Delação de Santana e Mônica reduz o campo de defesa de Temer no TSE

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Charge do Clayton (Charge Online)

Pedro do Coutto 

Com a decisão do ministro Edson Fachin de homologar o acordo de delação premiada proposto pelos marqueteiros João Santana e Mônica Moura, o Tribunal Superior Eleitoral deverá decidir pela anulação da vitória, em 2014, da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer nas urnas de 2014. Isso porque, se o relator da operação Lava-Jato no Supremo validou a delação, é porque tacitamente considerou seu conteúdo como uma das peças decisivas no esquema de corrupção que abalou a Petrobrás e o próprio país.

A matéria foi bem destacada, em O Globo, pelos repórteres Carolina Brígido, André de Souza, Letícia Fernandes e Renata Mariz, e na Folha de São Paulo pelas repórteres Letícia Casado e Bela Megali. As duas matérias integram as edições de quarta-feira

SEM BASE – Dessa forma, a defesa do presidente Michel Temer, ao contrário da defesa da ex-presidente Dilma Rousseff, não pode ter base na tese da negativa, uma vez que o ministro Edson Fachin homologou a delação. Resta ao presidente da República a tese original da separação das contas realizadas na campanha.

A materialidade da denúncia foi patenteada na medida em que o relator da operação Lava-Jato na Corte Suprema aceitou incluir a delação no processo que tramita na Corte Suprema.

O adiamento da decisão, estabelecido na audiência de terça-feira no TSE, resguarda o mandato do presidente da República, mas até quando os adiamentos poderão se suceder sem que isso abale a posição política do Palácio do Planalto.

TUDO CONFIRMADO – Afinal de contas, João Santana e Mônica Moura, por sua vez confirmam o conteúdo de outras delações, estas por parte de ex-executivos da Odebrecht. O problema assim se complica para o presidente da República. É de se acreditar que a decisão final do caso, que poderá deslocar-se para o Supremo Tribunal Federal não atingirá um grau capaz de afastar Michel Temer de Brasília. Mas acrescentará um problema a mais para a presidência da República, em meio a dificuldades inevitáveis que vão surgir com a reforma da Previdência Social e com a reforma trabalhista.

A tese da separação das contas, por paradoxal que pareça, está sendo colocada no debate pelo PSDB, por ironia do destino, autor da ação que se propõe a anular o resultado das urnas de 2014. O adversário de ontem tornou-se o aliado de hoje. Coisas da política.

Pezão atrasa três meses o pagamento dos aposentados e pensionistas do Legislativo

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Além do atraso causado pelo parcelamento dos vencimentos do funcionalismo do Estado do Rio de Janeiro, o governador Luiz Fernando Pezão há dois meses retém os recursos financeiros para o pagamento dos aposentados e pensionistas do Legislativo do Rio de Janeiro. Com isso os aposentados e pensionistas do Legislativo enfrentam hoje um atraso de dois meses.

Somando-se o não pagamento até hoje do 13º salário de 2016, os aposentados e pensionistas da ALERJ sofrem um atraso efetivo de três meses nos seus pagamentos. Não obtendo nenhuma resposta do Executivo, os inativos do Legislativo vão se reunir as 10 horas da manhã da próxima quinta-feira para traçar um plano de ação no sentido de que a lei seja cumprida. O mais provável, sem dúvida é entrarem com recurso à Justiça. Como, aliás, foi o caminho adotado pelo Judiciário estadual.

ATRASO ROTINEIRO – O mais preocupante para os aposentados do Legislativo é o fato de o atraso prolongar-se além da situação atual e se transformar numa rotina ou numa prática que pode levar a um tempo indeterminado. Afinal de contas, os compromissos mensais que todos têm que enfrentar não esperam pela liberação das verbas constitucionais e assim crescem na medida em que qualquer adiamento acarreta desembolso de juros inevitáveis.

O Estado do Rio de Janeiro, como todos sabem, está mergulhado em problemas que vão da corrupção à inércia administrativa, refletindo nos níveis da arrecadação de impostos. Mas o funcionalismo público não tem culpa de tal situação e deseja somente que lei seja cumprida e os salários pagos em dia. Absolutamente lógica, portanto, a reação do funcionalismo, que deseja apenas receber seus salários em dia.

ANGÚSTIA – Outro aspecto preocupante decorre da falta de informação do Palácio Guanabara levando os atingidos pelo descumprimento da lei a uma situação de angústia. Com isso, inclusive o governador Luiz Fernando Pezão concretiza para a queda obrigatória do consumo desses servidores, o que contribui também para a redução da receita estadual.

Fica registrado, assim, mais um problema entre tantos outros que envolvem o Poder Executivo do Rio de Janeiro.

Governo Temer enfrenta tendência de queda acentuada, segundo o Ibope

Charge do Amarildo amarildo.charge.wordpress.com)

Pedro do Coutto

Um dos ângulos contidos na pesquisa que o Ibope realizou para a Confederação Nacional da Indústria sobre a aprovação e reprovação do governo Michel Temer junto à população refere-se ao fato de o resultado assinalar uma tendência. A Folha de São Paulo, edição de sábado focalizou o tema. Chama atenção o fato de em setembro de 2016 a reprovação ao governo ter sido de 39 pontos, passando a 46 em dezembro e agora ter atingido 55%. Isso de um lado. De outro, os que achavam o governo regular eram 35 em dezembro e hoje são 31%. Enquanto isso diminuiu de 13% para 10% a faixa da opinião pública que considera o desempenho do Executivo como bom e ótimo.

Portanto, o levantamento assinala uma tendência geral que reflete a insatisfação popular. E o registro das tendências é um ângulo extremamente importante das pesquisas. Isso porque serve de aviso para que os rumos políticos sejam alterados, uma vez que a sociedade está reagindo desfavoravelmente ao desempenho do governo.

MUDANÇA DE RUMO – Nesse cenário inclui-se um aviso importante para o Palácio do Planalto: o de que há necessidade de alteração de rumo e apresentação de projetos capazes de ir ao encontro das reivindicações populares.

O desemprego, por exemplo, alcança índices assustadores e tal fenômeno contribui fortemente para tornar a imagem negativa do governo. A reforma previdenciária torna-se, sem dúvida num grande fator de desgaste governamental. Mais até do que a reforma trabalhista. Portanto, quando a reforma previdenciária passar à discussão aberta no Congresso, o Governo sentirá o reflexo negativo envolvendo sua ação. Afinal, qual a pessoa que pode ser favorável a uma redução de direitos, sem discutir o mérito final da iniciativa?

SEGUIRÁ EM QUEDA – Diante de um panorama de perda e popularidade a presidência da República, através da pesquisa do IBOPE, recebeu um aviso. Se não alterar seu desempenho no plano social, continuará a perder pontos junto à opinião pública.

O aspecto mais importante nas pesquisas de opinião é exatamente o registro das tendências. Algumas apontam para cima, outras apontam para baixo. Quando isso ocorre, há necessidade de mudança de rumos.

Ibope expõe desprestígio do governo Temer junto à opinião pública

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Charge do Mário Rasec (Carta Potiguar)

Pedro do Coutto

Pesquisa do Ibope divulgada ontem pela Rede Globo e pela Globo News trouxe à tona o fato de o presidente da República não ter sido assimilado pela opinião pública no início de seu governo. Tal fato pode acrescentar mais uma dificuldade a aprovação, pelo Congresso, de seu projeto de reforma constitucional da Previdência.  O Ibope destacou que 10% consideram o governo na escala de bom e ótimo. Muito pouco, pois 55% o classificam entre ruim e péssimo, 31% o consideram apenas regular, uma forma de não aceitar nem rejeitar sua atuação. 4% não souberam ou quiseram opinar.

