Sérgio Moro aponta lacunas na decisão da segunda turma do Supremo

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Moro manteve o processo e o Supremo se calou

Pedro do Coutto

Em declarações à repórter Cleide Carvalho, edição de ontem de O Globo, o juiz Sérgio Moro apontou a existência de lacunas na decisão da segunda turma do Supremo, razão pela qual decidiu manter em Curitiba o processo contra o ex-presidente Lula pela propriedade do sítio de Atibaia. Em primeiro lugar porque o acórdão ainda não foi publicado e é preciso avaliar sua extensão. Isso de um lado. De outro não existem só delações de representantes da Odebrecht, mas também as delações da OAS e os depoimentos do pecuarista José Carlos Bumlai, um dos melhores amigos de Lula.

Para Sérgio Moro, houve precipitação tanto da defesa do ex-presidente da República quanto dos integrantes da força-tarefa da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal que acompanha o caso.

INCOMPETÊNCIA – A defesa do ex-presidente Lula apontou a incompetência do juízo de Curitiba, por problemas processuais. Mas esta manifestação já foi objeto de negativa, feita há mais de seis meses. E o juiz Moro, ao comentar a redação do ministro Dias Toffoli sobre o ato da segunda turma, afirmou seu caráter provisório e ainda pendente de elementos disponíveis nos autos da decisão de primeira instância.

Relativamente à hipótese de que o STF retirou o processo contra Lula de suas mãos, Sérgio Moro acentuou que não. O que foi bloqueado refere-se unicamente a inclusão dos delatores da Odebrecht, o que na sua opinião não significa ter o processo integralmente transferido para a Justiça Federal de São Paulo. Com isso, Sérgio Moro destacou pontos lacunosos do ato da segunda turma do STF, tornando sua execução passível de interpretação mais objetiva.

COMPARTILHAMENTO – Moro disse não saber qual juiz da cidade de São Paulo a quem caberia receber os documentos provenientes da Odebrecht. O que poderia haver seria um exame compartilhado de todo o processo, o que complicaria as fases restantes, bem como a decisão final.

Essa decisão final, como dissemos no artigo de ontem, entretanto, não está mais restrita à atuação de Sérgio Moro, mas também ao julgamento unânime do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. A contestação assinalando a falta de clareza plena por parte da segunda turma do STF, sem dúvida, vai causar um novo campo de atrito entre a Justiça Federal de Curitiba, a força tarefa da Lava Jato e a explicação final a ser contida na redação do acórdão da Segunda Turma.

DECISÃO CONFUSA – No meio de toda essa cadeia de fatos, encontra-se ainda a opinião pública que não conseguiu ainda entender a essência do julgamento por 3 votos a 2 da turma integrada pelos Ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli. Foram estes os autores dos votos que derrotaram os ministros Edson Fachin e Celso de Mello.

Tenho a impressão de que somente o pleno da Corte Suprema poderá esclarecer e definir totalmente as lacunas e contradições apontadas não só por Sérgio Moro, mas por toda a opinião pública do país.

Reação de Moro e delação de Palocci esvaziam a ação da Segunda Turma

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Delação de Palocci reforça provas contra Lula

Pedro do Coutto

Enquanto na terça-feira a Segunda Turma do STF decidia transferir para a Justiça de São Paulo os termos da delação da Odebrecht sobre o sítio de Atibaia, na quinta-feira o ex-ministro Antonio Palocci assinava acordo de delação com a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro reagia com tranquilidade, fazendo praticamente cair no vazio o episódio protagonizado pelos ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowiski. Para chegar a esta conclusão, basta comparar os fatos.

Reportagem de Jailton de Carvalho, edição de O Globo de ontem, destaca o acordo de colaboração firmado entre o ex-ministro da Fazenda e a Polícia Federal. E a delação de Palocci focaliza nitidamente vantagens destinadas ao ex-presidente Lula para que concluísse as obras do sítio de Atibaia, em relação ao qual sempre negou ser de sua propriedade, apesar das evidências em contrário.

MORO REAGE – Na tarde de ontem o juiz Sérgio Moro rebateu frontalmente a decisão da Segunda Turma do Supremo. E disse que o processo quanto ao sítio de Atibaia deve permanecer no foro de Curitiba, sobretudo porque vincula-se ao pagamento de propina pela Odebrecht e Andrade Gutierrez ao ex-presidente da República. Assim, é demolido o argumento da Segunda Turma de que o caso da corrupção na Petrobrás não se vincularia ao juízo da capital do Paraná. A Segunda Turma do STF, evidentemente, não contava com essa mais recente atitude de Antonio Palocci, e tão pouco esperava a reação contrária dos integrantes da força tarefa da Polícia Federal.

São coincidências, mas que revelam uma faixa de atrito percorrida pela Segunda Turma do Supremo, não resultando no afastamento do juiz Sérgio Moro. Moro resistiu à decisão e Palocci firmou o acordo com a Policia Federal, porém este acordo depende de homologação da Procuradoria Geral da República e de sua homologação pelo STF.

RESPOSTA IMEDIATA – Se o STF homologar as confissões do ex-ministro da Fazenda, estará atingindo duramente os três ministros da segunda turma que não levaram em conta a possibilidade de a delação de Palocci incluir a Odebrecht.

Se a Odebrecht for incluída na delação de Palocci, fica neutralizada completamente, sobretudo pela força dos fatos, a resolução da segunda turma da Corte Suprema.

Como se vê, a reação foi imediata e seus reflexos ainda não terminaram.

Segunda turma do Supremo não conseguirá anular a condenação de Lula

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Charge do Cazo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Num lance estratégico a defesa do ex-presidente Lula recorreu à 2ª turma do Supremo Tribunal Federal para retirar das mãos do juiz Sérgio Moro o processo a que ele responde por ter recebido recursos financeiros da Odebrecht para o sítio de Atibaia, cuja propriedade nega até hoje. A 2ª turma do STF é formada pelos ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Dias Tófoli, Edson Fachin e Celso de Melo. Fachin e Celso de Mello foram derrotados e Gilmar Mendes no final da sessão disse claramente que o julgamento pode dar margem a um recurso da defesa para estender a tese a outros processos contra Lula julgados por Sérgio Moro.

A matéria foi publicada com grande destaque pelo O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Sem dúvida foi uma derrota para a Operação Lava Jato, embora tenha sido atingido diretamente o juiz Sérgio Moro.

BOM SENSO – Entretanto é preciso separar as coisas, como foram separadas por Amanda Pupo e Rafael Moraes Moura, edição de ontem de O Estado de São Paulo. Direito é uma ciência que nasce do bom senso. Uma coisa é retirar de Moro a questão relativa ao sítio de Atibaia. Outra, muito diferente é anular a sentença pelo apartamento do Guarujá. A sentença condenatória por causa do triplex não pertence mais unicamente a Sérgio Moro. Ela foi objeto de recursoS ao Tribunal Regional Federal-4, que por unanimidade negou todos eles.

Assim, a decisão passou da segunda instância, não sendo a condenação abrangida mesmo indiretamente pela decisão da 2ª turma do Supremo. Inclusive uma das turmas do Superior Tribunal de Justiça já negou por unanimidade um habeas corpus requerido pela defesa de Lula.

CONDENAÇÃO VÁLIDA – Portanto, o que está valendo é a condenação do ex-presidente, no caso do apartamento, objeto de recurso ao Supremo que igualmente foi negado. Gilmar Mendes, assim, não tem base para tentar escolher um caminho a ser percorrido pela defesa. O que pode ocorrer é uma petição para troca de foro no caso de Atibaia e do Instituto Lula.

A mudança de foro de Curitiba para São Paulo, em sua essência, não altera a acusação feita contra o ex-presidente. Nem pode servir de precedente para que seja tornada sem efeito a sentença do TRF de Porto Alegre.

No caso do triplex, a defesa está confundindo a ordem de prisão expedida por Sérgio Moro com o julgamento do processo em si. São etapas diversas: primeiro, Sérgio Moro condenou Lula; depois o Tribunal Regional Federal ampliou a condenação. Não cabe, dessa forma, recurso contra a legitimidade do primeiro e do segundo julgamento. Não se ajusta, portanto o precedente de terça-feira na ação que continua se desenrolando nas instâncias superiores.

CABE RECURSO – Ou seja: pode caber recurso contra a segunda instância, mas não se pode tentar desqualificar o julgamento da primeira etapa. A defesa de Lula faz confusão entre o ato que o condenou com o ato que determinou sua prisão em regime fechado. São duas faces do problema.

