Lula admite disputar 2018 e PT insiste na regulação de mídia

Pedro do Coutto

Reportagens de Natuza Nery e Andreia Sadi, Folha de São Paulo de 29, focalizaram com destaque os dois temas contidos no título deste artigo. A primeira decorre de cobertura feita, no domingo 26, em festa pelo aniversário do ex-presidente, realizada após a revelação do resultado das urnas. As repórteres assinalam Que ele, dependendo de como estiver de saúde, admitiu candidatar-se à sucessão de Dilma Rousseff nas urnas daqui a quatro anos. Acrescentam que ele, a partir de Janeiro de 2015, segundo ciclo de Dilma Rousseff no Planalto, pretende interferir mais no governo, o que faz presumir que ele considerou pequena sua participação no primeiro mandato.

Especialmente no plano do relacionamento político com o Congresso Nacional. Quer ser mais ouvido nas situações de crise – acrescentaram Natuza e Andreia. As interpretações a respeito do futuro, portanto, começaram. Embora o próprio Lula tenha divulgado nota à imprensa dizendo que 2018 estará completando 73 anos de idade e, assim, hoje, sua maior preocupação é a de estar vivo.

Ultrapassada a ressalva, o fato é que pelo tom da matéria a impressão que fica, predominante, é a de que o sonho do poder da maioria das correntes petistas é a de estender sua permanência no planalto de Brasília, pelo menos, abrangendo 2011, levando-se em conta a hipótese do fim da reeleição. Como, do lado oposto, o objetivo da maior parte de PSDB é que Aécio Neves volte a disputar o cargo de presidente da República. E para os aecistas, Lula será o adversário ideal. Não em função da idade, mas pelo fato dele haver derrotado Geraldo Alckmin na sucessão de 2006.

E o quadro do PSDB, hoje, somente apresenta duas figuras que se destacam dos demais correligionários: o governador de São Paulo e o senador mineiro. O primeiro perdeu disparado para Lula. O segundo perdeu apertado para Dilma. A oposição repetir o embate de 2006? Não é provável. Mas prever o futuro no campo da política é algo impossível. São especulações e nada mais.

REGULAÇÃO DA MÍDIA, UM DESASTRE

A segunda reportagem, esta somente de Natuza Nery, sustenta que o PT, ao contrário do que Dilma Rousseff fez no primeiro mandato, deseja reviver o projeto que pretende estabelecer parâmetros para regulação dos meios de comunicação do aís. Para isso, setores partidários desejam transferir Ricardo Berzoini da Articulação Política, para a da Regulação da Mídia, a ser criada, a qual desarticularia o governo, colocando-o em rota de colisão com os jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. A ideia, a meu ver, fruto de uma alucinação de radicais, não seguiria o absurdo modelo argentino que proíbe a acumulação de propriedades no setor da comunicação.

Mas com base no direito de resposta no mesmo espaço em que uma matéria foi originalmente publicada. Para isso, francamente, não existe necessidade alguma de regulação da mídia. A lei de imprensa é suficiente e já contém tal dispositivo, como aliás não pode deixar de ser. Além disso, o atingido de forma ilegítima, ou vítima de uma imaginação sem comprovação, pode recorrer à Justiça comum na forma prevista na legislação existente. Não há necessidade alguma de nova lei para o assunto. E, sob o ângulo político, será um fator de desgaste para o governo. A iniciativa destacada pela FSP seria um desgaste tanto para o PT, mas principalmente para o governo.

um absurdo.

Diálogo entre Dilma e Congresso depende dos eleitos este ano

Pedro do Coutto

Na edição de sexta-feira 31, O Globo publicou com grande destaque reportagem de Isabel Braga e Fernanda Krakovics focalizando a iniciativa do governo Dilma de restabelecer o diálogo e partir para um novo clima de relacionamento entre o Executivo e o Congresso, principalmente com a Câmara dos Deputados, que sinaliza dificuldades a começar pela maioria da bancada do PMDB que lançou a candidatura Eduardo Cunha para presidente da Casa. Fala-se em maior entendimento e aprovação de projetos de interesse dos parlamentares como o de elevar de 1 para 2% – acrescenta a matéria – o Fundo de Participação dos Municípios. Mas esta é outra questão.