Importante em pesquisas deste tipo são as afirmações de ponta. Tenho um critério de dividir o maior pelo menor e a partir daí identificar o índice positivo ou negativo. Uma outra pergunta a pesquisa destaca que 79% não confiam no presidente Michel Temer.

PREVIDÊNCIA – Esses resultados certamente vão influir para que surja mais um obstáculo ao projeto de reforma da Previdência. Isso porque o tema só pode acrescentar mais reações contrárias de parte da opinião pública, Sobretudo porque a pesquisa do Ibope foi divulgada conjuntamente com informação do IBGE que apontou o crescimento do número de desempregados de 13,2 milhões para 13,5 milhões de pessoas, o que evidentemente só pode contribuir para abalar a credibilidade do governo.

A reforma da Previdência encontra assim mais um obstáculo a sua aprovação, valendo lembrar que terá que alcançar 2/3 dos senadores e deputados federais. Não será tarefa fácil, devendo lembrar que as reações contrárias, como a passeata de sexta-feira na Avenida Paulista vão crescer ainda mais quando a matéria se aproximar de sua votação.

ANO ELEITORAL – O ano de 2018 é um ano eleitoral em que os deputados e 1/3 dos senadores terão que ir as urnas para renovar seus mandatos. Este aspecto dificulta o voto a descoberto a favor de uma reforma que torna mais difícil a obtenção da aposentadoria por parte dos servidores federais e dos trabalhadores e trabalhadoras de modo geral.

O presidente Michel Temer tem pouco tempo pela frente para se reabilitar da confiança do povo do país. Reformas como a da Previdência exigem apoio maciço por parte da opinião pública. Afinal de contas, a massa de trabalhadores, mão dee obra efetiva do país é de 102 milhões de pessoas, das quais 13,5 milhões estão fora do mercado de trabalho.

Recuperar o crescimento do PIB representa o grande desafio para Temer

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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

De fato, retomar o crescimento do Produto Interno Bruto, que vem de dois recuos em 2015 e 2016, é o grande desafio que o governo Michel Temer tem pela frente, sobretudo como forma de recuperação da economia e refortalecimento do mercado de emprego. Em 2016, o PIB recuou 3,6%. No ano anterior 2015 o recuo foi de 3,8%. Nesses dois anos a população cresceu em torno de 2% e assim passamos a ter um produto menor a ser dividido por uma população maior. Resultado: a renda per capita retraiu-se, refletindo no mercado de emprego, cujo problema cresceu.

O próprio presidente da República sustentou que a meta do governo é retomar o crescimento econômico assegurando a expansão do mercado de trabalho. A dificuldade baseia-se, assim, na compatibilização de um programa de investimentos capaz de sustentar-se, sem um programa de financiamento capaz de onerar a capacidade de investir. Verifica-se um desafio muito grande, resultado da crise econômica que teve sua origem no governo Dilma Rousseff.

REFORMA DA PREVIDÊNCIA – A dificuldade maior será enfrentar essa crise ao lado da reforma da Previdência, sobretudo nos termos em que está colocada, criando-se obstáculos a obtenção do seguro social, não mais condicionada ao tempo de serviço e contribuição, mas pelo que tem sido publicado nos jornais, à base de uma idade mínima de 65 anos.  Um complicador, sem dúvida, para que tal direito seja plenamente alcançado. Isso de um lado.

De outro, como compatibilizar a redução dos encargos previdenciários com os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras? É preciso levar-se em conta as jornadas de trabalho realizadas fora dos empregos, como é o caso da mão de obra feminina nas atividades domésticas, incluindo a assistência às famílias. Mas não é apenas esta questão. A atividade produtiva não se esgota aí. Há também tarefas complementares que precisam ser levadas em conta.

É necessário observar também a diferença que resultará da aposentadoria até agora em vigor e aquela que vai vigorar após aprovada a reforma desejada pelo Planalto.

MAIS OBSTÁCULOS – Num momento em que a preocupação é retomar o crescimento perdido em 2015 e 2016 no PIB, crescem em importância também os obstáculos que virão se somar em consequência de uma reforma previdenciária inevitavelmente mais restritiva do que as condições hoje existentes.

Logicamente, a renda das famílias vai se encolher e esse fenômeno proporcionará como consequência um fator impeditivo na retomada do próprio processo econômico e social. Assim, o desafio de o desenvolvimento reagir favoravelmente à tendência registrada em 2015 e 2016 tornar-se-á naturalmente mais difícil. O desafio aí está.

Juros reais não baixaram; ao contrário, estão subindo

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Charge do Alves, reproduzida do blog Boca Maldita

Pedro do Coutto

Juros reais, na verdade, são a diferença entre a taxa paga ao credor e o índice inflacionário vigente na época que envolve o crédito liberado. O Comitê de Política Monetária reduziu ontem o índice de 13,75% que incide sobre o estoque da dívida de 3 trilhões de reais, para 13 pontos. Redução aparente de 0,75%. Entretanto, se compararmos os 14% pagos pelo Tesouro para a mesma dívida, mas diante de uma inflação de 10,6% registrada em 2015, verificamos que os juros reais de hoje apresentam uma diferença maior para com a inflação do que os pagos na primeira fase do atual governo.

Claro que o desembolso nominal do poder público para com os que detêm notas do Tesouro Nacional que lastreiam a dívida trilionária, fisicamente, diminui. Mas isso não quer dizer que os títulos públicos tenham deixado de ser um investimento atraente e sem risco para os aplicadores, isso porque haverá sempre uma relação direta entre a taxa paga pela rolagem da dívida e o índice inflacionário existente no período.

SALÁRIOS PERDEM

Critério oposto, por exemplo, é o que rege os salários, que perdem sempre a corrida contra o processo inflacionário. Dizer, portanto, que para os assalariados de modo geral a inflação recuou não é por si um dado positivo, isso porque a correção relativa a 2015 (10,6, pelo IBGE) não foi reposta nos vencimentos ao longo de 2016. Caso do Rio de Janeiro, por exemplo, cujo funcionalismo somente agora vislumbra uma hipótese de se livrar da crise, com a articulação desenvolvida pelo ministro Henrique Meirelles e pela ministra Carmen Lúcia, juntamente com o governador Luiz Fernando Pezão, diante de uma situação gravíssima que atingiu o RJ, ao ponto de causar ameaça de paralisação da universidade, a UERJ.

Poderíamos acrescentar os saques predatórios que atingem o Maracanã, um dos maiores patrimônios públicos do país. Mas basta, para iluminar o descalabro, o parcelamento terrível do funcionalismo estadual.

A situação dos servidores estaduais é de desespero. Para eles a comparação com a inflação não é usada. Pelo contrário. Os atrasos dos vencimentos são terrivelmente angustiantes, para eles, os juros reais sobem sempre, até para pagar as contas em atraso.

Tragédias gigantescas em presídios tornam-se um desafio a mais para Temer

Charge reproduzida do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Se diante da avalanche da Odebrecht já se tornava difícil o governo aprovar as reformas previdenciária, trabalhista e também a tributária, agora então, com os quadros macabros das rebeliões em Manaus e Roraima, a situação ainda mais se complica. Isso porque o governo terá que atuar simultaneamente em várias frentes. O panorama nacional não é positivo e, portanto, não facilita o andamento das reformas que ele deseja aprovar este ano.

