vai chegar lá de saco vazio. Vai levando o humilhante “Pibinho” de 1%  de 2012  e o vergonhoso “Pibezinho” de 2%  de 2013. E, para este ano, depois de ser obrigada a dar aos banqueiros a  escravista taxa de juros de 10,5,o máximo que pode acenar para a economia nacional em 2014 é repetir os 2% de 2013. Não dá nem para a merenda.

ROMBO

1 – Vejam a lúcida Miriam Leitão em “O Globo”: -“Foram 23 bilhões de dólares gastos lá fora com viagens contra 6,1 bilhões de dólares que entraram no país com turistas estrangeiros. Um rombo de 16,9 bilhões de dólares na conta turismo. A balança comercial registrou até novembro 39,3 bilhões de dólares de importação de petróleo e derivados. Parte disso é combustível de 2012, que foi jogado na estatística de 2013. Como houve apenas 19,8 bilhões de dólares de exportação, o rombo do setor petróleo e derivados chegou a 19,5 bilhões de dólares no ano”.

2 – Ex-secretário da Receita Federal, o consagrado Everardo Maciel atesta – “A conjuntura não permite otimismos: inflação alta, manipulação de preços, crescimento baixo, desequilíbrio fiscal, endividamento das famílias, são males cuja superação vai requerer ciência, tempo e determinação, temperados pela boa política”.

JUROS

3 – O sistema financeiro fica com 5% do PIB brasileiro na cobrança de juros, quando internacionalmente a média é entre 1% e 2%. O respeitado  economista Amir Khair, um dos fundadores do PT, exemplifica:

– “Predomina nas análises a visão do mercado financeiro, para o qual não interessa pôr foco nos juros como despesa. E, para desviar a atenção, colocam o foco em, outro lugar. E por que não interessa? Porque é a mais importante fonte de lucro do sistema financeiro, inclusive de parte importante do setor não financeiro nos ganhos originados em aplicações nos títulos do governo federal”. E completa:

–  “É semelhante ao caso do ladrão que, após se satisfazer no roubo, sai da casa roubada correndo e gritando: “Pega Ladrão!”.

Vovó Dilma vai ter coragem de gritar “Pega Ladrão!” em Davos?

O artista e o estadista

 

Sebastião Nery

Em 1959, Janio  Quadros e Juracy Magalhães disputavam a legenda da UDN para a Presidência da República. José Aparecido, articulador da campanha de Jânio, aconselhou-o a ir ao Nordeste para um encontro com os governadores da UDN: Magalhães Pinto (MG), presidente do partido,  Cid Sampaio (PE), Dinarte Mariz (RN), Luis Garcia (SE).

Marcaram encontro em Aracaju. Janio, Aparecido, outros, pegaram um avião  no Rio. Quando desceram em Salvador para reabastecer, Janio viu Juracy embarcando para Aracaju sem esperar para cumprimenta-lo. No aeroporto, a imprensa baiana  foi educada mas dura com Janio. Perguntei:

– Governador, esses passeios de V. Exa pelo mundo estão sendo pagos por quem? Ou será com o famoso terreno da Vila Mariana, em São Paulo?

– Respeitem-me. Nada tenho a dizer. Lamento o comportamento do governador.Não sou dos que arreganham os dentes para o sucesso eleitoral.

Levantou-se e foi para avião. Em Aracaju uma multidão com vassouras e os governadores da UDN o esperavam. Disse a Aparecido:

– O Juracy me armou uma cilada. Vou dizer-lhe o que precisa ouvir.

Na primeira reunião, Jânio levantou-se:

– Governador Juracy, quero começar dizendo que não aceitei o que o senhor fez em Salvador, as perguntas que me mandou fazer.

Juracy também se levantou, apoplético:

– O senhor me respeite. Nunca precisei pedir a ninguém para fazer perguntas por mim. Não tenho caspas nos meus ombros. Sou um revolucionário de 30. O senhor é um aventureiro, mentiroso e demagogo.

– Governador Juracy, não temos mais nada a conversar. Eu me retiro.

E saiu rápido.

O VASSOURINHA

Em 10 de fevereiro de 1961, dez dias depois da posse de Jânio no governo, fui a Porto Alegre entrevistar o governador Leonel Brizola. Recebeu-me no gabinete no dia seguinte às seis da manhã. Estavam lá, com cara de sono, Brusa Neto e Hamilton Chaves, os principais assessores. A conversa foi longa e objetiva. A certa altura, Brizola pede que eu não anote:

– Nery, isso que vou te dizer não deve ser publicado, porque não quero criar problema para o presidente Jânio Quadros. Gosto dele, estamos os dois apenas com dez dias de governo. E já começam graves problemas.

– De que tipo, governador?

– Políticos e econômicos. Sobretudo políticos. Tu já fizeste uma análise das forças políticas e econômicas que financiaram o Vassourinha? (Vassourinha era o Jânio). Para atender às necessidades do País e dos seis milhões de eleitores que votaram nele, ele vai ter que mudar de comportamento, e as forças que o financiaram não vão se conformar.

Bateu o fundo da caneta na mesa, ficou pensando longe:

– Tu deves ficar atento. Em seis meses, ou ele renuncia ou vamos para a guerra civil.

Fui para o hotel, anotei e guardei. Em sete meses Jânio renunciou.

LEITE BARBOSA

Jânio era dois: o artista e o estadista. Alias, era vários. Historias do artista, do múltiplo, do excepcional comunicador de massas, do candidato sempre imbatível –  vereador, deputado estadual, deputado federal, prefeito, governador, presidente – há tantas, nos meus e outros livros. Mas o Brasil lhe devia o livro sobre o estadista, o homem que em 1960 viu o pais meio século à frente,com todos os riscos e abismos que precisaria saltar e vencer.

Pois tem o livro. Publicado em 2007 pela Editora Atheneu (Rio, São Paulo), e logo esgotado, volta às livrarias, em esmerada segunda edição ampliada, uma obra-prima do embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa: “Desafio Inacabado – A Política Externa de Jânio Quadros”.

Rara gente no Brasil teria a bagagem do embaixador Leite Barbosa para um livro desse nível sobre a política externa brasileira. Formado pela  Nacional de Direito da Universidade do Brasil,  já no Itamaraty aos 23 anos, em 42 anos de diplomata serviu em Nova York, Buenos Aires e Madri e, foi embaixador em Bogotá, Roma, Paris e junto à OEA.