É possível que a Procuradora Raquel Dodge recorra ao Plenário do Supremo para que seja revista a decisão da segunda turma.          Aliás, a divisão no Supremo Tribunal Federal entre correntes de pensamento está bastante nítida. Pouco nítida é a motivação que dá margem a tal realidade.

Ao liberar o PT na eleição, Lula encerra um ciclo na política brasileira

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Charge do Angeli (Folha)

Pedro do Coutto

Reportagens de Sérgio Roxo, O Globo, e de Julia Lindner e Ricardo Galhardo, O Estado de São Paulo,  edições de ontem, destacam a carta que o ex-presidente Lula da Silva dirigiu ao diretório nacional do PT, liberando o partido no processo de escolha do candidato à sucessão presidencial de outubro. A iniciativa causa surpresa, mas não creio que o ex-presidente tenha lançado a iniciativa como uma manobra pura e simples, em busca da unidade partidária. Não sou daqueles que, em política, acham sempre que alguma manobra por trás da aparência. Creio que, até certo ponto, Lula foi sincero consigo mesmo. Com a carta ele encerra um ciclo na política brasileira.

Um ciclo que começou em 89 e culminou com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Agora, de acordo com a perspectiva jogada no pano verde das eleições, Luis Inácio da Silva, ao que tudo indica, constrói as bases do lulismo sem ele próprio.

MUITOS VOTOS – Isso não quer dizer que o PT tenha dado adeus ao seu contingente de votos, na escala de 30% como o mais recente levantamento do Datafolha revelou. E isso não significa que o PT tenha perdido totalmente o poder de negociação, mas significa que Lula finalmente convenceu-se a si mesmo que se tornou inelegível. O espaço vazio no qual repousa a política partidária brasileira torna-se, assim, ainda maior do que já era. Os militantes petistas devem estar dando adeus às armas, o que não representa totalmente um adeus às urnas de outubro.

Armas e urnas são os únicos caminhos possíveis para alcançar-se o poder em qualquer país do mundo. O Brasil, graças a Deus, situa-se no caminho das urnas, contrapondo-se essencialmente à ideia das armas levantada por Jair Bolsonaro. Não que ele repudie as urnas pela conquista na qual se empenha. Mas sim pela linguagem extremista que motiva uma fração do eleitorado, mas assusta mais ou menos 80% dos brasileiros e brasileiras. Tanto assim que vem assinalando uma constante de 17 pontos a seu favor, muito pouco para decidir uma eleição nacional.  

Projetando-se a realidade de hoje num horizonte do amanhã, Bolsonaro salta do primeiro para o segundo turno. Mas não é só esta a questão.

LULA E O PT – A questão é que, liberando o PT, Lula acena com a possibilidade de uma ponte com alguns dos candidatos – menos, é claro, Jair Bolsonaro, que é o antiLula da campanha que vai se desencadear no país, e os concorrentes da direita.

 Na carta à direção nacional do PT, Lula acentua que sua renúncia abre campo para uma união dos partidos de esquerda, com tal afirmação eliminando também qualquer ponte com o PSDB e com o MDB de Michel Temer.

Na visão de Lula sua proposta deve reunir as esquerdas. Mas quais são elas? Na campanha, o posicionamento é uma coisa. Vitorioso o candidato, não se tem a mesma certeza. As pessoas mudam de posição. As esquerdas não se excluem deste fenômeno quando chegam ao poder. E desenvolvem uma ideia plena de contradição e de sarcasmo: passam a querer o conservadorismo capitalista para si e o esquerdismo reformista para os outros. Liberado por Lula, qual será o rumo do PT?

Partido Novo, de Franco e Amoêdo, é um sonho a mais de renovação

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Gustavo Franco não aguentava mais o PSDB

Pedro do Coutto

Em uma entrevista a Alexia Salomão e Flávia Lima, edição de ontem da Folha de São Paulo, o economista Gustavo Franco, que integrou as equipes econômicas dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Banco Central, lança as bases de atuação do Partido Novo, que tem como candidato a Presidente da República o empresário João Amoêdo. Gustavo Franco deixou o PSDB em 2017, decepcionado com os rumos da legenda. Ele sustenta que nas urnas de outubro serão escolhidos tanto para o governo quanto para o Congresso aqueles que efetivamente representem o signo da renovação.

O Partido Novo propõe-se a fixar uma linha de coexistência entre capital e trabalho, dando ênfase ao empreendedorismo. Segundo o ex-presidente do BC, que a sigla já possui 20.000 eleitores inscritos.

VAMOS SONHAR – Experiência econômica, é certo, não falta a Gustavo Franco, cultura financeira também não. Entretanto, o surgimento do Partido Novo parte de um sonho, talvez uma utopia, mas os sonhos também têm seu lugar no universo político. Afinal de contas, um sonho a mais não faz mal. Sobretudo nesta época em que pesadelos habitam os redutos políticos mais tradicionais.

Numa coisa Gustavo Franco tem razão: a eleição será norteada por aqueles que conseguirem traduzir principalmente o desejo coletivo da anticorrupção. Talvez se encontre neste ponto o motivo ou um dos motivos que levaram Gustavo Franco a se desfiliar do PSDB. Relativamente à luta de classes, diz que a periferia de São Paulo não a identifica no quadro, por achar que estão todos no mesmo barco. Curioso é o fato de Gustavo Franco ter destacado essa visão na periferia de São Paulo, quando o problema é nacional. Mas vamos em frente.

CENTRO AVANÇADO – Para Gustavo Franco, além do combate a corrupção, aqueles que criam emprego deveria ser mais valorizados pela legislação brasileira Esta ideia incorpora-se aos fundamentos do Partido Novo, de conotação voltada para os profissionais liberais e para o impulso ao empreendedorismo.

O ex-presidente do Banco Central considera-se um integrante de uma faixa ideológica que pode ser classificada como de centro avançado. Isso porque a legenda não é de esquerda e Gustavo Franco acentua que o candidato da centro direita é Geraldo Alckmin.

João Amoedo, digo eu, quase não aparece na recente pesquisa do Datafolha. Mas isso parece não incomodar a visão futurista de Gustavo Franco que, ao que parece, pretende transformar o pleito deste ano numa alavanca de lançamento para futuros episódios.

TUDO EM ABERTO – Franco não tocou no problema dos recursos financeiros indispensáveis para sustentar uma legenda partidária e tampouco admitiu a hipótese de o Partido Novo vir apoiar alguém no segundo turno marcado para 28 de outubro. Isso porque, como o Datafolha revelou, o quadro sucessório ainda se encontra em aberto.

A pesquisa feita à base da apresentação de listas nominais é uma coisa. Entretanto, quando o pesquisador indaga, sem expor a lista de nomes, em quem os eleitores pretendem votar, o vazio dos indecisos eleva-se à casa de 46%. Mas o estímulo faz parte das campanhas eleitorais e serão lançados, como sempre, através dos horários políticos nas emissoras de televisão e rádio.

O Partido Novo, claro, significa uma ruptura com o estilo tradicional que marca a política. Mas ainda se encontra verde. Precisa amadurecer suas ideias nos próximos seis meses.

Para quais candidatos devem ir os votos de Lula e também de Alckmin?

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Ao que parece, Alckmin já está fora do baralho

Pedro do Coutto

A pergunta pode parecer estranha, uma vez que Lula está fora do páreo eleitoral, mas Geraldo Alckmin é o candidato do PSDB. Entretanto, os sintomas apontam para o esvaziamento de sua candidatura, não bastasse o impacto negativo de Aécio Neves que prejudica a legenda, no final da semana passada ele se tornou alvo de inquérito aberto pelo Ministério Público. Além do inquérito, vieram à superfície delações de empresários que destinaram recursos financeiros não totalmente diluídos nos custos de sua campanha de reeleição em São Paulo. O impacto assim é muito forte e certamente vai abalar a relativa estabilidade que seu nome apresentou na mais recente pesquisa do Datafolha. Afinal de contas, 8% é uma faixa muito pequena para quem até já concorreu à Presidência da República.

Quanto a Luiz Inácio Lula da Silva, reportagem de Ana Virgínia Baloussier e Thaiza Pauluze, Folha de São Paulo, edição de domingo, destaca a opinião de vários eleitores e eleitoras do PT sobre a ausência do ex-presidente nas urnas de outubro.