O fato essencial, semi oculto, é o desejo de negociação política à base de maior participação no governo, de parte do PMDB, legenda que apresentou divisões regionais na campanha eleitoral, e que traz à luz do noticiário político uma forma indireta de pressão com a colocação do nome de Eduardo Cunha no palco das articulações e decisões. Outros partidos que integram a lista da chamada base aliada provavelmente têm reivindicações aproximadas no que se refere à presença no poder. Processo natural, à base de aproximações sucessivas, até certo ponto, até o limite do logicamente aceitável, desde que os nomes indicados possuam devida competência e compromisso com a ética administrativa.

Mas – aí é que está – o diálogo e as negociações devem ser mantidas entre o governo e os parlamentares eleitos este ano e que vão assumir seus mandatos a partir de fevereiro de 2015. Pois com os atuais deputados adiantaria pouco, uma vez que o Tribunal Superior Eleitoral confirmou que a renovação dos mandatos atingiu 43,5%. A Casa possui 513 cadeiras: desse total 20% não concorreram.

SÓ 209 REELEITOS

Tentaram um novo mandato 401 parlamentares. Destes, apenas 290 mantiveram suas cadeiras; 111 foram derrotados. São dados oficiais. Dez partidos não elegeram um deputado sequer: PHS, PTN, PRP, PEN, PSDC, PTC, PT do B, PSL, PRTB. Uma nova realidade surgiu das urnas, estabelecendo uma nova composição da Câmara Federal. Assim, sem considerar o Senado, a presidente Dilma Rousseff, que indicou o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, para encaminhar o entendimento com o atual presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, deve levar em consideração que qualquer diálogo no crepúsculo deste ano destina-se a ser temporário. O entendimento efetivo dar-se-á (ou não ) a partir da alvorada de 2015.

A bancada do PMDB, por exemplo, que lançou a candidatura Eduardo Cunha, num gesto de afastamento do Planalto, possui no momento 68 deputados, dos quais foram reeleitos 38, equivalendo ao índice de 57,6%. Quer dizer: 28 não foram reconduzidos. Seus substitutos na Casa é que terão de ser ouvidos tanto pelo presidente do partido, o vice Michel Temer, quanto pelo próprio Eduardo Cunha, mantido pela bancada atual na liderança da legenda na Casa.

Enfim, a diferença entre a composição das forças partidárias na Câmara de hoje para o amanhã é muito grande. É só conferir os índices de reeleição por legenda. do PT, 70 cadeiras, foram reeleitos 48. Do PSDB, 54 integrantes, foram reeleitos 28. Do PSB, 34 cadeiras, foram reconduzidos 15 deputados federais. Todos esses são pontos sensíveis a serem levados em conta para a articulação e o desenvolvimento do diálogo entre Executivo e Legislativo, uma vez que as estruturas são diferentes: o Executivo, por princípio, age em função do poder central. O Legislativo divide-se em várias correntes dentro das próprias legendas. Não possuem a mesma unidade política. Este fato é essencial para o relacionamento político.

Matéria complexa, reforma política é da esfera do Congresso

Pedro do Coutto

A reforma política, que a presidente Dilma Rousseff se comprometeu na campanha eleitoral a implantar no país, é matéria de extrema complexidade constitucional e legal, como aliás destacou o jornalista Elio Gaspari em sua coluna no Globo, edição de quarta-feira, que tem de ser apreciada em profundidade pelo Congresso Nacional, ao invés de ser submetida a um plebiscito, como desejava a chefe do executivo. Ainda bem que recuou desse propósito, como o jornal destacou em outra página da mesma edição, aceitando a reforma como atribuição do Legislativo, e só depois de firmado o consenso, o trabalho seria (será) submetido ao referendo popular.

