Um poema bem-humorado, de Millôr Fernandes para o amigo Mário Lago

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Poemas & Canções

O desenhista, humorista, dramaturgo, tradutor, escritor, jornalista e poeta carioca Milton Viola Fernandes (1923-2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, revela a “Predestinação” que poetizou para Mário Lago.

PREDESTINAÇÃO
Millôr Fernandes

Tinha no nome seu destino líquido: mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.

Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.

Seu provérbio predileto: “Quem tem capa, escapa”.
Sua piada favorita:
“Ser como o rio: seguir o curso sem deixar o leito”.
Pois estudava: engenharia hidráulica.

Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando
já estava na bica para se formar.

Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.

Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva

Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.

Rim flutuante.
Água no joelho.
Bolha d’água.
Morreu afogado.

Na visão de Menotti Del Picchia, a poesia é ouro em qualquer estilo

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Menotti era um intelectual e artista multimídia

Paulo Peres
Poemas & Canções

 O jornalista, tabelião, advogado, político, romancista, cronista, pintor, ensaísta e poeta paulista Paulo Menotti Del Picchia (1892-1988), nos versos de “Poesia é Ouro”, explica que não importa o estilo do poema, mas o seu inatingível substrato.

POESIA É OURO
Menotti Del Picchia

Onde está a poesia?
Na imaginação do garimpeiro
ainda oculta na pepita lasca de luz
na quina da pedra bruta.
Ouro é ouro
mineral na terra, puro. Fundido
não degradado no amálgama embora sofisticado
em molde e moda
no brinco barroco na cintilação do dente
no céu de esmalte de uma boca jovem
concha aberta num sorriso.

Poesia é ouro
carregada de história no cunho da moeda antiga
mística na âmbula, sagrada no romance
do anel nupcial amor alegria sofrimento vida.

Não importa forma ou fôrma não importa o lugar
não importa
se jovem é o ourives ou velho o garimpeiro.

O que vale é a incontaminada essência.

Ser pastor de carneirinhos é um sonho que todos podem acalentar

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Xangai fez uma bela parceria com Hélio Contreiras

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, violeiro e compositor baiano Eugênio Avelino, conhecido pelo apelido Xangai, devido à Sorveteria Xangai, que era propriedade de seu pai, e seu parceiro, o jornalista, músico e cantor Hélio Contreiras, musicaram um belo poema de Cecilia Meireles, mostrando simbolicamente que, no fundo, todos nós queremos ser pastores e também músicos.  A música foi gravada por Xangai no LP Qué Qui Tu Tem Canário, em 1981, pela Kuarup.

CARNEIRINHOS
Cecilia Meirelles, Hélio Contreiras e Xangai

Todos querem ser pastores
quando encontram,
de manhã, os carneirinhos
enroladinhos,
como carretéis de lã.

Todos querem ser pastores,
e ter coroas de flores,
e um cajadinho na mão,
e tocar uma flautinha,
e soprar numa palhinha,
qualquer canção.

Todos querem ser cantores,
quando a estrela da manhã,
brilha só, no céu sombrio,
e pela margem do rio,
vão descendo os carneirinhos,
como carretéis de lã.    

“Quem for louco ou for poeta pode entrar, seja bem vindo…”

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Walter Queiroz e seu astral sempre reluzente

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, publicitário, cantor e compositor baiano Walter Pinheiro de Queiroz Júnior usa várias figuras de linguagem, tornando mais bonito o conteúdo poético da letra de “Pode Entrar”, na qual ele fala da sua casa. Walter Queiroz gravou a música “Pode Entrar” no LP “Filho do Povo”, em 1975, pela Phonogram.