Em 1960 foi convocado para o governo Jânio Quadros, onde trabalhou ao lado do presidente todos os dias dos 7 meses do governo. Seu testemunho é preciso, detalhado, documentado e sobretudo inteligente, não perdendo os conflitos que iam surgindo e sendo enfrentados. Perfis irretocáveis: de Jânio, Afonso Arinos, Lacerda, Fidel, Guevara, Kennedy, Tito, Frondisi. E EUA, União Soviética, China, África. Uma aula magna.

Ana Paula e Seu Antoninho

Sebastião Nery

Seu Antoninho tinha sua casinha de negócio na “Vila 13”, perto de São Borja, no Rio Grande, terra de Getulio, Jango e Brizola. Vendia tudo. De carne de charque a chapéu Ramenzoni.O freguês chegava:

– Seu Antoninho, o senhor tem capa?

– Não sei. Mas se tiver é a última. Vou fazer um preço sem lucro, pelo custo. Mas na próxima é mais cara.

E vendia. Chegava outro freguês:

– Seu Antoninho, o senhor tem sela?

– Não sei. Mas se tiver é a última do estoque antigo.

Ia lá dentro, trazia a sela:

– Era mesmo a última. E porque é a última, vendo pelo preço de custo, sem lucro. Mas a próxima será mais cara.

E vendia. Um velhinho, que ficava na ponta do balcão tomando suas cachaças, ouvia aquela história todo dia:

– Seu Antoninho, quer dizer que o senhor não tem lucro nenhum nesses artigos?

– Nenhum. É pelo preço de custo.

– O senhor não está ganhando nada?

– Nadinha.

– Quer dizer que o senhor veio de longe só para“fazer relação com nós”?

O GREENPEACE

Ana Paula Maciel, guapa gaucha, bela e charmosa musa do “Greenpeace”, com seu languido e largo sorriso, é um Seu Antoninho dos pampas. Não sai dos jornais, revistas e televisões, tentando convencer-nos de que está vendendo sua capa, sua sela, seu charque, seu Ramenzoni, sem ganhar nada, nadinha,“só para fazer relação com nós”.

Esta é uma historia muito mal contada.Atrás de todo esse charme está a esperteza de uma ardilosa empresa internacional, o Greenpeace, e sua brilhante agente, a Ana Paula, muito bem preparada. E agente é uma gente que mente deslavadamente e quanto mais mente melhor se sente.

1.- Chega de enganação. Vamos aos fatos verdadeiros. O Greenpeace não é nenhuma “Associação do Sagrado Coração”, nenhuma Charitas,  nenhuma ONG beneficente a serviço da humanidade. É uma empresa multinacional, disfarçada atrás de ações aparentemente ecológicas mas na verdade destinadas a defender os interesses, às vezes os mais sórdidos, de governos ou poderosas empresas internacionais.

2. – A imprensa contou que o escritório do Greenpeace em São Paulo é mantido e financiado pelo governo da Holanda. Qual o interesse da Holanda em financiar o Greenpeace? Muito simples.É a guerra do petróleo.

E não é só a Holanda. No Polo Ártico estão 13% do petróleo e 30% do gás do mundo inteiro. Vários países os disputam e exploram. Segundo a “Folha de S. Paulo” os principais são Rússia, Canadá, Estados Unidos, Noruega e Holanda. Perguntam na “Folha”: – “Esses países vão desistir de uma área tão rica em petróleo e gás”? Cada um tem seu pedaço, sua plataforma.

O PRE-SAL

3.-  Quando o Greenpeace, com seu barco pirata e 30 profissionais, cercou, escalou e invadiu a plataforma da empresa russa de petróleo, praticou um ato aberto de assalto, um crime explicito de guerra clara. Queriam o que? A plataforma russa fica em águas territoriais russas, que foram invadidas. Queriam que a Rússia recebesse com beijinhos na boca a Ana Paula, uma pirata internacional numa ação  a serviço de uma Nação estrangeira,  flagrada atacando a plataforma que é um patrimônio russo?

4. – A Ana Paula não é nenhuma donzelinha de novela das cinco, fazendo aventuras no Polo Norte, “para defender o Ártico das petrolíferas gananciosas”. Ela estava lá como uma empregada internacional, recebendo em dólares, alugada em dólares. Tem todo o direito de fazer de sua vida a aventura que for. Mas não pode querer fazer do Brasil um pais de idiotas.

5. – Ana Paula passou dois meses em Murmansk. Também estive lá duas vezes. Com uma diferença : eu solto, como jornalista, escrevendo um livro. Como eu, ela viu de sobra as varias plataformas, negras e sonolentas, deitadas sobre o gelo eterno. Cada uma pertence a um pais. Por que o Greenpeace invadiu exatamente a russa? Porque os patrões da Ana Paula são financiados pelos americanos e governos que disputam com a Rússia.

Fiquemos de olho. O próximo bote vai ser em cima do Pré-Sal. Ela avisou: – “Não concordo com o Pré Sal. É desnecessário” (Globo).

Desnecessário é o endolarado salário pirata dela.

Os idos de Benito

Sebastião Nery

RIO – “Eu sou de 1929, então cheguei em pleno auge do fascismo e foi neste clima que recebi este nome, Benito Mussolini, um operário, trabalhador. Chefiou um movimento revolucionário, tomou o poder (na Itália) em 1922 e se caracterizou naqueles primeiros anos por uma série de realizações que repercutiram no mundo todo.O abraço real ao nazifascismo veio depois que se aliou ao Hitler.Depois da guerra tive problemas, tinha que explicar este nome, naqueles dias em que italianos, alemães e japoneses estavam sendo agarrados na rua e havia inclusive muita violência.

Também fui um jovem fascista. Lia biografias de Hitler, Mussolini, lia muito Nietzsche. Isso em 1946 para 1947. Naquele tempo, estava se passando o julgamento de Nuremberg, os líderes alemães presos estavam sendo julgados e sucessivamente enforcados. Passou o filme aqui e fui ao Cine Glória, na avenida Afonso Pena, que era o cinema mais popular de Belo Horizonte. Na hora da sentença,dei uns berros: – “Abaixo os Estados Unidos!, Viva a Alemanha!”. Quase fui linchado. Isso sem que ninguém soubesse o meu nome … Se eles soubessem, eu não estaria aqui”!

