“Maringá”, a canção de Joubert de Carvalho que deu nome à importante cidade do Paraná

Joubert de Carvalho em Maringá - Década de 1970

Joubert de Carvalho ao lado de seu busto em Maringá

Paulo Peres
Poemas & Canções

O médico e compositor mineiro Joubert Gontijo de Carvalho (1900-1977) compôs a canção “Maringá” que foi gravada, em 1932, por Gastão Formenti, pela RCA Victor, tornando-se logo um grande sucesso, sendo cantada até hoje. O nome e o tema da música surgiram quando Joubert de Carvalho visitava o ministro da Viação José Américo. Conversando com o oficial do gabinete, Rui Carneiro, este sugeriu que fizesse uma música abordando o tema da seca no Nordeste.

O compositor pediu a Rui que lhe desse uma lista de pequenas cidades assoladas pela seca. Entre elas estava Ingá, para a qual o compositor imaginou uma cabocla, Maria, que seria a Maria do Ingá, que acabou por tornar-se “Maringá”. É comum nome de cidades inspirarem canções, mas neste caso surpreendentemente, o nome da canção originou o nome da cidade.

“Maringá”, era muito cantada pelos operários que desbravavam a mata virgem para construir uma nova cidade no Paraná, e quando a Companhia de Melhoramentos do Norte reuniu-se para definir o nome que seria dado à cidade, a Sra. Elisabeth Thomas, mulher do presidente Henry Thomas, sugeriu que a composição desse nome à cidade.

MARINGÁ
Joubert de Carvalho

Foi numa léva
Que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante
Que mais dava o que falá.

E junto dela
Veio alguem que suplicou
Prá que nunca se esquecesse
De um caboclo que ficou

Antigamente
Uma alegria sem igual
Dominava aquela gente
Da cidade de Pombal.

Mas veio a seca
Toda chuva foi-se embora
Só restando então as água
Dos meus óio quando chóra.

Estribilho
Maringá, Maringá,
Depois que tu partiste,
Tudo aqui ficou tão triste,
Que eu garrei a maginá:

Maringá, Maringá,
Para havê felicidade,
É preciso que a saudade
Vá batê noutro lugá.

Maringá, Maringá,
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegá.

A força da fé no sofrimento do sertanejo, segundo João do Vale e Ari Monteiro

João do Vale - O Poeta do Povo (1965) Completo/Full - YouTubePaulo Peres
Poemas & Canções

O compositor e cantor maranhense João Batista do Vale (1933-1996), na letra de “A Lavadeira e o Lavrador”, em parceria com Ari Monteiro, mostra que a religiosidade consegue frear a revolta pela sobrevivência no sertão. A música foi gravada por João do Vale, em 1965, no LP O Poeta do Povo, pela Philips.

A LAVADEIRA E O LAVRADOR
Ari Monteiro e João do Vale

Eu vi a lavadeira pedindo sol
E o lavrador pra chover
Os dois com a mesma razão
Todos precisam viver

Eu vi o lavrador com o joelho no chão
O pranto banhando o rosto
Seu filho pedindo pão
O gado todo morrendo
Oh Deus poderoso
Faça chover no sertão

Nessa hora eu queria ter força e ter poder
Pra acabar com a miséria
E fazer no sertão chover
Vocês vão me censurar
Mas veio na imaginação
Nem tudo o santo de Deus
Pois Deus não tem coração

Depois, vi a lavadeira
Soluçando a reclamar
Dez dias que não faz sol
Pra minha roupa secar
Se eu não entrego a roupa toda
Doutor não vai me pagar
Se amanhã não fizer sol
Ai, meu Deus, o que será

Ai, eu vi que Deus é toda a perfeição
O que eu pensei ainda há pouco
Agora peço perdão
Só uma força de Divina
Controla a situação
Um povo querendo inverno
Outro querendo verão

Em carnaval fora de época, a despedida da porta-bandeira, na visão de Eugênio Gudin e Paulo César Pinheiro

A parceria de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Paulo César Pinheiro e o cantor Eduardo Gudin

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor e poeta carioca Paulo César Francisco Pinheiro, na letra de “A velhice da porta-bandeira”, em parceria com Eduardo Gudin, registra que a vida partilha alegrias e tristezas enquanto o tempo passa e, nas escolas de samba, há sempre outra porta-bandeira a espreitar.

