Nas urnas de 2022, Jair Bolsonaro enfrentará a si mesmo, além dos outros candidatos

Miguel Paiva | Brasil 247

Charge do Miguel Paiva (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro, na minha opinião, iniciou sua campanha eleitoral para as urnas de 2022 adotando o caminho errado de fazer questão de colidir com o ministro Henrique Mandetta e com os governadores estaduais que recomendam o isolamento como etapa decisiva para conter a contaminação acelerada como se verifica nos últimos dias.

O risco de quebrar o isolamento já foi colocado pelo ministro Mandetta, alertando a população quanto a hipótese de um colapso na rede de saúde. Tal situação poderá ocorrer somando-se as pessoas contaminadas com os atendimentos de outras moléstias, como já começa a acontecer no Amazonas.

NÃO ESTÁ NEM AÍ... – Jair Bolsonaro, entretanto, decidiu não levar a sério as recomendações e partiu para uma ofensiva estranha, ao fazer questão de ir as ruas e promover aglomerações nas quais deixa-se fotografar ao lado de populares e apertar as mãos de muitos que o apoiam.

Como se verifica, tudo exatamente ao contrário das determinações não só de Mandetta, mas também por todas as autoridades no assunto. Incrível esse seu posicionamento.

Com tal atitude Bolsonaro comete um segundo equívoco.  Juntar-se a grupos populares nas ruas não vai acrescentar votos na sucessão presidencial, uma vez que o Datafolha já apontou uma perda de 17 pontos percentuais exatamente pelo comportamento que colocou e está colocando em prática.

UM DESSERVIÇO AO POVO – O presidente da República está simplesmente fazendo um desserviço para com a população brasileira. Em função de tudo isso, perde espaço junto aos eleitores de hoje e também aqueles que vão se inscrever na Justiça Eleitoral ao longo dos dois próximos anos. Por isso, o maior adversário de Bolsonaro nas urnas é ele próprio.

Seu maior adversário em matéria de voto sem dúvida é o governador de São Paulo, João Doria, que inclusive já tornou públicas as restrições lançadas sobre a imagem de Bolsonaro. Transportando a realidade de hoje com o que pode ocorrer no futuro, cito João Doria porque todo governador de São Paulo é sempre um candidato em potencial à presidência da República.

UMA DISPUTA EM ABERTO – Além disso, Doria tem trabalhado sua imagem de forma eficiente, assim como Wilson Witzel, no Rio de Janeiro. Mas fiz a ressalva de que essa é uma hipótese com a qual se defronta o presidente da República.

Jair Bolsonaro chegou ao poder combatendo o lulismo, o petismo e a corrupção, fazendo um contraponto que o levou a vitória por larga margem nas urnas. Mas uma parte desse eleitorado hoje tem o impulso impossível de pegar seu voto de volta. Isso é uma coisa. Outra as perspectivas da economia. Não são boas. Como admitiu o próprio ministro Paulo Guedes, o PIB poderá cair atém 4%. Seria um desastre para todos nós.

Bolsonaro desafia a pandemia, o ministro Mandetta e os governadores Doria e Witzel

Bolsonaro volta a circular por Brasília, limpa o nariz e aperta a ...

Bolsonaro insiste em formar aglomerações, passeando em Brasília

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro, contrariando as normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde, passeou na manhã de ontem, deixando-se fotografar ao lado de populares apertando a mão de muitos deles permitindo assim aglomerações em torno de si próprio. As cenas foram filmadas por várias emissoras que colocaram a matéria no ar. Absurdo total. Com isso, desmoralizou a política do ministro Mandetta no sentido de isolamento necessário, determinando que não haja aglomerações.

Foi exatamente o contrário disso que o Presidente da República praticou. Assim agindo, chocou-se também frontalmente com os governadores João Dória e Wilson Witzel, os que mais fixaram regras rígidas para o cumprimento das decisões de Mandeta, chegando até a retirar pessoas das praias do Rio de Janeiro e de São Paulo.

HÁ REGRAS A CUMPRIR – Além deles todos os demais governadores estão recomendando o isolamento entre as pessoas e a necessidade de se manter distância de um metro e meio nos contatos sociais. Incrível que o presidente da República possa adotar um comportamento que conduz e revela uma total insensibilidade para os riscos de uma doença que no mundo todo tem causado mortes, internações hospitalares e quarentenas.

No Brasil até a tarde desta sexta-feira havia sido registradas mais de 1000 mortes. Essa pandemia tem o espectro muito forte e em todo o planeta aponta um número enorme de vítimas.

MUITAS CONTRADIÇÕES – Reportagem de Filipe Bächtold, Folha de São Paulo de sexta-feira, destaca as contradições entre o presidente da República, os governadores e os prefeitos. No meio da tempestade, o governo federal estabeleceu o mês de junho como aquele que vai liberar 1.045 reais dos que possuem conta vinculada ao FGTS.

O que está fazendo o Executivo? Está apenas liberando aparentemente uma quantia que já pertence legalmente aos que trabalham. Não se trata de parcela adicional. Trata-se apenas de uma transferência que vai descapitalizar a política de habitação.

PASSAGENS AÉREAS – Reportagem de Pedro Capetti, edição de O Globo, destacou a explicação que o IBGE apresentou para ter chegado a divulgar uma inflação de 0,07% para o mês de março. Tal resultado causou espanto porque seria impossível, com aumento de preços seguidos nos supermercados, que a taxa inflacionária de março fosse só de 7 centésimos.

A explicação apresentada foi simplesmente com base num recuo do preço das passagens da ordem de 16,75%. Nos transportes em geral os preços ficaram em 1,8% a mais em decorrência da alta nos combustíveis.

Na minha opinião, a inflação de março superou por boa margem o cálculo de 0,07% feito pelo IBGE. O preço das passagens aéreas, tudo bem, caíram 16.7%. Mas qual é o peso dessas passagens no cálculo da inflação? Tenho dúvida que o IBGE responda a indagação.

NÚMERO DE ITENS – Vale frisar que quanto maior for o número de itens colocados em uma pesquisa menor será o cálculo final, partindo-se do princípio de que os itens adicionais tenham ficado estagnados ou diminuídos. Afinal de contas, quantas pessoas viajam pelos aviões que decolam e pousam a cada mês?

As estatísticas sobre a inflação não podem estar sujeitas à manipulação. Todo item da pesquisa deve ter um peso específico. No caso das passagens de avião, o peso deve ser de uma pluma.

Reduzir salários e liberar preços pode conduzir o país a uma grave crise social

Redução de salário e jornada de servidores deve ser permitida? | A ...

Charge do Amarildo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O título desta matéria creio destaca uma síntese do problema que está atingindo a população brasileira e ainda vai afetá-la muito mais no correr do tempo. O governo Bolsonaro estabelece um congelamento salarial, ao mesmo tempo que propõe redução de jornada de trabalho e de vencimentos (salários) na mesma proporção. Entretanto, libera os preços, e se a corrida desigual permanecer, o consumo vai sofrer as consequências pela impossibilidade de se equilibrar uma coisa com a outra.

Pesquisa do Datafolha, comentada por Ricardo Baltazar, Folha de São Paulo desta quinta-feira, destaca que 69% dos que trabalham estão prevendo uma perda de renda.

PESSIMISMO AUMENTA – A preocupação torna-se mais evidente quando a pesquisa compara o índice de março com o de abril. Em março a preocupação era de 57%, já muito alta, a de abril como citamos agora é de 69%, aumento de 12 pontos no espaço de um mês. 