EM 1945

– “Tinha comunista para todo lado, fazendo a  maior arruaça e galvanizando o entusiasmo de todo mundo. O Partido Comunista, de repente, tinha um milhão de pessoas e eu pensando em formar grupos para combater os comunistas na rua.Morava numa pensão de estudantes na rua Espírito Santo. O País recém-saído da ditadura de Vargas, que durou 15 anos, então eleições, debate, PC, marxismo, imperialismo, tudo fervendo.

Havia um quintanista de Direito, dirigente do Partido (Comunista). Ele já tinha lido muita coisa de que eu nem tinha notícia e me ganhou todas com aquela dialética do marxismo, porque realmente são irrespondíveis: a luta de classes, o imperialismo, o regime capitalista e o povo. Eu fiquei perplexo no meio de todo mundo ali. Meus amigos ficaram murchos, derrotados comigo, inclusive meu amigo Dirceu Mourthé, que era companheiro de quarto e veio a ser comunista também.

Então eu falei com o Paulo Bezamat : – “Você me arranja esses livros emprestados? Vou ler e vamos voltar ao assunto”. Me emprestou. Comecei a ler, fui logo sendo arrebatado. Eu tinha um empreguinho que larguei para lá, larguei as aulas. O Dirceu falava: “Benito, você vai comer  livro?! Você vai morrer! Tem que parar pelo menos para comer!”.E eu lendo,  lendo, completamente alucinado.A dialética do Lenin é simplesmente irresistível”.

REVOLUCIONARIO

– “Então eu me entreguei totalmente, me profissionalizei como agitador de massa. E comecei a ter dificuldade em aparecer, porque houve vários conflitos, choques de rua. Na Praça Sete, depois de uma pancadaria, um choque de grupos, de repente eu me vi sozinho, uma multidão querendo me linchar. Eu estava armado, saquei da arma para me defender. Os jornais diziam: – “Bolchevista de arma na mão”. Com isso e mais as minhas inclinações aventureiras, fui fazer revolução no Nordeste, Fui para a Bahia, pelo Rio São Francisco, e por lá fiquei. A Bahia era muito pobre naquele tempo, uma miséria. Pelo menos onde eu estava, no meu meio de povo, de gente pobre, uma refeição por dia: um cafezinho de manhã e um almoço.

Maria Reis, uma espécie de mãe preta que eu tinha lá, militante do Partido, falou: – “Esse menino vai morrer se continuar desse jeito, eu vou cuidar dele”. Aí fui para a pensão dela, na Baixa do Sapateiro. Os hóspedes logo descobriram que aquele cara, magro daquele jeito, com tosse, em tratamento, só podia estar tuberculoso. Eu tinha de me esconder dos hóspedes e, ao mesmo tempo, da polícia, porque era procurado”.

ESCRITOR

Essa historia fascinante desaguou no primeiro romance – “Plataforma Vazia” (1962), premiado, saudado por Guimarães Rosa (“Excelente escritor. Traz coisa autêntica, nova e própria. Desde a pagina inicial carrega muitas belezas, em linguagem ótima e estilo forte. Entusiasmou-me de verdade”) e por Jorge Amado (“Romancista de talento e de autentica vocação”).

Depois vieram “Capela dos Homens” (1968), “Mutirão para Matar” (1974), “Cafaia” (1975), todos premiados, compondo a tetralogia “Os Guaianãs”. E, afinal, a obra-prima : – “Saga do Caminho Novo” em quatro volumes, a historia da Inconfidência como nunca se contou antes e já saiu clássica : “Os Idos de Maio” (2009), Bardos e Viúvas” (2010), “Toque de Silencio em Vila Rica” (2011),“Despojos:a Festa da Morte da Corte”(2012)

Para celebrar o cinquentenário do primeiro romance, filhos e netos de Benito, uma família literária e gráfica (a musa Irá, o editor Vinício, a romancista e tradutora Laura, a editora1 Rachel, o diagramador Ramon) fez um primoroso livro:-“Benito Barreto,50 anos de Literatura”. Uma beleza.

O carmim de Dilma

Sebastião Nery

RIO – Gilberto Freire, pai da sociologia brasileira (e da antropologia também), cabeleira castroálvica, rosto nobre, longas mãos aristocráticas, o mestre de Apipucos, como o batizou seu talentoso e dileto discípulo Sileno Ribeiro, com 20 anos já estava fazendo pós-graduação em Ciências Jurídicas, Políticas e Sociais nos Estados Unidos, depois Londres, Paris.

Com 23 anos, de volta ao Brasil, organizou o livro do primeiro centenário do “Diário de Pernambuco”. Em 1945, no fim da ditadura Vargas, ajudou a fundar a Esquerda Democrática, que depois veio a ser o Partido Socialista Brasileiro, o do competente governador Eduardo Campos, pelo qual Freire se elegeu para a Constituinte de 45 em Pernambuco.

Orador oficial do comício que recebeu Luís Carlos Prestes no Recife, saindo de dez anos na cadeia da ditadura, Gilberto Freire deixou a multidão em silêncio quando abriu o discurso citando o filosofo espanhol Unamuno:

“Ave ferida, pelicano rasgado em pleno peito.”

GILBERTO FREIRE

A Liga Eleitoral Católica, irritada, vetou seu nome para deputado constituinte. Monsenhor Sales, vigário de Soledade, todo rendado, rosto massageado, cabelos empoados e oratória barroca, sempre que via, entre os fiéis, dona Madalena, mulher de Gilberto, desancava-o no sermão, proibindo votar nele. Gilberto Freire respondeu nos jornais do Recife:

– Eu não digo que monsenhor Sales não deva usar algum carmim. Mas que use tanto quanto está usando, é demais.

Monsenhor Sales calou, Gilberto se elegeu.

O povo brasileiro também não diz que a presidente Dilma e o ministro Mantega não devam usar alguma mentira. Mas que usem tanto quanto estão usando é demais. Agora, tudo que dizem é falso, é mentira. Você abre “O Globo”, até o dócil e servil Globo, e está lá a manchete :

-“Contas Externas do Pais Têm Maior Rombo Desde 1947”.

E Dilmentira mentindo, mentindo. No outro dia, nova manchete:

– “Previdência de Servidor Tem Rombo de 78 Bilhões”

E Dilmentira mentindo, mentindo.

INFLAÇÃO

Com a inflação é um escárnio. Nos  últimos doze meses (novembro de 2012 a novembro de 2013) o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor), que mede a taxa inflacionária, foi de 5,77%. Esta é a inflação oficial divulgada pelo governo. Para atingir essa taxa de 5,77%, a manipulação ficou clara quando se vê o estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Nos doze meses, os “preços livres de mercado” cresceram 7,30%. Já os “preços administrados” pelo governo foram “reajustados” em 0,94%. As tarifas públicas represadas, não reajustadas, com a Petrobrás sendo a maior vítima mas não a única, estão  “segurando” a inflação. Verdadeira bomba de efeito retardado.

