Afinal, o que Bolsonaro vai dizer em seus dois discursos nos protestos em Brasília e São Paulo?

Charge do Clayton (opovo.com.br)

Pedro do Coutto

O artigo de Bernardo Mello Franco na edição de domingo de O Globo revela um fato essencial no meio da crise aberta pelo presidente Jair Bolsonaro a pretexto da computação eletrônica de votos e de um ultimato dirigido aos ministros Alexandre de Moraes e Luiz Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal. Quanto a Alexandre de Moraes, em face de sua inclusão em inquérito por atividades antidemocráticas. Relativamente a Luiz Roberto Barroso, também presidente do TSE, por sua posição clara e lógica contra o que seria o retrocesso contido na volta do voto impresso no país.

As alegações são absurdas e politizadas de 7 de setembro igualmente sem o menor sentido: uma data de todos, conforme acentuei no artigo de ontem que Bolsonaro desejava transformar em pretexto golpista para alguns. Mas esta ameaça está superada com base na revelação e no comentário de Bernardo Mello Franco. A realidade política nacional passou a ser outra no curto espaço entre a quinta-feira e o domingo.

MANIFESTAÇÕES – Mas Bolsonaro insiste em levar o tema para as ruas. Tanto assim que anunciou que estará presente nas manifestações de amanhã nas Esplanada de Brasília e na Avenida Paulista. Em Brasília, no corredor dos Ministérios. Em São Paulo, em frente ao endereço da Fiesp, cujo posicionamento, sobretudo após o recuo em divulgar o manifesto democrático, passou a ser fortemente contestado.

Aliás, a Federação Brasileira de Bancos não recuou e condenou a vacilação de Paulo Skaf. O presidente da República se isolou ainda mais. O agronegócio apoiou a Federação dos Bancos e os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal desistiram de romper com a Febraban. Na minha opinião, romper com o sistema bancário e com as informações de que ele dispõe é um ato extremamente arriscado. Mas essa é outra questão.

A questão essencial, como destacou Mello Franco, está na posição assumida pelo general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, suspendendo o tradicional desfile do Dia da Pátria. Claro que a sua atitude foi apoiada pelos comandantes da Marinha e da Aeronáutica. Caso contrário não teria o impacto que obteve e está obtendo. Não sei, francamente, qual o ângulo de visão do ministro da Defesa, general Braga Netto.

INVESTIDAS – O fato dominante, contudo, ficou claro, é que as investidas contra as eleições e contra ministros do STF perderam o pouco impulso que já tinham em sua origem e passaram a se deparar não apenas com o silêncio do Exército, mas com a sua definição pela democracia, pela Constituição Federal e pela liberdade do voto. O episódio deixou demonstrado que Jair Bolsonaro não conta com qualquer fração militar expressiva para investir contra as instituições e praticar um lance de dados na tentativa vã de se tornar o imperador do Brasil. A saída para a crise a meu ver está consolidada pela estrada que leva as urnas em outubro de 2022.

Nas redes sociais os esforços para enveredar pela ilegalidade estão barrados. As fake news que chegaram a incentivar o sequestro de titulares do STF naufragaram na própria contradição de um gesto absurdo e criminoso. As fake news não têm expressão de peso capaz de subverter a lógica dos fatos. Basta considerar um princípio: se as fake news resolvessem, Jair Bolsonaro não estaria atrás de Lula  na projeção para 2022, como revelaram as pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos.

ABOLIÇÃOMuito importante a entrevista da historiadora Mary Del Priore ao jornalista Bruno Albano, O Globo de ontem, em que, com base em pesquisas realizadas ao longo do tempo, chegou à conclusão de que a Princesa Isabel, de fato, só assumira a posição de abolicionista três meses antes do 13 de maio de 1888.

A historiadora é autora de um estudo em profundidade sobre a decretação da Lei Áurea. Vale a pena ler a entrevista porque a análise histórica é capaz não só de revelar, mas também traduzir o passado. A versão corrente de contemporâneos da época, entre os quais o meu avô, Pedro do Coutto, outro historiador, foi a de que a fuga de escravos se acentuava muito e o Império já na fase de crepúsculo, tentou usar o Exército no esforço de resgate que era exercido por mercenários chamados capitães do mato.

O Exército se recusou ao papel e a Abolição que já trazia em si um impulso republicano, ampliou seu raio de ação e sua influência no país, influência tardia, porém indispensável para fazer com que o Brasil não fosse o último , mas sim o penúltimo país  a abolir a escravatura. O último no período do Império, o primeiro como República. Portanto, penúltimo à luz da história do tempo. O caráter do Império era profundamente conservador, mas o conservadorismo foi tocado pela dissidência, liderada por Joaquim Nabuco e com a atuação também marcante de Ruy Barbosa.

DESMATAMENTO – Reportagem de Laryssa Medeiros, O Globo de domingo, dá sequência à reportagem do RJ 2 da TV Globo no sábado.  Na Rua Professor Hélio Povoa, Tijuca, desmatamentos e motosserras entraram em ação, iniciando a derrubada de 340 árvores para a construção não autorizada pela Prefeitura de um edifício de 240 apartamentos.

O RJ 2 de sábado focalizou inclusive a manifestação conjunta de protesto por moradores à margem da floresta urbana. Impressionante o descaso para com o verde e o meio ambiente, motivado pelo lucro e por uma legalidade disfarçada de replantio. Afinal, quantos anos demora para que futuras 340 árvores substituam as que estão se perdendo a partir de sexta -feira ? Estranho , sobretudo, é o silêncio do prefeito Eduardo Paes, responsável pela preservação do meio ambiente  e pelo plano urbano da Cidade do Rio de Janeiro.

No ultimato aos ministros do STF, Bolsonaro termina dirigindo um ultimato a si mesmo

Declarações absurdas de Bolsonaro tentam abalar a estrutura constitucional

Pedro do Coutto

Ao inaugurar na tarde de sexta-feira o ramal ferroviário Ilhéus – Caetité, na Bahia, reportagem de João Pedro Pitombo e Kaique Santos, Folha de S.Paulo de sábado, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que nas manifestações de 7 de setembro enviará um ultimato aos ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, O presidente disse que “não podemos admitir que uma ou duas pessoas, usando a força do poder, queiram dar um novo rumo ao nosso país. Devem curvar-se à Constituição, respeitar a nossa liberdade e chegarem a conclusão que se encontram no caminho errado, mas há sempre tempo para se redimir”.

Como se constata, as declarações de Bolsonaro são absurdas e desconexas, sobretudo porque quem ameaça a estrutura constitucional do país é exatamente ele, Bolsonaro, na medida em que, como já tornou público diversas vezes, admitiu não realizar as eleições de outubro de 2022 porque o sistema de computação eletrônica não foi substituído pelo voto impresso.

AMEAÇAS – Surgiram assim novas ameaças ao Poder Judiciário, inclusive o presidente da República disse que os ministros “ousam nos desafiar, desafiando a Constituição e desrespeitando o povo brasileiro. Portanto quem dá esse ultimato não sou eu, é o povo brasileiro”. Analisando-se as frases do pronunciamento, expostas de forma excelente por João Pedro Pitombo e Kaíque Santos, chega-se à conclusão de que o presidente da República não se encontra com o seu pensamento organizado e tampouco baseado na lógica e principalmente nos fatos que dão margem ao raciocínio a partir do enfoque insubstituível do bom senso.

Os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso não estão propondo nenhum atentado contra a democracia. O primeiro está combatendo as fake news, cujos efeitos são extremamente desastrosos. O segundo, defendendo o sistema de computação eletrônica dos votos, sistema contra o qual, desde 1996,com exceção de Jair Bolsonaro, não houve qualquer denúncia ou contestação. Isso de um lado.

De outro, Bolsonaro, como deixou claro na cidade de Ilhéus, está disposto a utilizar o 7 de setembro para reiterar manifestações golpistas e autoritárias que só encontram respaldo na extrema direita que insiste em existir no Brasil, apesar do desfecho de 1945 com a derrubada do nazifascimo contra o qual a FEB lutou arduamente nos campos da Itália. Não me refiro à extrema esquerda porque esta desapareceu no Brasil completamente e suas ideias não mais se reproduziram e foram substituídas por um posicionamento reformista de inspiração cristã na medida em que prega apenas a justiça social e uma melhor distribuição de renda entre o capital e o trabalho.

ENTRECHOQUE – No final de semana, o ministro Onyx Lorenzoni dirigindo-se ao PT disse que a luta política “somos nós contra eles”. Referiu-se assim ao entrechoque inevitável de conservadores e reformistas. Mas esqueceu que no meio dos dois campos existem a democracia, a liberdade e o direito de voto.

Ameaças ao STF como essas que Bolsonaro faz são responsáveis pelo refortalecimento e ressurgimento da candidatura do ex-presidente Lula da Silva no quadro político brasileiro. É clara a consequência, afinal os que defendem as eleições, a Constituição e a imunidade do Supremo, nas urnas de outubro do próximo ano devem ficar com quem ? Com Bolsonaro que ameaça  a Corte ou com Lula da Silva que lidera amplamente as pesquisas eleitorais do Datafolha e do XP Investimentos ? A resposta é absolutamente clara.

RECUO DO BB E DA CEF – O presidente do Banco do Brasil, Fausto de Andrade Ribeiro, e o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, revela Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S. Paulo deste sábado, recuaram de suas posições e decidiram não mais se desligarem da Febraban.

Tacitamente concordaram assim com o conteúdo da manifestação da entidade em favor da democracia e das eleições, posicionamento absolutamente legal, mas que contrariou fortemente o presidente Jair Bolsonaro que assim demonstra desejar exatamente o contrário. Mas essa é outra questão.

VULNERABILIDADE – No artigo de sábado, eu falei das dificuldades do BB e da CEF se desvincularem da Federação Brasileira de Bancos. Em 24 horas, a dificuldade se confirmou. Isso porque, na minha impressão, um rompimento deixaria vulneráveis atividades bancárias e empresariais, cujas revelações podem (não só poderiam) causar constrangimentos e reflexos negativos.

Poderiam proporcionar também o surgimento de informações sobre créditos lançados no exterior e sobre transações que muitas vezes extrapolam limites de rendas de assalariados e até de empresários. Assim, não será um bom negócio romper com o sistema financeiro que tem nos bancos, principalmente o Itaú, Bradesco e Santander, os seus elos mais fortes. Saldos bancários evoluem muito mais nas sombras do que a luz do sol.

Ao exaltar democracia, Febraban desfecha a mais forte reação contra Bolsonaro e o Centrão

Distanciamento da Febraban ratifica a oposição ao radicalismo do Planalto

Pedro do Coutto

Ao reafirmar o seu apoio ao manifesto em favor da democracia, do respeito à Constituição e às eleições, a Federação Brasileira dos Bancos desfechou o mais forte ataque tanto ao governo Jair Bolsonaro, quanto ao Centrão, sua principal base de apoio no Congresso. O presidente da Febraban, Isaac Sidney Menezes Ferreira, rejeitou o pedido dos presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para que a federação reanalisasse o seu posicionamento, sob pena de o BB e a CEF se desvincularem da federação

Isaac Sidney não atendeu à solicitação dos presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal e manteve o documento, acentuando também ser lamentável o recuo da Fiesp que tinha se comprometido com a manifestação, adiando o seu apoio por alguns dias à posição democrática.

REAÇÃO  – Sob o ângulo político, o distanciamento da Febraban constitui a mais séria reação contrária ao radicalismo do Planalto e ao alinhamento do Centrão com o governo. Isso porque o sistema bancário não só absorve os títulos emitidos pelo Executivo para girar a dívida interna do país que se eleva a R$ 6 trilhões, como também opera o sistema de encomendas, contratos de financiamento, pagamentos e depósitos, tanto do país quanto do exterior, controlados é claro pela federação e pelo Coaf.