Ricardo Baltazar acentua que a preocupação é maior entre os mais pobres, ou seja, aqueles que ganham até 2 salários mínimos por mês, ou seja 2.090 reais. O que impressiona é que a faixa entre um e dois salários mínimos abrange metade dos trabalhadores do país, envolvendo 50 milhões de assalariados.

BANCAR CONTAS DE LUZ – Uma outra matéria, esta de Júlio Wiziack, revela que o Ministro Paulo Guedes admite bancar as contas de luz de aproximadamente 9,4 milhões de famílias carentes, pelo prazo de 3 meses.

Como se vê, uma contradição sob o ângulo da escola liberalista. Ao mesmo tempo em que defende a estagnação salarial, o governo Jair Bolsonaro aceita estatizar o consumo de energia. Aliás, 9,4 milhões de famílias corresponde a cerca de 36 milhões de pessoas.

ELEITORES ARREPENDIDOS – Enquanto isso, na mesma edição da Folha, Felipe Bachtold, também com base no Datafolha, comenta o fato de 17% dos que votaram em Jair Bolsonaro encontram-se arrependidos e lamentam terem votado no presidente.

Em todo o país a reprovação ao  presidente da República eleva-se a 63%, mais entre estes, digo eu, encontram-se aqueles que votaram em Fernando Haddad, candidato do PT. Portanto os bolsonaristas não devem levar em conta os 63%, mas sim os 17% perdidos pelo governo Bolsonaro.

TENDÊNCIAS DEFINIDAS – Por que eu digo isso? Porque as pesquisas apresentam tendências definidas e os apoios perdidos dificilmente serão revertidos, a menos que surjam no horizonte medidas que podem ir ao encontro de seus interesses pessoais.

É certo que, com esses resultados das pesquisas, alguma sinal de alarme deve ter soado não comente no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, como também, foi acendido na opinião pública.

Prefeito do Rio flexibiliza isolamento e fixa horários de dois turnos para empresas

Crivella amplia fechamento de escolas por mais 15 dias no Rio ...

Crivella inicia a reabertura do comércio, mas em fase de testes

Pedro do Coutto

Reportagem de Luiz Ernesto Magalhães, O Globo de quarta-feira, revela o Decreto do prefeito Marcelo Crivella definindo novos horários de funcionamento para empresas que funcionam na cidade. O governador do estado determinou também novas regras praticamente iguais às do prefeito.

Os supermercados por exemplo vão abrir as 8 horas e cerrar as atividades às 21 horas. Isso implica que os supermercados deverão ter duas equipes de trabalho, porque pela CLT os funcionários só podem no máximo fazer duas horas extraordinárias por dia. Somando-se os turnos, verificamos uma diferença de treze horas da abertura ao fechamento.

HORAS EXTRASAlém dos supermercados os novos horários implicam também na exigência de dois turnos para outras atividades, pelo mesmo dispositivo legal que limita o caso das horas extras.

Portanto, a população do Rio deve ser informada, aliás está sendo, dos novos horários de funcionamento para que possa programar suas compras inclusive para as faixas de horário no sentido de evitar aglomerações ou aproximação das pessoas, desaconselhável, pelos critérios definidos pelo Ministério da Saúde.

Falei em evitar aglomerações bem como aproximações que podem dar margem a contaminação, reduzindo assim as hipóteses de transmissão do coronavírus.

DESCUMPRIMENTONo Rio e em outras cidades do país, apesar das determinações do ministério da Saúde e dos governos estaduais e municipais, muitas pessoas não têm seguido a medida, cujo objetivo é reduzir ao máximo as contaminações, como se verifica em praias da zona sul do Rio e nos calçadões que nos últimos dias apresentaram movimentação inadequadas.

As pessoas devem se conscientizar dos riscos verdadeiros do coronavírus que têm causado até a morte de número bastante alto da população.

REGRA A SER SEGUIDAO isolamento ao máximo, conforme explicação do ministro Henrique Mandetta deve ser seguido, porque os que não aceitam a limitação são muito mais expostos ao risco da doença. Mas o que fazer? As pessoas precisam agir por vontade própria e não serem obrigadas a cumprir medidas que se destinam a preservar a elas próprias e as consequência da moléstia.

As cautelas devem permanecer durante o tempo necessário a ser observado em primeiro lugar pelo Ministério da Saúde. Trata-se de evitar as piores consequências que estão aparecendo todos os dias tanto na internet quanto na televisão e nos jornais.

Informação ao IBGE e a Guedes: preços nos supermercados estão subindo em abril

Acidente de Harrison Ford e inflação nas charges deste sábado ...

Charge do Tacho (Jornal NH)

Pedro do Coutto

O título desta matéria, a meu ver, significa um sinal de alarme para o governo Jair Bolsonaro e também para a população de modo geral. A partir do início deste mês aumentou a velocidade das remarcações dos preços de alimentos nos supermercados do Rio de janeiro e seguramente em todos os supermercados do país. Citei o IBGE porque ele é o órgão responsável pelo cálculo da inflação que até fevereiro estava contida com oscilações mínimas mensais. Mas agora o panorama mudou de figura.

Essa mudança começou na segunda quinzena de março e agora em abril ganha velocidade. Enquanto os preços sobem os salários descem, uma vez que não acompanham a elevação do custo de vida.

CONSUMO E RECEITA – Em decorrência inevitável diminui o consumo e com essa redução os impostos públicos. Falei em consumo e por isso acentuei a necessidade do Ministro Paulo Guedes não ignorar a compressão que está se fazendo sentir na renda do trabalho e também paralelamente na queda dos investimentos. Isso ocorre tanto nos investimentos públicos quanto nos da iniciativa privada, além das aplicações por parte da classe média no mercado financeiro.

Portanto, além do coronavírus, esta é uma ´preocupação a mais que pressiona a opinião pública brasileira. Sobretudo no momento em que o próprio Paulo Guedes defendeu o congelamento salarial dos funcionários públicos e dos servidores das estatais regidos pela CLT. Por falar em renda do trabalho a seguir coloco um tema, o qual creio bastante oportuno.

REDUÇÃO DE SALÁRIOS – O Ministro Ricardo Lewandowsky, do STF, concedeu liminar a um recurso do Partido Rede, levantando uma dúvida quanto a redução de salário juntamente com a diminuição da jornada de trabalho. O tema foi focalizado na reportagem de Mateus Teixeira, Folha de São Paulo de ontem.

Sustenta a Rede que a aceitação de salário menor na proporção percentual da jornada de trabalho só poderá ser válida se referendada pelo sindicato da categoria. Melhor dizendo: pelos sindicatos que congregam todos os trabalhadores brasileiros. Dessa forma o ministro Lewandovsky suspendeu qualquer efeito da medida provisória do presidente Jair Bolsonaro a qual permite acordos individuais.

SEM DESTAQUE – Esta matéria deveria ter sido publicada com mais destaque pela FSP e também não compreendo porque outros jornais não publicaram. A liminar em vigor terá de ser apreciada pelo Pleno do STF composto como se sabe por 11 ministros. Um complicador a mais para observação do próprio governo.

Outra curiosidade: o eficiente ministro da Saúde, Henrique Mandetta, quase foi demitido, enquanto o ineficiente ministro da Educação, Abraham Weintraub, até agora continua no cargo, como se fosse imexível. Coisas da política.