E Dilmentira mentindo, mentindo.

DÍVIDA

O economista e professor Helio Duque, varias vezes  deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, um guru que não mente, me chama a atenção:

1. –  “A conta das distorções na economia brasileira será paga pela sociedade, diante dos esqueletos da mágica contábil que vêm sendo cobertos pelo endividamento do Estado. A dívida pública bruta que engloba todas as dívidas da União, Estados e municípios pelo critério universal do FMI (Fundo Monetário Internacional) cresceu, expressivamente, no governo Dilma Rousseff. Está em 68,3% do PIB. A media dos países emergentes é de 35% do PIB. O Brasil, na aritmética da adulteração contábil, vem adotando o conceito de dívida líquida. Expurga várias operações do Banco Central com títulos públicos e outros macetes, divulgando que ela é de 35,4% do PIB. E a maioria dos brasileiros acredita. Para a economia mundial o critério respeitado e usado é de dívida bruta. No Brasil, além das operações do BC, o governo desconta as reservas aplicadas em dólares para adotar o malabarismo de dívida líquida.”

2. – “Cinicamente, de maneira surreal, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, em surto de inteligência que nele é incomum, reconheceu:

– “A economia está crescendo com duas pernas mancas”.

Certamente uma delas é a manipulação da inflação, onde ele e Dilma  são os grandes responsáveis.Quando os brasileiros despertarem da anestesia em que vivem vão  pagar o preço gerado pelo acúmulo de incompetências”.

Nas redes sociais, Mantega já virou  Mentega e Dilma é Dilmentira.

O manco Mantega

Sebastião Nery

Seu Quié era fogueteiro em Casa Amarela, no Recife. Passou a vida enfeitando o céu de taliscas incendiadas e espocando alegrias nas noites de São João. Mas Seu Quié tinha suas fidelidades políticas, sonhos revividos de velhos tempos da Coluna Prestes, do Cavaleiro da Esperança.

Todo ano, dia 3 de janeiro, era Seu Quié quem fornecia os foguetões que estouravam de madrugada anunciando o aniversário de Carlos Prestes. Iam lá buscar, ele entregava e só. Era sua participação política e sua glória.

Em 1964, veio o golpe militar, prendem Seu Quié. Interrogado, nega:

– Faço fogos há mais de cinquenta anos. Não vou ficar apurando quem compra e para que é que compram. Vendo, levam, acabou-se.

– Você fazia foguetões para o aniversário de Luis Carlos Prestes. Você sabe quem é ele?

-Não sei, não. Sei só que é um moço ai, que é contra umas coisas aí, mas não sei, não.

Foi solto. Voltou ao xadrez para pegar a escova e a pasta de dentes. Os outros presos queriam saber como tinha sido o interrogatório. Seu Quié estava de fala curta:

– Neguei. Neguei tudo.

– Mas você negou suas convicções?

– E eu ia gastar minha dialética com eles?

E voltou para Casa Amarela com seus foguetes e sua dialética.

PIBINHO E PIBEZINHO

O ministro Guido Mantega não tem o caráter de Seu Quié. É um homem sem posições, sem convicções, sem dialética. Cada dia, cada hora fala uma coisa diferente. Diz isso aqui, diz aquilo logo ali. E continua com a mesma cara de sorriso lerdo, torto, morto, trazido de sua Calábria italiana.

Agora, não tendo mais como mentir sobre o desastre da Política Econômica do Governo comandada por ele e que já pariu o “Pibinho” da Dilma em 2012 e está parindo o “Pibezinho” de 2013, teve que confessar:

– “A economia brasileira está andando sobre duas pernas mancas”.

Quer dizer, é uma economia trôpega, aleijada, amantegada.

PETROBRAS

1- A Petrobras está sendo estuprada pelo atual governo, em níveis inadmissíveis e atentatórios aos interesses nacionais. No governo Dilma, em valores de mercado, a Petrobras teve, até agora, uma desvalorização de 101 bilhões e 500 milhões de dólares.A fonte é a consultoria Economática

2 – A maior empresa da América Latina tem seu Conselho de Administração presidido pelo ministro da Fazenda Guido Mantega. Fato inédito na sua história. Sempre foi presidido pelo ministro das Minas e Energia. O engenheiro Silvio Sinedino, representante dos trabalhadores no órgão, afirma: “O Conselho não está decidindo os rumos estratégicos da Petrobrás. Isso é feito em outro lugar. Uma coisa é usar a empresa para o desenvolvimento do País, outra é para atender a baixa política.”

3 – No governo Dilma o endividamento bruto da Petrobras deu um salto triplo. Em 2011 era de R$ 115 bilhões. Em outubro de 2013 atingiu, oficialmente R$ 250,9 bilhões. A indefensável política de represamento de preços, para segurar a inflação, está estrangulando o seu futuro.

O economista Amir Khair, fundador e militante do PT, com seriedade e competência diz: “É lamentável a política do governo usando a Petrobras como biombo da inflação. Ao segurar o reajuste de preços está ocasionando os péssimos resultados que estão aparecendo. Falhas desse tipo maculam a imagem do governo e da Petrobras. Incompetência ou irresponsabilidade?”

DEDO-DURO

Quando o Mensalão deixou Lula de calças curtas, ele pulou fora:

– “Não vi, não sei de nada. Fui traído, apunhalado pelas costas”.

Presidente, Lula nomeou o delegado Romeu Tuma Junior Secretário Nacional de Justiça, vice-ministro da Justiça. Ninguém entendeu. Ele era filho do homem que prendeu Lula. Por que aquilo?

Desfez-se o mistério. O delegado Tuma Júnior acaba de publicar um livro-bomba (“Um Crime de Estado”-Topbooks 557 pags). Ele conta tudo:

-“Eu era investigador subordinado a meu pai e vivi tudo isso. Eu e Lula vivemos juntos esses momentos.Vi o Lula dormir no sofá da sala do meu pai. Lula era informante do meu pai no Dops. “Barba”era o codinome dele. Lula combinava tudo com Tumão.Tinham uma relação muito sigilosa”

Com nove dedos Lula era um dedo-duro. Imaginem se tivesse dez.

