Lula tem 40% das intenções de voto em 1º turno contra 24% de Bolsonaro e 10% de Ciro

Charge do Aroeira (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Pesquisa da XP Investimento, inclusive com base em dados do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), sobre a sucessão de 2022, se as eleições fossem hoje, revela que Lula da Silva alcançaria no primeiro turno 40% dos votos contra 24% de Bolsonaro e 10 pontos de Ciro Gomes. O resultado da pesquisa teve a sua síntese publicada nas edições do Estado de S. Paulo e do Valor de terça-feira.

Na tarde de ontem, quarta-feira, o economista Filipe Campello me chamou atenção para os números do levantamento, sobretudo porque o universo da XP Investimentos é o de mercado de capitais e de aplicações financeiras envolvendo basicamente empresários e executivos do setor.

ÍNDICES – Hoje, o subeditor deste site, Marcelo Copelli, selecionou os dados, a meu ver mais importantes, do trabalho realizado e das tendências identificadas. Haveria segundo turno e neste Lula alcançaria 51% contra 32 pontos de Jair Bolsonaro. A pesquisa quanto ao primeiro turno incluiu ainda Sérgio Moro, que totalizou 9%, Henrique Mandetta e Eduardo Leite ambos com 4 pontos. A pesquisa realizou mil entrevistas entre 11 e 14 de agosto e tem margem de erro de 3,2 pontos percentuais, para mais e para menos.

Em um segundo cenário pesquisado, em que aparecem o governador de São Paulo, João Doria, o apresentador de TV José Luiz Datena e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a diferença entre Lula e Bolsonaro cai para 9 pontos porcentuais.  Neste cenário, Lula registra 37% das intenções de voto, e Bolsonaro 28%. Na sequência, Ciro tem 11%, Mandetta, Doria e Datena aparecem com 5% cada um, e Pacheco com 1%. Nove por cento seria a parcela de brancos e nulos, taxa que se repete desde 1955 em disputas presidenciais.

Um dado da pesquisa que merece destaque é o índice de votos nulos e brancos num segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Lula venceria neste cenário por 51% a 32% e haveria 17% de brancos e nulos, o que ao mesmo tempo significa uma rejeição de certa forma expressiva tanto ao ex-presidente como ao atual chefe do Executivo.

DESGASTE – Num segundo turno, Ciro Gomes bateria Bolsonaro por 44 a 32, Doria por 37 a 35, Mandetta por 38 a 34 e Sergio Moro também derrotaria Bolsonaro por 37 a 30. Como se constata, as tendências eleitorais levantadas pela XP Investimentos confirmam o desgaste do governo que hoje é considerado ruim ou péssimo por 54% dos eleitores e eleitoras.

Do lado oposto, 23% dos eleitores avaliam o atual governo como ótimo ou bom ‒ oscilação descendente de 2 pontos em comparação com julho deste ano. Trata-se do patamar mais baixo registrado por Bolsonaro desde que se mudou para o Palácio da Alvorada, em janeiro de 2019.

O impulso às urnas, portanto, confirma a visão que o eleitorado possui a respeito do desempenho do titular do Planalto. A meu ver, a tendência é irreversível, até porque Bolsonaro nada faz para alterar essa realidade.

Se os apoios a Bolsonaro no Youtube são espontâneos, por que pagar por sua publicação?

Propagadores defendem Bolsonaro, atacam jornais e emissoras

Pedro do Coutto

Essa é a pergunta que faço a mim mesmo e também aos leitores e leitoras deste site logo após ler a reportagem de Marlen Couto, O Globo de ontem, quando destacou a decisão do ministro Luis Felipe Salomão, do Tribunal Superior Eleitoral, contra a monetização dos propagadores de mensagens, principalmente no Youtube, defendendo Jair Bolsonaro e atacando jornais e emissoras de televisão.

A matéria acentua que as fontes citadas pelo Youtube tem  9,1 milhões de seguidores. Uma tiragem espetacular em termos de texto impresso e uma parcela raramente alcançada por emissoras de televisão, exceto pela TV Globo que lidera a audiência por ampla margem.

SEGUIDORES – Também me vem ao pensamento uma pergunta que acrescento: se o bolsonarismo no youtube tem 9,1 milhões de seguidores, que se presumem ser diários e atentos às versões favoráveis ao Planalto, o número total de seguidores dos diversos sites e artistas devem ir além da população adolescente e adulta brasileira.

Vem também uma dúvida sobre a questão de tempo que os seguidores dos principais personagens da vida nacional despendem diariamente pelo roteiro no espaço cibernético entre uma tela e outra, entre um fato e outro, entre uma versão irreal e outra verdadeira. Dá a impressão que nesse acúmulo de presenças, o tempo não seria suficiente para assegurar tal navegação porque as pessoas têm outras tarefas e compromissos durante o dia.

Os seguidores têm também que trabalhar, estudar ou fazer ambas as coisas, além de terem que pesquisar para garantir que não estão sendo hipnotizados pelo fanatismo e pelos impulsos destrutivos em  que se tornou o conteúdo do radicalismo extremado.

DÚVIDA – A reportagem de Marlen Couto conduz a dúvida que está no título deste artigo e que me parece uma fonte ilegítima de trabalho. Se a postagem nas redes sociais é livre, e daí o risco de cada um se tornar editor de si próprio, qual o motivo que leva às cobranças financeiras pela elaboração de textos e sua veiculação?

Não faz sentido. O Youtube, por exemplo, não cobra nada pela veiculação de mensagens. Quem cobra então? Alguém está sendo enganado. Ao que parece, os leitores das postagens que deveriam ser gratuitas. Baseadas em conteúdos ideológicos, se transformam do anoitecer ao amanhecer em fontes de renda profissional.

Fontes de renda, sem dúvida, para uns poucos que produzem e enganam a grande maioria dos seguidores dos diversos canais de navegação. Quem está pagando? Um problema para o Imposto de Renda, para o INSS, para o FGTS, cujo interesse legítimo é arrecadar as contribuições que se vinculam ao trabalho profissional.

PUBLICIDADE E JORNALISMO -Há uma divisão entre o amadorismo e o profissionalismo. O amadorismo parte da emoção e o profissionalismo, como é esperado, tem a sua base na remuneração. A minha longa experiência no jornalismo de mais de 65 anos me assegura a certeza da eterna diferença entre a publicidade comercial e a produção jornalística.

A publicidade comercial é um axioma. A produção jornalística é um teorema, portanto algo a ser comprovado na prática. O jornalismo tem compromisso com os fatos, já a publicidade é outro universo.

Universo do sonho e da fantasia no esforço de alcançar patamares de consumo que tem no crediário a sua grande base e o seu grande motor. O jornalismo é a história do universo e de cada país escrita no dia a dia. A notícia é complementada pela opinião, pela análise.

DOIS PÓLOS – A publicidade vem do fascínio de um impulso que se repete. Está aí a diferença entre os dois pólos do processo informativo que marcam o pensamento humano, separando o que é pago do que é informação gratuita.

A divulgação do bolsonarismo pelo Youtube assim só pode se explicar pela remuneração paga aos produtores de notícias, em grande parte de acordo com a reportagem, transformadas em fake news e vontades destrutivas antissociais e, portanto, que colidem com os objetivos do processo político, sobretudo na democracia que é o regime da liberdade, inclusive do pensamento.

Episódio Alexandre Figueiredo: Desorientação, ilegalidade e recorde absoluto no desgoverno Bolsonaro

Tentativa de socorro cobriu de ridículo um governo que nada fez

Pedro do Coutto

De fato, parece incrível, mas o auditor do Tribunal de Contas da União, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, elaborou por iniciativa própria um relatório no qual destacou que o número de mortes pela Covid-19 estava sendo superestimado, como se tal hipótese fosse capaz de absolver o Palácio do Planalto pelos erros calamitosos e em série que comete.

O auditor mostrou o trabalho ao seu pai, o coronel do Exército Ricardo Silva Marques, colega de turma de Jair Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras. O documento foi divulgado por alguma fonte do governo federal que, com ele, procurou desacreditar os números de uma tragédia que já ultrapassou a escala de 560 mil mortos.

RESPONSABILIZAÇÃO – O Tribunal de Contas da União afastou o auditor pelo período de 60 dias por indisciplina funcional e, o auditor afastado, reportagem de Vinicius Sassine, Folha de S. Paulo de ontem, terça-feira, responsabilizou o seu pai pela transmissão do texto e o uso indevido pelo governo. Como se constata, no fundo, o ridículo e a burrice marcam o cenário de uma comédia dramática que se desenrola na Esplanada de Brasília. Basta parar para pensar e chegar à conclusão de que o bate-cabeças e a confusão geral tomaram conta do governo Bolsonaro.

Qual pode ter sido a intenção do auditor do TCU ? Só pode ter sido a de socorrer o governo numa hora de naufrágio. Mas o socorro ficou pior do que o soneto. Cobriu de ridículo um governo que nada faz para pelo menos tentar acertar uma coisa que seja. Na semana passada, por exemplo, Bolsonaro anunciou que na segunda-feira desta semana ingressaria com representação no Senado Federal contra os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

Apesar dos conselhos de auxiliares e aliados, o presidente reafirmou nesta terça-feira que irá apresentar o pedido de impeachment contra os ministros do STF, prosseguindo em seu projeto de tentar o golpe institucional.

CRESCIMENTO DO PIB – Na edição de segunda-feira, da Folha de S. Paulo, Leonardo Vicelli, com base em estudos da Consultoria MB Associados, analisa perspectivas sobre o crescimento do Produto Interno Bruto do país no exercício de 2022. Na minha opinião, as perspectivas são mínimas e o crescimento do PIB não poderá ultrapassar o índice de crescimento populacional de 1%, comparação entre o próximo exercício e o atual.

Não é possível, pois se o desemprego não recuou, a renda do trabalho não subiu, pelo contrário, diminuiu, se a inflação voltou a bater firme na economia doméstica de cada um de nós, se os juros voltaram a se elevar, não existe a menor possibilidade do Produto Interno Bruto do Brasil reagir a uma taxa superior à taxa demográfica.

Questões fiscais, ao contrário do que sustenta Paulo Guedes, não são garantia de crescimento do Produto Interno Bruto. Obrigatoriamente tem que ser consequência de uma reação econômica produtiva que ainda não ocorreu. O universo financeiro, esta que é a verdade, não pode se impor à realidade econômica e social de qualquer país. É uma farsa achar que investimentos financeiros possam gerar empregos e elevar o consumo,  sobretudo de alimentos. A gravidade da situação brasileira está refletida na queda do movimento nos supermercados do país.