Confirmado! O maior adversário do governo Bolsonaro é o próprio presidente da República

TRIBUNA DA INTERNET | Por vaidade e egocentrismo, Bolsonaro está ...Pedro do Coutto

Esta é a verdade que emerge da análise dos fatos que se sucedem no governo Jair Bolsonaro em face de o chefe do Executivo permanecer ainda como se fosse um candidato ao governo, em campanha. Reportagem de Daniel Carvalho e Mateus Teixeira, Folha de São Paulo desta segunda-feira, destaca as palavras de Bolsonaro a um grupo de apoiadores que o esperavam domingo em frente ao Palácio da Alvorada.

Afirmou simplesmente que integrantes de seu governo transformaram-se em “estrelas”. Disse que a hora deles vai chegar, acentuando não ter medo de usar a caneta.

INDIRETA DIRETA – Ora, evidentemente ele estava se referindo principalmente a Henrique Mandetta, que, por sua atuação aplaudida e reconhecida por todos, ganhou espaço muito grande no panorama nacional, com reflexos até no exterior.

Não se entende logicamente a posição de Bolsonaro que transforma alvo de sua irritação o êxito de um integrante de seu próprio governo. Acontece que Mandetta não está sozinho nesta mira. Tem como companheiros Sergio Moro e Paulo Guedes.

Ontem, no final da tarde uma onda alastrou-se não só por Brasília mas também por vários outros estados da Federação. Transpirou a notícia de que absurdamente Jair Bolsonaro ia assinar a demissão de Mandetta.

REAÇÃO IMEDIATA – A movimentação foi intensa em termos de protestos, que levou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a procurar o gabinete presidencial chamando atenção de que tal ato representaria um desastre de grandes proporções. Ministros do Supremo também atuaram nos bastidores em decorrência da notícia divulgada pelo canal CNN.

Logo depois, o próprio Mandetta teria dito a setores do Palácio do Planalto que assim não dá pé. Afinal de contas contraditoriamente ele estava sendo atacado pelo chefe do governo ao qual integra. Rematado absurdo. Bolsonaro teve que recuar, de acordo com informações de bastidores da crise.

UMA AUTODEMISSÃO -Demitido Mandetta, na minha opinião Jair Bolsonaro estaria na verdade exonerando a si próprio em matéria de responsabilidade pela administração do país.

As contradições não pertencem apenas isoladamente a Bolsonaro. Lendo o Globo de ontem, matéria assinada por Manoel Ventura, verifica-se que o Ministro Paulo Guedes reuniu-se no domingo através da internet com deputados do DEM, quando sugeriu o congelamento por dois anos dos salários dos funcionários públicos e também os vencimentos dos servidores das estatais regidos pela CLT.

Não se entende isso, pois o próprio ministro da Economia liberou recursos do FGTS no sentido (difícil mas foi uma ideia) visando a elevar o consumo no varejo. Da mesma forma. coloca-se o crédito de 600 reais a pessoas de menor renda.

CONTRADIÇÃO – Portanto, o Ministro Paulo Guedes age de uma maneira bipolar. De um lado, incentiva o consumo, e de outro, o pressiona, uma vez que quem tiver seu salário congelado pelo prazo de dois anos não pode pensar em consumo algum, além da sobrevivência.

O governo Jair Bolsonaro, como se constata, é marcado por avanços e recuos, para os quais não se encontra um pensamento lógico. E o tempo vai passando.

Renúncia é ato absolutamente individual, como no episódio do presidente Jânio Quadros

Tempos de Jânio Quadros, parte 1. Por Rui Daher - GGN

Jânio estava meio perdido (foto de Erno Schneider)

Pedro do Coutto

O Datafolha realizou pesquisa indagando se o presidente Jair Bolsonaro deve ou não renunciar ao mandato. A resposta foi de que 59% acham que o presidente não deve renunciar enquanto 37% assumiram a posição contrária. Na edição de domingo da Folha de São Paulo, Igor Gielow publicou reportagem analisando e traduzindo alternativas constantes do levantamento.

Uma pesquisa difícil esta, porque é preciso que os entrevistados se coloquem no lugar da figura principal da questão, no caso o presidente da República, e assim decidirem no seu lugar.

LEVADO PELA FANTASIA – Portanto, é preciso grande atenção aos rumos que os números indicam, levando-se em consideração a dificuldade de alguém transportado pela fantasia abrir mão de seu mandato e principalmente do poder que enfeixa em torno de si. Mas esta é outra questão.

Me lembro do episódio da renúncia do presidente Jânio Quadros, aceito imediatamente pelo Congresso, considerando que a renúncia não pode ser objeto de aprovação ou não do Legislativo.

Entretanto, a pesquisa do Datafolha funcionou para mostrar o grau de insatisfação popular com o desempenho do governo. 37% é um índice muito alto. Mas não foi só os 37% a percentagem que preocupa ou deve preocupar o Palácio do Planalto.

CAPACIDADE DE LIDERAR – Em outra pergunta sobre se o presidente tem ou não capacidade de liderar o país, 52% disseram que sim e 44% afirmaram que não. Vejam os leitores como a margem de diferença se estreitou.

Inclusive, se lermos com atenção todos os lados da pesquisa, há um ponto que coloca em confronto Jair Bolsonaro com o governador João Dória. E o resultado? Está aqui. A pergunta refere-se ao comportamento do governador em não seguir as orientações de Bolsonaro no caso da pandemia coronavírus. E 57% acham que o governador tem razão em não seguir o posicionamento do presidente da República quanto à dimensão e ao grau de contágio da virose.

Deve se acrescentar mais um aspecto que, a meu ver, deveria ter sido incluído na sequência da pergunta principal. Ela tratou da hipótese de renúncia, mas devemos considerar que o afastamento de um presidente pode ocorrer de outras formas. Respondido esse enigma, os números do levantamento seriam ainda mais amplos para distinguir a vontade dos brasileiros e do país.

Orçamento de guerra não adiciona recursos, apenas transfere de uma rubrica para outra

Charge do Duke (otempo.com.br)

Pedro do Coutto

O orçamento de guerra, assim chamado pelo ministro Paulo Guedes e pelos presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, destaca valores do orçamento federal para o orçamento específico de combate ao coronavírus. Muitas pessoas pensam que vai surgir mais dinheiro na área federal, mas é um engano. O que vai acontecer, e aliás é positivo que aconteça, é um maior endividamento e a transferência de dotações de umas rubricas para outras, e nem poderia ser diferente.

O orçamento da União para 2020 é de 3,6 trilhões de reais dividido em rubricas estabelecidas pela chamada Lei de Meios. Portanto, a transferência financeira de um setor para outro não produz, nem poderia produzir, mais recursos financeiros.

DÍVIDA OU EMISSÃO – Para produzir volume maior de recursos financeiros somente existem dois caminhos além daqueles consignados nas diversas áreas da União. Ou pela colocação de novos títulos no mercado, e com isso aumentar a divida interna, ou então a emissão de moeda autorizada pelo governo. São as notas do Tesouro Nacional que rendem por ano aproximadamente em torno de 4%, conforme estabelecer o Banco Central. A dívida interna brasileira oscila em torno de 5 trilhões de reais.

Reportagem de Manoel Ventura, Bruno Goes e Gabriel Shinohara, em O Globo, ilumina bem os caminhos a serem trilhados pelo orçamento de guerra. Qualquer interpretação diferente cai no vazio. Vazios estão os cofres do Tesouro. Entretanto se houver uma unidade no orçamento de guerra, abrangendo estados e municípios, aí sim o volume financeiro pode crescer e tal hipótese é nitidamente positiva.