A trinca da censura

Sebastião Nery

Em 1965, depois do golpe militar de 64 e de uma longa cadeia, escondido em São Paulo esperando meu julgamento pelo Tribunal Militar, com nome e documentos falsos e a policia atrás de mim, só falava com quem conhecia. Antonio Torres, o generoso romancista baiano agora na Academia, trabalhava na agência de propaganda “Piratininga” e me levou à “Magaldi Maia”, de João Carlos Magaldi e Carlito Maia.

De quando em vez eu ia lá para almoçar com eles. Uma manhã encontrei meus queridos amigos na maior dúvida e discussão. Iam lançar em São Paulo um novo programa de televisão com um jovem cantor do Espírito Santo, que tinha meia perna de ferro, quebrada por um trem. Magaldi achava que não deviam esconder a perna quebrada, um charme a mais. Carlito, com seu sorriso bom de Chaplin sem bengala, discordou:

– Sei que o Brasil gosta de maluquices. Também gosto. Mas um roqueiro com perna de ferro não. Vamos esconder essa perna dele. Ele não vai jogar futebol. Vai cantar. E não é com a perna, é com a boca.

E Roberto Carlos estourou com sua “Jovem Guarda”, de perna de ferro escondida. Nunca mostrou. E deu certo. Carlito tinha razão.

FIGUEIREDO

Pabla Alexandra, húngara paranaense da TVE, linda como seu lindo nome soando pseudônimo, na véspera do Natal de 1979 entrou em uma casa de discos ao lado do Cine Roxy, no Rio (Avenida Copacabana) :

– Me dá um long-play do Júlio Iglesias. Quanto é?

– Cr$ 260,00.

Nesse instante, chegou o presidente Figueiredo, com amigos:

– Me dá o último disco do Roberto Carlos. Quanto é?

– Ora, Presidente. Não vamos cobrar um disco do senhor.

Figueiredo pegou o disco, agradeceu, saiu, entrou numa importadora ao lado, escolheu um perfume francês. O dono não quis receber. Figueiredo constrangido insistiu. Não houve jeito de pagar, acabou levando. E Pabla na porta assistindo. O Presidente entrou no carro, ela voltou à casa de discos:

– Cobra ai os Cr$ 260,00 do disco do Júlio Iglesias.

– São Cr$ 265,00.

– Como Cr$ 265,00? Estive aqui há cinco minutos, mandei enrolar, o senhor me disse que eram Cr$ 260,00.

– Ah, minha filha, você não viu? O Presidente esteve aqui, tive que dar de presente um disco do Roberto Carlos, porque eu não ia cobrar dele.

– E eu com isso?

– E você acha que sou eu que vou pagar? Vou cobrar Cr$ 5,00 de cada disco que vender hoje, até completar o preço do presente. Volte amanhã que você já deve comprar de novo por Cr$ 260,00.

Pabla pagou os Cr$ 5,00 da cestinha de Natal de Figueiredo.

ROBERTO CARLOS

Todo brasileiro acaba pagando o preço da glória de seus presidentes ou de seus ídolos. E se você for contar nos dedos das mãos os ídolos nacionais (Tiradentes, Getulio, Juscelino, Pelé), não vai poder deixar de incluir a trinca Roberto Carlos, João Gilberto, Gilberto Gil.

Por isso espanta e dói ver essa trinca, que podia e devia ser a trinca do bem, transformar-se em trinca do mal, a trinca da censura. Estão agora mais disfarçados, envergonhados, mas sempre gulosos e insaciáveis. Continuam cercando o Congresso Nacional, tentando garantir em lei a censura às biografias, seja em livros, filmes, televisões, revistas, jornais.

Ainda bem que na semana passada o STJ (Superior Tribunal de Justiça) derrotou uma ação de João Gilberto, que tentava tirar das livrarias, confiscar, queimar uma singela biografia dele.

NALINI

A consagradora eleição do desembargador Renato Nalini, presidente da Academia de Letras de São Paulo, para a presidência do Tribunal de Justiça no primeiro turno, com 238 votos contra 76 e 21 do segundo e terceiro colocados, é uma vitoria da Justiça, do Direito e da Cultura.

Mas não só. Foi também mais uma marca da força da presença italiana em São Paulo através de gerações. O presidente anterior era Ivan Sartori. O eleito é Renato Nalini. O vice presidente eleito é Eros Piceli. O segundo mais votado foi Paulo Mascaretti. O terceiro João Carlos Saletti.

Não é um Tribunal. É um Vaticano.

As espertezas do Getulinho

Sebastião Nery

Pedro Calmon, candidato a governador da Bahia, pelo PSD, em 1954, contra Antonio Balbino do PTB, foi a Getúlio:

– Presidente, tenho procurado apaziguar os espíritos pela conciliação.

– Quais são as suas relações com o Balbino?

– Pessoalmente boas, presidente. Adversários que se respeitam.

– E com o Juracy?

– Inimigos políticos que também se respeitam.

– Você, Calmon, está completamente errado. Você deve atacar imediatamente o Balbino e até o Juracy, que o apoia. Não tenha complacência. Ataque de rijo. Se não, eles devoram você.

– Mas, presidente, atacar assim não é de meu feitio.

– Como não é do seu feitio? Olhe, Calmon, essa história de jamais brigar com ninguém é só comigo. Deixe isso para mim.

Calmon brigou, perdeu feio. Getúlio apoiava Balbino.

DILMA

Lula pensa que é um “Getulinho”. Põe o PT a brigar com todos os partidos aliados que têm candidatos, Estado a Estado, esperando que no fim todos apoiarão Dilma sem Dilma precisar apoiar ou brigar com ninguém.

Rio, Rio Grande do Sul, Minas, Espírito Santo, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Maranhão, Brasília, tantos outros, de Norte a Sul, estão enfiados numa zorra só. E Lula e Dilma pondo-os dentro da rinha para brigarem entre si, imaginando que todos, afinal, ficarão só com ela.

Como o Tribunal Superior Eleitoral é uma dependência de serviço do Palácio do Planalto, a Presidente ilegalmente instalou seu Comitê Eleitoral no palácio da Alvorada e na Granja do Torto. Em almoços e jantares faz ali suas semanais pajelanças eleitorais.Na cara do Tribunal Superior Eleitoral.

EIKE

“Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado”. Quem deu esse atestado de competência foi a presidente Dilma Rousseff, em 27 de abril de 2012, quando do início da exploração de petróleo pela OGX. Logo suas ações se valorizaram. Hoje está em recuperação judicial, na maior falência de uma empresa latino americana em todos os tempos. E o desastre só não é maior porque a Petrobrás, pelo seu competente corpo técnico, recusou-se a fazer parceria com a OGX, como era desejo do governo.