O sistema prisional que explodiu no início do ano é resultado de falhas profundas acumuladas, a começar pela superlotação. Terceirizar administrações estatais, como aconteceu em Manaus é sempre um risco duplo: porque, no final das contas, o Estado não pode deixar de se responsabilizar pelos erros das empresas que contrata. E assim passa a ter que exercer uma atividade dupla: a de fiscalizar a si mesmo, como é natural, e a de fiscalizar as empresas contratadas.

UM BOM NEGÓCIO – A margem de lucro da terceirizada, portanto, reside na diferença entre o que recebe e o que despende com cada prisioneiro. Não pode dar certo, sobretudo porque cada vaga era ocupada por três prisioneiros. Além disso a superlotação é acrescida de presos provisórios, aqueles que ainda respondem a processos sem pena estabelecida para seus atos, e ainda permanecem aguardando julgamento.

O governo federal terá que agir fundo na questão, sobretudo em face da enorme repercussão que ele alcançou, como seria de esperar, diante da violência extrema dos crimes praticados.

E A ODEBRECHT? – Por um instante, as delações da Odebrecht ficaram em segundo plano. Mas voltarão ao primeiro plano, inevitavelmente, devido à torrente de depoimentos de seu ex-presidente, Marcelo Odebrecht, juntamente com mais de setenta executivos ou ex-executivos da maior empreiteira do país, fonte principal do iceberg de corrupção que ainda virá mais à tona do que onde atualmente se encontra.

O degelo do iceberg criará um mar de dificuldade para as diversas escalas políticas já fortemente abaladas pelos acontecimentos registrados até agora.

Todos hão de sentir que neste panorama extremamente crítico e até brutal, como no caso de Manaus e Roraima, as dificuldades do governo vão crescer. E adicione-se a tudo isso a situação caótica do funcionalismo público de alguns estados, como é o caso do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas.

NÃO SERÁ FÁCIL – Propor restrições principalmente aos direitos previdenciários, todos hão de concordar, não será fácil dentro de uma atmosfera tão difícil como a atual.

Além de tudo isso, está previsto também o julgamento pelo TSE da ação proposta pelo PSDB para anular as eleições de 2014.

Um cenário, portanto, extremamente difícil para o calendário político deste ano.

Equação difícil: como recuperar serviços cortando recursos públicos?

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Charge do Benett, reproduzida da Gazeta do Povo

Pedro do Coutto 

Esta equação reflete bem, creio, o grande desafio que está colocado sobre a mesa dos prefeitos que assumiram os cargos agora e também para os governos estaduais, como o do Rio de Janeiro que têm grandes dívidas a resgatar. O passivo existente, como se está vendo todos os dias, tem origem em desregramentos financeiros, mas seus efeitos não se esgotam nesse ponto.

Os serviços médicos, saneamento, segurança e até de limpeza urbana vivem uma calamidade que coloca diretamente em risco a saúde da população que paga pelos efeitos nocivos de fatos que não cometeram e que deram origem a eles. Ontem, por exemplo, para citar o Rio de Janeiro, em municípios da Baixada Fluminense quantidades enormes de lixo se acumularam nas ruas, exigindo providências imediatas.

Os prefeitos de modo geral assumiram com base no compromisso de melhorar os serviços públicos expandindo-os ao nível que a realidade exige. Mas ao mesmo tempo sentaram-se à mesa do poder prometendo cortes de verbas. Não quero dizer que cortes não sejam necessários. Desejo apenas frisar a dificuldade entre as duas fontes da questão tanto administrativa quanto social.

DESPESAS E RECEITAS – Os cortes necessários não eliminam todos os focos da questão. Pois é preciso que sejam eles acompanhados pelo aumento da receita pública, uma vez que as prefeituras, a exemplo de governos estaduais, encontram-se com grandes débitos acumulados. São contas atrasadas para as quais a explicação lógica torna-se difícil.

Diante desse quadro, é indispensável que as Prefeituras tomem a iniciativa de cobrar o que empresas lhe devem, porque sem isso dificilmente poderão enfrentar o desafio triplo de pagar salários em atraso, melhorar os serviços e recuperar a credibilidade que a população exige de todos aqueles que chegaram ao poder político com base no voto popular.

Não há mágica possível para ultrapassar esse desafio e superar a equação na qual residem as esperanças de populações cansadas de, pelo menos esperar ver cumpridos seus legítimos direitos. Esta é a questão essencial.

Panorama para 2017 é de dificuldade e apreensão política e social

Charge do Oliveira, reproduzida do Diário Gaúcho

Pedro Coutto

O pronunciamento do presidente Michel Temer – reportagem de Junia Gama, Isabel Braga, Eduardo Bressiani e Bárbara Nascimento, O Globo, edição de sexta-feira – não foi dos mais otimistas para a população brasileira ao longo do ano de 2017 que chega à alvorada. Principalmente porque a previsão é que o mercado de emprego comece a se recuperar a partir do segundo semestre somente após ocorrer na primeira etapa um acréscimo do número de desempregados. É claro que medidas econômicas não podem surtir efeito imediato, mas é preciso levar em conta que os desempregados não podem esperar. Afinal de contas como poderão viver e chegar ao mercado mínimo de consumo? Este fato, sem dúvida, carrega a atmosfera de pessimismo.

Será dentro desta atmosfera e desse contexto que vão ser debatidas as reformas da Previdência Social da Lei Trabalhista e também a alteração do sistema tributário. Serão lutas difíceis que pelos seus efeitos traumáticos exigiriam uma atmosfera mais amena. Ao contrário. A atmosfera está sobrecarregada pelos temores de uma crise social.

A verdade é que o desenvolvimento só pode retornar com uma política de incentivo ao consumo e à produção. O que não se percebe no projeto do governo. Me refiro ao projeto global voltado para o país que é formado, acima de tudo por 204 milhões de habitantes que enfrentam as dificuldades do dia a dia e ainda por cima, como se está vendo claramente, não podem contar com os serviços básicos para os quais contribuem com descontos em seus salários e seu trabalho.

MAIOR EXEMPLO – O estado do Rio de Janeiro é um dos exemplos mais fortes desses obstáculos, como se observa continuamente nos meios de comunicação. A reforma tributária só pode estar voltada, é claro, para aumentar a receita. Mas para aumentar a receita, antes de mais nada, impõe-se a cobrança de dívidas acumuladas ao longo do tempo. Sobretudo porque fala-se em cortar despesas, embora o governo tenha liberado recursos para as emendas parlamentares. Mas não se fala em aumento de receita, quando este é o fator mais importante sobretudo porque permanentes.

Cortes sem analisar seu conteúdo, não podem ser praticados continuamente, uma vez que os salários de forma alguma podem desaparecer do cenário econômico e social. O que precisa desaparecer do cenário econômico e social é a corrupção que devastou o Brasil na última década. Quanto à sua esterilização o presidente Michel Temer, infelizmente não fez qualquer referência.

MAIS DELAÇÕES – Ao lado dos projetos de reforma previdenciária e trabalhista prosseguirá a avalanche das delações da Odebrecht agora em dimensão até maior conforme, destaca a revista Veja que está nas bancas. Será difícil que deputados e senadores atingidos pelas delações possam votar pela aprovação de cortes de direitos sociais.