DUDA MENDONÇA  – A Folha de S. Paulo e O Globo, nas edições de segunda e terça-feira, focalizaram com o destaque merecido a morte de Duda Mendonça, um marqueteiro que como seu maior resultado apresentou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas de 2002.

É verdade que o governo FHC encontrava-se em franco declínio, consequência de sua política salarial e dos cortes praticados em direitos de aposentados e pensionistas. Lembro que eu estava no Jornal do Brasil, escalado por Nilo Dante, então editor geral, para cobrir e analisar as eleições presidenciais daquele ano.

Numa entrevista que fiz com Carlos Augusto Montenegro, que o JB publicou com destaque, ele me disse ter avisado a Fernando Henrique Cardoso que ele perderia as eleições, uma vez que o seu candidato José Serra encontrava-se muito atrás do líder do PT. Mas, de qualquer forma, Duda Mendonça destacou um ângulo importante que envolvia o embate. A proposta de “Lulinha, paz e amor”, no fundo, era um projeto de conciliação com o empresariado brasileiro e também com o sistema internacional.

RELACIONAMENTOS – Lula cumpriu à risca e foi até além se levarmos em conta os seus relacionamentos com a Odebrecht, a OAS e Andrade Gutierrez, para ficarmos só nesses exemplos. O fantasma de Lula como anticapitalista que, aliás, nunca existiu na prática, no caminho das urnas foi afastado da ficção. Os empresários aceitaram a sua candidatura como um fato normal, situação que agora se repete e se reflete na pesquisa do Datafolha que apontou para ele 46% contra 25% de Bolsonaro na rota de 2022.

Duda Mendonça comprovou, inclusive, que os termos dominantes no mercado econômico e financeiro não estão separados por aparentes barreiras ideológicas. Ele flutuou na esquerda com Lula e José Alencar e na direita com Paulo Maluf e Celso Pitta em duas eleições para prefeito de São Paulo. Esteve com Mário Kertész, do MDB, que na luta por prefeito de Salvador derrotou o candidato de Antônio Carlos de Magalhães. Nem sempre foi vitorioso, porém. Perdeu com Paulo Skaf, presidente da Fiesp, que disputou o governo paulista.

Venceu no início da carreira com Miguel Arraes no Recife. Era 1962, e um super capitalista brasileiro, José Ermírio de Moraes, que se elegeu senador por Pernambuco, investiu uma fortuna contra João Cleofas e garantiu a vitória da esquerda por 10 mil sufrágios. Contradições? Nem tanto. Quem aponta contradição em política terá pela frente a tarefa de preencher uma verdadeira enciclopédia.

O presidente Joe Biden enfrenta nova retirada de Dunquerque, no estilo Saigon

Cabul é uma nova Dunquerque sem o heroísmo de uma retirada histórica

Pedro do Coutto

O presidente Joe Biden determinou a retirada das forças militares americanas do Afeganistão, o que significa a entrega do poder ao Talibã e um novo capítulo na história do terror universal. Mas, para mim, ele não possuía outra alternativa. Basta examinar o que foi a retirada de Dunquerque, em 1940, quando o governo de Winston Churchill viu-se obrigado a retirar cerca de 340 mil soldados que mantinha na França.

Quinze dias depois da invasão do país pelas forças de Hitler, o presidente Philippe Pétain assinou a rendição francesa à Alemanha, o que levou Hitler a desfilar em Paris sob o Arco do Triunfo. Qual era a alternativa que a Grã-Bretanha possuía?  Só poderia se retirar e procurar na retirada salvar o maior número possível de soldados ingleses. Foi a retirada de Dunquerque quando proprietários de barcos ingleses enfrentaram a aviação nazista para resgatar as forças que lutavam pela liberdade contra a opressão e o terror sem limites.

SEM SAÍDA – Não havia opção. Era preciso retirar as tropas e incorporá-las aos combates heróicos que se travaram a partir daquele ano quando as forças da Inglaterra lutaram sozinhas contra o eixo Hitler-Mussolini. Uma frase de Churchill ficou na história na retirada de Dunquerque: “Nós voltaremos a essa praia”.

Voltaram ingleses, americanos e canadenses na invasão da Normandia em 1944. Foi um período dramático que não só Londres, mas toda a humanidade enfrentou, no caso inglês, sob as bombas voadoras de Von Braun e da aviação nazista. Os Estados Unidos só entraram na guerra em dezembro de 1941 quando sofreram o ataque japonês a Pearl Harbour, aliado de Berlim e de Roma.

Agora, em Cabul, ocorre um episódio semelhante. Como poderia Joe Biden manter forças americanas se os afegãos desistiram de lutar contra o Talibã?  Impossível a retirada. Há dois aspectos da questão: o reflexo internacional que obrigou que vários países se reunissem ainda ontem para estudar uma solução enquanto os governos de Moscou e Pequim acentuaram apenas que mantém bom relacionamento com o Talibã.

SOLUÇÃO HUMANITÁRIA – Talvez seja esse o caminho de uma solução humanitária a qual os Estados Unidos não podiam buscar e também recorrer em face das circunstâncias. No plano interno político, Joe Biden desempenhou-se bem, na medida que liberta pressão sobre as famílias americanas da hipótese de que seus filhos e filhas viessem a ser convocados para um embate que se prolongou por duas décadas sem perspectiva de retorno.

Vendo o processo político com realismo, verifico que o Acordo do Paralelo 38, em  1953, e a retirada de Saigon, em 1975, causaram efetivamente um alívio enorme a todo povo dos Estados Unidos. Política é assim: é preciso pesar todos os lados das questões. Nada é tão simples e tão complexo como podem dar a entender as análises mais superficiais do que profundas. Cabul é uma nova Dunquerque sem o heroísmo de uma retirada histórica  para sempre consagrada.

Zizinho com o seu futebol arte e o cinema como única e eterna testemunha

Zizinho completaria cem anos no próximo mês de setembro

Pedro do Coutto

Foi um belo artigo de Ruy Castro ontem, segunda-feira, na Folha de S. Paulo, relembrando o futebol arte de Zizinho, tricampeão pelo Flamengo em 1942,1943 e 1944 e, sem dúvida alguma, um dos maiores craques, tanto do futebol brasileiro, do qual era titular absoluto, quanto do futebol mundial de todos os tempos.

No Flamengo do técnico Flávio Costa, foi meia-direita, posição inclusive que não existe mais. Esteve na Copa de 1950 e com razão lamentou junto com Ademir Menezes o fato de ambos não terem sido campeões do mundo pela altíssima qualidade do futebol que apresentaram e viveram, levando multidões ao delírio.

DOCUMENTÁRIOS – Citei o cinema porque já comentei em várias ocasiões, inclusive com o meu amigo Ruy Castro, a importância de se realizarem documentários focalizando a maneira de jogar do passado e o modo de atuar do presente. Houve um tempo em que se pensava que um jogo se vencia apenas do meio para frente, mas Zezé Moreira, no Botafogo de 1948, e no Pan-Americano de 1952, mostrou o caráter absolutamente estratégico do sistema defensivo que, a meu ver, fica na história como reformador e criador de uma nova era das histórias de bola no Brasil.

Zezé Moreira foi técnico do Botafogo em 1948, do Fluminense em 1951, da Seleção Brasileira no Pan-Americano do Chile em 1952 e da Copa de 1954 na Suíça. Somente nesta última sentiu o amargor da derrota. Fomos desclassificados pela famosa equipe da Hungria por 4 x 2. Mas a Hungria terminaria não sendo campeã, embora fosse uma equipe que se tornou legendária. Na final contra a Alemanha, saiu na frente com 2 x 0, mas perdeu pelo placar de 3×2.

A história do futebol, as comparações técnicas e táticas e os desempenhos individuais estão eternizados no que sobrou dos filmes produzidos. Os jogos importantes eram filmados, primeiro com o “Esporte na tela” por Milton Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues, e depois com o “Canal 100”, de Carlinhos Niemeyer.

BRASIL X URUGUAI – Mas há de ter pelo mundo cópias de partidas que o tempo tornou históricas. Uma delas, a de Brasil e Uruguai de 1950, quando Obdulio Varela comandou a seleção campeã no dramático 2 x 1 contra nós no Maracanã, Estádio Mário Filho, outro irmão de Nelson Rodrigues.

Obdulio, quando a defesa uruguaia tomava a bola no seu campo defensivo, vale lembrar que o time atuou recuado, dobrava a camisa com a ponta dos dedos e agitava a celeste pedindo aos companheiros amor à seleção e ao Uruguai. Foi sem dúvida o herói da partida, sobretudo porque quando fizemos o primeiro gol com Friaça, ele determinou à equipe que continuasse jogando fechada porque num jogo aberto contra o Brasil, o Uruguai não teria chance.

BARBOSA NÃO FALHOU – Assim foi feito. A tática uruguaia deu certo e Ghiggia percorreu a estrada da vitória pela ponta direita, ultrapassando o lateral Bigode de passagem como dizia o locutor e ator Teófilo de Vasconcelos. O zagueiro central Juvenal não caiu para a esquerda para cobrir Bigode. O técnico Flávio Costa não mandou o meio-campo com Danilo e Jair se deslocar para o setor defensivo vulnerável. Barbosa, eu e Ruy Castro concordamos, não falhou em lance algum. Surpreendentemente assumiu uma culpa que não teve.

Comecei a escrever sobre Zizinho. Em 1949, o Flamengo vendeu o seu passe ao Bangu de Guilherme da Silveira Filho. Zezé Moreira não sintonizava bem com Zizinho. Não o convocou para o Pan-Americano de 1952, em Santiago do Chile. Entrou Didi então no Fluminense em seu lugar.

Um sistema defensivo começava a funcionar de forma tão eficiente quanto ofensivamente e o resultado foi a vitória quando derrotamos o mesmo Uruguai por 4 x 2  e na final o próprio Chile por 3 x 0.  A vitória sobre o Uruguai lavou a alma da torcida brasileira e do próprio país. Mas o sistema de Zezé Moreira não funcionaria em 1954. Coisas do futebol. Um processo ininterrupto de vitórias e de derrotas.

ESCALAÇÃO –  Em 1952, o nosso time era formado por Castilho, Djalma Santos, Pinheiro, Brandãozinho e Newton Santos. O meio-campo, Eli do Amparo, Didi e Pinga. Na frente, Julinho Botelho, Baltazar e Rodrigues Tatú. Recordo que fiquei emocionado. Fui ao aeroporto, inclusive, receber o time. Nele estavam vários amigos.

