Todos falam na reforma da Previdência, mas ninguém focaliza os pontos concretos

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Pedro do Coutto
         (Charge do Mariano)

A reforma da Previdência Social, focalizada por quase todos como medida de salvação nacional, transformou-se numa bandeira econômica somente igualada à exclamação da reforma agrária, como tema das eleições de 1960. Comentaristas políticos circulam sobre o assunto mas dele não destacam pontos que ela parece focalizar. Aliás, nem a própria equipe do ministro Paulo Guedes chegou a uma conclusão a respeito de qual texto será enviado ao Congresso Nacional.

Reportagem de Flávia Lima, Alexia Salomão, Talita Fernandes e Indiana Sofia, edição de ontem da Folha de São Paulo, destaca o tema. E acentua no título que a reforma levará a uma economia de 50 Bilhões de reais. Só que esses 50 bilhões são o embolso ao longo dos próximos 10 anos. Logo a fração anual é de 5 bilhões, ao longo da década.

HÁ ALGO ERRADO – Esse total não representa quase nada porque o orçamento anual da Previdência está em torno de 800 bilhões, incluindo o déficit de 189 bilhões de reais. Ontem, ao assumir o Ministério da Economia, Paulo Guedes considerou a reforma fundamental para as ações do governo Jair Bolsonaro, que assumiu o Palácio do Planalto no dia 1º.

Usou um tom ameaçador na hipótese de o Legislativo não aprovar a matéria. Entretanto, não se referiu concretamente como poderão ser aplicados os cortes de despesas ainda neste ano e ao longo do mandato presidencial de 4 anos.

O déficit previdenciário de 189 bilhões inclui o pagamento salarial aos funcionários civis da administração. É preciso, na minha opinião, ser colocada uma questão. Quando se fala em programas de saúde, educação e segurança, junta-se na mesma soma o custo do funcionalismo civil. Dessa forma, as despesas com os funcionários públicos é considerada duas vezes. Uma quanto ao pagamento mensal e outra embutida nos programas de segurança, saúde e educação. Assim os gastos com pessoal entram duas vezes no orçamento. Uma no programa respectivo e outra no quadro geral da administração. Essa duplicidade aumenta os desembolsos. Caso dos médicos por exemplo: entram tanto quanto na saúde quanto na rubrica do funcionalismo público.

É preciso essencialmente que a questão seja colocada por inteiro. A reportagem da FSP destacou que o presidente Bolsonaro poderá editar medida provisória sugerida por Paulo Guedes. Muito bem. Publicada esta iniciativa, enfim poder-se-á debater seu conteúdo concreto.

Compatibilizar capital e trabalho é um desafio essencial para Bolsonaro

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Charge do André Dahmer (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O título, acredito, reflete bem o desencontro através dos tempos entre as duas forças da produção econômica. Mas não se chegou ainda, exceções confirmando a regra, a uma compatibilização justa tanto para o capital quanto para o trabalho. Faz parte de um elenco de contradições que se movimentam na trajetória humana. São elas existência e eternidade. Corpo e espírito. Capital e trabalho, um sinal de “mais” de um lado, e um de “menos” de outro.

Essas colocações até hoje não conseguiram mudar o panorama que envolvem a população, no nosso caso a brasileira, e muito menos a população do planeta no qual habitamos.

ATUAÇÃO POLÍTICA – Dito isso, não significa uma desistência de tentativas que se renovam para problemas que se repetem. Porém, no caso de capital e trabalho é algo que depende de uma atuação política, já que sem ela não pode haver fixação de poder. O nome poder sintetiza tudo, principalmente a organização democrática das estradas humanas nas quais verifica-se o choque de interesses. Tanto os legítimos quanto os ilegítimos. Fazem parte de um jogo que se repete e eterniza.

Não há, entretanto, como mudar a dualidade da existência e eternidade, tampouco os sinais de “mais” e de “menos”, além de tentar decifrar a ansiedade entre corpo e espírito. Não estou sendo original ao dizer isso. Muitos já o fizeram nas curvas da história. Entretanto, por ser uma questão material, portanto terrena, de todas as equações, a que apresenta melhores condições para ser equacionada está nas relações entre capital e trabalho. No caso brasileiro, a decisão diz respeito a partir de ontem ao presidente Jair Bolsonaro.

EQUILÍBRIO DE FORÇAS – Se o presidente começar a se empenhar na tentativa de alcançar o equilíbrio relativo de forças, logo na alvorada de seu governo, estará indo ao encontro da população brasileira composta por mais de 200 milhões de pessoas. Ele tem base política para enfrentar o desafio, que aliás torna-se essencial, não só para ele, como também para o futuro urgente de nosso país.

Está respaldado pela confiança de 65% dos homens e mulheres, conforme revelou pesquisa do Datafolha, publicada na edição de ontem pela Folha de São Paulo, e analisada pelo editor Igor Gielow. Portanto, não poderia haver cenário melhor para que Bolsonaro iniciasse seu trabalho e sua missão, que deve ser bastante positiva na medida em que tiver a capacidade e sensibilidade para exercer seu poder em favor de todos os brasileiros e brasileiras.

A questão do capital e trabalho, assim, está posta. Os dados do futuro estão colocados as suas mãos. Agora tudo depende de si próprio. Os votos ele já obteve. Deverá agora retribuí-los no palco do país.

Da obra-prima “Amacord”, de Fellini, às memórias de Nelson Rodrigues

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Ontem escrevi sobre a visão de Nelson Motta a respeito dos dois grandes artistas, programas que foram levados ao ar pela GloboNews. Acentuei que as memórias filmadas por um e transformadas em textos pelo outro foram fundamentais como fontes propulsoras das obras que legaram para diversas gerações e que estão se eternizando no tempo.

Em “Amacord”, que lançou após La Dolce Vita, Fellini destacou sua inspiração através do tempo. O mesmo que Nelson Rodrigues por intermédio das suas memórias, que começaram a ser publicadas no Correio da Manhã e depois transformadas nas confissões editadas pelo jornal O Globo.

ROTEIRISTA – Como parte das lembranças que ficaram nos seus passos no campo da arte, Fellini projetou sua inspiração a partir do roteiro que produziu para “Roma Cidade Aberta”, de Rossellini. O filme marcou a passagem do cinema italiano para uma época em que destacou o neorrealismo. Nelson Rodrigues já era um autor destacado a partir do “Vestido de Noiva”, peça extraordinária à qual me referi ontem.