SENSAÇÃO DE VAZIO – A pesquisa, realizada com a presença dos entrevistados na redação do jornal, no final apresentou uma sensação de vazio entre os adeptos do Lulismo. Ainda não se convenceram da possibilidade de irem às urnas sem que o nome de seu principal líder conste do quadro das eleições. O levantamento, entretanto, deixa em aberto a possibilidade da substituição de Lula pelo candidato que ele vier a indicar.

Quanto a esse candidato, os eleitores do Partido dos Trabalhadores tendem mais para Guilherme Boulos, do PSOL, à frente de Fernando Haddad e Jaques Wagner. Há uma explicação para isso: ao discursar na Sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo horas antes de se entregar à Justiça, o ex-presidente destinou de forma clara sua preferência por Boulos, chegando a prever que seu futuro na carreira política poderá ser marcado pelo êxito. Nesse ponto temos o indício de sua possível preferência.

COM MAIS CHANCES – Mas na hora do voto e do apoio, não parece possível que Lula deixe de negociar seus votos com o nome que julgar com mais possibilidade de vitória. Ele sentiu a realidade de que não é mais capaz de eleger um poste, como aconteceu com Fernando Haddad em 2016, que nem chegou no segundo turno.

Aliás, faz muito tempo que o presidente Juscelino Kubitschek, numa entrevista para o Correio da Manhã, disse a mim que uma das coisas mais difíceis na política é exatamente transferir votos. Razão pela qual ele se manteve praticamente neutro na campanha de 1960, quando Jânio Quadros derrotou o general Lott.

Hoje, examinando o passado, vejo com clareza sua opinião. Em 1945, Getúlio Vargas conseguiu eleger Eurico Dutra. Mas em 1947 ele foi a São Paulo apoiar Hugo Borges contra Ademar de Barros e foi derrotado.

DIFÍCIL MISSÃO – Transferir votos não depende só de quem oferece o apoio, mas também de quem o recebe. Relativamente a Geraldo Alckmin, seu declínio abre um espaço enorme para os eleitores de classe média que não se afinam com o programa de Jair Bolsonaro. Os eleitores do PSDB não se encontram, na maioria dos casos, no povão, ou seja, nos seguimentos de menor renda. A classe média, assim, vai ter que transferir seu impulso nas urnas para uma outra candidatura. Qual será a escolhida?, eis a incógnita.

Mas é uma incógnita também o apoio de Lula a Boulos , sobretudo porque o candidato do PSOL pode também não decolar. E Lula somente possui um lance para colocar seu plano em ação. Eleger um presidente e dele obter o compromisso de se empenhar para anistiá-lo, se tal solução se tornar possível. É um lance arriscado, mas é a única carta que o ex-presidente possui para colocar na mesa do destino.

As novas pesquisas do Datafolha e do Ibope devem focalizar os candidatos mais alternativos, tanto para Lula quanto para a direção do PSDB.

Estratégia vitoriosa de Bolsonaro só está valendo para o primeiro turno

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Charge do Thomate (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Reportagem de Rodrigo Rangel, Gabriel Castro e Marcela Matos, na Revista Veja que está nas bancas, focaliza nitidamente a estratégia organizada no twitter e em outras redes sociais em favor da candidatura de Jair Bolsonaro. Essa organização, que vem funcionando há mais de dois anos, consiste basicamente na ocupação de espaços elogiosos ao seu desempenho político, com grande frequência e entusiasmo. Os repórteres reuniram 10 exemplos de twitters, liderados por um conjunto de pessoas fisicas, todas voltadas em favor de seu nome e destacando suas qualidades. O projeto foi bem elaborado para dar ideia de que as manifestações são espontâneas.

A revista Veja contratou a Agência Exata, especialista em comunicação digital para analisar tanto o fenômeno quanto o processo.

TRABALHO BEM FEITO – A Exata chegou à conclusão de que as postagens se destinavam a influenciar o jogo político, uma vez que 70% das mensagens estavam voltadas para o único objetivo de proporcionar destaque a Bolsonaro, na medida em que exaltavam o caráter positivo de sua atuação.

A estratégia digital no apoio ao candidato do PSL revelou-se eficiente. Mas ela representa apenas uma fração do eleitorado: seu êxito nas urnas de outubro reside mais no mundo real das vontades do que no universo restrito aos seus adeptos.

A Veja relacionou 10 nomes que seriam os generais da campanha de Bolsonaro nas redes sociais, principalmente no twitter, embora Bolsonaro esteja presente também, ao que tudo indica, da mesma forma no Facebook.

Rodrigo Rangel, Gabriel Castro e Marcela Matos concluem ser esta a razão que mantém Jair Bolsonaro na liderança da pesquisa do Datafolha considerando-se o cenário sem Lula.

NA LIDERANÇA – Afastado o ex-presidente Lula em outras simulações, todas elas tem Bolsonaro liderando com 17%, seguido por Marina Silva 15%, vindo a seguir Ciro Gomes e Joaquim Barbosa com 9 pontos cada um. Entretanto, projetada a simulação para o segundo turno, Bolsonaro perde para Marina, Ciro Gomes e fica um ponto atrás de Geraldo Alckmin que registra 33%. O Datafolha não considerou o desfecho final se no segundo turno estiverem ele, Bolsonaro, e Joaquim Barbosa.

Em síntese, verifica-se, na minha opinião, o seguinte: pelo quadro atual Bolsonaro encontra-se com o passaporte carimbado para o segundo turno, marcado para 28 de outubro. Isso porque encontra-se à frente dos principais rivais.

ENFRAQUECIMENTO – Porém, no segundo turno sua posição sofre enfraquecimento. Tanto assim que fica atrás de Marina Silva e os principais adversários. Isso, repito, com base no quadro de hoje. Mas como a política é mutável rapidamente, pode se admitir que amanhã, por exemplo, verifique-se um crescimento menos visível de algum ou de alguns candidatos. Portanto, temos de esperar novos encadeamentos para opinar objetivamente sobre o processo global em torno da sucessão do presidente Michel Temer.

A situação de Geraldo Alckmin, para citar um exemplo, passou a ser mais vulnerável do que era até esta semana. Não só pela ação investigatória do Ministério Público, como também em consequência do desabamento da imagem pública do Senador Aécio Neves, com reflexo no PSDB. Os principais redutos tucanos, São Paulo e Minas Gerais, também os dois principais colégios de votos no país, foram atingidos em cheio por uma série de novas denúncias.

A partir daí o panorama pode sofrer modificações de porte. Não quanto a Bolsonaro, mas também em relação aos principais opositores do atual presidente da República. Isso porque explode uma possível aliança entre o Palácio do Planalto e o Palácio dos Bandeirantes. No meio do embate, como sempre, situa-se o eleitorado do país. Que vai às urnas em outubro, no dia 7 e depois no dia 28.

FHC lança mais um livro político inspirado na busca do tempo perdido

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FHC tem a pretensão de “reinventar a política”

Pedro do Coutto

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou na tarde de ontem em São Paulo mais um livro de sua obra, no qual defende a tese da reinvenção da política no Brasil. Entrevistado por Mariana Holanda e Eduardo Kattah, focalizou o momento atual que atravessa o Brasil, colocando em relevo a necessidade de várias fórmulas para retomar o rumo do desenvolvimento. A mim parece que sua ideia nasceu das reflexões de Marcel Proust em sua grande obra “Em Busca do Tempo Perdido”.

Cultura e elegância não faltam ao ex-presidente da República. A edição é da Cia. das Letras. Na obra, Fernando Henrique condena as posições de extremas direita e esquerda, talvez neste ponto baseando o equilíbrio de sua tese na simples lógica dos fatos. Ele também afirmou-se favorável a uma nova distribuição de renda sem a presença da ferocidade da riqueza.

REPERCUSSÃO – A reportagem de Mariana Holanda e Eduardo Kattah, foi publicada em O Estado de São Paulo. Os conceitos de Fernando Henrique Cardoso foram destacados também em ampla reportagem de Daniela Pinheiro e Plínio Fraga, revista Época que circulou ontem com a edição para assinantes de O Globo.

Fernando Henrique afirma que não se pode perder o otimismo, porque, se ficarmos só na crise, o país não vai para frente. Não se pode deixar evaporar o que já se fez, sobretudo para a democracia. FHC sustentou que o novo se impõe à realidade, porém o novo não representa uma pessoa, são os movimentos que ocorrem na sociedade brasileira. Estamos no início de uma nova era e isso implica em muitas mudanças. Quanto menor for o Estado, melhor para as empresas capitalistas. Mas não é só esta a questão em plena época da globalização.