PODE ENTRAR
Walter Queiroz

A casa escancarada a lua ali
Meu cachorro nunca morde
Meu quintal tem sapoti
tem um roseiral crescendo lindo
Quem for louco ou for poeta
Pode entrar seja bem vindo

Aqui passa o bonde da Lapinha
Passa a filha da rainha
Passa um disco voador
As vezes ele gira para e pisca
Como quem quase se arrisca
A parar pra conversar

Mas não me sinto só tenho um vizinho
Que é um bêbado velhinho
Que acredita no destino
Ele mora em cima do arvoredo
Ele tem muitos brinquedos
Ele sempre foi menino

Agora se vocês me dão licença
Eu vou ver um passarinho
Que me chama no quintal
Depois vou me deitar para sonhar
E dançar com a cigana
Que eu perdi no carnaval

Como dizia poeticamente Cecília Meireles, é certo que a primavera chega hoje

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Site Poemas & Canções

A poeta, professora, pintora e jornalista carioca Cecília Meireles (1901-1964), tem na sua poesia uma das mais puras, líricas, bucólicas, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea. A Primavera, que se inicia hoje no Brasil, neste poema em forma de prosa, é descrita numa linguagem “onipotente”, imune a quaisquer condições que impeçam a sua chegada, ainda que efêmera, e implanta seus principais dogmas, que fazem uma festa na natureza.

PRIMAVERA
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Moradores de rua, a tragédia social que as autoridades fingem não ver

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O cenário se repete nas grandes cidades brasileiras

Paulo Peres
Poemas & Canções

A assistente social do Tribunal de Justiça do Rio de Jameiro, letrista e poeta Márcia Figueiredo Barroso, nascida em São Gonçalo (RJ), no poema “Fantasma Negro”, retrata o cotidiano caótico dos moradores de rua, vítimas do desajuste social.

FANTASMA NEGRO
Márcia Barroso

A cara do sofrimento
Dorme ao relento
Nas ruas vazias
Vadias,
Repletas de nada
Nos Reflexos das luzes
Escuras…
Corpos que se agasalham
Nos trapos
Farrapos deixados pelos caminhos
Sujos
Abandonados
Invisíveis
Sofrem calados
Porque o choro silenciou
Na garganta seca
E o medo de tão intenso
Esqueceu de assustar…
A cara da fome
Mama nas tetas flácidas
Recostadas nas calçadas
Com as mãos abertas
Pedintes
Famintas
A barriga não ronca
Ela ruge
Exige
Mas não tem resposta
E troca
O pedaço de pão
Pela ilusão
Do crack
Ou qualquer outra droga
Que possa saciar
O desejo de se alimentar
De vida
De alívio
Da fome que nada sacia
E a barriga segue vazia
E qualquer farelo não basta
Pois o desejo de pão é ancestral
Animal
E pede, pede
Mas ninguém dá.
Então exige, ataca
E não acata,
Porque precisa saciar
Uma fome que não mata
Porque desacata
A ordem de seguir vivendo
Como um fantasma negro
Zumbi
Que mostra a existência nula,
Chula,
Inútil e resistente
Vivente…
A cara da solidão
Se esconde amedrontada
Teme ser reconhecida
Por quem a abandonou.
Cresceu só
E aprendeu que não tem par
Vive
Porque insiste
Suporta
Mas não sabe ser sozinho
E busca alguém para abraçar
Acalentar
Amar
E faz um filho
Para preencher o vazio
Desta inexistência
Viva
De não ser ninguém.

Entenda como deveria ter sido o último poema de Manuel Bandeira

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Site Poemas & Canções

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968) quando jovem teve tuberculose  e, consequentemente, passou a vida inteira com a ideia de que morreria em breve, mas viveu até seus 82 anos, razão pela qual “O Último Poema” e muitos poemas de sua autoria carregam a melancolia e a sensação de sempre estar à espera do pior.

Vale ressaltar que versos curtos, pensamento objetivo, liberdade no uso das palavras, simplicidade na escrita, ironia e a crítica são características do modernismo que aparecem no poema, que também nos mostra a realidade em “flores sem perfume”, “soluço sem lágrimas” e o improvável quando fala sobre “ilusão”.