Didi foi um jogador também extraordinário. Aproximava-se no campo da arte de Zizinho e tinha um impulso defensivo que não era a principal característica do grande jogador, ídolo de Pelé. Zizinho, sem dúvida, foi um dos grandes artistas do futebol mundial. Inesquecível para quem o viu jogar e eterno para aqueles que puderem assisti-lo pelos filmes e tapes existentes que na realidade são as grandes testemunhas das gerações de ontem, de hoje e de amanhã.

Um belo artigo de Ruy Castro, no momento em que Zizinho completaria cem anos. Ele morreu, e infelizmente não foi muito lembrado, em 2002. Zizinho, Nilton Santos, Ademir Menezes, Pelé, Garrincha, Jairzinho, Gérson, Zagallo, Rivelino e Tostão, por si, já justificam um documentário de rara beleza na arte eterna do movimento da imagem e dos lances de bola.

Bolsonaro joga na subversão e sabe que Pacheco não aceitará representações contra Moraes e Barroso

Charge do Amarildo (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro ao investir contra os ministros do Supremo, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, propondo ações junto ao Senado para obter os seus impeachments, tem pleno conhecimento do absurdo que está cometendo e, portanto, está jogando todas as suas fichas num lance claramente voltado para a subversão da ordem política e institucional, torpedeando ao mesmo a democracia brasileira.  

Sua atitude na noite de sexta-feira configura-se como uma defesa das ideias de uso da violência pelo ex-deputado Roberto Jefferson. Na minha opinião, não por acaso, o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, dirigiu-se ao STF contra o ministro Alexandre Moraes, acusando-o de praticar censura prévia contra as pregações de Roberto Jefferson.

RUPTURA – É claro que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, não dará curso, hoje, ao impulso de Jair Bolsonaro revestido de um forte apelo à ruptura democrática e normalidade das instituições. Sabendo disso previamente, como destaca a reportagem de Renato Machado, Folha de S.Paulo de domingo, o presidente da República, na realidade, decidiu partir para o confronto aberto depois da derrota do voto impresso, concluindo que a subversão da ordem é o seu único caminho para se manter no poder.

Em seu espaço de ontem no O Globo, Lauro Jardim colocou em destaque a ruptura total entre Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão que terá que sucedê-lo numa emergência constitucional. Essa emergência constitucional está bem refletida na entrevista do general Paulo Sergio Nogueira, comandante do Exército, à repórter Jussara Soares, O Globo, publicada na edição de ontem.  

INTERFERÊNCIA – No texto, o general afirma que não há interferência política na força, evidentemente referindo-se ao Exército, já que não poderia falar pela Marinha e pela Aeronáutica, o que, portanto, deslocaria o contexto especifico para o plano das Forças Armadas em geral e o seu compromisso com a democracia. A entrevista do general Paulo Sérgio Nogueira foi realizada logo após a solenidade realizada na Academia Militar das Agulhas Negras, na qual esteve presente o presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro provavelmente sentiu mais essa reação contrária ao plano de tornar-se ditador do Brasil, plano aliás que deixou de ocultar.  A semana que se inicia, portanto, está repleta de fatos políticos, desdobramentos partidários que vão da CPI da Pandemia à repercussão militar e política das declarações de Paulo Sérgio Nogueira.  

ISOLADO –  O presidente encontra-se isolado no Palácio do Planalto. A repercussão militar fixará um rumo em mais este capítulo da história brasileira que se desenrola à sombra de uma tentativa de golpe (mais um) contra a democracia. Jair Bolsonaro, na minha opinião, tenta reviver o Ato Institucional nº 5 de dezembro de 1968, de triste lembrança na memória brasileira.  

Paralelamente à articulação do golpe, Fernanda Mena, Folha de S. Paulo de ontem, com base no aumento de inquéritos abertos pela Polícia Federal contra pregações neonazistas, chama a atenção para um sinistro renascer de um passado nazista entre nós.

Um absurdo completo e total, pois a Força Expedicionária Brasileira, de atuação heroica nos campos da Itália, entrou em combate e perdeu vidas humanas exatamente na luta contra o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini. A extrema-direita é uma ameaça, sobretudo, à própria dignidade humana.
 
PALÁCIO CAPANEMAEm um belo artigo na edição de ontem de O Globo, Bernardo Mello Franco focaliza a total falta de sensibilidade do ministro Paulo Guedes e do próprio governo, comprovada na colocação à venda do prédio do Ministério da Educação, na Avenida Graça Aranha, Centro do Rio, uma das marcas da arte moderna brasileira, destacada como uma das obras de importância mundial. Foi colocado friamente à venda como se fosse um edifício qualquer, envolto e sepultado pela névoa do tempo.

Bisneto do senador Afonso Arinos, Bernardo Mello Franco, sem dúvida é um dos grandes jornalistas do país e de memória voltada não só para política, mas para a arte, e demonstrou com o seu artigo um absurdo completo e desqualificante para os que incluíram o MEC em um leilão de prédios sem valor arquitetônico e artístico. Exatamente o contrário que representa o edifício.

DESCOMPROMISSO – Sugiro aos que organizaram a lista e a aprovaram que tenham acesso a textos publicados em 1943 sobre a obra e o seu significado de autoria de Mário Pedrosa, Ferreira Goulart, Carlos Drummond de Andrade e Oscar Niemeyer.  É possível que o governo, cujo descompromisso com a cultura é incontestável, se deixe sensibilizar por um raio de luz do passado aceso por nomes tão ilustres e essenciais à cultura tanto nacional quanto universal.

O prédio do MEC marcou também uma das primeiras construções sobre pilotis, abrindo espaços para respiração livre em faixas urbanas e a pratica de lazer e sensação de bem-estar, objetivos pelos quais a cultura se empenhou e iluminou.

Os diamantes são eternos e, de acordo com acusados pela CPI, o dinheiro pode ser alucinógeno

Charge do Zé Dassilva (nsctotal.com.br)

Pedro do Coutto

O escritor Ian Fleming, autor da série 007, que alcançou e ainda alcança sucesso extraordinário, sobretudo nas telas, os diamantes são eternos. Tem razão. A frase sintetiza o meu modo de ver uma característica do comportamento humano em busca não só do sucesso, mas também da riqueza e do luxo.

Mas há caminhos diferentes. Existem as rotas legítimas, as não legítimas e as criminosas, como tem deixado claro os trabalhos da CPI presidida pelo senador Omar Aziz. Junto a isso, uma outra característica mais forte ainda do que o conteúdo que a frase título reflete que é o efeito muitas vezes alucinógeno do dinheiro e das ações não menos alucinadas dos ladrões.

INJUSTIFICÁVEL –  Só a alucinação do dinheiro através da corrupção será capaz de explicar concretamente o que impulsiona o ânimo dos que se apresentaram como intermediários de maciças compras de vacinas, por preços superfaturados, muitos acima dos valores clássicos do mercado de imunizantes. São depoimentos absurdos em que personagens repetem seus discursos numa tentativa vã de justificar o que não tem explicação, pois nunca se viu uma chuva tão intensa de intermediários no caminho de vacinas ligadas à vida humana.

Mas, para os ladrões, a vida humana não representa nada: o que pesa para eles é o lucro ilegítimo à custa do tesouro público, da integralidade e da sobrevivência em meio a uma pandemia que no Brasil já matou 560 mil pessoas.O dinheiro para esse elenco justifica tudo, até mesmo os lances mais rudimentares do pensamento lógico.

No cenário que se descortinou, principalmente na última semana, pessoas que não se conheciam encontram-se em jantares na intenção de acertar negócios imundos. Tais personagens estarão sempre melhor situados no esgoto da percepção humana.Mas o alucinógeno não está apenas no dinheiro aparente.

CONTRA A DEMOCRACIA – O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes determinou a prisão do ex-deputado Roberto Jefferson por incitamento à violência, ao crime pela ameaça à democracia brasileira. A reportagem de Aguirre Talento e Mariana Muniz, O Globo deste sábado, focaliza nitidamente o conteúdo da decisão e a sua importância constitucional e institucional.

Surpreende, portanto, segundo revelação de Marianna Holanda e Mateus Vargas, Folha de S. Paulo, que Roberto Jefferson tenha sido recebido por Bolsonaro dez dias antes de ser preso. Na foto contida em um dos vídeos que postou nas redes sociais, Jefferson aparece com uma pistola em cada uma das mãos, defendendo um confronto tanto político quanto pessoal. Espanta assim intensamente a iniciativa do presidente Jair Bolsonaro de anunciar recurso ao Senado, amanhã, segunda-feira, contra o comportamento de Alexandre Moraes e a atuação também do ministro Luís Roberto Barroso.

DEFENSOR DE JEFFERSON – Bolsonaro passou a impressão de que resolveu assumir a defesa de Roberto Jefferson no processo que é movido contra ele na Polícia Federal, transformada em prisão preventiva por Moraes. Surpreende também a reação do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, que contestou a decisão de Alexandre Moraes, classificando-a como censura prévia. Absurdo. Tanto não houve censura prévia que o presidente do PTB postou os vídeos que desejou nas redes sociais. A consequência da postagem é a melhor prova contra a adoção de censura prévia.

Com seu argumento, Augusto Aras, na prática, rompeu com o Supremo Tribunal Federal ao considerar ilegítima uma decisão da Corte contra a qual não lhe cabe argumentar. Sua função à frente da PGR não pode ser esta. Aras, na minha impressão, corre o risco de ter colocado em foco uma contradição intransponível: nunca se viu um episódio assim envolvendo o Supremo, o acusado, o presidente da República e o chefe da PGR que certamente entrou em choque, novamente, com os procuradores da República.

RESISTÊNCIA – No Congresso há resistência ao projeto do governo que reduz direitos trabalhistas e previdenciários, caminho do qual Paulo Guedes não se afasta. No Estado de S. Paulo, reportagem de Daniel Weterman, aponta  a quebra de direitos trabalhistas constitucionais. Na Folha de S. Paulo, Thiago Resende e Bernardo Caram focalizam os reflexos negativos dos cortes dos direitos em relação ao FGTS e ao INSS.

Um dos absurdos iluminados está na ideia de que para obter a aposentadoria os trabalhadores tenham que substituir os empregadores em suas contribuições sociais. É um retorno a mais de um século da história do Brasil, a partir de 1888.