Tenho a impressão de que o bloco conservador favorável ao governo no Parlamento encontra-se hoje extremamente preocupado com a firme decisão de Isaac Sidney Menezes Ferreira. Os motivos, sob o ângulo político tradicional, são óbvios e a sua revelação ilumina depósitos na própria rede bancária e também em estabelecimentos de crédito. A principal cisão envolvendo o Executivo e a democracia ocorreu esta semana.

Reportagem de Renato Andrade, Geralda Doca, Ivan Martinéz-Vargas, O Globo desta sexta-feira, destaca muito bem e com objetividade o tema em foco. O que não está em foco no primeiro plano, passa a receber uma clara iluminação logo no plano sequente.

IRONIA – Evandro Éboli, Mariana Muniz e Julia Lindner, O Globo, destacam os preparativos do governo para as comemorações de 7 de setembro, incluindo uma agressiva ironia do presidente da República aos ministros do STF. Afirmou Bolsonaro: “Ninguém precisa temer o 7 de setembro. Basta reconhecer (referindo-se indiretamente ao Supremo) que extrapolou. Portanto, quem quiser subir no carro de som e de cima dele ver duas milhões de pessoas, pode fazê-lo à vontade. Eu também garanto o uso da palavra se eles desejarem falar. Não temos outro grito de Independência porque já somos independentes”.

Esse pronunciamento foi feito a apoiadores na terça-feira, logo após o pronunciamento do ministro Luíz Fux, presidente da Corte Suprema, defendendo uma pacificação entre os poderes. Fux acentuou que as manifestações de 7 de setembro precisam ocorrer sem violência.

Assim, se Bolsonaro ironizou e rejeitou o texto de Fux é porque, no fundo, mantém-se no caminho de se opor a qualquer reaproximação os distensão.Esta última palavra, muito usada pelo presidente Ernesto Geisel e pelo general Golbery do Couto e Silva. De qualquer forma, lembra o repórter Aguirre Talento, O Globo de ontem, o Ministério Público está recomendando reforço no sistema de Segurança Pública em Brasília.

FAKE NEWS – Ao sancionar a nova lei de Segurança Nacional, revelam Jussara Soares, Dimitrius Dantas e Paulo Cappelli, o presidente Jair Bolsonaro vetou dispositivos que tornavam crimes as fake news no campo político e posicionamentos contra as eleições.

No segundo caso, como todos sabem, Bolsonaro se inclui totalmente, pois já ameaçou as eleições de 2022. Quanto às fake news, o dispositivo vetado proíbe a veiculação de comunicação enganosa, o que não afeta o pensamento do presidente da República. Os dois vetos foram também focalizados por Marianna Holanda e Cristina Camargo, Folha de S. Paulo.

Esses vetos, na minha opinião, devem cair pois, inclusive, focalizam matérias já previstas na legislação do país; caso da propaganda enganosa que ultrapassa o campo político e se estende à publicidade comercial e à obstrução das eleições já condenadas pelo texto constitucional. De qualquer forma, Bolsonaro acentuou novamente a sua posição pessoal em relação a esses dois pontos chaves da democracia.

MINIRREFORMA – O ministro Paulo Guedes lamentou a derrubada do que chamou de minirreforma trabalhista pelo Senado Federal. A minirreforma trabalhista de Paulo Guedes previa que jovens desempregados poderiam frequentar empresas para aprender e com isso descortina-se para si a hipótese de virem a ser empregados.

Portanto, pelo que se indica, a frequência seria gratuita. Como explicar tal colocação?

Independência, fim da escravidão e queda de ditaduras foram obras das oposições através da história

Planalto e oposição devem encarar o 7 de Setembro como uma data de todos

Pedro do Coutto

Ao se aproximar a data de 7 de setembro, que está sendo objeto de manifestações políticas em favor do governo ou contra ele, todos nós devemos lembrar que a independência do Brasil foi uma conquista do nosso país e que, portanto, não pode estar condicionada ou sujeita à interpretações momentâneas, seja num sentido ou em outro: ou seja, sob qualquer inspiração político-partidária. Mas o Dia da Pátria, na minha visão, abre oportunidade para uma análise histórica dos acontecimentos marcantes da vida brasileira e de sua característica primordial como nação.

A independência proclamada por Dom Pedro I em 1822, data que se aproxima do bicentenário, foi uma decorrência de uma ação oposicionista contra a Corte de Lisboa, conduzida no lado brasileiro pela figura extraordinária de José Bonifácio de Andrada e Silva. O fim da escravidão em 1888 foi uma outra consequência que assinalou a vitória da oposição ao regime imperial que consagrava o trabalho escravo, tanto assim que o Brasil foi o último país a aboli-lo em todo o mundo. A campanha abolicionista que teve como líder maior Joaquim Nabuco contou com a participação, entre outros, de Ruy Barbosa, de José do Patrocínio e de Lopes Trovão, considerado um dos maiores oradores da campanha.

DERROTA FRAGOROSA – A libertação dos escravos foi uma derrota fragorosa da indignidade do escravagismo e da posição verdadeiramente anticristã dos escravagistas. A República que, como lembrou o historiador Hélio Silva, “não esperou o amanhecer de 15 de novembro de 1889”, foi outra vitória das oposições brasileiras.

Em 1945, o fim da ditadura Vargas foi outra consequência histórica da força oposicionista. Finalmente, mais um exemplo concreto, a campanha pelas Diretas Já e pela vitória de Tancredo Neves levaram ao fim a ditadura político-militar instaurada em abril de 1964. Eleito com esmagador apoio popular, o destino impediu Tancredo Neves de assumir. Mas, sem sombra de dúvida, a democracia se reconsolidou no país com a investidura de José Sarney na Presidência da República. Terminava o longo ciclo militar de poder, abalado irremediavelmente com o episódio do Riocentro em maio de 1981.

Por todos esses acontecimentos, tanto o Palácio do Planalto quanto as oposições devem encarar o 7 de Setembro como uma data de todos os brasileiros e, principalmente, do próprio Brasil. Reportagens de Igor Gielow, Folha de S. Paulo de quinta-feira, e de Gustavo Schmitt, no O Globo, focalizam a existência de tensões e, sobretudo, intenções absurdas de transformar a data máxima brasileira numa expressão partidária. No Brasil existem partidos, é claro, mas o país não é partido de corrente alguma. É de todos os brasileiros e brasileiras.

RECUO DA ECONOMIA – Ivan Martínez-Vargas e Carolina Nalin, no O Globo, destacam o recuo do Produto Interno Bruto na escala de 0,1% no segundo trimestre deste ano. O resultado é apresentado como uma estagnação. Mas é pior. Trata-se de um recuo porque a população brasileira, segundo o próprio IBGE, cresce 0,7% de um ano para o outro, já descontada a mortalidade. O crescimento populacional assim é resultado  de 1,4% de nascimentos e de 0,7% de mortes.

A comparação entre o PIB e o índice demográfico é fundamental, uma vez que a renda per capita de um país é o resultado da divisão de seu Produto Interno Bruto pelo número de habitantes. Dessa forma, acentuo, o crescimento econômico efetivo tem que levar em conta o aumento populacional. O tema é focalizado também por Eduardo Cucolo, Leonardo Vieceli e Eduardo Sodré, Folha de S. Paulo.

O Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o  Credit Suisse fazem projeções para o PIB que a meu ver não tem base na realidade porque, no fundo, se referem a um possível crescimento do produto este ano em relação a uma base muito fraca no exercício anterior, pois, no momento, em retração de compras até nos supermercados, como será possível estimar que o PIB possa avançar entre 4,9 e 5,2 pontos, como destacam ?

CÁLCULO OTIMISTA – Tanto a base é fraca que os três bancos acham, num cálculo otimista, que o Produto Bruto brasileiro crescerá entre 1,5% a 2% no próximo ano, mas o consumo das famílias no indispensável setor de alimentos retraiu-se, o desemprego continua alto e o Banco Central elevou a taxa Selic justamente para obter maior colocação dos títulos do governo no mercado. Caso contrário, não teria o menor sentido o devedor propor ao credor taxas de juros mais altas.

De qualquer forma, o problema persiste porque a inflação em 12 meses está calculada em 7%. Como se vê, 1,8% acima da remuneração dos títulos do Tesouro, a base da Selic. Na verdade, os bancos não são devedores da taxa Selic e sim credores através dela da dívida acumulada pelo Tesouro Nacional.

DESONERAÇÃO DA FOLHA – Se for prorrogada por cinco anos a desoneração das contribuições patronais para com o INSS, matéria de Mariana Holanda e Fábio Puppo, na minha opinião, o governo decretará a insolvência do INSS. Isso porque a contribuição da renda está reduzida de 20% sobre a folha de salários para uma escala entre 1% a 4% do faturamento bruto das empresas. É claro que tal esquema representa um risco para a Previdência Social do país.

Prorrogar a desoneração por cinco anos, desejo acentuar, será estabelecer a insolvência do INSS porque o mercado não está admitindo novos empregados e as aposentadorias vão crescendo, como é natural, em face do atingimento tanto do tempo de contribuição necessário, quanto da idade exigida. Sem novos empregos, a receita previdenciária não cresce, e com o acréscimo das aposentadorias, os encargos não param de aumentar. O governo está assim diante de um dilema que ameaça não só toda a população, como a sobrevivência de um projeto social indispensável para a vida humana.

MORTE MISTERIOSA – Pai da jornalista Lygia Jobim, o embaixador José Jobim, que apareceu morto em 1979 na Urca como se houvesse se enforcado, tornou-se o nome da turma do Instituto Rio Branco que concluiu o curso na quarta-feira. A reportagem é de Eliane Oliveira, O Globo, lembrando que José Jobim foi embaixador do Brasil no Paraguai e embaixador junto ao Vaticano. No final de uma tarde, disse à sua filha que iria visitar um amigo e não retornou mais. Dois dias depois, a família recebeu um telefonema informando que o seu corpo fora encontrado na Urca.

O presidente Jair Bolsonaro participou da formatura que foi das mais rápidas e não teve a presença de jornalistas, segundo o Itamaraty, em função de cuidados exigidos pela Covid -19. A paraninfa da turma foi a embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues, presidente da Associação dos Diplomatas do Brasil. Antes de desaparecer, o embaixador José Jobim publicou um livro sobre o preço da construção da hidrelétrica de Itaipu. Diplomatas ouvidos pelo O Globo disseram não terem sido informados sobre o evento, talvez em função da escolha de José Jobim como patrono da turma.

Ivanildo Gonçalves, o homem que sabia demais, passa a ser uma grande testemunha

Imagens de Ivanildo comprovariam pagamento em favor de Roberto Dias

Pedro do Coutto

O título repete uma das obras-primas de Alfred Hitchcock e o episódio do motoboy Ivanildo Gonçalves funciona, mais uma vez, ao longo do processo político, como um imprevisto que muda o rumo das investigações policiais e dos fatos que se acumulam na névoa da história.

Reportagem de Paulo Cappelli, Natália Portinari, Julia Lindner e André de Souza, O Globo desta quarta-feira, confirma em longos detalhes o que a GloboNews e a TV Globo haviam exibido na tarde e na noite de segunda-feira. O motoboy Ivanildo Gonçalves comparece a uma agência bancária, realiza saques em dinheiro vivo, paga boletos em nome do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias.

RISCO – A atuação do motoboy estende-se por vários meses a partir de 12 de julho de 2020.Foi exposto ao risco de sofrer assaltos, tal era a rotina da qual participava na mesma agência bancária e fazendo os mesmos saques relativos às faturas das VTClog que possuía intenso relacionamento, vê-se agora, com Ferreira Dias. A transportadora é suspeita de irregularidades e de articulações vinculadas à comercialização de vacinas contra a Covid-19.

O homem que sabia demais, pelas vezes em que se defrontou com as caixas do banco, sacou um total de R$ 47,4 milhões, depositados em endereços relacionados a Ferreira Dias, e efetuou pagamentos de boletos resultantes de compromissos do ex-diretor. Convocado, como é claro, pela CPI do Senado, o ágil motoboy recorreu ao Supremo para não comparecer ou, se comparecesse, para manter-se em silêncio. Ivanildo não é acusado de nada, definiu o senador Omar Aziz, mas deixou o governo mal no episódio ao se esquivar de apenas confirmar o que as imagens da segurança do banco registraram.