Indagado por Daniela Pinheiro e Plínio Fraga sobre a candidatura de João Doria ao governo de São Paulo, FHC respondeu: “Não sei, não conheço. Não sei se ele é um outsider, porém no plano federal os candidatos devem conhecer a máquina pública e as grandes instituições do Estado”.

APOIO A ALCKMIN – Fernando Henrique Cardoso voltou a confirmar seu apoio a Geraldo Alckmin na sucessão presidencial de outubro: “Ele conhece a máquina e o funcionamento das instituições, mas é preciso tocar as pessoas. Sem tocar as pessoas, ninguém vence na vida.”

“Sobre Jair Bolsonaro, não sei o que dizer, nem o que ele vai dizer. Só sei que ele fala em mata! e ordem!”.  Diante da pergunta se existe um risco autoritário envolvendo o país respondeu: “Claro que existe, sempre existiu”. E indagou aos repórteres: “Vocês acham que o Trump não é um risco autoritário?”

A respeito da condenação de Lula FHC, afirmou: “Lula não é um preso político; é um político preso”.

O ex-presidente divagou sobre o passado, o presente e o futuro do Brasil, exatamente como Marcel Proust. “No Caminho de Swann”, “À Sombra das Raparigas em Flor”e “O Tempo Reencontrado” são as obras que completam o título “Em Busca do Tempo Perdido”, uma espécie de obsessão de FHC.

Marcelo Odebrecht, Pinheiro e Joesley, homens fatais de Nelson Rodrigues

Resultado de imagem para NELSON RODRIGUES FRASESPedro do Coutto         

Em sua ampla obra literária e teatral, nela incluindo suas memórias e confissões publicadas em O Globo, e a crônica “À sombra das chuteiras imortais”, coluna diária também em O Globo, Nelson Rodrigues criou personagens eternos e que, na realidade, muitas vezes nos deparamos com eles nas calçadas e nos sinais de trânsito, nos restaurante, nos cinemas.  Entre estes figura o homem fatal, personagem múltiplo de uma série de desfechos, exclamações e atos de sua obra.

Agora lendo as manchetes principais de ontem de O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, identifico o vulto de Joesley Batista, o homem que parecia fabricar e distribuir dinheiro e que nas suas intervenções na política e na administração federal, ao longo dos últimos quinze anos, projetou vendavais que abalaram profundamente o quadro político do Brasil.

MARCA INDELÉVEL – Joesley Batista deixou sua marca no BNDES, depois na Presidência da República e agora a fixa com tintas fortes em torno da imagem quase fantasmagórica do senador Aécio Neves. Joesley Batista vai ficar na história como um dos grandes vilões da República, outro personagem impressionista de Nelson Rodrigues, para desenhar perfis dramáticos com uso da imagem que os traduzia como vilões de cinema mudo.

O controlador da JBS, homem múltiplo, gravou diálogo com o Presidente Michel Temer, gravou telefonema com Aécio Neves. Filmou cenas da entrega de dinheiro para ser destinado ao ex-candidato a presidente da República. Não foi só isso. Filmou através de contato com a Polícia Federal a cena da noite paulista que teve como personagem principal Rodrigo Rocha Loures.

E OS OUTROS? – O empresário Marcelo Odebrecht internacionalizou a injeção de recursos financeiros sem prejuízo de atuação idêntica de largo porte na Petrobrás e em algumas obras que se tornaram palco da Copa do Mundo em 2014. Sua liberalidade, compensada largamente com recursos públicos, inundou o edifício da Petrobrás no centro do Rio de Janeiro. Esteve preso e negociou delação premiada.

Joesley Batista também negociou e está negociando novamente poder representar de forma mais convincente o papel de delator. E Leo Pinheiro, personagem que se destacou na reforma do apartamento do Guarujá, também disputa o prêmio de ator principal do vandalismo financeiro.

Vejam bem: levaram um ex-presidente da República a prisão, o atual presidente da República a dois processos no Supremo Tribunal Federal, cuja sequência foi barrada por uma engrenagem de articulações partidárias patrocinadas pelo Palácio do Planalto as quais custaram muito caro aos cofres públicos – ao Tesouro Nacional, portanto.

REVEZAMENTO – São fatos assim que, quando escrevo, tenho a certeza ou pelo menos a impressão de que os três personagens vão ter acesso a algumas páginas da História do Brasil. É isso mesmo: a imprensa, refletindo os fatos concretos do presente, passa o bastão do revezamento aos historiadores do futuro, àqueles que vierem depois de nós.

Churchill deixou uma frase exaltando os pilotos que levantaram voo para destruir no ar as bombas voadoras de Hitler. Disse ele: “nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.

O ritmo da frase me conduz  a dizer que nunca tão poucos roubaram tanto de todos os brasileiros.

Encerrando o capítulo, virando-se a página do tempo, ao destacar que Odebrecht, Pinheiro e Joesley são homens fatais que saem das linhas do grande dramaturgo para assegurar seu lugar na fase sombria da vida nacional. Antes de encerrar, lembro que Joesley Batista, ao comprometer Aécio Neves, esvaziou a candidatura de Geraldo Alckmin. As cortinas, entretanto, ainda não se fecharam.

Decisão do Supremo contra Aécio abala a campanha de Alckmin em Minas

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto

Sem dúvida, a decisão da 1ª turma do Supremo Tribunal Federal, estabelecendo a condição de réu no processo de corrupção envolvendo o Senador Aécio Neves e o empresário Joesley Batista, vai refletir diretamente na candidatura de Geraldo Alckmin  em Minas Gerais. Importante o fato, porque o estado de Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país. O ex-governador de São Paulo revelou à Globonews que tem como se desvincular do episódio na medida em que o PSDB afastou Aécio Neves da presidência da legenda. Ele relutou em sair, mas acabou saindo, porque sua posição tornou-se insustentável.

Como alguém pede um empréstimo de 2 milhões de reais e, ao invés de escolher o caminho do depósito bancário, prefere usar intermediários para receber o dinheiro?

Forte apelo – Os casos de corrupção têm forte apelo popular. Tanto assim que pesquisa do Datafolha publicada ontem na Folha de São Paulo, reportagem de Felipe Bachtold, revelou que 84% do eleitorado defendem a continuação da operação Lava Jato, embora apenas 57% achem que ela vai diminuir no país.De qualquer forma, como é lógico, a corrupção é amplamente impopular e, portanto, será um dos temas dominantes da campanha eleitoral deste ano.

O senador Aécio Neves ficou muito mal na foto, não há quem possa negar este aspecto, e com isso arrasta para baixo a legenda do PSDB, principalmente, é claro, em Minas Gerais. Como poderá o PSDB sentir-se confortável a lutar pelos votos nas urnas se o ex-candidato a presidente da República, um ex-governador de Minas atualmente senador pôde participar de um diálogo do tipo em que a gravação do controlador da JBS projeta. E a gravação foi exibida na semana passada pela Rede Globo e ontem na Globonews.

Foi um abalo muito grande. Tanto assim que Geraldo Alckmin disse ao repórter Gerson Camarotti que vai argumentar ter tomado a iniciativa de substituir Aécio Neves na presidência do PSDB. Coisas da política.

CAIU A FICHA – O governador Geraldo Alckmin caiu em si ao sentir a repercussão da decisão do STF contra um de seus principais correligionário e logo tomou uma posição que se pode classificar como totalmente contrária ao ex-candidato à presidência da República. Com isso o panorama da estrada para as urnas de outubro assume nova característica e passa a exigir uma nova leitura interpretativa.

Com a queda de Alckmin, inevitável, a quem os tucanos poderão recorrer na busca de votos?  Eis aí uma incógnita que nem o comando dos tucanos consegue hoje responder.

Com base no Datafolha, Joaquim Barbosa decola para uma campanha viável

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Barbosa mostra que tem chances de se eleger

Pedro do Coutto

Foi o que aconteceu no final de semana e ontem, na segunda feira. O Datafolha de domingo, edição da Folha de São Paulo, colocou Joaquim Barbosa com boa penetração junto ao eleitorado. Ontem, reportagem de Maria Lima e Geralda Doca,  em O Globo, destacou o ex-presidente do STF como um fator de peso nas urnas de outubro. Este são os fatos, mas a decolagem efetiva vai depender do próprio Joaquim Barbosa apresentar-se como candidato escolhido pelo PSB. As duas matérias proporcionaram um rumo novo à campanha eleitoral e Joaquim Barbosa passa a ser uma alternativa na disputa pelo Palácio do Planalto.