Apoio das Forças Armadas a Bolsonaro depende de projeto a ser adotado

Charge do Sinfronio (twitter.com)

Pedro do Coutto

Em solenidade no final da tarde desta quinta-feira no Palácio do Planalto, em que cumprimentou os oficiais recentemente promovidos, o presidente Jair Bolsonaro afirmou ter certeza do apoio total das Forças Armadas, seguindo a sua linha habitual que confunde a fantasia com a realidade, voltando a frisar que elas constituem o poder moderador. A reportagem da Folha de S. Paulo desta sexta-feira é de Ricardo Della Coletta, Marianna Holanda e Mateus Vargas.

Como acentuei, confundindo o que deseja com o que o está acontecendo de fato, Bolsonaro disse ter certeza “do apoio dos militares nas decisões do presidente para o bem da nação” e  que as Forças Armadas são a certeza da garantia da liberdade e da democracia. O conteúdo da fala conduz a uma sensação peculiar do autoritarismo e Bolsonaro se equivocou mais uma vez; o apoio total do Exército, da Marinha e da Aeronáutica dependem do caráter de cada iniciativa formalizada pelo Planalto.

CRÍTICAS – Além disso, Bolsonaro voltou a criticar o ministro Luiz Fux, presidente do STF, pelo fato de ter se solidarizado com o ministro Luís Roberto Barroso. O presidente, porém, não citou a ameaça que fez no início da semana de usar as armas “fora das quatro linhas da Constituição Federal”.

A meu ver, apoio condicional não existe, só em tempos de guerra como a que marcou a luta contra o nazismo de 1939 a 1945. Ninguém pode ter certeza de que alguém ou que alguma entidade pode destinar apoio total sem analisar o conteúdo do que está sendo objeto de apoio. Apoio para golpe contra as instituições, penso eu, Jair Bolsonaro não poderá obter.

TARCÍSIO MEIRA –  O grande ator Tarcísio Meira foi mais um personagem que deixou esta vida atingido pela Covid-19. Foi e continua sendo um grande ator, cujo desempenho máximo, na minha opinião, foi viver o personagem do escritor Euclides da Cunha, morto por Dilermando de Assis com quem a sua mulher estava residindo no bairro da Piedade, no Rio.

Foi um desempenho extraordinário. Deu vida e voz a um personagem mais contraditório do que vítima, como um ser humano apaixonado. Conforme digo sempre, ter amor por alguém, como seus filhos e filhas, é essencial à nossa existência. No entanto, Deus nos livre das paixões, sejam de que tipo forem.

MARCA DO TALENTO – São estados febris que abrem caminho às violências físicas, morais e psicológicas. Um dos efeitos da paixão pela mulher é considerá-la um objeto de sua propriedade. Essa questão, Tarcísio Meira interpretou de maneira estupenda na figura do intelectual e autor de “Os Sertões”, Euclides da Cunha. Como os grandes atores, o seu destino é deixar na dramaturgia brasileira a marca do seu talento, a força de suas interpretações e o clima de sua singular personalidade nas histórias que interpretou.

Na realidade, autores como Shakespeare, Nelson Rodrigues, Charles Chaplin são eternos. Mas dependem dos atores que, interpretando seus comportamentos, acentuam a força de uma realidade menos aparente do que parece. Tarcísio Meira, no fim de sua estrada, deixou para sempre imortalizadas as vidas de seus personagens e a vida dele próprio.

O HORROR DE PAULO GUEDES –  Brilhante o artigo da grande jornalista Flávia Oliveira na edição de ontem de O Globo sobre o horror que o ministro Paulo Guedes tem em relação aos pobres  e que, de forma direta ou indireta, acabou transferindo para a administração Bolsonaro.

São direitos trabalhistas cortados, são reduções do FGTS que favorecem as empresas, são congelamentos salariais sucessivos, enquanto os preços sobem sem parar, como vimos ao longo desta semana. Pobres não têm direito a nada na visão de Paulo Guedes, um escravagista moderno, voz quase isolada do século XXI.

Hamilton Mourão diverge de Bolsonaro: “Voto impresso é assunto encerrado”

Posição de Mourão se choca frontalmente com a de Bolsonaro

Pedro do Coutto

Em declarações contidas na reportagem de Dimitrius Dantas e Daniel Gullino, O Globo desta quinta-feira, o general Hamilton Mourão considerou a rejeição do voto impresso como um assunto encerrado. A Câmara tomou uma decisão soberana a respeito do tema e assim o assunto teve o seu desfecho.

A posição do vice-presidente da República diverge frontalmente do ângulo em que se coloca o presidente Jair Bolsonaro, que na mesma edição de O Globo voltou a afirmar que o que a Câmara decidiu questiona a lisura do pleito. No caso, digo, não do pleito passado, mas daquele que ainda ocorrerá nas urnas em outubro de 2022.

DIVERGÊNCIA – O vice-presidente destacou que a Justiça Eleitoral vai agir, dentro do processo de votação em vigor, para proporcionar mais publicidade e transparência à computação dos votos. Em contraste, o presidente Bolsonaro voltou a dizer que o resultado registrado na Câmara foi obtido com ameaças e pressões indevidas. Portanto, mais esse episódio deixa clara a divergência existente entre Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, e que, como é lógico, se reflete e procede de uma diferença política ainda maior que veio se registrando entre ambos desde a posse do atual governo em janeiro de 2019.

Uma divergência que incluiu também a falta de combate ao desmatamento na Amazônia e das queimadas no Pantanal, fatos em relação aos quais o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles não tomou qualquer providência. Pelo contrário, procurou sempre dar apoio aos responsáveis pela derrubada ilegal das florestas verdes das regiões.

FRAGILIDADE – O afastamento entre o presidente e o vice, no meu ponto de vista, vai se acentuar sobretudo a partir do momento em que concretamente entrar em pauta a substituição de Bolsonaro por Hamilton Mourão. O presidente, extremamente enfraquecido, tornou-se tanto responsável pela sanção da sua candidatura nas urnas de 2018, quanto por sua queda no poder político, processo que ganhou velocidade e se destacou a partir da última semana.

Política é assim, as situações mudam em espaços curtos de tempo. Dizer que o vice-presidente não é o mesmo daquele que compôs a chapa vitoriosa significa ignorar que o presidente da República não é o mesmo daquela  figura democrática e ética com que se apresentou ao eleitorado brasileiro.

CUSTO DE VIDA – A reportagem da TV Globo levada ao ar no Jornal Nacional de quarta-feira, deixou claro e destacou o aspecto dramático do aumento do custo de vida diante da explosão dos preços das cestas básicas dos supermercados e do bloqueio do direito popular legítimo de alimentação das famílias. O ministro Paulo Guedes não tem nenhuma solução para o gravíssimo problema.

Por outro lado, são inevitáveis as consequências da queda de popularidade de um governo que, em parte por reflexo das ideias de Paulo Guedes, encontra-se cada vez mais próximo de seu final. Tanto o setor de alimentos é capaz de produzir núcleos muito altos para quem abastece o mercado que as Lojas Americanas compraram o Hortifruti por R$ 2,1 bilhões, conforme revela  a reportagem de Bruno Rosa e Glauce Cavalcanti, O Globo de ontem, quinta-feira.

Além disso, o preço da gasolina, também nesta semana, subiu novamente na escala de 3,3%. O que o IBGE e a Fundação Getúlio Vargas podem dizer a Paulo Guedes e, sobretudo, o que podem dizer da atuação do mesmo ministro ?

Para encerrar o capítulo do voto impresso basta ser marcada a posse do general Hamilton Mourão

Presença de Bolsonaro desde o alvorecer de ontem é decorativa

Pedro do Coutto

O inusitado desfile militar no dia da votação que afastou o voto impresso do roteiro das urnas de 2022, causou constrangimento, sobretudo no Exército, conforme revelou Jussara Soares em reportagem na edição de O Globo desta quarta-feira.

Nem poderia ser de forma diferente, tal o grotesco do qual se revestiu o evento cujo alegado objetivo era apenas o de entregar um convite ao presidente da República, convite que a meu ver tem o significado de despedida no alto da rampa do Palácio do Planalto, cenário e testemunha de tantos impasses e contradições.

MAL-ESTAR – Por falar em contradições, é muito bom o artigo de Eliane Catanhêde, edição de terça-feira do Estado de S. Paulo, focalizando o clima de mal-estar precedido de uma decisão tomada no final da tarde de sexta-feira pelo próprio Jair Boslonaro. Aliás, a repórter e analista é uma referência imprescindível sobre qualquer movimentação política ocorrida nas Forças Armadas. Os fatos comprovam que ela possui informações precisas do que acontece nas áreas militares. Acompanho sempre os seus artigos, como também os de Jussara Soares.

Conforme era previsível, a posição do presidente Bolsonaro no Planalto foi totalmente enfraquecida com o desfecho da noite de terça-feira na Câmara de Deputados que, pelo tempo de apuração dos votos, lembrou-me as noites que chamávamos de “vigílias cívicas” na redação do Correio da Manhã quando a temperatura se aproximava do grau de fervura institucional.

FIGURANTE – Jair Bolsonaro perdeu todas as condições de governar. Sua presença desde o alvorecer de ontem é simplesmente decorativa, imagem agravada pelo depoimento do coronel Hélcio Bruno de Almeida na CPI da Pandemia, sessão de terça-feira.

Para que o capítulo do voto impresso se encerre, basta, como eu disse, a posse do general Hamilton Mourão na Presidência da República. O episódio do desfile na Esplanada foi também muito bem analisado por Bernardo Mello Franco, edição do O Globo de ontem.

BOLSONARO IGNORA LEGISLAÇÃO –  Ao refutar o resultado concreto da votação da emenda constitucional do voto impresso pela Câmara, Jair Bolsonaro revela (não desconhecer, mas ignorar) a própria legislação constitucional do Brasil. A aprovação de qualquer emenda constitucional necessita de duas votações favoráveis pela Câmara de Deputados e outras tantas pelo Senado Federal.

Se numa das investidas o projeto for rejeitado, acaba a história. Como disseram o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco, a PEC do retrocesso foi enviada ao arquivo. Isso de um lado. De outro, nenhuma emenda constitucional rejeitada numa sessão legislativa pode ser reapresentada no decorrer deste período.

