A trinca da censura

Sebastião Nery

Em 1965, depois do golpe militar de 64 e de uma longa cadeia, escondido em São Paulo esperando meu julgamento pelo Tribunal Militar, com nome e documentos falsos e a policia atrás de mim, só falava com quem conhecia. Antonio Torres, o generoso romancista baiano agora na Academia, trabalhava na agência de propaganda “Piratininga” e me levou à “Magaldi Maia”, de João Carlos Magaldi e Carlito Maia.

De quando em vez eu ia lá para almoçar com eles. Uma manhã encontrei meus queridos amigos na maior dúvida e discussão. Iam lançar em São Paulo um novo programa de televisão com um jovem cantor do Espírito Santo, que tinha meia perna de ferro, quebrada por um trem. Magaldi achava que não deviam esconder a perna quebrada, um charme a mais. Carlito, com seu sorriso bom de Chaplin sem bengala, discordou:

– Sei que o Brasil gosta de maluquices. Também gosto. Mas um roqueiro com perna de ferro não. Vamos esconder essa perna dele. Ele não vai jogar futebol. Vai cantar. E não é com a perna, é com a boca.

E Roberto Carlos estourou com sua “Jovem Guarda”, de perna de ferro escondida. Nunca mostrou. E deu certo. Carlito tinha razão.

FIGUEIREDO

Pabla Alexandra, húngara paranaense da TVE, linda como seu lindo nome soando pseudônimo, na véspera do Natal de 1979 entrou em uma casa de discos ao lado do Cine Roxy, no Rio (Avenida Copacabana) :

– Me dá um long-play do Júlio Iglesias. Quanto é?

– Cr$ 260,00.

Nesse instante, chegou o presidente Figueiredo, com amigos:

– Me dá o último disco do Roberto Carlos. Quanto é?

– Ora, Presidente. Não vamos cobrar um disco do senhor.

Figueiredo pegou o disco, agradeceu, saiu, entrou numa importadora ao lado, escolheu um perfume francês. O dono não quis receber. Figueiredo constrangido insistiu. Não houve jeito de pagar, acabou levando. E Pabla na porta assistindo. O Presidente entrou no carro, ela voltou à casa de discos:

– Cobra ai os Cr$ 260,00 do disco do Júlio Iglesias.

– São Cr$ 265,00.

– Como Cr$ 265,00? Estive aqui há cinco minutos, mandei enrolar, o senhor me disse que eram Cr$ 260,00.

– Ah, minha filha, você não viu? O Presidente esteve aqui, tive que dar de presente um disco do Roberto Carlos, porque eu não ia cobrar dele.

– E eu com isso?

– E você acha que sou eu que vou pagar? Vou cobrar Cr$ 5,00 de cada disco que vender hoje, até completar o preço do presente. Volte amanhã que você já deve comprar de novo por Cr$ 260,00.

Pabla pagou os Cr$ 5,00 da cestinha de Natal de Figueiredo.

ROBERTO CARLOS

Todo brasileiro acaba pagando o preço da glória de seus presidentes ou de seus ídolos. E se você for contar nos dedos das mãos os ídolos nacionais (Tiradentes, Getulio, Juscelino, Pelé), não vai poder deixar de incluir a trinca Roberto Carlos, João Gilberto, Gilberto Gil.

Por isso espanta e dói ver essa trinca, que podia e devia ser a trinca do bem, transformar-se em trinca do mal, a trinca da censura. Estão agora mais disfarçados, envergonhados, mas sempre gulosos e insaciáveis. Continuam cercando o Congresso Nacional, tentando garantir em lei a censura às biografias, seja em livros, filmes, televisões, revistas, jornais.

Ainda bem que na semana passada o STJ (Superior Tribunal de Justiça) derrotou uma ação de João Gilberto, que tentava tirar das livrarias, confiscar, queimar uma singela biografia dele.

NALINI

A consagradora eleição do desembargador Renato Nalini, presidente da Academia de Letras de São Paulo, para a presidência do Tribunal de Justiça no primeiro turno, com 238 votos contra 76 e 21 do segundo e terceiro colocados, é uma vitoria da Justiça, do Direito e da Cultura.

Mas não só. Foi também mais uma marca da força da presença italiana em São Paulo através de gerações. O presidente anterior era Ivan Sartori. O eleito é Renato Nalini. O vice presidente eleito é Eros Piceli. O segundo mais votado foi Paulo Mascaretti. O terceiro João Carlos Saletti.