RECURSO ABSURDO – Na minha opinião, pior ainda ficou o ministro Nunes Marques que acolheu o recurso absurdo de uma testemunha que assim se transforma em investigado e se coloca em posição antagônica às imagens captadas. Fácil agora para a CPI identificar em que contas foram lançados os boletos que levaram ao empate entre os saques e os depósitos.

Como se constata, a desordem em todos os sentidos era predominante no Ministério da Saúde. Do jantar em um shopping de Brasília às curvas da moto pilotada por Ivanildo, sombras vão se tornando cada vez mais nítidas à luz do sol. Como negar a evidência dos valores movimentados por Ivanildo, “o homem que sabia demais” de Hitchcock?

PRECATÓRIOS –  O Globo de ontem publicou reportagem de Manoel Ventura e Fernanda Trisotto focalizando um novo posicionamento assumido pelo Ministério da Economia em relação aos pagamentos dos precatórios que se acumularam há várias datas na Justiça Federal.

A proposta orçamentária para 2022 inclui a previsão desses pagamentos, como revelaram o Secretário Especial do Tesouro, Bruno Funchal, o Secretário do Orçamento, Ariosto Culau, e o secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, além de estudos da Secretaria de Gestão. Os técnicos da Fazenda levaram ao ministro Paulo Guedes um documento chamando atenção para a necessidade de emenda constitucional para parcelar os precatórios.

A respeito dos precatórios, revelou-me o ex-deputado Alexandre Farah,  os mesmos resultam de ações ajuizadas em 1989, portanto há 32 anos, e julgadas praticamente três anos depois. Assim, o tempo de espera pelo pagamento em média é de 29 anos. Muitos dos que ajuizaram ações, faleceram ao longo dessas três décadas.

HONORÁRIOS – Mas o caso não termina aí. Há a questão dos honorários dos advogados, em média 20% do total das causas. E existe também uma movimentação que ocorreu de alguns anos para cá por parte de escritórios especializados na compra de precatórios.

Os escritórios propunham em média um deságio de 30% que, somados aos honorários advocatícios dos titulares originários das ações, reduzem o valor dos precatórios à metade. Portanto, quando se fala em precatório, lembra Alexandre Farah, está se falando num tempo de espera colossal para que o governo cumpra sentenças judiciais contra as quais não pode mais recorrer. Esta é a versão efetiva das dívidas que o poder público acumula no país.

DESEMPREGO – Uma reportagem de Carolina Nalin, O Globo, com base no resultado de uma pesquisa por amostragem do IBGE, destaca que a taxa de desemprego no período de janeiro a março teria recuado 0,7%, caindo de 14,8 para 14,1 pontos. Teriam retornado ao mercado formal de trabalho  no período o total de 2,1 milhões de pessoas.

A meu ver, os números não encontram reflexo nos sintomas, porém é fácil conferir: basta ver se as receitas do INSS e do FGTS subiram no mesmo período. Mas a questão ainda não termina aí. É possível que 2,1 milhões de pessoas tenham sido readmitidas. Mas com que salários?

Bolsonaro adia filiação partidária porque o seu projeto está mais nas armas do que nas urnas

Charge do Duke (domtotal.com)

Pedro do Coutto

Por incrível que pareça, o presidente Jair Bolsonaro permanece sem filiação partidária e, até o momento, não parece disposto a encontrar uma nova legenda para nela ingressar e assim concorrer às eleições de outubro do próximo ano. Reportagem de Jussara Soares, O Globo desta terça-feira, focaliza a questão e assinala que Bolsonaro foi aconselhado por Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil a somente reingressar no sistema partidário no final do primeiro semestre de 2022.

Para mim, uma situação confusa, pois a menos que tenha havido mudança, os candidatos, todos eles, necessitam ter um ano de inscrição partidária antes das eleições. O prazo assim termina, na minha impressão, em 3 de outubro de 2021, portanto a pouco mais de um mês. Jussara Soares acentua que Ciro Nogueira sugeriu a espera de mais seis meses para que possa ser feita uma avaliação melhor pelo atual presidente da República, uma vez que, pela pesquisa do Datafolha, ele foi considerado ruim e péssimo por 51% do eleitorado. O levantamento é do mês de julho, portanto feito há 60 dias. Em outubro de 2020, o índice negativo era de 31 pontos. Portanto, avançou vinte escalas percentuais. Mas, não é essa questão essencial.

DOIS CAMINHOS –  A questão essencial é que o poder não pode permanecer vago em lugar algum do mundo e os exemplos da história universal estão aí para demonstrar. E, para chegar ao poder, outro exemplo irredutível, o de que só há dois caminhos a se seguir, o das urnas, nas democracias, ou o caminho das armas, nas ditaduras. Ao que parece, a resistência em ingressar em uma legenda por parte de Bolsonaro é para que ele não se comprometa com o voto popular e deseje um desfecho militar.

Tanto é assim que o documento da Fiesp que apenas se baseia no compromisso com a Constituição, com as eleições e com a democracia, criou mal estar junto ao chefe do Executivo. A Fiesp, segundo o seu presidente Paulo Skaf, adiou o documento, conforme dito, até o final desta semana. Porém, os empresários do agronegócio, reportagem de Fernanda Trisotto e Henrique Gomes Batista, O Globo, não adiaram o seu posicionamento e colocaram na imprensa um manifesto contra o risco de retrocessos institucionais ao mesmo tempo em que exalta a democracia e coloca em foco totalmente claro o respeito ao voto e à Constituição do país.

Alguém pode ser contra a Constituição do país, contra o voto ou contra a democracia? É a pergunta que faço. Assim, se alguém reage mal a tais colocações, que têm o apoio de mais de 80% do eleitorado brasileiro, é porque no fundo da questão está tentando trilhar um caminho oposto na certeza de que a estrada do voto não o levará, no caso de Bolsonaro, ao desfecho igual ao que as urnas de 2018 lhe proporcionaram. Não pode haver outra interpretação. Da mesma forma que ninguém pode ser contra a água potável ou a alimentação sadia, não se pode acreditar na sinceridade de quem se irrita quando se fala em Constituição democrática e no direito de voto popular.

RECUO  –  Relativamente ao recuo da Fiesp, de acordo com Ivan Martínez-Vargas, Geralda Doca e Renata Andrade, também no O Globo, o adiamento adotado por Skaf resultou de um pedido feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira, para que o documento só venha a ser veiculado após o dia 7 de setembro, quando haverá no país manifestações de apoio e manifestações  contrárias ao governo federal. Entretanto, Skaf ao dizer que poderá liberar o texto até sábado dá a impressão de não concordar com o adiamento até a comemoração da Independência do país.

Além desse aspecto, Eduardo Sodré e Paula Soprana, Folha de S. Paulo, revelam que o adiamento criou decepção junto à maioria das entidades industriais, dando margem para que a direção da Fiesp possa ser acusada de covardia e de falta de empenho em legitimamente representar a classe empresarial, sobretudo porque mais de duzentos setores da indústria assinaram o documento e grande número dos que ainda não tinham firmado se mostraram dispostos a fazê-lo. Entre os setores industriais que demonstraram temor, surpreendentemente encontra-se a Firjan, uma vez que o Rio de Janeiro é o segundo centro industrial do Brasil.

SALÁRIO MÍNIMO –  O governo Bolsonaro anunciou na tarde de terça-feira que o salário mínimo a partir de janeiro de 2022 passará a ser de R$ 1170, 5% acima do valor atual. Ocorrem dois aspectos. Primeiro que se a inflação de 2021, aliás como se espera, superar os 5%, o salário mínimo estará de fato sendo reduzido, perdendo portanto ainda maior valor de compra.

Em segundo lugar, se o salário mínimo cai sobre 5% e os demais salários sobem zero por centro, fica evidente que o número dos que no Brasil recebem o piso básico vai aumentar ainda mais. Um terceiro ângulo da questão pela lei em vigor, o reajuste percentual do salário mínimo inclui os aposentados e pensionistas do INSS que assim vão ter os seus vencimentos nominalmente aumentados a partir do próximo ano.

Pela lei do país, a atualização dos orçamentos federais será feita também com base no percentual inflacionário achado pelo IBGE. Não sei porque o jornalismo econômico, tanto no O Globo, quanto na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo, não citam os valores absolutos sobre os quais os valores percentuais incidem. A parte tributária é uma coisa, é uma fração orçamentária, mas está longe de ser o valor total do orçamento.

ENDIVIDAMENTONo Jornal Nacional de segunda-feira, a TV Globo informou que em dez famílias brasileiras, sete encontram-se endividadas em maior ou menor escala. A comparação, portanto, representa 70% da população, uma vez que cada família tem uma média de 4,2 pessoas. O endividamento, acentuou a TV Globo, atinge R$ 426 bilhões sobre os quais incide em média juros anuais de 28,8%. Assim, com os salários congelados é absolutamente impossível que a sociedade brasileira possa saldar o montante de seu endividamento.

Só poderá fazê-lo rolar como uma bola de neve. Mas até que ponto esse processo rotativo será possível ? A fome é um dos maiores flagelos da humanidade  e a situação brasileira foge à regra.

Paolla Oliveira, uma grande artista e uma grande mulher que encanta nos ritmos e cores da dança

Paolla Oliveira dançou espetacularmente em todas as etapas

Pedro do Coutto

Para não dizer que não falei de flores, embora no meio da tempestade, focalizo hoje um assunto mais agradável do que a política brasileira, sobretudo porque refere-se à arte, no caso a arte da dança, o que sempre nos conduz ao sonho, à fantasia e à eterna emoção humana. Foi emocionante o desfecho da Dança dos Famosos, na tarde de domingo, na TV Globo, consagrando todas as exibições dos pares, mas principalmente a vitória dessa grande artista chamada Paolla Oliveira que dançou espetacularmente em todas as etapas do espetáculo que se alongou por três semanas, passando pelo tango, pela salsa, pela valsa, finalizando com o samba.

Uma beleza extraordinária marcou as suas diversas apresentações e o seu corpo refletiu a sensualidade que, no fundo, buscamos com ela nos identificar através do impulso produzido pela atração do homem pela mulher, aguardando como resposta a atração da mulher pelo homem.

SENTIMENTO DE SAUDADE – Foi uma extraordinária tarde de domingo que terminou à noite, sem dúvida alguma deixando um sentimento de saudade. A mesma sensação de tempos idos, ao longo de muitos anos, quando eu assistia filmes com Humphrey Bogart e torcia para que a fita não chegasse ao fim. São impulsos que distinguem o que nos agrada e nos emociona e o que nos desagrada e nos distancia.

Quando algo nos agrada queremos prolongá-lo, e quando nos desagrada tentamos reduzir o tempo em que a sensação nos atinge. Por isso, entrego a minha memória ao desempenho deslumbrante de uma atriz que se consagra tanto por suas interpretações, quanto por sua presença. Uma personalidade fortíssima, eis que, uma prova dessa característica marcante, não pode, sem esforço, deixar de ser observada onde estivermos. Paolla Oliveira deixou a sua marca numa tarde de domingo que vai demorar para ser repetida. Que pena. Mas é a vida.

FIESP  –  Reportagem de Renato Andrade, Ivan Martínez-Vargas, Danielle Nogueira e Evandro Éboli, O Globo de ontem, anunciou que hoje, terça-feira, a Federação das Indústrias da São Paulo vai divulgar um manifesto subscrito por duzentas associações empresariais pedindo o fim político das tensões entre os poderes, título que adotou para não responsabilizar nominalmente o presidente Bolsonaro por tais dificuldades crescentes no país. Na realidade, o manifesto é um sinal grave de alerta ao que se refere às preocupações do empresariado que teme uma ruptura, sob o seu ângulo de análise difíceis de prever.