APOIO A MANDETTA – O panorama é esse e focaliza muito bem a realidade dos fatos. Por falar em realidade dos fatos, na noite de quinta-feira Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre jantaram com o Ministro Henrique Mandetta, deixando claro o apoio das duas casas do Congresso Nacional ao titular da Saúde. O jantar inclusive, aconteceu antes da divulgação da pesquisa do Datafolha, cujo resultado foi amplamente em favor da atuação do ministro da Saúde.

O presidente Jair Bolsonaro continua à margem dos esforços e das medidas de enfrentamento à virose que cerceia as atividades econômicas do Brasil e do mundo todo. E a recessão somente poderá cessar nos dois meses seguintes à queda do grau de contaminação. Vamos aguardar, portanto.

É surrealista um presidente criticar publicamente um ministro de seu governo

Henrique Mandetta, ministro da Saúde

Ministro Mandetta soube conquistar a confiança dos brasileiros

Pedro do Coutto

Numa entrevista à Rádio Jovem Pan, o presidente Jair Bolsonaro fez críticas públicas ao ministro Henrique Mandetta, como não fosse ele o titular da pasta da Saúde de seu próprio governo. Nesta altura dos acontecimentos, a confusão, que já era grande tornou-se maior ainda, sobretudo porque a repercussão foi extremamente contrária a sua atitude.

Bolsonaro quer mais humildade de Mandetta acentuando faltar apoio (da opinião pública) para dar uma canetada.  E acrescentou que ninguém de seu governo é indemissível.

GRANDE DESTAQUE – O Globo e a Folha de São Paulo, edições desta sexta-feira, publicaram a matéria com grande destaque, sendo que na FSP tornou-se a manchete principal do jornal. Em O Globo, a reportagem é assinada por Natália Portinari, Paula Ferreira, Thais Arbex, Guilherme Caetano e Bernardo Mello. Na Folha de São Paulo, a matéria foi de Gustavo Uribe e Natalia Concian.

Paralelamente ao impacto político que o episódio destacou, foi publicada uma pesquisa do Datafolha, também de ontem, revelando que 76% da população apoiam Henrique Mandetta. Enquanto em uma pesquisa paralela apenas 33% consideram o governo ótimo e bom. O detalhe importante a ser assinalado em relação a pesquisa anterior é que Mandetta subiu de 51 para 76% e o presidente da República recuou de 39 para 33%.

MANDETTA TRABALHANDO – Esse é um panorama registrado essa semana e ilustrado pelos resultados do levantamento da opinião pública. O Ministro da Saúde não quis comentar o assunto e disse somente que sua posição é de trabalhar para enfrentar o coronavírus. Como se constata, o vértice de popularidade deixa claro a dificuldade que Bolsonaro tem de conviver com seus subordinados.

No meio da confusão, os ministros Onyx Lorenzoni e Paulo Guedes, em entrevista coletiva na tarde de ontem, entrevista da qual o ministro da Saúde não participou, anunciaram que o Poder Executivo deve iniciar na próxima semana a distribuição de 600 reais aos que integram o Bolsa Família e também os trabalhadores avulsos, informais e aqueles cuja renda é mínima, abaixo do salário mínimo.

INDEMISSÍVEL – O ministro Henrique Mandetta disse que não pedirá demissão e se for o caso sairá depois de ato do presidente da República determinando a exoneração.

Enquanto isso a movimentação vai crescer na Esplanada de Brasília, porque a situação do presidente da República está cada vez mais complicada, sem apoio da maior parlamentar e em permanente confronto com os presidente da Câmara e do Senado.

Com isso, Bolsonaro isolou-se ainda mais no Planalto, enquanto aumentam as expectativas de uma eventualidade que a cada dia se torna mais evidente.

Na redução de salários, falta clareza à Medida Provisória e os salários vão diminuir

Sorriso Pensante-Ivan Cabral - charges e cartuns: Charge: Salário ...

Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

Na realidade, a complementação da medida provisória assinada pelo presidente Jair Bolsonaro terá de ser mais clara do que o texto original. Existem várias alternativas para conduzir a matéria, variando de uma faixa salarial para outra. Na minha opinião, a MP baseia-se em diversas faixas salariais, o texto publicado no Diário Oficial dá margem a dúvidas e tudo isso fica dependendo de o Congresso Nacional aprovar o projeto sem alteração na redação final. Mas isso não representa uma tradução transparente nos vários pontos que conflitam com a legislação em vigor.

Traduzindo: há direitos que terão de ser suprimidos, sobretudo na parte em que a Constituição define os salários como irredutíveis.

FALTA A EMENDA – Como se sabe, quando a Constituição não distingue, não se pode distinguir, é princípio básico do Direito. Por este aspecto, penso que haveria necessidade de emenda constitucional. Inclusive, esta é a hipótese que poderá resultar num conflito maior entre a lei e a vontade do governo.

Reportagem de Manoel Ventura, Marcello Correa, Naira Trindade e Gustavo Maia, edição desta quinta-feira de O Globo, destaca os pontos principais da medida provisória. Esses pontos principais tratam de diversas situações: uma delas, os percentuais de redução que podem chegar até a 70% da folha de pessoal.

A medida provisória, no entanto não é impositiva genericamente, ela vai depender de entendimento formulado entre as partes. E aí, a meu ver um problema. E se as partes não acertarem? Essa dúvida é fundamental, porque, sem concordância, a medida provisória, que aliás entrou em vigor ontem, tornar-se-á improvável.

SÃO TRÊS PARTES – Uma coisa, no entanto, é a diminuição dos salários, pois se isso não ocorresse, claro, não haveria necessidade de concordância. São três partes expostas na lei proposta. Uma delas são as empresas, outra parte refere-se aos empregados e uma terceira é relativa ao governo.

Um dos artigos diz assim: a proteção prevista responde ao dobro do tempo que o governo pagará por uma fração dos salários. Não acentua a reportagem qual será especificamente a parcela governamental. Os que ganham o salário mínimo não serão afetados. Esta face da questão funciona para lembrar, como estou fazendo agora, que 1/3 da mão de obra ativa brasileira recebe o salário mínimo.

Disse há pouco que depois da aprovação da MP com as modificações que o Legislativo pode fazer, o presidente Bolsonaro terá de assinar um decreto regulamentando a nova lei, inclusive tornando clara a divisão dos cortes. Isso porque pela tabela publicada ontem surgem dúvidas quanto a valores pelas diversas faixas de remuneração.

SALÁRIOS MENORES – Uma coisa entretanto é certa, os salários serão diminuídos, reduzindo-se assim os encargos das empresas. E numa escala imediatamente posterior falta definir qual será a parte dos empregadores e também do governo. Uma coisa é certa, os salários vão recuar acompanhando a percentagem de redução da jornada de trabalho.

Podem haver discussões sobre o tema geral, porém os assalariados serão duramente atingidos. Quanto ao poder de consumo ele vai recuar recaindo sobre os níveis de produção e comercialização.

Bolsonaro hoje depende de seus ministros, e alguns já não dependem mais dele

Charge do Sid (site Charge Online)

Pedro do Coutto

O panorama que está no título deste artigo reflete, acredito, a situação política em torno do governo, já que a atuação do presidente da República está sendo marcada por uma série de avanços e recuos que demonstram a forte dependência dos titulares das pastas para manter um equilíbrio mais instável do que estável.

