Bolsonaro explodiu o governo e a sua própria candidatura para 2022

Charge do Jota A. (portalodia.com.br)

Pedro do Coutto

Se as eleições de 2022 fossem hoje, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceria disparado, inclusive no primeiro turno. Ele tem 46% das intenções de voto contra 25% de Bolsonaro, 8% de João Dória, além de outros pré-candidatos com menores percentuais. Eu disse que venceria no primeiro turno porque o número de eleitores dispostos a votar branco ou nulo é de 10%.

Desta forma, 90% passa ser igual a 100%, e assim 46% representa nitidamente a maioria absoluta desenhada no momento, ultrapassando até por um ponto a margem necessária para decidir a sucessão presidencial, sem a necessidade de segunda convocação às urnas.

SIMULAÇÃO – Feita uma simulação para o segundo turno entre Lula e Bolsonaro, o petista teria 58% contra apenas 31% do atual presidente. O quadro parece irreversível, pois a cada momento Bolsonaro perde cada vez mais apoio popular. A curva dos índices de aprovação, sobretudo de um ano para cá, assinala a tendência declinante do chefe do Executivo.  Enquanto isso, Lula recuperou os seus direitos políticos e está pronto para uma jornada que se apresenta bastante favorável. Já Bolsonaro não tem um projeto construtivo sequer.

O Globo, em editorial neste sábado, assinalou um ponto importante: o destempero verbal de Bolsonaro. Como na antiga frase em política, “as palavras pesadas impedem o voo das ideias leves e importantes para se governar um páis”. A linguagem de Bolsonaro é bastante negativa para quem necessita de integração com a opinião pública.

O Datafolha fotografou uma realidade que toma conta do país, a incompatibilidade de Jair Bolsonaro com o próprio eleitorado. Os atos que causaram o seu declínio foram produzidos por ele mesmo. Suas atitudes, suas palavras, sua oposição à vacina, à máscara e ao distanciamento, suas acusações infundadas e ofensas sem cabimento.

DESASTRE TOTAL – Todos esses fatos somados resultaram nas perspectivas apresentadas pelos levantamentos.  A psicologia de Bolsonaro é, sem dúvida, um fato marcante na vida política brasileira. Um desastre total e absoluto. Bolsonaro implodiu a si próprio e é quase o único responsável pela sua própria queda.

Na tarde de sábado, o jornal da TV Globo noticiou uma nova pesquisa do Datafolha, sobre como o eleitorado avalia a iniciativa de aprovar o impeachment contra Bolsonaro. Há meses atrás havia uma rejeição do impedimento de 52% a 48%. Isso em maio. Agora, no início de julho, a situação mudou, já que 52% são favoráveis ao impeachment, 42% contrários e 6% não responderam.

Os ventos, como na peça de Júlio César, de Shakespeare, estão voltados contra Bolsonaro, deixando claro que ele é o maior opositor de si mesmo. Um golpe que o tornasse imperador do Brasil está fora de cogitação.

Bolsonaro ameaça eleições e quer ser imperador do Brasil

Charge do Pataxó (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Na edição da Folha de São Paulo desta sexta-feira, Ricardo Della Coletta publica reportagem sobre as afirmações feitas por Jair Bolsonaro na última quinta-feira aos seus apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

Durante a fala transmitida por um site bolsonarista, o presidente da República disse textualmente que as eleições do próximo ano serão limpas: “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”, afirmou.  O absurdo causa perplexidade, embora se trate de atitude repetida, pois se não houver eleições quem ocupará o poder? Ele próprio, Jair Bolsonaro.

IMPERADOR – Ao dizer isso, o presidente se autoproclama imperador do Brasil. Não há outra interpretação. Bolsonaro sabe bem que o projeto do voto impresso será rejeitado pela Câmara e nem irá ao Senado. Portanto, já joga com a hipótese de fraude na urna eletrônica, colocando uma situação impossível. Como poderia haver fraude por parte da oposição quando o governo é que tem as engrenagens de fiscalização do pleito ?

Ele envereda pelo caminho do golpe, contando com o apoio de parte das Forças Armadas porque já verificou que a sua posição eleitoral não é nada boa. Bolsonaro busca fortemente encontrar um pretexto para justificar a sua derrota como consequência de uma fraude. Como aliás procedeu o ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos. Aliás, Bolsonaro na ocasião, sem base alguma, afirmou que houve fraude nos Estados Unidos.

Portanto, o universo político brasileiro deve se preparar para uma investida fora das urnas, voltada para torpedear a democracia e bloquear a transmissão do poder em decorrência do voto livre. Bolsonaro, no fundo, já demonstrou isso várias vezes, e tenta se perpetuar no poder, transformando-se em imperador.

INFLAÇÃO – O IBGE, segundo informa Leonardo Vieceli, Folha de São Paulo de ontem, na pesquisa que realizou para classificar a inflação no mês de junho, só encontrou um acréscimo de 0,5%, apesar do reajuste da energia elétrica, da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha.  Entretanto, assinala que de junho de 2020 a junho de 2021, o índice inflacionário atingiu 8,3%, muito acima da previsão inicial do governo e do sempre otimista em relação às finanças públicas, o ministro Paulo Guedes.

Guedes, aliás, na quinta-feira, preocupado com a reação de 120 empresas contrárias à reforma do Imposto de Renda, foi a São Paulo e informou que fará mudanças no projeto original do governo. Entretanto, na reunião que convocou, grandes nomes da indústria não compareceram.

Verificou-se portanto uma reação do meio empresarial que se preocupa com a retração econômica e com a hipótese de uma taxação maior no Imposto de Renda. Guedes deve ter se equivocado ao aceitar de sua equipe um projeto dessa ordem, pois ele é um defensor do liberalismo que tem como uma de suas vertentes a mão de tigre do mercado.

DATAFOLHA –  Na noite de ontem, sexta-feira, o jornalista César Tralli, na GloboNews, anunciou os números da nova pesquisa do Datafolha sobre as tendências para sucessão de 2022 se as eleições fossem hoje. Num cenário total, Lula, no primeiro turno, obteria 46% dos votos contra 24% de Bolsonaro e 8% de Ciro Gomes.

Os outros nomes pesquisados apresentaram tendências mínimas. Comentarei a pesquisa mais amplamente na edição de amanhã, mas chamo a atenção para um detalhe; o quadro revelado para o segundo turno: Lula 58%, Bolsonaro 31% e uma autêntica surpresa, se o páreo fosse entre Ciro Gomes e Bolsonaro, Ciro venceria por larga margem.

“Não temos qualquer intenção de proteger ninguém que está à margem da lei”, diz comandante da Aeronáutica

Entrevista é mais um recado a Jair Bolsonaro do que à CPI

Pedro do Coutto

Numa entrevista exclusiva a Tânia Monteiro, O Globo desta sexta-feira, o tenente-brigadeiro Carlos Almeida Baptista Junior, comandante da Aeronáutica, comentou a nota das Forças Armadas publicada na véspera, criticando a acusação genérica aos militares, mas reconhecendo que as suspeitas de corrupção e desvios não são objetos de proteção para ninguém, pois pessoa alguma está à margem da lei e da Constituição do país. Ele ainda acentuou que os militares se mantêm dentro das linhas constitucionais e, portanto, não poderiam embarcar numa aventura golpista.

Analisando atentamente e medindo as afirmações de Carlos Almeida Baptista Junior, identificamos um impulso bastante lógico no sentido de prevenir qualquer sonho golpista, embora a entrevista possa parecer como uma crítica ao senador Omar Aziz, presidente da CPI. Por isso, como digo sempre, é preciso sempre observar não somente o fato, mas também o que está contido no fato. Sobre a nota em que o ministro da Defesa e os comandantes militares afirmaram não aceitar nenhum ataque leviano às Forças Armadas, Batista Junior disse se tratar de um alerta. “Não enviaremos 50 notas para Omar Aziz. É apenas essa”, afirmou.

GARANTIA INSTITUCIONAL – O brigadeiro assinalou ainda que “temos mecanismos dentro da base legal para evitar qualquer ataque às instituições. Receio que o país entenda que apenas as Forças Armadas sejam responsáveis pela garantia institucional. Não, todas as instituições são responsáveis. Estou falando da instituição Parlamento brasileiro, da Presidência, dos tribunais, do STF (Supremo Tribunal Federal), da imprensa.Tem instituições que ainda não entenderam isso. Mas nós temos certeza da nossa responsabilidade “

Na minha opinião, a entrevista é mais um recado ao presidente Bolsonaro do que, concretamente, um ataque à CPI e ao Congresso Nacional. Tanto que, numa das respostas à jornalista Tânia Monteiro, o comandante da Aeronáutica diz que não querer entrar no debate sobre a hipótese de a CPI do Senado estar exorbitando.

“As autoridades precisam entender o que está por trás da autoridade. Nós precisamos entender que o ataque pessoal do senador (Omar Aziz) à instituição militar não é cabível a alguém que deseje ser tratado como Vossa Excelência. Porque nós somos autoridades”, acrescentou Baptista. Ele afirmou ainda que “o comportamento de cada um de nós, das autoridades, exige ponderação e entendimento do todo. E essa disputa política do país é normal, mas sinto ser em tão baixo nível, em nível muito raso”.

RESPONSABILIDADES – O tenente-brigadeiro assinalou referindo-se à CPI: “façam o devido processo legal, apurem as responsabilidades, doa a quem doer. Não temos qualquer intenção de proteger ninguém que esteja à margem da lei. O estado democrático de direito, que é uma unanimidade da sociedade, exige que os princípios legais sejam seguidos. E que ninguém seja julgado prematuramente. Mas, uma vez comprovado que agiu à margem da lei, que cada um pague na forma da lei”.

Relativamente à presença de militares na Administração Civil, o comandante da Aeronáutica disse que é plenamente legal e, frisou, não ver nenhum problema na ocupação de cargos de confiança. “O presidente Bolsonaro trouxe para o governo, em sua maioria militares da reserva, que podem atuar como qualquer cidadão. E uma minoria da ativa, que é autorizada pela legislação vigente a ocupar cargos de natureza civil por até dois anos”, afirmou.

O brigadeiro tocou em um ponto sensível ao sustentar que os presidentes da República, como é o caso de Bolsonaro e o de Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, têm a tendência natural de formarem as suas equipes baseados em suas esferas de conhecimento e de confiança. Portanto, não é de se estranhar que Bolsonaro tenha levado militares para o governo.

INCLUSÃO DE LULA – “Fernando Henrique trouxe quem ele conhecia, em quem ele confiava. Trouxe acadêmicos, professores, políticos, profissionais do meio dele. O presidente Lula trouxe, da mesma forma, sindicalistas”, destacou. A respeito da inclusão do petista na lista deixa no ar o suave propósito de revelar não existir qualquer preconceito em relação ao ex-presidente, reabilitado pelas decisões do Supremo Tribunal Federal. Baptista conclui que não devem ser feitos julgamentos antes da conclusão dos processos e que as Forças Armadas continuam com seus princípios legalistas.