De qualquer forma, o embate político entre democracia e golpe de Estado não interessa nem aos empresários e muito menos à população brasileira de modo geral. Mas o chefe do Executivo insiste em seu propósito de radicalizar. Tanto assim que volta ao seu atual tema preferido, com críticas aos ministros do Supremo Tribunal Federal, diretamente a Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso e, indiretamente, a todos o Tribunal que simboliza o Poder Judiciário.

Em meio à incerteza do relacionamento com o Palácio do Planalto, surge também com o apoio de Bolsonaro e Paulo Guedes à saída do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Reportagem de Geralda Doca, Eliane Oliveira, João Sorima Neto, Rennan Setti e Vitor da Costa, O Globo, focalizam o assunto. A posição de restrições da Febraban ao governo abalou o relacionamento entre o sistema bancário e o Planalto. Daí o afastamento do BB e da CEF, mas que não contribui em nada para suavizar as tensões. Pelo contrário, agravam as divergências.

DEMARCAÇÃO DE TERRAS INDÍGENAS  – Matheus Teixeira e Danielle Brant, Folha de S. Paulo, destacam a importância da concentração de representantes das tribos indígenas no Planalto buscando sensibilizar o STF em relação à demarcação das terras indígenas. O problema é grave e colocou em confronto interesses da bancada ruralista e as tribos amazônicas.

Os ruralistas pressionam pela conquista de espaços maiores para as suas atividades comerciais. Os índios resistem lutando pelo reconhecimento das terras que ocupam após a promulgação da Constituição de 1988.  Preocupa sobretudo a hipótese de ocorrer um desfecho violento no Planalto.

PREÇO DAS MÁSCARAS –  O Ministério da Saúde tem se tornado o palco principal de uma tempestade gerada por fortes ventos que levam à corrupção. Primeiro foi o caso da compra das vacinas. Agora, a compra de máscaras. Vinicius Sassine, Folha de S. Paulo, destaca que o Ministério da Saúde ocultou a existência de um problema, se deslocou para o Ministério Público Federal, envolvendo a compra de máscaras voltadas a conter o avanço da pandemia.

Uma proposta de R$ 3,5 por unidade foi ultrapassada por uma oferta de R$ 8,6 a unidade. Inclusive, a mascara de preço mais alto seria inadequada. Mais uma escalada a ser contida pelo governo Jair Bolsonaro, atingindo novamente a área que deve ser comandada pelo ministro Marcelo Queiroga.

Claro enigma de Jair Bolsonaro: Vitória para ele será somente através das armas

Bolsonaro projeta golpe armado capaz de mantê-lo no poder

Pedro do Coutto

A GloboNews revelou no final da tarde de sábado, a frase tão enigmática quanto ameaçadora de Jair Bolsonaro pronunciada na parte da manhã no encontro que manteve em Goiânia com políticos evangélicos e apoiadores de modo geral. Afirmou textualmente que a ele, Bolsonaro, restam três caminhos : sem preso, ser morto ou a vitória.

O poema de Carlos Drummond de Andrade, a meu ver, se ajusta bem à estranha formulação do presidente da República, sobretudo porque logo em seguida ao pronunciamento ele descartou a hipótese de ser preso. Restaram as opções da morte e da vitória. Mas que vitória poderá ser esta? 

GOLPE ARMADO – Bolsonaro não se referiu às vitórias nas urnas de 2022. Portanto,  o que ele projetou como êxito é o desfecho favorável de um golpe armado capaz de mantê-lo no poder. O enigma fica claro: ele deseja continuar, mas não confia nas urnas de outubro do próximo ano, uma vez que o Datafolha e o XP Investimentos revelaram pesquisas que o deixam muito longe de Lula da Silva.

Além disso, em matéria de voto, de fato, não pode haver ministro mais anti sufrágio popular do que Paulo Guedes, aliás conforme acentuou Carol Pires em artigo na Folha de S. Paulo de ontem. Como alguém em sã consciência pode concordar com Paulo Guedes? A Folha de S. Paulo e O Globo de domingo publicam duas excelentes reportagens sobre a afirmação de Bolsonaro no encontro em Goiânia com evangélicos. Daniel Gullino, no O Globo, Matheus Vargas e Clarissa Garcia na Folha de S. Paulo.

ATAQUES – Bolsonaro voltou também a atacar os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso dizendo que ele, Bolsonaro, não deseja nem provoca ruptura, mas “tudo tem um limite. Nenhum homem aqui vai me amedrontar”, disse o presidente referindo-se provavelmente ao Evangelho de São Mateus. O presidente da República criticou os ministros do STF por suas medidas arbitrárias e revanchistas, extrapolando o direito e passando por cima da Constituição. Isso de um lado.

De outro, criticou o TSE por ter proibido a monetização de mensagens colocadas nas redes sociais da internet. Acrescentou que o povo pode confirmar no Executivo e no Legislativo, o que equivale a ter excluído o Poder Judiciário do quadro institucional brasileiro.

7 DE SETEMBRO – Bolsonaro, mais uma vez, não deixou dúvida quanto à iniciativa  que pretende liderar. As eleições do próximo ano não estão mais  em sua meta prioritária. Ele conta, deixou claro em seu enigma, com o golpe militar. A esse respeito vale a pena ler a reportagem de João Pedro Pitombo e Júlia Barbon, Folha de S. Paulo, focalizando a presença de PMs nas manifestações de apoio a Jair Bolsonaro no 7 de Setembro.

A presença é anunciada pelo coronel Marlon Teza, presidente da Federação Nacional de Oficiais Militares das PMs estaduais. A meu ver, como escrevi outro dia, essa participação lembra o encontro de João Goulart no dia 30 de março de 1964 com sargentos no Automóvel Clube do Brasil. Um prédio histórico abandonado no Centro do Rio, mas palco de uma história eternizada  pelas consequências que o encontro produziu.

Bolsonaro se inspirou em frase de Mussolini ao aconselhar a troca de feijão pelo fuzil

Charge do Aroeira (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

Na última sexta-feira, a GloboNews e o Jornal Nacional da TV Globo colocaram no ar a incrível exclamação feita pelo presidente Jair Bolsonaro a um grupo de apoiadores que pela manhã o aguardavam na saída do Alvorada, aconselhando-os, e também a todo o povo brasileiro, a comprarem um fuzil em vez de feijão.

A frase é inspirada em um pronunciamento do ditador Mussolini, parceiro de Hitler na 2ª Guerra, feita em um comício em Roma quando indagou aos presentes se desejavam mais canhões ou manteiga. O instante que atravessa a história e coloca o personagem no esgoto da memória encontra-se registrado num documentário da Netflix sobre o nazismo de Hitler e o fascismo do primeiro-ministro italiano que levaram a extrema-direita a um desastre e a humanidade a maior sequência criminosa da história universal.

MANTEIGA POR FEIJÃO – Bolsonaro, na realidade, trocou a manteiga pelo feijão e os canhões pelos fuzis. Reportagem do jornalista Matheus Vargas, Folha de S. Paulo, incorpora-se à memória textual do episódio que ficará para sempre como um capítulo a mais protagonizado pelo presidente da República.

Bolsonaro fez afirmações sem nexo ou lógica para uma população que encontra dificuldades para adquirir alimentos nos supermercados, aconselhando a compra de uma arma de ataque, cujo porte particular depende de autorização do Exército. Além disso, sustentou que o povo armado jamais será escravizado. Mas, pergunto, escravizado por quem ? Quem ameaça o nosso país ?

Para haver uma manifestação de defesa é indispensável que exista uma ameaça concreta de violência e de morte. Não se entende, portanto, quais as razões sobre as quais Bolsonaro se baseou para formular o surpreendente pensamento? Mais um fato a revelar que ele perdeu o nexo dos fatos. 

ENERGIA ELÉTRICAReportagem de Manuel Ventura, O Globo, ocupando uma página inteira da edição de sábado, focaliza a perspectiva do próprio governo de que as tarifas de energia elétrica poderão subir este ano até 58% em relação ao preço de janeiro. Em setembro, acentua o repórter, o crescimento atingirá 8%.

Na realidade, o preço da energia, conforme dito em artigo recente, não atinge apenas o consumo domiciliar, que pesa 20% do consumo global. Outros 20% representam o consumo do comércio e dos serviços e a parcela de 60% o consumo industrial.

O próprio presidente da República aconselhou as famílias a apagarem uma lâmpada que esteja acesa sem grande necessidade no momento em que estiverem diante da tela da televisão. Não só o governo, mas vários especialistas têm se referido a esse aspecto da questão.

AUMENTO DE PREÇO – Mas o consumo dessas lâmpadas não essenciais é mínimo, enquanto o aumento de preço é máximo, sobretudo no sentido de que para pagar as contas da energia os contribuintes vão ter que reduzir as compras dos supermercados e do comércio em geral. É uma questão relativa à única opção possível. Isso de um lado.

De outro, o aumento das tarifas de energia será muito maior do que o acréscimo percentual anunciado, pois há dois tipos de consumo, mesmo domiciliares. O consumo em kW e o consumo em kWh. A diferença pode ter base na comparação entre uma geladeira e um aparelho de TV.

Relativamente à geladeira, o consumo kWh é válido, pois ela fica ligada 24 horas, dia e noite. No caso da TV é diferente. O consumo não é em kWh, pois os aparelhos não ficam ligados ininterruptamente. Assim teremos, como fez o ministro Paulo Guedes ao anunciar o reajuste kWh, um reflexo muito maior do que aquele produzido no kW.

TEMPO DE UTILIZAÇÃO – No kW o consumidor paga pelo tempo que utilizou a energia. No kWh paga durante as 24 h de cada dia. Mas, como disse há pouco, com exceção das geladeiras, os demais aparelhos têm um consumo limitado aos kW. Nós pagamos o tempo utilizado de fato e não o tempo teórico atribuído à escala kWh. No fundo trata-se de uma forma de fazer o preço subir ainda mais.

O caso da energia elétrica é diferente do caso do petróleo. No consumo de petróleo, cada barril representa um ponto a mais. A distribuição de gasolina ou diesel não é contínua. No caso da energia elétrica basta que se acione um botão para se consumir uma corrente de energia. A diferença é fundamental. Tanto é, que a potência instalada do Brasil, pela última informação que tenho, é de 135 milhões de kW. Mas o consumo médio é de 70 milhões de kW.

Considerar o consumo multiplicado-o por 24 horas diárias é uma forma de iludir o mercado e os consumidores. A energia deve ser paga sobre o que de fato é consumido, e não sobre o total que teoricamente poderia ser consumido se todos os aparelhos permanecessem ligados sem interrupção.

LIMITAÇÃO DO PIXGabriel Shinohara, no O Globo, e Larissa Garcia, na Folha de S. Paulo, publicaram ontem excelentes reportagens sobre a decisão do Banco Central de limitar as transferências financeiras dentro do sistema Pix em R$ 1000 no período entre às 20h e 6h da manhã. Esse limite será o padrão implementado pelos bancos. Se o cliente desejar um limite maior, ele poderá fazer esse pedido de alteração, explica o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC, João Manoel Pinho de Mello.

Não há dúvida que o Banco Central falhou ao permitir movimentações que em pouco tempo após a sua vigência causaram roubos superiores a R$ 40 milhões e até a sequestros de pessoas. De abril a julho foram registrados 151 casos, além daqueles, como sempre acontece, não assinalados.  

ATAQUES – As transações suspeitas deram margem à decisão, uma vez que somaram 100 mil casos. O Banco Central falhou ao não prever a vulnerabilidade de tal sistema, não prevendo os ataques cibernéticos e as fraudes que se repetem através da história a todos os sistemas que representam um bem eterno chamado dinheiro.

Incrível que Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, não tenha considerado o ataque frontal de desonestos, sobretudo quando a desonestidade se transforma em rotina e marca registrada de um grande percentual das transações. Não bastam os preços superfaturados nas concorrências. O país mergulhou também no roubo sem disfarces.