De fato, as dúvidas que exigem respostas claras como base da mudança lógica do universo político são de tal ordem, exigindo dezenas de respostas, que se tornaria impossível submeter todas elas à decisão da sociedade através de uma nova convocação às urnas. Isso de um lado. De outro, como ressaltou Elio Gaspari, porque se trata de uma atribuição do Parlamento. Para alterar o pensamento de Dilma Rousseff muito contribuíram duas reações do Congresso focalizadas em reportagem de Isabel Braga, Cristiane Jungblut, Carolina Alencastro e Simone Iglésias, publicadas igualmente pelo Globo, edição de 29.

Destacaram a reação de senadores e deputados federais à fórmula do plebiscito norteando o posicionamento do Congresso e a rejeição, pela Câmara, do decreto presidencial criando os chamados conselhos populares. Estes conselhos, pelos poderes que teriam, desaconselhavam sua própria aprovação. Basta ler trecho de seu texto. Nele estava escrito que os órgãos da administração pública devem considerar as manifestações (dos conselhos) para avaliar a execução de seus programas e políticas públicas. Seria uma forma de participação social. Como? De que maneira?

Não estava (está) previsto. Só que os integrantes de tais conselhos seriam escolhidos pelo governo. Quando separo as duas formas do verbo estar é porque a rejeição definitiva do decreto ainda depende de sua derrubada pelo Senado Federal, embora tudo indique que a votação de terça-feira na Câmara deverá ser plenamente confirmada pela Câmara Alta, como antigamente também era chamado o Senado. Pois o decreto influiria para diminuir o peso do poder Legislativo. E também o peso do próprio Executivo. Neste caso, através da transferência dos programas e decisões administrativas das entidades responsáveis por eles para conselheiros sociais escolhidos de forma livre, presume, dos vínculos de emprego e de responsabilidades inerentes a tais condicionamentos.

CONSTITUCIONALIDADE

Esse enfoque pouco nítido entre os lados em torno da questão chocar-se-iam com os princípios constitucionais da representação civil pública. Que partem da harmonia entre os Poderes, não distinguindo, é claro, quais os pontos de tal harmonia. Não fazendo distinção, o texto constitucional abrange todos eles por igual, tanto no aspecto objetivo, quanto nas interpretações subjetivas.

Pois como seria possível submeter decisões técnicas de administradores por sua observação por representantes sociais, os integrantes dos conselhos populares? Ministros, presidentes, diretores de empresas estatais e de autarquias, já por si   exercem seus poderes representando o governo por intermédio dos respectivos postos que ocupam. Passariam a ter que dar atenção a uma outra escala de compartilhamento? Os conselhos desaconselháveis atrapalhariam a própria ação do governo como um todo. Tornar-se-iam um obstáculo a mais para as ações da administração federal. Não fazem sentido. Ainda bem que houve recuo.

Candidatura de Eduardo Cunha, primeiro obstáculo para Dilma

Pedro do Coutto 

Reportagem de Márcio Falcão e Ranier Bragom, na Folha de São Paulo, e de Isabel Braga e Fernanda Krakovics, no Globo, ambas nas edições de quinta-feira 30, deram destaque ao lançamento, pela maioria da bancada do PMDB, da candidatura do deputado Eduardo Cunha à presidência da Câmara Federal. A legenda, para reforçá-lo no embate e que se propõe contra o governo, o reconduziu à liderança partidária. A candidatura do parlamentar do Rio de Janeiro caracteriza-se por um tom oposicionista que assumiu. Tanto assim que o próprio candidato afirmou não haver um tom de harmonia com o PT na Casa.

A declaração acentua uma posição contrária ao governo, sobretudo porque ocorreu a deflagração antecipada para uma disputa igualmente prevista. O que a meu ver caracteriza bem o lance antecipado tem base numa questão bastante simples: o futuro presidente da Câmara dos Deputados não será eleito pelos parlamentares e sim pelos que tiveram seus mandatos renovados nas urnas de 5 de outubro, ou pelos que iniciam sua atuação parlamentar. Em ambos os casos, pode-se afirmar em síntese, pelos que vão tomar posse a partir de primeiro de fevereiro. Diferentemente da presidente da República que será reempossada a primeiro de Janeiro de 2015.