Esse samba foi gravado no LP “O importante é que a nossa emoção sobreviva”, em 1974, pela Odeon, por Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro e a cantora Márcia, alcançando repercussão nacional com o disco e os shows realizados por diversos estados. E neste ano, o desfile das Escolas de Samba este ano no Rio de Janeiro está sendo realizado em abril devido a pandemia .

A VELHICE DA PORTA-BANDEIRA
Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Ela renunciou
A Mangueira saiu, ela ficou
Era porta-bandeira
Desde a primeira vez
Por que terá sido isso que ela fez?

Não, ninguém saberá
Ela se demitiu, outra virá
Ninguém a viu chorando
Coisa tão singular
Quando a bandeira tremeu no ar

Ô… quando toda avenida sambou
O seu mundo desmoronou
Ela se emocionou
Perto dela ela ouviu, alguém gritou:
“Viva a porta-bandeira”,
“Sou eu”, ela pensou
Mas foi a outra quem se curvou
Ô… quando toda avenida sambou
O seu mundo desmoronou
Ô… quando a porta-bandeira passou
Quem viu
Ela se levantou e aplaudiu

A história das escolas de samba, na visão social das poesias carnavalescas de Paulo Peres

Definida a ordem do desfile das escolas de samba da Grande Florianópolis  para 2022 | ND Mais

No carnaval brasileiro, a ala das baianas é a mais tradicional 

Carlos Newton

O advogado, jornalista, analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), compositor, letrista e poeta carioca Paulo Roberto Peres, nos poemas “Samba Na Escola” e “Zeca-José”, fala de partes históricas do carnaval carioca, especialmente, do desfile das Escolas de Samba, que este ano devido a pandemia está sendo realizado em abril.


SAMBA NA ESCOLA

Paulo Peres

Grandes sociedades, ranchos, blocos e cordões
Através da organização, tal realeza dos salões,
Criaram as Escolas de samba no Rio de Janeiro.
Ópera do sonho-folia do carnaval brasileiro.

Deixa Falar, primeira escola fundada
No Estácio, local de bamba, abençoada
Pelo samba de afro-baiana origem
E tempero carioca, democratizou a imagem.

Na Praça Onze, casa da Tia Ciata,
O batuque, compasso 2/4, reuniu a nata
Da malandragem, hoje, sambistas geniais.

O surdo e o tamborim ritmaram os usuais
Instrumentos e cantos, tal marcação harmonia
Fez do samba uma escola desfilando poesia.

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ZECA-JOSÉ
Paulo Peres

Viva o Zé Pereira
Viva o carnaval
Batucada feiticeira
Na folia Imperial

Na memória do Brasil
Festas vindas de Portugal
Zé Pereira substituiu
O Entrudo inicial

A história transformou
Zé Pereira em José
Zeca então referendou
Seu destino (vai-e-tem)

Tal Zeca pedreiro
E José batuqueiro
Ele vai vivendo
E filhos nascendo

Tijolo em tijolo
Sonhando subir
O samba é o consolo
Pra vida curtir

Acorda o sentido
No passar repetido
Da escola de samba,
Brasileiro bamba

No trem é pingente
É Zeca pedreiro
No samba é presidente
É José batuqueiro

Vai fantasiado de fome
E de medo
Procura o seu nome
No meio do enredo

“Quantos mistérios andarão errantes, quantas almas em busca de quimera?”, indagava Cruz e Sousa

Escritores do Simbolismo - Alphonsus, Cruz e Sousa e maisPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos principais representantes do simbolismo no Brasil. Segundo Antonio Candido, Cruz e Sousa era o “único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços”. No soneto “As Estrelas”, ele questiona se tais astros não são sentimentos dispersos de primitivos grupos humanos.

AS ESTRELAS
Cruz e Sousa

Lá, nas celestes regiões distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca de Quimera,
Lá, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilusões insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas não são os ais perdidos
Das primitivas legiões humanas?!

“Eu sou a terra, eu sou a vida”, dizia a genial Cora Coralina, que vivis poeticamente

Cora Coralina, poetisa brasileira | Citações sábias, Frases inspiracionais, Citações inspiracionaisPaulo Peres
Poemas & Canções

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1880-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, conforme este poema “Cântico da Terra”. Vale ressaltar que a obra de Cora Coralina também nos mostra a vida simples dos becos e ruas históricas de Goiás Velho, a antiga capital do Estado.