Em “Roma Cidade Aberta” foram incluídos vários trechos de reportagens focalizando os momentos finais da invasão da Itália, tanto pelas forças alemães, quanto pelas forças americana e brasileira. A situação era singular, pois ao mesmo tempo o país sofria ataques de forças rivais matando e morrendo. Numa sequência, foi reproduzido o cartaz exaltando o General Badgloio, antinazista e que derrotou Mussolini.

SURREALISMO – Porém, o realismo italiano, no caso de Felline transformou-se em fragmentos surrealistas ao longo das belas obras que ofereceu ao cinema e à cultura universal. Nessa sequência, “Amacord” possui uma importância singular e extraordinária. Pois suas lembranças percorrem o tempo chegando à emoção dos fatos que passaram a pertencer ao tempo e a história.

Nelson Rodrigues, autor de uma sequência grande de peças teatrais, ao mesmo tempo escrevia colunas sobre o futebol e a respeito de acontecimentos dramáticos de sua vida. Deve se dizer, antes de tudo, que Nelson foi também um repórter policial. Seu pai era dono de “A Crítica” que desapareceu no crepúsculo da revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder.

A alma de várias de suas peças nasceram de seu cérebro e na sua emoção ao refletir sobre a tragédia humana e sobre os conflitos da existência, fenômenos que se encontram no dia a dia. Seus personagens são os do cotidiano. Diferença maior, segundo Carlos Heitor Cony entre sua obra e a de Shakespeare.

PESSOAS COMUNS – Os personagens de Nelson eram pessoas comuns, incluídos na linguagem comum dos bairros cariocas. Os personagens de Shakespeare eram reis, príncipes, generais, enfim figuras da elite.

Tanto um quanto outro hoje vivem na eternidade da arte, onde o tempo é assinalado por um relógio sem ponteiros.

Nelson Rodrigues e Federico Fellini, na visão genial de Nelson Motta

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Fellini, de megafone em punho, dirigindo a filmagem

Pedro do Coutto

Foram dois programas excelentes que Nelson Motta produziu e dirigiu, na Globonews, nas duas últimas semanas. Um sobre Nelson Rodrigues, outro sobre Federico Fellini. Dois grandes artistas, pode-se até dizer que dois gênios, o primeiro do teatro e da literatura, o segundo do cinema italiano e até mesmo universal.

Partiram de duas bases comuns, em suas famílias e no seu passado, trazido à tona das emoções que repousaram sobre seus relatos. Ficção e realidade se encontraram nas obras dos dois artistas, ao ponto de nós espectadores não conseguindo distinguir as fronteiras entre um universo e outro. Já Nelson Motta conseguiu ouvir de Nelson Rodrigues e Federico Fellini as versões de cada um sobre os trabalhos que produziram.

OBRA ETERNA – O programa de Nelson Motta é semanal, mas no caso não importa o espaço de tempo entre as duas vidas, uma vez que a arte de ambos continua e permanecerá para sempre. Este é o destino dos artistas e das peças que compuseram em vida.

Para seu trabalho magnífico, Nelson Motta usou de seu arquivo particular e os programas tiveram origem nos dois encontros, um no Rio outro em Roma, que se transformaram em intemporais. Porque a obra de ambos está aí à disposição das gerações do presente e do futuro, que nelas encontrarão os enigmas e os impulsos que carregam consigo os seres humanos.

Difícil traçar um paralelismo entre um e outro. Mas fácil é sentir a expressão e a força de cada um deles. Nelson Rodrigues, a meu ver o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos e até mesmo, sem exagero, um dos maiores do mundo.

UM SR. DIRETOR – Fellini é um dos maiores diretores que o cinema encontrou nesses dois séculos que separam as câmeras improvisadas àquelas que hoje fascinam pelas trucagens e montagens.

A poesia dramática abrange tanto Nelson Rodrigues quanto Fellini. No caso do escritor brasileiro, a meu ver, de toda sua obra múltipla, ele alcançou o ponto culminante na peça “O Vestido de Noiva”. Tão fantástica que foi considerada por críticos, entre eles Jose Lino Grunewald, com o “Cidadão Kane” do teatro.

Fellini, autor da Dolce Vita, atingiu o ponto culminante de sua obra nas interpretações de Marcelo Mastroianni e Anita Ekberg. Uma das passagens mais sensíveis foi o encontro do personagem Marcelo com seu pai que visitava Roma. Marcelo era um jornalista da noite com amplo círculo de relações sociais. Quis mostrar a cidade a seu pai. Jantar com ele e manter uma conversa entre amigos. Não conseguiu. Ficou frustrado.

TRAGÉDIA NA REDAÇÃO – Nelson Rodrigues não conseguiu nunca esquecer uma tragédia que aconteceu com um de seus irmãos, assassinado na redação do jornal. São, portanto, exemplos de fantasmas que vêm e vão na memória dos artistas. Da mesma forma com que os artistas se encontram na plena capacidade de sonhar, de sofrer, e de projetar para o palco da vida acontecimentos que no fundo são os motores e as fontes de suas obras.

Esse é o universo eterno da arte. Feita por poucos mas chegando ao coração e à mente de todos nós. Ótimo que assim seja, chegando de forma aberta àqueles que vierem depois de nós.

Governo paga em juros anualmente o dobro do déficit da Previdência

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Charge do Pelicano (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

A informação é do próprio Banco Central e a reportagem é de Eliane Oliveira, edição de ontem de O Globo. Há poucos dias escrevi artigo sobre a dívida federal no montante de 3,8 trilhões de reais. Mas o BC revela agora que esse total não incluía a dívida das empresas estatais e dos estados. Com todas as parcelas somadas a dívida bruta atinge 5,2 trilhões de reais.

Tal endividamento levou o país nos últimos doze meses a um desembolso de 385 bilhões de reais. O déficit do INSS fecha este ano na escala de 189 bilhões de reais.

COMPARAÇÃO – Isso significa que a rolagem da dívida representa praticamente o dobro do que as contas negativas da Previdência Social. Acrescenta a matéria que até novembro o país só pagou 35 bilhões em juros, emitindo notas do Tesouro Nacional para sustentar a capitalização dos juros, o que levou ao crescimento da dívida.

A matéria é de extrema importância, sobretudo para a equipe econômica do presidente eleito Jair Bolsonaro. Verifica-se assim que a importância do endividamento interno possui um peso muito maior do que o prejuízo financeiro registrado nas contas do INSS.

AUSÊNCIAS NA POSSE – Pretendia hoje escrever um artigo sobre a atitude extremamente absurda assumida pelo PT ,PSOL e PCdoB em não comparecer à posse do novo presidente da República. A decisão motivou reportagem de Mariana Holanda e Mariana Haubert, O Estado de São Paulo.

As duas repórteres acrescentam ainda que líderes do PDT e do PSB estão discutindo se partem ou não no mesmo caminho. É um absurdo. Afinal de contas Jair Bolsonaro foi eleito pela grande maioria do eleitorado brasileiro.

COMPROMISSO – A legitimação de sua vitória nas urnas decorre do compromisso democrático, que legendas de oposição não podem ignorar, muito menos contestar. Eleições se vencem nas urnas e não há motivo algum para que esse reconhecimento não se imponha para todos os partidos políticos. Caso contrário nenhum resultado seria verdadeiro caso as legendas que se revelam no jogo democrático fossem sofrer uma derrota.

A democracia supera todos aqueles que se opõem a ela. Afinal de contas, perder faz parte do confronto partidário.

Bolsonaro afasta-se de Temer ao recomendar pente fino nos últimos atos dele

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Charge do Clayton (O Povo/CE)

Pedro do Coutto

Em documento enviado a todos os integrantes de seu Ministério, o presidente eleito Jair Bolsonaro recomendou pente fino nos derradeiros atos do presidente Temer. A matéria, como é natural, foi publicada com grande destaque pelo O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo.

Em O Globo a reportagem foi de Jussara Gomes, André de Souza e Renata Mariz. Mostra que, com essa iniciativa, Bolsonaro revelou que deseja distanciar-se de seu sucessor. Isso porque ninguém determina revisão de atos se não estiver motivado a modificá-los e assim demonstrar uma situação de não entrosamento.

POR TRÁS DOS PANOS – Como a política, entre outras faces é a forma de dizer o que os lábios não pronunciam, chega-se à conclusão que existe um retraimento de fato entre o Presidente que sai e o que começa.

Melhor dizendo: entre o governo que está no crepúsculo e o governo que, dessa forma, antecipa sua alvorada. Isso por um lado. Por outro, se a recomendação foi divulgada com o destaque que alcançou, é provável que a nova equipe ministerial já tenha identificado pontos sensíveis com os quais ela não concorda.

Pensando bem, se uma revisão como a que foi estabelecida não identificar nenhum plano sensível para sofrer alteração, nesse caso estará fornecendo um documento favorável à equipe que a antecedeu.

TRÊS NOTÍCIAS – Lendo os jornais de ontem, sexta-feira, selecionei três matérias importantes. Mas como o título não tem espaço para destacá-las, resolvi manchetar o artigo com o enfoque político essencial. Porém merece ser iluminada a reportagem de Eliane Oliveira e Daiane Costa em O Globo, a respeito do novo aumento dos juros cobrados pelos cartões de crédito e pelos bancos no caso de cheque especial.

Incrível. Os juros no segundo caso passaram para 300% ao ano e, no caso dos cartões de crédito, para 255% também ao ano. Dentro desse quadro, vale compará-lo com a inflação do IBGE que vai fechar o ano no nível de 4%.

DÉFICIT DO INSS – Em O Estado de São Paulo, Idiana Tomazelli informa que o déficit do INSS chega a 188,9 bilhões em 2018. Importante a informação, pois ocorre dentro de um orçamento de 3,5 trilhões de reais. E o Valor publica o quadro da receita. Só a arrecadação tributária está prevista em 1 trilhão e 390 bilhões de reais. A Previdência tem déficit, mas sua receita em torno de 600 bilhões está prevista na Lei de Meios.

Para finalizar, desejando um feliz 2019 a todos, cito matéria financeira de grande importância para os aplicadores. Está no Valor também de ontem. A rentabilidade de cada aplicação é comparada com o índice inflacionário de 4%. Assim o resultado da comparação explica tudo.

Dívida interna do país sobe 1,69% em novembro e chega a R$ 3,8 trilhões

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Este foi o resultado em novembro da dívida interna brasileira, elevando-a para 3,82 trilhões de reais, sobre os quais incide os juros anuais de 6,5%, taxa Selic. A evolução da dívida interna federal parece não despertar a atenção da equipe liderada por Paulo Guedes, no início da economia do governo Bolsonaro. O contraste é que o déficit da Previdência Social, ao contrário, mobiliza a nova equipe que assume agora em janeiro no comando do país. Entretanto o problema da dívida pública federal é muito maior.

Os dados são do banco Central e a matéria sobre esse panorama visto da ponte foi publicada na edição de ontem da Folha de São Paulo. A revelação é bastante lógica na medida em que compara o percentual de crescimento com o total. Muito importante esta forma de divulgação porque todo problema numérico projeta-se num cenário de percentagem incidindo sobre o número absoluto.

PERCENTAGENS – causa preocupação o fato de a equipe econômica no atual e a do próximo governo ao se referirem as percentagens omitem sobre qual montante ela se projetam.

É o caso do déficit do INSS. Afirma-se que ele está sendo guardado para a passagem de poder, publicando-se apenas o confronto entre sua arrecadação e sua despesa. Daí surge um déficit aparente em torno de 200 milhões de reais. Porém o Orçamento da União sancionado pelo presidente Michel Temer apresenta em números absolutos algo em torno de 3,5 trilhões, por coincidência quase o mesmo estoque da dívida interna brasileira. Se comparado o déficit com o total da chamada Lei de Meios, vamos verificar que ele representa algo em torno de 5% dos recursos financeiros que circulam no Brasil. Por que não realizam cotejo entre o número absoluto e o percentual que navega em seu curso. Se fizerem isso, a população brasileira passará a ter uma visão muito mais completa do que a realidade previdenciária.

MAIS VENDAS? – Vejam os leitores outro exemplo. O Globo publicou ontem que as vendas este ano no comércio cresceram 5,5% em relação às vendas realizadas no ano passado. Mas é preciso completar o raciocínio, partindo-se da indagação se o aumento de 5,5% foi em cima das vendas físicas ou então se o aumento decorre de preços mais elevados do que os cobrados em 2017.

Acrescente-se mais uma coisa: a população de um ano para outro cresce um ponto percentual. E a inflação do exercício de 18 bate quase no teto de 4%. O desemprego se manteve na escala de 12%.

Fica claro um aspecto: as vendas não podem aumentar se o desemprego não baixar. E o PIB só avança quando fica acima do crescimento populacional, aumentando a renda per capita.

Desemprego diminui a receita do INSS e aumenta a favelização das cidades

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto

Reportagem de Antônio Werneck, edição de ontem de O Globo, destaca o fato de 300 mil pessoas no estado do Rio de Janeiro habitarem em milhares de áreas de risco sujeitas a problemas de todo o tipo, sobretudo quando desabam os temporais de verão. Nessas áreas de risco há referências á áreas do Rio, cada vez mais favelizadas, sem rede de esgoto e abastecimento de água potável. Aliás, é mais que sensível o crescimento das favelas cariocas. Basta olhar de longe a ocupação de áreas que não apresentam condições básica de sustentabilidade, especialmente aquelas implantadas quase nas pedras dos morros.

Basta comparar as fotografias de qualquer época e as que forem feitas hoje para se verificar o crescimento acelerado de habitações à primeira vista expostas aos problemas da natureza, da higiene, do saneamento, enfim das condições mínimas para que sejam construídas, dentre elas as mais expostas às tempestades.

RAÍZES PROFUNDAS – A favelização não surgiu do nada. Ao contrário, tem raízes profundas, a começar pelo desemprego, pela baixa renda e pela mobilidade que o transporte, mesmo ruim, oferece para as idas diárias aos empregos. Mas mencionei o desemprego como uma das causas. Nesse ponto, cito reportagem de Douglas Gavras, em O Estado de São Paulo também de ontem, que, com base em estudos da Fundação Getúlio Vargas, do IPEA e do Focus, boletim do Banco Central, que têm ideias convergentes sobre a crise do emprego, não só no Rio mas em todo o país.

A três entidades assinalam que de 2012 a 2018 o desemprego cresceu de 7,4% para 12,2% da mão de obra ativa brasileira. Portanto os 12% de hoje recaem sobre os 100 milhões de empregados que formam essa mão de obra ativa, correspondendo à metade da população do país.

RETOMAR O CRESCIMENTO – Banco Central, IPEA e FGV concordam que para reduzir o desemprego de 12 para 7%, serão necessários 10 anos, desde que haja crescimento da economia a ser observado no Produto Interno Bruto. Portanto, o crescimento da economia pode ser previsto através de uma taxa lenta e gradual de recuperação. Foi a esse ponto que as políticas públicas dos últimos 15 anos conduziram o país implantando uma nova realidade muito negativa.

Estamos assim face a face com uma situação que vai exigir investimentos em larga escala, sobretudo visando o ser humano.

Previdência, favelização e desemprego formam o tríplice desafio para o próximo governo. Bolsonaro assume semana que vem.

Natal é o encontro de todos, inclusive nosso encontro com nós mesmos

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É o que penso da data mais importante da cristandade, que se renova a cada 365 dias, sob a inspiração do homem que morreu na cruz e dividiu eternamente o tempo entre antes e depois dele. O maior corte possível do universo consagrado no calendário não só das religiões cristãs mas de todas as religiões do universo.

Escrevo hoje sobre este pensamento para não dizer que não falei de flores, como o maior jornalista político do país, Carlos Castelo Branco redigiu um dia sua tradicional coluna no Jornal do Brasil. O tema foi também abordado por Geraldo Vandré num festival da canção nos tempos da ditadura que surgiu em 1964 e terminou em 1985.

Alguém já disse que a poesia as vezes colide com o dicionário. É o caso que marca as viagens pelas letras de artistas do passado e de todos os tempos. Dito isso. peço atenção e destaco a importância do livro que o pesquisador Rogério Malta Carrasco produziu brilhantemente acerca da história e das estórias da Cidade do Rio de Janeiro. Recebi o livro autografado.

VIAGEM PELO TEMPO – Não o li ainda completamente, mas já destaco alguns capítulos que se encontram na apresentação da obra. Desde a fundação da cidade em 1565, até a época atual, viagem pelo tempo, pelos fatos, pelas observações do autor e pelas ilustrações feitas pelo próprio Malta na estrada que seguiu para destacar os acontecimentos históricos do pulsar de uma cidade, hoje repleta de problemas, ao contrário de seu percurso que começa no passado e não termina porque o processo da vida não tem limite.

O autor, assim, faz um percurso no estilo de escritores como James Joyce e Marcel Proust, que ultrapassaram o tempo exterior de seus textos da mesma forma que os interrompiam, fracionando-os com as imagens e os pensamentos que surgiam nas suas mentes, enriquecendo as obras.

EM CAPÍTULOS –  Rogério Malta Carrasco divide sua história em capítulos. Volta ao passado e destaca pontos da cidade que já foi maravilhosa que inspiram e entusiasmam suas memórias que iluminam os capítulos.  O Morro do Castelo, Quinta da Boa Vista, Praia de Botafogo, Rua 1º de Março, Palácio Monroe, Palácio Tiradentes, Praça 11 e Maracanã, Estádio Mário Filho no Mracanã.

Dentro de alguns dias vou escrever sobre o conjunto e a importância da obra, destacada nos seus textos e em suas imagens que viverão para sempre.

Quase 2/3 da população estão otimistas com o governo Bolsonaro

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto

Pesquisa do Instituto Datafolha, publicada na edição de ontem da Folha de São Paulo e analisada por Igor Gielow, revela que 65% dos brasileiros e brasileiras confiam no governo Bolsonaro e acham que o país vai melhorar e o desemprego vai baixar.

Essa expectativa positiva supera todos os créditos de confiança que marcaram as perspectivas com os governos Lula e Dilma Rousseff. A maioria inclusive sustenta que a economia vai avançar e a inflação vai cair. O índice inflacionário deve fechar o ano de 2018 em torno de 4%.

REAÇÃO NATURAL – É possível, penso eu, que a população ao responder as perguntas que nortearam o levantamento, tenham revelado sua visão acerca da economia unindo a queda da corrupção com o processo inflacionário e o desenvolvimento econômico do país.

Realmente, a reação contra a corrupção atingiu um nível altíssimo, o que levou a opinião pública a rejeitar os corruptos, considerando a necessidade de um freio no assalto aos cofres públicos. A reação é natural e não há dúvida que o reflexo se faz sentir em todo o processo político econômico e social no Brasil. Isso porque não pode haver ninguém que se afirme favorável à corrupção.

Entretanto, não é só isso que o Datafolha revelou. A pesquisa mostra que 47% sustentam que o desemprego vai recuar e o Brasil vai voltar a crescer nos próximos meses.

PERTO DA POSSE – O otimismo crescente avançou mais na medida em que se aproxima a posse do novo presidente da República. Tal disposição destaca paralelamente um grau de confiança no êxito das medidas até agora reveladas pelos jornais e emissoras de televisão, assinalando que se aproxima um período que vai ao encontro da vontade nacional. Diante de uma pergunta sobre o poder de compra a resposta coincide com o grau de confiança na administração que começa daqui a poucos dias.

Porque o poder de compra contido nos salários caiu de 32 para 14% no governo Temer. O poder de compra assim caiu substancialmente.

O que talvez explique a confiança em Bolsonaro, partindo-se do princípio – pode ser a explicação de que seria impossível o país melhorar com o governo de Temer, que ingressou no crepúsculo.

TODAS AS CONDIÇÕES – Dessa forma, apoiado nas circunstâncias de hoje, o novo chefe do Executivo tem todas as condições para melhorar os níveis econômicos e sociais do Brasil.

Falei em crepúsculo de Michel Temer e assim destaco também, em contrapartida, o alvorecer de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto.

Uma eterna visão múltipla da História nos arquivos de Jorge Yunes

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Jorge Yunes e Ivani, um casal de colecionadores 

Pedro do Coutto

Na edição de ontem, a Folha de São Paulo publicou com destaque no segundo caderno matéria assinada por Maurício Meireles sobre o destino da coleção de jornais e revistas do país,  armazenada no tempo pelo empresário Jorge Yunes,  falecido recentemente, e cujo destino será traçado por sua filha Beatriz e sua viúva Irani Yunes.

Maurício Meireles escreveu uma bela reportagem chamando atenção para a importância da pesquisa que terminou com um acervo das tendências políticas, econômicas, sociais de toda uma época. A importância da coleção é que ela reúne exemplares de jornais e revistas que se perderam na névoa do tempo e deixaram de existir embora tenham representado as várias faces da história moderna brasileira.

CASA DE PAPEL – Meireles chama o arquivo de Jorge Yunes de casa de papel, que com a classificação se destaca entre as mansões elegantes dos Jardins Paulista.

A importância maior da coleção, penso eu, está na oportunidade que oferece para os pesquisadores de hoje e do futuro poderem cotejar as várias versões de episódios e fatos cristalizados num processo cultural múltiplo.

Isso porque além da digitalização das peças oferece a oportunidade para que sejam vistos os acontecimentos por vários ângulos refletidos na imprensa e que proporciona uma nova modalidade de se ativar a memória e com isso permitir interpretações atuais capazes de enriquecer a observação à luz do presente e do passado.

INTEGRAL – É de se desejar que a coleção se mantenha integral, o que representa um passo importante para percorrer a história por suas estradas sinuosas ou retilíneas, mas sempre um conjunto de caminhos capazes de levar a novas descobertas do que se passou no país.

Uma viagem através das contradições e dos confrontos cada um deles sujeito a redescobertas. Foram tantos os jornais e revistas que desapareceram guardando visões da realidade.

A realidade não é um processo singular. E sim multilateral como um jogo de dados, título de poema famoso de Malarmé.

Objetivo da equipe econômica é inviabilizar a Previdência Social

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Charge do Valdo Virgo

Pedro do Coutto

Reportagem de Geralda Doca, Rennan Setti e Leo Branco, edição de ontem de O Globo, revela que a equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro está propondo ampla desoneração da folha de pagamento das empresas, inclusive o recolhimento para o INSS, que é de 20% sobre a folha de salários. Incrível a meu ver a ideia, já que o INSS está com déficit previsto de 186 bilhões de reais ao longo de 2019.

Seria o fim da Previdência Social, uma vez que as contribuições diretas dos empregados não seriam capazes de sustentar as aposentadorias e pensões. Se com a contribuição empresarial a Previdência já é deficitária, podemos imaginar como ficaria ela sem sua fonte principal de receita. Aí sim, a reforma projetada tornaria impraticável o pagamento das aposentadorias e pensões consagradas na lei do país.

COMO FICARIA? – O contraste é inevitável e cabe a pergunta de onde viriam os recursos operados pelo INSS. Isso no caso dos empregados e servidores regidos pela CLT. Mas existe também o funcionalismo público que reúne as áreas federais, estaduais e municipais. Não está prevista qualquer modificação no setor de serviço público. Mas esta é outra questão.

O fato essencial está contido numa flagrante impossibilidade. Tem-se a impressão, com base na reportagem, que o governo federal possui fonte de receita em excesso, ao ponto de diminuí-la, livrando as empresas e empresários. E não é nada disso. Têm sido publicadas muitas matéria nos jornais sobre o peso dos empregados nas folhas de contribuições apoiadas pelos direitos previdenciários. Esquece-se de dimensionar o orçamento do INSS em relação ao orçamento federal.

MANIPULAÇÃO – Destaca-se o déficit de 186 bilhões como se ele sozinho pudesse abalar a lei orçamentária federal. Como dizia o ex-ministro Roberto Campos, quando se fala em números, deve-se mencionar sua participação percentual em relação ao total da arrecadação. O orçamento federal nos anos de 2016 e 2017 ficaram em torno de 3 trilhões de reais.

Os números espantam. Porém, a aplicação da percentagem traduz a realidade do universo que está em focaliza uma dimensão correta de valores.

O projeto da equipe do futuro Ministro Paulo Guedes também prevê um ajuste no Imposto de Renda. Para os empregados? Não. Para as empresas, no sentido de diminuir seus encargos.

NUVEM DE PÓ – Está configurado assim o aspecto conservador em torno da economia social.  Os empregados que ganham acima de 4500 reais descontam 27% para o Imposto de Renda na fonte. E quando fazem a declaração anual os valores recolhidos nos últimos 12 meses não são corrigidos pela inflação do IBGE. Este ano, por exemplo a inflação calculada pelo IBGE fica em torno de 4%. Se não houver correção no mesmo índice isso representa um aumento adicional a favor da Receita.

De outro lado, de acordo com Cristiano Zaia, no Valor também de ontem, o presidente Bolsonaro deseja perdoar uma dívida de 17 bilhões de reais junto ao FUNRURAL.

Olhando-se o panorama visto da ponte, a impressão que se tem é de que o país está em condições de transformar os impostos  patronais numa nuvem exposta ao vento.

Nas curvas do destino, Moro pode chegar ao Supremo ainda em 2019

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Magoado, Marco Aurélio pode se aposentar no STF

Pedro do Coutto

Em entrevista à repórter Vera Magalhães, edição de ontem de O Estado de S.Paulo,  o ministro Marco Aurélio de Melo afirmou que não pode conviver, no Supremo Tribunal Federal ,com a manipulação da pauta, na qual a presidência do Poder Judiciário decide quais as matérias a serem incluídas. O ministro Marco Aurélio fez esta declaração logo após conceder a liminar que poderia colocar o ex-presidente Lula em liberdade.

Mas proferiu essas palavras antes do ato do Ministro Dias Toffolli que anulou sua liminar. O ministro, se não podia conviver com a manipulação da pauta, que pode dizer ele agora? Não se tratou de pauta, mas sim ter virado alvo da insatisfação coletiva, desprezando que a matéria que flexibilizava a prisão depois da segunda instância encontra-se pautada para 10 de abril.

LIMINAR SUSPENSA – A pauta foi elaborada por Dias Toffolli. O mesmo ministro que na presidência do STF tornou sem efeito sua interpretação da lei em vigor.

A reclamação de Marco Aurélio estende-se também à ex-presidente Carmen Lúcia, que se recusou a colocar o assunto em votação pelo fato de terem ocorrido três decisões da Corte mantendo a prisão depois da condenação em segunda instância. Ela considerou um exagero incluir na pauta, pela quarta vez, o mesmo assunto. Os que são contrários a prisão após condenação em segunda instância vão aguardar o desfecho final no dia 10 de abril.

Se Marco Aurélio não pode conviver com a manipulação da pauta da Corte ele passou a ter motivos para dela se afastar com base no mesmo princípio que usou para conceder a liberdade enquanto existir possibilidade de recurso ao STJ e ao STF. O mal estar tomou conta da Corte Suprema e dessa forma não é absurdo achar que ele poderá se aposentar.

SÉRGIO MORO – Nesse caso, talvez o presidente Jair Bolsonaro venha a nomear Sérgio Moro para o lugar aberto. Reportagem de Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo, também em O Estado de São Paulo, focaliza a hipótese. É claro que tal fato poderá não ocorrer, mas só a perspectiva de acontecer alimenta uma ideia que surgiu quando do convite de Bolsonaro a Sérgio Moro para ocupar o Ministério da Justiça.

Havia então a perspectiva de Moro via a ocupar o lugar do ministro Celso de Melo, que se aposenta em 2020. Entretanto as situações na política mudam como nuvens ao vento. Por exemplo: o Ministro Dias Toffolli foi nomeado pelo ex-presidente Lula e na tarde de quarta-feira votou contra o ex-presidente da República.

Não estou levantando um vínculo que poderia turvar uma consciência. Estou apenas colocando um tema que se repete ao longo da história.

Marco Aurélio lançou um fósforo aceso no combustível institucional do país

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Marco Aurélio sofre derrota no final de carreira

Pedro do Coutto

Foi exatamente isso o que fez o Ministro Marco Aurélio Mello ao acolher representação do PCdoB no sentido de colocar em liberdade os criminosos condenados pela segunda instância que ainda podem recorrer ao STJ e ao STF numa escala para evitar a prisão. Assim, detonou uma crise institucional, na medida em que a procuradora-Geral da República recorreu da decisão, no que foi acompanhada por integrantes do Ministério Público Federal. O ponto sensível da crise estava na vontade do MPF de não acatar o despacho.

Os procuradores da força tarefa do Paraná, tendo à frente Deltan Dallagnol, rebelaram-se contra o ministro Marco Aurélio. A repercussão foi ampliada porque na tarde de ontem, em Brasília, o presidente eleito Jair Bolsonaro reunia-se com seus 22 ministros para acertar detalhes do seu plano de governo.

TEMER EM SILÊNCIO  – Na área do presidente Michel Temer imperou o silêncio, até porque a colocação do Ministro Marco Aurélio, se mantida, poderia beneficiar integrantes da administração que se aproxima do fim.

A surpresa envolveu a atmosfera do país porque o presidente da Corte Suprema, Dias Toffolli, havia agendado o tema para a primeira quinzena de abril. Assim, a investida de Marco Aurélio chocava-se com o roteiro traçado por Dias Toffolli.

Além disso, o STF por três vezes estabeleceu jurisprudência no que se refere a restringir o direito de condenados em segunda instância poderem recorrer a escalas superiores em liberdade. O STF negou essa perspectiva mantendo a prisão desde que os réus tenham sido condenados em segunda instância.

CÁRMEN RECUSOU – A ex-presidente do Supremo, Ministra Carmen Lúcia, utilizou exatamente esse argumento para se recusar a pautar novamente a mesma matéria. Mas o ministro Marco Aurélio Mello assumiu um despacho em colisão com o entendimento majoritário do próprio Tribunal no qual se integra.

Marco Aurélio criou uma tempestade institucional, que acabou sendo resolvida pelo presidente Dias Toffoli  com uma solução de lógica bastante simples. A liminar não vale, até que o plenário do Supremo julgue a matéria, no dia 10 de abril.

 

 

Receitas do Sistema S provêm dos salários e não das fontes empresariais

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Charge do Erasmo (arquivo Google)

Pedro do Coutto

Em almoço na Firjan, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou que haverá um corte de até 50% nos recursos que mantem entidades como Sesi, Senai, Sesc e outros órgãos destinados ao ensino profissionalizante. Pode-se imaginar a reação contrária dos empresários, começando por Eduardo Gouveia Vieira, presidente da Federação das Indústrias do RJ.

Os jornais deram grande destaque ao acontecimento, como é natural, e a reportagem de Marcelo Correa, Daiane Costa e Ramona Ordonez, edição de ontem de O Globo, destaca bem o impacto e as reações que provocou a fala de Paulo Guedes.

FOI UM CHOQUE – De fato, o anúncio do projeto econômico do governo que assume em Janeiro causou um choque nas entidades empresariais. Isso porque, embora se reconheça a importância do sistema S para a formação de obra profissional, vemos agora com mais transparência pública onde estão as fontes das receitas. Elas variam de 0,2% a 2,5% sobre os salários dos empregados para bancar os trabalhos das entidades envolvidas. Portanto os recursos das entidades patronais são fornecidos pela massa salarial e não através do desembolso das empresas.

Porque se fosse através do desembolso das empresas, a redução não teria motivo para contrariar o empresariado representado no almoço da FIRJAN. Pelo contrário. Seria um encargo a menos nas disponibilidades financeiras da indústria e do comércio. Paulo Guedes não se referiu ao destino futuro resultante do corte dos descontos. Mas, evidentemente, só pode se destinar para o financiamento de algum processo econômico e social gerido pelo Governo.

REDUZIR O IR – O sistema S de outro lado, gera a redução de Imposto de Renda, tanto para os assalariados como para os empregadores. Portanto trata-se de uma peça mecânica para produzir resultados importantes na formação e no aperfeiçoamento da mão de obra. Essa qualidade conduz a um esforço para reduzir o desemprego no país. Isso porque é fundamental para a economia o nível de produtividade.

A produtividade é fundamental para a redução direta e indireta dos custos operacionais de todo o sistema produtivo. Vamos aguardar os próximos lances que envolvem a abertura de uma proposta governamental que afetou interesses dos empregadores.

Ficou iluminada, portanto, a lógica do sistema S. Dificilmente o governo Bolsonaro poderá recuar na matéria em foco.

Jornalista filipina sofre perseguição e propõe sistema para conter “fake news”

Maria Ressa propõe um sistema contra as “fake news”

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Ana Estela de Souza Pinto e Patrícia Campos Melo, edição de ontem da Folha de São Paulo, a jornalista filipina Maria Ressa afirmou que é fundamental criar-se um sistema de combate às “fake news” injetadas nas redes sociais da internet. A jornalista revela estar sendo perseguida pelo governo de seu país que usa “fake news” para intimidá-la. Desde julho o site Rappler sofre ataques do governo através de sua conta no Facebook.  Ela propõe uma ação conjunta com o Facebook para enfrentar o sistema do presidente Rodrigo Duterte.

O sistema, ela ainda não definiu qual seja, mas defende a necessidade de um trabalho permanente que inclui o mapeamento das redes que estão espalhando notícias falsas contra ela e também contra a verdade dos fatos.

DETENÇÃO – Maria Ressa recentemente foi detida pelo governo de seu país e teve de pagar a fiança de 60 mil pesos para evitar sua prisão. Ela forma na oposição a Duterte.

Ressa foi distinguida entre as pessoas do ano eleitas pela revista “Time”. Uma resposta dirigida a governos que não seguem o princípio da liberdade de imprensa e livre manifestação do pensamento.

Ao lado de emissoras de televisão surgiu uma ação conjunta contra todos os que se envolvem no que chamou desinformação que ameaça a comunicação entre a imprensa e o governo. Jornais também estão sofrendo censura e igualmente se revelam contra a proibições e rejeitam publicar matérias que possuam mensagens de fontes inexistentes. Uma forma de disfarçar a origem verdadeira dos textos.

REDE DE PROTEÇÃO – O mapa proposto por ela seria uma espécie de rede de proteção contra as “fake news”. Na minha opinião, o mapeamento seria dentro dos limites do possível, uma vez que as mensagens possuem grande multiplicidade, e significaria um sinal de advertência que repousa no limite que separa as autorias dos conteúdos transmitidos por aqueles que injetam desinformações no universo da internet.

Acrescento uma sugestão a todos os navegantes de quaisquer país. A ação para bloquear as “fake news” é impossível. Mas é possível que todos os que flutuam no espaço mágico esperem apenas 24 horas para saber a diferença entre as falsas notícias e as verdadeiras.

Basta esperar pelo dia seguinte. Se não saiu nos jornais é porque era uma falsidade.

Plano de Paulo Guedes terá de superar o baixo crescimento da economia

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Guedes está enfrentando o maior desafio de sua vida

Pedro do Coutto

É um dilema, uma espécie de lance de dados, pois o fato do baixo crescimento da economia brasileira resulta fundamentalmente na falta de investimentos. O país não investe porque não tem recursos, e, ao mesmo tempo, não tem recursos porque não investe. O desafio para Paulo Guedes no governo de Jair Bolsonaro é romper essa contradição.

Reportagem de Marcelo Correia e Marta Beck, edição de ontem da Folha de São Paulo, focaliza o desafio a ser enfrentado pelo governo que assume em 2019.

PREVIDÊNCIA – Paulo Guedes inclui em seu plano de crescimento do país a reforma da Previdência Social e a captação de investimentos. Sua agenda econômica, portanto, é fortemente liberal, na medida em que vai buscar um caminho para a privatização de muralhas estatais e, com isso, como primeiro passo, obter recursos de forma bastante urgente. Sua ideia geral parte do princípio de que os governos que antecederam Bolsonaro enveredaram pelo caminho da social democracia. E partiram também, na sua visão, do populismo vazio e sem compromisso com realidade.

Sua visão conjuntural e estrutural admite redução de impostos para as empresas. E não está muito distante da implantação de um tributo único, uma vez que para ele as armadilhas burocráticas representam uma barreira ao programa de investimentos. O panorama está traçado. Terá pela frente, como se espera, reações contrárias que têm como fonte de energia o Congresso Nacional.

Assim, portanto, Paulo Guedes tem contra si o tempo necessário para enfrentar os obstáculos.  Que não são só do novo governo. Ao contrário, ele envolvem toda a população brasileira.

ESPAÇO CULTURAL – Nelson Motta encontrou o caminho para lançar as músicas de todos os tempos. Na semana que passou foi ao ar pela Rede Globo mais uma edição do programa Encontro com Nelson Motta.

Excelente. Dois personagens foram apresentados de forma ampla. O pianista Arthur Rubinstein e a cantora Maria Callas. Paralelamente, ele, Nelson Motta, falou de forma totalmente clara abrangendo dois grandes artistas. Aliás, o espaço Encontro com Nelson Motta, penso eu, deve se estender para Encontro com a Arte.

E agora, Brasil? Chegou o momento do balanço geral na transição do governo

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Charge do Genildo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Ao participar na sexta-feira de um encontro promovido pelo jornal O Globo com apoio da Confederação Nacional do Comércio e do banco Modal, o Ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, afirmou ter chegado o momento da transição de governo e da modernização do processo político para que os partidos, dentro da Democracia, voltem a assumir seu protagonismo em nosso país.

O encontro que incluiu editores e colunistas do jornal foi mediado por Miriam Leitão e Lauro Jardim. Dias Toffoli acentuou também a necessidade de se colocar em prática os fundamentos das ações que cabem à Corte Suprema.

CHEGOU A HORA – As equipes encarregadas da transição, tanto as do atual governo Michel Temer quanto as do presidente eleito Jair Bolsonaro, em minha opinião devem aproveitar o momento para um balanço geral no país. Um balanço que reúna as áreas econômicas, sociais e financeiras, com seus dados completos. Um marco capaz de definir como Bolsonaro encontrou o país e como será de janeiro para frente em seu governo.  O presidente Michel Temer poderia fazer o mesmo destacando como ele encontrou o Brasil em 2016 e como entregará o país a Jair Bolsonaro.

Uma ideia baseada em números com o objetivo de comparar as realizações e os fracassos que marcam períodos governamentais.

DADOS IMPORTANTES – Por exemplo: Qual a população brasileira? Qual a renda do trabalho? Qual o nível de emprego? Qual a análise sobre o desempenho econômico? Quais as obras que foram interrompidas no meio da execução, quais os recursos financeiros disponíveis? A resposta a essas indagações devem servir de base para que Bolsonaro possa se dirigir ao país apresentando dados que recebeu de seu antecessor. A comparação do Produto Interno Bruto é outro tema. Deve se assinalar que ele se encontra hoje na altura de 6 trilhões de reais.

E nesse sentido qual exatamente é a dívida interna do Brasil. Essa dívida interna oscila em torno de 3,7 trilhões, como o jornal Estado de São Paulo publicou recentemente.

O QUE VEM AÍ? – Qual será a política do novo governo para fazer com que o país deixe de possuir apenas a metade de sua população atendida por um sistema de tratamento de esgoto. E por aí vai.

Os números devem ser do maior interesse de Jair Bolsonaro, pois assim ele poderá estabelecer a realidade com que assumiu e aquela que irá marcar sua trajetória no Palácio do Planalto.

Tem mais uma coisa. O governo que assume em janeiro, sugiro eu, poderá adotar um sistema de relatórios mensais, tipo de prestação de contas, um documento à população brasileira.

Bolsonaro defende trabalho informal como forma de combater o desemprego

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Charge do Alves (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Reunido na quarta-feira com a bancada do DEM, o presidente eleito Jair Bolsonaro a certa altura do encontro defendeu o aumento do trabalho informal como forma de reduzir o desemprego no país. Na edição de quinta-feira na Folha de São Paulo, reportagem de Talita Fernandes, Thais Bilenky e Ranier Bragon, focaliza bem o tema. Sem dúvida é infinitamente melhor trabalhar sem carteira assinada do que simplesmente não trabalhar em modalidade alguma. Isso é um fato. Mas não esgota todo o panorama sócio econômico que envolve a questão.

Por exemplo, segundo a reportagem 43,9 milhões de pessoas têm carteira assinada, enquanto 39,5 milhões não possuem a mesma condição.

AUTÔNOMOS – Além disso, existem os autônomos, por exemplo médicos, advogados, dentistas, psicólogos, entre outros. O trabalho que desenvolvem é particular não podendo, portanto, serem classificados como trabalhadores sem carteira. Suas atividades são avulsas.  O número é grande desses profissionais, mas se dilui na comparação com os trabalhadores formais, que teriam carteira assinada.

A mão de obra ativa do país abrangendo todas essas condições eleva-se a quase 100 milhões de homens e mulheres.

Bolsonaro, no encontro, focalizou as dificuldades encontradas pelos empresários no que se refere aos direitos trabalhistas. Para o presidente eleito, há necessidade de uma revisão, tal o acúmulo de responsabilidades econômicas a que são obrigados a enfrentar. Por isso quer uma revisão no volume de encargos que desaba sobre os empregadores.

DEVIDO LUGAR – No meio da reunião Bolsonaro afirmou não desejar dizimar o PT, que tem lugar na sociedade brasileira. Deseja apenas colocar a legenda no seu devido lugar.

Acontece (apenas um registro que faço) que a informalidade no sistema de emprego reflete-se na receita da Previdência Social. E também no FGTS. É verdade que o não recolhimento para o INSS vai acarretar, no futuro a impossibilidade dos trabalhadores informais se aposentarem. Mas esta é outra questão.

A receita para o INSS é formada em sua grande maioria pela contribuição dos empregadores, que se eleva a 20% sobre a folha salarial. Esta é a questão essencial.

Cinquenta anos depois do Ato 5, Zuenir Ventura ilumina as trevas do passado

Resultado de imagem para 1968 o ano que não terminouPedro do Coutto

Autor do livro “1968 – O Ano Que Não Acabou”, em entrevista à repórter Laura Mattos, edição de ontem da Folha de São Paulo, o jornalista Zuenir Ventura relembra no presente o profundo golpe que atingiu a sociedade brasileira na noite trágica de 13 de dezembro. Importante a trajetória histórica de um registro para que fique impresso na memória das gerações de hoje e das gerações que virão no amanhã.

Foi quando a democracia brasileira tombou por completo, a começar pelo escanteio a que foi conduzido o vice-presidente Pedro Aleixo. Por incrível que pareça o deputado udenista Pedro Aleixo era o vice presidente de Costa e Silva. Neste ponto não restava mais dúvida da longa noite de horrores que tornou difícil de respirar tão graves eram os temores que desciam na vida do país. O presidente Costa e Silva, na noite de 13 de dezembro, recebia poderes totais, explodindo o regime democrático.

PRISIONEIRO – Recebeu poderes totais, porém não os exercia por si só, tornara-se prisioneiro do poder militar. Zuenir Ventura, para mim, com seu livro, tornou-se ao mesmo tempo uma das principais testemunhas da história moderna do Brasil. Seu registro sobre 1968 será incorporado à memória nacional e já é objeto, tenho certeza, de pesquisas que estão sendo feitas pelas gerações do futuro.

O comando militar passou a ser exercido em toda sua plenitude e recebeu estranhas adesões por parte de setores que representavam longínqua minoria em face da realidade nacional que fica escrita na história com tintas de sangue e de alucinação.

QUEDA DE JANGO – Houve contradições entre aqueles que apoiaram e até lideraram o Ato nº 1, que marcou a deposição do presidente João Goulart e iniciou um processo em que as liberdades democráticas foram sendo substituídas por restrições do poder militar.

Uma das contradições refere-se ao ex-governador Carlos Lacerda, o principal líder civil do movimento de 1964 e que naquela noite de dezembro foi preso pelo movimento que ele próprio liderou. Ficou claro que o poder militar, que derrubara Jango para livrar o país de um desfecho subversivo, passou a assumir então uma estrada que afastava os civis do comando da Nação.

NA PRISÃO – Testemunha do arbítrio, Zuenir esteve preso durante três meses. Mas deixa para sempre sua visão e sua interpretação dos fatos que marcaram a história moderna do Brasil.

Jornalista, escritor e tradutor da realidade, ele cumpre seu compromisso histórico para consigo mesmo e principalmente para os que vierem depois de nós.