Reportagem de Thais Arbex, Gustavo Maia, Vinicius Sassine e Manoel Ventura, O Globo desta quarta-feira, reflete bem a série de divergências entre o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios. Especialmente os ministros Sérgio Moro e Paulo Guedes, que manifestaram seu apoio ao ministro da Saúde na terça-feira durante a entrevista coordenada pelo General Braga Neto, Chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro.

FALTA DE RUMO – Não fosse esse fato o governo enfrentaria dificuldades ainda maiores daquelas com que hoje se depara. O episódio envolvendo o Diretor-Geral da OMS e o presidente da República reflete nitidamente a falta de rumo que envolve o Palácio do Planalto. Melhor dizendo, entre o Ministro da Saúde e a esfera mais oculta do que aparente, que se manifesta sobre temas que escapam à realidade dos fatos.

Pode se consultar inclusive que colocou na internet uma fala do Ministro Mandetta que não ocorreu. Deve inclusive dizer quais os autores, tarefa do Ministro da Justiça e Segurança Pública. Porque prevalece uma razão lógica, a partir dessa fake news. Se o Ministro da Justiça não agir prontamente, claro, outras fake news poderão surgir no horizonte.

FALSAS MATÉRIAS – O que está acontecendo no quadro político dá margem à preocupação necessária com uma corrente de falsas matérias poderá trilhar outros caminhos criando problemas e bloqueando as soluções.

As redes sociais encontram-se sempre ao alcance de qualquer um e ao mesmo tempo, transforma quem postou os textos num editor de si mesmo, produzindo situações que muitas vezes 24 horas depois podem ser respondidas pela realidade dos fatos. Mas geram dúvidas no início da postagem e tais dúvidas podem promover atritos pessoais e até o descrédito do personagem a quem tais notícias desejam atingir.

MATÉRIA FAKE – Assim surge mais uma preocupação para o governo e para a sociedade brasileira como por exemplo matéria editada no mesmo contexto, atribuida a Paulo Guedes, insinuando a existência de desabastecimento capaz de promover ondas de saques nos supermercados.

Coube, neste caso, ao Ministro Onyx Lorenzoni negar tal risco duplo e mostrar em um vídeo a situação dos supermercados. O Ministro Sérgio Moro, em O Globo, também negou o risco e afastou a imagem de saques em busca de alimentos.

Portanto está se travando uma nova frente de luta. Uma delas, claro, contra o corona vírus. A outra nas sombras do Planalto.

Paulo Guedes anuncia como “novos” os 750 bilhões já consignados no orçamento

Bolsonaro critica Paulo Guedes por proposta de 'imposto sobre ...

Do jeito que Guedes fala, até parece que é “dinheiro novo”

Pedro do Coutto

Em entrevista à imprensa na tarde de ontem, presentes também os ministros Henrique Mandetta e Sérgio Moro, o ministro Paulo Guedes anunciou uma dotação de 750 bilhões de reais para a saúde no sentido de reforçar o combate ao corona vírus. Para a maioria das pessoas, a dotação poderia ser interpretada como nova e adicional.

No entanto, exceto algumas rubricas, como o caso do benefício de 600 reais à famílias e pessoas pobres, tais recursos já se encontram previstos no orçamento federal de 2020.

DÉFICIT PREVISTO – Não poderia ser de outra forma, porque o governo Bolsonaro não poderia injetar esse montante como “dinheiro novo”, porque o déficit previsto na lei de meios é de 220 bilhões.

Portanto, o titular da Economia não poderia tirar coelhos da cartola, como acontece no campo da mágica. Isso seria uma colisão com a lógica dos fatos e dos números. O orçamento federal já em vigor eleva-se ao montante de 3,6 trilhões de reais. Ou seja, somente se poderia falar em tal importância se fossem criadas novas rubricas orçamentárias. Mas não é esse o caso.

ESTRATÉGIA ERRADA – A entrevista de ontem voltou a ser realizada no Palácio do Planalto reunindo mais uma vez ontem o General Braga Netto, chefe da Casa Civil, e os ministros Paulo Guedes, Sérgio Moro e Henrique Mandetta. Assim ocorreu na segunda-feira, aconteceu ontem e vai continuar sendo assim ao longo do tempo. O Ministro Mandetta será uma presença permanente. Permanente também o general Braga Netto.

O lance de dados do Palácio do Planalto em transferir do Edifício da Saúde para suas dependências teve o sentido político de causar alguma inibição a Mandetta, na teoria. Mas na prática não funcionou, porque O Globo e a Folha de São Paulo, edições de ontem, colocaram em suas manchetes a união de pensamento entre Guedes, o próprio Mandetta e Sérgio Moro a favor do isolamento colocado em prática de acordo com o projeto do titular da saúde.

GOVERNO INSISTE – Ficou ruim para o governo a tentativa de desfocar as lentes da população sobre um problema realmente enorme provocado pelo coronavírus. Ontem também, antes da entrevista, o presidente Jair Bolsonaro voltou a repetir seu posicionamento contrário à tese de Mandetta.

Mas o assunto demissão do ministro. que havia sido ventilado na segunda-feira, não foi objeto de novo aviso nesta terça-feira. Inclusive verificou-se na trade de ontem uma situação política curiosa. Dos quatro ministros que participaram da reunião, três pelo menos se tornaram praticamente indemissíveis pela lógica dos fatos: Mandetta, Moro e Guedes.

Se a situação do vírus permanecer a mesma nas próximas semanas Bolsonaro não poderá recorrer à mágica contra a lógica. E sozinho, o presidente da República ingressa na faixa de risco político. 

Qual a motivação de Bolsonaro em querer desconsiderar a atuação do ministro Mandetta?

Humor Político – Rir pra não chorar | Página 189

Charge doi Amarildo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O Globo e a Folha de São Paulo, edições desta segunda-feira, dia 30, publicaram em suas manchetes principais a atitude do presidente Jair Bolsonaro em contrariar as recomendações do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, do isolamento social e da lógica de evitar aglomerações. O presidente da República fez exatamente o contrário, foi a Ceilândia, cidade satélite de Brasília e fez selfies entre várias pessoas, uma delas com uma criança no colo.

Repetiu assim o que havia feito recentemente no domingo dia 15, na manifestação diante do Palácio do Planalto.

ISOLADO DA REALIDADE – Não há como explicar essa atitude de Bolsonaro, sobretudo porque ele se isolou da realidade de hoje e colidiu com os princípios e providências tomadas por todos os países atingidos pela circulação do coronavírus.

Por falar em todos os países, os grandes jornais do mundo condenaram e se demonstraram surpresos com o comportamento de um presidente da República que, por inciativa própria, se expõe ao risco de uma contaminação, não só a dele como a dos outros que o rodeavam.

Havia um grande número de pessoas em torno do presidente. Percorreu também várias outras localidades da capital. Foi um desastre em matéria de comentários internacionais.

UM ERRO GROTESCO – O reflexo na imprensa estrangeira quanto à atitude de Bolsonaro ressalta com bastante nitidez o erro cometido, capaz até de aumentar a contaminação do vírus na capital do país.

Assim, o presidente Jair Bolsonaro isolou-se ainda mais, ficando absolutamente desgastado com as manifestações repetidas e desaconselhadas pelo ministro Henrique Mandetta.

Ontem, em entrevista coletiva da qual participaram vários ministros, inclusive o general Braga Neto, Chefe da Casa Civil, o ministro da Saúde reafirmou sua recomendação no sentido do isolamento das pessoas e acentuou que suas providências inspiram-se em critérios científicos e técnicos, os quais estão distantes de comportamentos políticos.