A entrevista de Carlos Almeida Baptista Junior dá margem a uma visão mais ampla da questão que envolve as investigações da CPI e militares acusados. A matéria altera a apreciação inicial sobre a nota do ministro da Defesa, Braga Netto, e dos comandantes das Forças Armadas. Conduz a uma abertura de raciocínio e de aceitação de uma realidade, sem contudo deixar de criticar as acusações que os quartéis viram como generalizadas do senador Omar Aziz aos segmentos militares. Esse aspecto é muito importante. Quanto ao posicionamento do senador, ele já esclareceu amplamente que não generalizou as suas afirmações contra a seriedade e a importância do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

INTIMIDAÇÃO – No artigo publicado na edição de hoje de O Globo, Bernardo Mello Franco condena a tentativa de intimidação contida na nota publicada pelo ministro da Defesa e dos comandantes das Forças Armadas de que existia uma sombra aos trabalhos da CPI, iniciativa rejeitada pela opinião pública e interpretada como instrumento direto de pressão do presidente Jair Bolsonaro contra o Congresso.

Essa interpretação está correta e se comprova pela expressão com que Bolsonaro se referiu ao ofício dirigido a ele pela Comissão de Inquérito solicitando uma explicação sobre a declaração atribuída ao próprio chefe do Executivo e a participação do deputado Ricardo Barros no processo denunciado pelo também deputado Luiz Miranda e pelo seu irmão quando foram ao Palácio do Planalto revelar a articulação entre Ferreira Dias e Dominguetti.

Bernardo Mello Franco disse que os militares distorceram as palavras do senador Omar Aziz, no que de fato tem razão, e deixou claro que Bolsonaro será capaz de tentar obstruir o trabalho da CPI baseado na insinuação de um golpe militar.

É incrível ! Com mais de um ano de antecedência, Bolsonaro “prevê” fraudes nas eleições de 2022

Charge do Roque Sponholz (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

Jair Bolsonaro compete consigo mesmo em matérias absurdas, como agora a reportagem de Gustavo Côrtes e Pedro Caramuru, o Estado de São Paulo de quinta-feira, revela ao destacar uma entrevista do próprio presidente da República na noite de quarta-feira à rádio Guaíba de Porto Alegre.

Disse ele: “”Eles vão arranjar problemas para o ano que vem. Se esse método continuar aí, sem inclusive a contagem pública, eles vão ter problemas, porque algum lado pode não aceitar o resultado. Esse algum lado, obviamente que é o nosso lado, pode não aceitar esse resultado”.  

ATAQUE – Não satisfeito, Bolsonaro atacou o ministro Luís Barroso e disse que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral estaria participando com o Congresso Nacional de um esforço para que seja rejeitado o projeto que restaura o voto impresso. A votação deste projeto estava prevista para ontem, mas foi adiado para o dia 15, votação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Bolsonaro acentuou ainda que não querem colocar o projeto em votação porque sabem que irão perder e, para evitar a derrota, os interessados recorreram à interferência do ministro Barroso. Além disso, frisou também que o voto impresso pode ser auditado, ao contrário do voto da máquina eletrônica.

Ele concluiu a sequência de absurdos dizendo que “a democracia está ameaçada por alguns de toga que perderam a noção de até onde vão os seus direitos e deveres”. Como se constata, o presidente da República demonstra, mais uma vez, a sua incapacidade política e o seu delírio que, no fundo da questão, se volta para um ato de força caso seja derrotado nas urnas do próximo ano.

CRÍTICAS DE OMAR – Omar Aziz não atacou de forma alguma as Forças Armadas. Ele criticou somente os coronéis Marcelo Blanco e Elcio Franco, este que era o número dois do Ministério da Saúde na gestão de Pazuello. Ambos faziam parte da estrutura do Ministério da Saúde. Blanco é citado como tendo participado do no jantar no shopping em Brasília em companhia de Dominguetti.

Este, por sua vez, cabo da Polícia Militar de Minas Gerais, se apresentou como  representante da empresa  Davati Medical Supply e também tentava intermediar a negociação da vacina  indiana Covaxin. Elcio Franco, que ocupava cargo logo abaixo do então ministro Pazuello, também foi implicado pela CPI como responsável pela negociação para que o Ministério da Saúde adquirisse a vacina Covaxin.

ENTREVISTA – Na tarde de ontem, em entrevista à GloboNews, o senador Omar Aziz voltou a enfatizar que não se referiu de forma agressiva ao Exército, em particular, e às Forças Armadas, de maneira geral. referiu-se apenas aos dois coronéis com base em suas implicações no processo das vacinas de acordo com os depoimentos de Roberto Ferreira Dias e de Dominguetti.

Este último negociava vacinas por valores 40% acima dos oferecidos pelos demais laboratórios fabricantes. Omar Aziz, com base no diálogo traduzido do celular de Dominguetti, verificou que o encontro no restaurante do shopping foi agendado pelo próprio Ferreira Dias, sobretudo porque Dominguetti chegou ao jantar em companhia do coronel Blanco.

CARTA DE BARROS – Na tarde desta quinta-feira, o deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara Federal, dirigiu uma carta ao presidente da CPI, Omar Aziz, protestando de forma exaltada contra a inclusão do seu nome nos trabalhos da Comissão, atribuindo a ele participação na engrenagem destinada a conduzir o contrato com a empresa indiana.

A cada passo, a questão da compra de vacinas se complica. Aliás, depondo ontem na CPI, a ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde Francieli Fantinato criticou o governo pela falta de um projeto de comunicação e vacinação que mobilizasse efetivamente a população sobre importância de todos serem vacinados, respeitarem o distanciamento e colocarem a máscara na face.

Pelas restrições que fez, ela atribui às pressões políticas a sua demissão pelo ministro Marcelo Queiroga que, até agora, não conseguiu frear o processo de contaminação diária.

LIGAÇÕES SUSPEITAS – Na edição do Estado de São Paulo de ontem, reportagem de Fernanda Guimarães e Victor Faria, uma relação de empresas ligadas a quadros administrativos do Ministério da Saúde que prosperaram acentuadamente na atual gestão da pasta, especialmente no período em que ela foi ocupada por Pazuello.

Os repórteres sustentam que a Precisa e a Belcher Farmacêutica  possuem ligação com o deputado Ricardo Barros que nega o seu comprometimento. A tempestade sobre Brasília, conforme se vê, continua cada dia mais densa.

IMPOSTO DE RENDA –  Também no Estadão, Adriana Fernandes, Francisco Carlos de Assis e Eduardo Laguna, destacam um movimento de empresários contra o projeto do governo elaborado por Paulo Guedes para mudar o Imposto de Renda.

A reação partiu de 120 empresas que enviaram carta ao deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, alertando quanto aos impactos negativos contidos num texto do governo.Os empresários consideram que ao invés da redução da carga fiscal, a proposta na realidade eleva o tributo.

OFENSIVA DAS EDITORAS –  Maria Isabel Miqueletto, em reportagem para o suplemento do Estadão de ontem, revela que as editoras de livros encontram-se na ofensiva de ampliar o mercado de seus produtos, o que na minha opinião revela a sempre forte presença da linguagem escrita.

Na realidade, a venda de livros avança de forma proporcional maior até do que a do crescimento da população em geral. Vale a pena acentuar mostrando duas faces da questão. Quando as emissoras de televisão, como é o caso da Globo e da GloboNews, reproduzem textos falados, eles são acompanhados de frases escritas colocadas nas telas. O segundo aspecto está no fato de a Amazon, que comercializa livros em todo o mundo, e que destaca autores em série, colocou o seu controlador Jeff Bezos entre os mais ricos do mundo.

Bolsonaro e Braga Netto se equivocam em ataque contra Omar Aziz, presidente da CPI

Omar Aziz criticou os oficiais do Exército envolvidos em acusações

Pedro do Coutto

Na noite desta quarta-feira, o ministro da defesa, general Braga Netto, redigiu uma nota juntamente com o presidente Jair Bolsonaro sustentando que as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro. Reportagem de Jussara Soares e Julia Lindner, O Globo de hoje, publica um documento que consta também o apoio dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Acontece que o senador Omar Aziz não atacou de forma alguma as Forças Armadas, e sim criticou os oficiais do Exército envolvidos nas acusações a respeito do episódio da compra de vacinas mediante a atuação do cabo da Polícia Militar de Minas Gerais, Luiz Paulo Dominguetti. Um escândalo tendo como alvo uma aquisição fantástica de 400 milhões de imunizantes.

GENERALIZAÇÃO – Os oficiais citados não só por Omar Aziz, mas também por demais membros da CPI, não representam tanto o Exército quanto as Forças Armadas. Portanto, na minha opinião, o documento redigido no Planalto faz, ele sim, uma generalização que não foi cometida, e que foi usada para, no fundo da questão, defender contraditoriamente o governo no caso do Ministério da Saúde.

Tanto havia suspeitas graves que o governo Bolsonaro demitiu o então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, do cargo que ocupava em decorrência direta das dúvidas sobre a sua atuação, colocadas em destaques pelo cabo da Polícia Militar.

Em nenhum o senador pelo Amazonas, presidente da CPI, atacou as Forças Armadas. Ele, Omar Aziz, não as desrespeitou. Pelo contrário, restringiu suas críticas a uma corrente que age acima da lei  e que mancha as fardas que vestem. Mas, nem por um centímetro, por sua conduta, agridem o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.

NEGOCIAÇÃO –  A citação do senador é evidente e restringe-se aos coronéis que participaram de uma negociação com Dominguetti, cabo da PM que responde a 37 procedimentos administrativos e que surgiu como intermediário de uma empresa, por sua vez também intermediária, da vacina indiana Covaxin.

O presidente Bolsonaro encontra-se desorientado, não pela CPI, mas pelos fatos. Assunto, inclusive, da competência do ministro Marcelo Queiroga que demitiu Roberto Ferreira Dias por sua aproximação com Dominguetti e cuja presença tanto na Saúde quanto no jantar do shopping é inexplicável pelas regras da lei.

EQUÍVOCO – O presidente da República e o general Braga Netto cometeram um equívoco já que o Exército brasileiro não pode ou se dispõe a fazer qualquer movimento capaz de beneficiar atores da corrupção que lutaram pela comissão acreditando estarem imunes tanto á Covid-19 quanto à letra da lei.

No momento em que escrevo esse artigo, está depondo a ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde Francieli Fantinato. Ela foi exonerada ontem pelo ministro da Saúde. Afirmou no início de seu depoimento que foi afastada em consequência da pressão política contra ela e de sua posição a favor da vacinação, mas sem interesses ocasionais de grupos.

Roberto Dias confessa rede de corrupção e teia de estupidez no Ministério da Saúde, mas acaba preso

Ferreira Dias percorreu um caminho sinuoso de contradições

Pedro do Coutto

Em seu comparecimento ontem à CPI do Senado que investiga a corrupção no Ministério da Saúde, o ex-diretor do Departamento de Logística Roberto Ferreira Dias, confessou, tacitamente por etapas e por um caminho de contradições, a teia de corrupção no Ministério da Saúde  relativa à aquisição de vacinas para enfrentar a Covid-19.