Roberto Campos Neto, sobretudo pela história do do seu avô, deverá daqui para frente ter mais atenção nas resoluções do Bacen porque as que marcaram o inicio do sistema Pix foram um fracasso, como os fatos comprovam.

Bernardo Mello Franco e Vera Magalhães iluminam o verdadeiro retrato de Paulo Guedes

Charge do Duke (domtotal.com)

Pedro do Coutto

Na edição desta sexta-feira de O Globo, os colunistas Bernardo Mello Franco e Vera Magalhães iluminaram o verdadeiro retrato do ministro Paulo Guedes, um homem que custou a ser desmascarado, mas cujo processo envolvendo a sua imagem real passou a se desenrolar com nitidez absoluta, sobretudo a partir dos artigos a que me refiro.

Bernardo Mello Franco aconselha Paulo Guedes antes de debochar dos que não podem pagar a conta de luz elétrica, a comparecer ao supermercado e ver os aumentos de preços. Vera Magalhães lembra a Paulo Guedes que chorar em relação a uma situação desagradável ainda é grátis no país do governo Jair Bolsonaro.

FARSANTE – Para mim, Paulo Guedes tornou-se o maior farsante da economia brasileira, pelo menos de 1955 aos dias de hoje, período em que acompanho as questões políticas que envolvem o Brasil.

Paulo Guedes, lembra Bernardo Mello Franco, já debochou de várias categorias profissionais, e depois de sua frase infeliz (“não adianta ficar chorando”), tenta se desculpar mais uma vez, dizendo a frase de sempre: “o que eu disse foi retirado de um contexto”. A que contexto Paulo Guedes se refere? A um contexto imaginário, respondo.

Paulo Guedes olhando a sua imagem no espelho do tempo se vê como um ser humano diferente do que aquele que realmente é. Durante mais de dois anos, como na figura do Posto Ipiranga, foi visto também assim com a imagem idealizada pelo presidente Bolsonaro. De repente, a luz sobre os cristais revelam a sua inadaptação absoluta para a política, sobretudo porque despreza os assalariados e as assalariadas do país, e de forma consciente atribuiu a todos o seu modo de pensar. Uma falsificação.

REALIDADE SOCIAL – O ex-ministro da Fazenda, do Planejamento, do Trabalho e da Previdência Social, cargos que acumulou impossivelmente como ministro da Economia, revela desconhecer a realidade social brasileira, realidade sobre a qual repousa o direito do voto e a capacidade de escolher governantes.

O preço da energia elétrica não é o mesmo para ele e para o morador de uma favela do Rio. Porém o peso do voto na urna é o mesmo. Ele não pensou nunca nisso. Mas Bolsonaro começou a pensar agora. Com Paulo Guedes, para mim, é impossível qualquer governo dar certo, principalmente porque ele despreza a grande maioria do povo que vive na pobreza, enfrenta o desemprego, sobrevive ao transporte precário e ainda por cima arca com os reflexos de uma política super conservadora  que não tem mais lugar nos dias de hoje a não ser nos regimes da extrema-direita. Não cito as ditaduras dos regimes da extrema-esquerda porque esta desapareceu com a capitalização da China e da Rússia.

A questão das tarifas de energia elétrica, consequência da crise hídrica, é muito mais ampla do que calculam Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Não se trata apenas de fazer com que os telespectadores diante da televisão ou do computador desliguem uma ou outra lâmpada que ilumina o apartamento.

PERFIL DO CONSUMO – O consumo de energia elétrica, seja ela hídrica ou movida a óleo, não se limita ao consumo domiciliar. Trabalhei 15 anos em Furnas e conheço o perfil do consumo. Em números redondos é o seguinte: 60% referem-se ao consumo industrial, 20%  ao consumo comercial e de serviços e o consumo domiciliar, este sim, outros 20% dividido em partes desiguais por 50 milhões de residências do país.

O reflexo do aumento de tarifas atinge todo o complexo econômico brasileiro. Não é uma questão de um ar refrigerado ligado mais tempo do que outro, ou de uma porta entreaberta de geladeira gerando mais consumo, ou de um ventilador fazendo circular o ar menos pesado do calor que tem atingido o Rio nas últimas semanas.

SEM SAÍDA – É muito mais amplo o problema. A crise hídrica forçada pela redução de chuvas poderia ter sido enfrentada através da expansão da rede de transmissão capaz de unir as áreas mais abastecidas de água das que são menos atendidas. Se o governo Bolsonaro conta com homens como Paulo Guedes para traçar as linhas econômicas, então ele não terá saída para desafio algum  da política e da economia, questões que caminham juntas eternamente.

O governo Bolsonaro desabou. A imagem de Paulo Guedes à frente de um imaginário Posto Ipiranga também desapareceu do espelho. Como definiram com exatidão Bernardo Mello Franco e Vera Magalhães no Globo de ontem.

CABUL – As reportagens internacionais publicaram ontem, como está no O Globo, reflexos negativos para a popularidade do presidente Joe Biden, consequência do episódio que culminou com a retirada das Forças Americanas do Afeganistão.

Mas, examinando-se friamente a questão, verifica-se, como definia o senador Juracy Magalhães, que a política  também é a arte do possível.  Atos heroicos, como aqueles destacados por personagens eternos, não podem ocupar o lugar de soluções políticas difíceis de serem tomadas diante de circunstâncias que mudam a cada momento.

TRAGÉDIA – Claro que a retirada das Forças de Cabul causou a morte cruel e absurda de seres humanos, entre eles 12 soldados dos Estados Unidos. Mas o que fazer ? Usar metralhadora contra talibãs e dissidências? Seria efetivamente muito pior. Morreriam muitos talibãs, mas seriam dizimados também dezenas de milhares de pessoas  que apenas estavam movidas pelo impulso de escapar de uma tragédia.

Metralhar a multidão para que pudesse morrer dezenas de criminosos não seria uma solução. A política é muito mais complexa do que se imagina. É o preço que a história cobra por existir e entregar o poder a tiranos e fanáticos.

Exército rebate Bolsonaro e afirma que suspender eleições não está na Constituição do país

General Paulo Sérgio Nogueira avisou que vai cumprir a Constituição

Pedro do Coutto

Ao discursar ontem na solenidade de 25 de agosto, Dia do Soldado, o general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, rebateu o posicionamento assumido por mais de uma vez pelo presidente Jair Bolsonaro de suspender as eleições de 2022, caso o voto impresso não fosse reincorporado à legislação brasileira.

Reportagem de Daniel Gullino e Evandro Éboli destaca nitidamente o episódio ao focalizar trechos principais do discurso do general Sérgio Nogueira, inclusive feito ao lado do presidente da República. Conforme digo sempre, em matéria política não é suficiente ver o fato, mas também ver o que está no fato. O general Paulo Sérgio Nogueira sustentou que as Forças Armadas devem atuar respeitando a missão atribuída pelo texto constitucional.

CARTA MAGNA – Logo, rebateu diretamente a solução inconstitucional defendida pelo presidente Bolsonaro de suspender as eleições de 2022. O comandante do Exército acentuou que junto com a Marinha e a FAB, o Exército mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão delegada pelos brasileiros e consagrada na Carta Magna. Portanto, suspender as eleições por causa da derrota do voto impresso é tão absurdo quanto frontalmente inconstitucional.

O discurso do general Paulo Sérgio Nogueira, a meu ver, reveste-se de extraordinária importância, principalmente no momento em que o presidente da República sequer distingue se somente as eleições presidenciais seriam suspensas por sua vontade ou se seriam sustadas também as eleições para governador, senador, deputados federais e estaduais.

Tenho a impressão de que nem o próprio Bolsonaro chegou a uma conclusão relativa à ameaça que praticou, sobretudo contra a democracia brasileira que se distingue pelo respeito à vontade das urnas e não em função do pensamento individual do chefe do Executivo.

GAFE – A reportagem de Daniel Gullino e Evandro Éboli assinala um fato que constitui uma grande gafe do deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal. Retirou-se da solenidade antes dela terminar alegando ter um compromisso. Um absurdo. Se ele tinha um compromisso coincidente em matéria de horário, não deveria ter comparecido ao Dia de Caxias, patrono do Exército. Ou então, principalmente, deveria ter adiado o compromisso alegado.

Uma autoridade não pode se retirar no meio de um evento desta ordem. Pode não comparecer, isso é diferente. Mas tampouco pode se fazer representar porque em uma solenidade que contou com a presença do presidente da República, nenhum ministro ou autoridade parlamentar pode enviar um representante para substituí-lo.

Foi uma atitude lamentável do deputado Arthur Lira. A comemoração do Dia do Soldado não permite que os que dela estavam participando possam se ausentar antes do seu término.  O cerimonial do Planalto deveria ter alertado o deputado Arthur Lira.

RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS   – Excelente a matéria histórica de Fernanda Canofre, Folha de S. Paulo desta quinta-feira, sobre a renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República e que abriu uma crise política e institucional no Brasil que até hoje ainda não terminou. Jânio Quadros, na antevéspera, havia condecorado Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

E, também na antevéspera, portanto em 23 de agosto, numa entrevista à TV Tupi que se tornou manchete principal do Jornal do Brasil no dia seguinte, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, revelou ter sido convidado por Jânio Quadros e pelo ministro da Justiça,  Oscar Pedroso Horta, para um golpe no país.

A repercussão da entrevista foi enorme. Escrevi sobre ela no Correio da Manhã. Jânio Quadros perdia com a condecoração de Guevara o apoio das correntes conservadoras e ao tentar um golpe perdeu o apoio nacional. Nos bastidores circulou a notícia de que Jânio dirigiu-se ao general Odílio Denys, então ministro do Exército, buscando apoio para intervenção federal da Guanabara. Não conseguindo apoio, renunciou.

SEM APOIO – O seu objetivo era o de contar com o apoio da população, mas não obteve êxito. Prevenido da intenção de Jânio, o deputado Ranieri Mazzilli definiu que renúncia é um ato pessoal, não dependendo de homologação de poder algum. Encerrava-se mais um capítulo da história do Brasil. Fernanda Canofre compara a atmosfera de 1961 com a que envolve hoje o presidente Jair Bolsonaro em 2021, 60 anos depois.

Jânio Quadros destruiu a obra política de Juscelino Kubitschek de reconstruir a democracia brasileira. No discurso em que transmitiu o cargo, JK lembrou a Jânio que estava entregando o poder a ele em condições muito diversas daqueles que marcaram a sua posse em janeiro de 1956.

Naquele momento, relembrou, houve a necessidade de dois movimentos políticos-militares para assegurar o respeito à vontade das urnas. “Vossa excelência assume hoje com a democracia fortalecida. Portanto em condições muito adversas daqueles em que assumi há cinco anos”, afirmava. A história se escreve com episódios assim, mas JK não poderia imaginar que Jânio fosse renunciar. Política é assim.

CENSURA –  A desembargadora Ana Maria Ferreira, do Tribunal de Justiça de Brasília mandou retirar do site do O Globo, publicou o próprio jornal ontem, informações sobre movimentações financeiras da VTCLOG, empresa investigada pela CPI da Pandemia. A matéria encontrava-se na edição online e terminou sendo publicada na edição impressa do jornal nesta quinta-feira. Um absurdo completo o despacho.

Na realidade, ela não censurou apenas O Globo  ou a TV Globo, mas sim o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que forneceu as informações à reportagem. Se o Coaf forneceu as informações, por que a desembargadora não culpou o Conselho mas o jornal ? Impressionante  a repetição de episódios desse tipo.

O jornal recorreu e lembrou que a informação tem como fonte o próprio Coaf. Se a desembargadora tentava bloquear a repercussão, sua atitude, na realidade, até a ampliou. Censura é inconstitucional, inclusive como se vê pela circulação de fake news nas redes sociais da internet.