 

CÂNTICO DA TERRA
Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

“Todo dia era dia de índio, mas agora eles só têm o dia 19 de Abril”, canta Jorge Benjor

Jorge Ben Jor completa 70 anos. Felicidades!

Jorge Benjor, um dos gigantes da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Jorge Duílio Lima Meneses, conhecido como Jorge Ben e Jorge Benjor, na letra de “Todo Dia Era Dia de Índio”, lamenta o cotidiano dos índios que foram dizimados, que perderam seu espaço, sua terra, sua vida, primeiro para o colonizador europeu e, posteriormente, para outros governantes brasileiros. Neste sentido, a letra é uma forma de protesto contra o “homem branco” que comemora o Dia do Índio. A música foi gravada por Baby Consuelo, no LP Canceriana Telúrica em 1981.

TODO DIA ERA DIA DE ÍNDIO
Jorge Bem

Curumim, chama Cunhatã
Que eu vou contar

Curumim, chama Cunhatã
Que eu vou contar 
Todo dia era dia de índio
Todo dia era dia de índio

Curumim, Cunhatã
Cunhatã, Curumim
Antes que o homem aqui chegasse
As terras brasileiras
Eram habitadas e amadas
Por mais de 3 milhões de índios
Proprietários felizes
Da terra Brasilis

Pois todo dia era dia de índio
Todo dia era dia de índio

Mas agora eles só têm
O dia 19 de Abril
Mas agora eles só têm
O dia 19 de Abril

Amantes da natureza
Eles são incapazes, com certeza
De maltratar uma fêmea
Ou de poluir o rio e o mar

Preservando o equilíbrio ecológico
Da terra, fauna e flora

Pois em sua glória, o índio
Era o exemplo puro e perfeito
Próximo da harmonia
Da fraternidade e da alegria

Da alegria de viver!
Da alegria de viver!

E no entanto, hoje
O seu canto triste
É o lamento de uma raça que já foi muito feliz
Pois antigamente

Todo dia era dia de índio
Todo dia era dia de índio

“A verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas”, dizia Clarice Lispector

Textos e Frases Curtas de Clarice Lispector - Frases CurtasPaulo Peres
Poemas & Canções

A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, fala sobre “Perfeição” através deste poema.

PERFEIÇÃO
Clarice Lispector

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.    

“Se você quisesse morar na minha palhoça, lá tem troça, se faz bossa”, cantava Sylvio Caldas

ARQUIVO MARCELO BONAVIDES - Estrelas que nunca se Apagam - : ORLANDO SILVA  CANTA J. CASCATA E LEONEL AZEVEDO

J. Cascata, um compositor de grandes sucessos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Alvaro Nunes (1912-1961), conhecido por J. Cascata, expressa na letra de Minha Palhoça, um bonito, bucólico e romântico convite para a pessoa amada. Este samba de breque foi gravado pela primeira vez por Sylvio Caldas, em 1935, pela Odeon.

MINHA PALHOÇA
J. Cascata

Se você quisesse morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão
Uma roseira cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada abençoar nossa união

Tem um cavalo
Que eu comprei em Pernambuco
E não estranha a pista
Tem jornal, lá tem revista
Uma kodak para tirar nossa fotografia
Vai ter retrato todo dia
Um papagaio que eu mandei vir do Pará
Um aparelho de rádio-batata
E um violão que desacata

Se você quisesse morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão
Uma roseira cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada abençoar nossa união

Tem um pomar
Que é pequenino, é uma teteia, é mesmo uma gracinha
Criação, lá tem galinha
Um rouxinol que nos acorda ao amanhecer
Isso é verdade podes crer
A patativa quando canta faz chorar
Há uma fonte na encosta do monte
A cantar chuá-chuá.

Cecília Meireles: “As dores, embalei-as nos meus braços, como alguém que embalasse a juventude…”

Alguns dos melhores momentos da vida a... Cecilia meireles - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964), no soneto “Oração da Noite”, repete seu cotidiano altruístico.    