Assim, o voto em 2022, seja para presidente da República, governador, senador, deputado federal ou estadual, permanecerá sendo praticado através das urnas eletrônicas. Mas o assunto está superado não apenas por esses dois aspectos já  essenciais. Existe um terceiro; qualquer mudança na legislação eleitoral tem que ser aprovada até um ano antes do pleito a que ela se referia. Portanto, o voto impresso só pode entrar em discussão para as eleições de 2026. Esta é a sua única hipótese de reapreciação. Mas, na minha opinião, toda vez que for reapresentada, tal matéria será rejeitada.

ABSTENÇÕES – Quanto ao resultado da votação de terça-feira, como escrevi no artigo de ontem, os votos contrários à emenda têm que ser acrescidos dos parlamentares que se abstiveram. Isso porque as emendas constitucionais exigem quórum de dois terços dos parlamentares a favor.

Assim, o resultado foi o seguinte: a PEC de Bolsonaro exigia 308 votos a favor. Obteve apenas 238. Somadas as abstenções com os votos contrários, a derrota do governo foi ainda muito maior: perdeu por 283 a 229. Esses dados foram objeto de comentário dos repórteres Nilson Klava e Gerson Camarotti na GloboNews.

COMPULSÓRIOS – No espaço que ocupa semanalmente na Folha de S.Paulo, Delfim Netto escreveu ontem sobre a confusão que a área econômica do governo Bolsonaro está fazendo em matéria de pagamento dos compulsórios.

O tema, também na Folha, já foi abordado por Arminio Fraga: o ex-presidente do Banco Central e o ex-ministro da Fazenda chamam a atenção para mais esse descrédito do governo Bolsonaro em matéria de compromissos financeiros.  

Afinal, acrescento, os precatórios, hoje na ordem do dia, resultam de sentenças da Justiça Federal exatamente transitadas em julgados há 31 anos. Portanto, são de 1990. Três décadas de espera para que alguém receba apenas os seus direitos.

Após Bolsonaro sofrer mais uma derrota fragorosa, urnas de 2022 estão asseguradas

Charge de Montanaro (folha.uol.com.br)

Pedro do Coutto

A Câmara Federal rejeitou ontem por ampla margem de votos o projeto do retorno ao voto impresso, ideia fixa do presidente Jair Bolsonaro que procurou por todos os meios influenciar parlamentares e projetar um recurso aos militares contra a decisão democrática.

As urnas eletrônicas são confiáveis. Sobre o voto impresso, recordo aqui a minha experiência em 1982, no Jornal do Brasil, diante do artifício para preencher votos em branco e dar a vitória a Moreira Franco contra Leonel Brizola. Lembro sempre esse episódio e o coloco à disposição das novas gerações para que possam avaliar os riscos de uma gigantesca fraude eleitoral envolvendo a luta pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.

PROCONSULT –  O escândalo do Proconsult tentou transformar a derrota de Moreira Franco em vitória e a vitória de Brizola em derrota. Mas não conseguiram. A computação pela Proconsult baseava-se nas manifestações eleitorais nas áreas de classe média e rica, deixando para segundo plano os subúrbios do Rio e a Baixada Fluminense. Com isso, Moreira Franco surgia na frente.

Mas o Jornal do Brasil, no qual eu trabalhava, tinha instalado um sistema de acompanhamento das apurações com uma vantagem; eu havia acertado com Paulo Henrique Amorim, então redator chefe, e com Ronald de Carvalho, editor, a divisão por áreas eleitorais. Isso porque para se poder analisar eleições e computação tem que se definir a projeção algébrica dos votos.

VOTOS DO SUBÚRBIO – Por exemplo, na Cidade do Rio de Janeiro, os votos do subúrbio e da Zona Oeste eram mais numerosos que os votos do Leblon, Ipanema, São Conrado, Tijuca e Grajaú. Em Copacabana, como os eleitores já estariam se perguntando, a vantagem da classe média era pequena sobre as de menor renda. Isso porque Copacabana estava repleta de apartamentos conjugados e de apartamentos com número médio de moradores acima da média das casas de renda mais alta.

Existe um bairro no Rio, que focalizo no meu livro “O voto e o povo”, que era o termômetro da cidade. Por que isso? Simplesmente porque o Meier em um dos seus lados é um bairro de predominância de classe média, mas o outro tem o perfil característico de subúrbio. Esta explicação é fundamental.

PRESSÃO – Em 1982, de repente, a pressão aumentou, sentiu-se no ar. Se a fraude prevalecesse, teria que ser feita na sexta-feira, dia em que a hipótese foi colocada por mim; Paulo Henrique Amorim e Ronald de Carvalho. A conclusão foi uma só: a única possibilidade de fraude era preencher os votos em branco que estavam à disposição dos ladrões. Se não houvesse tal prática imunda o resultado real seria respeitado.

Como aliás aconteceu. Na edição de domingo, o JB publicou matéria minha na primeira página: “Brizola consolida vitória pela margem de 126 mil votos”. Deixo o episódio para aqueles que o incorporarem na memória ou então colocarem na história moderna do país. O episódio está no esgoto da história política estadual, mas o exemplo negativo serve como bússola para que se possa medir os riscos maiores contidos na apuração manual dos votos.

DESFILE MILITAR – A derrota fragorosa de Bolsonaro foi ampliada pelo desfile militar que marcou a manhã de ontem na Esplanada dos Ministérios. Para culminar, reapareceram os cartazes que pediam o golpe militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal.

O resultado da votação que entrou pela noite não surpreende, sobretudo porque o próprio Centrão, examinando-se friamente o panorama, não tinha interesse em dar a vitória a Jair Bolsonaro. Pelo contrário. Uma derrota mantém expectativas de negociação que não quero dizer que deem certo, mas que ficam no painel das tentativas do fisiologismo histórico. Política também é isso. Não adianta pensar-se em cenários irreais; temos que analisar o processo  na base da realidade que os envolvem e o impulsionam.

Bolsonaro ficou sem saída porque agora ele não tem mais condições de ameaçar que as eleições de 2022 não se realizem. O golpe militar  não interessaria nem ao Senado, nem à Câmara dos Deputados, nem às Assembleias Legislativas e nem às Câmaras de Vereadores. O poder legislativo só existe concretamente em um clima de liberdade e não numa atmosfera que repete a do Ato Institucional nº 5 de dezembro de 1968.

Fecham-se assim as cortinas de mais uma peça de nossa história política e ficam para trás as ameaças que se não conseguiram mudar o voto dos deputados, muito menos conseguirão o fim das eleições marcadas para o próximo ano. Faltam 14 meses apenas. O tempo passa rápido. Vamos seguindo, vivendo, pulsando e acumulando experiências. O processo humano é assim.

RENÚNCIA –  A renúncia do governador do Nova York, Andrew Cuomo, em decorrência de denúncias de abuso sexual contra 11 mulheres que se dispuseram a acusá-lo, mostra mais um lance de uma realidade social que precisa ter fim: o machismo, a violência contra as mulheres e o impulso de torná-las objetos da propriedade masculina.

Nós, homens, temos que reagir ao comportamento sórdido, violento, criminoso e até fatal. O sentido de propriedade de um ser humano por outro é absurdo. Significa um retorno à escravidão. Esse sentido de propriedade da mulher está muito presente até na música popular brasileira. Voltarei ao tema nos próximos dias, mas acentuo,  ninguém é dono de ninguém.

Com a próxima derrota do voto impresso, Bolsonaro ficará sem saída política

Charge do Roque Sponholz (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

Reportagem de Matheus Teixeira, Julia Chaib e Danielle Brant, Folha de S.Paulo desta segunda-feira, destaca as articulações que estariam sendo desenvolvidas pelos Poderes Legislativo e Judiciário visando aliviar a tensão sobre o Palácio do Planalto,  após a rejeição do projeto que propõe a restauração do voto impresso no país, vinte e cinco anos depois de ter sido abolido.

A matéria é de grande importância, mas qualquer manobra que possa ser executada não aliviará a tensão que aprisiona Jair Bolsonaro dentro de suas próprias contradições. O voto impresso será rejeitado por ampla maioria de votos, inclusive porque a sua aprovação não interessa sequer às legendas que ainda apoiam um presidente da República que se perdeu e não conseguiu reencontrar-se consigo mesmo.

VOTO IMPRESSO – As pesquisas realizadas na esfera parlamentar tornam essa realidade imutável. Um dos levantamentos realizados pelo jornal O Globo e objeto de reportagem de Dimitrius Dantas, Paulo Capelli e Geralda Doca, revela que de 24 partidos com representação na Câmara Federal, 15 são contrários ao voto impresso. Mas não é só isso. É que para a aprovação na Câmara, emendas constitucionais como essa necessitam de 308 votos a favor do total de 513 parlamentares.

Portanto, não são apenas os votos contrários que já formam maioria absoluta e pesam contra o retrocesso. No caso, as abstenções e os votos em branco condenam e impossibilitam um processo de caranguejos,  como aquele a que se referiu o jornalista Carlos Heitor Cony em célebre artigo no antigo Correio da Manhã sobre o desfecho de abril de 1964. O quórum especial exige votos a favor para aprovar emendas. Assim, é impossível haver abstenções. A dualidade é uma só: a favor ou contra, tanto pelo voto quanto pela sua omissão.

Bolsonaro continua sem saída no quadro institucional brasileiro, o qual agravou ao extremo ao ofender, total e frontalmente, o Supremo Tribunal Federal e vários de seus juízes. Não há como aliviar a tensão cujo afrouxamento é impossível. Inclusive porque o Supremo não poderá recuar do processo que move contra aquele que ainda ocupa a Presidência da República. Ingressamos ontem numa das semanas finais, a meu ver, de um governo que se implodiu na vontade de explodir o próprio país.

VENDA DE IMÓVEIS  – Reportagem de Gabriel Sabóia, O Globo de ontem, revela que a Prefeitura do Rio está projetando vender 45 imóveis de sua propriedade,  para garantir o pagamento do 13º salário dos seus cem mil servidores municipais. São prédios e terrenos, os quais, como sempre acontece, encontram administradores favoráveis às suas vendas por motivos financeiros diversos.

Está na relação, a Casa Affonso Arinos, em Botafogo. Um bem histórico, muito valorizado pela importância do seu título, Affonso Arinos de Mello Franco, um dos maiores vultos da história política e republicana brasileira. Chanceler, ministro, deputado, senador, pensador, membro da Academia Brasileira de Letras, Affonso Arinos inclui-se entre as personalidades mais notáveis do século XX, e que deixou para sempre a marca de seu nome ilustre em vários capítulos da história brasileira.