O mestre Carlos Lessa alertou: – “O grupo Eike Batista foi criado por uma bolha especulativa de dimensões colossais.”

Agora a conta chegou e é salgada. Será paga pelo contribuinte.

PETRÓLEO

A Agencia Internacional de Petróleo, a Nacional e Petrobras atestam a posição dos principais países em “reservas” e “produção” de petróleo.

1 – “Reservas provadas” de petróleo por país:

Venezuela – 297,6 bilhões de barris

Arábia Saudita – 275,900 bilhões de barris

Canadá – 173,900 bilhões de barris

Irã – 157 bilhões de barris

Iraque – 151 bilhões de barris

Kwait – 101,5 bilhões de barris

Emirados Árabes – 97,800 bilhões de barris

Rússia – 87,200 bilhões de barris

Estados Unidos – 35 bilhões de barris

China – 17,3 bilhões de barris

Brasil – 15,3 bilhões de barris

PRODUÇÃO

2 – “Produção” por país em milhões de barris:

Arábia Saudita – 11,5 milhões de barris

Rússia – 10,6 milhões de barris

Estados Unidos – 8,9 milhões de barris

China – 6,2 milhões de barris.

Canadá – 3,7 milhões de barris

Irã – 3,7 milhões de barris

México – 2,9 milhões de barris

Venezuela – 2,7 milhões de barris

Brasil – 2,1 milhões de barris.

VENEZUELA

O pais que tem a maior “reserva” mundial de petróleo, a Venezuela, é o penúltimo em “produção”. O Brasil, que é o ultimo em “reserva”, também é o ultimo em “produção”. O que a Venezuela faz há muitos e muitos governos, desde antes do Chavez, é um crime contra seu povo.

O bunker de los canallas

Sebastião Nery

– Na velha Lapa do Rio, o poeta Manuel Bandeira só via o beco :

– “O que eu vejo é o beco”.

Em Santiago, no Chile, há um beco histórico, de nome estranho :

– “El Rincon de los Canallas”.

Numa rua pobre, ao lado do palácio La Moneda, em um beco meio escuro, embaixo de um velho edifício enegrecido, coberto de grafites pelas paredes, há uma escondida campainha ao lado de uma porta suja. Para entrar, você tinha que tocar a campainha e saber a senha. Lá de dentro perguntavam:

– “Quien vive, canalla”?

– “Chile libre, canalla!”.

 RESISTÊNCIA

Foi um bunker de resistência à ditadura. O toque de recolher não deixava ninguém na rua, à noite. O boêmio Victor Painemal pôs ali, no começo, uma mesa e sete cadeiras. E ia recebendo os amigos para beber, comer e falar mal dos militares. Um dia, a policia chegou e levou todo mundo.

Eram sobretudo jornalistas. Eles insistiam. A policia voltava e 68 vezes prendeu “canallas”. À medida que a ditadura se enfraquecia, os “canallas” se multiplicavam. E iam dando aos pratos nomes políticos : – “Vietnamita” (pernil em homenagem a uma bomba jogada contra um tanque militar), “Atentado” (para o frustrado atentado ao general Pinochet), “Punta Peuco” (uma prisão), “Vitalício” (quando Pinochet se tornou senador vitalício).

Ainda lá estão fotos de desaparecidos, poemas, canções e manifestos e muitas frases nas paredes, dentro e fora: -“É perigoso saber, irmão”. – “O que você disse ontem continue dizendo amanhã”. – “Amanhã é tarde demais” – “Agora, ninguém é culpado”. – “A verdade tem sua hora”. – “Só tenha medo de não avançar”. – “O amanhã será dos livres. Ninguém será esquecido”.

PINOCHET

Em novembro de 2005, voltei lá para as eleições presidenciais que elegeram a socialista Michele Bachelet. Por mais que o pais fizesse força para enterrar o passado, esquecer, a historia é implacável. A toda hora ela se levanta e grita. A cada noite chegavam velhas e novas historias no “Canallas”.

1 – Em 1991, o bispo Sergio Valech, “El Vicário de la Solidariedad”, descobriu e denunciou 108 túmulos, com 126 desaparecidos, no Cemitério Geral de Santiago. A então ministra da Justiça, Soledad Alvear, mandou o Instituto Medico Legal identificar os corpos para enterrarem. Os exames de DNA descobriram que estava tudo errado. O IML “misturou” tudo e as famílias enterraram os mortos dos outros pensando que eram os seus.

2. – Em 7 de setembro de 1986, houve um atentado contra o ditador Pinochet. Ele se livrou, mas morreram cinco oficiais de sua guarda pessoal. O chefe do batalhão, coronel Juan Mac Lean Vergara, ficou ferido.

3. – O Senado dos Estados Unidos divulgou a lista de oito militares chilenos, da confiança e guarda pessoal do general Pinochet, cujas contas nos Estados Unidos Pinochet e a mulher usaram para transferir milhões roubados do Chile. E o principal era exatamente o coronel-chefe Juan Mc Lean Vergara.

4. – Em longa entrevista aos jornais, o coronel Vergara disse que o dinheiro não era dele, que nunca falsificou a assinatura da mulher de Pinochet e que o general usou indevidamente sua conta para mandar dinheiro para fora, inclusive um cheque falsificado de US$87 mil, que não foi por ele assinado.

Façamos justiça aos generais-presidentes brasileiros. Nenhum foi assim.

BACHELET

Domingo passado, novas eleições presidenciais e parlamentares no Chile. “O Globo” fraudou asquerosamente a publicação dos resultados :

– “Bancada no Congresso é Obstáculo Para Bachelet – Favorita no 2º turno no Chile, esquerdista não garantiu maioria para, se eleita, reformar Constituição – Sem Maioria, Bachelet Já Busca Alianças no Congresso do Chile – Esquerdista precisará de independentes para reformar Constituição”.

Para “O Globo”, Bachelet perdeu as eleições. A “Folha” desmentiu:

1- “Centro-Esquerda Amplia Maioria na Câmara e no Senado Chilenos –

Os socialistas são os grandes vencedores nas eleições legislativas do Chile. – A coalizão da ex-presidente e candidata Michelle Bachelet ganhou 11 cadeiras na Câmara e uma no Senado, passando de 20 para 21 senadores”.