Como a renovação da Câmara foi em torno de 30%, esta parte dos novos eleitores não estavam diplomados quando a candidatura foi lançada na sessão de 29 de outubro. A quem interessa a antecipação? Provavelmente ao PMDB, que se encontra dividida desde as eleições para alguns governos estaduais.

DESAFIO

O desafio dirigido ao Palácio do Planalto possivelmente tem como endereço a chefe do Poder Executivo, o que está claro, e como objetivo, no fundo da questão oculto, produzir um impacto que se torne capaz de conduzir o governo a apressar articulações para escalar o novo ministério a emergir no início de Janeiro de 2015. As duas alternativas, dependendo do desenrolar dos fatos, poderão se transformar em uma só solução. Mas, sem dúvida, o desafio e o problema foram colocados para Dilma Rousseff. Poderiam ser traduzidos através do diálogo colocado pela presidente, logo após a confirmação de sua vitória nas urnas.

Mas não há dúvida, seja sob qualquer ângulo de análise, que a candidatura Eduardo Cunha representa, além de um desafio, um obstáculo ao governo de Brasília. Muito maior que a rejeição, pela Câmara, do decreto que criava os Conselhos Populares, iniciativa, segundo o senador Renan Calheiros, que igualmente deve ser arquivado pela Câmara Alta.

Em ambas as escalas pela dificuldade natural da matéria, de conteúdo duvidoso de poder ser colocado em prática no atual quadro administrativo do país, cujas funções encontram-se amplamente previstas pela Constituição Federal. Além disso, como é fácil perceber, tais conselhos desaconselháveis, como escrevemos há pouco, trariam consigo um sentido pouco democrático porque funções preenchidas em função de escolhas executivas passariam a enfrentar a possibilidade de revisão ou desaconselhamento por parte de conselhos não se sabe através de que forma. A ameaça Eduardo Cunha, politicamente, é muito maior para o governo. Ele próprio deixou clara a dificuldade.

Vitória nas urnas não representa cheque em branco para Dilma


Pedro do Coutto
Excepcionais o título e o texto da matéria da jornalista Flávia Barbosa, publicada na edição de terça-feira 28 em O Globo. Correspondente do Jornal em Washington, tomou como base as impressões de brasilianistas americanos a exemplo de Peter Hakim e Hanes Green e alcançou uma síntese perfeita que traduz a realidade política do Brasil às speras do fim do mandato atual e o início da renovação do ciclo da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto.
É exatamente isso. Pois a verdade revelada pelas urnas de domingo passado assinala uma forte divisão da sociedade brasileira separada por uma margem estreita no mar da sociedade e, assim, da opinião pública.

Dilma
Rousseff, no fundo da questão, vai enfrentar um noco desafio de agora para seu desempenho ao longo do mandato revigorado. Os brasilianistas inclusive lembram o slogan de sua campanha: governo novo, ideias novas. Mudanças terão de ocorrer para equilibrar os avanços sociais alcançados com o degelo nos níveis de corrupção que se instalou no país a partir da Petrobrás.
Será indispensável enfrentar tal situação, verdadeiro desafio administrativo, sem comprimir os índices atingidos pela distribuição de renda, apontada pelos dois professores e pesquisadores da realidade brasileira, como um passo importante num país da dimensão praticamente continental do Brasil. Peter Hakim, inclusive, possui ao longo de sua vida acadêmica 50 anos de pesquisas relativas a nosso país, conjugando simultaneamente seus vários ângulos.
JULGAMENTO COLETIVO
Mas eu disse que o título da reportagem de Flávia Barbosa constitui uma síntese absolutamente clara da fase pós urnas de 2014. Isso porque em política, para início de conversa, não existe cheque em branco. Pelo contrário. A conquista dos espaços da opinião pública é um processo quase diário de afirmação expostas ao julgamento coletivo através dos meios de informação. Acertos e erros se encontram colidindo em campos opostos de pensamento a cada 24 horas. As parcelas vão se acomodando nos universos da razão e da emoção e, creio, a cada espaço de trinta dias surge uma totalização que chega à população de modo geral. Exatamente por isso, e a partir daí,  cotejam-se os índices favoráveis e contrários à administração. Não falo só da administrações, em todas as épocas. Será eternamente assim.
Com base na acumulação e mistura das tendências favoráveis e contrárias é que se extrai a síntese sobre o desempenho de um governo. De todos. Agora, por exemplo, sobre a atuação do governo que se encerra a menos de três meses e o que começa para um período de quatro anos. Esse processo de julgamento coletivo é insubstituível. E fica, de uma forma ou de outra, gravado para sempre na história dos países, das nações, e do que aconteceram com elas, de bom e de ruim, durante os governos que tiveram.
Não é fácil conquistar o apoio da maioria da sociedade. Pelo contrário. Por isso mesmo é que fotografia das urnas será sempre retocada ao longo dos mandatos políticos gerados por elas. Daí porque vencer uma disputa eleitoral não é capaz de fornecer cheque em branco a pessoa alguma. Porque o princípio básico da política baseia-se num teorema  eterno: algo que tem de ser comprovado na prática. Não é um axioma. Não é uma fantasia. No fundo, ninguém engana a sociedade de um país.