Enfim, este é o panorama que hoje se desenha para o ano que começa, reflexo da tempestade chamada LavaJato que desabou em 2016. As soluções para todos esses dilemas não serão fáceis. Pelo contrário, dificílimas.

O polvo gigantesco da Odebrecht e a falência da política brasileira

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Charge do Tacho, reproduzida do Jornal NH

Pedro do Coutto

No momento em que emerge do oceano da corrupção o polvo gigantesco da Odebrecht com seus tentáculos nacionais e internacionais, verifica-se a não existência de reação praticamente alguma da classe política brasileira. As revelações vêm se sucedendo e diante delas, efetivamente, como reagiu o universo político do país? A resposta que devia ser de indignação e reprovação sintetizou-se numa tentativa de promover a anistia aos envolvidos no sistema de caixa 2. Impossível aceitar tal realidade sem considerá-la um passo enorme de recuo diante da verdade.

A reação da opinião pública através da imprensa impediu a manobra, mas somente a iniciativa dela desqualifica seus autores. Afinal de contas se os que receberam dinheiro da Odebrecht e de outras empreiteiras afirmam ter agido dentro da lei, qual a razão de buscar uma anistia para um fato que não existiu? É porque os autores sabem muito bem que as doações que declararam à Justiça Eleitoral não condizem com o volume dos recursos recebidos. Tanto assim que a Odebrecht dispôs-se a indenizar em 6 bilhões e 900 milhões de reais países como o Brasil , a Suíça e os EUA. Isso de um lado.

CAOS ANUNCIADO – De outro lado, veja-se a vergonhosa situação dos serviços públicos essenciais brasileiros, a partir do exemplo do Rio de Janeiro onde faltou energia elétrica para funcionamento de unidades de terapia intensiva. Doentes esperam longos meses para serem atendidos por uma rede pública que está desaparecendo por falta de atividade. Quando deveria ser exatamente o contrário, porque, sem receber salários, os funcionários públicos e a legião de desempregados perdem a capacidade de pagar mensalidades dos planos de saúde que com sacrifício conseguiram contratar. O reflexo imediato é a maior procura pelo sistema público. Mas o que fazer, se ele praticamente não funciona?

TEMER OMISSO – As cenas se repetem todos os dias e a população, perplexa, aguarda resposta. Mas de quem? Do governador Luiz Fernando Pezão é impossível, o que fica demonstrado pela sua própria atuação. A esperança desloca-se para o plano federal que não pode assistir em silêncio a consumação de uma tragédia.

O polvo devorou recursos e a dignidade política nacional. O governo Michel Temer, pelo menos, tem que se sentir na obrigação de agir. Isso porque, agora está em jogo o destino de milhões de seres humanos.

Situação vergonhosa do RJ também reflete contra o governo Michel Temer

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Temer não pode fingir que não tem nada a ver com isso

Pedro do Coutto

O Brasil é uma República Federativa, como todos sabem e, como todos estão sabendo agora, o estado do Rio de Janeiro vive uma calamidade pública ao ponto de não conseguir pagar seus próprios servidores. Formam-se filas de doação de alimentos, como se os funcionários públicos tivessem que recorrer à caridade e não aos seus direitos legítimos. Entre esses direitos destaca-se o de receber seus salários.

A situação extrema a que foi conduzido o Rio de Janeiro tem responsáveis claros, porque tal drama não acontece por acaso. Foi consequência de assaltos ao patrimônio público sem precedentes, que guardadas as dimensões, podem até ser considerados mais graves do que o escândalo chamado petrolão.

O governador Luiz Fernando Pezão demonstra claramente sua incapacidade, principalmente a da falta de previsão, uma vez que integrava o Executivo estadual ao longo de oito anos. Pezão, entretanto, não é a peça principal do descalabro. A responsabilidade principal do descalabro, por não prestar socorro e ir ao encontro dos direitos trabalhistas do funcionalismo, passa às mãos do presidente Michel Temer, de acordo com o princípio federativo da República do Brasil.

BRAÇOS CRUZADOS – O presidente da República, assim, não pode permanecer de braços cruzados diante da dimensão da crise. Não importa, no caso, que as negociações de recomposição das dívidas estaduais tenham fracassado por culpa de Pezão. O essencial é a responsabilidade do governo central em resolver crises estaduais. Pois, caso contrário, seria admitir que o governo central pudesse manter-se imune a uma sucessão de descalabros que vem ocorrendo, principalmente no Rio de Janeiro.

Tal situação destacada nas primeiras páginas dos jornais e em todos os noticiários da televisão, sem dúvida alguma reflete no exterior, levando o mundo inteiro a uma situação de perplexidade. Não tem cabimento tal processo.

SEM DEFINIR CULPAS – Não se trata de definir culpas agora, como se isso pudesse isentar o governo Michel Temer de apresentar soluções. Afinal de contas, os funcionários do Rio de Janeiro não podem ser punidos e subtraídos em seus direitos por fatos que não cometeram. Dessa forma, o presidente da República precisa mais uma vez tomar uma decisão rápida, pois afinal de contas é ele quem governa o país.

E governar é, principalmente, respeitar as leis e os direitos de todos.

Corrupção travou o crescimento, concentrou a renda e empobreceu a população

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto

Esta é a constatação a que inevitavelmente se chega ao dar um balanço sobre o desempenho da economia brasileira atingida fortemente pela corrupção. Não se trata apenas do que foi superfaturado, mas o deixou de ser feito por falta de muitos recursos públicos que foram canalizados para o bolso de poucos. Este é o lado pouco visível da onda de assaltos que concentrou a renda, fomentou o desemprego e empobreceu o país. Ao lado de tudo isso, um vendaval de descrédito desanimou o povo brasileiro.

Reportagem de Fernando Canzian, Folha de São Paulo de segunda-feira, analisa esse efeito focalizando principalmente o Nordeste. A matéria é muito boa, porém os efeitos tóxicos da corrupção abrangeram todo o país. O desemprego é uma consequência, a queda do consumo é outro fator, o temor de ter que enfrentar atrasos nos salários representa mais uma face do processo crítico brasileiro.

Os atrasos de pagamento atingem mais o funcionalismo público e o funcionalismo público é um mercado consumidor essencial à recuperação econômica.

CÍRCULO DE GIZ – A corrupção colocou o governo dentro de um círculo de giz, do qual não consegue se livrar. Fala-se sempre em cortar despesas, mas é preciso levar-se em conta a necessidade de elevar as receitas. E elevar as receitas é meta que só a retomada do desenvolvimento poderá proporcionar. O impasse, assim, é muito grande e permanece desafiador.

Aliás, os desafios vão se somando uns aos outros. Veja-se agora, por exemplo, as 77 delações apresentadas pela Odebrecht encaminhadas pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal.

O relator no STF Teori Zavascki terá uma árdua tarefa pela frente ao analisar os conteúdos enviados a Corte Suprema. Porém, constata-se de plano que tais delações não podem conter dados falsos. Afinal de contas, os textos dificilmente pertenceriam a uma ficção literária coletiva, sobretudo porque é muito mais fácil relatar-se a verdade do que se recorrer à imaginação para criar situações convincentes.

OUTRA TORMENTA– Como se observa, será mais uma tormenta com que o país vai se defrontar, na esteira sequente do mensalão de 2005 e do petrolão de 2014.