2. – “Na próxima legislatura, os socialistas terão na Câmara 68 deputados, contra 48 da aliança do presidente Sebastián Pinera, que perdeu 7 assentos na Câmara e manteve seus 16 senadores”.

3. – “Direita Sofre Derrota nas Eleições do Chile – Bloco de centro -esquerda de Bachelet amplia maioria na Câmara e no Senado no pleito de domingo – Políticos direitistas não souberam lidar com o tema da desigualdade social, muito explorado na campanha opositora”.

Há o bom “Rincon de los Canallas” e a má Imprensa “de los canallas”.

A gramínea monóica

Sebastião Nery

Seu Rodrigues era chefe político de Penedo. Coronel dos de antigamente: bom sujeito, boa prosa, bom garfo. E tinha Tonico, menino levado que passava o dia jogando sinuca no bar da praça ou mergulhando nas águas turvas do São Francisco. Mas era seu orgulho.

Um dia, Tonico virou a cabeça e sumiu com uma trapezista do Circo Garcia. Seu Rodrigues quase morre de desgosto. Não saía, não jogava mais biriba com os amigos. Triste e amuado dentro de casa como um boi velho.

Três anos depois, seu Rodrigues recebeu a notícia de um jornal de Goiás: Tonico tinha morrido em um desastre na estrada. Entrou no quarto, passou um dia e uma noite chorando o resto de mágoa e deixou a saudade pra lá.

O CORONEL

O tempo passou, Tonico não era mais assunto de Penedo. O velho coronel de quando em vez ia buscar atrás da cômoda o retrato do menino ingrato, que ganhara o vão do mundo com a trapezista loura de pernas grossas e recebera seu castigo na curva da estrada.

De repente, chega do Rio um amigo:

– Vi o Tonico lá. Era ele mesmo. Lia um jornal daqui de Alagoas no banco de uma praça. Conversei com ele, não volta porque tem vergonha. Nem o endereço quis dar.

Seu Rodrigues dormiu duas noites de olho aberto, vendo a cara envergonhada de seu menino fujão. Arrumou a mala, pegou o ônibus, tocou para o Rio. Desceu na rodoviária, aquele mundão de gente. Estava tonto e perdido. Viu um guarda:

– Seu guarda, o senhor sabe onde mora Tonico Rodrigues , de Penedo, lá em Alagoas?

– Sei, sim. Mora na rua Senador Pompeu, na mesma pensão em que eu moro.

– Me leva lá que Tonico deve estar sem dinheiro para pagar a pensão. Já faz uns dias que ele sumiu de Penedo.

E seu Rodrigues achou Tonico que sumira ainda ontem.

BERCELINO

Meu colega de “Diario Carioca”, o saudoso Bercelino Maia, velho lutador do Partido Comunista, quando editor da “Gazeta de Alagoas”, que fazia oposição à ditadura de Getulio, recebeu um dia na redação a visita da polícia:

– A partir de hoje o jornal só circula sem comentário político nenhum. Nem editorial. Só notícia. Qualquer comentário, fechamos o jornal.

Bercelino, com sua cara de Clark Gable, cabelos negros ondulados, bigode fino e óculos de vidro, e seu indefectível cigarro nos dedos, sentou-se para escrever o editorial, uma ode ao milho:

– “Ode ao Milho – O milho, quem dirá o contrário?, é uma gramínea originária da América do Sul, cuja planta é caracterizada como monóica”…

E milhou o editorial todo. O censor ficou abestalhado, desesperado, mas não podia fazer nada.

A IMPRENSA

Ruy Barbosa disse que “a imprensa é a vista da Nação”. Disse pouco. É mais. É a vista e a alma. Canta suas alegrias, chora suas dores e sangra suas desgraças. Ajuda seu Rodrigues de Penedo a encontrar seu Tonico fujão e permite ao valente e sábio Bercelino enfrentar a estúpida censura da ditadura com sua “gramínea monóica”.

Em 60 anos diários de jornalismo em jornais, revistas, rádios, televisões, sempre vi o fascínio do jornal semanal. Não é o diário solene do café da manhã mas também não é a revista fria e distante, de mês em mês.

O semanário é a guerrilha gráfica. Metade sala de aula metade campo de batalha. É peleja, combate permanente.

É um velho vicio. No Seminário da Bahia, aos 15 anos, fundei “O SACI”: clandestino, datilografado e desenhado. Furor.Os padres descobriram e proibiram na terceira edição

Na Universidade, em Minas, “A ONDA”. Impresso, desenhado, livre e libertário. Segundo o mestre Milton Campos, “um vagalhão”. Cada edição uma suspensão. Resistimos um ano. Mas ganhamos exames de catedráticos.

Em Salvador, “JORNAL DA SEMANA” – “Conta Sábado o Que os Outros Esconderam Durante a Semana”. Resistiu de 1960 a 1964. Duas prisões e um mandato de deputado.

Na ditadura, em São Paulo, “DIA 1”, por um grupo de baianos lá escondidos. Não chegou ao terceiro numero.

Ainda na ditadura, já no Rio, sob uma censura cruel, o “POLITIKA”, semanal, durou quatro anos. Prisões variadas.

O “EXTRA”

Esta é uma crônica de inveja para calorosamente saudar o Fernando Araujo e seus companheiros, que há 15 anos põem nas bancas, toda semana, o bravo “EXTRA”.

Uma batalha semanal. Mas sobretudo uma magnífica vitoria semanal. Dá trabalho, às vezes quase desanimo. Mas poucas coisas podem fazer um jornalista tão feliz quanto passar nas bancas e ver lá, sob o sol, seu jornal.

A banca é o palco do jornal. Cante, Fernando. Você merece os 15 anos do “EXTRA”. Daqui, uma champanhe.

zum, zum, zum, está faltando um

Sebastião Nery

Contei esta historia aqui em 25 de setembro do ano passado. Tarde de sábado do começo de 2003 no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganho as eleições presidenciais de 2002 contra José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo.

Como fazíamos quase todas as tardes de sextas e sábados, um grupo de jornalistas almoçávamos a um canto,conversando sobre política e o pais.

De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, e começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Deviam voltar logo.

LULA

Só um voltou e nos contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para Chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar é preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

DIRCEU

O primeiro a ser chamado foi o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB. Combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência. Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB.

Dirceu perguntou como iriam conseguir maioria no Congresso.

– Compra os pequenos partidos, disse Lula a Dirceu.Fica mais barato.

Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro da Justiça e Olívio Dutra das Cidades. O PMDB seria substituído pela compra dos “pequenos partidos” : PTB, PL, PP, etc. E assim nasceu o Mensalão.

PATRÃO

O advogado do ex-deputado Roberto Jefferson, o brilhante jurista Luiz Francisco Correa Barboza, disse ao “Globo”:

-“Não só Lula sabia do Mensalão como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora”.

No dia 12 de agosto de 2005, em um pronunciamento pela TV a todo o povo brasileiro, Lula pediu “desculpas pelo escândalo”.

Lula é um “cappo”. Os companheiros do partido e do governo na Papuda e ele, só ele, de fora. Logo ele que é o grande réu, “o réu”. Dirceu, Genoino, Delúbio, Valério, a malta toda, como disse o Procurador Geral da República, era uma “organização criminosa”, uma “quadrilha” chefiada pelo Dirceu. (Mas sob o comando do Chefão, Lula).

SUPREMO

Desde 2003, cada ano relembro essa historia. Lula começou dizendo que “não sabia de nada”. Depois, passou para : “Fui traído pelas costas”. E, finalmente, a tese oficial dele e do PT : – “O Mensalão foi uma farsa”.

E Lula arranjou ajudantes na desfaçatez para agredir o Supremo Tribunal. Delubio:- “O Mensalão é uma piada de salão”. Um gaúcho baixotinho, que veio não se sabe de onde e virou presidente da Câmara, Marco Maia, cuspiu no Supremo: “O Mensalão é uma falácia”.

Ele não sabe o que é falácia. Mas cadeia ele sabe. Quando for visitar na Papuda sua turma, Dirceu, Genoino, Delubio, Valério, ele vai aprender.

Quem tinha de estar na Van da frente era Lula, o Chefão. Como diz a marchinha do Paulo Soledade, Zum, Zum, Zum, na Papuda está faltando um.

Um baiano imortal

Sebastião Nery

Em maio de 1965, corridos do golpe militar de 1964, um grupo de políticos, jornalistas, líderes sindicais e estudantes baianos escondeu-se em São Paulo no apartamento pequenino e generoso do jovem repórter da “Folha de S. Paulo” Adílson Augusto, um santo de 20 anos, ali na Major Sertório, bem em cima do João Sebastião Bar, na boca da boca.

Não era bem um apartamento. Era um quarto de pensão com sala e banheiro, no sótão de velho casarão de três andares, as escadas gemendo e um boliche (depois “La Licorne”) fazendo barulho a noite inteira.

Era “A Mansarda”. Houve noites em que dormimos 12 pessoas, empilhadas pelos cantos. Uma vez, o Adilson chegou de madrugada e não podia entrar. Não havia onde pôr seu colchonete. Como teria feito São Francisco, dormiu sentado na escada para não acordar os “hóspedes”.

“A MANSARDA”

Éramos Mário Lima, deputado federal cassado e ex-presidente do Sindicato do Petróleo em Salvador; Hélio Duque, jornalista, professor, depois deputado federal do Paraná (PMDB); Domingos Leonelli, deputado federal da Bahia (PMDB), hoje secretario do Governo da Bahia ; Luís Gonzaga, presidente do MDB de Londrina; Carlos Capinan, o magnífico poeta e  compositor; Lamego, publicitário; eu, outros.

Quase todos já havíamos perdido o ano de 1964 nos quartéis de Salvador. Cada um, clandestino, lutava para livrar-se de mais um IPM e voltar à superfície. Enquanto a justiça e a liberdade não chegavam, usávamos nomes falsos, fazíamos biscates e comíamos coletivamente nos “sunabões” paulistas: um prato para três. E o tempo passando e as absolvições demorando e o medo do flagrante dando sustos diários.

O DELEGADO

Uma noite, era aniversário de Mário Lima, chegando de Fernando de Noronha. Fomos todos comemorar no “Pilão”, saudoso botequim no subsolo de uma galeria entre a 7 de Abril e a Itapetininga. Somadas, nossas “penas” passavam de 100 anos. E ainda havia os amigos: Antonio Torres romancista, Nelito Carvalho jornalista, Ubiratã Khun Pereira, Sr. Khun.

Chegamos discretos, pedimos batidas. Ao violão, em lugar da crooner de sempre, a loura e meiga Marilu, um senhor de voz poderosa, tenor de banheiro. Aplaudimos. Ele veio para nossa mesa, cantou tangos e boleros a noite inteira, recitou poemas, pagou a conta. Manhã cedo, fomos todos embora. No dia seguinte, vimos sua foto na primeira página da “Folha”. Era o delegado do DOPS.Se soubesse,teria feito um raspa baiano.

TORRES

A consagradora eleição do romancista Antonio Torres para a Academia Brasileira de Letras (34 votos entre 39) é uma festa baiana na alma de todos nós. Alguns o conhecemos desde seu primeiro começo. Em 1958, o “Jornal da Bahia” nascia, já lá estávamos Glauber Rocha, João Ubaldo, Muniz Sodré, eu, quando apareceu um magricela de 20 anos, discreto, sorridente, simpático e, logo logo saberíamos, ótimo caráter,

Vinha do Junco, tórrido sertão baiano, então distrito de Inhambupe, hoje Satiro Dias. Repórter de excelente texto, logo foi para São Paulo, onde em 65 o reencontramos na Agencia de Propaganda “Piratininga”, laborando de dia e à noite escrevendo. Quando percebia que alguns estávamos duros para o  almoço, levavanos para a “Churrascaria do Papai” ou o “Jandaia”, ali perto da “Folha”, e  escondido pagava a conta para não nos constranger. Na desgraça é que se conhecem as pessoas. E nem desgraça era. Só fome.

A OBRA

Em 1972 Torres estreou já com sucesso no primoroso romance “Um Cão Uivando para a Lua”. Deixou no seu lugar na agencia o Carlos Capinam e foi  para Portugal. De lá trouxe “Os Homens dos Pés Redondos” (1973). A partir daí, romances em cachoeira : “Essa Terra” (1976), sua obra prima, “Carta ao Bispo” (1979),  “Adeus Velho” (1981), “Balada da Infância Perdida” (1986), “Um Taxi para Viena d´Áustria” (1991), “O Cachorro e o Lobo” (1997),  “Meu Querido Canibal” (2000), “O Nobre Sequestrador” (2003). E outros, de contos e crônicas.

Lá de cima de sua colina, Senhor do Bonfim está batendo palmas.