Maria Lima e Geralda Doca comentam que Barbosa  apareceu na pesquisa do Datafolha à frente de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes numa alternativa formulada para os quadros prováveis do embate e, portanto, do debate a ser travado até à chegada final nos dias 7 e 28 de outubro.

SEM CHANCES – O levantamento do Datafolha funcionou também para desestimular Henrique Meirelles, Flávio Rocha, Rodrigo Maia e Manoela D’Avila  em se colocar no panorama da sucessão. O mesmo se aplica a Paulo Rabelo de Castro, João Amoêdo etc. Mas esta é outra questão. O fato é que a manchete de página de O Globo sensibilizou parte pensante dos eleitores.

A base de Joaquim Barbosa foi estabelecida. O Globo fez com que ele decolasse. Era apenas uma distante promessa e passou a ser uma possibilidade. Ele traz consigo a batalha contra a corrupção, na linha que ele projetou no mensalão e Sérgio Moro seguiu no escândalo da Petrobrás.

GRANDE ELEITOR – Aliás, por falar em Sérgio Moro, pelo que se ouve nas ruas, o juiz federal pode se tornar o grande eleitor de 2018. Sua imagem é amplamente positiva e até sErve de exemplo de firmeza e integridade.

Com os episódios de domingo e segunda-feira, Joaquim Barbosa passa a ser procurado por seus correligionários do PSB e também de outros partidos que passaram a admitir aliança com ele. Agora o destino está traçado e o Datafolha mostrou a limitação de Jair Bolsonaro para o segundo turno. Nas simulações produzidas, ele perde para Marina Silva, Ciro Gomes e José Maria Alckmin. Alckmin, a 28 de outubro derrotaria Bolsonaro por 33 a 32. Faltou o Datafolha fazer a simulação entre Bolsonaro e Joaquim Barbosa. Mas o fato é que com o Datafolha e O Globo a estrada para o Planalto passou a ser mais movimentada.

DORIA E SKAF – Enquanto isso, em São Paulo, outra pesquisa do Datafolha, esta focalizando as eleições para o governo estadual, coloca João Doria e Paulo Skaf praticamente empatados. O ex-prefeito alcança 29 pontos e Skaf 31%.  O segundo turno em São Paulo parece restrito ao ex-prefeito da capital e ao presidente da Federação das Indústrias.

Luiz Marinho do PT, apoiado por Lula alcança apenas 7%. Fica atrás do novo governador Márcio França do PSB que se encontra com 8 pontos nas intenções de voto. O apoio de Lula não se fez sentir no lançamento de sua candidatura.

Coisas da política, que eternamente é marcada por contradições e ilusões.

A reportagem da Folha de São Paulo focalizado o quadro traçado pelo Datafolha é de autoria de Bruno Bogossian

 

Sem Lula, crescem Marina, Ciro e Joaquim Barbosa contra Bolsonaro

Resultado de imagem para pesquisa datafolha 15/04/2018Pedro do Coutto

Pesquisa do Datafolha publicada ontem pela Folha de São Paulo, reportagem de Ricardo Baltazar, revela que sem a candidatura de Lula crescem a de Marina Silva, Ciro Gomes e Joaquim Barbosa, enquanto Jair Bolsonaro mantém-se na dianteira com 17% das intenções de voto. Marina é a que mais se aproxima dele, registrando 15 pontos. Ciro Gomes e Joaquim Barbosa empatam com 9% cada um. O Datafolha apresentou diversos cenários, principalmente com Lula e sem Lula no páreo.

Mas, a meu ver, a alternativa de maior substância é a que exclui o ex-presidente, uma vez ter sido ele declarado inelegível pela Justiça Federal.

TRANSFERÊNCIA – O Datafolha assinala que, se candidato fosse, Luiz Inácio da Silva estaria na escala de 31% e que teria o poder de transferir 30% de seus eleitores para outra candidatura. Porém, não é bem assim. Se transferir para Fernando Haddad ou Jaques Wagner, proporcionará a um deles pelo menos dez pontos somente na corrida para as urnas de outubro. Portanto, dentre os candidatos mais viáveis, com ou sem o apoio de Lula destacam-se Marina Silva, Ciro Gomes e Joaquim Barbosa. Isso porque os demais estão muito fracos em matéria de perspectiva de voto.

O ex-governador Geraldo Alckmin, por exemplo, é o candidato de uma faixa que oscila entre 7 e 8%. Muito fraca pontuação. Afinal, o ex-governador de São Paulo situa-se muito abaixo de Marina e um pouco abaixo de Ciro Gomes e Joaquim Barbosa. Desempenho muito frágil para um governador que foi eleito em 2010 e reeleito no primeiro turno em 2014. A mim parece que sua candidatura não entusiasmou as bases do PSDB, seu próprio partido, ou então a legenda sofreu um desgaste muito grande com o episódio da gravação da conversa entre Aécio Neves e Joesley Batista.

MARINA EM ALTA?– Hoje, projetando-se o presente para o futuro próximo, Marina Silva é a que se encontra mais próxima de Bolsonaro, uma vez que o percentual a ela atribuído varia entre 15 e 16%, tecnicamente empatada com Bolsonaro. O Datafolha revela também que a percentagem de Bolsonaro permanece inalterada em todas as variações da pesquisa. Ele mantém-se no 17º andar.

Os dois têm chances de chegar no segundo turno de outubro. Esta é uma perspectiva. Mas pode haver surpresas. Um outro aspecto do levantamento é o de que nãi existe perspectiva alguma de êxito nas urnas para Michel Temer, Meirelles, Fernando Collor e o empresário Flávio Rocha, controlador da rede de lojas Riachuelo. Os percentuais de todos eles variam de 1 a 2 pontos. O ex-presidente do BNDES, Paulo Rabelo de Castro varia de 0 a 1%.

SALVA-SE ALVARO DIAS – Entre os que obtiveram percentuais mais baixos, salva-se o Senador Álvaro Dias com 5% das intenções de voto. A Deputada Manuela D’Avila encontra-se parada entre o 1º e 2º andar. O quadro básico das eleições, nesta fase, está traçado. Bolsonaro representa a extrema direita e como tal, enfrentaria em desvantagem qualquer um dos principais nomes. Entre Marina, Ciro e Barbosa, quem possui maiores possibilidades de projetar sua candidatura e disputar a presidência da República com o deputado Jair Bolsonaro? Esta, como disse o poeta, para mim, é a questão essencial.

Um dado importante da pesquisa – neste caso reportagem de José Marques – é quanto a capacidade de Lula, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer transferirem em votos aos candidatos que vierem a apoiar. Isso se vierem apoiar alguém, claro.

LULA, FHC E TEMER – Lula, como vimos, transfere 30% de seu potencial político. Mas em compensação, 52% não votariam no candidato indicado por ele, Fernando Henrique Cardoso transferiria 10%, mas sua preferência seria rejeitada por 66% do eleitorado.

Finalmente Michel Temer transfere 3% mas acarreta uma reação contrária também da ordem de 66 pontos, índice igual ao da rejeição de FHC.

Vamos aguardar o desempenho de cada um e a capacidade que tiverem de entusiasmar os eleitores. Quanto aos votos nulos e brancos  o panorama não é dos piores: apenas 19% estão dispostos a não votarem em ninguém.

Não faz sentido o foro especial para parlamentares envolvidos em corrupção

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Cármen Lúcia já agendou o julgamento do foro

Pedro do Coutto

A presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, pautou para 2 de maio a matéria que afasta a blindagem do foro especial para senadores e deputados federais envolvidos em casos de corrupção, portanto, em crimes considerados comuns. A queda do foro privilegiado abrange também ministros de estado acusados da mesma prática, ou de atos que não possuem vínculos com o desempenho de suas funções. O STF já colheu o voto de oito ministros para restringir o foro privilegiado. Faltam três a votar.

O julgamento iniciado em 2017 separa quanto aos parlamentares, os atos praticados com base na classificação comum daqueles que venham a acusá-los por atitudes, palavras e votos. A diferença é fundamental.

IMUNIDADE – O art. 53 da Constituição Federal, incluindo a modificação que lhe foi acrescentada pela emenda constitucional, 35 de 2011, redefiniu o conceito de imunidade. Antes, pela Constituição de 1946, os senadores e deputados possuíam imunidade em relação a quaisquer processos que lhe fossem destinados. Era preciso que a Casa a que o parlamentar pertencia fornecesse a licença para que fosse processado judicialmente.