Não é um Tribunal. É um Vaticano.

As espertezas do Getulinho

Sebastião Nery

Pedro Calmon, candidato a governador da Bahia, pelo PSD, em 1954, contra Antonio Balbino do PTB, foi a Getúlio:

– Presidente, tenho procurado apaziguar os espíritos pela conciliação.

– Quais são as suas relações com o Balbino?

– Pessoalmente boas, presidente. Adversários que se respeitam.

– E com o Juracy?

– Inimigos políticos que também se respeitam.

– Você, Calmon, está completamente errado. Você deve atacar imediatamente o Balbino e até o Juracy, que o apoia. Não tenha complacência. Ataque de rijo. Se não, eles devoram você.

– Mas, presidente, atacar assim não é de meu feitio.

– Como não é do seu feitio? Olhe, Calmon, essa história de jamais brigar com ninguém é só comigo. Deixe isso para mim.

Calmon brigou, perdeu feio. Getúlio apoiava Balbino.

DILMA

Lula pensa que é um “Getulinho”. Põe o PT a brigar com todos os partidos aliados que têm candidatos, Estado a Estado, esperando que no fim todos apoiarão Dilma sem Dilma precisar apoiar ou brigar com ninguém.

Rio, Rio Grande do Sul, Minas, Espírito Santo, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Maranhão, Brasília, tantos outros, de Norte a Sul, estão enfiados numa zorra só. E Lula e Dilma pondo-os dentro da rinha para brigarem entre si, imaginando que todos, afinal, ficarão só com ela.

Como o Tribunal Superior Eleitoral é uma dependência de serviço do Palácio do Planalto, a Presidente ilegalmente instalou seu Comitê Eleitoral no palácio da Alvorada e na Granja do Torto. Em almoços e jantares faz ali suas semanais pajelanças eleitorais.Na cara do Tribunal Superior Eleitoral.

EIKE

“Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado”. Quem deu esse atestado de competência foi a presidente Dilma Rousseff, em 27 de abril de 2012, quando do início da exploração de petróleo pela OGX. Logo suas ações se valorizaram. Hoje está em recuperação judicial, na maior falência de uma empresa latino americana em todos os tempos. E o desastre só não é maior porque a Petrobrás, pelo seu competente corpo técnico, recusou-se a fazer parceria com a OGX, como era desejo do governo.

O mestre Carlos Lessa alertou: – “O grupo Eike Batista foi criado por uma bolha especulativa de dimensões colossais.”

Agora a conta chegou e é salgada. Será paga pelo contribuinte.

PETRÓLEO

A Agencia Internacional de Petróleo, a Nacional e Petrobras atestam a posição dos principais países em “reservas” e “produção” de petróleo.

1 – “Reservas provadas” de petróleo por país:

Venezuela – 297,6 bilhões de barris

Arábia Saudita – 275,900 bilhões de barris

Canadá – 173,900 bilhões de barris

Irã – 157 bilhões de barris

Iraque – 151 bilhões de barris

Kwait – 101,5 bilhões de barris

Emirados Árabes – 97,800 bilhões de barris

Rússia – 87,200 bilhões de barris

Estados Unidos – 35 bilhões de barris

China – 17,3 bilhões de barris

Brasil – 15,3 bilhões de barris

PRODUÇÃO

2 – “Produção” por país em milhões de barris:

Arábia Saudita – 11,5 milhões de barris

Rússia – 10,6 milhões de barris

Estados Unidos – 8,9 milhões de barris

China – 6,2 milhões de barris.

Canadá – 3,7 milhões de barris

Irã – 3,7 milhões de barris

México – 2,9 milhões de barris

Venezuela – 2,7 milhões de barris

Brasil – 2,1 milhões de barris.

VENEZUELA

O pais que tem a maior “reserva” mundial de petróleo, a Venezuela, é o penúltimo em “produção”. O Brasil, que é o ultimo em “reserva”, também é o ultimo em “produção”. O que a Venezuela faz há muitos e muitos governos, desde antes do Chavez, é um crime contra seu povo.

O bunker de los canallas

Sebastião Nery

– Na velha Lapa do Rio, o poeta Manuel Bandeira só via o beco :

– “O que eu vejo é o beco”.