No meio da entrevista diante de uma pergunta da jornalista Delis Ortiz, da Rede Globo, sobre sua permanência no cargo que ocupa, o general Braga Neto entrou em ação dizendo que esta hipótese é absolutamente rejeitada.

NOVA REALIDADE – Dessa forma, estabeleceu-se uma nova realidade, esta política, revelando que o governo necessita da presença de Mandetta, da mesma forma que necessita de Sérgio Moro e Paulo Guedes.

O titular da Economia reviu a posição que adotara inicialmente, ao colocar o funcionamento do Economia acima da exigência fundamental das ações do Ministério da Saúde. Agora, passou a admitir que sem saúde a economia não pode funcionar.

Com a entrevista de ontem formou-se um novo panorama que tanto poderá ser marcado pelo recuo de Jair Bolsonaro, ou então por uma nova atitude descontrolada. Temos que aguardar. Porém, de qualquer forma, o presidente da República se expôs como personagem principal de uma situação de absurdo. O ministro Henrique Mandetta não recuou. Seria inclusive um absurdo na sua orientação traçada para combater o vírus que ameaça a vida humana.

Problema urgentíssimo: abastecer de alimentos as favelas do Rio e de todo o país

A sociedade civil já começou a distribuir alimentos aos pobres

Pedro do Coutto

A manchete principal da edição da Folha de São Paulo deste domingo sintetizou o grande problema nas comunidades pobres que nesta altura da pandemia necessitam obter mantimentos para sua sobrevivência. O desafio colocado para as autoridades representa praticamente uma medida até de sobrevivência para famílias pobres residentes em favelas. Existem no Rio de Janeiro grandes áreas ocupadas por moradias nos morros e também em áreas planas como é o caso do Complexo da Maré. O quadro assim revela que uma iniciativa do governo necessita ser tomada com urgência, pois caso contrário moradores de favelas irão descer para conseguir alimentos nos supermercados.

As comunidades não existem somente no Rio de Janeiro, ao contrário, espalham-se pelo país. Na cidade do Rio de Janeiro cerca de 2 milhões de pessoas vivem nessas áreas críticas.

CRISE HABITACIONAL – No Brasil o déficit habitacional encontra-se na escala de 7,75 milhões de residências onde residem 33 milhões de pessoas, 15% da própria população brasileira.

Ontem, enquanto o ministro Henrique Mandeta reiterava mais uma vez a necessidade das pessoas permanecerem em suas residências evitando aglomerações, o presidente Jair Bolsonaro visitava a Ceilândia, cidade satélite de Brasilia e cumprimentava grupos de pessoas nas ruas daquela localidade.

Como se verifica, enquanto o ministro da Saúde diz uma coisa, o presidente da República age exatamente na forma oposta. Não se entende assim a predominância de um choque refletido nos meios de comunicação que focalizaram o encontro de Bolsonaro com populares.

POSIÇÕES ANTAGÔNICAS – O Ministro Mandeta retomou sua posição original em relação a pandemia. Jair Bolsonaro repetiu os gestos que trocou ha uma semana atrás com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. A distonia está caracterizada.

A respeito da distonia, vale a pena ler a entrevista do general Hamilton Mourão, de página e meia, na qual deu ênfase ao que ele próprio classificou da falta de coordenação em torno do problema do coronavírus. Como a entrevista saiu ontem, o general Hamilton Mourão, mesmo sem bola de cristal focalizou a desconexão que atrapalha o combate ao surto virótico que está atingindo o mundo inteiro.

O panorama por enquanto é esse. Todos nós devemos esperar que o governo federal adote um novo rumo capaz de enfrentar o ataque do coronavírus.

Como concretizar o projeto do governo para distribuir 600 reais a 25 milhões de pessoas?

TRIBUNA DA INTERNET | Archives | 2019 | agosto | Page 11

Charge do Valdo Virgo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O governo Bolsonaro pretende distribuir 600 reais por mês a 25 milhões de trabalhadores sem vínculo empregatício. Como será que realizará este projeto durante os três meses previstos? Destinar 40 bilhões de reais para que pequenas e médias empresas não constitui problema, tarefa fácil através dos registros existentes. Em contrapartida as empresas não demitirão seus empregados.

Mas distribuir diretamente 600 reais por mês a 25 milhões de pessoas é uma tarefa que exige um sério esquema de entrega do dinheiro, um suporte logístico. Afinal há problemas, a meu ver especialmente quanto a entrega dos recursos.

IDEIA EQUIVOCADA – Pensar que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal podem concretizar essa distribuição é uma ideia equivocada. Seguir por CPF não é uma iniciativa eficiente. É preciso considerar que essas 25 milhões de pessoas, homens e mulheres encontram-se numa série de estados brasileiros. Depósito em conta bancária exige que os beneficiados tenham conta em seu nome. Isso não ocorre em grande parte dos casos. Portanto, o depósito em conta corrente enfrentará problemas.

Enviar cheques é extremamente problemático, ao logo de três meses, pelas contas do próprio governo, seriam 75 milhões desse tipo de pagamento. Tarefa impossível na minha opinião porque os cheques, pela lei em vigor, tem de ser nominativos. Então vamos dar uma olhada na hipótese de os alcançados pela medida comparecerem a bancos para receber o dinheiro.

ABRANGÊNCIA NACIONAL – A Caixa Econômica Federal por sua abrangência em todos os municípios seria o canal capaz de entregar a quantia nas mãos dos beneficiados. O Banco do Brasil poderia ser também outro caminho, mas de qualquer forma a tarefa é simplesmente gigantesca e exige um esquema bastante rígido.

Um esquema, por exemplo, capaz de identificar prontamente a iniciativa de pessoas apresentarem dados falsos. Os que defendem o projeto consideram inevitável a tentativa de fraude. Mas argumentam que o risco existe porém é melhor enfrentá-lo do que não destinar os 600 reais àqueles que necessitaram recebê-lo. No entanto, a dificuldade de implantar um projeto legítimo permanece em torno da iniciativa. 

INSCRIÇÃO VÁLIDA – O governo necessita divulgar como será feita a entrega de três parcelas mensais àqueles que passam a ter direito a elas.

No caso das pessoas possuírem algum outro benefício, como é o caso da inscrição no Bolsa Família, há necessidade de se evitar que recebam duplamente o benefício original daquele que será agora implantado. É verdade que muitas pessoas vão partir em busca dos 600 reais sem informar que recebem o Bolsa Família. Claro, o governo tem de impedir a duplicidade. Terá de confrontar pelo CPF para evitar o recebimento duplo.

Enfim, vamos aguardar o projeto concreto do governo, que terá que transformar a ideia em realidade. 

Afirmações surpreendentes do presidente Bolsonaro prejudicam a sua própria imagem

Bolsonaro vai fazer novo teste de coronavírus nesta terça-feira ...

Bolsonaro usa máscara nas lives, m menospreza o vírus

Pedro do Coutto

Reportagem de Gustavo Uribe e Daniel Carvalho, Folha de São Paulo desta sexta-feira, coloca em destaque afirmação feita pelo presidente Bolsonaro na noite de quinta-feira. Falando a um grupo de jornalistas, optou por tentar minimizar, mais uma vez, a pandemia de coronavirus. Ele afirmou que o brasileiro tem que ser estudado. “Ele não pega nada. Você vê o cara pulando até em esgoto e não pega nada”, assinalou.

Essas afirmações em série causam desgaste tanto ao presidente quanto ao governo. Não foi por acaso, por exemplo, que o general Hamilton Mourão afirmou que Bolsonaro não havia explicado bem a situação em relação à crise virótica.