Me lembro de alguns casos em que deputados e senadores foram acusados até de homicídio, em relação aos quais Câmara e Senado negaram a licença. Em relação aos deputados, cito o exemplo de Tenório Cavalcanti. Quanto aos senadores, lembro de episódio envolvendo Arnon de Melo, pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Já a Constituição de 88, que estabeleceu novas atribuições à Procuradoria Geral da República, terminou com a necessidade de licença para que o processo continuasse. 

NA CONSTITUIÇÃO – A Procuradoria Geral da República poderia receber a denúncia e dirigi-la à apreciação do Supremo Tribunal Federal. Encontra-se essa faculdade no art. 55 da CF, no qual se inclui o procedimento incompatível com o decoro parlamentar, neste ponto incluindo percepção de vantagens indevidas.

Na Carta Magna em vigor as atribuições da Procuradoria Geral da República estão acentuadas nos artigos 128 e 129. Houve um avanço, portanto, em relação à Carta de 46. A Carta de 46 tinha como objetivo principal blindar os deputados e senadores. Explico por quê.

Ela foi promulgada logo após a ditadura implantada por Getúlio Vargas com o golpe de novembro de 37 que criou historicamente o chamado de Estado Novo. Vargas fechou o Congresso, estabeleceu rigorosa e descabida censura à imprensa e restringiu direitos políticos de forma profunda, fixando como norma a impossibilidade de recurso à Justiça contra atos do Poder. Só escapou das restrições o Supremo Tribunal Federal. A ditadura Varguista foi deposta por ação militar a 29 de outubro de 45. As eleições realizaram-se a 2 de dezembro, 32 dias após o fim da ditadura de 8 anos. 

NA ERA DUTRA – Em 2 de dezembro de 45 foi eleito o presidente Gaspar Dutra, junto com deputados e senadores que elaboraram a constituinte promulgada em setembro de 46.  As eleições para governadores foi marcada para fevereiro de 47. A Constituinte reunia-se no Palácio Tiradentes e, temendo um novo ato contra seus integrantes, instituiu regras muito sólidas para evitar que deputados e senadores fossem processados.

Mas agora estamos diante do fim do foro especial. Deputados e senadores vão passar a responder na Justiça como qualquer outro cidadão envolvido em atividades ilegais. Uma dessas ilegalidades é a corrupção que abalou o Brasil e contribuiu para uma maior concentração de renda que ultrapassou os limites, no país. A população pagou seu custo. Aliás, ainda está pagando e muito alto.

 

No rumo da inadimplência, o mundo deve o dobro do que produz a cada ano

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Charge do Adão Iturrusgarai (Arquivo Google)

 Pedro do Coutto

Como disse em artigo anterior, o repórter Sérgio Tauhata revelou na edição de quarta-feira do Valor, 12 de abril, que a dívida global dos países do mundo, incluindo e populações atinge a soma estratosférica de 237 trilhões de dólares, de acordo com os dados do Instituto de Finanças Internacionais. Para se dimensionar esse valor enorme, basta compará-lo com o Produto Bruto Mundial, que em 2017 oscilou em torno de 100 trilhões de dólares, em números redondos. O montante da dívida explica as razões da concentração de renda do planeta, com destaque para o caso do Brasi,l objeto de reportagem de Cássia Almeida, O Globo de quinta-feira.

Se calcularmos o efeito dos juros anuais sobre a dívida mundial global, vamos nos deparar com outra soma assombrosa. Se a média anual de juros fosse a adotada pelos EUA teríamos a incidência da taxa de 1,5% em cima dos 237 trilhões de dólares, o que significaria aproximadamente 6 trilhões de dólares a cada doze meses. O PIB do Brasil é de 6,6 trilhões de reais o que aproximadamente significa 2 trilhões de dólares.

PROPORCIONALIDADE – Nesse ponto destaca-se uma proporcionalidade  O Brasil produz por ano 6,6 trilhões de reais, e tem uma dívida interna bruta de 4,5 trilhões de reais. Os EUA possuem uma dívida interna de 3 trilhões de dólares, o que representa apenas 15% do PIB do país.  Assim, enquanto a relação dívida interna-produto bruto, nos Estados Unidos é de 15%, a relação no Brasil é de mais de 70%. Esse resultado acentua ainda cores mais fortes ao impulso concentrador da renda em nosso país. E tal processo, como Cássia Almeida acentuou, atinge sobretudo os mais pobres.

E, a meu ver, o ciclo só poderá ser rompido a partir do momento em que a renda do trabalho poder ser reajustada acima da taxa inflacionária, enquanto a renda atribuída ao capital financeiro estivesse empatando com índice de inflação. Mas tal condição é impossível de ser alcançada, uma utopia que atravessa os milênios e que vai muito além dos 2018 anos da era cristã.

FACE SOCIAL – Jesus Cristo, maior figura da humanidade, dividiu o tempo entre antes e depois dele. Deixou uma mensagem eterna no sentido de valorizar o ser humano. Suas palavras, assim, permanecem eternamente atualíssimas. Mas a face social do mundo é outra questão.

O fato predominante na realidade é o esforço não muito aparente de concentrar a renda e não  distribui-la pelo menos em 1% a/a. Este ponto de vista, claro, contraria a mão de tigre do mercado pesando sobre o destino do planeta. O pesquisador francês Thomas Piketti, na sua obra “O Capital no Século XX”I focaliza o tema e critica o peso do capital financeiro na problemática social.

LEIS DO MERCADO? – É curioso verificar-se que a elite dos economistas refira-se sempre às leis do mercado. Percebe-se que se trata do mercado financeiro, mais do que atividade econômica produtiva de alcance mais amplo.

É isso. Aproveito para agradecer o comentário-artigo de Flávio José Bortoloto neste site, edição de quinta-feira.

Se Palocci quer mesmo fazer delação, como pode pretender habeas corpus?

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Charge do Humberto (Folha/PE)

Pedro do Coutto

O Supremo Tribunal Federal decidiu ontem por 7 votos a 4 negar o habeas corpus requerido pela defesa do ex- Ministro Antonio Palocci, que, paralelamente está propondo à Polícia Federal uma delação premiada. Na minha opinião, uma atitude colide com a outra, pois na medida em que propõe colaborar com as investigações através de seus conhecimentos secretos, confessa tacitamente sua culpa no mar da corrupção. Se busca a redução de sua pena, através do pacto com a PF, dificilmente poderia obter a concessão do HC pleiteado. A votação de quarta-feira contrária a ele foi por 6 votos a 5 e a de ontem foi por 7 votos a 4. Há uma diferença. Explico por quê.

Na quarta-feira o debate concentrou-se em torno da aceitabilidade básica do recurso. Foi negada, mas com a ressalva de que o relator, ministro Edson Fachin, poderia colocar o habeas em votação na sessão de ontem. Foi o que aconteceu.

FATOS DIFERENTES – A alteração do voto foi do ministro Celso de Melo, que, numa explanação primorosa, traduziu o problema em termos objetivos e concretos. Destacou a separação que deve prevalecer entre um fato e outro, entre um julgamento e outro. Por exemplo, digo eu, o habeas corpus pedido por Palocci não é igual ao habeas corpus solicitado por Paulo Maluf.

Se todas as causas fossem iguais, não haveria necessidade de se estabelecer a diferença entre um condenado e outro, entre um acusado e outro. Sem dúvida, entretanto, a decisão de ontem por 7 votos a 4 reduziu as esperanças do ex-presidente Lula de vir a ser beneficiado por uma decisão que o conduza à liberdade. Foi igualmente um aviso aos condenados em primeira e segunda instâncias sobre as dificuldades de obterem habeas corpus junto ao STF, medidas que são o único caminho, a meu ver, para reconduzi-los a vida normal em sociedade.

SINALIZAÇÃO – O Supremo sinalizou claramente qual seu entendimento e não há perspectiva alguma de em casos semelhantes ao de Palocci, poder chegar a um resultado diferente da decisão de ontem.

No início do artigo e no título, aludi a negociação de Palocci com a Polícia Federal. Ela está exposta com destaque na reportagem de Jailton de Carvalho, publicada na edição de ontem de O Globo.

AINDA A DÍVIDA – Ontem, neste site, eu disse que comentaria hoje o estoque global das dívidas existentes no mundo, que somam 237 trilhões de dólares. Mas achei mais imediato abordar o desfecho ocorrido ontem na Corte Suprema.