Além disso, o título do poema nos indica como Manoel Bandeira gostaria de ser lembrado, conforme revela o último verso todo seu pensamento. Mas também, ao citar a paixão dos suicidas, ele nos conta sobre a falta de sentido, sobre o paradoxo que é nosso caminho pela vida. Sobre ilusão e desilusão.

O ÚLTIMO POEMA
Manoel Bandeira

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Um romance amazônico, com os amantes virando terra, mato, galho e flor

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Vital Lima e Nilson Chaves, uma dupla da pesada

Paulo Peres
Poemas & Canções

O filósofo, instrumentista, cantor e compositor paraense Euclides Vital Porto Lima, na letra de “Flor do Destino”, em parceria com Nilson Chaves, invocou fenômenos da natureza para descrever sua noite de amor. Essa música foi lançada no LP Interior, em 1986, pela Visom.

FLOR DO DESTINO
Nilson Chaves e Vital Lima

Te amei assim como água de chuva
que vai penetrando pra dentro do mundo
Te bebi assim como poço de rua
que eu olhava dentro mas não via o fundo

Tu me deste um sonho
eu te trouxe um gosto de tucumã
tu me deste um beijo
e a gente se amou até de manhã.

Veio o sol batendo e nos despertou
da gente virando terra, mato, galho e flor.
Água de riacho é clara e limpinha
mas as vezes turva com a chuva violenta.
Teu amor é um papagaio que xina
dentro do silêncio da tarde cinzenta

E o amor é um rio, profundo rio
de muitos sinais.
onde os barcos passam
conforme o vento deseja e faz

Ai, que ainda me lembro
disso que ficou:
da gente virando terra, mato, galho e flor

O privilégio de ser uma pedra, na criação poética de Manoel de Barros

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Poemas & Canções


O advogado e poeta mato-grossense Manoel Wenceslau Leite de Barros, no poema “A Pedra”, revela como é possível se inspirar em qualquer parte da natureza, inclusive numa pedra.

A PEDRA
Manoel de Barros

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a – Eu irrito o silêncio dos insetos.
b – Sou batido de luar nas solitudes.
c – Tomo banho de orvalho de manhã.
d – E o sol me cumprimenta por primeiro.

Um poema realista de Malú Mourão, inspirado nas favelas do Rio

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Malú, inspirada numa dura realidade  

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, no poema “Olhando da Janela”, confessa que guardará no coração a imagem triste das favelas.

OLHANDO DA JANELA
Malú Mourão


Do alto da montanha se ostenta,
De um povo, a marca de uma vida,
Que na verdade em nada lhe contenta,
O vil poder que a muitos intimida.


Vejo a favela assim imperiosa,
Onde esconde sutil a incerteza,
De uma vivência às vezes duvidosa,
Que do morro faz parte da beleza.

Mas naquela hipotética comunidade,
Existem os sonhos e as decepções,
Que se misturam a cada realidade,
Mesclando de anseios as emoções.

Ali surgem incógnitas impetuosas,
Onde a vida arquitetada na carência,
Entrega-se confusa às teias laboriosas,
Do escárnio prepotente da violência.

E no compasso da eterna esperança,
A comunidade no seu pensar latente,
Deseja ter um viver de bonança
Onde a paz ilumine cada vivente.

Moradores da Rocinha, Sereno ou Fé,
Quitungo ou Complexo do Alemão,
Corôa , Caixa D’água ou Guaporé!…
Guardarei esta imagem no coração.
 

A manhã grandiosa antevista pelo poeta João Cabral de Mello Neto

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Poemas & Canções

O diplomata e poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) utilizou em sua obra poética desde a tendência surrealista até a poesia popular, porém caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurando, assim, uma nova forma de fazer poesia no Brasil. O poema “Tecendo a Manhã” significa o sonho do poeta com um futuro construído por todos, livremente, para todos, isento de “armações”, maracutaias e intrigas. Um mundo verdadeiramente socialista?