A confissão foi feita após longas horas de respostas desconectadas por parte do ex-diretor. Entretanto, Roberto Ferreira Dias além de confirmar por caminhos indiretos o esquema ilegal que culminava com a elevação dos preços das vacinas, também deixou claro um conjunto de estupidez que envolveu as ações e as omissões de um grupo de dirigentes da pasta formado também por militares.

ARTICULAÇÕES – Os saltos nos preços entre as vacinas negociadas e as ofertas de fabricantes não incluídas no esquema sinistro deixou clara a articulação dos ladrões que estavam prontos para assaltar os cofres do Tesouro Nacional. A prisão de Roberto Ferreira Dias atingiu a escala mais estranha dos fatos que se passaram na área do Ministério da Saúde. Mas eu disse que, além do impulso no sentido da corrupção, houve também uma rede de absoluta estupidez, até mesmo de burrice, dos envolvidos no esquema, indiretamente identificados pelo ex-diretor de Logística.

Digo isso porque só a estupidez e a burrice são capazes de montar no palco de Brasília uma peça tão sem nexo de corrupção. A tentativa chega mesmo a ser infantil, revelando o descrédito que os responsáveis pela articulação do assalto cometeram. Como é possível que pessoas alfabetizadas e até acostumadas a situações singulares possam se reunir num restaurante de um shopping em Brasília para falar sobre um projeto de comissão absurda e ilegal com um pessoa que quase todos conheceram no dia anterior ?

ESTRANHO NO NINHO – Sentaram-se à mesa ao lado de Luiz Paulo Dominguetti, um estranho no ninho da intermediação. Sequer levaram em conta que o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais responde a 37 processos judiciais e administrativos e, pelo visto, estava fora de suas funções na corporação mineira.

O senador Omar Aziz, presidente da CPI, decretou a prisão de Roberto Ferreira Dias por falso testemunho. Em seu depoimento por longas horas, Ferreira Dias percorreu um caminho sinuoso de contradições e ruptura com a verdade e com a lógica dos fatos. Não esclareceu as razões de sua demissão do cargo que só pode ter sido estabelecida pelo ministro Marcelo Queiroga.

ERRO POLÍTICO – Ainda na noite de ontem, o Jornal da GloboNews informou que senadores da bancada do governo estavam tentando reverter a prisão de Roberto Ferreira Dias. Não poderia haver erro político maior.

Afinal de contas, Ferreira Dias foi exonerado pelo próprio governo e, portanto, não tem lógica que senadores governistas partam para defendê-lo. Essa defesa equivocada significa que os empenhados na tarefa deixaram cair a máscara da vacinação e da corrupção.

QUEDA NA RENDA  –  Leonardo Vieceli, Folha de São Paulo, com base em dados do IBGE, revela um aumento acentuado de brasileiros e brasileiras que sofreram diminuição de renda ao longo dos últimos 12 meses e passaram para uma categoria na qual a fome é companheira muito próxima da pobreza e da miséria.

De junho de 2020 a junho de 2021, 4,3 milhões de pessoas sofreram recuo em seus rendimentos, em parte consequência da pandemia e que se efetiva também pelo corte de empregos tanto domésticos quanto outros informais. Para termos uma ideia desse drama, basta dizer que no país, acentua Leonardo Vieceli, 24,5 milhões de pessoas sobrevivem com uma renda de um quarto do salário mínimo, ou seja, R$ 250. Um quarto da população brasileira, praticamente.

IMPOSTO DE RENDA – O ministro Paulo Guedes propõe reduzir o Imposto de Renda das empresas, mas não consegue se sensibilizar pela miséria que afunda uma grande parcela da população. Como querer que a economia brasileira avance, se 25 milhões de pessoas não conseguem se alimentar quando despertam pelas manhãs em barracos e porões, além daqueles que dormem nas ruas?

A pesquisa que levou o IBGE a essa conclusão foi feita em parceria com a PUC do Rio Grande do Sul. A renda média brasileira, de outro lado, no que se refere ao trabalho, caiu no último ano e desceu para R$ 233. Baixíssima e que reflete a extrema compressão de consumo.

No que refere à população acima desse triste grupo, a renda média no mesmo período desceu de R$ 1428 para R$ 1302.  Mas, o governo Bolsonaro não se preocupa com o desemprego ou com a queda na renda. Segue a cartilha do ministro Paulo Guedes e se afasta das urnas de 2022.

Na compra de vacinas há intermediários demais

Charge do Duke (domtotal.com)

Pedro do Coutto

Os jornais de hoje, O Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, publicam com grande destaque os trabalhos de ontem da CPI da Pandemia, e  assinalam a existência de intermediários em série concentrados num objetivo certamente muito rentável de aquisição de vacinas para combater o coronavírus.

Isso ficou nítido na reportagem de André de Souza e Adriana Mendes, O Globo, destacando o depoimento da funcionária Regina Célia, extremamente sinuoso e cheio de avanços e recuos táticos, mas deixando claro que o contrato da Covaxin era repleto de falhas, especialmente no processo de importação.

DIFERENÇA DE PREÇOS – Além disso, ela não esclareceu, o que ninguém fez até o momento, a diferença de preço da empresa indiana e dos demais laboratórios que operam na produção de imunizantes contra a pandemia. Existe uma pluralidade de empresas e a presença de Paulo Dominguetti que acrescenta o seu lado nebuloso, pois o militar, revela a reportagem de Natália Portinari, o Globo, propôs ao revendo Amilton Gomes de Paula, fundador da Secretaria de Assuntos Humanitários, a doação da vacina indiana caso ele intermediasse também a negociação de 400 milhões de doses da AstraZeneca com o Ministério da Saúde.

Como se constata, Dominguetti tinha um pé na Índia e outro na AstraZeneca, focalizando o mesmo total de doses. Não se compreende, nem é possível, o que aconteceu na área da Saúde, pois o mesmo representante de duas empresas diferentes apresenta propostas de valores iguais pela mesma quantidade de vacinas que seriam importadas pelo país.

Hoje, com transmissão pela GloboNews, está depondo uma figura chave das sombras que envolvem uma operação mais do que suspeita e que traduz a certeza de que o escândalo venceu nas Esplanada de Brasília e revelou toda a fragilidade do governo Jair Bolsonaro.

COMISSÃO –  O depoimento de Roberto Ferreira Dias é fundamental, conforme estamos assistindo. Segundo a denúncia, Ferreira Dias  propôs cobrar uma comissão ilegal na base de US$ 1 de propina para cada dose da vacina Coxavin negociada da Índia destinada, segundo o intermediário Luiz Paulo Dominguetti, a um total de 400 milhões de vacinas ao preço de US$ 15 cada.

O processo transforma-se assim numa confusão propositalmente criada para enriquecer os atores da farsa que custaria um preço impossível a ser pago pelo governo brasileiro. Esses atores dispararam em matéria de projeto de corrupção que inclusive figura entre os maiores escândalos da história do país.

AFASTAMENTO DA FIESP – Numa entrevista à João Sorima Neto, O Globo, o novo presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Josué Gomes da Silva, filho do ex-presidente José de Alencar, governo Lula, deixa claro a necessidade de a Fiesp afastar-se politicamente do governo Bolsonaro, posição contrária à que foi assumida por Paulo Skaf, e que terminou conduzindo para segundo plano a defesa dos legítimos interesses da indústria na medida em que a aproximação neutraliza o compromisso da federação de lutar pelo desenvolvimento e pela expansão da indústria na economia brasileira.

Ainda funciona uma aproximação porque Josué Gomes da Silva somente assumirá a presidência da Fiesp em 2022. Mais um capítulo que acentua a perda de terreno do governo em uma área profundamente essencial. Destaca Josué Gomes da Silva que está havendo perda da participação da indústria na economia brasileira, hoje de forma mais acentuada nas mãos do agronegócio.

PESQUISAS – Danielle Brant e Ranier Bragon , Folha de São Paulo, revelam que o presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, deixou claro que pretende colocar em votação nas próximas semanas um projeto de lei que se volta para tentar censurar a divulgação de pesquisas eleitorais ao mesmo tempo que exige taxa de acerto. O projeto é absurdo, assim como a intenção de Lira.

No fundo, o objetivo é impedir que os institutos de pesquisas prossigam divulgando números sobre as eleições de 2022 e que apresentam Lula da Silva mais de 20 pontos à frente de Bolsonaro. O absurdo está configurado em vários pontos que revelam o desconhecimento absoluto sobre os levantamentos eleitorais. Em primeiro lugar, a censura é inconstitucional. Em segundo lugar, não pode haver a exigência de taxa de acerto.

A pesquisa eleitoral é a única que pode ser comprovada publicamente na prática. Nenhuma outra pode oferecer essa confirmação. Todos nós vivemos num ciclo de aproximações e nas pesquisas eleitorais as empresas jogam o seu destino. Se errarem perdem a credibilidade.

Em mais uma confusão do governo sobre vacinas, aumentam as sombras das suspeitas

Depoimento de servidora tornou imagem do governo mais vulnerável

Pedro do Coutto

O depoimento, ontem, da funcionária Regina Célia, encarregada do parecer a respeito da aquisição da vacina Covaxin, foi marcado por uma confusão sobre as datas envolvendo a proposta tanto no valor de compra quanto no valor de venda. A exposição que se alongou por várias horas, mostrou claramente um imbróglio absoluto no Ministério da Saúde, tendo a interferência de um grupo de atores, deixando também no ar  a hipótese da existência de uma proposta de comissão para titulares de cargos comissionados.

As datas das propostas e dos pareceres chocam-se entre si e demonstram um impulso turbinado por interesses que culminaram com um valor muito acima dos preços médios de todos os demais produtores da vacina anti-Covid, numa dança em que a empresa indiana passava a ocupar o primeiro lugar na preferência de aquisição.

CONTRADIÇÕES –  A confusão tornou ainda mais vulnerável a imagem do governo Bolsonaro, dando a certeza de que, de fato, o presidente da República não tinha conhecimento de nada e se encontrava numa desorientação que se tornou característica dos seus atos. Aliás, as contradições atingem também o texto constitucional no capítulo em que trata dos casos de impeachment.

Contradição levantada também ontem na Folha de São Paulo, pelo colunista Hélio Schwartsman, o artigo 86 da Carta Magna, parágrafo 4º, determina uma condição e outro parágrafo assinala o contrário, ou seja, a impossibilidade ao que se refere à votação necessária para que o chefe do Executivo possa responder ao processo relativo à omissão ou à intenção. Não é só a Constituição que incorpora contradições. Muitas leis brasileiras também, sobretudo porque quando uma medida legal substitui uma outra, no artigo final surge permanentemente a expressão “revogam-se as disposições em contrário”.

ESCAPISMO –  Há muitos anos, em 1963, numa entrevista a mim concedida no Correio da Manhã, o professor Miguel de Ulhoa Cintra chamou a atenção para o desfiladeiro que a expressão clássica pode ocultar. Isso porque o texto impõe, por si próprio, uma análise de quais são as disposições em contrário. O legislador interessado, e são tantos, em determinada redação, encontra uma estrada de escapismo. Por isso, digo eu, a legislação brasileira apresenta lacunas sobre lacunas.