União nacional, só com a cobrança de compromissos assumidos

Pedro do Coutto

Após a revelação da verdade das urnas, na noite de domingo, excelente o trabalho realizado pela GloboNews, tanto a presidente reeleita, Dilma Rousseff, quanto o senador Aécio Neves, como destacou a manchete de O Globo de ontem, 27, defenderam o desarmamento dos espíritos e um projeto de união nacional. União é claro, em torno dos princípios que regem a democracia e a liberdade. Perfeito. No entanto, as divergências ficam marcadas, como é natural que aconteça – neste ponto o posicionamento de Aécio Neves assinala, no fundo, a aceitação plena da vontade popular manifestada nas urnas.

Perfeito. Mas houve as entrevistas e debates, formando um enorme bloco de comunicação pública, destacada pelas redes de televisão confirmado pelos jornais e pelos sites da Internet. Os sites, é claro, os que não foram atingidos pela veiculação de falsas informações. Colocado o tema em seu conjunto, a sociedade brasileira não deve esquecer de, mesmo num clima sereno, passados os choques que marcaram os episódios ao longo da campanha, de cobrar os compromissos assumidos pela vitoriosa diante de milhões de brasileiros e brasileiras.

Essa cobrança é igualmente indispensável à vida do país e se reflete na essência democrática. Pois se a vontade popular garantiu a reeleição da presidente da República, foram basicamente os compromissos assumidos que terminaram decidindo o desfecho. Parte-se do princípio que Dilma foi mais convincente do que Aécio nos momentos que antecederam de perto a decisão definitiva do eleitorado.

FRUSTRAR ESPERANÇAS

O governo reconduzido ao Planalto a primeiro de janeiro de 2015 terá de se empenhar a fundo para não frustrar as esperanças que criou, as quais envolvem, acima de tudo, os interesses nacionais. Trata-se da forma de, na prática, legitimar a si mesmo. Isso de um lado.

De outro, vai caber à oposição cobrar a concretização das promessas dentro dos programas traçados e destacados na luta pelos votos. Não obstruir a realização dos projetos, pois isso seria um ato contra a sociedade, especialmente aquela colocada na pauta política para negociar cargos. As correntes oposicionistas podem inclusive atuar para aprimorar as propostas que o governo enviar ao Congresso Nacional. Deve cobrar, também, a continuidade plena do inquérito que está envolvendo a Petrobrás e ação do ex-diretor, pois esta iniciativa foi anunciada pela própria presidente durante os debates que se verificaram.

Aliás, com os debates na televisão, nunca na história do Brasil os compromissos assumidos e os projetos e programas anunciados tiveram número tão grande de testemunhas. De um lado da tela a presidente Dilma Rousseff de outro a população brasileira. Este é o fato mais importante de todos. O grande saldo democrático das eleições de outubro de 2014.