ORAÇÃO DA NOITE
Cecília Meireles

Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores,  – embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude…

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!…    

Um pedido de Pixinguinha ao maestro Mozart de Araújo acabou inspirando Ismael Silva

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Ismael Silva, elegante como o amigo Pixinguinha

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor Ismael Silva (1905-1978), nascido em Niterói (RJ), para fazer a letra de Antonico, inspirou-se em uma carta de Pixinguinha para Mozart de Araújo, na qual pedia ao amigo um emprego para o sambista em dificuldade. O samba Antonico foi gravado por Alcides Gerardi, em 1950, pela Odeon, e depois regravado por Gal Costa, também com grande sucesso.

ANTONICO
Ismael Silva

Ôh Antonico
Vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade

É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba

Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim

Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer (meu senhor)

Um desesperado poema de Castro Alves, que morria de amor pela belíssima atriz Eugênia Câmara

Castro Alves | Frases inspiracionais, Frases diárias, PensamentosPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) é símbolo da nossa literatura abolicionista, conhecido como “Poeta dos Escravos”. Entretanto, o poema “Hora da Saudade” demonstra sua versatilidade poética, porque tudo na sua vida cotidiana acarreta lembranças de sua amada Eugênia Câmara e de seu romance desfeito.

HORA DA SAUDADE
Castro Alves 

Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu’inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas…
Desce a tarde no carro vaporoso…
D’Ave Maria o sino , que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n’alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala…
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos…
Eras – ave do céu…minh’alma – o ninho!

Por onde trilhas – um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço…

E teu rastro de amor guarda minh’alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!…

A descoberta da existência de Deus, nas memórias poéticas de Casimiro de Abreu

Um desesperado poema de Casimiro de Abreu, para descrever que sentia medo  de amar - Flávio ChavesPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860) nasceu em Barra de São João (RJ) e foi um intelectual brasileiro da segunda geração romântica. Sua poesia tornou-se muito popular durante décadas, devido à linguagem simples, delicada e cativante, como se vê nesse poema em que conta como na infância descobriu “Deus”.

DEUS
Casimiro de Abreu

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno 
E brincava na praia; o mar bramia, 
E, erguendo o dorso altivo, sacudia, 
A branca espuma para o céu sereno. 

E eu disse a minha mãe nesse momento: 
“Que dura orquestra! Que furor insano! 
Que pode haver de maior do que o oceano 
Ou que seja mais forte do que o vento?” 

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus 
E respondeu: – Um ser que nós não vemos, 
É maior do que o mar que nós tememos, 
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus. 

Em meio à maldade humana, a beleza do canto do assum preto, na visão de Humberto Teixeira

Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga Saudade Meu Remédio é cantar ~ Blog Ney  Vital

Teixeira e Gonzaga, dois gigantes da música nordestina

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, compositor e poeta cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979), na letra de “Assum Preto”, na célebre parceria com Luiz Gonzaga, descreve a beleza de uma paisagem bucólica, comum no sertão após as chuvas, pois quando há estação chuvosa na região pode-se ver o reverdecimento da mata e isto traz alegria e esperança para o sertanejo. No entanto, a beleza do sol de abril e das flores não pode ser apreciada pelo pássaro Assum Preto, porque é cego. Contudo, a beleza é expressada através de um canto doloroso, uma forma de superar sua sina, porque furaram-lhe os olhos. O baião “Assum Preto” foi gravado, primeiramente, por Luiz Gonzaga, em 1950, pela RCA Victor.

ASSUM PRETO
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor

Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió

Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus

Um retrato campestre surrealista, na visão lírica do genial poeta Carlos Pena Filho

TRIBUNA DA INTERNET | Um retrato campestre, na visão poética de Carlos Pena FilhoPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960), liricamente pinta um “Retrato Campestre”, através do visual de uma planície, onde estão um passarinho, um pé de milho, uma mulher e um homem, que se encontram neste criativo soneto.

RETRATO CAMPESTRE
Carlos Pena Filho

Havia na planície um passarinho,
um pé de milho e uma mulher sentada.
E era só. Nenhum deles tinha nada
com o homem deitado no caminho.

O vento veio e pôs em desalinho
a cabeleira da mulher sentada
e despertou o homem lá na estrada
e fez canto nascer no passarinho.