Tem-se a impressão de que a necessidade é não somente da vacinação contra a Covid-19, como também de uma vacinação para o próprio Brasil voltada para imunizar as negociações a preços flagrantemente absurdos e comprometedores. Uma outra vacina deve ser aplicada, como citou Cristina Serra, Folha de São Paulo, contra o autoritarismo de Bolsonaro e o apelo a um golpe voltado para torpedear tanto o STF quanto o Congresso Nacional.

GASOLINA, DIESEL E GÁS  – A Direção da Petrobras ocupada pelo general Joaquim Silva e Luna estabeleceu um aumento bastante sensível para a gasolina, o óleo diesel e o gás de botijão. No governo Bolsonaro, o preço do gás de cozinha subiu 66%, a gasolina subiu 48% e o óleo diesel subiu 45%. Problema, portanto, para o IBGE e para a Fundação Getúlio Vargas que terão que levar em conta tanto esses preços quanto o reflexo deles no custo de vida e na inflação do país. 

Inclusive porque o repasse final das majorações recairá como sempre na cabeça de todos nós, consumidores. Na Petrobras, reportagem de Bruno Rosa, no O Globo, e Nicola Pamplona, Folha de São Paulo, o general Silva e Luna manteve a mesma política colocada em prática por Roberto Castello Branco, que por este motivo foi exonerado por interferência direta de Jair Bolsonaro.

A política, portanto, não mudou e continua se baseando nos preços internacionais do petróleo, na oscilação do dólar e no mercado internacional. Mas, assinalo, o que os consumidores brasileiros têm com o preço do petróleo no mercado brasileiro, com as oscilações flutuantes da taxa de câmbio ou com o câmbio internacional?

INFLUÊNCIA – O Brasil produz, refina e consome dois milhões de barris de petróleo por dia. A influência do dólar só se aplica nas exportações brasileiras de petróleo bruto e nas importações por produtos refinados em parques que o nosso país não possui. Mas esta diferença não é grande. Afinal de contas, citar o dólar por quê?

Ele tanto reflete as importações brasileiras quanto as exportações feitas pelo país. Não há justificativa para a dolarização da Petrobras, a menos que se considere a receita da Petrobras e o seu desempenho em relação aos acionistas. Mesmo assim, a Petrobras teria que levar em conta o aspecto social do nosso país.

BOLSONARO, UM DEMOLIDOR – Em um artigo muito bom, no O Globo de ontem, Merval Pereira focaliza e ilumina um aspecto que impulsiona os movimentos do presidente Jair Bolsonaro. São sempre no sentido de demolir alguma coisa que ele identifica pelo caminho. Após dois anos de sua posse, não há uma política construtiva, um ato voltado para o desenvolvimento econômico e também social, e não existe até hoje um projeto de governo.

Merval Pereira lembra que Bolsoanro, no fundo, ao fazer acordo com o Centrão, tenta efetivamente desmoralizar o parlamento na medida em que adota a prática de uma política de troca de interesses por ele próprio condenada quando percorria a estrada de sua candidatura ao Planalto.

O impulso demolidor e contraditório está atingindo duramente a população brasileira. De outro lado, ele rejeita definições científicas sobre a importância das vacinas e os laudos contra o uso da cloroquina. Merval Pereira acrescenta ainda que Bolsoanro se omite diante do escândalo arquitetado sobre a aquisição de 400 milhões de doses da Astrazeneca por um preço pelo menos 30% superior ao do mercado.  

DIGITALIZAÇÃO E ANITTA –  Numa entrevista a Isabela Bolzani, Folha de São Paulo, David Vélez, presidente do Nubank, que inclui fundos de investimentos do bilionário Warren Buffett, afirmou que o jogo financeiro no Brasil está só começando. O fundador do Nubank destaca a incorporação de Anitta em seu conselho de administração,

O próximo passo, com base em 40 milhões de clientes no Brasil, na Colômbia e no México, será progressivamente ampliar os serviços bancários digitais. Diz ele que pessoas que não tem histórico financeiro poderão adicionar limite no cartão e usá-lo como se fosse cartão de crédito. Admiro muito a sensualidade e a personalidade de Anitta que a levou e a mantém no absoluto sucesso alcançado. Mas não acredito que a digitalização em alta velocidade possa produzir por si crescimento econômico e muito menos redistribuição de renda.

Ao contrário, vamos aplaudir e concentrar nossa atenção no corpo extremamente sensual da cantora. Entretanto, não creio que o apelo sexual que os seus movimentos criam possam alavancar avanços econômicos. Prefiro vê-la dançando e fascinando os que, assim como eu, a admiram.

No desastre chamado Bolsonaro, renda do trabalho cai e reduz o poder de consumo

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

Além das repetidas atitudes e atos negativos do governo Bolsonaro, um estudo revela dramaticamente a queda do poder aquisitivo da população, especialmente das classes D e E, os mais pobres. Reportagem de Eliane Oliveira, Cássia Almeida, Gabriel Shinohara e Alex Braga, O Globo, desta segunda-feira, mostra que, mais uma vez, a renda do trabalho no Brasil se retraiu, comprimindo a capacidade de consumo, especialmente das classes de menor remuneração que representam 54,7% da força de trabalho brasileira.

O levantamento é da Tendências Consultoria e, a meu ver, reflete também o resultado decorrente do congelamento salarial e da subida de preços, criando um impasse efetivamente impossível de ser superado. A solução somente seria factível se os salários empatassem com a inflação do IBGE e da Fundação Getulio Vargas. Como isso não aconteceu,a força de trabalho do país perde cada vez por maior distância a corrida contra os preços.

RETRAÇÃO – O estudo considera gastos essenciais com alimentação, habitação, transporte, saúde, educação e comunicação. Por esse motivo, principalmente pelo maior peso do gasto com alimentação para os mais pobres, estima-se que a renda disponível, o dinheiro que sobra após as despesas básicas, encolheu entre os que ganham menos. Nas classes D e E, a queda este ano será de 17,7%.

Quanto mais baixa for a renda, maior é o peso algébrico da alimentação, pois se trata de uma questão de sobrevivência. Os segmentos de renda mais alta sofrem um impacto menor pelo aumento dos alimentos pois possuem tanto despesas essenciais, quanto aquelas que não têm o mesmo caráter.

O consumidor geral pode praticar os preços mínimos, mas para isso terá que percorrer no mínimo três supermercados por dia, o que é muito pouco provável. Como se constata, o desastre da atual administração é maior do que aquele que se poderia pensar.

VOCAÇÃO – O presidente da República tem uma vocação ao erro irreversível. Tanto é assim que, segundo ele próprio, não tinha conhecimento do tamanho da ofensiva de corrupção na área do Ministério da Saúde. Empresas produtoras de vacinas que não tinham necessidade de intermediários passaram a ser estranhamente representadas por pessoas sem conhecimento suficiente do tema, como assinalou o senador Tasso Jereissati, e portadoras de propostas mirabolantes, como as feitas e recebidas por Luiz Paulo Dominguetti.

Esta semana, a partir de hoje, terça-feira, será inevitavelmente bastante tensa e igualmente densa, uma vez que o senador Omar Aziz, presidente da CPI, convocará depoimentos específicos de envolvidos na trama e até mesmo promoverá acareações. O quadro crítico cada vez mais se expande e se aprofunda deixando perplexa a opinião pública brasileira.

DESMATAR, MATAR E ROUBAR  –  Muito bom o artigo de Fernando Gabeira na edição de ontem de O Globo sobre três verbos: desmatar, matar e roubar. O desmatamento ganhou a dimensão de um escândalo praticamente igual ao da investida por comissões baseadas na venda de vacinas e em pagamentos muito acima do valor de mercado com a participação até do ex-diretor de insumos do Ministério da Saúde.

Mas chama a atenção um fato altamente negativo. O roubo, de uns tempos para cá, transformou-se numa rotina envolvendo administrações públicas  e privadas. Sim, porque a corrupção se desenvolve no  campo sinuoso em que se articulam empresas e administradores públicos.

INVERSÃO – Chegou-se ao ponto de se pensar que ser honesto é algo negativo para investidura em cargos de maior responsabilidade. Pode estar até acontecendo o seguinte, alguém se dirige a quem tenha a caneta e diz ironicamente: “Você vai nomear esse sujeito, fulano ? Ele é honesto, atrapalhará tudo”. O que era exceção, a partir do governo Fernando Collor, transformou-se em fato constante.

Gabeira ilumina o caminho no qual o verbo roubar ganha uma incrível transparência. Infelizmente, está sendo assim e com isso aumenta a pressão sobre opinião pública cuja única saída é esperar pelas urnas de 2022.

TAXAÇÃO DE DIVIDENDOS – Na edição de domingo, Adriana Fernandes, do Estado de São Paulo, publicou reportagem assinalando que, com a taxação de dividendos, projeto do ministro Paulo Guedes, a administração Bolsonaro pretende arrecadar mais de R$ 54 bilhões no Imposto de Renda. A investida contra os dividendos também se volta sobre os lucros das empresas, inclusive de pequenas e médias.

Com base em estudo feito pelo economista Sérgio Gobetti, solicitado pelo Estadão, a taxação de dividendos atingirá 20 mil pessoas físicas, com renda média anual de R$15 milhões e patrimônio proporcional a tal rendimento. Essas 20 mil pessoas, entre 3,6 milhões de contribuintes de renda acentuadamente alta, vão proporcionar a arrecadação adicional que o governo projeta. Entretanto, acredito ser muito difícil que os dividendos venham a ser tributados, principalmente porque o imposto já incidiu sobre o balanço das empresas, notadamente os bancos.

Seria um caso assim de bitributação. Além do mais, os detentores de grandes riquezas, assim considerados na reportagem, reagirão e possivelmente o Congresso Nacional não aprovará o projeto. Mais uma produção do ministro Paulo Guedes que já chegou ao ponto de sugerir a distribuição de sobras de restaurantes para combater a fome no país.

Povo nas ruas contra Bolsonaro, pelo impeachment, pela vacina, contra o golpe e pela democracia

Governo Bolsonaro desmorona e não tem mais tempo para recuar

Pedro do Coutto

O povo voltou às ruas do país, principalmente na Avenida Paulista, no Rio de Janeiro, em Brasília, em diversas outras capitais e até no exterior, reunindo brasileiros que vivem em cidades americanas e na Europa.

Foram manifestações maciças que atingiram profundamente o presidente Bolsonaro e o governo, sobretudo na medida em que eventos tão intensos acrescentam o que estava faltando até há pouco, a voz do povo nas ruas fechando o círculo que isola ainda mais o presidente e o Palácio do Planalto.