O governo Michel Temer, além da articulação política que desenvolve, terá pela frente mais um enorme obstáculo: assegurar essa coordenação partidária diante das denúncias que vão surgir contra os personagens que ocupam cargos no poder.

E tudo isso sem esquecer o compromisso de ter de recuperar a economia e retomar os níveis de emprego, porque, sem emprego e salário, nenhum país pode avançar. A retração do Produto Interno Bruto é a prova mais concreta.

Governo precisa de alternativas concretas para se livrar das pressões políticas

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Charge do Mariano (Charge Online)

Pedro do Coutto

As delações em série que serão encaminhadas pela Odebrecht ao procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e deste para exame do ministro Teori Zavaski vão constituir, sem dúvida, mais um episódio de rara importância política, obrigando o presidente Michel Temer a rever sua agenda para combater a crise que inevitavelmente vai se aprofundar. Setenta e sete delações simultâneas constituem uma verdadeira avalanche cujo conteúdo dificilmente poderá ser contestado pelos personagens sobre os quais vão recair as acusações e sinais de participação no esquema que infelizmente tomou de assalto o país.

Os prejuízos foram enormes, não só em função de superfaturamentos, mas também em consequência de os valores pagos a mais e indiretamente cobrados da população brasileira não terem sido transformados em investimentos. A quantidade de delações afirma-se por si, já que não é possível aceitar a tese de que todos os delatores não estarão falando a verdade. A quantidade assim sinaliza para um caminho no qual certamente os delatores poderão apresentar as provas de suas afirmações.

REVISÃO DOS QUADROS – O governo Temer quer fazer uma revisão em seus quadros. Pois na medida em que a Odebrecht chegou ao ponto de criar uma diretoria para administrar os jatos do propinoduto, fica evidente que a empresa acumulou provas suficientes para confirmar as delações. Até porque, se atualmente quase tudo é gravado, os 77 personagens da empresa sem dúvida alguma registraram as transações que levaram a efeito.

Sobretudo porque os executivos e ex-executivos da Odebrecht tinham  – e têm – que prestar contas dos desembolsos feitos em nome da empresa, uma vez que o dinheiro movimentado não era de sua propriedade e pertencia à Odebrecht.

Neste caso, portanto, não podia existir caixa dois para a empreiteira, reservando-se a caixa dois para o modo de atuação dos que recebiam as propinas.

TROCA-TROCA – Havia, é claro, uma troca ilegítima de interesses. A Odebrecht emitia os recursos e em contrapartida recebia os saldos decorrentes dos contratos superfaturados.

Tanto assim que a Odebrecht publicou nos jornais suas confissões, sob a forma de pedido de desculpas ao país, dando cobertura assim às ações de seus representantes no mar da corrupção. Inclusive a empreiteira comprometeu-se a devolver aos cofres públicos astronômica quantia de R$ 6,8 bilhões. Todos esses fatores confirmam que a empresa possui em seu poder provas concretas dessa atuação dupla, caso contrário não teria assumido o compromisso de devolver 6,8 bilhões de reais ao Tesouro Nacional.

Assim, torna-se precária qualquer negativa dos acusados no sentido de rejeitarem o fato de terem sido subornados. Ninguém dá dinheiro à toa sem exigir uma retribuição muito mais compensadora do que a corrupção praticada.

QUESTÃO DE TEMPO – Mais cedo ou mais tarde o governo Michel Temer terá que lidar com essa nova confirmação que por aí vem. Para isso vai necessitar de uma agenda política mais profunda do que o anúncio de medidas econômicas e sociais previstas para funcionar a médio prazo.

A nova agenda terá um caráter de extrema urgência.

Villas-Bôas Corrêa, testemunha e intérprete da política brasileira

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Villas-Bôas foi  uma referência de jornalismo e dignidade

Pedro do Coutto

O jornalista Villas Bôas Corrêa, um dos mestres da minha geração, viajou para sempre esta semana, aos 93 anos, deixando como legado as milhares de páginas que escreveu sobre a política brasileira, a partir da Constituição de 46, governo Dutra que sucedeu o período ditatorial de Vargas, encerrado a 29 de outubro de 45. Foi um grande repórter, mas não somente isso, foi sobretudo um intérprete dos fatos sobre os quais escrevia com paixão, firmeza e sobretudo com imparcialidade.

Pertenceu à geração de Carlos Castello Branco, Heráclio Sales, Oyama Teles, Wilson Figueiredo, este último ainda em atividade no site JB da internet. Brilhante, lúcido com raro prazer de escrever atravessou quase 70 anos da história moderna do Brasil, traduzindo situações, decifrando complicações, tornando claras e transparentes em seus textos muitas das sombras que envolvem as articulações políticas. Fui seu amigo e admirador, podendo portanto dar testemunho sobre a grande testemunha que ele representou no jornalismo brasileiro.

VISÕES MAIS CLARAS – Impressionante e indispensável a sua atuação levando aos leitores as visões mais claras e acessíveis a compreensão dos fatos que acompanhou diariamente, desde o tempo de repórter de “A Notícia”, de Chagas Freitas, dali saltando para as colunas de O Estado de São Paulo e do Jornal do Brasil.

Sua vida é, ao mesmo tempo, uma lição de integridade, destemor e independência. Qualidades que demonstrou também no Clube dos Repórteres Políticos, que se reunia toda semana na Casa da Suiça, inclusive na época da longa ditadura militar que começou em 64 e terminou em 85. Foi uma voz vibrante e indomada contra a violação dos direitos humanos exponenciada nas casas de tortura que funcionavam na época e hoje encontram-se nas páginas da memória da Comissão da verdade.

FAZENDO A PONTE – Entre as grandes contribuições de um jornalista, destaca-se o fato de atuar como uma ponte entre o que acontece e aquilo que a população desconhece e precisa por isso ser abastecida de verdade para realizar seu próprio julgamento das coisas que ocorrem fora de sua visão e de seu alcance.

Villas-Bôas Corrêa assumiu esse papel e o interpretou com entusiasmo, fidelidade e em diversos instantes com revolta. A vida dos jornalistas de verdade é assim. Expor-se a perigos e circunstâncias, mas nem por isso deixando de cumprir o seu papel entre o que de fato acontece e a versão que se noticia de forma independente.

UMA PERSONALIDADE – Villas-Bôas Côrrêa foi um dos grandes personagens da imprensa de seu tempo, destacando-se por ele próprio e se transformando num tradutor essencial aos caminhos da liberdade, democracia e da decência pública, aspectos hoje abalados por uma onda de corrupção que se projetou nos dias de hoje, mas que não teve origem nos fatos do passado.

Villas-Bôas não pôde, infelizmente, comentar os impactos da última década que escandalizam o Brasil. Infelizmente. Mas da Constituição de 46 a Constituição Cidadã de 88 seu vulto emerge para sempre no plano alto das informações e explicações da política. E se a política de hoje é muito diferente daquela que marcou a redemocratização de 46, evidentemente a culpa não cabe ao jornalismo nem aos grandes jornalistas que se eternizaram nas páginas impressas ao longo dos últimos 70 anos.