ISOLAMENTO DE BOLSONARO – Também na Folha, de acordo com matéria de Igor Gielow ressalta que as correntes bolsonaristas estão demonstrando preocupação com o isolamento de Jair Bolsonaro no quadro político. Na minha opinião o isolamento foi causado pelo próprio Palácio do Planalto.

Se o presidente da República tivesse um diálogo aberto com os setores político partidários, não estaria enfrentando as dificuldades que enfrenta hoje. Isso de um lado. De outro, sua agenda de reformas produzidas pelo ministro da Economia, encontram obstáculos decorrentes da falta de uma ponte entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.

HÁ AFASTAMENTOS – Não que Bolsonaro fosse obrigado a politizar ao máximo sua administração. Mas que observasse a necessidade de um diálogo mais próximo entre as frentes que se formaram na sua vitoriosa campanha eleitoral e que no momento se afastam dele.  É o caso do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, autor da indicação de Henrique Mandetta para o Ministério da Saúde.

De forma surpreendente, o presidente da República afirmou-se contrário ao isolamento social adotado pelos países atacados pelo coronavírus. Ontem, vale frisar, o prefeito de Milão, em uma entrevista transmitida pela televisão, pediu desculpas à população milanesa por não ter estabelecido as restrições à movimentação das pessoas. Aliás, o governo italiano custou a reconhecer a gravidade real da pandemia. 

TRUMP ENFIM SE MEXE – Os EUA são outro exemplo. O presidente Donald Trump terminou enviando ao Congresso, que já aprovou, projeto de lei permitindo que ele canalizasse para as empresas e pessoas atingidas um maior desembolso financeiro da história da humanidade. Dois trilhões de dólares superam até o PIB brasileiro, que se encontra na escala de 1 trilhão e 400 bilhões de dólares. A pandemia avançou tanto que causou alarme à população norte americana.

Aqui no Brasil Jair Bolsonaro propôs o repasse de 600 reais a cada trabalhador informal cuja renda mensal está em torno de 2.000 reais. E essa quantia de 2.000 reais – deve- se acentuar – é a escala em que se incluem metade dos brasileiros e brasileiras.

Jair Bolsonaro já está isolado no país e também na comunidade internacional

Bolsonaro está isolado e pode sofrer impeachment, diz o aliado ...

Jair Bolsonaro tenta desconhecer a gravidade desta pandemia 

Pedro do Coutto

Com o pronunciamento que fez combatendo as medidas estabelecidas pelos governadores no sentido de suspender as atividades normais e evitar o coronavirus, o presidente Jair Bolsonaro ficou isolado no país, uma vez que 26 governadores rejeitaram sua proposta de liberar o trabalho e a movimentação das pessoas. Só não participou da reunião o governador do Distrito Federal. Porém na tarde de ontem assinou o documento conjunto. Esse episódio foi destacado pela reportagem de Andre de Souza, Leandro Prazeres, Renata Mariz e Paula Ferreira, O Globo desta quinta-feira.

Formou-se um movimento em cadeia incluindo não só os governadores mas também políticos, estendendo-se as restrições ao general Hamilton Mourão, vice-presidente da República.

DUAS OPINIÕES – Uma contradição está sendo destacada. O posicionamento defendido por Bolsonaro colide com as primeiras afirmações do ministro da Saúde, Henrique Mandetta. O ministro tentou evoluir para uma solução intermediária mas não encontrou respaldo. Assim criou-se uma situação paradoxal: os governadores apoiam a primeira posição assumida por Mandetta. E afirmaram-se contrários à recomendação do presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro não ficou somente isolado, como disse há pouco, no plano interno. Todos os governos dos países que enfrentam a pandemia estabeleceram exatamente as medidas determinadas por Mandetta logo que a crise se instalou no Brasil. Vale citar a posição do presidente Donald Trump que alterou sua primeira visão e obteve do Congresso um crédito extraordinário de 2 trilhões de dólares para enfrentar tanto a contaminação quanto os efeitos dela.

Entre as soluções que adotou inclui-se a distribuição de recursos financeiros para manter os empregos e ao mesmo tempo oferecer um planejamento para neutralizar o coronavirus.

MAIS GASTO PÚBLICO – Uma outra reportagem, publicada em O Globo de autoria de João Sorima Neto, Pedro Cafetti e Cássia Almeida focaliza opiniões de diversos economistas que propõem uma política de maior gasto público tanto com empresas quanto aos trabalhadores. Isso de um lado. De outro, a proposta de incluir no auxílio de emergência aqueles que trabalham sem vínculo empregatício.

Mas quanto a estes, na minha opinião será quase impossível realizar-se tal distribuição. Improvável porque como poderá o governo cadastrar todos aqueles que trabalham nesse sistema. São milhões de pessoas, de acordo com IBGE, 30% da mão de obra ativa brasileira. Estou falando de 35 milhões de autônomos e daqueles que realizam pequenos trabalhos.

Verifica-se aí uma situação curiosa. Aqueles que sustentam a tese do livre mercado para equilibrar o problema social, contrários à intervenção do Estado passam a ser favoráveis.

CADÊ O DINHEIRO? – Mas não é só essa a questão. Onde está o dinheiro para que o universo estatal possa realizar tal distribuição. Mesmo aquela proposta pelo deputado Rodrigo Maia de liberar 500 reais por mês aos sem vínculo e também agora sem conseguirem desenvolver suas atividades profissionais. Refiro-me a todos os que conseguem se sustentar com vendas nas ruas ou então em outras atividades desvinculadas das relações de emprego.

O isolamento de Jair Bolsonaro ao que parece vai se tornar um problema muito grave. Nenhuma crise desse tipo pode durar por muito tempo sem que haja um corte ou uma ruptura no tecido político institucional. 

Crise política chega à exasperação e tem de haver um choque, numa direção ou noutra

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Esta crise tem nome e chama-se Jair Messias Bolsonaro

Pedro do Coutto

A crise desencadeada entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores dos estados, principalmente o de São Paulo, não pode ter uma longa duração e tampouco se afastar de um ponto crítico capaz até de levar a algum tipo de ruptura. Pelo contrário, precisa ter um limite que não pode ser muito longe do clima criado no decorrer de ontem, quarta-feira.

Não é possível que o país permaneça longo tempo vivendo dentro do choque entre o Palácio do Planalto e os governos estaduais. Não só os estaduais, mas também os municipais que lançaram documento defendendo as recomendações da Organização Mundial da Saúde que recomendam a suspensão da maior parte das atividades como forma de conter o coronavirus.

QUADRO INSTITUCIONAL – Inclusive, como foi amplamente divulgado, o choque entre Bolsonaro e João Dória afetou fortemente o quadro institucional, na medida em que pela primeira vez um governador como João Dória revela-se praticamente um porta-voz de tantos outros chefes de Executivos estaduais.

Desse episódio pode se dizer que ele no fundo antecipa o debate em torno da sucessão presidencial de 2022. Mas não é somente esta questão.

A discussão essencial envolve critérios para combater a pandemia e ilumina fortemente a contradição entre a posição do presidente Bolsonaro e a do ministro da Saúde, Henrique Mandeta.

SAÍDE DE MANDETTA? – A brigalhadas levou a uma série de comentários sobre a perspectiva de MandetTa deixar o governo, uma vez que foi indicação do governador Ronaldo Caiado, que, por sua vez anunciou, rompimento com o presidente da República, recorrendo até a termos fortes na medida em que avistava no meio da onda a condição de “incompetente”, definir a atuação do chefe do governo.