TECENDO A MANHÃ
João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão

A rosa radioativa de Hiroshima, na visão poética de Vinicius de Moraes

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Poemas & Canções

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta Vinícius de Moraes (1913-1980), no poema “Rosa de Hiroshima”, chama à atenção para a barbárie da guerra, sem esquecer as consequências da estupidez (da rosa radioativa) que mata. A mensagem é direta a fim alertar e despertar consciências para a liberdade do desejo de viver. Rosa de Hiroshima foi musicada por Gerson Conrad e gravada no primeiro e antológico LP que leva o nome do Secos & Molhados, em 1973, pela Continental.

ROSA DE HIROSHIMA
Vinícius de Moraes

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas

Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas

Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária

A rosa radioativa
Estúpida e inválida

A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Na criação de “O Ébrio”, o romantismo exacerbado de Vicente Celestino

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Vicente Celestino interpretando “O Ébrio”, seu papel principal

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor (tenor), ator e compositor carioca Antônio Vicente Felipe Celestino (1894-1968) lançou um estilo caracterizado pelo romantismo exarcebado, comovendo e arrebatando um grande público durante a primeira metade do século XX, através do teatro, do rádio, de discos e do cinema nacional.

A letra dramática da música “O Ébrio”, repleta de desventuras e imagens beirando a pieguice, era uma perfeita sinopse para o enredo de um filme, desde o prólogo falado à parte musical propriamente dita. Nesta, o contraste da primeira parte, no modo menor, com a segunda, no modo maior, contribui para ressaltar a tragédia do protagonista. “O Ébrio”, lançado em 1946, com Vicente Celestino no papel principal, obteve recordes de bilheteria.

A canção “O Ébrio” gravada por Vicente Celestino, em 1936, pela RCA Victor, também inspirou naquele ano uma peça de teatro e, em 1965, uma novela na TV Paulista.

O ÉBRIO
Vicente Celestino

Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita… E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio…

Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo
Cada colega de infortúnio é um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam os meus tormentos
Já fui feliz e recebido com nobreza até
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha fé
E nos parentes… confiava, sim!
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então
O falso lar que amava e que a chorar deixei
Cada parente, cada amigo, era um ladrão
Me abandonaram e roubaram o que amei
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração
Quero somente que na campa em que eu repousar
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo

Jorge de Lima, um poeta que retratava também as cenas nas ruas

Jorge de Lima foi poeta e pintor

Paulo Peres

Poemas & Canções
O alagoano Jorge Mateus de Lima (1893-1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor. Neste poema ele usa a figura do acendedor de lampião para marcar a desigualdade social.

 

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à Lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

Vasco Debritto, compositor paulista, canta sua paixão pelo Rio

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Debritto compôs uma “Sampa” ao contrário

Paulo Peres

Poemas & Canções
O engenheiro, produtor musical, arranjador, cantor e compositor paulista Vasco Ramos de Debritto, na letra de “Rio de Janeiros”, revela a saudade que sente dos janeiros vividos na cidade maravilhosa. A música foi gravada por Vasco Debritto no CD Visions, em 1999, pela Koala Records.
RIO DE JANEIROS
Vasco Debritto

Rio de Janeiro, estou pensando em ti
Ando muito triste e acabrunhado aqui
Até parece que não sei, nem nunca vi
Mar azul, corpo dourado, um céu rubi

Rio de Janeiro, nem é bom falar
Tô perdendo a ginga, a cor, o linguajar
Jogo de cintura, o brilho do olhar
Tá faltando espaço, tá faltando ar

Já faz tanto tempo, o passaporte desbotou
Verde que queria mais que verde amarelou
Tenho pensado em nós dois
O sol aqui já se pôs

Rio de Janeiro é feito uma oração
Fiz até promessa a São Sebastião
Pra voltar depressa, abrir meu coração
Pra morena mais bonita
Lá da Penha, da Restinga ou do Leblon

A pedido do Dr. Béja, um desesperado poema de J.G. de Araújo Jorge

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J.G., eternamente romântico

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, político e poeta acreano José Guilherme de Araujo Jorge (1914-1987) ou, simplesmente, J.G. de Araújo Jorge, foi conhecido como o Poeta do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra romântica, mas, às vezes, dramática, como no poema “Canção do meu abandono”.

