Marina e Serra vo enfrentar Eduardo Campos e Acio

Pedro do Coutto

No dia 22 de outubro, aqui, no site da Tribuna da Imprensa, publiquei artigo sobre possveis divises internas no PSB, entre as correntes de Marina Silva e Eduardo Campos, e no PSDB colocando em confronto Acio Neves e Jos Serra. Em ambos os casos em torno da obteno das legendas para disputarem a sucesso presidencial de 2014 contra Dilma Rousseff. Os duelos estavam nas respectivas atmosferas partidrias, entre sombras. Agora no. Vieram plena luz do dia. Basta ler a Folha de So Paulo de quinta-feira, pgina 8.
A diviso no PSDB est focalizada em reportagem de Marina Dias e Felipe Amorim. A no PSB assinalada em matria que saiu7 sem assinatura. Nesta, Marina Silva afirma ter toda a disposio de ser presidente, apesar de no ser este ressaltou um objetivo de vida. Tenho como objetivo de vida lutar por um Brasil melhor e, se para isso, necessrio for, ser presidente da Repblica. Relativamente formalizao da chapa do Partido Socialista Brasileiro, s ser feita em 2014. No dia de hoje, afirmao mais clara quanto vontade de ser candidata do PSB impossvel. Sobretudo porque, mais recentemente ainda, a ex-senadora sustentou de forma frontal que seu ingresso no partido funcionou para afastar Eduardo Campos de uma atuao poltica de estilo arcaico.

Torna-se fcil traduzir as palavras e a disposio agora nada oculta de Marina Silva. Como Eduardo Campos reagir aos dois posicionamentos? Ainda no se sabe. E se o governador de Pernambuco custar muito a responder, deixa a impresso que foi levado defensiva dentro da prpria legenda da qual presidente e nessas condies avalizou a entrada de Marina Silva. Na recente pesquisa do Datafolha, Marina alcanou 29% das intenes de voto. Eduardo campos 15 pontos, praticamente a metade. Sua posio na liderana partidria ficou abalada.
OS TUCANOS

Na esfera tucana, os reprteres Marina Dias e Felipe Amorim revelam que Jos Serra apareceu em maratona organizada por Acio Neves junto a prefeitos paulistas e afirmou: o futuro no est definido. O que est definido que vou estar na batalha. A qual futuro ele se referiu? S pode ser o processo de escolha do candidato pela conveno nacional. Acio neves, inclusive, foi surpreendido com a presena de seu adversrio, sobretudo porque somente na vspera Serra avisou de seu comparecimento ao encontro. Isso, claro, no sentido de imobilizar qualquer reao negativa por parte do senador mineiro. Eugnio Juliani, organizador do encontro, acentuou que o convite havia sido feito h alguns meses, mas Serra no respondera se estaria ou no presente.

 

Pelo que se deduz, tratando-se de So Paulo, principal base poltica do PSDB, onde a agremiao disputa com boa possibilidade a reeleio de Geraldo Alckmin, Jos Serra saiu da sombra e resolveu travar uma luta aberta com Acio neves pela indicao nacional. Onde Acio for, Serra vai tambm, afirmaram representantes serristas. A incgnita deste comportamento refere-se a Minas Gerais, onde os tucanos disputam o governo com Pimenta da Veiga, escolhido por Acio, rea em que Serra tem pouca expresso. E Minas o segundo colgio eleitoral do pas. Seja como for, a disputa encontra-se aberta no PSDB. Alis, no PAB tambm. O Datafolha apontou Serra com 25, Acio com 21% das intenes de voto.