As dívidas mundiais são as tomadas pelos governos de mais de uma centena de países com os bancos internacionais. Deixo novamente para amanhã.

Porém, 237 trilhões de dólares são mais que o dobro do produto bruto mundial, que oscila em torno de 100 trilhões de dólares por ano.

Uma pergunta ao IBGE: como são calculados os preços dos supermercados?

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Excelente reportagem de Daniela Amorim, edição de ontem de O Estado de São Paulo, destacou a surpresa causada pelo IBGE ao divulgar que a inflação relativa ao mês de março só avançou milimetricamente na escala de 0,09%. O IPCA do mês passado foi o menor registrado desde 1994, quando o Presidente Itamar Franco implantou o Plano Real. A surpresa pode parecer agradável aos consumidores, especialmente no que se refere ao setor de alimentação. O avanço nos alimentos foi ainda menor do que o índice mensal geral de 0,09%. Com isso a inflação acumulada ao longo de 12 meses ficou em 2,7%.

A reportagem de Daniela Amorim registra que o aumento médio dos produtos alimentícios cresceu somente 0,07 em março último. Para identificar o acréscimo pode-se dizer é necessário usar uma lente de aumento.

DANÇA DOS PREÇOS – Entretanto, na dança de preços existem os valores mínimos e médios, além dos valores máximos de cada produto. Explico: Se a pesquisa se basear nos preços mínimos, então podemos chegar a um resultado igual ao que o IBGE apresentou. Todos os consumidores podem praticar os preços mínimos, sem dúvida. Mas, para isso vão precisar percorrer, a cada vez, de três a quatro supermercados. Isso porque se existe uma estratégia de compra, à base dos menores preços oferecidos, existe também uma estratégia de venda para atrair o consumidor ou a consumidora.

Tomei conhecimento desse fato há muitos anos, quando, repórter do Correio da Manhã, fui cobrir uma exposição que reunia dirigentes e controladores dos maiores supermercados da época. Eram então as Casas da Banha, o Disco, Gaio Marti além de algum outro que não me ocorre no momento. Cada controlador falou sobre seus programas, entre eles Venâncio Veloso, das Casas da Banha.

ESQUEMA – Quando o tema deslocou-se para o plano da publicidade, Veloso deixou claro o seguinte: as compras de atacado eram feitas por lances que variavam de acordo com as propostas. Assim, quando um supermercado vencia o lance de comprar grande estoque de um produto, reduzia o preço no varejo.

Vamos a exemplos concretos.Quando um supermercado reduz o preço do feijão, eleva o do arroz, da batata, do tomate. Outro supermercado que apostou no arroz, passa a oferecer o preço mais baixo que os concorrentes, porém em contrapartida majora o preço do feijão. Estou me cingindo a uma simplificação para dar ideia da sofisticação de tal comportamento no conjunto dos preços divididos pelos supermercados.

É UMA ILUSÃO – Não há dúvida de que existem preços mínimos. Mas os consumidores não vão poder ir a três ou quatro supermercados em cada compra. O pesquisador do IBGE pode, pois este é seu trabalho. Então, quando um grupo de pesquisadores se reúne, há possibilidade de predominar a escala dos mínimos e não o estabelecimento de uma média. Além disso, tem que se considerar o esquema de preços primeiro com base na média algébrica, para depois chegar-se a média aritmética. Vários supermercados destacam-se no Rio de Janeiro e investem fortemente em publicidade.

Não quero dizer que o sistema que proponho não seja o utilizado pelo IBGE. Estou apenas perguntando, uma vez que estou entre a multidão de pessoas surpreendidas pela inflação mínima registrada em março.

Gostaria de receber a opinião de Flávio José Bortoloto, inclusive sobre a distinção entre a cesta básica e os produtos considerados supérfluos.

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O MUNDO DEVE  237 TRILHÕES DE DÓLARES      

O jornalista Sérgio Talhata publicou no Valor de ontem que as dívidas acumuladas no mundo se elevam a 237 trilhões de dólares. A informação é do Instituto de Finanças Internacionais. Esse valor é 11 vezes maior que o Produto Bruto do universo.

Escrevo sobre isso amanhã.  

Maioria apoia prisão de Lula, mas deseja que se estenda a Temer e Aécio

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Três homens e um mesmo destino — a cadeia

Pedro do Coutto

Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, objeto de reportagem de Gabriela Varella, edição de ontem de O Globo, aponta que nos últimos dias foram colocados nas redes sociais um milhão e setenta e sete mil postagens sobre a decisão do Supremo, das quais 26% afirmaram-se a favor da decisão do Supremo e 17% contrários. Para 42% a medida deveria ser estendida ao presidente Michel Temer e ao senador Aécio Neves. Mas trata-se de uma manifestação espontânea que, na minha opinião, nada tem a ver com as eleições. 

A pesquisa expôs uma tendência, ao acentuar que os 42% manifestaram-se com ceticismo quanto aos efeitos do combate a corrupção. Não é minha opinião, mas foi o que o trabalho dirigido por Marco Aurélio Ruediger revelou. Leva ao pensamento interpretativo de que para 42% o desfecho no STF só seria completo se abrangesse o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves. Por falar em Aécio Neves, seu julgamento pela Corte Suprema foi marcado para o próximo dia 17. 

REDES SOCIAIS – O levantamento destaca a presença marcante da corrupção na opinião dos que postaram mensagem nas redes sociais sobre o cenário desenhado na semana passada no país.  Dá para considerar que para a esmagadora maioria da opinião pública o tema corrupção marcará os debates decisivos da campanha para a presidência da República nas urnas de outubro. Isso porque todos os candidatos, sem exceção vão falar na importância essencial do emprego, da saúde, da educação e da segurança. Não podem de maneira alguma esquecer essas escalas essenciais destacadas na voz comum da população.

Porém, quanto à corrupção, sem dúvida ela será condenada nos programas de TV, mas nem todos que a condenarem vão obter credibilidade junto à opinião pública. A diferença entre a voz e o voto vai assinalar essa passagem da formalidade ao verdadeiro conteúdo concreto da condenação. Tenho a impressão de que o combate a corrupção, em teoria reflete um sentimento geral, mas na prática a tradução pode ser outra menos intensa do que essa revelada pela Fundação Getúlio Vargas.

QUADRO INCOMPLETO – A FGV balizou u panorama de forma bastante nítida, sem dúvida. Mas o quadro que ressalta não está totalmente completo, porque dificilmente os integrantes das classes D e E se preocupariam em postar mensagens na rede fascinante da internet. Entretanto, foi o que a pesquisa da FGV revelou e, no jornalismo, não se pode brigar com os fatos. Aliás, para falar mais claramente, em nenhum setor da atividade humana pode-se entrar em conflito com a realidade.

Quanto à prisão de Lula e a vontade de que se estenda a Michel Temer e Aécio Neves, uma coisa não desqualifica a outra. Pois não se trata de tudo ou nada. O fato de o presidente da República e do senador estarem em planos diferentes daquele em que Lula se encontra não significa apoio à corrupção.

A FGV provou que, acima de tudo, a corrupção é amplamente condenada. Ainda bem.

Não tem lógica o Supremo tomar uma decisão e revogá-la na semana seguinte

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto                

Reportagem de Fausto Macedo, Breno Pires e Daniel Weterman, edição de ontem de O Estado de São Paulo, destaca que o PT está fazendo pressão sobre o Supremo para que amanhã anule a decisão que tomou na quarta-feira passada e modifique sua jurisprudência para permitir que os condenados em segunda instância possam recorrer a instâncias superiores em liberdade. O ministro Marco Aurélio Mello anunciou que, de fato, vai colocar em mesa seu voto quanto a um recurso de habeas corpus do qual é relator. Penso eu que será difícil tanto ao PT quanto ao ministro Marco Aurélio obterem êxito, porque, simplesmente, não faz o menor sentido a Corte Suprema chegar a uma conclusão no dia 4 e alterá-la no dia 11 de abril.

Não faz sentido tampouco,  como deseja a senadora Gleisi Hoffmann, que a Ministra Rosa Weber mude seu voto de ontem para um novo voto amanhã. A reportagem publica declarações da presidente do PT nesse sentido.

EFEITO CONTRÁRIO – Se Gleisi Hoffmann vem a público anunciar que a pressão exercida poderá alterar o comportamento da ministra, creio de sua iniciativa certamente causará o efeito contrário. Mas não é esta apenas a questão.