Em Santiago, no Chile, há um beco histórico, de nome estranho :

– “El Rincon de los Canallas”.

Numa rua pobre, ao lado do palácio La Moneda, em um beco meio escuro, embaixo de um velho edifício enegrecido, coberto de grafites pelas paredes, há uma escondida campainha ao lado de uma porta suja. Para entrar, você tinha que tocar a campainha e saber a senha. Lá de dentro perguntavam:

– “Quien vive, canalla”?

– “Chile libre, canalla!”.

 RESISTÊNCIA

Foi um bunker de resistência à ditadura. O toque de recolher não deixava ninguém na rua, à noite. O boêmio Victor Painemal pôs ali, no começo, uma mesa e sete cadeiras. E ia recebendo os amigos para beber, comer e falar mal dos militares. Um dia, a policia chegou e levou todo mundo.

Eram sobretudo jornalistas. Eles insistiam. A policia voltava e 68 vezes prendeu “canallas”. À medida que a ditadura se enfraquecia, os “canallas” se multiplicavam. E iam dando aos pratos nomes políticos : – “Vietnamita” (pernil em homenagem a uma bomba jogada contra um tanque militar), “Atentado” (para o frustrado atentado ao general Pinochet), “Punta Peuco” (uma prisão), “Vitalício” (quando Pinochet se tornou senador vitalício).

Ainda lá estão fotos de desaparecidos, poemas, canções e manifestos e muitas frases nas paredes, dentro e fora: -“É perigoso saber, irmão”. – “O que você disse ontem continue dizendo amanhã”. – “Amanhã é tarde demais” – “Agora, ninguém é culpado”. – “A verdade tem sua hora”. – “Só tenha medo de não avançar”. – “O amanhã será dos livres. Ninguém será esquecido”.

PINOCHET

Em novembro de 2005, voltei lá para as eleições presidenciais que elegeram a socialista Michele Bachelet. Por mais que o pais fizesse força para enterrar o passado, esquecer, a historia é implacável. A toda hora ela se levanta e grita. A cada noite chegavam velhas e novas historias no “Canallas”.

1 – Em 1991, o bispo Sergio Valech, “El Vicário de la Solidariedad”, descobriu e denunciou 108 túmulos, com 126 desaparecidos, no Cemitério Geral de Santiago. A então ministra da Justiça, Soledad Alvear, mandou o Instituto Medico Legal identificar os corpos para enterrarem. Os exames de DNA descobriram que estava tudo errado. O IML “misturou” tudo e as famílias enterraram os mortos dos outros pensando que eram os seus.

2. – Em 7 de setembro de 1986, houve um atentado contra o ditador Pinochet. Ele se livrou, mas morreram cinco oficiais de sua guarda pessoal. O chefe do batalhão, coronel Juan Mac Lean Vergara, ficou ferido.

3. – O Senado dos Estados Unidos divulgou a lista de oito militares chilenos, da confiança e guarda pessoal do general Pinochet, cujas contas nos Estados Unidos Pinochet e a mulher usaram para transferir milhões roubados do Chile. E o principal era exatamente o coronel-chefe Juan Mc Lean Vergara.

4. – Em longa entrevista aos jornais, o coronel Vergara disse que o dinheiro não era dele, que nunca falsificou a assinatura da mulher de Pinochet e que o general usou indevidamente sua conta para mandar dinheiro para fora, inclusive um cheque falsificado de US$87 mil, que não foi por ele assinado.

Façamos justiça aos generais-presidentes brasileiros. Nenhum foi assim.

BACHELET

Domingo passado, novas eleições presidenciais e parlamentares no Chile. “O Globo” fraudou asquerosamente a publicação dos resultados :

– “Bancada no Congresso é Obstáculo Para Bachelet – Favorita no 2º turno no Chile, esquerdista não garantiu maioria para, se eleita, reformar Constituição – Sem Maioria, Bachelet Já Busca Alianças no Congresso do Chile – Esquerdista precisará de independentes para reformar Constituição”.

Para “O Globo”, Bachelet perdeu as eleições. A “Folha” desmentiu:

1- “Centro-Esquerda Amplia Maioria na Câmara e no Senado Chilenos –

Os socialistas são os grandes vencedores nas eleições legislativas do Chile. – A coalizão da ex-presidente e candidata Michelle Bachelet ganhou 11 cadeiras na Câmara e uma no Senado, passando de 20 para 21 senadores”.