Ofensiva do PMDB contra Acio comea por Minas Gerais

Pedro do Coutto

Trs estados so fundamentais para qualquer sucesso presidencial no Brasil: So Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro que, juntos, representam 41% do eleitorado. Principalmente So Paulo e Minas porque, at hoje, nenhum presidente foi eleito sem que vencesse em uma dessas duas unidades da Federao. natural assim que as batalhas pelos votos de 2014 comecem nesses dois estados, onde se verificam enfrentamentos entre os tucanos, de um lado, e os candidatos da aliana PT-PMDB de outro. O Rio de Janeiro no se inclui como mais um cenrio dos duelos porque, aqui, Dilma conta com diversos palanques: os de Lindbergh Farias, Luiz Fernando Pezo, candidato do governador Sergio Cabral, e possivelmente o de Anthony Garotinho, na disputa pelo Palcio Guanabara.
Ao contrrio de So Paulo, onde o clima ainda est morno, em Minas Gerais a batalha comeou com um movimento anti-Acio, liderado pelo deputado estadual do PMDB, Svio Souza Cruz. Inclusive matria de Paulo Peixoto e Felipe Bachtoldt, publicada na edio de 22 da Folha de So Paulo, focaliza o tema. Svio de Souza apresentou dados que pesquisou e que abastecem as baterias da oposio estadual. Referem-se ao endividamento mineiro que sustenta atinge o montante de 100 bilhes de reais, alm de um crescimento negativo do PIB da ordem de 0,3% no primeiro semestre. No mesmo espao de tempo o Produto Interno Bruto do pas cresceu no percentual positivo de 1,5%. Em relao aos primeiros seis meses de 2012, MG avanou somente 0,8%. So Paulo 1,8%, o Brasil 2,6 pontos.
O fraco desempenho da economia mineira atinge a imagem de Acio Neves quer passar opinio pblica do pas assinala Svio Souza Cruz. O lder da oposio mineira cita como um dos maiores equvocos registrados no legado Acio para o governador Antonio Anastasia o processo de privatizao do Mineiro, Estdio Magalhes Pinto. Quando governador, Acio obteve financiamento de 400 milhes de reais junto ao BNDES para reforma do Mineiro e os recurso foram repassados para empresa Minas Arena Gesto de Instalaes Esportivas, parceria pblico privada reunindo as empresas Construcap, Egesa e Hap. A mineira Arena acentua Svio ser responsvel pela operao do estdio pelo perodo de 27 anos, atravs de um contrato de parceria. Mas quem vai pagar o emprstimo obtido no BNDES o governo mineiro. Dessa forma, a PPP transfere os custos ao poder pblico e os lucros s empresas particulares.
CRTICAS
“Condenamos as Parcerias Pblico Privadas feitas em Minas porque parecem significar que o povo que, indiretamente, vai terminar pagando a conta. Pois o contrato com as trs empreiteiras inclui, para elas, um compromisso de lucro garantido: trata-se de um sistema capitalista sem risco, mas com lucro assegurado. Na etapa final do contrato, o Cruzeiro associou-se Minas Arena. De que forma? Qual a explicao? Quais as condies?” indaga Souza Cruz.

Acrescenta que as crticas que faz s PPS de Minas no representam uma condenao generalizada do mecanismo. No. Restringem-se ao universo de Minas Gerais. Simplesmente porque as privatizaes de rodovias, por exemplo, levaram ao pagamento dos mais altos pedgios cobrados no pas. E no final da pera qualquer m gesto transferir o pagamento das obrigaes previstas nos contratos para os cofres estaduais.


Como se constata, a ofensiva da coligao PT-PMDB comeou por Minas. L, inclusive, vo se defrontar Fernando Pimentel, que apoia Dilma Rousseff e Pimenta da Veiga, que apoia Acio. Quem vai apoiar Eduardo Campos ou Marina Silva?

Lula e o encantamento do PT pela seduo do poder

Pedro do Coutto

Numa entrevista ao jornal El Pais, objeto de reportagem Fernanda Krakovics, edio de segunda-feira 21 de O Globo, o ex-presidente Lula reconheceu frontalmente que o crescimento do PT fez surgirem defeitos e corrupes em seus quadros partidrios. Foi importante a autocrtica, certamente feita em tom de desabafo, mas que, no fundo, acrescenta mais uma pgina reveladora do processo de seduo que o poder exerce sobre nmero cada vez maior de pessoas. H mudanas claras de comportamento que decorrem at da simples proximidade com aqueles que movimentam as engrenagens do sistema de deciso.
 