ISOLAMENTO – No O Globo de domingo a reportagem é de Alfredo Mergulhão, Camila Zarur, Rodrigo Castro, Guilherme Caetano, Ivan Martínez Vargas e Mariana Muniz. Na Folha de São Paulo a reportagem não é assinada, mas tanto quanto o Globo destaca as manifestações que deixam a administração Bolsonaro isolada e vulnerável a qualquer ofensiva para decretação do seu impeachment.

O repórter Ricardo Balthazar, Folha de São Paulo, relata os diversos pedidos de impedimento contra o presidente e que estão engavetados pelo deputado Arthur Lira, presidente da Câmara  Federal. Lira é a última barreira colocada e voltada para resistir à onda da opinião pública contra um governo sem projeto e sem rumo, cuja atuação a cada dia piora, uma vez que o Planalto apoia-se em setores radicais da direita, nos produtores de mensagens nas redes sociais e no peso da inércia da Mesa Diretora, obstáculo para conter uma iniciativa que luta para afastar Jair Bolsonaro do cargo que ocupa, mas que não sabe agir dentro do espaço da liberdade e do regime democrático.

A pressão contra Bolsonaro aumentou no decorrer da última semana, conforme destaca Bernardo Mello Franco, O Globo. Em matéria de impeachment , acredito que a questão terminará no Supremo Tribunal Federal, quando os que assinaram os pedidos recorrerem contra a atitude de Arthur Lira.

ACIMA DA LEI – Não tem sentido o presidente de uma Casa do Congresso colocar-se acima da legislação e do bom senso, negando o recurso do plenário, o que caracteriza um caso singular. A maioria da Câmara inclina-se por votar a abertura do processo, mas encontra o bloqueio de Lira.

A contradição de tal atitude é evidente porque se a lei em vigor prevê a hipótese de o plenário rejeitar a posição do presidente da Casa, tal hipótese só pode se configurar depois que esse presidente liberar a matéria para a discussão do plenário, pois se não fizer isso estará barrando uma perspectiva legal bastante clara.

Mas como são 120 requerimentos contra o governo, os signatários deverão se reunir, penso eu, e redigir um documento comum para que a corrente possa entregar ao Supremo o desfecho e o destino da questão.

CASO HERZOG – Em um excelente artigo publicado ontem, no O Globo, Míriam Leitão destaca o transcurso dos 80 anos de Clarice Herzog, mulher do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do II Exército em 1975. Praticaram a farsa do suicídio por enforcamento quando ele de fato foi morto por torturas praticadas pelos órgãos de repressão, marcado por violento impulso de sadismo.

Cerca de duas semanas depois do assassinato de Herzog, um fato sinistro se repetiu com o operário Manoel Fiel Filho, nas mesmas dependências marcadas pelo desespero do jornalista e pelo desespero do operário, duas vítimas do maior crime hediondo da história que é a tortura.

Foi importante Míriam Leitão focalizar o tema em um momento em que, cada vez mais, se aproxima um desfecho que inclui o impedimento de Bolsonaro e a sua substituição por Hamilton Mourão. Isso porque, aceito o pedido de impeachment, o plenário da Câmara votará o afastamento de Bolsonaro pelo prazo de 120 dias. É possível, portanto, que superado o prazo de quatro meses, o afastamento provisório termine tornando-se definitivo.

FHC – O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em artigo publicado no O Globo, dentro de seu estilo de não entrar em bola dividida, aconselhou Jair Bolsonaro  a prestar atenção ao que acontece no país, incluindo o acesso aos fundos públicos. Não deveria desviar o olhar, acrescentou, deixando a impressão de que os fundos públicos citados seriam os recursos dos planos de aposentadoria complementar das empresas estatais, como é o caso da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Eletrobras.

FHC diz que o presidente Bolsonaro deve atuar positivamente enquanto tem tempo. Discordo, pois não há mais tempo para recuar. O escândalo da compra de vacinas acentuado por Elio Gaspari em seu espaço no O Globo e na Folha de São Paulo deixa o Executivo numa situação de calamidade administrativa.

Conforme já dito aqui anteriormente, a queda livre do presidente foi acelerada pelo episódio estranhamente sombrio da intermediação da Covaxin indiana que não engana ninguém. A proposta foi arquitetada por uma teia de interesses que não dá margem para escapismos. A semana que se inicia aprofundará ainda mais a carga da opinião pública sobre o governo que faz oposição a si mesmo e, portanto, a todo o país.

MUSICAIS DO CINEMA –  Para não dizer que não falei das flores, restringindo-me apenas ao cheiro da pólvora dos levantes políticos, destaco o artigo de Ruy Castro, Folha de São Paulo, sobre os musicais do cinema. Ele citou “Cantando na Chuva” (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly, e “My Fair Lady” (1964), de George Cukor.

Concordo, acrescentando “Sinfonia de Paris” (1951), de  Vincente Minnelli, e “La Ronde” (1951),  dirigido por Max Ophüls. Há também que assinalar a beleza da “Noviça Rebelde”. Mas “Cantando na Chuva” e “Sinfonia de Paris”, ambos com Gene Kelly, um gênio da dança, são igualmente inesquecíveis.

Pertencem ao passado e não creio que estilo eterno de sensibilidade e beleza  possa retornar na época de hoje. Deixam saudade e não se encontram nos catálogos da NetFlix, do Now ou da Amazon. Creio que a solução é adquirir os cassetes e também a tela na qual poderão ser exibidos. Ruy Castro, mais uma vez, assinala a sua condição que já lhe atribui de passageiro da história reveladora e tradutor do passado.

PGR (sem Aras) acelera a queda de Bolsonaro e governo entra em sua fase final

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Assinado pelo vice-procurador geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, a PGR, respondendo a um despacho da ministra Rosa Weber, formalizou o pedido de inquérito contra o presidente Jair Bolsonaro, acusando-o de prevaricação, principalmente por não ter tomado medida alguma sobre a denúncia do servidor Luis Ricardo Miranda e do seu irmão, o deputado Luis Miranda, sobre um projeto de corrupção praticado pelo então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias.

Segundo a denúncia, Ferreira Dias  propôs cobrar uma comissão ilegal na base de US$ 1 de propina para cada dose da vacina Coxavin negociada da Índia destinada, segundo o intermediário Luiz Paulo Dominguetti, a um total de 400 milhões de vacinas ao preço de US$ 15 cada.

EXAGERO – O preço da unidade estava em US$ 15, muito superior ao dos demais laboratórios fabricantes. A proposta foi considerada como um exagero na medida em que prometia um fornecimento de 400 milhões de doses da Astrazeneca para o Ministério da Saúde.

Os leitores deste site provavelmente se perguntam qual o motivo que levou o vice-procurador geral, Humberto Jacques de Medeiros, a se dirigir a ministra Rosa Weber, substituindo assim o procurador-geral Augusto Aras, cujo silêncio foi interpretado como uma fuga da responsabilidade do ato que levará à investigação do presidente da República e, por extensão, vários assessores do Palácio do Planalto.

O ato de Humberto Jacques de Medeiros sintetizou, praticamente, uma revolta dos procuradores contra o procurador-geral, Augusto Aras, aliado do presidente da República, e que temeu se deslocar para uma posição incômoda que o excluiria tanto de investidura em mais dois anos na Presidência da PGR como de sua indicação à vaga de Marco Aurélio Mello, no Supremo tribunal Federal.

RESISTÊNCIA –  Não conseguindo conter o movimento da maioria do Ministério Público Federal, Aras dificilmente poderá ser nomeado para a Corte Suprema. Por falar na vaga de Marco Aurélio, o outro candidato, André Mendonça, já está enfrentando resistências prévias por parte do Senado e também pela maioria do próprio STF. Mas a nomeação para o STF é outro assunto.

A ministra Rosa Weber, que havia cobrado uma ação concreta da PGR, acolheu o tema e estabeleceu a investigação de Bolsonaro no caso das suspeitas do jogo de interesses e de corrupção sobre o episódio Coxavin e Ferreira Dias, cuja conexão transformou-se em um escândalo colossal.

O Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo tiveram como manchete principal nas edições de ontem a investigação contra Bolsonaro autorizada por Rosa Weber. No O Globo, a reportagem foi de Leandro Prazeres e Mariana Muniz. Na Folha de São Paulo de Matheus Teixeira. No Estado de São Paulo a matéria foi produzida por uma equipe integrada por Pepita Ortega, Rayssa Motta, Weslley Galzo, Daniel Weterman, Matheus Lara e Marcelo de Moraes.

FASE FINAL – O presidente Jair Bolsonaro que já se encontrava em queda livre assume de forma bastante nítida o seu ingresso na fase final de um governo acionado por suas próprias atitudes ao lado de erros e das omissões gigantescas de parte do Palácio do Planalto cuja constelação teve suas faces atingidas, causando também uma sucessão de fatos que conduziram o país a uma total perplexidade.

O governo está em um abismo que separa de um lado o bom senso e de outro o delírio de poder e o desprezo pelo eleitorado que o levou à vitória de 2018 e que não consegue visualizar a enorme dualidade entre o candidato buscando votos e o presidente da República tentando apoios pouco legítimos.

Inúmeros pedidos de impeachment encontram-se engavetados na mesa do deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal. Agora, entretanto, representantes da oposição e eleitores arrependidos de Bolsonaro ingressaram com um super pedido de impedimento numa tentativa clara de deslocar para o STF a questão envolvendo a inércia proposital da Mesa Diretora da Câmara.

LEGITIMIDADE – A esse respeito Hélio Schwartsman, Folha de São Paulo deste sábado, escreveu um artigo muito importante no qual coloca no debate a legitimidade ou não de um requerimento encaminhado no final da última semana reivindicando o desarquivamento dos pedidos contra Bolsonaro, cujo número vinha aumentando acentuadamente. São 120 requerimentos, todos eles pelo afastamento do presidente da República.

Hélio Schwartsman coloca bem a questão ao dizer que se a legislação prevê a hipótese do plenário de uma das casas do Congresso decidir pela colocação em pauta do impeachment, ele, o requerimento, terá que ser logicamente debatido, pois se assim não fosse, inclusive sob o ângulo constitucional, não seria possível o plenário derrubar o despacho do presidente da Casa.

PREVARICAÇÃO –  Numa entrevista de página inteira à Julia Lindner e Natália Portinari, O Globo de ontem, o presidente da CPI da pandemia sustenta que diante dos fatos que vieram já vieram à tona, qualquer servidor público diria que Jair Bolsonaro prevaricou na medida em que não tomou nenhuma atitude diante da denúncia recebida pelo deputado Luis Miranda e pelo seu irmão, Luis Ricardo Miranda, formalizada no dia 20 de março.

Omar Aziz destaca a sua surpresa com o fato de servidores de alta categoria aceitarem jantar com Dominguetti para conversar sobre compras de vacinas sem nunca o terem visto na vida. Esta é a indagação que a opinião pública brasileira está fazendo, pois se trata de um episódio de um absurdo completo.

PROCESSOS – Dominguetti é cabo da Policia Militar de MInas Gerais e responde a 36 processos  administrativos e militares junto à corporação. Além do mais, está sendo cobrado pela aquisição de um automóvel e não ter pago as prestações devidas. O senador Tasso Jereissati, como a Globo News exibiu na sexta-feira, demonstrou-se surpreendido com a participação de um intermediário, não especialista na matéria.