2. – “Na próxima legislatura, os socialistas terão na Câmara 68 deputados, contra 48 da aliança do presidente Sebastián Pinera, que perdeu 7 assentos na Câmara e manteve seus 16 senadores”.

3. – “Direita Sofre Derrota nas Eleições do Chile – Bloco de centro -esquerda de Bachelet amplia maioria na Câmara e no Senado no pleito de domingo – Políticos direitistas não souberam lidar com o tema da desigualdade social, muito explorado na campanha opositora”.

Há o bom “Rincon de los Canallas” e a má Imprensa “de los canallas”.

A gramínea monóica

Sebastião Nery

Seu Rodrigues era chefe político de Penedo. Coronel dos de antigamente: bom sujeito, boa prosa, bom garfo. E tinha Tonico, menino levado que passava o dia jogando sinuca no bar da praça ou mergulhando nas águas turvas do São Francisco. Mas era seu orgulho.

Um dia, Tonico virou a cabeça e sumiu com uma trapezista do Circo Garcia. Seu Rodrigues quase morre de desgosto. Não saía, não jogava mais biriba com os amigos. Triste e amuado dentro de casa como um boi velho.

Três anos depois, seu Rodrigues recebeu a notícia de um jornal de Goiás: Tonico tinha morrido em um desastre na estrada. Entrou no quarto, passou um dia e uma noite chorando o resto de mágoa e deixou a saudade pra lá.

O CORONEL

O tempo passou, Tonico não era mais assunto de Penedo. O velho coronel de quando em vez ia buscar atrás da cômoda o retrato do menino ingrato, que ganhara o vão do mundo com a trapezista loura de pernas grossas e recebera seu castigo na curva da estrada.

De repente, chega do Rio um amigo:

– Vi o Tonico lá. Era ele mesmo. Lia um jornal daqui de Alagoas no banco de uma praça. Conversei com ele, não volta porque tem vergonha. Nem o endereço quis dar.

Seu Rodrigues dormiu duas noites de olho aberto, vendo a cara envergonhada de seu menino fujão. Arrumou a mala, pegou o ônibus, tocou para o Rio. Desceu na rodoviária, aquele mundão de gente. Estava tonto e perdido. Viu um guarda:

– Seu guarda, o senhor sabe onde mora Tonico Rodrigues , de Penedo, lá em Alagoas?

– Sei, sim. Mora na rua Senador Pompeu, na mesma pensão em que eu moro.

– Me leva lá que Tonico deve estar sem dinheiro para pagar a pensão. Já faz uns dias que ele sumiu de Penedo.

E seu Rodrigues achou Tonico que sumira ainda ontem.

BERCELINO

Meu colega de “Diario Carioca”, o saudoso Bercelino Maia, velho lutador do Partido Comunista, quando editor da “Gazeta de Alagoas”, que fazia oposição à ditadura de Getulio, recebeu um dia na redação a visita da polícia:

– A partir de hoje o jornal só circula sem comentário político nenhum. Nem editorial. Só notícia. Qualquer comentário, fechamos o jornal.

Bercelino, com sua cara de Clark Gable, cabelos negros ondulados, bigode fino e óculos de vidro, e seu indefectível cigarro nos dedos, sentou-se para escrever o editorial, uma ode ao milho:

– “Ode ao Milho – O milho, quem dirá o contrário?, é uma gramínea originária da América do Sul, cuja planta é caracterizada como monóica”…

E milhou o editorial todo. O censor ficou abestalhado, desesperado, mas não podia fazer nada.

A IMPRENSA

Ruy Barbosa disse que “a imprensa é a vista da Nação”. Disse pouco. É mais. É a vista e a alma. Canta suas alegrias, chora suas dores e sangra suas desgraças. Ajuda seu Rodrigues de Penedo a encontrar seu Tonico fujão e permite ao valente e sábio Bercelino enfrentar a estúpida censura da ditadura com sua “gramínea monóica”.

Em 60 anos diários de jornalismo em jornais, revistas, rádios, televisões, sempre vi o fascínio do jornal semanal. Não é o diário solene do café da manhã mas também não é a revista fria e distante, de mês em mês.

O semanário é a guerrilha gráfica. Metade sala de aula metade campo de batalha. É peleja, combate permanente.