Urnas reelegem Dilma: Datafolha acertou a pesquisa

Pedro do Coutto

As urnas do segundo turno reelegeram a presidente Dilma Rousseff para um novo mandato de quatro anos, por uma diferença que praticamente coincide com os números da pesquisa do Datafolha divulgada na noite de sábado e objeto de reportagem do jornalista Ricardo Mendonça na edição da Folha de São Paulo de domingo. O Datafolha apontou a vitória por uma diferença de quatro pontos: a diferença final bateu 3,5. O IBOPE também acertou a colocação final do confronto, porém seu prognóstico acusava uma diferença de seis pontos. Coisas da política. As pesquisas, delas não se pode exigir resultados exatos, mas sim aqueles que mais se aproximam da realidade concreta.

Aliás dois fatos surpreenderam em particular a disputa. A vitória de Dilma em Minas Gerais pela margem de 5 pontos e seu êxito em Pernambuco, derrotando Aécio por uma diferença enorme de 70 contra 30%. Foram os estados principalmente Minas que mais influíram no resultado final. Surpresa? Sim, mas a política é cheia de surpresas, simplesmente porque trata-se de uma ciência que somente se comprova na prática e que incorpora em si também o toque de liberdade peculiar ao universo da arte. Recorrendo ao passado eu pergunto: alguém poderia prever o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, a deposição de Jango? A cassação de Carlos Lacerda pelo movimento político militar de 64 que ele liderou? Impossível. Tais exemplos confirmam o caráter experimental da política será eternamente assim, sobretudo porque ele sintetiza o próprio processo humano.

Agora com base na excelente programação que a Globo News realizou ontem começam as preocupações com a formação do novo cenário nacional. As especulações são também naturais, marcadas pela ansiedade, pela inteligência e pela sensibilidade de cada um ou cada uma. Faz parte do novo jogo que começa a primeiro de Janeiro, cujos desdobramentos são muito difíceis de prever hoje. Há uma série de questões pendentes que exigem solução, a começar pelo caso da Petrobrás. Mas nada disso supera a decisão soberana e irrecorrível da maioria dos eleitores e eleitoras do país. Que seja eternamente assim com democracia e liberdade,

Debate na TV Globo reduz a diferença de Dilma sobre Aécio

Pedro do Coutto

As pesquisas do Datafolha e Ibope reveladas pela Rede Globo de Televisão e GloboNews no final da tarde de ontem, sábado, revelam que o debate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves na noite de sexta-feira contribuiu para diminuir a diferença da primeira sobre o segundo nos lances finais da campanha pela presidência da República que se encerra hoje com a colocação dos votos nas urnas.

Os dois institutos apontam no sentido da reeleição da atual presidente embora o Datafolha admita a possibilidade do que classifica como empate técnico. Vamos, portanto, comparar o quadro existente antes do debate, e antes também da edição da Revista Veja na sexta-feira com o quadro posterior aos dois episódios. Aliás a edição da Revista Veja foi o ponto que abriu o confronto de sexta-feira na tela da Globo.

Antes do debate o Ibope apontava uma diferença de 8 pontos em favor de Dilma Rousseff. Depois do debate, esta diferença caiu para 6 pontos. Com base nas intenções totais de voto, Dilma registrou 49 contra 43% de Aécio. A parcela de 5% dispõe-se a votar em branco ou anular o sufrágio, enquanto os indecisos caíram para 3%.

De acordo com o Datafolha, a diferença de Dilma sobre Aécio é menor: 47 a 43 do total. Considerando votos brancos e nulos na escala de 5% e indecisos no patamar de 3%, com base nos votos válidos Dilma alcança 52 pontos contra 48 de Aécio. Diferença de 4 degraus. Esta diferença antes do debate era de 6%.

AÉCIO SE SAIU MELHOR

Verifica-se, portanto, que a comparação, através da TV entre os desempenhos do senador mineiro e da presidente da República, favoreceu o primeiro, tanto assim que ele reduziu a diferença que o separava da líder nas pesquisas. Provavelmente arrebatou para si uma parcela pequena dos que se encontravam na área da indecisão. Porém não ao ponto de mudar o desfecho de uma das eleições mais disputadas e acirradas da história do país.