O governo Bolsonaro, portanto, está ingressando em seu capítulo final, transformando-se no maior líder da oposição a seu próprio governo, comandando paralelamente uma corrente negacionista que atinge em cheio a população brasileira.  

Vacina indiana é mais um capítulo no projeto de corrupção na área da Saúde

Charge do Bira Dantas (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

O depoimento do policial militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominguetti, que repercutiu intensamente na imprensa e na televisão, não tem ligação direta com um outro escândalo que explodiu na área do Ministério da Saúde relativo ao projeto de compra no valor de R$ 1,6 bilhão da Covaxin, vacina produzida pela Índia.

Reportagem de Vinicius Sassine, Folha de São Paulo desta sexta-feira, focaliza o projeto global para recebimento de comissões ilegais, colocando em destaque o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, afastado do cargo através do qual seria realizada uma transação relativa à compra de vacinas independentemente da proposta da Davati Medical Supply. Portanto, são dois lances extremamente críticos, um diferente do outro, mas ambos culminando na área de Ferreira Dias.

RESERVA DE RECURSOS – O ex-diretor autorizou a reserva de recursos na escala de R$ 1,6 bilhão, transação a qual inclui um pagamento adiantado de US$ 45 milhões. O elo comum nos dois casos fechava-se no departamento que tinha Ferreira Dias como titular.

Como se constata, a desordem também era um fato importante e dominante na área do Ministério da Saúde em relação ao qual o presidente Bolsonaro apontava o seu desconhecimento. Surpresa foi ele não ter sido informado sobretudo pela Agência Brasileira de Inteligência, sediada no próprio Palácio do Planalto. São assim, na realidade, dois capítulos independentes mas que se unem em relação ao governo com o mesmo propósito.

Há contradições que dão margem à convocação de vários assessores envolvidos para acariação com Dominguetti a partir da próxima semana. Essa decisão foi tomada pelo senador Omar Aziz , presidente da CPI. O escândalo assim se amplia e acumula tensões no fim de semana que começa hoje, dando oportunidade aos acusados e envolvidos nominalmente de apresentarem as suas versões.

CONFLITOS –  Pessoalmente não acredito que possa haver alguma composição de bastidor entre os apontados como responsáveis. É evidente que os interesses são conflitantes, exceto convergências na área do departamento de Logística do Ministério da Saúde. Porém, curvas sinuosas que não se interligam entre si, interligam a responsabilidade do governo em não cortar em tempo útil as sombras que desceram sobre a Esplanada do Planalto.

Há um aspecto realmente fantástico, pois se Ferreira Dias, segundo afirmou, conhecera Dominguetti em um jantar num restaurante de um shopping em Brasília, em um clima enigmático em face da proposta de corrupção, é absolutamente incrível que o titular de cargo desta importância possa ter aceitado colocar um caso tão sensível, como o da compra de vacinas, diante do então desconhecido Luiz Paulo Dominguetti, agora um dos principais interlocutores do episódio.

O ministro Marcelo Queiroga também agiu tardiamente ao só afastar o ex-diretor na semana passada, quando desde o início de 2021 Bolsonaro já havia sido informado pelo funcionário Luis Ricardo Miranda e pelo seu irmão, o deputado federal Luis Miranda.

EX-ALIADOS – Antes tarde do que nunca, diz o velho ditado. Mas o fato é que o espaço de tempo entre a informação e decisão ampliou incrivelmente o desgaste do governo Bolsonaro. Tanto assim, que O Globo colocou na primeira página da edição de quinta-feira uma foto reunindo opositores do Planalto, entre os quais ex-aliados de Bolsonaro que não suportaram as contradições entre os compromissos da campanha com os caminhos percorridos pelo governo.

A adesão de ex-apoiadores, tenho certeza, tornou-se a maior preocupação de Bolsonaro, uma vez que existem bolsonaristas arrependidos pelo voto confiado. Agora, a crescente transferência dos votos para Lula e outros candidatos representa o esvaziamento sensível e uma dificuldade na tentativa de Bolsonaro reeleger-se. Além disso, o ministro Paulo Guedes apresentou um projeto que no fundo, sob a capa de reduzir o imposto de renda, o eleva sobre a classe média.

As próprias empresas se espantaram com o anúncio da medida que poderá beneficiá-las, mas que vai funcionar inevitavelmente como mais um desgaste do Executivo em um momento absolutamente impróprio. O governo, sem projeto, desceu degraus nas pesquisas, tanto do Datafolha quanto do Ipec, e vê ampliar-se contra si mais um efeito da lei irremovível de gravidade.

Governistas mobilizam-se contra Dominguetti, mas evitam contestar a denúncia

Senadores governistas chegaram a pedir a prisão de Dominguetti

Pedro do Coutto

Os senadores do bloco do governo, presentes na sessão de ontem na CPI da Pandemia, mobilizaram-se e partiram para o ataque contra o denunciante Luiz Paulo Dominguetti, buscando desacreditar o seu relato e levantando uma série de fatos negativos sobre o integrante da Polícia Militar de Minas Gerais.

Foi colocada a questão sobre quais motivos ele não formalizou a denúncia à PMMG e deixou para revelá-la na entrevista de terça-feira desta semana na Folha de São Paulo. A ofensiva do governo, sem dúvida, abalou a presença de Dominguetti na CPI, mas não o conteúdo da proposta, segundo ele apresentada pelo então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, na base de US$ 1 de propina para cada dose de vacina negociada

COMISSÃO – O preço da unidade estava em US$ 15, muito superior ao dos demais laboratórios fabricantes. A proposta foi considerada como um exagero na medida em que prometia um fornecimento de 400 milhões de doses da Astrazeneca para o Ministério da Saúde. A comissão seria assim, de acordo com Luiz Paulo Dominguetti, de US$ 400 milhões.

Despertou perplexidade toda a negociação e os seus aspectos. A acusação contra Ferreira Dias permaneceu na atmosfera de Brasília porque em momento algum os apoiadores do governo Bolsonaro contestaram o conteúdo da denúncia do intermediário Dominguetti. Assim, a crise permanece.

Senadores governistas chegaram a pedir a prisão de Dominguetti, mas o presidente da CPI, senador Omar Aziz, não acolheu a proposta. Promoverá na próxima semana uma acareação entre os personagens citados no relato de ontem.

PRODUTO INTERNO BRUTO – Eis aí uma questão a ser explicada pelo IBGE e pela Fundação Getúlio Vargas. Como pode haver perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto este ano na escala de 3% a 4%, se a taxa de desemprego ficou em 14,7% no trimestre encerrado em abril, de acordo com reportagem de Carolina Nalin e Alex Braga, O Globo ?

São milhares de brasileiros e brasileiras lutando sem conseguir retornar ao mercado de trabalho. Fica evidente que os que conseguirem se empregar encontrarão salários muito menores do que a média que encontrariam se a situação entre demanda e oferta fosse de equilíbrio. Além disso, os repórteres, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE, revelaram que a mão-de-obra desperdiçada no Brasil chega a 33,2 milhões de pessoas, uma elevação de 2,7% no último trimestre.

Não faz sentido, na minha opinião, projetar um crescimento do PIB numa escala muito superior à taxa demográfica se o desemprego continua subindo e sufocando grandes parcelas da população.  O IBGE e a FGV fariam um trabalho bastante útil à sociedade analisando o processo que coloca em posições antagônicas a previsão de crescimento do PIB e o número de desempregados no Brasil.

Bolsonaro cometeu um erro colossal ao tentar se blindar atacando a CPI da Covid

Charge do Amarildo (diariodocentrodomundo.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro e a sua assessoria direta no Palácio do Planalto cometem um erro político colossal ao tentar negar a investida do então diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, tentando concretizar uma proposta de corrupção feita ao representante da Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, gravada tanto por celular quanto pelo circuito interno do restaurante em que se encontraram pela primeira vez em Brasília.

O assunto, como era de se esperar, foi a manchete principal de O Globo e da Folha de São Paulo desta quinta-feira. Bolsonaro atacou todos integrantes da CPI chamando-os de “bandidos” e, ao mesmo tempo, classificou de mentiras as versões que apontam para um lance de corrupção em larga escala numa encomenda de vacinas da ordem de R$ 1,6 bilhão, operação da qual Ferreira Dias teria exigido US$ 1 de propina para cada dose de vacina negociada. Na Folha de São Paulo, a reportagem é de Daniel Carvalho e de Ricardo Della Coletta. No O Globo,  de Jussara Soares e Paula Ferreira.

NEGATIVA – A empresa Davati Medical Supply, através de seu presidente, Herman Cárdenas, nega ter negociado a propina que envolveria a venda de 400 milhões de doses da Astrazeneca para o Ministério da Saúde. A negativa será analisada no inquérito aberto na Polícia Federal com base nos trabalhos da CPI da Pandemia.

O governo resiste também em substituir o deputado Ricardo Barros do posto de líder do governo na Câmara pois ele é o autor da indicação do diretor acusado de negociar a propina com o representante da Davati Medical Supply. Enquanto isso, Raquel Lopes e Renato Machado, também na Folha, destacam que a CPI decidiu convocar o vendedor da vacina Luis Paulo Domingueti Pereira, que depõe nesta manhã à CPI, e também convidar o deputado Ricardo Barros para prestar esclarecimentos.

PREVISÃO – Há cerca de dois meses, eu que não sou profeta, disse nesta coluna que Bolsonaro poderia nao completar o mandato em consequência de suas próprias atitudes e contradições que levaram o candidato vitorioso nas urnas de 2018 a se transformar no presidente que adotou caminhos contrários aos compromissos assumidos com os eleitores e eleitoras.

Argumentei que a crise ocorria dentro de uma atmosfera densa, lembrando a pressão existente que atingia o Planalto. Disse, inclusive, que tudo poderia levar a esse desfecho e que Bolsonaro poderia até não disputar a própria reeleição. Ao que tudo indica, a crise política e administrativa está seguindo a previsão.

Desinformado, Bolsonaro pode ficar no Planalto, mas perde o poder de governar

À deriva, Bolsonaro comprova que é o maior adversário de si mesmo

Pedro do Coutto

Os fatos comprovaram a investida do Ministério da Saúde para montar e operar uma corrupção gigantesca, como ficou comprovado na encomenda da vacina produzida na Índia. O presidente da República não sabia o que estava se passando e com isso enfraqueceu-se politicamente, confirmando o princípio não só político, mas da vida humana de que não adianta lutar contra os fatos. Eles ressurgem com efeitos ainda mais arrasadores.

O projeto de corrupção que culminou com o afastamento  do encarregado da compra da Covaxin era maior e mais concreto do que se poderia pensar. O representante da Saúde queria que a intermediação por uma empresa participante da articulação pagasse uma propina de US$ 1 por dose de vacina.