É um velho vicio. No Seminário da Bahia, aos 15 anos, fundei “O SACI”: clandestino, datilografado e desenhado. Furor.Os padres descobriram e proibiram na terceira edição

Na Universidade, em Minas, “A ONDA”. Impresso, desenhado, livre e libertário. Segundo o mestre Milton Campos, “um vagalhão”. Cada edição uma suspensão. Resistimos um ano. Mas ganhamos exames de catedráticos.

Em Salvador, “JORNAL DA SEMANA” – “Conta Sábado o Que os Outros Esconderam Durante a Semana”. Resistiu de 1960 a 1964. Duas prisões e um mandato de deputado.

Na ditadura, em São Paulo, “DIA 1”, por um grupo de baianos lá escondidos. Não chegou ao terceiro numero.

Ainda na ditadura, já no Rio, sob uma censura cruel, o “POLITIKA”, semanal, durou quatro anos. Prisões variadas.

O “EXTRA”

Esta é uma crônica de inveja para calorosamente saudar o Fernando Araujo e seus companheiros, que há 15 anos põem nas bancas, toda semana, o bravo “EXTRA”.

Uma batalha semanal. Mas sobretudo uma magnífica vitoria semanal. Dá trabalho, às vezes quase desanimo. Mas poucas coisas podem fazer um jornalista tão feliz quanto passar nas bancas e ver lá, sob o sol, seu jornal.

A banca é o palco do jornal. Cante, Fernando. Você merece os 15 anos do “EXTRA”. Daqui, uma champanhe.

zum, zum, zum, está faltando um

Sebastião Nery

Contei esta historia aqui em 25 de setembro do ano passado. Tarde de sábado do começo de 2003 no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganho as eleições presidenciais de 2002 contra José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo.

Como fazíamos quase todas as tardes de sextas e sábados, um grupo de jornalistas almoçávamos a um canto,conversando sobre política e o pais.

De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, e começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Deviam voltar logo.

LULA

Só um voltou e nos contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para Chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar é preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

DIRCEU

O primeiro a ser chamado foi o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB. Combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência. Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB.

Dirceu perguntou como iriam conseguir maioria no Congresso.

– Compra os pequenos partidos, disse Lula a Dirceu.Fica mais barato.

Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro da Justiça e Olívio Dutra das Cidades. O PMDB seria substituído pela compra dos “pequenos partidos” : PTB, PL, PP, etc. E assim nasceu o Mensalão.

PATRÃO

O advogado do ex-deputado Roberto Jefferson, o brilhante jurista Luiz Francisco Correa Barboza, disse ao “Globo”:

-“Não só Lula sabia do Mensalão como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora”.

No dia 12 de agosto de 2005, em um pronunciamento pela TV a todo o povo brasileiro, Lula pediu “desculpas pelo escândalo”.

Lula é um “cappo”. Os companheiros do partido e do governo na Papuda e ele, só ele, de fora. Logo ele que é o grande réu, “o réu”. Dirceu, Genoino, Delúbio, Valério, a malta toda, como disse o Procurador Geral da República, era uma “organização criminosa”, uma “quadrilha” chefiada pelo Dirceu. (Mas sob o comando do Chefão, Lula).

SUPREMO

Desde 2003, cada ano relembro essa historia. Lula começou dizendo que “não sabia de nada”. Depois, passou para : “Fui traído pelas costas”. E, finalmente, a tese oficial dele e do PT : – “O Mensalão foi uma farsa”.

E Lula arranjou ajudantes na desfaçatez para agredir o Supremo Tribunal. Delubio:- “O Mensalão é uma piada de salão”. Um gaúcho baixotinho, que veio não se sabe de onde e virou presidente da Câmara, Marco Maia, cuspiu no Supremo: “O Mensalão é uma falácia”.

Ele não sabe o que é falácia. Mas cadeia ele sabe. Quando for visitar na Papuda sua turma, Dirceu, Genoino, Delubio, Valério, ele vai aprender.

Quem tinha de estar na Van da frente era Lula, o Chefão. Como diz a marchinha do Paulo Soledade, Zum, Zum, Zum, na Papuda está faltando um.

Um baiano imortal

Sebastião Nery

Em maio de 1965, corridos do golpe militar de 1964, um grupo de políticos, jornalistas, líderes sindicais e estudantes baianos escondeu-se em São Paulo no apartamento pequenino e generoso do jovem repórter da “Folha de S. Paulo” Adílson Augusto, um santo de 20 anos, ali na Major Sertório, bem em cima do João Sebastião Bar, na boca da boca.