Ciro Gomes ataca Haddad e volta a errar no alvo da sucessão de 2022

Impulso emocional de Ciro não encontra eco na lógica política

Pedro do Coutto

Em artigo recente, focalizei o equívoco que Ciro Gomes comete investindo contra a candidatura de Lula da Silva em vez de se opor diretamente à reeleição de Jair Bolsonaro. A atitude resulta de um impulso emocional, mas que não encontra eco na lógica política, no esforço de conquistar o apoio de eleitores e eleitoras.  

O ex-governador do Ceará só poderá ter qualquer possibilidade de êxito se conseguir ultrapassar os pontos percentuais das pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos que o separam do atual presidente da República. Entretanto, reportagem de Rayanderson Guerra, O Globo de ontem, focaliza um ataque que Ciro Gomes, em entrevista a Pedro Bial, desfechou contra Fernando Haddad, que foi candidato em 2018, mas que no momento não figura na escalação do PT para disputar o Planalto, sobretudo porque o candidato do Partido dos Trabalhadores chama-se Lula da Silva.

IRRITAÇÃO – Ciro Gomes, segundo a reportagem, se irritou com uma declaração de Haddad de que, em 2018, ele, Ciro Gomes, recusou-se a ser candidato a vice-presidente numa chapa eventualmente liderada por Lula. A meu ver, Ciro Gomes guardou a mágoa, aliás com certa dose de razão, de Lula tê-lo vetado como candidato de uma coligação PT – PDT para o Palácio do Planalto.

Digo certa dose de razão porque Lula cometeu um erro ao considerar que, para ele, ex-presidente, Bolsonaro seria melhor, supondo que Ciro, se eleito, tiraria o PT de suas mãos e fixaria uma nova liderança no país com uma consequência de nova correlação de forças. É o caso de alguém julgar-se dono de uma legenda.

Aconteceu, por exemplo, em 1960, na Guanabara, quando o próprio Jango e o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, não vieram ao Rio para dar apoio a Sérgio Magalhães, candidato do PTB contra Carlos Lacerda. Acharam que uma vez no governo, Lacerda não poderia administrar bem a cidade por falta de recursos financeiros.  

OUTRO RUMO – Ambos, contudo, esqueceram o apoio do governo John Kennedy a Lacerda através da Aliança para o Progresso. Sergio Magalhães, com um milhão de eleitores, perdeu por 23 mil votos. Se Brizola o tivesse apoiado, Sergio seria eleito principalmente porque desapareceria da campanha a influência de Tenório Cavalcanti que teve 220 mil votos, ajudando a vitória de Lacerda e mudando aquela que poderia ser a história moderna do Brasil.

Juscelino também não apoiou Sérgio temendo que tal atitude a favor de um reformista abalasse a sua força eleitoral junto ao conservadorismo. JK administrou muito bem a contradição conservadora e reformista, mas esqueceu o fato principal que residiu na vitória de Lacerda. Na realidade, acrescento, o projeto JK 65 perdeu-se nas águas da Guanabara. Coisas da história, fatos que o tempo não muda.

INFLAÇÃO – Com base nas pesquisas mensais do IBGE, que apontaram 0,9% em julho e outros tantos para agosto, a taxa inflacionária deste ano vai passar de 8%.

A previsão inicial de Paulo Guedes era de apenas 4%. O ministro , de acordo com a Globo News, disse que a taxa de 8% “faz parte do jogo”. Que jogo será esse? Dos que têm os seus salários congelados certamente não é.

Gaspari define apoio de PMs a Jair Bolsonaro sob a luz da hierarquia militar

Coronel que convocou para ato contra STF foi afastado por Doria

Pedro do Coutto
 
Muito importante o artigo de Elio Gaspari nas edições de hoje no O Globo e na Folha de S. Paulo, focalizando o apoio de comandantes de Polícias Militares ao presidente Bolsonaro sob o ângulo da hierarquia militar, episódio que, a meu ver, assemelha-se com o que culminou, em 30 de março 1964, com a reunião de João Goulart com sargentos na sede do Automóvel Clube do Brasil, Rua do Passeio, no Centro do Rio.
 
Elio Gaspari pede atenção para o aspecto que envolve a disciplina militar, cujo princípio inclui as PMs como forças auxiliares do Exército e, portanto, sem autonomia própria, sobretudo para traçar rumos políticos e definir apoios que se chocam com os acontecimentos de hoje.

PRONUNCIAMENTO – Entre esses acontecimentos figura, por exemplo, o pronunciamento do coronel Aleksander Lacerda, da PM de São Paulo, atacando ministros do Supremo e propondo até o sequestro e a prisão de Alexandre Moraes e Luís Roberto Barroso. A investida da PM paulista colide frontalmente tanto com a Constituição do pais, quanto com o regulamento disciplinar do Exército, e só pode contribuir para afastar o apoio de setores do mesmo Exército ao presidente da República.

Tal perspectiva de apoio está nitidamente contaminada pela iniciativa da PM paulista, sobretudo porque o governador João Dória demitiu prontamente o ex-comandante e deu posse também imediata ao seu substituto.

O presidente Jair Bolsonaro isolou-se, portanto, ainda mais na Esplanada de Brasília, principalmente depois que Elio Gasparai relembra uma atitude de rebeldia da PM do Rio quando o atual ministro da Defesa, o general Braga Netto, assumiu o cargo de interventor na Segurança estadual. Gaspari recorda que, informados para receber o interventor, integrantes da PM a muito custo prestaram-lhe a continência reservada aos oficiais generais.

HIERARQUIA – Aqueles que não conhecem o Exército, não é o meu caso porque servi em 1953, dificilmente poderão avaliar as diferenças hierárquicas e disciplinares que predominam e se constituem na grande base da hierarquia militar.

Em 1964, Jango não levou em conta a diferença num cenário que, de fato, tornou-se palco da antevéspera da sua queda. Agora, 57 anos depois, o ex-comandante da PM paulista não leva em conta um aspecto muito mais grave do que o de 1964 ao defender e até propor o sequestro e a prisão do ministro Alexandre de Moraes.

O coronel Aleksandro Lacerda parece ter perdido um ponto de referência não só na estrutura do Exército, mas também no próprio panorama constitucional do país. O resultado, na minha opinião, é mais um ponto de enfraquecimento e isolamento de Bolsonaro na solidão do poder que se acentua para ele. Realmente, defender o sequestro de qualquer pessoa, não fosse ela o ministro do STF, já configuraria um apelo ao crime que se alinha na galeria de atos hediondos e irracionais.

IMPULSOS –  Mas, o posicionamento do ex-comandante é outra questão. O essencial é que o Exército jamais poderá aceitar que tenha que seguir impulsos e caminhos traçados pela Polícia Militar. Não que a PM deixe de representar uma força importante na segurança dos cidadãos e cidadãs no combate tanto ao crime organizado quanto no combate ao crime desorganizado que reflete a falta de estrutura de poderes estaduais como a reportagem da TV Globo no Jornal Nacional de terça-feira deixou claro ao focalizar e realçar o poder de milícias associadas com fontes de corrupção de agentes da ordem que se transformam em agentes da desordem.

Bolsonaro, que recebeu o apoio dos evangélicos de Silas Malafaia, perdeu o apoio de seguidores decepcionados com os rumos do governo na proximidade do 7 de Setembro.

Bolsonaro leva confronto para as ruas e joga o tudo ou nada no dia 7 de Setembro

Charge do Jorge Braga (opopular.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro, reportagem de Marianna Holanda, Renato Machado e Thiago Resende, Folha de S.Paulo desta terça-feira, resolveu levar para as ruas o confronto político que o envolve em relação à democracia brasileira, o respeito à Constituição e as eleições de 2022.

A matéria acentua que Bolsonaro novamente afastou-se de iniciativas voltadas para uma reaproximação com a classe política e com a opinião pública. O presidente da República, numa entrevista à Rádio Eldorado de São Paulo na noite de segunda-feira, voltou a condenar as urnas eletrônicas e defender o retorno ao voto impresso, o que representou novamente uma suspeição relativa ao processo eleitoral e a verdade do voto popular.

RUPTURA – Bolsonaro, dessa forma, fez questão de destacar a ruptura e demonstrou claramente que não recua de um desfecho que nada tem a ver com o embate democratico e um caminho de respeito à vontade dos eleitores e das eleitoras do país. Bolsonaro aproveita o Dia da Independência para tentar inflamar os seus apoiadores no sentido de uma pressão sobre o Congresso, sobre o Supremo e contra o povo para conduzir a um desfecho em que ele figura diante de si mesmo como a única solução possível para o seu mandato e, infelizmente, para o país.

Deve-se esperar uma reação das Forças Armadas que não lhe poderá ser favorável pelos motivos já colocados até aqui, porém acrescentados de um fato extremamente crítico para o Palácio do Planalto: o exemplo do coronel  Aleksander Lacerda do comando da PM de São Paulo pelo governador João Dória em razão de ataques absurdos contra ministros do Supremo e contra o Congresso Nacional.

REBELDIA – No Rio de Janeiro, o comandante da PM foi também substituído. O que dá margem a pensar que o foco de rebeldia institucional encontra-se de forma mais aparente exatamente em comandos da Polícia Militar, pela Constituição uma reserva do Exército, e que, portanto, não pode se sobrepor ao segmento militar.  Na minha impressão, pela primeira vez na história, um coronel da PM, no caso de São Paulo, tenta assumir a liderança de um movimento contra a Carta Magna e as instituições democráticas do país.

Bolsonaro certamente não levou esse aspecto em conta. Provavelmente também não prestou atenção na reportagem de Evandro Éboli, Bianca Gomes e Sérgio Roxo, O Globo de ontem, e destacou a situação de alerta que preocupa governadores de estados em relação à atuação política de comandos da PM. No Rio de Janeiro, por exemplo, o governador Cláudio Castro afastou o comandante da PM numa sequência que pode indicar alguma conexão com a investida do coronel Aleksander Lacerda em São Paulo, demitido por Dória.

O confronto nas ruas, na minha opinião, não beneficiará Bolsonaro como assinalam as pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos. Bolsonaro não se conforma com as tendências eleitorais e, como os fatos demonstram, resolveu seguir e persistir na estrada que no seu projeto tem como objetivo suspender as eleições do ano que vem.

SEM RESPOSTA – Mas suspender as eleições presidenciais ou todos os demais pleitos ? Ele mesmo, Bolsonaro, não tem resposta para esse dilema que elaborou no seu pensamento, mas que não encontra consequência concreta na realidade dos fatos. Bolsonaro prossegue em seu delírio e dele não se afastará sem que o impasse provoque uma ruptura no quadro político e institucional.

Com o seu projeto de suspender as eleições, Bolsonaro revela não possuir as condições necessárias para permanecer como presidente da República. Ele foi eleito em 2018 e se alimenta de sua vitória, mas sem levar em consideração os dias de hoje e o futuro das urnas de amanhã.

As urnas são a expressão da democracia. Elas o conduziram à vitória, mas também poderão assinalar a sua derrota. A política é assim e a democracia também.

Terceira via com Ciro Gomes só se este atacar Bolsonaro e esquecer Lula da Silva

Caso Ciro divida-se no confronto não terá a menor chance de êxito

Pedro do Coutto

No momento em que os dez principais partidos políticos do país, reportagem de Jussara Soares e Fernanda Trisotto, O Globo de segunda-feira, lançam manifestação de apoio aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso contra a ação de Jair Bolsonaro, os editoriais de O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S.Paulo destacaram a importância de uma  terceira via para a sucessão presidencial de 2022, caso Bolsonaro permaneça como candidato.

Na minha opinião, Ciro Gomes, que é o terceiro nome possível , só poderá ter alguma chance de representar esse papel se atacar o presidente da República e esquecer, na primeira fase da campanha, o ex-presidente Lula da Silva. Esta opinião é também compartilhada com o meu amigo Alexandre Farah, ex-deputado do PDT, partido do ex-governador do Ceará.