ESCÂNDALO –  A intermediação em casos assim já é esquisita em si. As demais produtoras com preços muito inferiores ao de US$ 15 a unidade não incluíram nenhuma intermediação em suas ofertas. A reportagem de Constança Rezende, Folha de São Paulo de ontem, manchete da edição, destaca com nitidez o aspecto dramático do escândalo que estava sendo preparado.

Não fosse a imprensa e a CPI do Senado, o estranho caso teria se realizado com um prejuízo total para o Brasil, proporcionando indiretamente talvez  mais 100 mil mortes, justamente em consequência de um fornecimento  que pelo preço tornar-se-ia mais restrito e pela demora ainda mais fatal. No O Globo, Paula Ferreira, Jussara Soares, Melissa Duarte e Paulo Cappelli acentuam a decisão tardia, mas inevitável, do governo Bolsonaro de suspender o contrato com a fabricante e comercializadora da Covaxin.

Logo, o presidente da República e o ministro Marcelo Queiroga reconheceram tacitamente a existência de um contrato que previa até um adiantamento no valor de US$ 45 milhões. Uma outra reportagem da Folha, da Natália Cancian, focaliza o recuo que destaca a fraqueza de um governo que, na campanha eleitoral de 2018, apresentou como compromisso de honra exatamente o combate  à corrupção que se instalou sob o patrocínio da bancada do Centrão, fisiológica ao extremo, e o endosso por parte do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros.

RASTROS – A derrota do governo foi total, seja no aspecto da improbidade, no aspecto político e no efeito eleitoral para 2022. O panorama hoje na Esplanada de Brasília é o de um desabamento que deixa rastros quase impossíveis de se apagar e cujos efeitos intoxicam toda a administração federal.

Aliás, já fortemente intoxicada pelo ex-ministro da Educação Abraham Weintraub que na reunião de maio de 2020 bradou pela prisão, sem motivo, dos ministros do Supremo Tribunal Federal, classificando-os de “vagabundos”. A mesma reunião, cujo vídeo se encontra nas redes, liberação determinada pelo ministro Celso de Mello do STF, representa um momento de tristeza porque fica na história como registro de uma falta de administração.

O ex-ministro Ricardo Salles, demitido do Meio Ambiente, usou a expressão “passar a boiada” quanto à liberação de investimentos na Amazônia independentemente de licença ambiental. Na mesma reunião, o ministro Paulo Guedes defendeu a venda do Banco do Brasil, esquecendo que o principal estabelecimento de crédito brasileiro tem grande parte de seu capital colocado através de ações no mercado da Bovespa.

IMPEACHMENT – Thiago Resende e Daniele Brand, Folha de São Paulo, sustentam que Jair Bolsonaro ainda tem base no Congresso para obstruir a tramitação das dezenas de pedidos de impeachment que se encontram no arquivo de ferro do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira.

Conforme disse no início deste artigo, Bolsonaro pode permanecer em Brasília até as eleições de 2022, mas o seu poder de governar está flutuando junto às nuvens da desinformação e do desinteresse em saber e ter conhecimento. A informação é, em última análise, tanto a fonte quanto o poder de administrar o país. Na ausência de qualquer projeto de governo, a impressão que se tem é a de uma nau sem rumo enfrentando mares revoltos e tornando o chefe do Executivo no maior adversário de si mesmo.

Acrescente-se ao quadro desolador mais um fato de grande amplitude: o aumento das tarifas de energia elétrica. Sobem os custos da indústria, do comércio e dos serviços através da eterna cadeia de repasses. Só nós, os consumidores, não temos para quem repassar, pois estamos no final da linha. O ministro Paulo Guedes deve saber disso.

Bolsonaro tenta eximir-se pela fuga mas não pode ignorar denúncias de alta corrupção

Charge do Amarildo (diariodocentrodomundo.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro recorreu ao escapismo banal no caso do contrato projetado através do Ministério da Saúde com a vacina indiana Covaxin e afirmou absurdamente não ter como saber o que acontece nos bastidores dos ministérios. Não tem a menor veracidade a sua versão, o que o deixa muito mal, mais uma vez, diante da opinião pública, da população em geral e do eleitorado brasileiro.

Ele pode não saber o que acontece em matéria de pequenos movimentos administrativos, mas quando os movimentos nos ministérios ganham a dimensão que alcançou a denúncia do servidor Luis Ricardo Miranda e do seu irmão, o deputado Luis Miranda, ele não pode agir como se não tivesse ouvido nada. Seria impossível. A obrigação da qual se encontra revestido pelo seu mandato é a de apurar imediatamente as denúncias.

VIDAS EM JOGO – Era se basear, inclusive, numa escala de preços facilmente identificável comparativamente. O preço unitário da vacina indiana era de US$ 15, várias vezes maior do que o preço das vacinas dos laboratórios que chegaram até a oferecer a aquisição de imunizantes antes da pandemia se alastrar. Uma transação orçada em R$ 1,6 bilhão não pode ser considerada pelo Planalto como um fato menor ou um acontecimento de simples rotina administrativa. Além de tudo, estavam e ainda estão em jogo milhares de vidas humanas.

O preço extorsivo, é claro, viria a reduzir parcelas enormes do povo da contaminação que ameaça a saúde e a vida. No O Globo a reportagem é de Melissa Duarte, edição de ontem. Na Folha de São Paulo, de Daniel Carvalho e Fábio Pupo. No Estado de São Paulo, do repórter Vinícius Valfré. Em síntese, foi mais um desastre do governo que até hoje, concretamente, não conseguiu elaborar sequer um projeto de grande porte, e não chegou a consolidar um planejamento global de efeito econômico e social para o país.

CONTRADIÇÕES – Pelo contrário, os episódios se sucedem, expondo uma sequência de contradições entre os compromissos da campanha eleitoral de 2018 e as ações do presidente da República. Se Bolsonaro não pode saber o que acontece nos ministérios, quem poderá ?

Os irmãos Miranda, vale acentuar, levaram a sombra da suspeita ao presidente no dia 20 de março. Passaram mais de três meses. Nesse meio tempo a bomba explodiu na Esplanada de Brasília e deixou o governo numa posição terrível, não conseguindo explicar de forma convincente o que aconteceu no Palácio do Planalto.

Bolsonaro não tem justificativa para alegar o desconhecimento que diz tê-lo separado da realidade. Verifiquem os leitores que ele não nega o conteúdo da denúncia, mas diz que não sabia do conteúdo que lhe foi levado. Portanto, ele não nega a forte sombra de suspeita. Não é por aí. Incrível a sucessão de fatos que abalam esse governo e que está prestes a desmoronar.

Transferência de votos de Bolsonaro para Lula conta em dobro para as urnas de 2022

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

A pesquisa do Ipec que apontou 49% para Lula contra 23% para Jair Bolsonaro, diferença de 26 pontos, apresenta uma característica bastante crítica para o atual presidente da República. A reportagem de Gustavo Schmitt, no O Globo desta segunda-feira, com base  no mais recente levantamento do instituto que sucedeu o Ibope, assinala que um quarto dos que votaram em Bolsonaro nas eleições de 2018 estariam dispostos a votar no ex-presidente Lula se as eleições fossem hoje.

Para analisar pesquisas não se pode apenas ver o fato, mas, sobretudo, ver no fato. Quando um candidato perde pontos em sua popularidade e tais pontos se transferem para o seu principal adversário, essa transferência vale o dobro, uma vez que o presidente perde uma parcela e tal parcela vai para o seu rival. Por isso é que Lula está alcançando 49% contra 26% de Bolsonaro.

ISOLAMENTO – A pesquisa também assinala uma tendência que é o declínio de Bolsonaro e o seu isolamento nas correntes ideológicas da direita. Por isso, é que  ele se encontra na faixa de 26%. Mas isso hoje. Na minha opinião, descerá um pouco mais, ficando com cerca de 20% dos votos, ao que tudo indica serem bastante sólidos.

O professor Oswaldo Amaral, da Unicamp, assinala a reportagem, fala nas bandeiras conservadoras peculiares a Jair Bolsonaro e, se assim não fosse, não haveria razão para Paulo Guedes ser o ministro da Economia. Entretanto, Oswaldo Amaral admite a hipótese de Bolsonaro se recuperar nos 18 meses que separam o dia de hoje das urnas de amanhã.

Pessoalmente não creio nessas possibilidades. Para que se viabilizassem haveria a necessidade de uma mudança radical por parte de Bolsonaro e da atual política de congelamento dos salários.

REDUÇÃO DE PESSOAL – Glauce Cavalcanti, Carolina Nalim e Gabriela Medeiros publicam reportagem também no O Globo revelando que, desde 2015 até hoje, os governos Dilma, Temer e Bolsonaro cortaram 111 mil empregos nas empresas estatais, principalmente na Petrobras e Eletrobras, no caso desta última de forma mais acentuada no quadro de Furnas.

Um objetivo  dos governos foi e está sendo o de reduzir a folha de salários. Mas este é um fato que não se firma por si e acentua uma contradição lógica e inevitável. As demissões acarretam também consigo queda na receita do INSS, na receita do FGTS e na arrecadação do próprio Imposto de Renda. O Imposto de Renda inclui a incidência de 27% sobre as folhas de vencimentos. O INSS inclui a parte dos empregados que oscila em várias escalas de pagamento, enquanto o Fundo de Garantia é de 8% sobre o total das folhas. Há ainda a acrescentar um detalhe fundamental; no caso dos empregados as empresas recolhem 20% sobre os pagamentos mensais. Esta é, sobretudo, a maior contribuição previdenciária.

Todas as receitas encolhem em consequência da demissão de 111 mil pessoas que também, como é natural, passaram a consumir menos. Portanto, as aparentes reduções do número de empregados têm consequências tanto nas contribuições dos empregadores quanto na arrecadação de tributos federais, para não dizer nos reflexos das receitas estaduais e municipais.

BARROS NO PODER – Thiago Resende, Folha de São Paulo, é autor de matéria que ressalta o fato de o deputado Ricardo Barros ser mantido como líder do governo na Câmara Federal.  Dificilmente aconteceria o contrário, pois se acontecesse confirmaria a veracidade das denúncias que flutuam sobre a pretendida aquisição da vacina Covaxin produzida pela Índia.

Não é do estilo de Bolsonaro confirmar a realidade contra si mesmo, pois ele atua na base de uma realidade exclusiva dele mesmo. Por isso, quando a realidade efetiva se torna incontestável, colocando um abismo na frente de seus passos, ele ataca a imprensa fortemente, transferindo para os jornais e as emissoras de televisão a responsabilidade sobre os aspectos negativos do seu governo.

Para ele, Bolsonaro, não importa os fatos concretos, mas sim a sua exposição pública e a confirmação pelo clima que está se verificando no Planalto. Sobre este aspecto, a jornalista Catarina Bustamante, Folha de São Paulo, acentua que Jair Bolsonaro é um presidente fraco na medida em que está dependendo do Centrão para se manter no poder.

OPINIÃO PÚBLICA – Mas acredito que tal apoio não seja suficiente, pois um político dificilmente pode se manter quando existe uma opinião pública tão fechada e até mesmo motivada contra ele. Motivação que se instalou no Brasil em consequência direta do fracasso atual da administração e seu preconceito contra vacinas, máscaras e distanciamentos.