Não era bem um apartamento. Era um quarto de pensão com sala e banheiro, no sótão de velho casarão de três andares, as escadas gemendo e um boliche (depois “La Licorne”) fazendo barulho a noite inteira.

Era “A Mansarda”. Houve noites em que dormimos 12 pessoas, empilhadas pelos cantos. Uma vez, o Adilson chegou de madrugada e não podia entrar. Não havia onde pôr seu colchonete. Como teria feito São Francisco, dormiu sentado na escada para não acordar os “hóspedes”.

“A MANSARDA”

Éramos Mário Lima, deputado federal cassado e ex-presidente do Sindicato do Petróleo em Salvador; Hélio Duque, jornalista, professor, depois deputado federal do Paraná (PMDB); Domingos Leonelli, deputado federal da Bahia (PMDB), hoje secretario do Governo da Bahia ; Luís Gonzaga, presidente do MDB de Londrina; Carlos Capinan, o magnífico poeta e  compositor; Lamego, publicitário; eu, outros.

Quase todos já havíamos perdido o ano de 1964 nos quartéis de Salvador. Cada um, clandestino, lutava para livrar-se de mais um IPM e voltar à superfície. Enquanto a justiça e a liberdade não chegavam, usávamos nomes falsos, fazíamos biscates e comíamos coletivamente nos “sunabões” paulistas: um prato para três. E o tempo passando e as absolvições demorando e o medo do flagrante dando sustos diários.

O DELEGADO

Uma noite, era aniversário de Mário Lima, chegando de Fernando de Noronha. Fomos todos comemorar no “Pilão”, saudoso botequim no subsolo de uma galeria entre a 7 de Abril e a Itapetininga. Somadas, nossas “penas” passavam de 100 anos. E ainda havia os amigos: Antonio Torres romancista, Nelito Carvalho jornalista, Ubiratã Khun Pereira, Sr. Khun.

Chegamos discretos, pedimos batidas. Ao violão, em lugar da crooner de sempre, a loura e meiga Marilu, um senhor de voz poderosa, tenor de banheiro. Aplaudimos. Ele veio para nossa mesa, cantou tangos e boleros a noite inteira, recitou poemas, pagou a conta. Manhã cedo, fomos todos embora. No dia seguinte, vimos sua foto na primeira página da “Folha”. Era o delegado do DOPS.Se soubesse,teria feito um raspa baiano.

TORRES

A consagradora eleição do romancista Antonio Torres para a Academia Brasileira de Letras (34 votos entre 39) é uma festa baiana na alma de todos nós. Alguns o conhecemos desde seu primeiro começo. Em 1958, o “Jornal da Bahia” nascia, já lá estávamos Glauber Rocha, João Ubaldo, Muniz Sodré, eu, quando apareceu um magricela de 20 anos, discreto, sorridente, simpático e, logo logo saberíamos, ótimo caráter,

Vinha do Junco, tórrido sertão baiano, então distrito de Inhambupe, hoje Satiro Dias. Repórter de excelente texto, logo foi para São Paulo, onde em 65 o reencontramos na Agencia de Propaganda “Piratininga”, laborando de dia e à noite escrevendo. Quando percebia que alguns estávamos duros para o  almoço, levavanos para a “Churrascaria do Papai” ou o “Jandaia”, ali perto da “Folha”, e  escondido pagava a conta para não nos constranger. Na desgraça é que se conhecem as pessoas. E nem desgraça era. Só fome.

A OBRA

Em 1972 Torres estreou já com sucesso no primoroso romance “Um Cão Uivando para a Lua”. Deixou no seu lugar na agencia o Carlos Capinam e foi  para Portugal. De lá trouxe “Os Homens dos Pés Redondos” (1973). A partir daí, romances em cachoeira : “Essa Terra” (1976), sua obra prima, “Carta ao Bispo” (1979),  “Adeus Velho” (1981), “Balada da Infância Perdida” (1986), “Um Taxi para Viena d´Áustria” (1991), “O Cachorro e o Lobo” (1997),  “Meu Querido Canibal” (2000), “O Nobre Sequestrador” (2003). E outros, de contos e crônicas.

Lá de cima de sua colina, Senhor do Bonfim está batendo palmas.