Na realidade, nesta quarta-feira o ministro Mandetta anunciou que vai permanecer no governo, como abordou na entrevista coletiva a imprensa na tarde de ontem.

BUSCA DE EQUILÍBRIO – Mandetta, cuja saída era vista como um desastre de grandes proporções para o governo federal, tentou no encontro com jornalistas, transmitido pela televisão, uma fórmula capaz de equilibrar a colocação do presidente da República com o pensamento dos governadores.

O titular da Saúde foi hábil na colocação, mas adotar o que Bolsonaro propõe seria reconhecer que ele, Mandetta, era um dos defensores da medida que suspendia atividades com as quais o chefe do Executivo federal não concorda. Isso equivale a uma contradição entre as muitas contradições envolvendo o Palácio do Planalto e os governos dos estados e municípios.

Vale lembrar que a frente municipal que congrega os prefeitos divulgou documento defendendo a posição adotada pela Organização Mundial de Sáude.

Além de tudo isso no anoitecer de ontem, o vice presidente Hamilton Mourão afirmou que o presidente Bolsonaro não havia se expressado bem na noite de terça-feira quando falou ao país através de cadeia nacional de televisão. A expressão usada por Mourão, sem dúvida alguma, abala o relacionamento do presidente da República com as bases mais próximas de sua confiança.

Estamos atravessando, digo eu, um período de exasperação. Nenhum período desse tipo pode se alongar no indefinidamente. Tem de haver um choque numa direção ou em outra.

Paulo Guedes e Roberto Campos Neto voam ao lado do doce pássaro da fantasia

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Campo Neto e Paulo Guedes reforçaram o caixa dos bancos

Pedro do Coutto

O título é inspirado em uma peça de Tennessee Williams. As matérias referindo-se ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, estão contidas em duas reportagens na edição de O Globo desta terça-feira. A primeira é de Marcelo Correia, Geralda Doca e Gustavo Maia. A segunda é de Gabriel Shinohara. Os personagens voam ao lado do doce pássaro da fantasia e da ilusão, muito distantes da realidade dos fatos.

Depois de ter redigido erradamente a medida Provisória que o presidente Jair Bolsonaro assinou sem ler e foi obrigado a refazê-la, o ministro Guedes afirma que o governo trabalha para publicar nova versão do texto, cujo objetivo principal, para ele, é preservar empregos. Essa não.

DISSE GUEDES – O ministro afirmou que o primeiro texto de fato foi mal redigido e que a nova versão vai incluir uma redução salarial de 1/3 dos atuais vencimentos dos empregados. Os empregadores arcarão com 1/3 e o governo com outro terço. Assim, quem ganha por exemplo R$ 2.100, receberá R$ 700 da empresa, outros R$ 700 do governo e sofreria redução de R$ 700.

Como os leitores já sentiram, a ideia é completamente absurda. Como poderia o governo realizar uma folha de pagamento envolvendo praticamente 100 milhões de trabalhadores? Ainda que isso pudesse ser feito, o efeito da redução salarial prevista por Paulo Guedes derrubaria o consumo, arrecadação de tributos e a do INSS, atingindo ainda os 8% do FGTS. 

MENOR ARRECADAÇÃO – Como se constata, caso a medida entre em vigor, a arrecadação de Imposto de Renda sofrerá forte diminuição. O mesmo se aplicaria ao imposto sobre o consumo, arrecadado pelo ICMS dos Estados. Incrível. Custa crer que um homem altamente especializado na matéria econômico-financeira possa aceitar uma situação como a que está proposta.

A fantasia e a ilusão são passageiras do projeto do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Anunciou que está concluindo a elaboração de medidas que terão impacto de 1 trilhão e 200 bilhões de reais.

Esse montante equivale a 1/3 do orçamento federal para este ano, previsto em 3,6 trilhões de reais. Campos Neto revela o projeto de reduzir o depósito compulsório aplicado aos bancos, hoje na escala de 25% dos depósitos dos correntistas. O compulsório passaria a ser de 17%.

JOGO DOS NÚMEROS – Para o economista do BC, esse lance de dados deve liberar 68 bilhões para a economia, uma vez que os bancos teriam mais recursos para emprestar a seus clientes. Qual a distância entre esses 68 bilhões e 1 trilhão e 200 bilhões de reais? Vale a pena lembrar que o ministro Paulo Guedes, no início do governo Bolsonaro, anunciou uma economia de 1 trilhão de reais ao longo de 10 anos valendo portanto 100 bilhões a cada exercício. O presidente do Banco Central voa na ilusão até aterrissar na realidade.

Paulo Guedes e Roberto Campos Neto estão iludidos. Se o governo não tem recursos para cobrir o déficit da Previdência Social, calculado em 244 bilhões este ano, como poderiam injetar recursos financeiros para assumir o pagamento de 1/3 dos salários e muito menos lançar a nuvem da ilusão a todo o país?15

Ao proteger as empresas. Paulo Guedes quase leva Bolsonaro a um novo precipício

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Na tarde de ontem, na GloboNews, a jornalista Natuza Nery revelou que o presidente Jair Bolsonaro recuou e alterou a medida provisória que havia assinado pela manhã permitindo a redução de salários por quatro meses, a fim de evitar um novo ciclo de desemprego no país.

Ainda pela manhã, outra jornalista, Miriam Leitão, no mesmo canal, criticou a medida, afirmando que ela favorecia acentuadamente as empresas e prejudicavam os trabalhadores.

REAÇÃO GENERALIZADA – Quando a MP foi divulgada, verificou-se uma reação generalizada contra tal absurdo, cuja intensidade levou o presidente da República a recuar. O ato do chefe do Executivo durou, assim, em torno de cinco a seis horas de um texto para outro.

A redução de vencimentos não havia sido acompanhada do não pagamento de impostos, prestações de casa própria, tampouco alugueis. Dessa forma, os assalariados de modo geral na verdade não teriam como pagar os compromissos inadiáveis a cada mês.

O caso que ia sendo criado teria um efeito extremamente negativo no país, pois enquanto os salários estivessem bloqueados, a pergunta lógica que se faz é óbvia: como poderiam comprar os alimentos necessários a sobrevivência das crianças que evidentemente dependem de seus pais?

HAVERIA SAQUES – Na minha opinião, tal ato, de tão absurdo que era, provocaria indiretamente à realização de tentativas de saques nos supermercados. A fome seria uma consequência absolutamente lógica do corte projetado para durar quatro meses.

Essa consequência lógica, no entanto, não foi sequer configurada pelo ministro Paulo Guedes e por sua equipe de economistas que possuem importantes diplomas até em universidades norte-americanas. Assim, conhecem profundamente bem as teorias econômicas, mas ignoram a importância da população escalonada em níveis de rendimento baixíssimos. O projeto econômico desencadearia uma torrente de fatos críticos.

ABANDONO TOTAL – A população na verdade não teria dinheiro para se alimentar e, ainda por cima não poderia adquirir remédios indispensáveis sobretudo no momento em que o Brasil enfrenta a gravíssima pandemia do coronavírus.

Isso de um lado. De outro a total falta de sensibilidade característica daqueles que só visam governar para as empresas, o que, no caso, seria desgovernar para mais de 200 milhões de brasileiros. Na noite de domingo houve panelaços em áreas de classe média e alta. Sinal de alarme para o Palácio do Planalto.