CANÇÃO DO MEU ABANDONO
J.G. de Araújo Jorge

Não, depois de te amar não posso amar ninguém!
Que importa se as ruas estão cheias de mulheres
esbanjando beleza e promessa
ao alcance da mão?
Se tu já não me queres
é funda e sem remédio a minha solidão.

Era tão fácil ser feliz quando tu estavas comigo!
Quantas vezes, sem motivo nenhum, ouvi o teu sorriso rindo feliz, como um guiso
em tua boca?

E todo momento
mesmo sem te beijar eu estava te beijando:
com as mãos, com os olhos, com os pensamentos,
numa ansiedade louca!

Nossos olhos, meu Deus! nossos olhos, os meus
nos teus,
os teus
nos meus,
se misturavam confundindo as cores
ansiosos como olhos
que se diziam adeus…

Não era adeus, no entanto, o que estava em teus olhos e nos meus,
era êxtase, ventura, infinito langor,
era uma estranha, uma esquisita, uma ansiosa mistura
de ternura com ternura
no mesmo olhar de amor!

Ainda ontem, cada instante era uma nova espera…
Deslumbramento, alegria exuberante
e sem limite…

E de repente,
de repente eu me sinto triste como um velho muro
cheio de hera
embora a luz do sol num delírio palpite!

Não, depois de te amar não posso amar ninguém!

Podia até morrer, se já não há belezas ignoradas
quando inteira te despi,
nem de alegrias incalculadas
depois que te senti…

Depois de te amar assim, como um deus, como um louco,
nada me bastará, e se tudo é tão pouco…

… eu devia morrer…

A genialidade de Torquato Neto ao fazer a “Louvação”, com Gilberto Gil

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Torquato Neto e Gil, parceiros e grandes amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cineasta, ator, jornalista, poeta e compositor piauiense Torquato Pereira de Araújo Neto (1944-1972) é considerado um dos principais letristas do movimento Tropicalista, embora a letra de “Louvação” seja pré-tropicalista e tenha um tratamento épico/romântico e, principalmente, ideológico face à ditadura militar instaurada no país em 1964. A música foi gravada por seu parceiro Gilberto Gil no LP Louvação, 1967, pela Philips Records.

LOUVAÇÃO
Gilberto Gil e Torquato Neto

Vou fazer a louvação
Louvação, louvação
Do que deve ser louvado
Ser louvado, ser louvado
Meu povo, preste atenção
Atenção, atenção
Repare se estou errado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado

Vou fazendo a louvação
Louvação, louvação
Do que deve ser louvado
Ser louvado, ser louvado
Quem ‘tiver me escutando
Atenção, atenção
Que me escute com cuidado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher
Louvo a paz pra haver na terra
Louvo o amor que espanta a guerra
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver
Louvo a luta repetida
A vida pra não morrer

Vou fazendo a louvação
Louvação, louvação
Do que deve ser louvado
Ser louvado, ser louvado
De todos peço atenção
Atenção, atenção
Falo de peito lavado
Louvando o que bem merece
Deixo o que é ruim de lado
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar
Mas que cantará na certa
Quando enfim se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar

E assim fiz a louvação
Louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado
Ser louvado, ser louvado
Se me ouviram com atenção
Atenção, atenção
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece
Deixando o ruim de lado

“Olha, está chovendo na roseira, que só dá rosa mas não cheira…

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Poemas & Canções

O maestro, instrumentista, arranjador, cantor e compositor carioca Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994) é considerado o maior expoente de todos os tempos da música brasileira e um dos criadores do movimento da bossa nova. A letra de “Chovendo na Roseira”, feita na década de setenta, já tratava do tema ecologia e, por sua beleza, estimulava-nos a defender, cada vez mais, a natureza e nos ensinava a preservar os rios, as plantas, as árvores, os animais e as flores. A música foi gravada no LP Elis & Tom, em 1974, pela Philips.