Por isso, peço ao prefeito Eduardo Paes extremo cuidado em dar curso a qualquer negociação que envolva o nome de Affonso Arinos de Mello Franco. Aliás, essa perspectiva de vender imóveis no mercado termina quase sempre proporcionando resultados muitos mais negativos do que positivos.

LEMBRANÇA OLÍMPICA –  No momento em que se vira mais uma página da bela história das olimpíadas, em meio a tantas glórias brasileiras, não devemos esquecer jamais o episódio Vanderlei Cordeiro de Lima. Na Olimpíada da Grécia, em 2004, vinha se aproximando da vitória na maratona de 42 quilômetros, quando um padre atravessou de forma criminosa e infeliz a estrada da conquista e impediu que o extraordinário atleta brasileiro obtivesse o êxito e vencesse a prova, conquistando o ouro de Atenas.

Foi o único caso no mundo em que um irresponsável, um criminoso, conseguiu impedir a vitória que já se delineava em cores absolutamente fortes. Assim, glória eterna também deve ser reservada a este grande atleta. Vou até sugerir à vereadora Teresa Bergher que apresente um projeto na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, erguendo para Vanderlei Cordeiro de Lima a vitória que um ato criminoso impediu de concretizar-se.

Se Bolsonaro tivesse apoio militar já teria desfechado o golpe de seus sonhos

Charge do Duke (domtotal.com)

Pedro do Coutto

Reportagem de Matheus Teixeira, Folha de S.Paulo deste domingo, coloca em destaque o que identifica como uma estratégia conjunta do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral contra a narrativa e a investida golpista de Bolsonaro, que aliás não oculta sua intenção e, ao contrário, a destaca diária e seguidamente.

Na minha opinião, se Jair Bolsonaro tivesse apoio militar para desfechar um golpe contra a Constituição e contra as eleições de 2022, essa é a verdade, já teria praticado a sua intenção sombria e sinuosa que seria um reencontro de 2021 com o Ato Institucional nº 5 de 1968.

PRETEXTOS – Bolsonaro busca pretextos absolutamente incompatíveis com o regime democrático, aliás conforme eu disse ontem, com ofensas a ministros do STF em busca de uma crise da qual pudesse sair como vítima e não como culpado e autor.

Não obtendo esse apoio, Bolsonaro fica sem caminho de saída na estrada constitucional brasileira. O desfecho que ele pretende não tem o respaldo e o apoio que ele supõe ser necessário para tornar-se em 2021 o sucessor de D. Pedro II em 1889. Portanto, o Supremo Tribunal Federal e o TSE necessitam apenas da lei e dos limites que ela e a Constituição impõem a todos os brasileiros e brasileiras.

PRÓPRIA IMAGEM – A estratégia contra Bolsonaro está na sua própria imagem, em suas palavras, em seus atos, em suas intenções. Está enfraquecido. Se não o estivesse, a realidade do país não seria a qual nos deparamos a cada dia.

Jair Bolsonaro não tem saída, ou sequer a deseja dentro da ordem e do progresso. Esta, inclusive, é a sua contradição essencial maior do que todas as outras contradições que ele próprio produz contra si mesmo e contra o país.

JOGOS OLÍMPICOS –  Foi uma belíssima edição a que marcou  o encerramento dos jogos de Tóquio e  o anúncio da Olimpíada de 2024 em Paris. A orquestra  às margens do Sena interpretou a bela e eterna Marselhesa, um hino de emoção que, mais uma vez, renova o compromisso e a esperança da humanidade como o seu próprio futuro.

Nós, brasileiros, não podemos nos queixar dos resultados da madrugada deste domingo. A disputa do voleibol feminino com os Estados Unidos não deu nem para torcer. Afastada a emoção, as coisas todas se tornam tristes ou comuns. Perdemos o confronto mal quando ele começou. O entusiasmo americano congelou qualquer esperança da nossa seleção. Mas ficamos com a prata e isso acrescenta a nós mais do que consola.

BOXE – O esporte é assim. Pessoalmente lamento a decisão dos jurados do boxe que deram a vitória à irlandesa sobre a brasileira Bia Ferreira. Ela demonstrou disposição muito maior do que a irlandesa para o combate. Só um julgamento frio de socos que não encaixaram e pontos que isso representa podem explicar uma decisão para mim tão surpreendente. O que fazer?

A vida é assim mesmo. O fato é que vencemos no futebol, vencemos com Rebeca Andrade, com Rayssa Leal, com Ana Marcela Cunha, com Isaquias Queiroz, entre tantos outros. Vemos, portanto, vários capítulos e páginas de uma história que será lembrada como um momento glorioso do esporte brasileiro.

PARIS – Aguardemos Paris. Estarei mais uma vez vibrando com a aventura do esporte que nos leva à emoção, às lágrimas, tanto as de vitórias quanto as de derrotas. Já testemunhei tantas vitórias e derrotas que posso verificar que o saldo é positivo para todos aqueles que fazem da dúvida o melhor caminho para se chegar a uma certeza. No fundo da questão, a certeza nasce da dúvida, do  não conformismo, da não aceitação do conservadorismo como uma concepção humana.

O não conformismo, principalmente em relação à miséria, à humilhação, à corrupção. É preciso reagir sempre, pois a reação já é uma verdade em si própria. Vamos caminhar com as gerações que estarão presentes em Paris no eterno processo de viver. Seja nas artes, na ciência, nos esportes, sem emoção todos nós nos transformaríamos em robôs. A emoção é que distingue as pessoas, seus encontros e desencontros, seus destinos.

Quando será o encontro da realidade de Bolsonaro com a realidade concreta dos fatos?

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

Encerrada a Olimpíada de Tóquio, marcada por êxitos brasileiros que emocionaram não só os adeptos do esporte em geral, mas também aqueles que buscam encontrar motivos para terem amor pelo país, aguardemos, a partir de hoje, domingo, quando será o encontro da realidade do presidente Jair Bolsonaro com a realidade concreta dos fatos.

Esse é o dilema que falta ser esclarecido pelo personagem principal da profunda crise brasileira, o próprio presidente da República. Já disse em vezes anteriores que Bolsonaro, eleito democraticamente nas urnas de 2018, rompeu com ele próprio, enquanto candidato vitorioso, pois fez tudo ao contrário do que anunciou que faria e não cumpriu os compromissos da campanha eleitoral a começar com os assumido consigo mesmo e com o país.

DESENCONTRO – Os ataques incrivelmente agressivos praticados por Jair Bolsonaro contra aqueles que ele julga serem apenas os seus inimigos só podem encontrar explicação em um desencontro dele consigo mesmo. É como alguém que olha a sua imagem no espelho e não encontra a si próprio e, em face de tal desencontro, percorre em vão uma estrada de autoconhecimento.

Quando não houver mais possibilidade de a imagem real poder se assemelhar com a imagem que idealiza, Bolsonaro recuará e cairá na verdade dos fatos históricos. Não estão longe nem o dia e nem a hora. Isso porque, na minha opinião, vai decorrer da comprovação de que o seu projeto de golpe contra a Constituição, como ele próprio anunciou, não poderá lhe permitir um canal que o iluda sobre o que está acontecendo no país e no que ele próprio provocou com uma tempestade de absurdos em sequência.

CORRUPÇÃO ELEITORAL –  Basta examinar agora as suas denúncias sobre a corrupção eleitoral que ele prevê para as urnas de 2022. É dos raríssimos casos em que a formalização da denúncia antecede o acontecimento concreto. Por que ele se baseia na hipótese contrária a ele? É difícil explicar logicamente, uma vez que as ações criminais não podem se caracterizar apenas pelas intenções ocultas de cada um; é preciso que aconteça o fato.  

E por que a corrupção o derrotaria se ele ocupa o poder? Fraude eleitoral só pode ser cometida por quem ocupa o governo e movimenta as suas engrenagens. Nunca, é claro, pelos opositores do titular do mandato.

DELÍRIO – Se ele parte para o delírio prevendo a sua própria derrota por fraude é porque no fundo da questão sabe de antemão que será derrotado pelo ex-presidente Lula da Silva nas urnas se as eleições fossem hoje , como deixaram claras as pesquisas do Datafolha: 46% a 25%. Não há nenhuma fraude que leve a esse resultado. A diferença é simplesmente gigantesca.

Assim, se não puder compatibilizar seu projeto e um novo AI-5 com o apoio militar para torná-lo possível, aí sim terá que aceitar a verdade dos fatos e dos acontecimentos. Para mim, acentuo mais uma vez, ele irá renunciar ao poder que deseja perpetuar, renunciando assim a si mesmo.

PRECATÓRIOS – A posição do ministro Paulo Guedes em relação aos precatórios, cujo pagamento pretende adiar para tempos não determinados, cobre de ridículo o próprio titular da Fazenda e do Planejamento, uma vez que já perdeu os ministérios do Trabalho e da Previdência Social.

No meu ponto de vista. Guedes é um dos maiores farsantes da história econômica brasileira. Ontem, o congelamento salarial, com o aumento de preços; hoje o não pagamento de dívidas resultantes de processos na Justiça Federal transitados em julgado há 30 anos.

NAS GAVETAS – Quem me dá essa informação é o meu amigo Alexandre Farah, advogado e ex-deputado estadual. Os precatórios de 2021 nasceram com os julgamentos de 1990. Dormem nas gavetas do Tesouro, portanto, há três décadas, desse espaço de tempo nasceram cerca de 100 milhões de brasileiros.

Paulo Guedes quer prolongar absurdamente uma odisseia que parecia não ter fim e que, em grande parte dos casos, os credores são herdeiros legais de credores que já se foram com o vento e com o tempo.

FUTEBOL DE OURO –  Foi uma partida difícil, sem dúvida, a que marcou a nossa vitória por 2 x 1 contra a Espanha neste sábado. É o destino do esporte, pois se todas as vitórias fossem fáceis não haveria o impulso ou a emoção de competir. E se ninguém errasse, os jogos terminariam 0 x 0.

Nesse ponto, caímos numa outra realidade; a dificuldade de vencer que no fundo é o que glorifica as equipes e que abrilhantam as suas vitórias. Como dizia o meu saudoso amigo Nelson Rodrigues “todas as vitórias são santas”. Quando elas chegam, nós devemos apenas agradecer a Deus  e ao desempenho do nosso time, principalmente quando esse time é o Brasil.

EMOÇÃO – Vamos caminhar com mais essa vitória, recebê-la com emoção e, no fundo, com uma lágrima de felicidade. Assim recebemos também as vitórias de outros tantos atletas brasileiros nesta Olimpíada.