CONFRONTO – Entretanto, ambos concordamos, e deixo a questão para os leitores deste site, Ciro Gomes só terá alguma possibilidade se assumir uma posição totalmente contrária a de Jair Bolsonaro. Se Ciro Gomes dividir a sua campanha tanto contra Lula quanto contra Bolsonaro não terá a menor chance de êxito.

Ele só tem um caminho que é o de tentar derrotar Bolsonaro e, conseguindo tal propósito, empenhar-se para chegar ao segundo turno contra o líder do PT que lidera as pesquisas do DataFolha e da XP Investimentos. Inclusive, assinalo, o resultado obtido pela XP Investimentos torna-se extremamente favorável à oposição ao governo, uma vez que destaco que o universo pesquisado concentra-se mais nos investidores e aplicadores financeiros e nos executivos dos fundos de pensão.

Assim, se Lula disparar sobre Bolsonaro no segmento de renda mais alta, a sua diferença aumentará, como é natural, junto às faixas de rendas menores. Ciro Gomes deve observar com atenção esse fenômeno e tentar representar a insatisfação das classes médias com o rumo do atual governo e com a crise brasileira que se reflete no aumento do custo de vida e no congelamento dos salários e aposentadorias.

ÚNICO CAMINHO – Na posição contrária ao atual chefe do Executivo, o ex-governador do Ceará encontra-se ao lado de Lula. Mas o que fazer? O único caminho que resta a ele é arrebatar para si áreas de insatisfação, sobretudo com a ameaça de cancelar eleições e explodir a democracia brasileira.

Como o Datafolha e a XP demonstraram, Ciro Gomes com 12% das preferências de voto, não pode almejar ultrapassar Lula da Silva. Mais simples para ele é tentar ultrapassar os 25% que ainda restam a Bolsonaro, mas que na minha impressão, irão recuar para cerca de 17%.

O PSDB assinou o documento de apoio aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Se estiver mesmo, como definiu o seu presidente Bruno Araújo, empenhado a cursar a terceira estrada, terá que se alinhar ao lado do PDT de Ciro Gomes. É muito difícil que Ciro consiga derrotar Lula, sobretudo com base no potencial de votos do petista. Mas esta é outra questão. O problema essencial é que convencer eleitores contrários a Bolsonaro a apoiá-lo é a única alternativa que lhe resta para tentar um novo voo em direção ao Planalto.

BRASIL VELHO – Numa entrevista a Adriana Fernandes, o Estado de S. Paulo, o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, afirmou que a discussão sobre a política e a economia que se desenvolve hoje em nosso país refere-se ao Brasil velho e não ao Brasil moderno, assim como ele e todos nós desejamos.

Mas desejar é uma coisa, cabe perfeitamente na teoria. Alcançar concretamente o que se espera é uma questão prática. O economista Marcos Lisboa, na realidade um intelectual em questões econômicas, a meu ver não levou em conta na formulação de suas ideias que nada é mais velho do que a fome, do que a falta de saneamento, do que o caos na saúde pública e nas ameaças à democracia, fatores todos esses que caracterizam o desgoverno chamado Jair Bolsonaro.

PROBLEMAS ANTIGOS – Nada mais antigo do que o desmatamento, do que a escravidão que ressurge com o congelamento salarial e com os aumentos de preços dos alimentos expressos de forma bastante nítida no Brasil de 2021. Vejam o projeto de corrupção que envolveu a tentativa de compra de vacinas superfaturadas através do Ministério da Saúde e de uma equipe mais ou menos organizada e intermediários,  que espontaneamente se apresentaram para viabilizar compras, inclusive com pagamentos adiantados, de imunizantes destinados a salvar centenas de milhares de vidas humanas.

Tudo isso pertence ao Brasil antigo, que aliás, exceto nos anos dourados de JK, ficou prisioneiro do passado. A renúncia de Jânio Quadros desencadeou uma tempestade e permanece atravessando uma década atrás da outra. O futuro, acrescento, é a reação à renda do trabalho, à recuperação de empregos, à visão de um novo horizonte para um novo amanhã. Tudo ao contrário do que o panorama atual oferece.

JUSTIÇA A MARCÃO –  Escrevo esse artigo antes do jogo da noite de ontem entre o Fluminense e o Atlético Mineiro, portanto, desconheço o resultado do meio da noite. Mas recebi com alegria e senso de justiça, tricolor que sou, a decisão da diretoria de, pelo menos desta vez, dar uma oportunidade concreta ao ex-zagueiro Marcão, hoje treinador das Laranjeiras.

Ao longo dos últimos anos, vários técnicos se sucederam no Fluminense e o ex-zagueiro foi convocado a assumir o espaço. Teve êxito. O time melhorou sempre com ele. Entretanto, na hora de firmar um contrato, era escolhido sempre alguém de fora. Os fracassos se sucederam.

A vida tem esse lado sombrio. A injustiça me faz lembrar as escalações para o Correio da Manhã nas duas últimas décadas da existência do grande jornal. Nulidades absolutas foram levadas à direção do jornal num processo impulsionado pela incompetência. Basta comparar o comando do grande Luiz Alberto Bahia como redator chefe e os que o sucederam até o seu completo desmoronamento em 1974.  Acho a investidura de Marcão um ato de justiça e que ele tenha êxito como técnico.

Ruptura de Bolsonaro e Mourão reflete posição militar contra o golpe do presidente

Exército rejeita qualquer investida antidemocrática de Bolsonaro

Pedro do Coutto

A reportagem de Daniel Gulino e Gabriel Mascarenhas, O Globo de domingo, matéria excelente, destacou não apenas uma profunda divergência entre o vice Hamilton Mourão e o presidente da República, mas sobretudo revelou uma tendência do Exército em rejeitar qualquer investida antidemocrática de Bolsonaro para permanecer no poder a qualquer custo, mesmo que esse custo seja a Constituição, a democracia e a liberdade.

Sem dúvida, a concretização de uma ruptura que vinha sendo desenhada há vários meses, transformou-se no fato político mais importante neste fim de semana, funcionando também como abertura de um horizonte contra a utilização das Forças Armadas para um governo que é o maior opositor dele próprio.

ENFRENTAMENTO –  A partir de agora, desta segunda-feira, os campos passarão a ser ocupados por tendências muito mais aparentes do que ocultas. Hamilton Mourão assumiu o enfrentamento de representar um plano de combate contra todas as forças antidemocráticas, estejam elas na superfície ou na sombra dos acontecimentos que irão se desenrolar.

Não é difícil prever a queda do governo que, conforme assinalou Bernardo Mello Franco em artigo ontem no O Globo, só está contando agora com o apoio de radicais da direita, isolando-se assim das demais forças existentes na política brasileira.

Por falar em radicais da direita, como os que defenderam o sequestro e a prisão do ministro Alexandre de Moraes através das fake news, vale lembrar que a Força Expedicionário Brasileira lutou nos campos da Itália na 2ª Guerra Mundial exatamente contra a extrema direita representada pelo nazismo de Hitler e pelo fascismo de Mussolini.

MARCAS NO TEMPO – A história deixa sempre as suas marcas no tempo, seja no terreno dos combates, seja nas águas profundas dos mares que afogaram mais de mil brasileiros tripulantes de navios mercantes e mistos que navegavam sob a bandeira de nosso país.

A extrema-direita nazista e fascista possui ramificações profundas na América do Sul. Tanto assim que o Brasil foi o único país do continente a declarar guerra à Alemanha e à Itália. Sofremos o afundamento de 33 navios do total de 35 torpedeados covardemente por submarinos alemães, como lembrou o general Cordeiro de Farias ao firmar um convênio com o presidente da LBA, Luís Fernando da Silva Pinto, destinado a fornecer apoio aos que integraram a nossa Marinha Mercante.

Os afundamentos começaram em 1941 com o cargueiro Taubaté nas águas do Egito no transporte comercial de cargas. Os atentados continuaram até 1944 com o afundamento do navio Vidal de Oliveira. Oito navios, entre eles o Baependi, foram afundados no litoral brasileiro. Cordeiro de Farias lembrou na ocasião o heroísmo dos homens da Marinha Mercante que não tinham à bordo sequer uma metralhadora para se defender.

COMPORTAMENTOS –  Haviam três comportamentos de comandantes de submarinos alemães. Um o de torpedear o navio e seguir em frente. Outro, o que aconteceu a um vizinho meu de Ipanema, de vir à tona e jogar água, pães e sal aos náufragos. Mas havia um terceiro, este absolutamente sinistro, que era de vir à tona e metralhar os que nadavam pela vida. O Brasil declarou à Alemanha e à Itália em 1942.

Havia integrantes do governo Vargas  que tinham simpatia pelo eixo nazi-fascista. Triste fato, mas é verdade também que na urbanização do Castelo, no Centro do Rio, Vargas inaugurou duas ruas, Franklin Roosevelt e Winston Churchill.  Não inaugurou nenhuma rua com o nome de Hitler ou de Mussolini. Mas essa é outra história.

O que surpreende na existência de radicais da direita é que os integrantes desta corrente não têm compromisso com a memória dos fatos. O que é direita hoje? É somente a tentativa de repetir uma ditadura que foi de Vargas de 1937 a 1945, mas principalmente um esforço contra o tempo para reviver os crimes hediondos que levaram Hitler ao esgoto da história universal.

RENDA DO TRABALHO – A reportagem é de Fernando Canzian, Folha de S.Paulo deste domingo e os dados são de Marcelo Neri, diretor da Fundação Getúlio Vargas para área social. Com o declínio, as classes D e E voltaram a crescer e nada menos do que 24 milhões de brasileiros e brasileiras passaram a viver com uma renda familiar inferior a R$ 1205 por mês, o que representa um rendimento per capita de somente R$ 300. Se alguém estava tentando descobrir o caminho para a fome, o resultado aí está.

Enquanto isso, Lauro Jardim, O Globo, informa que o ministro Paulo Guedes está contratando uma empresa de publicidade para uma campanha de apoio à Reforma do Imposto de Renda. Repito então a frase que ficou na névoa do tempo e que deu margem a um dos temas da campanha de JK na sucessão de 1955: “Salário não é renda”.

Saudades dos anos dourados que Jânio Quadros destruiu com a sua renúncia em agosto de 1961. Recebeu o governo democratizado e jogou fora grande parte do futuro do Brasil.

O último ato de Bolsonaro só poderá ser o de cancelar as eleições de 2022

Charge do Amarildo (agazeta.com)

Pedro do Coutto

Em continuidade ao meu artigo de ontem, sábado, explico o motivo pelo qual acho que o processo contra Alexandre de Moraes foi o penúltimo gesto de Bolsonaro no Planalto. A ele só resta agora tentar fazer cumprir a ameaça que fez à nação de cancelar as urnas de 2022, como consequência explícita de a Câmara dos Deputados ter rejeitado o caminho de volta ao voto impresso no país.

A ameaça de Bolsonaro, absolutamente extremada e extremista, representa historicamente um compromisso que ele assumiu, principalmente consigo mesmo, mas também em relação aos seus seguidores que acham que o uso da força pode resolver os problemas nacionais.

PROMESSA – Bolsonaro, para ser coerente com o seu radicalismo e com os radicais, após rejeitado o processo contra Alexandre de Moraes, será impelido a cumprir a promessa que fez publicamente de tentar violar a Constituição e suspender as eleições gerais de 2022. Chamo a atenção para o destaque “eleições gerais”.

Eleições gerais porque não se referem apenas ao presidente da República, mas também aos governadores, senadores e deputados federais cujos mandatos estarão em jogo em 2022. Desta forma, Jair Bolsonaro cai num abismo de contradições em relação aos seus próprios adeptos. Isso porque simplesmente, sem as urnas, senadores, deputados federais e governadores perderiam automaticamente os seus mandatos.

“IMPERADOR” –  Com isso, Bolsonaro ao se proclamar imperador do Brasil estaria extinguindo as representações parlamentares no Congresso, os mandatos dos atuais governadores e a perspectiva eleitoral daqueles que desejam sucedê-los nas urnas democráticas. Se tomar a iniciativa de violar a Constituição de 1988 e bloquear o acesso do povo às urnas, Bolsonaro automaticamente perderá o apoio do próprio Centrão que o sustenta no quadro institucional brasileiro.