O homem levantou-se e veio, olhando
a cabeleira da mulher voando
na calma da planície desolada.

Mas logo regressou ao seu caminho
deixando atrás um quieto passarinho,
um pé de milho e uma mulher sentada.

“Não, eu não posso lembrar que te amei; não, eu preciso esquecer que sofri…”

Dalva, Herivelto e a polêmica da mini-série | Blog do Argemiro Ferreira

Dalva e Herivelto, um amor que não deu certo

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, músico, ator e compositor Herivelto de Oliveira Martins (1912-1992), nascido em Vila Rodeio (atual Engenheiro Paulo de Frontin, RJ), na letra de “Caminhemos”, retrata o sofrimento que a separação da pessoa amada pode trazer – no caso, a célebre cantora Dalva de Oliveira. Este samba-canção teve sua primeira gravação feita por Francisco Alves, em 1947, pela Odeon.

CAMINHEMOS
Herivelto Martins

Não, eu não posso lembrar que te amei
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois

Vida comprida, estrada alongada
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada…
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Talvez que na volta
Te encontre no mesmo lugar

Em poucas palavras, Carmen Cardin descreve poeticamente a determinação de sua vida

Poetisa Carmen Cardin

Carmen Cardin, inspirada poeta carioca

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora, artista plástica e poetisa carioca Carmen Cardin, garimpeira das palavras e pós graduada em sonhos, ao escrever um de seus mais de cinco mil poemas, descreveu em poucos versos a “determinação” de sua vida.

DETERMINAÇÃO
Carmen Cardin

Feliz, sigo a vida,
pois ela me segue,
o tempo escorre,…
não mais me iludo.
Eu vou passando
em meio às flores,
abaixo de Deus,
por cima de tudo!

Pisando nas folhas secas da Mangueira, lá se inspiravam Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

TRIBUNA DA INTERNET | As folhas secas de Guilherme de Brito e Nelson  Cavaquinho

Nelson e Guilherme, dois gigantes do samba

Paulo Peres
Poemas & Canções

O pintor, escultor, violonista, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bolhorst (1922-2006), na letra de Folhas Secas, em parceria com Nelson Cavaquinho, compara as folhas caídas da árvore mangueira com sua tristeza quando não puder mais cantar. Este samba foi gravado por Beth Carvalho no seu LP Canto Por um Novo Dia, lançado em 1973 pela Tapecar.

FOLHAS SECAS
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira

Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.

Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade 

Uma poética autocondenação no tribunal da vida, pelo imortal gaúcho Carlos Nejar

Aos 81 anos, imortal Carlos Nejar lança obra na Capital

Carlos Nejar lançou mais um livro aos 81 anos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário, tradutor, ficcionista e poeta gaúcho Luís Carlos Verzoni Nejar, no poema “No Tribunal”, sentencia a sua própria condenação.

NO TRIBUNAL
Carlos Nejar

Eu e o tribunal
e sua fria mudez.
O juiz no centro e no fim,
o rosto girando em mim,
farândola.

Vim, com a escura coragem,
de um réu antigo e selvagem.
O que me prendeu,
lutou comigo e venceu.
Vacilava em me reter,
mas eu que entregava,
por saber que minha chaga
estava exposta na lei.

Giram as mãos
e os pés atados.
O juiz é um vulto
que eu mesmo fiz
com meus esboços.

O juiz no centro, no fim,
no tribunal onde vou,
no tribunal donde vim.
E assim me condenei
a permanecer aqui.

Gonzaguinha criava músicas que hoje relembram um tempo esquecido e sem memória

PensamPaulo Peres
Poemas & Canções

O economista, cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Junior (1945-1991) , conhecido como Gonzaguinha, foi, sem dúvida, um dos maiores talentos da música brasileira em diversos estilos populares. Sua obra teve, inicialmente, como característica sua postura de crítica a ditadura militar, conforme mostra a letra de “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória” (A Legião dos Esquecidos), que faz parte do LP De Volta ao Começo, gravado em 1980, pela Emi-Odeon.

A LEGIÃO DOS ESQUECIDOS
Gonzaguinha

Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata

São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará

De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão

De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Dessa crença num enorme coração

Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução

São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata

E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós

São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança

Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará

Ê eu, não posso esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta