Andreia Horta, em “Elis”, uma das grandes interpretações do cinema

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Andreia Horta interpreta Elis magistralmente

Pedro do Coutto

A atuação da atriz é magnífica, o filme é excelente e, com ele, fica assegurado um lugar da grande cantora na eternidade da arte musical, tanto pela voz quanto pela multiplicidade de suas interpretações, de fato inesquecíveis. Grandes artistas: a cantora Elis Regina, sua intérprete na tela, Andreia Horta, o diretor do filme, Hugo Prata. Presente e passado, inspirado da memória, encontraram-se em momento de força e arte. O filme é imperdível.

A atuação de Andreia está, sem exagero, ao nível de Nicole Kidman, em “Grace de Mônaco”. Duas grandes presenças, duas grandes personalidades. Há muitas interpretações exuberantes na história do cinema. Sem dúvida. Mas a dificuldade me parece maior quando uma atriz vive a personagem de outra atriz. Porque os atores carregam consigo outros personagens que traduziram e expuseram. O ator, uma atriz, um artista, no fundo não é uma pessoa só. Ela exprime em si um conjunto de criações que se tornou capaz de fazer e viver.

Andreia Horta viveu Elis com a intensidade certa, multiplicando-se pelos vários grandes sucessos da cantora, por suas buscas de oportunidade por seus envolvimentos sentimentais apaixonados sempre, mas nem sempre duradouros.

ÊXITOS E FRACASSOS – Coisas da existência humana. As quais, portanto, incluem instantes de êxito e também de fracassos. Coincidências como sempre, estão na estrada do sucesso. Mas os encontros que abrem oportunidades ficam assinalados. Os desencontros, não. Pois se não sucederam, como poderiam ser registrados?

Voz extraordinária, a angústia de ser ouvida atormentavam Ellis Regina. Ela lutava por um lugar ao sol. Tinha certeza sobre sua voz e seu dom de interpretar. Se entrasse em cena não sairia. A luta por essa passagem do anonimato para a consagração a atormentava.

Com o passaporte para a fama nas mãos e no coração, superou o primeiro lance. Mas outros obstáculos e angústias a esperavam na estrada da vida, para citar o clássico de Fellini. Pertencem a ela, somente a ela, na eternidade. Porém passaram a pertencer um pouco a Andreia Horta por sua representação de dois seres distintos: a cantora Elis e a mulher Elis Regina.

SEM UMA VACILAÇÃO – A voz original é da cantora. Os gestos e atitudes na dublagem impossível são da atriz que a revive na tela para sempre. As dúvidas, os impulsos, as buscas, a intimidação que sofreu da ditadura militar são revividas, sem uma vacilação sequer da atriz que interpreta tanto o mito como a mulher.

Dois momentos belíssimos do filme: as canções “Fascinação” que atravessa o tempo com a mesma beleza , e “O Bêbado e o Equilibrista”, samba que vai seguir o mesmo destino da valsa, que ouvi pela primeira vez na voz de Carlos Galhardo e décadas depois, na interpretação do grande Nat King Coole. Ellis completa o ciclo inesgotável da valsa histórica. Não há quem não se emocione com a voz de Elis nos dois clássicos musicais.

ARTE ETERNA – Momentos divinos de arte, aliás, como diz a música. E a arte é eterna, mas necessita ser reativada, redescoberta, revivida e a sorte de todos nós está em sabermos que talentos novos surgirão na longa estrada, o que nos leva à emoção de reviver vivendo. Me refiro aos talentos de Andreia Horta e Hugo Prata.

Jovens recorreram à memória para criar e projetar uma personagem para sempre. Mas a memória só não é suficiente. Entrou em ação, na medida em que ambos visitavam o passado. Pois somente quem se emociona com a arte dos outros consegue revivê-la com tanta intensidade e verdade.

Elis para sempre, na imagem brilhante de Andreia Horta.

Michel Temer já se tornou recordista absoluto em matéria de recuos

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Charge do Clayton, reprodução da Charge Online

Pedro Coutto

Reportagem de Simone Iglesias, Maria Lima, Evandro Éboli e Eduardo Barreto, edição de sexta-feira de O Globo, revela que, depois de escolher Antonio Imbassahy para Secretário de Governo, no lugar de Geddel Vieira, o presidente Michel Temer mais uma vez teve que recuar e adiar a nomeação, em consequência de forte movimento contrário, vindo, é claro, do PMDB, mas disfarçado como impulso movido pelo Centrão, que apoia o governo. Incrível. A escolha de Imbassahy fora inclusive articulada conjuntamente com o senador Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique.

Com mais esse triste episódio, Michel Temer, como digo no título, tornou-se recordista absoluto em matéria de recuos políticos. Dificilmente poderá ser ultrapassado na história do Brasil. Revela não se sentir seguro no cargo de presidente da República. Para decidir as questões inerentes ao poder, vale acentuar, precisa ter a seu lado, como no caso Renan Calheiros e o STF, os ex-presidentes José Sarney e o mesmo FHC. A distância entre as duas situações foi de apenas dois dias.

No caso da Secretaria de Governo, a vacilação registrada, seguida por um falso adiamento, é ainda mais grave no sentido da fragilidade demonstrada. Isso porque a Secretaria de Governo tem a seu cargo a coordenação política do Executivo. Trata-se, assim, da escolha pessoal do próprio presidente da república. Tão pessoal quanto a nomeação do chefe da Casa Civil. Cargos de estrita confiança.

VULNERABILIDADE – No momento em que Michel Temer recua e resolve compartilhar uma opção unicamente sua, tacitamente confessa ao mesmo tempo sua fragilidade e vulnerabilidade.

Falta-lhe vocação para chefe do Executivo. Estaria melhor nas ações de bastidores. Gosta de encaminhar a tomada de decisões, não de com elas se comprometer diretamente. Em seis meses de governo, nomeou e teve que substituir seis ministros. Antonio Imbassahy tornou-se o sétimo da série, com a diferença de que repetiu o personagem de Dias Gomes, que foi sem nunca ter sido.

O senador Romero Jucá foi brevemente ministro do Planalto. Envolvido pela Operação Lava-Jato, sentiu-e na obrigação de pedir para ser exonerado.         Apesar disso, é HOJE o líder do governo no Senado, função que desempenhou nos governos de FHC, Lula, Dilma, até atingir a escala Michel Temer. Mas esta é outra questão.

E ARMÍNIO FRAGA? – Ia esquecendo a cogitação de Armínio Fraga para o Planejamento, no lugar de Dyogo de Oliveira. Nesse momento da ópera, entrou no palco Henrique Meirelles e vetou a substituição desenhada por Aécio Neves.

Qual será o próximo recorde a ser quebrado? Caberá a tarefa ao atual presidente da República, que poderá partir em busca de superar as suas próprias marcas políticas. Porém jamais poderá ser igualado no conjunto de avanços e recuos.

Veja-se por exemplo, a reforma da Previdência. Um artigo incluindo as Polícias Militares e os Corpos de Bombeiro desapareceu no texto original. Provavelmente a culpa foi do redator, não do Palácio do Planalto.

E assim caminha o governo, enquanto a população perde a esperança de o país poder sair de uma crise de várias origens e de diversas faces.

Exceções, ampliadas após recuos, abalam a reforma da Previdência

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Charge da Lila, reprodução do Arquivo Google

Pedro do Coutto 

No momento em que o presidente Michel Temer enviou ao Congresso a reforma da Previdência, sob o argumento de que sem ela o pagamento das aposentadorias e pensões estariam ameaçados, não tem cabimento algum a exclusão das Forças Armadas e, agora, também dos policiais militares e dos bombeiros, através da subtração de um artigo do texto. Reportagem de Alexa Salomão, Carla Araujo e Tânia Monteiro, O Estado de São Paulo de quinta-feira, ilumina forte e claramente tanto o subterfúgio quanto a contradição.

Ambos comprometem a seriedade do projeto do governo, já que sendo geral o sistema previdenciário, não poderia comportar exceções. Pois se as fontes pagadoras são comuns, as restrições (de acordo com o posicionamento do Palácio do Planalto) teriam que se estender a todos.

COVARDIA – Por exemplo: os civis não podem receber simultaneamente, aposentadoria e pensão. Os militares, ao contrário, podem. Qual a razão da diferença? A resposta se chama covardia. Não há explicação lógica para as exceções. O medo é tanto que os integrantes das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros foram afastados do projeto governamental. As explicações do Secretário de Previdência do Ministério da Fazenda, Marcelo Caetano, não se sustentam. Isso de um lado.

De outro, o que todos sabem, no fundo, é que só há um caminho para tornar a Previdência sustentável: a queda da taxa de desemprego, que está sendo formada, hoje, por doze milhões de homens e mulheres. A questão é bastante simples: a Previdência arrecada em cima de quê? Da folha de salários.

Portanto, quanto mais baixa ela estiver, menor será a receita. Inclusive não se pode esquecer que as contribuições devem ser duplas, de parte dos empregados e dos empregadores. O princípio vale para as áreas particular e pública.

ÍNDICE DE EMPREGO – Mas falei na importância vital do índice de emprego. Exatamente isso. Basta fazer as contas que são absolutamente simples. O salário médio brasileiro encontra-se em torno de 2 mil reais por mês. Assim, 12 milhões de desempregados significam 24 bilhões de reais por mês fora do foco de incidência do INSS e da Seguridade Social. Multiplique-se essa fração por treze, os vencimentos anuais, e vamos atingir algo em torno de 300 bilhões. Excluídos da Previdência, excluídos do consumo.

Marcelo Caetano sabe disso muito bem. Porque, se não soubesse de um aspecto elementar, não poderia ocupar o cargo que ocupa. Para agradar o governo Michel Temer, na exposição que fez à imprensa, tentou escapar da verdade. Não conseguiu. Sua consciência transformou-se na sua pior testemunha. Só o pleno emprego garante o futuro da Previdência Social. Da mesma forma que só a redução da dívida interna de 3 trilhões de reais pode assegurar o presente e o futuro do Brasil. São mais de 400 bilhões de reais por ano a despesa com o pagamento de juros de 13,75% a cada doze meses.

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ACORDO POLÍTICO NO STF, MAIS UMA FANTASIA

Já que estamos falando de fantasias, a decisão do Supremo Tribunal Federal de quarta-feira, sem dúvida, foi uma delas. Nem tanto pelo fato de o resultado ser juridicamente incorreto. Não. Mas foi uma fantasia, quanto à forma com que se revestiu. Resultou de uma articulação – manchete principal da edição de O Globo – desenvolvida conjuntamente pelo presidente Michel Temer e, incrível, pelos ex-presidentes Fernando Henrique e José Sarney. A presidente da Corte Suprema, ministra Carmen Lúcia, limitou-se a criticar publicamente a atitude de Renan Calheiros que desconheceu a liminar do relator Marco Aurélio.

O STF aceitou ser o palco de uma articulação política singular na história do país. De fantasia em fantasia, o descrédito popular aumenta de hora em hora.

Crise implacável: PIB recua 3,6% este ano e a renda per capita vai cair 4,6%

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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

Reportagem de Lorena Rodrigues, Lidiana Tomazelli, Eduardo Rodrigues e Ricardo Leopoldo,  em O Estado de São Paulo, com base em dados de Fábio Kanczuk, Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, mostra que o governo Michel Temer espera para este ano uma queda da ordem de 3,6% no Produto Interno Bruto, sinal de alarde, digo eu, porque o crescimento demográfico, já descontada a taxa de mortalidade de 0,7%, atinge 1% ao longo de doze meses. Assim teremos um produto menor para a população maior.

Como a renda per capita é o resultado da divisão do produto pelo número de habitantes, este indicador na realidade vai encolher 4,6% até 31 de dezembro. Para 2017, de acordo com Fábio Kanczuk, a pressão melhora, pois está previsto um PIB positivo na escala de 1%. Comparando-se com a taxa demográfica, um empate. Não sinaliza uma evolução, mas tal perspectiva constitui um bloqueio a nova involução. Porém, pode ser o início de uma retomada da economia após três anos de retrocesso.

VENCER OU VENCER – O equilíbrio das contas do governo pode representar uma base de avanço, mas não se deve considerar que conter a despesa, em 2017, ao limite da inflação de 2016, significa em empate. E, para nós, brasileiros, só a vitória interessa, por menor que seja, uma vez que o número de habitantes não para de crescer. E a inflação do IBGE, de outubro a outubro, doze meses, atingiu 7,9%. Somados os índices de novembro e dezembro, deve fechar 2016 na base de 9%, aproximadamente.

Assim, as despesas públicas em 2017 não podem ultrapassar 9 pontos. Os salários não podem ser excluídos desse cálculo. Seria um absurdo.

EXEMPLO DO RJ – Vejam os leitores, por exemplo, o caso do funcionalismo público, a começar pelo Rio de Janeiro. Não houve reposição em 2015 para uma inflação de 6,7%, registrada em 2014. Não houve tampouco reposição inflacionária de 10,6%, ocorrida em 2015. Portanto, os vencimentos de agora, o governador Luiz Fernando Pezão não pode apontá-los como causa da diferença entre receita e despesa, são menores de fato que os dois anos atrás. As causas são outras. A corrupção, por exemplo, que dormia embalada no ninho das isenções fiscais, fontes de propina, como as comissões pelos contratos de obras públicas.

Aliás, é preciso distinguir bem as etapas da política econômica, bem como da política em seu sentido geral. Cortar despesas é algo que só pode ser feito de um lance só. Não criar despesas supérfluas já se apresenta como um freio permanente. Mas há uma terceira via: enfrentar as sonegações e os sonegadores. Numa época de Internet, torna-se obviamente mais fácil combater essa horda devastadora dos recursos públicos.

SEM SIGILO – Até a Suíça decidiu derrubar o sigilo bancário quando forem feitas solicitações oficiais. Pois o sigilo bancário funcionava para acobertar ilegalidades e encobrir seus autores. Na sombra da ruptura legal, encontravam-se produtos e atores do tráfico internacional de drogas e de vendas de armas. Além destes dois crimes, existiam ainda depósitos feitos sinuosamente por diversas fontes e correntes de corrupção. A Operação Lava-Jato iluminou intensamente este terceiro roteiro.

A Odebrecht, cuja delação foi aceita pelo Ministério Público, criou até um departamento para a propina e um banco no exterior para operá-la sem fronteiras. A retração do PIB faz parte do elenco das consequências.

Renan tenta passar de réu a contestador do Supremo Tribunal Federal

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Charge do Paixão, reproduzida da Gazeta do Povo

Pedro do Coutto

Escrevo este artigo antes da decisão final do STF quanto a permanência de Renan Calheiros como presidente do Senado, fato que já deveria ter sido resolvido quando, por oito votos a três, a Corte o tornou réu em um dos doze inquéritos existentes contra ele. Ao simplesmente tentar ignorar a medida liminar do ministro Marco Aurélio Mello, o presidente do Senado explodiu uma crise gravíssima no país, cujos estilhaços, como não poderia deixar de ser, atingem os vidros do Palácio do Planalto. Reportagem de Cristiane Jungblut, O Globo de quarta-feira, traduz perfeitamente a dimensão do episódio.

Incrível o acontecimento, despropositada a reação da Mesa Diretora do Senado. Pois se ela recorreu ao plenário da Suprema Corte foi porque, tacitamente, reconheceu a validade da liminar. Caso contrário, escolheria outra forma para tentar salvar Renan Calheiros da abrangência da decisão. E, portanto, se reconhece a materialidade da liminar, não poderá se negar a cumpri-la.

Somente uma questão de tempo. Primeiro cumprir e, em seguida, recorrer. Mas não. Negou-se a acatá-la e, mesmo assim, formalizou o recurso.

QUESTÃO ESSENCIAL – Esta, inclusive tornou-se a questão essencial a ser decidida hoje. A meu ver, o STF não tem outro caminho a não ser confirmar o afastamento, sob pena de assumir uma posição de neutralidade sem cabimento.

Seria uma rendição a um autêntico desafio público. Em tal hipótese o Supremo perderia credibilidade para, daqui por diante, julgar qualquer processo no qual Renan esteja presente como suspeito ou formalmente acusado. E serão doze estes processos, se forem aceitas as 11 denúncias decorrentes de representações de Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República.

SERÁ ABSOLVIDO – Réu no processo originário da Mendes Júnior, será que Renan poderá ser isentado de culpa nesse caso e absolvido nas demais onze acusações?

Esta indagação se impõe, pois temos que considerar, especialmente o STF, o contexto que pode ser chamado de os processos de Renan, aliado cuja presença a cada dia torna-se mais negativa para Michel temer. Pois o presidente da república não pode ficar alheio à crise que se desenrola no lado em frente à esplanada de Brasília. A Praça é dos Três Poderes, mas eles não são compartimentos intangíveis quando se trata da apreciação do comportamento de réus.

INTANGIBILIDADE –Não teria sentido político e constitucional esta perspectiva de intangibilidade. Caso contrário, o STF não poderá julgar um integrante de qualquer dos demais Poderes. Cada poder julgaria seus próprios membros. Ainda por cima, no caso, não se trata de Judiciário julgar o Legislativo como um todo. E sim um de seus réus com mandato parlamentar. Há muitos outros na relação.

Assim, a prevalecer a tese de independência dos Poderes, o STF só poderia julgar a si mesmo. Um absurdo, uma agressão à lógica e à realidade.

Este é o dilema a ser decidido hoje pelo Supremo. Se Renan pode ou não ser blindado. A primeira votação foi de 8X3. A segunda, esta tarde, o país e a ordem jurídica estão aguardando. Como será o amanhã? Verso de um samba enredo.

Renan Calheiros detonou uma crise que abala o governo em momento crítico

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Charge do Clayton, reprodução de O Povo/CE

Pedro do Coutto

O senador Renan Calheiros, ao querer aprovar, velozmente, o projeto voltado para punir magistrados e integrantes do Ministério Público por abuso de autoridade, provocou a indignação das ruas e arrastou, pelo redemoinho que se formou, o presidente Michel Temer e todo o governo. Envolveu igualmente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A reportagem de Simone Iglesias, Maria Lima, Bárbara Nascimento e Manuel Ventura, O Globo desta terça-feira, revela bem a dimensão do impacto.

No mesmo dia, em entrevista a Jorge Bastos Moreno, o secretário Moreira Franco deu sequência concreta à questão no campo político, ao afirmar que aprovar o abuso de autoridade constitui uma agressão à voz das ruas. A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo, matéria de Evandro Éboli, partiu com vigor em defesa da democracia, assinalando que qualquer outra opção levaria à guerra. Isso tudo de um lado. De outro, o presidente da República defendeu a permanência de Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, e, ao mesmo tempo, foi cancelada exposição sobre economia para qual estava convidado Arminio Fraga, indicado pelo PSDB para o Ministério do Planejamento.

PIOR MOMENTO – Como num labirinto de espelhos, o momento não poderia ser pior para Michel Temer. Tentando alucinadamente escapar do processo e dos 11 inquéritos que existem contra ele no STF, Renan Calheiros conduziu o Palácio do Planalto a uma crise múltipla movida por diversas contradições e sobretudo vacilações e impulsionada pela forte e legítima reação popular.

Afinal de contas, quem poderá afirmar-se a favor do mar de corrupção que inundou o Brasil? Ninguém.

A liminar do ministro Marco Aurélio Mello, ao afastar Renan Calheiros da presidência do Congresso, sinalizou ser essa a vontade da grande maioria da Corte, deixada claro a partir da decisão da semana passada ao torná-lo réu em um dos processos existentes contra ele. Só Michel Temer não percebeu que situar-se ao lado do parlamentar por Alagoas seria um desastre. Tanto assim que não houve condições de verbalizar seu apoio, prefere permanecer no silêncio, quando o povo desejava ouvir a viva voz do presidente do país.

VACILANDO – Temer errou por omissão. Vacilou e não enfrentou o problema como o momento exigia. Moreira Franco assumiu a tarefa difícil na entrevista a Jorge Bastos Moreno. Mas as complicações tornaram-se convergentes. Não se trata apenas da emenda constitucional que limita o avanço dos gastos públicos, condicionando-os à inflação do IBGE presidido por Paulo Rabelo de Castro. Surge também em instante impróprio a reforma da Previdência Social.

O Planalto iniciou uma campanha publicitária nas redes de televisão. Incompleta. Não focaliza em momento algum a sonegação e os sonegadores. Fala em conter despesas, mas esquece a elevação da receita. Destaca o aumento da vida média dos brasileiros. Porém não se refere em momento algum ao crescimento do desemprego, quando sabem muito bem que o INSS arrecada sobre a folha de salários, tanto dos empregados quanto dos empregadores. A campanha é boa para a agência ou agências que as produzem e veiculam.

A atmosfera atual é fortemente adversa ao governo Michel Temer. Seu destino encontra-se sob risco. Precisa reencontrar o eixo de gravidade. Esta a questão essencial.

Crise do desemprego exige solução rápida, o país não pode esperar

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Charge do Jean Galvão (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

No momento em que triplica o número de devedores que atrasam o pagamento das prestações do financiamento à aquisição da casa própria  – reportagem de Márcia Del Chiara, em  O Estado de São Paulo – e a crise do desemprego se agrava, agora abrangendo 12 milhões de pessoas, a realidade passa automaticamente a exigir uma solução rápida do presidente Michel Temer, e não permanecer condicionada à aprovação de reformas a longo prazo, com é o caso de uma nova legislação para a Previdência Social.

O presidente da República necessita acordar e acelerar a recuperação da economia através de meios mais ágeis. Pois uma reportagem de Gabriela Valente, Martha Beck, Ana Paula Ribeiro, João Sorima Neto e Daiane Costa, em O Globo, aponta que o trabalho do governo segue em marcha lenta. Muito lenta, acrescento eu, para a gravidade da situação.

GRAVE CRISE – Quando os pagamentos das prestações da casa própria atrasam, é porque a crise se agravou de maneira total. Se os mutuários deixarem de pagas os empréstimos, geralmente fornecidos pela Caixa Econômica federal, acabam perdendo seus imóveis. A sequência da crise passa a atingir o plano social que inclui o direito de morar.

O que poderá a CEF fazer? Colocar os apartamentos em leilão, como é de seu comportamento usual? Não resolve. Não resolve, porque isso vai contribuir para a queda dos preços dos imóveis, numa primeira escala. Em segundo, porque descapitaliza o FGTS, principal fonte dos financiamentos. Numa terceira etapa, imobiliza por excesso de oferta a movimentação financeira, refletindo no mercado da construção civil. Nesta altura da ópera, travar a construção civil resultará numa taxa de desemprego ainda maior que os atuais 11,5% revelados pelo IBGE. O processo social traduz inevitavelmente uma série de consequências desastrosas.

TETO DE GASTOS – Superada a barreira da emenda constitucional do teto de despesas, condicionando-as à inflação (oficial) do exercício anterior, o que significa um empate conservador nas contas públicas, o Palácio do Planalto conta com a aprovação da reforma da Previdência alcançando a população dos que trabalham na planície. Mas este projeto que se dispõe na forma a salvar o INSS quanto exigiria para reduzir as despesas? A pergunta é essencial, tanto quanto sua resposta.

Isso porque passar a exigir mais permanência dos celetistas e funcionários públicos pagando suas contribuições, constitui algo que, para resultar em cortes na despesa,, sem discutir a legitimidade da ideia, somente poderá gerar efeitos concretos pelo menos daqui a dez anos. E a população brasileira não pode suportar tal período submersa na desesperança.

SACRIFÍCIO COLETIVO – Nem tem cabimento pensar-se em exigir tal sacrifício coletivo, principalmente num país, como o Brasil, que paga por ano 400 bilhões de reais aos bancos para girar a dívida interna na escala de 3 trilhões de reais, montante divulgado em novembro pelo próprio Banco Central, presidido por Ilan Gofdjan, ex-diretor, ou melhor, diretor licenciado do banco Itaú, que parece ter alargado seu espaço político, depois da saída de Joaquim Levy (Bradesco) do Ministério da Fazenda. Dois postos-chave, fontes de informações preciosas sobre os rumos que vão seguir as diretrizes econômicas. Especialmente no mercado de câmbio. Mas esta é outra questão.

O ponto nevrálgico, na pauta do futuro imediato, é o desemprego. Os assalariados não podem mais esperar. Necessitam respirar. Caso contrário sua exclusão vai abrir um abismo social cada vez maior no país.

A solução tem que ser logo tomada. As rotas atuais não estão conduzindo a nada. Este é o fato concreto.

A voz da ruas contra a corrupção foi muito mais forte que a do governo

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Em Belo Horizonte, a máscara de Moro faz sucesso nas ruas

Pedro do Coutto

Os movimentos populares espontâneos que se realizaram nas capitais do país, a exemplo das concentrações da Avenida Atlântica e da Avenida Paulista, simbolizaram voz firme e forte das ruas contra a corrupção e os ardis de Renan Calheiros e Rodrigo Maia, para conter e até tentar dissolver a Operação Lava-Jato e suas consequências concretas. O vigor das ruas contrastou com a posição genérica do governo Michel Temer sobre mais esse episódio de repúdio às clássicas manobras políticas para fugir à realidade dos fatos. A Globonews, na tarde de domingo, divulgou um frio e distante comunicado do Palácio do Planalto, não indo ao encontro da vontade da planície.

O que o povo esperava, do presidente da república, era, como fez em relação à manobra do caixa dois, o anúncio do veto exigido pela sociedade brasileira. Estava no pensamento de todos. Mas, em vez disso, de assumir uma posição clara, o Executivo, também mais uma vez, tentou sair pela tangente. Impossível. Recusou-se a enfrentar a questão. Certamente agora encontra-se empenhado numa articulação para buscar um recuo que coloque em suas mãos a caneta do veto final.

NUM IMPASSE – Michel Temer, me parece, é um articulador dos bastidores, na sombra dos acontecimentos para reduzir seus impactos. Dessa vez, porém, não conseguiu: encontra-se entre perder ainda mais a opinião pública ou deixar para segundo plano sua frágil base parlamentar. Perdeu o espaço de manobra, deixou escapar a linha na estrada do recuo. Tem que enfrentar o dilema.

Os fatos convergem para uma definição inevitável. Contra ele, além das ruas nas quais o povo vai perdendo esperança de melhora, posiciona-se também até o PSDB.

TUCANOS SE RETRAEM – Reportagem de Pedro Venceslau, Erich Decat e Sônia Racy, O Estado de São Paulo de sábado, revelou que o presidente Michel Temer ofereceu a pasta da articulação política ao PSDB, antes ocupada por Geddel. O PSDB recusou. Ele quer, no fundo, nomear Armínio Fraga para o Planejamento, passando assim a dividir o comando da economia com Henrique Meirelles. Se for aceita a reivindicação, tal lance é de alto risco porque encontra-se exatamente em Henrique Meirelles a verdadeira peça de sustentação do próprio governo. Se ele deixar a Fazenda, a meu ver o governo afasta-se do plano de gravidade. Política vai para o espaço. Perde sua órbita.

Na realidade, voltando ao tema corrupção, Michel temer somente possui uma saída: anunciar o veto antecipado à hipótese de Renan e Rodrigo Maia conseguirem aprovar o projeto que desfere, isso sim, uma bofetada na face da sociedade brasileira. Transforma a Nação num rebanho de excluídos ilegalmente, ao mesmo tempo em que consagra bandos de corruptos e suspeitos de corrupção.

NUVEM DA ILUSÃO – E o país assim ingressa na nuvem da ilusão, justamente poucos dias depois de a Odebrecht firmar sua delação premiada, portanto a véspera de serem publicados os nomes daqueles que receberam seu dinheiro e contribuíram direta ou indiretamente para elevar ao máximo os contratos superfaturados. O prejuizo financeiro foi enorme, como a própria Odebrecht confirmou e divulgou.

O espaço está cada vez menor para o Palácio do Planalto. Temer francamente só tem um caminho: ir ao encontro do povo. Não possui outra opção: ou o veto ou nada.

Confissão pública da Odebrecht expõe totalmente os que receberam propina

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

O título sintetiza, a meu ver, a face menos aparente do pedido de desculpas através do qual a Odebrecht encaminhou sua delação premiada à Procuradoria-Geral da República. Assinado por Emílio Odebrecht e seu filho Marcelo – reportagem de Cleide Carvalho e Jaílton de Carvalho, O Globo de sexta-feira -, na verdade reduz ao mínimo o espaço restante aos acusados de receber propina para aumentar o preço dos contratos da empresa com diversas escalas do poder público, federal e estadual.

Claro. Porque a Odebrecht dispõe-se a devolver nada menos que 6,8 bilhões de reais. Mas esta quantia refere-se à parte da campanha no processo escandaloso de suborno. Não à parte, evidentemente, do dinheiro entregue aos ladrões e intermediários do assalto que abalou o governo e o próprio Brasil.

Isso porque a Odebrecht responde por si, não podendo responder pela legião de ladrões que extorquiam e se alimentavam à sua volta. Como verdadeiros satélites da roubalheira em massa.

SERÃO SÓ 200? – Quantos são eles? Calcula-se em torno de duas centena de deputados, senadores, ministros, ex-ministros, governadores e ex-governadores, ficando por aqui para não alongar ainda mais a lista negra de corruptos que roubaram a população, todos nós, e entre as consequências levaram na realidade à queda da ex-presidente Dilma Rousseff e ao desemprego que está sufocando doze milhões de trabalhadores    em todo o país.

A relação dos destinatários do propinoduto finalmente vai emergir de todo. Acentuo de todo, porque uma fração já se encontra no domínio da opinião pública, inclusive com fotos na imprensa e filmagens na televisão. Nestes casos, o contexto da Odebrecht não será apenas uma revelação, mas sim um processo de confirmação.

Mas o que poderá ser acrescentado ao lado de cada nome será a respectiva quantia recebida se por diversas vezes ou não, e como o suborno foi pago, tanto no Brasil quanto no exterior, se em reais, dólares ou euros, e quais locais e se diretamente aos parceiros do assalto ou a representantes seus.

DOAÇÕES DE CAMPANHAS – Terá de ser desvendado também o mistério das doações para campanhas eleitorais e os valores declarados ao Tribunal Superior Eleitoral. Porque são planos distintos. Uma doação de, digamos, dois milhões, pode ter sido registrada no TSE como de 1 milhão de reais. Neste ponto entra o caixa dois de sempre.

Tanto assim que direções partidárias, ao confirmarem o registro de quantias recebidas, fogem da informação principal: o montante do valor declarado pelas legendas será o mesmo que o valor transportado pela empresa doadora? Isso de um lado.

De outro, para qual endereço foi despachada a diferença. A Odebrecht possui tudo isso anotado. Caso contrário, não teria havido corrupção à sua sombra. E se não tivesse ocorrido, porque motivo a empresa praticou sua confissão pública? Não teria lógica, não faria sentido.

HÁ PROVAS – Afinal de contas, a Odebrecht possui provas para sustentar as informações sobre as quais baseia sua própria confissão de culpa.

Assim, a colocação das provas à luz da imprensa e da opinião pública vão construir um verdadeiro tribunal da consciência brasileira.

O país sai da esfera da farsa gigantesca e ingressa numa nova fase de sua história. A confissão da Odebrecht vai expor os corruptos e as etapas dos roubos ao país, que foi assaltado conjuntamente por bandos de ladrões, sobretudo de casaca que sempre acreditaram na impunidade.

Erraram.

Aposentadorias incentivadas transferem os custos para os fundos de complementação

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Charge do Genildo (genildoronchi.blogspot.com)

Pedro do Coutto

O governo federal, através do Ministério do Planejamento – reportagem de Bárbara Nascimento e Danilo Fariello, O Globo de segunda-feira, 21 – está colocando em prática um programa de aposentadorias incentivadas, paralelamente a outro, este de demissões voluntárias, para reduzir os quadros de pessoal e assim as despesas de custeio nas empresas estatais. A ideia, a princípio, parece positiva, mas examinando-se bem a questão, representa, especialmente no caso das aposentadorias, uma transferência de encargos financeiros.

Pois quando uma pessoa se aposenta, além do incentivo que recebe, o dinheiro tem que sair de algum lugar. Como passa a receber a parte do INSS, máximo de 5.189 reais, a parte complementar de seus vencimentos passa a ser paga pelo respectivo Fundo de Pensão. O Banco do Brasil, por exemplo, já tem cerca de 8 mil empregados que se apresentaram para se aposentar.

O GOVERNO PERDE – O novo aposentado não perde nada. Quem perde é o próprio governo. Pois os aposentados deixam de contribuir para o mesmo INSS, trazendo a empregadora para o mesmo plano, e isso significa redução da receita previdenciária. O INSS perde duplamente: vão para o espaço as contribuições tanto de cada empregado, quanto os 20% de seu empregador.

Além disso, o aposentado saca seu FGTS acrescido da multa rescisória de 40%. Isso de um lado. De outro, a estatal deixa de recolher a fração mensal de 8% sobre o salário. Some-se a tudo isso o valor das indenizações, base do incentivo. Quer dizer: a empresa desembolsa em alta escala apenas para, no fundo, transferir gastos governamentais. Mas há o aspecto relativo à redução do passivo trabalhista. Isso é verdade. Mas para que diminuir a responsabilidade trabalhista?

FACILITAR A VENDA – O objetivo parece ser o de facilitar a venda de uma empresa para outra. Como na área estatal, essa perspectiva não tem sentido, só pode ser visando a uma privatização, seja total, seja parcial. Porém, não parece que a meta seja a privatização parcial. Tanto assim que organizações do mesmo governo já revelaram seu pensamento no sentido de que venderão ao mercado participações que mantém com companhias privadas que resultaram, ao longo da última década, no surgimento das chamadas Sociedades de Propósito Específico.

Até o governo Fernando Henrique, as estatais poderiam aceitar a fórmula de economia mista, desde que, lei do governo JK, desde que o governo detivesse a maioria das ações, portanto, o controle acionário e o poder do comando. A partir de FHC, a legislação se inverteu: a forma mista permaneceu, porém desde que as estatais não fossem absolutamente majoritárias. Poderiam, aliás, podem deter a maioria relativa, nas não mais de 50%.

SEM CONTROLE ACIONÁRIO – Há experimentos, em várias áreas, em que a estatal detém apenas 30%. Tem maioria, mas não o controle acionário absoluto.

Assim, quando surgem prejuízos, estes são cobertos pelas estatais na mesma proporção de suas participações no capital. Ocorre, contudo, que em múltiplos casos, a parte do governo é suficiente para desviar a SPE da faixa do déficit. Pronto. Tal lance representa a estatização de uma perda, sucedendo exatamente o inverso quando a criação da subsidiária atinge lucro real, ou seja a margem efetiva acima da inflação registrada pelo IBGE.

A VERDADEIRA META – Não estou me opondo à privatização e às vantagens que apresenta principalmente no campo da eficiência. Estou apenas identificando e expondo a meta verdadeira, além da sombra de uma diminuição de gastos ilusória com os planos de demissões voluntárias e as aposentadorias incentivadas. Afinal, comprar uma empresa saneada é mais vantajoso do que ter de saneá-la depois de adquiri-la.

Adversários da Lava Jato traçam caminho para a derrubada do governo Temer

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Charge do Paixão, reproduzida da Gazeta do Povo

Pedro do Coutto

Esta é minha opinião a respeito do enorme escândalo que marcou a votação, na Câmara dos Deputados, do projeto contra a corrupção, assinado por dois milhões e quatrocentos mil eleitores, mas que foi – vejam só o absurdo – transformado em matéria do verdadeiro apoio à corrupção, inclusive protegendo os ladrões que assaltaram o país. A repulsa da sociedade brasileira foi total e alcançou a rara dimensão de quase unanimidade condenando o ato repugnante, em todos os sentidos. O povo está se sentindo traído e sobretudo menosprezado.

As reportagens de Cristiane Jungblut, Marina Lima, Simone Iglesias, Sílvia Amorim, Dimitrius Dantas, Carolina Brígido e Evandro Éboli, O Globo, edição de quinta-feira, traduzem nitidamente o trágico episódio, projetando suas consequências no quadro institucional.

DESABAR DE VEZ – Falei na hipótese, entre essas consequências, de o governo Michel Temer desabar de vez. Nesse sentido, em entrevista a Mônica Bergamo, Folha de São Paulo do dia primeiro, manifestou-se o ex-ministro Joaquim Barbosa, aposentado do STF. “Temer” – destacou Barbosa – “pode não resistir à revolta das ruas”. Exatamente isso. A esta situação contraditória, o Palácio do Planalto está sendo levado por um bando pouco disfarçado de ladrões e intermediários.

Michel Temer já teve que recuar na questão da anistia ao caixa dois. Agora terá de anunciar novamente seu veto a uma questão ainda pior. O que Joaquim Barbosa sustenta é lógico: inclusive está no pensamento lógico de quase todos. Excluindo os interessados na tentativa desesperada de escapar da Operação Lava-Jato, que ganhará ainda mais densidade com a delação e Marcelo Odebrecht, todos os que possuem pelo menos um pouco de sensibilidade convergem no raciocínio de novo desabamento em Brasília.

RENAN À FRENTE – O veto presidencial é o único caminho que Michel Temer possui para salvar-se das contradições e das ruas. A alternativa seria o Senado desmantelar o escândalo. Mas como esperar que tal aconteça, se Renan Calheiros, presidente da Casa, figura entre os adeptos entusiasmados do projeto que libera os corruptos. Ainda por cima, Renan desejava que o Senado aprovasse às 18 horas a redação final da Câmara realizada às quatro da manhã do mesmo dia. Para isso, teve que rodar uma edição extra do Diário do Legislativo, já que nenhum projeto pode ser votado antes de ser oficialmente publicado.

Ao mesmo tempo, o STF decide transforma Renan Calheiros em réu em um dos doze inquéritos ajuizados contra ele pela Procuradoria-Geral da República. Mas esta é outra questão.

NINGUÉM SUPORTA MAIS – O essencial encontra-se na fácil constatação de que o povo brasileiro não suporta mais a corrupção, da mesma forma que os corruptos e corruptores. Chega. Esses criminosos já ultrapassaram todos os limites. Além de saquearem o país, na madrugada de 30 de novembro julgaram-se no direito de esbofetear a opinião pública, nela incluídos os magistrados, integrantes do Ministério Público, os quadros da Polícia Federal, tendo a imprensa como testemunha.

Através dos jornais e das emissoras de rádio de televisão, a sociedade sentiu-se diretamente atingida. E viu pelas imagens os alvos e defensores da roubalheira, às gargalhadas, que soaram como sinistro deboche aos eleitores. Milhões de seres humanos humilhados e ofendidos em seu caráter e dignidade.

Roubados também, por terem sido iludidos por falsos compromissos que oscilam entre a lei e o crime coletivo, pode-se dizer, porque a falta de qualquer escrúpulo mancha a verdade nacional. Michel Temer terá que decidir entre o governo e a queda. As ruas esperam a resposta.

Carmen Lúcia rechaça pacote da Câmara que pode provocar crise institucional

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Juízes não podem ser criminalizados, diz presidente do STF

Pedro do Coutto

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal – reportagem de Rafael Moura, Vera Rosa e Beatriz Bulla, O Estado de São Paulo de quarta-feira, 30 – rechaçou de forma firme e frontal o projeto que propõe a criminalização do Judiciário e do Ministério Público, afirmando tratar-se de tática ditatorial. “Toda a ditadura, disse, começa rasgando a Constituição”. Lembrou a cassação, pelo governo de Castelo Branco, em 64, de três ministros do STF: Evandro Lins e Silva, Vítor Nunes Leal e Gonçalves Oliveira, acrescento eu.

À reação de Carmen Lúcia, soma-se a do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, que fala em retrocesso no combate à corrupção. Recentemente, em reunião no Conselho Nacional de Justiça, a presidente da Corte Suprema admitiu que a questão poderá deslocar-se para o Supremo, sinal efetivo da hipótese de nova tempestade sobre o Palácio do Planalto.

A matéria aprovada de madrugada pela Câmara poderá também aceita pelo Senado, já que Renan Calheiros figura entre seus principais inspiradores e provavelmente também um dos redatores do texto sinuoso, cuja votação foi apressada na Câmara para anteceder a delação de Marcelo Odebrecht e quase 70 executivos da empresa.

RISCO DE APROVAÇÃO – O sinal da tempestade está no fato de que a absurda e extemporânea iniciativa no final da ópera corre risco de ser aprovada no Senado e sancionada pelo presidente Temer. Como no caso da anistia ao caixa 2, ele terá que sancionar ou vetar no choque político das correntes e haverá confronto. De um lado, os acusados de corrupção; de outro, os acusadores e juízes, com é o caso de Sérgio Moro, entre eles a opinião pública brasileira.

Assim, se Temer sancionar, ficará em péssima situação diante de novas multidões nas ruas. Se vetar, entrará em choque com a maioria de sua base parlamentar no Congresso Nacional. O Palácio do Planalto balança novamente, atingido pelo clamor e o rumor das ruas. Qual a saída?

SEM SAÍDA – Não existe saída. O presidente da República terá que enfrentar a situação optando entre um lado e outro. O que não é de seu estilo. Michel Temer é bom na articulação entre as sombras do Parlamento e dos edifícios partidários. Não gosta de se expor abertamente. Mas que fazer? Com o projeto de lei à sua frente, na mesa do Planalto, não poderá contemporizar. Não há possibilidade na questão de agradar a gregos e troianos. Muito menos com a sociedade do país por testemunha. Terá que tomar uma decisão.

Na minha impressão, tão escandaloso é o projeto finalmente votado que não poderá escolher outro caminho a não ser o da estrada do veto. Pois, caso contrário, perderá o mínimo de estabilidade exigido para governar. Encontra-se hoje sem o respaldo indispensável da opinião popular. Os índices das pesquisas do Datafolha e do Ibope têm indicado a dura realidade.

ENCURRALADO – Temer não pode mais errar, como errou na formação de parte de seu ministério. Afinal de contas, por motivos diversos, seis ministros foram exonerados em apenas seis meses de governo. O povo está ao lado dos magistrados e dos integrantes do Ministério Público. Para esta quinta-feira, está marcado pelo STF o julgamento da inclusão ou não do senador Renan Calheiros como réu em um dos doze inquéritos que circulam na Corte e no universo político contra ele. Se a decisão for positiva, ele terá que se afastar da presidência do Senado. Logo ele, que apoiou publicamente, como o Estado de São Paulo também publicou esta semana, o texto que visa intimidar os juízes e procuradores.

Mas o texto, agora, pode se deslocar para outro contexto. O desfecho da nova crise é inevitável.

Entrevista coletiva no domingo foi para se antecipar à matéria do Fantástico

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Renan, Temer e Maia, animadíssimos na entrevista

Pedro do Coutto

Realmente difícil explicar e entender plenamente a iniciativa do presidente Michel Temer convocar uma entrevista coletiva à imprensa ao meio-dia de domingo, sobretudo tendo ao lado o senador Renan Calheiros e o deputado Rodrigo Maia. Anunciou que, se aprovada pelo Congresso, vetaria a emenda que concede anistia aos acusados de participar do recebimento de recursos do caixa dois, direta ou indiretamente abastecidos pelas fontes tradicionais da corrupção que inundou o país.

Respondendo perguntas de jornalistas, o presidente da República abordou o episódio que culminou com as exonerações dos ex-ministros Geddel Vieira Lima e Marcelo Calero. Era exatamente este o objetivo de Michel Temer – antecipar-se à entrevista de Calero ao Fantástico, anunciada pela Rede Globo. Temer temia o conteúdo de gravações feitas pelo ex-titular da Cultura. Ao resolver antecipar-se à Rede Globo, tacitamente expôs sua preocupação ao país, pois a audiência do programa é muito grande.

RENAN E MAIA – Além do mais, qual a razão que o levou a ter a seu lado Renan Calheiros e Rodrigo Maia? Difícil traduzir essa segunda pergunta, uma vez que é preciso levar em conta que na quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal apreciará se vai ou não colocar o presidente do Senado como réu no caso de sua ligação com a empresa Mendes Júnior.

A presença de Renan no Planalto teria sido, paralelamente, uma tentativa de melhorar sua posição do STF? Se foi isso, falhou no esforço. Produziu exatamente o efeito oposto, passando ao povo a ideia de que pode influir no STF.

De outro lado, se anunciou o veto à anistia ao caixa dois. referia- é claro, a uma prerrogativa da condição de presidente da República, portanto tal manifestação dispensava a presença de Calheiros e Maia.

GRAVANDO TUDO – Tão preocupado Temer estava com o Fantástico, que revelou que, a partir de agora, gravará todas as conversas que mantiver envolvendo temas de governo. Não precisava isso. Pois todos sabem que todas as conversas mantidas por um chefe de Estado são normalmente gravadas.

Basta lembrar a dramática reunião do presidente Costa e Silva com seu ministério, Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro, quando foi sufocado por uma série de argumentos ditatoriais para editar o Ato 5 de triste memória. Na ocasião, entre os incentivos à ditadura ainda mais rígida, destacou-se o ministro Jarbas Passarinho: “Se o Ato é necessário – afirmou textualmente´- às favas todos os escrúpulos da consciência”.

CRÍTICA À GRAVAÇÃO – Passarinho, no final de sua vida, não se arrependeu de sua frase patética, mas criticava o fato dela ter sido gravada e publicada. Passarinho, dissimuladamente, não criticou seu ímpeto ditatorial. Condenou a história por ter registrado o papel que representou.

Mas eu falava em gravações. Claro que todos os diálogos travados pelo presidente da república são gravados. Mais uma prova: as memórias presidenciais de Fernando Henrique, quatro volumes. O primeiro, recebi de pressente de minha filha Vanessa.

Encantadora a leitura. Reveladora oblíqua e verdadeira da realidade palaciana. Por exemplo: como técnicos de carreira do Banco Central tornaram-se acionistas de primeira linha do BTC Pactual na gestão de André Estevez. Ler um autor do nível intelectual de FHC é um prazer enorme. Até mesmo quando escreve textos com base no estilo de romances policiais.

Pezão não pode se recusar a receber o Maracanã, devolvido pela Odebrecht

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Charge do Genildo, reprodução da Charge Online

Pedro do Coutto

O jornalista Elio Gaspari, no espaço que ocupa brilhantemente no Globo, edição de domingo, 27, afirmou que o governador Luiz Fernando Pezão, em mais um equívoco da sequência que tem cometido no RJ, está se recusando a receber o Maracanã de volta, consequência da Odebrecht não desejar mais administrá-lo comercialmente depois de participar (vale lembrar) do consórcio que realizou as obras de modernização do Estádio Mário Filho. Essas obras, orçadas inicialmente em 800 milhões, no final custaram 1 bilhão e 200 milhões de reais.

O consórcio, que ficou famoso, incluía a Andrade Gutierrez e a Delta, de Fernando Cavendish. Assinala Gaspari que a Odebrecht tinha projeto para substituir o Maracanãzinho e o Estádio de Atletismo Célio de Barros por um shopping com estacionamento rotativo. São peças tombadas. Não conseguindo o destombamento, a Odebrecht desistiu do negócio.

Tudo bem. Devolve o Maracanã ao governador Pezão. Mas ele não quer aceitá-lo de volta. Impossível a rejeição. O Mário Filho é um patrimônio público estadual. Estádio histórico, onde se realizou a primeira Copa do Mundo no pós-guerra, que terminou com a derrocada nazista de 45.

MULTA CONTRATUAL – É possível que a Odebrecht não tenha cumprido o contrato que assinou. Mas neste caso cabe a cobrança da multa respectiva. Jamais a recusa.

Não faz sentido mais esse ato impensado do Palácio Guanabara. É a mesma coisa que o proprietário de um imóvel recusar-se a recebê-lo de volta caso o locatário não deseje mais alugá-lo. Impossível a negativa. Se durante a ocupação houve danos, o proprietário vai cobrá-los. Mas não recusá-lo de volta.

Não tem cabimento, porque, se não aceita-lo de volta, qual seria o caminho? Abandoná-lo? Exigir que outro grupo empresarial o assuma? Não é possível. Se nenhuma empresa desejar entrar em cena, o que fazer? O governador é responsável pelo patrimônio público.

CASO DE RENÚNCIA – Luiz Fernando Pezão, claro, pode renunciar ao governo, mas não pode, enquanto nele permanecer, renunciar ao dever de preservar os bens públicos, especialmente os tombados pelo seu valor histórico. E por sua importância artística, também. Para isso, inclusive, existe o IPHAN, palco da comédia dramática que culminou com a exoneração do ministro Geddel Vieira Lima.

Pezão tem um mandato é marcado por recuos e rejeições, como foi o caso do projeto que enviou a Alerj elevando para 30% a contribuição dos funcionários para o Rioprevidência, inclusive aposentados e pensionistas, mas não tomou iniciativa alguma para rever as isenções fiscais de 166 bilhões de reais dadas a empresas em oito anos. Não pode, desta vez, rejeitar a retomada da posse do templo do futebol, cenário do rumor e do clamor de grandes multidões em delírio.

ACEITOU TUDO – Ele era vice e secretário de Obras de Sérgio Cabral. Portanto, concordou com os contratos de reforma, que mudaram as características originais do Mário Filho. Por exemplo: o final da geral e a substituição do fosso em volta do gramado. Sem a geral, os preços dos ingressos subiram e diminuíram as condições de segurança que distanciava os atletas e os juízes dos torcedores e das torcidas, impedindo inclusive invasões de campo.

“Todas essas reformas” serviram para lançar à estratosfera os valores pagos a Odebrecht, Andrade Gutierrez e a Delta. O Rio de Janeiro perdeu dinheiro, mais uma vez, entre tantas outras obras realizadas.

Mas agora, seria demais, ainda por cima perder o Maracanã, com o Palácio Guanabara a recusá-lo, abandonando-o, como abandonou os hospitais, atingindo duramente a população.

Governador, cumpra sua obrigação, pelo menos.

Política, como jornalismo, é uma ação firme e forte em torno de ideias claras  

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Charge da Lila, reprodução do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Exceto a palavra jornalismo, a frase original foi do presidente Charles De Gaulle, respondendo, em 1968, a uma crítica de Jean Paul Sartre. Política – acrescentou – é algo extremamente complexo, mas todas as suas formulações têm que ser claras. Política não é filosofia. Acrescento eu: o substantivo é essencial, o adjetivo é apenas uma forma de tocar a realidade. Sem conteúdo, as afirmações políticas perdem-se no espaço, que, no fundo, fica vazio de ideias e compromissos.

Escrevo este artigo após ler no O Estado de São Paulo uma reportagem de Gilberto Amêndola destacando a atuação de jornalista, poeta e praticante de Aikido, arte marcial que prega o princípio da não violência. Mas o trabalho de Olga Crado num cenário chamado media training, mostra uma forma do político reconhecer a si mesmo, verificar o efeito do que afirma, e, no objetivo final, saber lidar com a imprensa e, portanto, com a opinião pública.

Isso porque – na minha opinião – não há forma de se chegar à opinião pública sem os jornais, as emissoras de TV e rádio e os sites desse sistema fantástico chamado Internet. Dentro desta realidade, a “media training” não cria situações concretas, depende de seu aproveitamento e transporte pelos meios de comunicação.

FORMA DE CONVENCER – Existem empresas de publicidade que utilizam a “media training” com forma de convencer seus clientes. Neste ponto não estou me referindo ao trabalho exercido por Olga Curado. E sim a certas empresas que, inspiradas em técnicas publicitárias, confundem a publicidade com o jornalismo. Esquecem a diferença essencial: o jornalismo é um teorema. A publicidade, um axioma.

O teorema precisa ser comprovado na prática, algo absolutamente concreto. O axioma é o contrário. Usado no campo comercial. Os anúncios comprovam a diferença básica. Para todas as lojas e supermercados, os produtos que vendem são os melhores, os preços são menores, as condições apresentam-se mais vantajosas. Maneira de seduzir e conduzir o público pelo caminho livre da fantasia. Como decidir num panorama e que cada um se apresenta à frente de todos? Eis a pergunta fundamental. O esforço comercial é firmar a marca sem discutir o conteúdo da mensagem.

E O QUE IMPORTA? – Mas os órgãos públicos, entre eles as empresas estatais, não disputam espaços comerciais entre si. A imagem simples da marca não importa. O que importa é sua capacidade e realização de adjetivações. A imagem do governo Michel Temer é fraca, porque carece de ações concretas de legítimo interesse coletivo.

As ruas serão eternamente fundamentais. “Media training” não resolve nada. Publicidade paga na área política, tampouco. É jogar dinheiro fora. O que funciona na comunicação é o jornalismo gratuito, consequência e reflexo de peso das matérias que ele transporta (e analisa) para a população.

Os lances e apelos do comércio não se coadunam com os trabalhos estatais. Se alguns pensam que podem transformar a comunicação governamental em um axioma estão enganados e se enganando também.

Olga Curado tem seu método. Entre seus clientes, revelou a Gilberto Amêndola, há acusados pela Operação Lava-Jato. Deve fazer com que conheçam a si mesmo. É o suficiente.

Judiciário e Ministério Público põem Temer no fio da navalha na anistia ao caixa 2

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Charge de Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

O título recorre ao romance famoso de Somerset Maugham, adaptado para o cinema na década de 50, que, a meu ver, pode interpretar bem a situação a que está sendo conduzido o presidente Michel Temer no estranho episodio da tentativa de anistiar os culpados por terem recebido doações políticas fornecidas através do famoso Caixa Dois. O Caixa Dois, no fundo, tornou-se uma nuvem para encobrir do sol a principal forma de corrupção que atingiu o país, levando à Operação Lava Jato.

O tema está plenamente focalizado nas reportagens de Isabel Braga, Letícia Fernandes, Evandro Éboli e Jailton de Carvalho, O Globo de sexta-feira. A manobra estava urdida na Câmara Federal, mas foi bloqueada pela forte e firme reação da magistratura e da Procuradoria Geral da República.

O juiz Sérgio Moro, por exemplo, afirmou que a pretexto de anistiar doações eleitorais não registradas serão igualmente beneficiadas condutas d corrupção, incluindo lavagem de dinheiro entre outras ilegalidades.

OPERAÇÃO ABAFA – Aprovado (e sancionado) tal projeto, a Operação Lava Jato perderia seus efeitos. Até pessoas já condenadas teriam de ser soltas para, em liberdade, aproveitarem o produto dos roubos que praticaram, beneficiando-se a si mesmos.

Mas falei em fio da navalha. Isso mesmo. A expressão estende-se a Michel Temer porque, no caso de o Congresso vir a aprovar tal absurdo, caberá a ele sancionar ou vetar a alarmante anistia. Alarmante e contraditória, sob o ângulo político, violadora da realidade no plano jurídico.

Por que isso? Explico. O texto, de autor oculto, incluído sob a forma de emenda no projeto de Combate à Corrupção, qualifica-se por si mesmo. Até agora a prática de Caixa Dois é considerada crime. Deixaria de ser com a sinuosa anistia. Porém, voltaria à condição de crime daqui para frente. Ora, desnecessário sublinhar a duplicidade do conceito legal, absolver os criminosos existentes, voltar a condenar os criminosos desta data em diante.

TEMER VETARÁ? – Mas qual o motivo da matéria conduzir o presidente Michel Temer à atmosfera do clássico de Somerset Maugham? Simplesmente pelo fato de representar uma bomba em suas mãos.

Se viesse a sancionar o projeto, portanto transformando-o em lei, a reação contra ele seria intensa, muito mais intensa (e densa) do que a atmosfera que marcou as demissões de Romero Jucá, Henrique Eduardo Alves e, agora, a de Geddel Vieira Lima. Se vetar, em decorrência da pressão do Judiciário e do Ministério Público, em acordo com a população brasileira, entrará em choque com sua base parlamentar integrada por diversos personagens claramente vinculados ao mar de corrupção que inundou o convés da Petrobrás e abriu um rombo nas finanças públicas do Estado do Rio de Janeiro.

EM CAUSA PRÓPRIA – Os parlamentares defendem a anistia porque os livrará dos respectivos processos judiciais. Assim, estão nitidamente agido escandalosamente em causa própria.

Em causa própria e além da lei, chancelando uma ruptura com a moral e a ética. São aliados incômodos de Michel Temer, que se tornaria ainda mais prisioneiro dos falsos amigos no Palácio do Planalto. A reação da planície abalaria os obstáculos do poder que ainda se mantêm à sua volta.

Para Temer, foi melhor – acentuo – rejeitar o projeto agora do que ter de vetá-lo depois.

Fidel, Kennedy e Kruschev dividiram o mundo na crise dos mísseis, em 1962

 Mensagem Viva ao Fidel escrito numa parede

Che Guevara e Fidel Castro, já no poder, em 61

Pedro do Coutto

No final da semana Fidel Castro deixou Havana, foi para a eternidade e a repercussão mundial de sua morte comprova a importância de sua figura na história dos séculos XX e XXI. Vitorioso na revolução em 1º de janeiro de 59, tornou-se ditador de Cuba mantendo-se no poder absoluto até 2008, quando passou o governo a seu irmão Raúl. Foram muitas as violações de direitos humanos cometidas, que provocaram repúdio em todo o mundo. Liberdade é um bem supremo. Mas recebeu também muitos apoios, especialmente do bloco comunista que desabou com o fim da União Soviética e o ingresso da China moderna no sistema “capitalista”.

A China, pelo seu crescimento econômico, tem o segundo produto do mundo, da ordem de 10 trilhões de dólares, só perdendo para os EUA, que atinge o dobro dessa marca. A veloz expansão chinesa tornou-se o caminho da globalização dos dias de hoje.

Mas no título destaquei os três principais personagens da divisão  do mundo, crise dos mísseis de 1962, que Otto Maria Carpeaux foi o primeiro a considerar o episódio como um novo Tratado de Tordesilhas, de 1494, estabelecido  pelo Papa Alexandre VI, César Borgia, espanhol que assegurou domínio da Espanha nas terras latinas que iriam surgir. O Tratado foi entre Espanha e Portugal.

ROMPIMENTO COM EUA – A importância de Fidel castro cresceu, a partir do momento em que rompeu com os Estados Unidos e recebeu apoio de Nikita Kruschev, primeiro-ministro da URSS. Kruschev sucedeu Stálin, que detonou a guerra fria com os EUA. Atingiu o clímax quando Moscou instalou mísseis atômicos em Cuba, voltados para a Flórida, portanto, a curta distância. John Kennedy dirigiu um ultimato a Kruschev. Era novembro e amanhecia a perspectiva de um destruidor confronto nuclear. A tensão e a insegurança tomaram conta do planeta. Um ultimato é sempre uma ameaça sem volta.

O alívio só veio quando a União Soviética retirou mísseis da costa cubana e os filmes mostraram na televisão e as fotos nos jornais na época o retorno dos navios russos levando para a Europa o arsenal atômico instalado. Porém, como todo lance político possui pelo menos duas faces, Kruschev, a meu ver, abandonou Havana, trocando-a por Berlim. Cuba no complicado jogo internacional de poder valia menos que a Alemanha Oriental.

MURO DE BERLIM – Mesmo assim o muro de Berlim somente cairia em 89, com Ronald Reagan e Gorbachev, 27 anos depois da retirada dramática dos mísseis. Esse momento, sem dúvida, foi o mais importante da controvertida ditadura imposta em cuba por Fidel Castro, incluindo pena de morte a quem negociasse dólares no mercado paralelo ao da taxa oficial: um peso cubano, moeda da época, por um dólar.

A repercussão de sua morte na imprensa mundial confirma a importância de sua figura de ditador e revolucionário ao mesmo tempo. A história me julgará, disse ele certa vez, repetindo talvez inconscientemente a frase de Adolf Hitler, no auge do nazismo: a história me absolverá. Veio a derrocada, a história não o absolveu. O que de Fidel ficará na história, no futuro?

CUBA LIBRE – Repórter do Correio da Manhã, conheci Fidel em 59, quando veio aqui e ofereceu um Cuba Libre (Rum, Coca-Cola e rodela de limão) servido na Embaixada, Rua Djalma Ulrich. Estava ao lado de Guevara e Camilo Cienfuegos. Este morreu nas sombras de um desastre aéreo. Ernesto Che Guevara, Fidel o enviou para articular uma revolução comunista na Bolívia. Os rangers americanos estavam instalados nas selvas do país. Foi capturado e morto. Castro ficou solitário e absoluto no poder. A revolução de 59 passou a ser descrita por um só autor.

Autor e grande personagem, inegavelmente, da história, que é tão eterna como o ser humano. Outras versões e revelações surgirão. Interpretar personagens e fatos é um processo multilateral.

“Sassaricando”, sucesso de Virgínia Lane, é citado pela Polícia Federal

Pedro do Coutto

Para não dizer que não falei de flores – título de uma coluna do grande Carlos Castelo Branco no antigo Jornal do Brasil, época da ditadura militar – hoje escrevo sobre um episódio do carnaval carioca, são milhares que ficam na história da cidade, citado pelo repórter Márvio dos Santos edição de O Globo de quinta-feira, a propósito de suposto nome usado pelo ex-governador Sérgio Cabral Filho para conversas secretas com empresários.

O assunto primeiro foi levantado por José Casado em seu espaço semanal no mesmo Globo. O codinome era Nelma de Sá Saraca. Para desvendar o código, a Polícia Federal e Márvio dos Anjos recorreram ao Google. Partiram de Saraca como palavra chave. O Google devolveu sassaricando. Márvio dos Anjos, então, atribuiu a origem do mistério, envolvendo compra de joias, ao musical Sassaricando, de 2006, mas provavelmente por ser jovem, não sabia –  é natural – que a peça escrita por Sérgio Cabral pai e Rosa Maria, é uma reedição do musical “Eu Quero Sassaricar”, de 1952, no Teatro Recreio, que não existe mais, assinado por Freire Júnior e Luiz Eglezias.

Virgínia Lane era a grande estrela das chamadas revistas musicais. O Recreio ficava no entorno da Praça Tiradentes, junto com o Carlos Gomes e o João Caetano, que resistiram ao tempo. Com base no texto de Freire Júnior e Eglezias, os compositores Luiz Antônio, Zé Maria, Oldemar Magalhães fizeram a marchinha Sassaricando, gravada por Virgínia Lane, um dos grandes sucessos do carnaval de 52. Portanto, 54 anos antes do musical de 2006.

DONA NELMA – De outro lado, a Polícia Federal e Márvio dos Anjos percorreram trilha na busca de Nelma de Sá Saraca. Concluíram que Nelma Sá era uma versão inspirada em Nelma Quadros, secretária do Pasquim, jornal satírico lançado em 1969 que reuniu Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Sérgio Cabral pai e Tarso de Castro, entre outros. A procura de uma ponte se perde assim no espaço do tempo. O Pasquim desapareceu em 91, portanto quinze anos antes do espetáculo musical de 2006. A viagem ao passado não resolveu o enigma. Só uma coincidência quanto a palavra Saraca talvez possa decifrar. Afinal de contas, coincidências acontecem.

Mas eu falei de viagem ao passado. Até, como lembrei título de uma coluna do maior cronista político brasileiro, sobre quem o jornalista Carlos Marchi escreveu um livro. O Rio de 1952 era muito diferente da cidade de hoje. Podia-se andar pelas ruas e praças sem a atual atmosfera da possibilidade de algo ameaçador. Os teatros de revista exibiam musicais, cheios de canções sambas, marchinhas, valsas. Era uma outra época. Cartazes luminosos de grande porte exibiam as peças.

O RIO MUDOU – Nos palcos, de revistas, destacavam-se Virgínia Lane, Nélia Paula, Joana D’Arc, Zaquia Jorge, fundadora do teatro de Madureira, cuja morte inspirou a bela interpretação de Joel de Almeida do samba Madureira chorou, tocado até hoje.

Mas o segredo das joias foi devassado pela Polícia Federal. Ela descobriu o hot line, nome de uma técnica de comunicação do presente depois de tentar o sassaricando do passado.

O Rio mudou de face e de estilo. Mas a tradicional Confeitaria Colombo, citada na música, atravessa a nuvem do tempo. Contudo, os velhos que sassaricavam à sua porta de cristal, um dos versos dos autores, se foram com o vento. Não foram substituídos nem na Colombo, nem no verso.

Delação da Odebrecht, um vendaval que abala o governo e o próprio país

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A delação liderada por Marcelo Odebrecht, seguida por nada menos que 76 executivos da maior empreiteira do país, representa um verdadeiro vendaval – como destaca a reportagem de Jailton de Carvalho, Júnia Gama e Simone Iglesias, O Globo, edição de quinta-feira – que inevitavelmente vai abalar o governo e o próprio país, além de expor grande parte da classe política a um julgamento ainda pior que faz dela a opinião pública brasileira. São nove meses de longas negociações que resultam, é claro, numa enciclopédia sobre a corrupção brasileira, que inclusive projetou-se no exterior.

Vai abalar o governo Michel Temer, logicamente atingindo titulares de sua equipe. A vulnerabilidade política não resiste ao impacto sem que aconteça um reflexo profundo. Afinal de contas se o Palácio do Planalto tomou a iniciativa de blindar o ministro Geddel Vieira Lima, o que se propõe a fazer para resistir ao vendaval chamado Odebrecht? Pode pensar nessa hipótese, porém concretamente nada poderá fazer.

DECISÃO DO IPHAN – Necessário acentuar que o ministro Roberto Freire, novo titular da Cultura, em declarações ao Jornal Nacional da Globo, noite de quarta-feira, afirmou textualmente ser favorável à decisão do Iphan contrária à construção do polêmico edifício na Ladeira da Barra, Salvador.

Se a blindagem não foi capaz de conter Roberto Freire, muito menos poderá conter o vendaval impulsionado pela Odebrecht, não só testemunha, mas personagem maior do gigantesco esquema de corrupção que fez explodir a economia e a administração do Brasil. O assalto ao erário público foi institucionalizado. Os honestos passaram a ser mal vistos. De qualidade, ser honesto transformou-se num defeito.

Nenhuma fonte mais qualificada que a Odebrecht para comprovar a atmosfera que já levou vários ladrões à prisão. A empresa dominava a Petrobras, o governo do Rio de Janeiro, a Aviação Civil. Basta citar que era concessionária do aeroporto Tom Jobim, do Maracanã, e de todo um sistema extraordinário de obras públicas. Não se limitava às fronteiras brasileiras. Atuava em Angola, em Cuba, na Venezuela, para ficarmos apenas nestes exemplos.

APOIO DO BNDES – A Odebrecht atuava no exterior com suporte do BNDES através de financiamentos com juros abaixo dos cobrados usualmente pela rede bancária. Com base num programa de incentivo (aos lucros) firmava contratos com juros até abaixo da inflação brasileira. Um polvo com múltiplos tentáculos. Somente uma parte do universo político escapava à sua rede traçada e projetada a partir de um aço fino produzido a partir de processos de sedução.

Personagem e testemunha. Agora, com o vendaval, trocou de papel. Afastou-se da corrupção, assumiu o papel de testemunha de acusação do enredo corrupto de sedução. Nessa transferência, com a delação, personaliza muitos corruptos. As doações eleitorais eram um bom pretexto, uma espessa cortina para disfarçar roteiros e destinos do produto ilegal de uma sequência consolidada de superfaturamentos, termos aditivos aplicados em contratos de bilhões. De reais?

De reais, só, não. De dólares, como aconteceu na refinaria Abreu Lima. E se a Odebrecht instalou e colocou em atividade um banco na Suíça para operar os resultados de um propinoduto imenso, é porque existiam centenas de correntistas. Eles têm face e nome. Vão surgir a partir de agora. As imagem abalam o Planalto e a planície.

Meirelles socorre o Rio de Janeiro, mas exige receita sobre desonerações fiscais

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Charge do Baptistão, reproduzida do jornal El País

Pedro do Coutto

O governo Michel Temer, através do ministro Henrique Meirelles, decidiu socorrer financeiramente o Rio de Janeiro, mas exige uma contribuição tributária de no mínimo 10%, cobrada às empresas beneficiadas pela concessão de incentivos fiscais. Este ponto fundamental, traçado claramente pelo ministro da Fazenda, está contido em um dos blocos da reportagem de Martha Beck, Geralda Doca, Eduardo Barreto e Simone Iglesias, O Globo de quarta-feira, 23.

A decisão de Henrique Meirelles estende-se aos demais estados da Federação, mas politicamente o alvo é o RJ, pelo clima de protestos que tomou conta das ruas e culminou com o recuo do próprio governador Pezão do projeto que elevava a contribuição dos funcionários, inclusive aposentados, para o Rioprevidência, de 11 para 30% de seus vencimentos. Os aposentados contribuem sem retribuição alguma.

A reação se fez sentir. Sensibilizou o Palácio do Planalto, já envolto em problemas de toda ordem, e diversas origens, incluindo o causado pelo ministro Geddel Vieira Lima, que ganhou aspectos maiores com a manchete principal da Folha de São Paulo, também na edição do dia 23. Era preciso descomprimir a atmosfera de tensão.

DESONERAÇÕES – O panorama do Rio de Janeiro, ao que parece, foi desanuviado, embora a Justiça – vejam só – tenha decretado a prisão dos ex-governadores Sérgio Cabral e Anthony Garotinho. No caso de Cabral, claro, a repercussão é ainda mais profunda porque foi nas suas administrações e na de Pezão que foram concedidas desonerações fiscais que somaram – e somam – 151 bilhões de reais.

Sobre as empresas inscritas nessa extensa relação – condicionou Henrique Meirelles – vai recair um tributo de 10% sobre o valor da desoneração concedida. Os recursos vão para um fundo estadual. Uma decisão lógica e essencial, elaborada com base na sequência de escândalos revelados pela imprensa.

A incidência do percentual deve se estender no tempo exatamente igual àquele no qual as isenções foram concedidas. Caso contrário, não teria sentido, tampouco traria reflexos concretos. Até porque o plano do governo federal para estabilização econômica do Brasil é projeto para dez anos.

TETO DE GASTOS – Meirelles condicionou a liberação de recursos igualmente ao apoio à PEC 241, que limita o aumento das despesas ao índice teto da inflação do IBGE registrada sempre no exercício anterior. Não tem nada demais. Não se trata de congelamento nominal, trata-se de uma estabilização real. Portanto, pode consequentemente abranger os salários do funcionalismo.

Por falar em funcionalismo, os servidores do Rio de Janeiro não foram até hoje reajustados em 10,6%, taxa inflacionária de 2015. Tiveram portanto seus vencimentos diminuídos. O governador Pezão não pode por isso apontar a causa do desequilíbrio nas contas públicas nas costas dos funcionários. Pelo contrário. O confronto dos percentuais revela o oposto.

NO PAPEL DE CABRAL – Pode ter ocorrido a criação em massa de cargos comissionados. Mas tal problema foi criado pelo próprio governador, ele mesmo, Pezão, ator que, a partir de 2015, interpretou o papel de Sérgio Cabral. Tanto assim que o visitava diversas vezes por semana, conforme afirma a Revista Veja.

Se Pezão quiser reduzir os cargos comissionados, basta editar um decreto. Para isso, portanto, não necessita da Alerj, que, aliás, vem rejeitando os projetos que enviou. Um fracasso político completo. Creio ser muito difícil recuperar o espaço perdido. Por ele mesmo, acentue-se.