Os comportamentos mudam. Pessoas, at sem qualidade alguma maior, passam a se julgar importantes, e, ao serem cumprimentadas reagem friamente. Vm no distanciamento que fabricam uma forma de auto afirmao. Se isso acontece nas situaes mais comuns, que dir nas incomuns? O deslumbramento incorpora um desejo de riqueza que leva ostentao, uma forma de narcisismo incluindo uma ridcula vontade de se apresentarem como mais importantes que outros que no tiveram o mesmo acesso aos roteiros do poder e a intimidade dos poderosos. Esquecem os amigos de ontem, fogem do passado, e voltam seus pensamentos e suas atitudes em busca de ganhos nem sempre lcitos. O ex-presidente Lula tem razo quando reconhece a existncia de corrupo nos quadros de sua legenda. 

Exigir que ele desse alguns nomes, por exemplo, seria querer demais. Mas no difcil identificar. Basta comparar os bens de certos lderes possuem com os ganhos pelo trabalho que desempenham. A incompatibilidade entre um patamar e outro suficiente para traduzir o inexplicvel em termos lgicos. Evidencia-se um processo de ostentao. Hoje, estou convencido que os desonestos no ostentam porque roubaram, mas sim roubam para ostentar. Os desonestos tem dentro de si o impulso da auto confisso pelo trajeto de contrastes em suas vidas. O que era antes e o que passou a ser depois. Aps o acesso ao poder, diga-se em sntese.

Foi o que sucedeu com os principais personagens do mensalo, em relao aos quais, punidos pela Justia, Lula culpa a imprensa, ao acentuar na entrevista a El Pas que ela julgou os rus antes do pronunciamento do Supremo Tribunal Federal. Neste ponto equivoca-se. Pois foi ele, usando a caneta, quem demitiu o principal acusado do cargo de ministro chefe de sua Casa Civil. E substituiu Duda Mendona de sua equipe de marketing.

ESVAZIAMENTO DO PDT

O crescimento do PT, alis, decorre do esvaziamento do PDT. Quando, em 92, Leonel Brizola apoiou Fernando Collor, o PDT perdeu as ruas para o PT. Tanto assim que, depois de alcanar 15% dos votos nas eleies de 89, ficando um ponto atrs de Lula, na sucesso de 94 sua votao caiu para apenas 3%. Perdeu assim 80% de seu eleitorado. Esta parcela foi para o PT. Mas este outro assunto. A seduo do poder, que visa riqueza, exige de um presidente da Repblica, de um governador, de um prefeito, uma noo reforada de equilbrio e sensibilidade. Entre as qualidades, a de saber ouvir. Principalmente as opinies contrrias porque os bajuladores (falsos aliados) vo sempre concordar com tudo.
 

Os falsos aliados, os falsos amigos, ambos exigem um cuidado especial por parte dos governantes. Qualquer passo em falso, qualquer descuido, qualquer omisso, pode levar ao desastre. Como o mensalo, por exemplo, em relao ao qual, na reportagem de Fernanda Krakovics, o ex-presidente mostra-se benevolente. Foi, isso sim, trado pelos que organizaram as fontes de recursos e as formas equivocadas e desonestas de sua distribuio. Porm h sempre um porm na histria no contava com o surgimento de um personagem shakeperiano como Roberto Jeferson que, para denunciar Jos Dirceu, a quem odiava, denunciou a si mesmo. Os imprevistos aparecem sempre em torno dos crimes e dos criminosos. Assim no fosse, todos os que praticaram crimes ficariam eternamente, para citar Fellini, numa doce vida de vinhos finos, de sombras e impunidade. E no assim. Ainda bem.