Afinal de contas, como será possível uma representação parlamentar votar contra a sua própria existência no cenário democrático do país? Bolsonaro certamente não pensou nisso. Mas as principais figuras do Centrão, nesse ponto ultra nevrálgico, terão que se colocar ao lado dos oposicionistas, sobretudo porque se não fizerem isso estarão se opondo a si mesmos.

Por isso, na minha impressão, o último ato do presidente que explodiu a si mesmo será desconsiderar o próprio processo democrático que o levou ao poder em 2018 e que agora o rejeita intensamente, no percurso  de 2022. Como se desenvolverá a sucessão antecipada de Bolsonaro ? Conforme disse o poeta, “ser ou não ser presidente, é a questão essencial”.

Investida contra Alexandre de Moraes foi o penúltimo ato de Jair Bolsonaro no poder

Bolsonaro não ouvidos às recomendações dos seus apoiadores

Pedro do Coutto

A excelente reportagem de Jussara Soares, Julia Lindner e Mariana Muniz, O Globo deste sábado, destaca com absoluta nitidez a investida de Jair Bolsonaro contra o ministro Alexandre de Moraes, arguindo o seu impeachment junto ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o que na minha opinião focaliza também ter sido o penúltimo ato do presidente no poder.

A reportagem destaca também a resposta negativa do STF contra o ataque do presidente da República e realça ao mesmo tempo a reação do senador Rodrigo Pacheco que não vê nenhuma base jurídica para a iniciativa do chefe do Executivo.

CONTRA A MARÉ – Jair Bolsonaro, inclusive, foi desaconselhado a propor o impeachment tanto pelo Advogado-Geral da União, Bruno Bianco, quanto pelo senador Ciro Nogueira, ministro-chefe da Casa Civil no Palácio do Planalto. Bolsonaro, entretanto, não deu ouvidos às recomendações e o seu gesto, examinando-se a questão por outro ângulo político, contribui para que o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, se posicione claramente diante de mais esse absurdo presidencial.

O título deste artigo, é claro, está totalmente inspirado no famoso filme do diretor alemão Georg Wilhelm Pabst, “O Último Ato”, mas eu alterei para penúltimo ato como explicarei no final deste artigo e no início do texto de amanhã.

O presidente da República embaralhou-se ainda mais na teia de contradições que une o governo à atuação de grupos radicais na internet. Essa atuação repousa crítica e perigosamente no incentivo à violência e até no sequestro de ministros do Supremo, entre eles Alexandre de Moraes.

FAKE NEWS –  Aproveito para chamar atenção sobre um ponto decisivo: se as fake news funcionassem para assegurar a aprovação de alguém pela opinião pública, o resultado seria exatamente o contrário dos verificados nas pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos, esta última publicada nesta semana.

A carga de ataques através das fake news é intensa. No entanto, a popularidade do governo está em queda, a sua rejeição subiu de 32% em outubro de 2020 para 54 pontos agora em agosto e se as eleições fossem hoje, Bolsonaro perderia disparado para o ex-presidente Lula da Silva.

VERDADE CONCRETA – Caso fosse ao segundo turno também perderia para Ciro Gomes. Logo, a prova concreta contra as fake news está configurada nos números que norteiam a visão de eleitores e eleitoras. Mentiras jamais poderão substituir a verdade concreta dos fatos. Caso contrário, bastaria alguém mentir para poder fazer prevalecer a sua visão política.

Agora explico porque considero o processo contra Alexandre de Moraes o penúltimo ato de um governo que desabou. É porque o gesto derradeiro só poderá ser o de cancelar as eleições presidenciais. Mais detalhes no artigo de amanhã.

Bolsonaro recorre para tentar subordinar o STF à Procuradoria Geral da República

Bolsonaro rejeita previamente qualquer tipo de diálogo institucional

Pedro do Coutto

Reportagem de Mariana Muniz, Paula Ferreira e Jussara Soares, O Globo de sexta-feira, revela que no início da noite de quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro, em mais um ato completamente absurdo, que aliás é uma rotina em seu desgoverno, encaminhou representação ao STF no sentido de estabelecer que a Corte somente possa abrir inquéritos com o aval da Procuradoria-Geral da República. O ato acrescenta mais um recorde do governo em matéria de desorientação e até mesmo de provocação.

Como é possível que o Poder Judiciário possa remeter a si mesmo para um patamar abaixo e dependente da autorização da PGR? A iniciativa de Bolsonaro tem como objetivo, acentua a reportagem, obstruir os inquéritos contra as fake news que ameaçam a democracia e com isso agridem toda a sociedade brasileira.

SEM DIÁLOGO – Por outro lado, o objetivo do presidente é o de rejeitar previamente qualquer tipo de diálogo institucional, tanto com o Poder Legislativo quanto com o Poder Judiciário. Não é possível que Bolsonaro não tenha recebido assessoria competente destinada a evitar que cometesse essa atitude dramática no quadro constitucional do país. É evidente que ele sabe muito bem que a Corte Suprema só pode rejeitar de plano tal representação e com isso pretende o chefe do Executivo agravar a crise que já coloca em posição difícil o seu próprio governo.

Bolsonaro, no fundo, digo, não deseja soluções dentro do quadro legal brasileiro. Pelo contrário. Daí porque a sabatina de Augusto Aras marcada para terça-feira no Senado, no processo de sua recondução ao cargo de Procurador-Geral , ganha uma conotação inevitavelmente política. O Senado tem plena consciência de que Bolsonaro deseja um veto a Augusto Aras já desenhado pelas acusações de inércia e omissão.

Porém, está também em discussão a escolha de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal. Tenho a impressão de que o Senado, apesar das restrições a Aras, considera melhor reconduzi-lo do que aceitar a nomeação de Mendonça. Tanto assim que,  enquanto a sabatina está marcada para terça-feira,  a análise de André Mendonça pela Comissão de Constituição e Justiça não tem ainda data prevista.

DESEMBARQUE – Douglas Gavras  e Isabela Bolzani publicaram reportagem na Folha de S. Paulo de ontem destacando que o mercado financeiro está vendo com desconfiança tanto os rumos econômicos quanto às rotas políticas do governo Jair Bolsonaro e começa a preparar uma operação de desembarque,  temendo que o seu apoio à reeleição termine se revertendo num lance prejudicial aos próprios interesses da mão de tigre que rege o mercado financeiro do país.

A economista Zeina Latif em declaração à Folha diz que há um acúmulo de notícias negativas envolvendo o governo e o mercado começa a reagir por falta de um gatilho. O gatilho a que a economista se refere, tenho a impressão, é aquele que rege as aplicações e investimentos financeiros, sobretudo num momento em que a inflação dos últimos 12 meses, de acordo com o IBGE, atinge 7%, enquanto a taxa Selic está fixada em 5,25% ao ano.

CREDORES – Os bancos, esta que é a verdade, não são devedores, mas sim credores deste índice Selic, na medida em que a remuneração reflete a incidência do percentual sobre o total da dívida brasileira que alcança R$ 6 trilhões. O gatilho seria assim uma forma de evitar que as aplicações via Selic permanecessem num sistema de juros negativos, ou seja, inferiores à inflação do IBGE.

Mas o gatilho, digo, deve se referir também aos salários, os quais, conforme informou a TV Globo no Jornal Nacional de quinta-feira, assinalam um avanço dos preços da alimentação, enquanto os salários não saem da estaca zero. Assim, a diminuição concreta da remuneração do trabalho gera uma retração forte no consumo de alimentos,  diretamente refletida e comprovada pela diminuição do consumo da população nos supermercados.

Se até os alimentos encontram-se em retração, por isso pode-se imaginar os cálculos da compressão envolvendo restaurantes, viagens, movimento na Bolsa de Valores e outras faixas econômico-financeiras que formam o sistema do Produto Interno Bruto. Com o desemprego na escala de 14,8% não há consumo que possa se expandir e, portanto, não há PIB que possa avançar.

Bolsonaro, por ação tácita, finge que aceita, mas rejeita diálogo com senadores e com o STF

Bolsonaro pensa (?) que a sua única defesa são os ataques desmedidos

Pedro do Coutto

Reportagem de Mariana Muniz e Dimitrius Dantas, O Globo de ontem, coloca em destaque mais uma investida do presidente Jair Bolsonaro contra ministros do Supremo e também contra um apelo ao diálogo formalizado por Rodrigo Pacheco, presidente do Senado Federal.

Bolsonaro rejeitou também a iniciativa no mesmo sentido do senador Ciro Nogueira, ministro chefe de sua Casa Civil. O presidente da República demonstrou, inclusive por linguagem grosseira, o distanciamento que efetivamente deseja manter com o quadro constitucional brasileiro e até com as urnas de 2022.

EXTENSÃO DO PLANALTO – Falando em uma igreja evangélica em Manaus, embora pareça incrível, Jair Bolsonaro disse que  “um ou outro ministro” do STF atrapalha o Executivo, mas que esse quadro aos poucos vai mudando em decorrência de nomeações que forem sendo feitas. Nomeações, diga-se de passagem, que ele somente poderá fazer enquanto for presidente da República. A tradução da frase é a de que para ele, Bolsonaro, o Supremo é uma extensão do Palácio do Planalto e não um poder independente em si próprio.

Analisando-se bem a expressão, conclui-se que o presidente da República cometeu um dos seus maiores absurdos: considerou a Corte Suprema como uma bancada partidária inspirada por sentimentos religiosos, evangélicos e conservadores. A repercussão deverá ser bastante ampla, tanto no país quanto no exterior.

Bolsonaro joga e não desiste da radicalização. Ele sabe, conforme as pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos assinalam, que se o voto fosse hoje,  estaria inevitavelmente derrotado nas urnas de amanhã.

O ONTEM E O AMANHÃ –  Foi um excelente artigo de Miriam Leitão publicado no O Globo desta quinta-feira sobre afirmações negacionistas que não se limitam ao desafio da pandemia, mas também ao confronto com o passado desprezando os registros que formam a história moderna e a memória dos brasileiros e brasileiras.

O general Braga Netto negou a ditadura de 1964 a 1985. Colidiu com os fatos que estão aí registrados para sempre, não mais se baseando apenas em relatos, mas em documentos oficiais. Entre eles, o da Constituição de 1988 que devolveu o direito de voto e restaurou a democracia brasileira.

Tanto houve ditadura no país que o presidente João Figueiredo, em 1979, assinou a Lei de Anistia para todos os envolvidos no maremoto político que atingiu o país por duas décadas. Episódios que culminaram com mortes como as de Vladimir Herzog e Stuart Angel são testemunhas do que aconteceu. Negar os fatos representa uma confissão, uma vez que somente se oculta aquilo que nos leva a um sentimento de culpa.

INTERNET – Reportagem de Paula Soprana, Folha de S. Paulo de quinta-feira, revela que a internet está presente em 83% das residências do país e é objeto de acesso de 64% das classes D e E, exatamente as de menor renda mensal e de condições de moradia precárias em áreas de risco pela insegurança do tráfico e pelas milícias da desordem urbana.

A mim surpreende a taxa de 64%, sobretudo porque existem custos mensais inerentes ao consumo de energia e relativos ao pagamento de tarifas pela navegação dos que podemos chamar de oceanos do espaço. Os dados dão margem a diversos outros estudos em consequência. Um deles a respeito de até que ponto o acesso à internet contribui para a capacidade de análise dos acontecimentos e dos episódios que marcam desdobramentos e mutações relativas  ao hábito e ao impulso de pensar.

Porque se informações injetadas artificialmente fossem capazes de orientar a percepção humana todos os nossos pensamentos deveriam ser unificados. Como graças a Deus isso não acontece, verificamos que não é por aí o caminho da verdade. Interpretações são sempre sujeitas às mudanças tanto das épocas quanto dos dias que se sucedem numa escala felizmente incessante.