Com essa afirmação dou adeus ao grande amigo, testemunha, ator e personagem do tempo que marcou sua vida exemplar.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Somos cada vez menos.  Do antigo Clube dos Repórteres Políticos, que se reunia na Casa da Suíça, aqui no Rio, na década de 60, restam apenas Carlos Chagas, Helio Fernandes, Sebastião Nery, Tarcísio Holanda, Murilo Mello Filho, Pedro do Coutto, Wilson Figueiredo e eu. E o mais incrível é que até hoje todos continuem trabalhando. E quatro deles ainda estejam juntos, aqui na Tribuna da Internet.   Os mais velhos eram Carlos Castello Branco, Helio Fernandes, Villas-Bôas Correa e outros que também já pediram a conta e se foram, como Berilo Dantas, Otacílio Lopes, que todo mundo chamava de “Cara de Onça”, Antonio Vianna de Lima, lendário editor de Político de O Globo, que peitou Roberto Marinho na redação, diante de todo mundo, na véspera do AI-5, Jair Rebelo Horta, Oyama Teles, que a gente chamava de “Monsenhor”, porque todo dia, às seis da tarde, ele rezava. Havia outros, minha memória está falhando. Aliás, foi Vianna que me colocou no jornalismo, em 1966, dia 13 de dezembro, há 50 anos. Eu tinha 22 anos, era o mais jovem da patota. Foi um prazer enorme conviver com eles e continuar convivendo. (C.N.)

Centrão exigiu adiar a discussão da reforma da Previdência e o Planalto recuou

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Reportagem de Raphael Di Cunto e Andrea Jube, no Valor, edição de quarta-feira, revela que o bloco parlamentar aliado do governo Michel Temer, classificado como o Centrão, fez  uma mobilização e conseguiu que o projeto de emenda constitucional que estabelece a reforma da Previdência somente seja discutido em fevereiro de 2017, depois da eleição dos próximos presidentes da Câmara e do Senado. Existe o temor de que venha a ocorrer um desgaste político muito maior do que o causado pela PEC do limite de gastos públicos. O medo do desgaste atingiu em cheio também o PMDB que, no centro da tempestade, convocou reunião para debater a mudança de nome.

Tem lógica o recuo do centrão. Pois se o limite do teto de gastos, que nada mais é do que condicionar as despesas de um exercício à taxa de inflação registrada pelo IBGE para o ano anterior, provocou os protestos da noite de terça-feira, é lógico que, por sua natureza diretamente restritiva, a reforma da Previdência Social levará a protesto ainda mais intensos. Essas manifestações são uma realidade provável e contra elas a repressão por si só não resolve.

FALTA DE SOLUÇÃO – A repressão policial pode impedir o vandalismo e a destruição de valiosos patrimônios públicos e particulares. Mas não desloca a nuvem de falta de solução que está obscurecendo o país. Some-se a isso tudo a delação de Marcelo Odebrecht, que, segundo a imprensa, demorou dez horas do primeiro dia.

Tentar reduzir o plano de ação do Ministério Público e da Magistratura, como deseja Renan Calheiros, além de iniciativa imprópria, não inclui, tampouco poderia incluir, os delatores. A eles interessa a ampla divulgação de seus textos e contextos, um aspecto que não pode passar despercebido especialmente pelos alvos das denúncias já em fase de comprovação. Os atores da corrupção precisam responder à indagação de toda opinião pública brasileira.

TEVE DE RECUAR – Assim, dentro da atmosfera reinante, o governo teve de aceitar o posicionamento bem colocado pelo Centrão, que possui inclusive os melhores e mais fortes argumentos.

A divulgação das delações não vai parar, é evidente. Frear um pouco um projeto que retira direitos e restringe o uso facultativo de outros, na esfera dos milhões de segurados do INSS e da Seguridade Social, representa, sem analisar seu mérito, um lance de cautela. O fim de semana se aproxima e, com ele, podem emergir uma série de versões à espera de desmentidos convincentes, além de explicações pelo menos razoáveis. Não a repetição, que parece fita gravada em comum, de que as doações recebidas foram registradas na Justiça Eleitoral, com aprovação das respectivas contas.

HOUVE DOAÇÕES ILEGAIS – Em tudo isso, fica embutida o reconhecimento tácito de que as doações reveladas foram recebidas. Pois se não tivessem sido recebidas, a Justiça Eleitoral não as poderia ter aprovado, por falta de existência material do que se discute.

Esta face, sobretudo, representa a escala preliminar de uma outra: se os valores recebidos em doações ilegais foram efetivamente aplicados nas campanhas. Trata-se de verificar a convergência de valores. Além do mais, se houvesse esta convergência de valores, não existiria a imagem do caixa dois.

Até o momento as doações ilegais dos delatores estão sendo confirmadas. Pelo menos no primeiro estágio do desembolso.

Os acusados é que deveriam ter pressa em rebater as denúncias das delações

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Charge do Tacho, reprodução do jornal NH

Pedro do Coutto

Em carta a Rodrigo Janot – reportagem de Eduardo Barreto, Simone Iglesias e Cristiane Jungblut, O Globo de terça-feira – o presidente Michel Temer pede que a Procuradoria Geral da República apresse as investigações da Operação Lava-Jato e, ao mesmo tempo, considera ilegítima a divulgação das delações, para as quais pede maior rapidez. A delação que detonou a crise que envolveu o governo, como se sabe, foi a do ex-diretor da Odebrecht, Claudio Melo Filho.

Michel Temer sustentou na carta que a divulgação de delações atrapalha o governo. Atinge principalmente o país, digo eu. Mas vale acentuar que os acusados por Cláudio Melo Filho é que deveriam ter a máxima urgência de esclarecer os papéis que lhes foram atribuídos no amplo teatro da corrupção que invadiu o Brasil.

Eles, entretanto, não demonstram ansiedade para poderem se explicar. Desce inclusive uma sombra projetada por uma contradição evidente: o vazamento não supera em importância o conteúdo concreto dos fatos delatados. Se forem falsos, melhor para os acusados. Se forem verdadeiros, pior para eles. E para o governo que os integrou a sua equipe.

ESPALHAR CÓPIAS – Por isso, Michel Temer, ao se dirigir a Rodrigo Janot, deveria ter dirigido cópias aos delatados que exercem postos de sua confiança. Uma iniciativa não elimina a outra e as duas convergem para um único plano: o da verdade, forte gerador de efeitos. Uma simples questão de lógica.

Se o delator prejudica o desempenho do Executivo, os delatados, se não se explicarem de forma firme e convincente, atrapalham muito mais. Não há como evitar o confronto entre as duas faces do problema colocado.

Importante destacar que a delação de Cláudio Melo Filho foi a primeira das 77 acertadas com executivos da empresa, a qual chegou ao ponto de montar uma diretoria para cuidar das propinas, além de criar um banco no exteriorpara operacionalizar todo sistema ilegal. E entre as delações programadas encontra-se a maior de todas, a de Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empresa e, essencial anotar, um de seus proprietários. Encontra-se igualmente programada a delação de Emilio Odebrecht, pai de Marcelo.

A PRESSA EXIGIDA – Portanto, dentro de todo este quadro extremamente crítico, a pressa que o presidente da República pede a Rodrigo Janot depende menos dele do que dos autores das delações. Calcule-se pelo enorme número de páginas contendo mais de duzentos nomes de pagamentos, valor das propinas repassadas, abrangendo ainda os reflexos dos subornos.

E tem mais: a esfera destinada às comprovações. Detalhe por detalhe, intermediário por intermediário, banco por banco, emissário por emissário, senhas usadas em casos específicos, como já se publicou.

Dá trabalho montar tudo isso, separando os longos capítulos de uma extensa série que começou a entrar em operação ao longo os últimos doze anos. Inclusive quanto a seleção de informações e comprovações. São trabalhos voltados para eliminar possíveis incorreções. Tudo isso é fundamental. Tão fundamental quanto a solidez das provas. Pois qualquer erro torna-se capaz de fazer desabar uma narrativa para a qual se exige sequência e consequência.

Um trabalho profundo. Tão profundo quanto o esquema de corrupção que abalou os governos Lula e Dilma Rousseff. E agora, com Michel Temer, abala o Brasil.

Donald Trump era sincero quando anunciava sua posição ultra conservadora

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Charge do Clayton, reprodução de O Povo/CE

Pedro do Coutto 

Ao longo da campanha eleitoral, o candidato Donald Trump fazia questão de colocar em destaque sua posição ideológica de ultra conservador, ocupando uma faixa de extrema direita que dividiu os próprios republicanos. mas não o eleitorado, tanto assim que se tornou vitorioso nas urnas decisivas. Muitos poderão ter pensado que se tratava de uma estratégia. Mas não era só isso. Suas palavras eram verdadeiras, representavam seu pensamento mesmo.

O reflexo na opinião pública chegou a tal ponto – segundo a Folha de São Paulo – que o Google e o Facebook, gigantes da Internet, resolveram vetar nos sites publicitários a veiculação de notícias falsas e, ao mesmo tempo, analisar a colocação de matéria distorcidas, pois, em ambos os casos, favoreceram Trump. O Google e o Facebook certamente possuem as respectivas provas e vão passar a dedicar mais atenção ao plano ético, impedindo a circulação de inverdades. Tarefa difícil, mas necessária; são bilhões de mensagens diárias,. Os motivos são muitos e abrangem múltiplos setores.

Mas no caso dos pronunciamentos de Donald Trump, ele não enganou. Ao contrário. Está começando a fazer exatamente aquilo que se comprometeu a realizar, deslocando a próxima Casa Branca ao plano do radicalismo.

NOMES ESCOLHIDOS – Reportagem de Henrique Gomes Batista, correspondente de O Globo, e a análise do New York Times, traduzida pelo O Estado de São Paulo, deixam claro o rumo do presidente eleito, com base na seleção dos escolhidos para compor seu governo.

O general Michael Flynn, que será conselheiro para Segurança Nacional, em passado recente defendeu o uso de tortura para obter confissões. Flynn situa-se ao lado de Stephan Bannon, editor de um site racista, escalado para estrategista do governo que assume em janeiro.

O quadro ideológico atual tem um precedente no passado, mas que resultou em efeito inverso. Ocorreu nas eleições de 64, um ano após a morte de Kennedy, quando Lyndon Johnson derrotou Barry Goldwater.

GUERRA DO VIETNÃ – O conflito no Vietnã estava crescendo e se tornando cada vez mais dramático para os EUA. Goldwater vai à televisão e afirma que por traz dos guerrilheiros do Vietnã estava a China de Mao Tse Tung e Chou En Lai, portanto então comunista. “Eleito”, disse o republicano, “acabo com a guerra do Vietnã lançando uma bomba atômica na China”.

Minutos depois, entra em cena Johnson, na mesma rede, e afirma simplesmente: quero avisar aos americanos que o meu adversário não está falando somente para agradar seus eleitores. E faria isso mesmo se chegasse a Washington. Boa noite, completou. Com isso, Barry Goldwater foi derrotado, alcançando apenas 1/3 dos votos.

LEMBRANDO O GENERAL – Goldwater inspirou-se naquela noite de outubro numa afirmação do general Douglas Mac Arthur, herói da guerra no Pacífico e nomeado em 45, depois das bombas em Hiroshima e Nagasaki, governador geral do Japão. Havia a guerra da Coreia, com a região Norte contra a do Sul, com os EUA apoiando a segunda. Hoje são dois países. O confronto começava em 49, a China de Mao dando suporte à região Norte.

Mac Arthur dá uma entrevista ao New York Times e ao Washington Post, sustentando que a solução seria jogar uma bomba atômica contra Pequim.

O presidente Harry Truman o demitiu imediatamente. Afirmou que uma decisão desse porte pertencia exclusivamente ao presidente da República. Truman havia sido vice de Franklin Roosevelt e assumiu em abril de 45, sendo reeleito em 48. Sabia tomar decisões. A divisão da Alemanha, uma delas, freando a expansão do poder de Stalin. Decidiu o Plano Marshall que, através do Banco Mundial, permitiu a reconstrução da Europa e a contenção do comunismo.

Bem. voltando a Donald Trump, ele, claro, não é Goldwater. Mas parece um pouco.

No caso Odebrecht, por que os acusados não processam seus delatores?

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

O título, creio, sintetiza a pergunta lógica que a quase totalidade da população brasileira deseja ver respondida. As acusações referem-se ao recebimento de gigantescas propinas para que, em troca, a empresa tivesse seus pleitos atendidos à margem da lei. Isso porque as propinas saíam de contratos superfaturados. Crime duplo, no caso. Verdade inegável. Tanto assim que a Odebrecht publicou duas páginas nos jornais do país apresentando sua confissão em forma de singular pedido de desculpa.

Na semana que passou, executivos da Odebrecht começaram a relacionar os destinatários dos subornos e seus respectivos valores, numa primeira etapa. Os acusados não se indignaram contra os acusadores. Nada disso. Apontados como agentes de um sistema de corrupção, nenhum deles manifestou a intenção de processar seus delatores. Ao contrário, limitaram-se a dizer que as doações foram legais e registradas na Justiça Eleitoral.

A mesma alegação, repetida por todos os personagens envolvidos na trama. Assim partiram para uma defensiva absurda e nada convincente. Deram margem, inclusive a comparações de valores e locais de entrega dentro e fora do país.

RECORDE ABSOLUTO – Se as importâncias não forem compatíveis, para quais endereços e bolsos se destinaram? Dinheiro não evapora. Ao contrário, gelifica-se nas contas criminosas de um esquema corrupto sem limites. Recorde absoluto em matéria de roubo e número de ladrões.

O silêncio será uma página de um processo de confissão tácita. Afinal quais motivos ideológicos poderiam levar a Odebrecht a abrir jatos de dinheiro para representantes políticos e intermediários? E o que dizer da aceitação? O governo Michel Temer ficou muito mal no episódio. Precisa apresentar uma resposta ao país. Todos os grandes jornais publicaram as delações, além da revista Veja, JN da Rede Globo e Globonews em longas reportagens. No Globo de sábado, a reportagem foi de Jailton de Carvalho.

ERRO DE RENAN – Vamos passar a um outro episódio, também extremamente grave, relatado numa entrevista de Renan Calheiros ao repórter Luiz Makkouf Carvalho, O Estado de São Paulo de sábado. O presidente do Senado ataca fortemente o ministro Marco Aurélio Melo, do STF. Vai entrar para a história pela porta dos fundos, afirmou Renan. A impressão que deixou é a de que considera a decisão do plenário do Supremo que o manteve no cargo como sentença definitiva para os demais onze inquéritos existentes contra ele na Corte Suprema.

Além do mais, constitui uma ofensa aos ministros Edson Fachin e Rosa Weber, que acompanharam Marco Aurelio a favor de sua liminar. Em um dos inquéritos, Renan Calheiros já se tornou réu. Faltam onze. Poderá vir a ser absolvido de todos, ou mesmo impronunciado nos que aguardam decisão.