Dilma cresce com esforo de Acio e Campos para que haja segundo turno

Pedro do Coutto 

Reportagem de Marina Dias, Folha de So Paulo de quinta-feira 17, revela que, nos bastidores, tanto Acio Neves quanto Eduardo Campos, vm estimulando pequenos partidos, como o PSC, PPS, PSOL e PRTB, para que lancem candidatos sucesso de 2004 e com isso, contriburem para que haja segundo turno nas eleies do prximo ano. Se esto agindo nesse sentido porque no confiam no fato de as votaes de ambos, somadas, sejam suficientes para evitar os 50% mais um de Dilma Rousseff. A atual presidente, assim, cresce mais com esse comportamento dos pr-candidatos do PSDB e do PSB. Depois de ler a matria da FSP, vai naturalmente sentir-se mais forte. 

Vejam s: Acio e Campos incentivam que o PSC dispute o pleito com a candidatura do pastor Everaldo Pereira; o PPS com a ex-vereadora da cidade de So Paulo, Soninha Francine; o PSOL com o senador, alis um bom parlamentar, Randolfo Rodrigues; finalmente o PRTB com Levy Fidelis. PSC, PPS e PSOL, cada um, tem 1 minuto e 25 segundos no horrio poltico na televiso e no rdio. O PRTB, cuja existncia eu desconhecia, possui 1 minuto. 

QUAIS SOS OS CANDIDATOS 

Mas o problema no de tempo. E sim de uma atitude essencialmente defensiva dos principais nomes da oposio. E tem mais duas questes: quem ser de fato, no final da pera, o candidato do PSB? Campos ou Marina Silva? Quem ser o candidato do PSDB? Acio ou Jos Serra? A recente pesquisa do Datafolha apontou 29 pontos para Marina contra 39 de Dilma e, no cenrio alternativo apenas 15% para o governador de Pernambuco. Relativamente ao nome do PSDB, assinalou 25% para Jos Serra contra 21 pontos para Acio Neves. Como se observa, em primeiro lugar, antes de mais nada, o Partido Socialista Brasileiro precisa decidir se vai s urnas com Eduardo Campos mesmo, ou se prefere Marina Silva. So enigmas duplos que os prximos levantamentos de opinio pblica devem esclarecer. 

Porque, afinal de contas, ningum pode disputar uma eleio sem perspectiva, pelo menos alguma, de vitria. Sem tal perspectiva, o que a legenda poder dizer ao eleitorado? Nada. Pois se seus integrantes consideram incertas suas posies, como vo transmitir o entusiasmo indispensvel aos eleitores? Isso de um lado. De outro, ao se empenharem pela hiptese de um segundo turno porque, claro, deixam transparecer que acreditam que, no primeiro, Dilma Rousseff chegar na frente. Um raciocnio leva diretamente ao outro. Agora, os quatro nomes cogitados para acrescentar s candidaturas praticamente lanadas no vo poder somar os sufrgios necessrios para evitar a maioria absoluta da atual presidente da Repblica no primeiro confronto. So nomes pouco conhecidos e, ainda por cima, dispem de espaosmuito pequenos na TV e no rdio. No vo funcionar ao ponto de somar apoios que transfiram a deciso do primeiro para o ltimo domingo de outubro de 2014. 

Pela leitura de hoje, somente Marina Silva seria capaz de levar a disputa do primeiro para o segundo turno. Porm seu nome, da mesma forma que o de Jos Serra entre os tucanos, abrir cises estaduais reduzindo o potencial de votos. No se deve esquecer que Marina Silva, logo aps ingressar no PSB, atirou em Ronaldo caiado afastando o DEM de qualquer aproximao com Eduardo Campos. Talvez, inclusive, a atitude faa parte de um plano poltico para substitu-lo como candidata ao Planalto. Em poltica, aliscomo tudo na vida, no existe ao sem reao, nem movimentos voltados para no alcanar efeitos concretos. Como digo sempre, no basta ver os fatos, essencial sobretudo ver nos fatos. Traduzi-los, identificando-se as atmosferas que os envolvem.