Vitória eterna como todos os momentos de glória da própria existência humana. Vamos ver se neste domingo fatos novos surgirão. Eles surgem sempre. Não fosse tal processo, a história já teria acabado há muito tempo. Ao contrário, ela é tão eterna quanto a presença do ser humano na terra.

Alto-Comando do Exército concorda com Luiz Fux e rejeita golpe de Bolsonaro

Bolsonaro caiu em um isolamento político na Esplanada de Brasília

Pedro do Coutto

Numa reportagem politicamente essencial para este momento da vida do país, Vinicius Sassine, Folha de S.Paulo deste sábado, revela que o Alto-Comando do Exército concorda com a reação do ministro Luiz Fux às ofensas de baixo calão de Jair Bolsonaro, tanto ao Supremo como um todo quanto aos ministros isoladamente. E, desta forma, não dá cobertura a qualquer projeto de ruptura constitucional e institucional do qual, no fundo, o chefe do Executivo é autor contando num desfecho envolvendo as Forças Armadas.

Digo politicamente essencial porque este é ponto que faltava ser explicitado na investida de Bolsonaro de incendiar a democracia brasileira e reimplantar uma extensão no tempo do Ato Institucional nº 5 de dezembro de 1968. Sem o Alto-Comando do Exército e sem o apoio da Marinha e da Aeronáutica, Bolsonaro, conforme eu tinha observado, caiu numa solidão e em um isolamento político total na Esplanada de Brasília.

INIMIGO Nº 1 –  O próprio presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o classificou de inimigo público por sua posição contrária à Constituição. Por coincidência, título do meu artigo que se encontra na edição de hoje desta Tribuna da Internet.

Agora, reafirmo que a Jair Bolsonaro só resta o caminho da renúncia. A crise será superada com a  posse do general Hamilton Mourão em seu lugar. Aliás, Vinicius Sassine inclui em sua matéria que a crise deve refluir tão logo derrotado o projeto que se propôs a reinstaurar o voto impresso no país.

Coincidências à parte, em extensa matéria também na Folha de S. Paulo de hoje, Patrícia Campos Mello entrevista Jake Sullivan, assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos que se encontra em São Paulo. O diplomata americano, em nome do governo Joe Biden, transmitiu a certeza e a confiança de que as urnas do Brasil são justas e não dão margem a fraudes.

OFENSAS – O ainda presidente Jair Bolsonaro, na tarde de sexta-feira, em Joinville, Santa Catarina, voltou a ofender o Supremo Tribunal Federal e, com expressão de baixo calão, diretamente o ministro Luís Roberto Barroso. Com isso, Bolsonaro, mais uma vez, reafirma que não recua de seu propósito golpista e não deseja de forma alguma que o panorama atual da vida brasileira possa ser amortecido, como disse Ciro Nogueira ser o seu projeto pessoal ao assumir a Casa Civil.

Ciro Nogueira enganou-se completamente. Bolsonaro não quer qualquer conciliação: luta até o fim pelo golpe e, não conseguindo, deixa Brasília seguindo uma estrada de volta já percorrida por Jânio Quadros e João Goulart.

Bolsonaro, inimigo público da democracia, será julgado pelo STF e pelo povo brasileiro

Charge do Miguel Paiva (brasil247.com)

Pedro do Coutto

Creio que nunca um processo criminal e de responsabilidade será aberto com tanta facilidade como este em que o Supremo Tribunal Federal aceitou as denúncias do TSE contra Jair Bolsonaro, simplesmente porque não há necessidade sequer de inquérito preliminar.

As provas encontram-se para sempre gravadas nas imagens e nos sons de seus próprios discursos contra a Carta Magna do país, a democracia, a liberdade  e as instituições. Suas ameaças repetiram-se por várias vezes até o momento em que escrevo esse artigo. Acentuo esse aspecto porque é possível que do anoitecer de sexta-feira até a  alvorada de sábado, Bolsonaro possa repetir, mais uma vez, as suas formulações autoritárias.

AMEAÇAS – O povo brasileiro é testemunha e ele próprio, ainda presidente da República, se incriminou sucessivas vezes repetindo ameaças antidemocráticas. O processo está praticamente aberto no STF na medida em que o ministro Alexandre de Moraes aceitou as denúncias contra o chefe do Executivo.

Bolsonaro não tem defesa legal. Sua alternativa, que ele  aliás  não oculta, é derrubar a Constituição e com tal movimento fechar o Congresso Nacional e o STF. Acredito francamente que a história brasileira não registra outro episódio com número igual de testemunhas, pois essas formam em bloco o povo brasileiro.

DERROTA –  No pronunciamento que fez na tarde de ontem sobre a questão que envolve o voto eletrônico e o voto impresso, examinando-se bem o conteúdo dos fatos, verifica-se o presidente da Câmara, o deputao Arthur Lira, concretamente ampliou a dimensão da derrota de Jair Bolsonaro na absurda questão do retorno ao voto impresso.  

A matéria foi examinada por uma comissão especial e derrotada por 23 votos contrários, 11 a favor e 9 abstenções. Verifico pela matéria que a GloboNews editou no final da tarde desta sexta-feira. A modificação do sistema de voto dependia de aprovação de Emenda Constitucional, o que exige na Câmara 308 votos a favor.

Portanto, as abstenções são votos contra a iniciativa, uma vez que ele necessita de quórum especial. Assim, o voto branco, a abstenção e o voto contra são no fundo a mesma coisa. Arthur Loira decidiu remeter o projeto da  PEC ao plenário, apesar do resultado dos votos preliminares da comissão.

DERROTA – Tal lance de dados vai contribuir para tornar mais ampla essa derrota fragorosa do presidente da República. Basta confrontar a tramitação da emenda com a exigência de que alcance maioria de dois terços para ser aprovada.

Sem focalizar a segunda votação ou a votação da emenda pelo Senado, verifica-se que o destino de mais esse episódio será o triste arquivo da história do Brasil e o episódio que se desenrola na Esplanada de Brasília que não poderá ser solucionada, conforme já escrevi, por qualquer manobra conciliatória. Isso porque não existe conciliação possível com o presidente Jair Bolsonaro. O ex-ministro Sergio Moro acreditou em tal hipótese e os fatos confirmaram o contrário.

OLIMPÍADA –   Na madrugada de hoje, sábado, duas medalhas de ouro estiveram em disputa com a boxeadora Bia Ferreira e o pugilista Hebert Conceição. O futebol masculino estará em campo agora pela manhã decidindo o título e a medalha de ouro. A medalha de ouro também será decidida pela seleção feminina de voleibol.

Glória eterna aos nossos atletas que deram exemplo de superação em vários momentos, trazendo de volta à população brasileira emoção e orgulho. Fica a certeza de que os nossos esportistas estarão no coração e na memória do país para sempre.

PRIVATIZAÇÃO – Amanda Pupo, Estado de S.Paulo de sexta-feira, publica reportagem sobre a aprovação do projeto de lei que autoriza a venda das ações e a privatização dos Correios. É preciso considerar um aspecto fundamental; a matéria não depende apenas de autorização legal, mas também de autorização moral que se projeta na fixação do preço justo, das condições de pagamento, do resguardo do direito dos funcionários, dos prazos de pagamento e da correção monetária aplicada entre um prazo e outro.

Essa regra não vale apenas para os Correios, mas para todas as privatizações. Não podem se repetir nos Correios e na Eletrobras lances semelhantes aos que marcaram triste e vergonhosamente a maratona de intermediários para a compra de vacinas contra a Covid-19.

Maratona é bem o termo porque nunca surgiram tantos voluntários empenhados em viabilizar as aquisições pensando em salvar vidas brasileiras que se afundam num mar de corrupção e descalabro.

Supremo enfrenta Bolsonaro, cancela reunião e ao presidente da República só resta a renúncia

Fux ressaltou que Bolsonaro tem ‘reiterado ataques de inverdades’

Pedro do Coutto

Foi uma resposta duríssima a que o Supremo Tribunal Federal, através da voz do seu presidente, Luiz Fux, dirigiu ao presidente Jair Bolsonaro, rebatendo frontalmente os ataques que o chefe do Executivo vem dirigindo reiteradamente à Corte Suprema do país. Luiz Fux acentuou que a partir de agora o Supremo só responderá através dos processos judiciais em curso contra Bolsonaro que, conforme destaquei na edição de ontem, voltou a ameaçar as instituições brasileiras, a Constituição do país e a democracia.

É claro que Jair Bolsonaro tentará fechar o STF, mas não encontrando apoio militar para tanto só lhe resta o caminho da renúncia ao Planalto.  A história do Brasil vive assim um momento extremamente grave de crise política e institucional. E o maior culpado é o próprio presidente da República.

SOB AMEAÇA – O Congresso Nacional encontra-se também sob ameaça porque se Bolsonaro concretizar o golpe militar que pretende, o parlamento seria o segundo poder a ser fechado no Brasil. Na paisagem de Brasília de Niemeyer, só restaria a figura de um imperador que demonstrou não conhecer limites que a política e a própria convivência humana impõem aos  que dela participam. Como na arte, a emoção integra o elenco do cenário político, o que distingue medidas isoladas e verificadas daqueles que contam com o apoio e o calor da população do país.

Assisti ao discurso de Luiz Fux pela GloboNews e apreciei os comentários de Ana Flor e Gerson Camarotti, lembrando que o episódio de ontem é inédito na própria história do Brasil. Um presidente investe contra o Poder Judiciário, é rechaçado por ele e não encontra apoio para permanecer no poder. Lembro que a decisão da crise pode vir antes do amanhecer, no momento em que a Tribuna da Internet entrar no ar, acentuando também o belo título do historiador Hélio Silva: “1889: A República não esperou o amanhecer”.

Para mantermos a democracia, a liberdade e as instituições, é o momento de o vice-presidente Hamilton Mourão assumir o poder, restabelecendo um equilíbrio que nunca foi respeitado pelo seu companheiro de chapa nas urnas de 2018. Aguardando a alvorada desta sexta-feira, estamos todos na expectativa de um novo capítulo na história do Brasil.

COMÉDIA CHAPLINIANA – A série de depoimentos de pessoas que integraram o gabinete de Eduardo Pazuello, no Ministério da Saúde, ao passar de uma página para outra, transforma-se  numa comédia chapliniana. Ontem, por exemplo, o depoimento de Airton Soligo, também conhecido como Airton Cascavel, foi uma peça de humor fora da realidade, lembrando a sequência magistral de Chaplin em ” O Grande ditador” quando se decidia num jantar quem perpetraria um atentado contra o opressor.