Mas em nenhuma hipótese, Renan deveria ter feito os ataques que praticou. Afinal de contas, os réus se defendem das acusações. Não agridem os juizes que vão julgá-los. Renan cometeu um erro tremendo.

 

 

Andreia Horta, em “Elis”, uma das grandes interpretações do cinema

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Andreia Horta interpreta Elis magistralmente

Pedro do Coutto

A atuação da atriz é magnífica, o filme é excelente e, com ele, fica assegurado um lugar da grande cantora na eternidade da arte musical, tanto pela voz quanto pela multiplicidade de suas interpretações, de fato inesquecíveis. Grandes artistas: a cantora Elis Regina, sua intérprete na tela, Andreia Horta, o diretor do filme, Hugo Prata. Presente e passado, inspirado da memória, encontraram-se em momento de força e arte. O filme é imperdível.

A atuação de Andreia está, sem exagero, ao nível de Nicole Kidman, em “Grace de Mônaco”. Duas grandes presenças, duas grandes personalidades. Há muitas interpretações exuberantes na história do cinema. Sem dúvida. Mas a dificuldade me parece maior quando uma atriz vive a personagem de outra atriz. Porque os atores carregam consigo outros personagens que traduziram e expuseram. O ator, uma atriz, um artista, no fundo não é uma pessoa só. Ela exprime em si um conjunto de criações que se tornou capaz de fazer e viver.

Andreia Horta viveu Elis com a intensidade certa, multiplicando-se pelos vários grandes sucessos da cantora, por suas buscas de oportunidade por seus envolvimentos sentimentais apaixonados sempre, mas nem sempre duradouros.

ÊXITOS E FRACASSOS – Coisas da existência humana. As quais, portanto, incluem instantes de êxito e também de fracassos. Coincidências como sempre, estão na estrada do sucesso. Mas os encontros que abrem oportunidades ficam assinalados. Os desencontros, não. Pois se não sucederam, como poderiam ser registrados?

Voz extraordinária, a angústia de ser ouvida atormentavam Ellis Regina. Ela lutava por um lugar ao sol. Tinha certeza sobre sua voz e seu dom de interpretar. Se entrasse em cena não sairia. A luta por essa passagem do anonimato para a consagração a atormentava.

Com o passaporte para a fama nas mãos e no coração, superou o primeiro lance. Mas outros obstáculos e angústias a esperavam na estrada da vida, para citar o clássico de Fellini. Pertencem a ela, somente a ela, na eternidade. Porém passaram a pertencer um pouco a Andreia Horta por sua representação de dois seres distintos: a cantora Elis e a mulher Elis Regina.

SEM UMA VACILAÇÃO – A voz original é da cantora. Os gestos e atitudes na dublagem impossível são da atriz que a revive na tela para sempre. As dúvidas, os impulsos, as buscas, a intimidação que sofreu da ditadura militar são revividas, sem uma vacilação sequer da atriz que interpreta tanto o mito como a mulher.

Dois momentos belíssimos do filme: as canções “Fascinação” que atravessa o tempo com a mesma beleza , e “O Bêbado e o Equilibrista”, samba que vai seguir o mesmo destino da valsa, que ouvi pela primeira vez na voz de Carlos Galhardo e décadas depois, na interpretação do grande Nat King Coole. Ellis completa o ciclo inesgotável da valsa histórica. Não há quem não se emocione com a voz de Elis nos dois clássicos musicais.

ARTE ETERNA – Momentos divinos de arte, aliás, como diz a música. E a arte é eterna, mas necessita ser reativada, redescoberta, revivida e a sorte de todos nós está em sabermos que talentos novos surgirão na longa estrada, o que nos leva à emoção de reviver vivendo. Me refiro aos talentos de Andreia Horta e Hugo Prata.

Jovens recorreram à memória para criar e projetar uma personagem para sempre. Mas a memória só não é suficiente. Entrou em ação, na medida em que ambos visitavam o passado. Pois somente quem se emociona com a arte dos outros consegue revivê-la com tanta intensidade e verdade.

Elis para sempre, na imagem brilhante de Andreia Horta.

Michel Temer já se tornou recordista absoluto em matéria de recuos

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Charge do Clayton, reprodução da Charge Online

Pedro Coutto

Reportagem de Simone Iglesias, Maria Lima, Evandro Éboli e Eduardo Barreto, edição de sexta-feira de O Globo, revela que, depois de escolher Antonio Imbassahy para Secretário de Governo, no lugar de Geddel Vieira, o presidente Michel Temer mais uma vez teve que recuar e adiar a nomeação, em consequência de forte movimento contrário, vindo, é claro, do PMDB, mas disfarçado como impulso movido pelo Centrão, que apoia o governo. Incrível. A escolha de Imbassahy fora inclusive articulada conjuntamente com o senador Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique.

Com mais esse triste episódio, Michel Temer, como digo no título, tornou-se recordista absoluto em matéria de recuos políticos. Dificilmente poderá ser ultrapassado na história do Brasil. Revela não se sentir seguro no cargo de presidente da República. Para decidir as questões inerentes ao poder, vale acentuar, precisa ter a seu lado, como no caso Renan Calheiros e o STF, os ex-presidentes José Sarney e o mesmo FHC. A distância entre as duas situações foi de apenas dois dias.

No caso da Secretaria de Governo, a vacilação registrada, seguida por um falso adiamento, é ainda mais grave no sentido da fragilidade demonstrada. Isso porque a Secretaria de Governo tem a seu cargo a coordenação política do Executivo. Trata-se, assim, da escolha pessoal do próprio presidente da república. Tão pessoal quanto a nomeação do chefe da Casa Civil. Cargos de estrita confiança.

VULNERABILIDADE – No momento em que Michel Temer recua e resolve compartilhar uma opção unicamente sua, tacitamente confessa ao mesmo tempo sua fragilidade e vulnerabilidade.

Falta-lhe vocação para chefe do Executivo. Estaria melhor nas ações de bastidores. Gosta de encaminhar a tomada de decisões, não de com elas se comprometer diretamente. Em seis meses de governo, nomeou e teve que substituir seis ministros. Antonio Imbassahy tornou-se o sétimo da série, com a diferença de que repetiu o personagem de Dias Gomes, que foi sem nunca ter sido.

O senador Romero Jucá foi brevemente ministro do Planalto. Envolvido pela Operação Lava-Jato, sentiu-e na obrigação de pedir para ser exonerado.         Apesar disso, é HOJE o líder do governo no Senado, função que desempenhou nos governos de FHC, Lula, Dilma, até atingir a escala Michel Temer. Mas esta é outra questão.

E ARMÍNIO FRAGA? – Ia esquecendo a cogitação de Armínio Fraga para o Planejamento, no lugar de Dyogo de Oliveira. Nesse momento da ópera, entrou no palco Henrique Meirelles e vetou a substituição desenhada por Aécio Neves.

Qual será o próximo recorde a ser quebrado? Caberá a tarefa ao atual presidente da República, que poderá partir em busca de superar as suas próprias marcas políticas. Porém jamais poderá ser igualado no conjunto de avanços e recuos.

Veja-se por exemplo, a reforma da Previdência. Um artigo incluindo as Polícias Militares e os Corpos de Bombeiro desapareceu no texto original. Provavelmente a culpa foi do redator, não do Palácio do Planalto.

E assim caminha o governo, enquanto a população perde a esperança de o país poder sair de uma crise de várias origens e de diversas faces.