Com isso, Bolsonaro não somente tirou a máscara, mas principalmente ofereceu à população uma face amedrontada.

Encurralado por si mesmo e pelos seus atos, só resta a Bolsonaro a renúncia

Situação de Bolsonaro torna-se a cada dia mais insustentável

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro encontra-se encurralado e sufocado principalmente por seus próprios atos, pelo seu descontrole e pela sua falta de visão para governar o país, conforme ficou nítido na última semana. Resta somente a ele no plano legal a renúncia como desfecho lógico da atual crise, tão política quanto moral, e que envolve infelizmente o panorama brasileiro.

A edição do Jornal Nacional da TV Globo na noite de sábado deixou claro essa solução como a mais provável e menos impactante do que qualquer outra. A edição do JN foi longa e apresentou a fase até então inédita dos trabalhos da CPI na noite de sexta-feira. A sessão terminou tarde e, com base nisso, o noticiário acrescentou ao quadro com a citação do nome do deputado Ricardo Barros como o articulador principal do propósito de aquisição das vacinas Covaxin da Índia.

COMPROMETIMENTO – A senadora Simone Tebet cobrou intensamente a convocação do parlamentar, já que também o deputado Luis Miranda, depois de vacilar em citar o líder do governo, terminou admitindo o comprometimento do parlamentar que praticamente apoiou os governos FHC, Lula, Dilma Rousseff , Michel Temer e, depois das urnas de 2018, embarcou na viagem bolsonarista.

Natália Portinari e Leandro Prazeres, O Globo deste domingo, colocam em destaque a presença de Ricardo Barros
na questão da vacina e acrescentam o fato de o atual governo possuir a múltipla presença do Centrão, e que tem Barros como seu integrante, controlando cargos relativos ao aparente combate à Covid-19.

Destacam ainda o rastro desastroso de mais de 500 mil mortes e uma contaminação diária na média de 60 mil pessoas, o que demonstra que o ministro Marcelo Queiroga não conseguiu conter o ciclo da pandemia que está conduzindo o país para um número gigantesco de novos casos a cada 24 horas.

SAÍDA LEGAL – Mas falei em saída legal para que se fechem as cortinas de mais um período profundamente crítico da história do Brasil. Dificilmente qualquer pedido de impeachment deverá ter curso já que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, ao que tudo indica, não vai retirá-los da gaveta ou da memória dos computadores de Brasília e do Congresso. O fato, na minha opinião, é que a situação de Bolsonaro é insustentável, mesmo analisando-se a atmosfera a curto prazo.

Essa atmosfera torna-se cada vez mais densa, isolando o presidente da República da opinião pública e, portanto, da própria população e do eleitorado. Claro que Jair Bolsonaro não pensa em renunciar, pelo contrário. Sentindo-se batido nas urnas por Lula como o Ipec revelou e interiormente constatando o seu fracasso, registra uma decepção dos eleitores que o levaram a uma vitória em 2018. Sua faixa de apoio está restrita a pouco mais de 20% da opinião pública. Menos da metade do total de votos que alcançou quando derrotou Fernando Haddad por 57% a 43%.

Os eventos da política estão soprando fortemente na Esplanada de Brasília e segundo reportagem de Bela Megale, Jussara Soares e Dimitrius Dantas, no O Globo, 11 partidos resolveram se unir contra a ideia de Bolsonaro de substituir o voto eletrônico pelo retorno ao voto impresso. Um estratagema que Bolsonaro antecipou no caso de derrota para Lula alegar que o desfecho seria fraudulento. O presidente chegou a afirmar em relação à vitória de Joe Biden que Donald Trump havia perdido por uma fraude.

CONTRADIÇÃO – Neste ponto, há uma contradição. As eleições americanas desenrolam-se pelo voto impresso. Isso de um lado. De outro, o Tribunal Superior Eleitoral dirigiu-se a ele pedindo provas da fraude que ele afirma ter ocorrido em 2018.

Falei na renúncia como a única saída viável para o governo e para o país dentro da Constituição e da lei. Bolsonaro, entretanto, sentindo-se sem espaço, vai apelar para que um golpe possa mantê-lo no poder. Inclusive no editorial de ontem do O Globo, chama-se a atenção para tal impulso em um texto em que se refere ao Exército e às Forças Armadas. Não acredito que o Exército lhe dê cobertura e decida por um caminho golpista.

Mas o artigo faz um alerta importante. Nuvens produzem sombras e quase toda a nação está empenhada para que um horizonte possa voltar a ser contemplado com nitidez.

Escândalos da vacina, da madeira e disparada de Lula: um precipício chamado Bolsonaro

Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Pedro do Coutto

A semana que se encerrou foi uma das piores na história do país e, pior ainda, para Jair Bolsonaro que se viu sufocado em um redemoinho de atos incríveis para um governo que surgiu nas urnas, mas despencou num princípio político que o próprio presidente construiu e nele se projetou por ações e omissões.

Os três maiores jornais do país, O Globo, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, tiveram como manchetes na edição de ontem o estapafúrdio caso da vacina indiana que seria comprada pelo governo com intermediação de duas empresas, uma das quais com apenas um escritório em Singapura.

DENÚNCIAS – O próprio presidente da República ao ouvir as denúncias que lhe foram levadas em 20 de março pelo servidor do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, e pelo seu irmão, o deputado Luis Miranda, deixou escapar, segundo o relato de ambos na sessão de sexta-feira da CPI, uma frase dizendo que entre os protagonistas da tormenta estava o líder do governo na Câmara Federal, deputado Ricardo Barros.

A frase ficou no ar. Nenhuma providência foi tomada e o fato de não ter sido feito pagamento antecipado deveu-se à ação da imprensa.  A mesma imprensa que é objeto permanente de fortes ataques do presidente da República e que confunde os jornais e emissoras de televisão como se fosse ele próprio. O causador da tempestade é marcado principalmente por suas posições contra as máscaras, contra o distanciamento e contra as vacinas, produzidas por laboratórios a preços várias vezes menores do que a Covaxin.

No O Globo, as reportagens são de André de Souza, Julia Lindner e Dimitrius Dantas, além de Natália Portinari, Leandro Prazeres e Paulo Ferreira. Quanto às agressões a jornalistas, sobretudo à repórter Vitória Abel, da rádio CBN, escreveram no O Globo, Bianca Gomes e Suzana Correia. No Estado de São Paulo, Vinícius Valfré e Lauriberto Pompeu.

PESQUISA –  Além do desastre de sexta-feira, Bolsonaro na véspera fora atingido pelo resultado da pesquisa do Ipec que apontou 49% para Lula e 26% para ele, uma diferença de 23 pontos difícil de reverter com a tendência de se ampliar no decorrer do tempo, uma vez que o temperamento do presidente da República figura entre os principais atores do seu próprio desastre.

É importante também observar-se que o distanciamento entre Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão já havia sinalizado para um conflito entre pelo menos duas correntes de pensamento, uma delas a do vice-presidente nas restrições claras que fez ao ex-ministro Eduardo Pazuello e ao agora ex-ministro Ricardo Salles, além de restrições ao ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. ,

O general Hamilton Mourão já vinha se opondo de maneira frontal ao desmatamento da Amazônia e às queimadas da floresta verde patrocinadas por Salles que foi exatamente aquele que se deslocou de Brasília ao Pará na tentativa de liberar 200 mil metros cúbicos de troncos de árvores atingidos pela serra elétrica e que se destinavam a uma exportação ilegal a proporcionar lucros aos que incrivelmente vulneraram a própria lei brasiliera. Salles tornou-se um ministro contra o meio ambiente e adicionou para o governo Bolsonaro um ambiente ainda mais calamitoso.

IMPOSTO DE RENDA – No meio de toda tempestade, o ministro Paulo Guedes anunciou uma alteração na lei do Imposto de Renda, ampliando a faixa de isenção na declaração anual de ajuste. Entretanto, os jornalistas Douglas Gavras e Fábio Pupo, Folha de São Paulo, pesquisaram o texto e revelaram ontem que concretamente a mudança amplia a faixa de incidência, mas aumenta o imposto de renda para toda a classe média.

Como se não bastasse, propõe a incidência do tributo sobre os dividendos das empresas. Neste ponto está caracterizada a bitributação simplesmente porque as empresas já são taxadas no mesmo imposto de renda antes da distribuição dos dividendos.

Paulo Guedes não falha e confirma a cada dia o seu caminho.  Faz com que a escala de queda de Jair Bolsonaro se amplie ainda mais na opinião pública, no eleitorado e na população brasileira.

Governo tenta tumultuar a CPI da Covid, mas só piorou a situação

Governistas apelaram para o grito e o descrédito dos depoentes

Pedro do Coutto

Na sessão desta sexta-feira da CPI da Pandemia, os senadores da bancada do governo, sobretudo os parlamentares Marcos Rogério e Fernando Bezerra, tentaram tumultuar o depoimento do servidor Luis Ricardo Miranda e do seu irmão, o deputado federal Luis Miranda, sobre a proposta de venda de vacina Covaxin por preço muito maior do que os oferecidos por diversos laboratórios internacionais, incluindo pagamento antecipado.

O servidor Luis Ricardo Miranda confirmou a sua versão à Comissão de Inquérito já anteriormente apresentada, uma vez que foi objeto de sua entrevista ao jornal O Globo desta semana. O deputado Luis Miranda também confirmou integralmente o diálogo mantido com Bolsonaro sobre o assunto quando o próprio presidente disse que determinaria a investigação pela Polícia Federal, mas que não foi realizada.

TRANSAÇÃO SUSPENSA – Quando cito que a tentativa de tumultuar os depoimentos piorou a situação é porque coloco a seguinte pergunta, e que deve estar sendo posta por todos os leitores: se a proposta de contrato era legítima, por qual motivo o próprio governo, como ficou claro pelas declarações do ministro Marcelo Queiroga, suspendeu a transação?

Se fosse legítima, como Marcos Rogério e Fernando Bezerra buscaram fazer crer, não havia motivo nenhum para que a operação de compra de vacinas com a intermediação da empresa Precisa fosse interrompida.

BLINDAGEM – O presidente Jair Bolsonaro, mais uma vez, irritou-se com a imprensa, culpando os jornais e as emissoras de televisão. Na minha opinião, trata-se de uma pessoa que se investe de uma blindagem que não existe, como se ele estivesse fora de qualquer julgamento em quaisquer circunstâncias que lhe fossem desagradáveis. Em síntese, ele se esforça para criar uma realidade própria, acima da verdade que é colocada de modo geral no país.

Todos perceberam após o dia de ontem que o contrato era totalmente absurdo. O cenário da CPI do Senado  mostrou que, ao contrário do que deveria ser, o governo Bolsonaro não se vacinou contra lances de dados financeiros próprios a relacionamentos entre empresas privadas e administrações públicas. Bolsonaro não utilizou a máscara de proteção para evitar que seu governo fosse contaminado pelo vírus eterno da corrupção.