Cada um tirava a moeda do seu pudim e colocava no prato de sobremesa do outro. Ridículo. Ninguém diz não ter culpa em um processo recheado de intermediários. Nunca se viu um conjunto assim tão alucinado, marcado pelo descontrole que revela o amadorismo dos atores que se apresentaram para interpretar a corrupção em 2021.

O depoimento de Airton Soligo realmente mostra a absoluta incapacidade de uma gestão pública em enfrentar a morte que a cada dia levava para o túmulo milhares de brasileiros. Hoje, somam mais de 550 mil e a morte, do desfecho final da vida, é fotografada pelo governo como um registro em um parque de diversão.

Bolsonaro ameaça recorrer às armas contra a Constituição e perde apoio no Congresso

Acuado, Bolsonaro pensa que pode salvar o que resta de seu mandato

Pedro do Coutto

Manchete principal da edição de hoje, quinta-feira, da Folha de S.Paulo, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que poderá recorrer às armas fora da Constituição do país como forma de escapar do processo que lhe é movido pelo Supremo Tribunal Federal e como meio de tentar salvar o que resta de seu mandato em meio à tempestade política, cujo desfecho poderá, e a meu ver deverá, ocorrer hoje.

A reportagem é de Matheus Teixeira e Ricardo Della Coletta, colocando em destaque, portanto, de acordo com o próprio Bolsonaro, a perspectiva imediata de um golpe armado no país. O golpe não interessa nem ao Centrão, que de acordo com Merval Pereira, hoje no O Globo, tomou de assalto o governo do país. Entretanto, na minha opinião o golpe militar, bandeira do presidente da República, só pode incluir o fechamento ou o recesso do Congresso Nacional e tal hipótese não interessa, de fato, nem ao Centrão.

FIM DAS ELEIÇÕES – Seria o fim das eleições e o fim da presença do próprio Centrão no Poder Executivo, pois se o golpe prevê um desfecho contra a Carta Magna deixa evidente que Jair Bolsonaro deseja tornar-se imperador e como tal não precisa do apoio dos senadores e deputados.

Esta é contradição essencial que envolve o destino de um governo tem como a sua mais forte oposição a sua própria presença no poder, configurada nos atos tomados e nas palavras proferidas. Ele próprio, Bolsonaro, a meu ver, decretou sua queda. Pode ocorrer ainda hoje e se não ocorrer o Brasil mergulhará na longa noite de mais uma ditadura.

MANIFESTO – É preciso aguardar, entretanto, a reação militar ao pronunciamento de Bolsonaro que a cada dia mais se isola na Esplanada de Brasília. A sociedade organizada, entretanto, já reagiu à ameaça que veio no anoitecer de ontem. O Globo e a Folha de S.Paulo publicaram manifesto de empresários, juristas, professores, sociólogos e intelectuais defendendo as eleições de 2022 e assegurando a posse dos que forem eleitos.

É preciso lembrar que a eleição não será somente para a escolha do novo presidente da República, mas também para governadores de 27 estados, para o Senado, para a Câmara Federal e para as Assembleias Legislativas. Toda a classe política, portanto, tem interesse direto na sua realização e a política, mistura de ciência e arte, exprime as tendências humanas dentro de uma realidade em que não se confunde o desejo de algumas correntes com a perspectiva traçada no país.

SELIC – Para quem não conhece os números, a taxa Selic subiu um ponto, de acordo com reportagem de Larissa Garcia, Folha de S. Paulo de hoje, passando de 4,25% para 5,25% ao ano. 

A taxa Selic incide sobre a dívida interna brasileira que se eleva a R$ 6 trilhões. Além desse reflexo, temos que considerar o seguinte: não tem cabimento o devedor propor ao credor pagar juros mais altos do que aquele que já vinha pagando. A proposta só pode ter como objetivo colocar mais papéis do Tesouro no mercado financeiro. Não há outra explicação lógica e verdadeira.

Decisão de Alexandre de Moraes explode o governo Bolsonaro e antecipa desfecho da crise

Charge do Cícero (Jornal Ação Popular)

Pedro do Coutto

No final da tarde de ontem, a jornalista Natuza Nery, da GloboNews revelou a decisão do Ministro Alexandre de Moraes aceitando a inclusão do presidente Jair Bolsonaro no inquérito das fake news por suas atitudes contrárias à democracia e à Constituição Federal na medida em que, sem provas, acusou a eficiência do sistema eleitoral de votação e ameaçou o país com a não realização do pleito presidencial de outubro de 2022.

A manifestação dos ministros do Supremo talvez não seja unânime por causa da posição do ministro Nunes Marques, mas de qualquer forma a posição do STF foi imediata e frontal no enquadramento do presidente da República.

SEM SAÍDA –  Jair Bolsonaro ficou sem saída. Ou ele parte para concretizar as suas ameaças de ruptura institucional, sugerindo uma atitude de força contra a democracia e a liberdade ou terá, na prática, renunciado ao cargo para o qual foi eleito em 2018. Não há meio termo. Ou desaba o titular do Planalto ou a democracia.

É praticamente impossível que as Forças Armadas apoiem as ameaças de Bolsonaro. Não tem cabimento nenhum tais atitudes. O país está se tornando centro de atenção de vários olhares internacionais. O governo terminou, pois o maior oposicionista do poder central é o próprio Bolsonaro a esta altura dos acontecimentos. Não há clima para se chegar a um cenário conciliador.

O clima excedeu as expectativas e acelerou uma solução que não tem mais retorno. O governo perdeu o poder e o Brasil precisa efetuar a substituição de Bolsonaro pelo vice Hamilton Mourão, de forma urgente através do Congresso Nacional. A crise desaba no Planalto e as instituições devem prosseguir resistentes às ações golpistas. Não são as primeiras, mas Deus queira que sejam as últimas. No vazio de poder, Bolsonaro já não comanda mais o país.

ANA MARCELA, NOVA HEROÍNA  –  Foi efetivamente heroica a conquista de Ana Marcela Cunha ao vencer a maratona aquática de 10 quilômetros nos Jogos de Tóquio. Com seus cabelos verde e amarelo, a baiana de Salvador fez uma ótima prova e deixou para trás suas adversárias na reta final. Ela completou a distância de 10 km em 1h59min30s8, pouco à frente da holandesa Sharon van Rouwendall (1h59min31s7). O bronze foi para a australiana Kareena Lee, com 1h59min32s5.

Da mesma forma que outros heróis do esporte brasileiro, e são tantos, Ana Marcela alcança a glória eterna e devolve a todos nós, no fundo, um orgulho de pertencermos a este país que, apesar dos governantes catastróficos, pulsa e se emociona com exemplos de superação de atletas que encontraram dificuldades para exercer as suas vocações.

ESPELHO – Mas isso é próprio da história do esporte e da história da arte, faz parte do próprio destino humano que conduz a encontros e desencontros. Na verdade, nós não somos somente nós. Somos nós e os outros e até mesmo nós nos outros, atravessando um espelho para encontrar uma expressão que caracterize momentos de emoção, de alegria, mas também de sofrimento e de tristeza. Glória ao esporte brasileiro.

As reportagens de Bruno Marinho e Letycia Cardoso, O Globo de ontem, figuram entre as que mais destacaram a importância da conquista de Ana Marcela. Em tempo, até o momento em que escrevo, Bolsonaro não enviou uma palavra de apoio sequer aos nossos atletas olímpicos.

Nos campos e parques humildes dos subúrbios é que se fazem os grandes campeões e campeãs

Dificuldades e desafios constantes marcam a vida dos atletas

Pedro do Coutto

Foi uma bela entrevista a de Rebeca Andrade à TV Globo, logo após ter conquistado o ouro e a prata que caminharão com ela para a eternidade. Glória para a atleta e para todos os demais esportistas brasileiros que participam da Olimpíada de Tóquio.

Ao assistir a entrevista, lembrei do que Juscelino Kubitschek disse, em 1958, ao receber a seleção brasileira, campeã do mundo, afirmando que é preciso lembrar que é nos campos e nos parques humildes de subúrbios que se formam os grandes heróis e heroínas. Os atletas são pessoas que lutam para se destacar no esporte, enfrentando, muitas vezes, dificuldades, julgamentos, desafios constantes, entre tantos outros obstáculos. É preciso ver em suas faces e em seus olhos, mesmo após a consagração, o que passaram para chegar ao êxito.

CONSPIRAÇÃO – Até o momento em que escrevo esse artigo, na tarde desta terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro não tinha  congratulado os atletas. Até estranho e me surpreendo, ironicamente, de os bolsonaristas não terem ainda apontado uma conspiração comunista para que a China tenha conquistado tantas medalhas.

Os que se consagraram em Tóquio ficarão para sempre na memória do esporte brasileiro. Vamos agora voltar as nossas energias para a decisão contra a Espanha, no futebol masculino. O esporte é isso, orgulho, dedicação e superação. É preciso estabelecer que a vida é feita de encontros e desencontros. Vamos nos empenhar e acompanhar a bola rolando porque o futebol brasileiro é único. Que possamos trazer mais uma conquista que certamente se eternizará na história do país.

CALAMIDADE – Retornando à atividade plena, o que me deixa muito satisfeito, assisti na edição do RJTV, da TV Globo, uma reportagem sobre a calamidade em que se transformaram as passagens subterrâneas do Rio. Becos do crime organizado, tráfico de drogas e de animais, comércio ilegal, entre outros.

A paisagem do Rio pode continuar, em parte, ainda linda, mas a sua realidade social é outra bem diferente e precisa ser urgentemente resolvida pelos nossos governantes de plantão. Conviver com uma calamidade dessas é uma punição que se estende há anos sem razão ou justificativa.

GRANDES HERÓIS – Para fechar esse artigo devemos estender o sentimento de glória eterna também a Pelé, Garrincha, ao meu saudoso amigo Nilton Santos, Gerson, Zagallo, Vavá, Jairzinho, Rivelino e tantos outros que honraram a história brasileira, deixando sempre a vitória assinalada.

E, por fim, meus sinceros agradecimentos aos amigos Carlos Newton, Marcelo Copelli e a todos os leitores desta Tribuna pelos votos de pronta recuperação em virtude da intervenção no ombro pela qual passei. De volta, sigamos firmes e fortes. Um grande abraço em cada um dos amigos frequentadores deste espaço democrático.