CHOVENDO NA ROSEIRA
Tom Jobim

Olha
Está chovendo na roseira
Que só dá rosa mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João
Que é de ninguém!

Pétalas de rosa carregadas pelo vento
Um amor tão puro carregou meu pensamento
Olha, um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado
Adivinhou a primavera

Olha, que chuva boa, prazenteira
Que vem molhar minha roseira
Chuva boa, criadeira
Que molha a terra, que enche o rio, que lava o céu
Que traz o azul!

Olha, o jasmineiro está florido
E o riachinho de água esperta
Se lança embaixo do rio de águas calmas

Ah, você é de ninguém!

“A mente capta vozes da própria mente, que sempre mente um pouco”, diz Ilka Bosse

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Ilka Bosse, sempre muito espontânea

Paulo Peres
Poemas & Canções

A pedagoga (formada em duas habilitações na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), empresária, escritora, cronista e poeta catarinense Ilka Bosse, conhecida como Bailarina das Letras, escreve sobre todos os assuntos, atualidades ou não, mas, o que a hipnotiza é escrever livre e brincar com metáforas, é mais um estado de espírito do que um trabalho que a mente prepara com antecedência…

“Não me prendo à métricas, rimas ou regras rígidas do poetar – embora admire a quem o faça… Quando lanço mão à caneta ou teclado, eu simplesmente viajo num mundo irreal que, às vezes, me leva à trilha do real… São rumos não traçados, mas é isso que me atrai. O desconhecido, o novo, a ilusão que a mente borda…”, salienta Ilka Bosse.

A MENTE 
Ilka Bosse
Rendo-me a ser escrava…
Ardendo em brasa, o oco
que o fogo cava…
A dor da ausência ataca,
cortando na carne,
com gume, deste fogo,
da própria faca…
E a mente capta vozes
da própria mente,
que sempre mente
um pouco,
do que a mente sente…
A alma desnorteada
acredita
nas inverdades
que a mente dita.
“Vamperiza” e suspira,
debilitada…
Prendendo-se à trama
e à rede
firmemente afixada…
A teia que não rompe,
nem corrompe,
mas, intoxica…
A Mente.

A canção de Tavito e Ney Azambuja, que virou hino oficial de Belo Horizonte

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Tavito e a placa da Rua Ramalhete, que deu nome à canção

Paulo Peres

Poemas & Canções
O músico, cantor e compositor mineiro Tavito, nome artístico de Luís Otávio de Melo Carvalho, na letra de “Rua Ramalhete”, em parceria com Ney Azambuja, retrata sua juventude passada em Belo Horizonte. A música foi gravada no LP “Tavito”, lançado, em 1979, pela CBS. Vale ressaltar que, em 2004 a canção “Rua Ramalhete” tornou-se hino oficial da capital de Minas Gerais.
RUA RAMALHETE
Ney Azambuja e Tavito
Sem querer fui me lembrar
De uma rua e seus ramalhetes,
O amor anotado em bilhetes,
Daquelas tardes.

No muro do Sacré-Coeur,
De uniforme e olhar de rapina,
Nossos bailes no clube da esquina,
Quanta saudade!

Muito prazer, vamos dançar
Que eu vou falar no seu ouvido
Coisas que vão fazer você tremer dentro do vestido,
Vamos deixar tudo rolar;
E o som dos Beatles na vitrola.

Será que algum dia eles vêm aí
Cantar as canções que a gente quer ouvir?