É que, se revogada a prisão em segunda instância, esta escala do Judiciário perderá totalmente a importância, deixando de ser decisiva nos patamares judiciários. Sua condenação nada significará, a não ser apenas uma escala burocrática da série de recursos apresentados pelos réus unidos penalmente.

E não é só isso. Se anulada a prisão em segunda instância, todos os condenados (e não só eles, também os presos , de modo geral), automaticamente passarão a poder recorrer em liberdade.

EXTENSA RELAÇÃO – É fácil verificar a extensa relação dos que se encontram presos por corrupção. Porém é muito mais trabalhoso chegar-se à relação de todos os criminosos que se encontram presos e que foram julgados tanto na primeira quanto na segunda instância. Uma simples questão de bom senso, que é, na realidade, a fonte do direito.

Isso porque, se os condenados em segunda instância mantiverem sua liberdade, poderão almejar a prescrição dos crimes, mediante a busca de recursos sucessivos. Se derrubada a jurisprudência todos os presos que estão recorrendo das condenações poderão se beneficiar da nova interpretação da Suprema Corte.

O número dos que serão libertados certamente ultrapassa a casa de mais de 11 mil criminosos já condenados pela segunda instância, que se torna uma escala mínima em importância. Portanto, não têm lógica as iniciativas tanto do PT quanto do ministro Marco Aurelio Mello.

Lulismo sem Lula tornou-se religião que representa uma fonte de votos

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Militantes petistas demonstram fervor religioso

Pedro do Coutto

As manifestações que se realizaram em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos, acrescidas das reações no aeroporto de Congonhas e na chegada a Curitiba, no episódio que marcou finalmente a prisão do ex-presidente Lula, deixaram claro, a meu ver, um panorama duplo, o qual se pode definir dividindo-o entre uma seita religiosa e uma usina de votos. Como toda seita religiosa, predomina um dogma, que se reflete em acreditar numa versão, desprezando-se todas as outras.

Um dogma resulta de uma aceitação plena que parte do impulso, para se acreditar em algo que pode esbarrar ou não na realidade dos fatos. Uma fonte de votos é diferente.

NOVO CAPÍTULO – Enquanto nas ruas de São Bernardo do Campo estavam presentes milhares de adeptos, dispostos a acreditar em todas as palavras e contextos desfechados enfaticamente pelo ex-presidente da República, em cima do caminhão de som onde Luiz Inácio da Silva discursou arrebatadamente ao longo de 55 minutos, reunia-se também um grupo de políticos e candidatos que faziam coro à sua voz e tentavam convencer a si mesmos de que todos os acusadores mentiram para prejudicar Lula.

Estabelecia-se, assim, um novo capítulo no drama que culminou com o ingresso do condenado na sede da Polícia Federal em Curitiba.

Francamente, quem seria capaz de acreditar na versão de que Sérgio Moro mentiu, que os integrantes do Ministério Público mentiram, os três desembargadores do TRF-4 mentiram, os cinco ministros do STJ que por unanimidade negaram-lhe o recurso interposto também mentiram? Só ele, Lula, falava a verdade.

EM SÃ CONSCIÊNCIA – Pessoa alguma, em sã consciência, não pode acreditar que o apartamento do Guarujá não seja de Lula. E não pode acreditar que Leo Pinheiro, da OAS e Marcelo Odebrecht mentiram contra ele.

Afinal de contas, para Lula, na sua versão dogmática todos mentiram através de um complô para condená-lo. Mentirosa também, para Lula, é a Operação Lava Jato, que revelou a corrupção na Petrobrás. Para Lula, não houve a divisão das diretorias da estatal por indicações do PT, MDB, PP e PR.

Todos estão mentindo, a fim de impedir que ele volte, pelas urnas a governar o Brasil. Em matéria de falsificação dos fatos, portanto, Lula atingiu o auge. Ficou sozinho de um lado, e todos contra ele. Só podem acreditar nisso pessoas tocadas por um forte sentimento de seita religiosa.

VOTOS ADORMECIDOS – Mas falei também nos que visam captar nas urnas de outubro votos adormecidos na faixa ocupada pelo Partido dos Trabalhadores. Assim, o Lulismo sem Lula se divide: de um lado os hipnotizados por suas palavras e por sua personalidade; de outro lado, aqueles que não acreditam em uma palavra que ele disse, mas fingem apoiá-lo nas exclamações do alto do carro de som, para se tornarem herdeiros de um potencial devotos nada desprezível.

Neste caso encontram-se Guilherme Boulos, Jandira Fegali, Gleisi Hoffmann, Fernando Haddad, Humberto Costa, Lindbergh Farias, além de muitos outros que representam a mesma corrente de pensamento em que politicamente buscam arrebatar para si votos que transcorrem no rio do lulismo.

Evidentemente, o eleitorado brasileiro não se encontra em nenhum dos dois lados. Mas vai às urnas daqui a seis meses decidir o governo do país.

No discurso final, Lula tentou impor sua versão contra a realidade dos fatos

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Lula insistiu na tecla: todos mentem, menos ele

Pedro do Coutto

No meio da odisseia em que se transformou a apresentação de Lula à Polícia Federal, o ex-presidente da República, ao discursar no carro de som estacionado em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos, tentou impor sua versão fantasiosa contra a realidade dos fatos. Ele afirmou que todos aqueles que o acusaram e condenaram estão mentindo, só ele está falando a verdade. Delírio absoluto, ainda que seja para refortalecer a legenda do PT da qual se afasta ao alçar voo para Curitiba. Tal processo de autoconvencimento, entretanto, apresenta uma contradição.

Ele disse que Sérgio Moro está mentindo, que os Desembargadores do Tribunal Regional Federal-4 estão mentindo, que os Ministros do Superior Tribunal de Justiça também estão mentindo. Mas cometeu uma omissão em sua sequência ilógica. Sua fantasia de ontem, sábado, estranhamente esqueceu de incluir no rol dos “mentirosos” os empresários que participaram ativamente da teia de corrupção na qual infelizmente, para si próprio e para o país se enredou.

OS DENUNCIADORES – As acusações mais fortes contra si partiram de Leo Pinheiro, da OAS, e de Marcelo Odebrecht. A que atribuir a sombra da omissão? Também não incluiu como fugitivos da verdade os ministros do Supremo Tribunal Federal que lhe negaram o habeas corpus capaz talvez de conduzi-lo à estrada das urnas de outubro.

Por falar em estrada das urnas, no seu discurso de 55 minutos forneceu surpreendente destaque a Guilherme Boulos, candidato do PSOL à sucessão de Michel Temer. Referiu-se também, mas com menor intensidade a Fernando Haddad e Manuela D’Avila.  Não citou Ciro Gomes. A omissão talvez se deva ao fato de o pré-candidato do PDT não se encontrar presente nas manifestações que se desenrolaram da noite de sexta-feira à noite de sábado.

ENFIM, CURITIBA – A espera da apresentação foi longa, porém Luiz Inácio da Silva acabou levado para Curitiba. Supera-se assim mais um capítulo da história que não deixará bem o ex-presidente na memória do país. No fundo, Lula prendeu-se a si mesmo. Tornou-se um enigma talvez até para ele próprio. Porque um homem que disputou 7 eleições presidenciais, direta e indiretamente, perdendo três confrontos e vencendo quatro, todos hão de pensar que viesse a obter um espaço positivo na memória futura do tempo.

Com o voo para Curitiba, na minha opinião ele se afasta do PT, embora não seja isso o que posam pensar seus inflamados correligionários das horas que passaram com ele em São Bernardo do Campo no vão esforço de impedir sua prisão.

INFLUÊNCIA DE LULA – No alvorecer de hoje, domingo, na capital do Paraná ele talvez interprete melhor o quadro que se criou em torno de sua figura. O PT seguirá sem ele, mas ele demonstrou possuir uma influência eleitoral muito acima dos 10 pontos percentuais dos votos. Sua sucessão será preenchida na legenda, isso porque em política os espaços vazios são preenchidos rapidamente. Alguém o sucederá.

No anoitecer de ontem provavelmente alimentou uma esperança de Lula: a de na quarta-feira o Supremo acolher ação de constitucionalidade de Marco Aurélio Melo e recolocá-lo na liberdade que ele mesmo, com seus atos serrou as portas para si próprio. Uma nova fase se inicia no Partido dos Trabalhadores. As urnas de outubro vão redefinir o rumo da legenda.