Hoje, as  estruturas partidárias estarão fortemente empenhadas na conquista de votos para as respectivas candidaturas. Mas com base nos números dificilmente a colocação final vai ser alterada. Dilma Rousseff deve se reeleger por margem estreita e Aécio Neves reservará o lançamento de uma segunda candidatura a presidência da República na sucessão de 2018. Este panorama é traçado com base na realidade de hoje, pois prever o futuro é algo muito difícil em matéria política, plano no qual a ocorrência de imprevistos está comprovada com o passar do tempo e a sequência da história.

     

    Datafolha e Ibope enfrentam a prova final das urnas

    Pedro do Coutto

    Reportagens de Ricardo Mendonça, Folha de São Paulo, e de Renato Onofre, Sergio Roxo e Simone Iglesias, O Globo, publicadas nas respectivas edições de ontem, sexta-feira, destacaram os números das pesquisas do Datafolha e do IBOPE, as quais apontam vantagem considerável  – acima das taxas de erro – em favor de Dilma Rousseff que, caso confirmada, asseguram a reeleição da atual presidente. Para o Datafolha uma diferença de 6 pontos, na visão do Ibope, de 8 pontos. Difícil para Aécio Neves reverter o quadro, sobretudo porque, neste final de campanha, ele tem perdido votos e Dilma acrescentado sufrágios.

    Escrevo na tarde de sexta-feira, antes portanto do debate de logo mais à noite na Rede Globo. Mas a questão essencial, sob o ângulo dos dois institutos, é que eles vão (novamente) enfrentar as provas das urnas. No primeiro turno, houve diferenças marcantes. Tanto o Datafolha quanto o Ibope. A sorte de ambos, contudo, foi que acertaram as três primeiras colocações: Dilma, Aécio e Marina. Mas erraram no caso do Rio de Janeiro quando apontaram que o segundo turno seria entre Pezão e Garotinho. Marcelo Crivella superou os votos de Garotinho. Na Bahia, apontavam um empate entre os candidatos. O PT venceu por maioria absoluta. Não houve segundo turno.

    SEM EXIMIR OS ERROS

    Mas, sem querer eximir os erros  verificados no turno de 5 de outubro, devemos considerar a existência de um universo diferente para o confronto de domingo, segundo turno. Por exemplo: eram onze os candidatos à presidência da República. Agora são apenas dois. Pesquisas tornou-se assim muito mais fácil. A dualidade é muito mais simples que a multiplicidade.

    No primeiro turno eram mais de 100 candidatos concorrendo nos 27 governos estaduais, incluindo Brasília. Amanhã o número é algumas vezes menor. Pois nos estados em que haverá segundo turno, são dois apenas os adversários em cada um deles. Além desse aspecto, no turno de 5 de outubro, mais de 120 foram os candidatos ao Senado Federal, pleito também majoritário, com a diferença de sua disputa se verificar em confronto único, sem a exigência da maioria absoluta.

    Todos esses fatores podem ter complicado a elaboração do levantamento, envolvendo tanto os entrevistadores quanto os eleitores ouvidos. Mas não é esta a questão essencial.

    CONTRAPROVA DOS VOTOS

    A questão essencial é que Datafolha e Ibope enfrentam amanhã, a contraprova dos votos nas urnas. Um desafio. Alias deve-se assinalar que as pesquisas eleitorais são as únicas que podem ter seus resultados comprovados na pratica. As demais, não.

    Todos sabem que a Rede Globo lidera a audiência com grande folga. Mas os resultados não são revelados à sociedade, pelo menos com a intensidade das pesquisas eleitorais. Qual o carro mais vendido por categoria? Quais os supermercados preferidos? Qual a cerveja?      Qual o banco que reúne e adiciona diariamente mais clientes, e qual o perfil sócio econômico dos clientes? Qual a empresa aérea mais preferida?

    Todos esses dados integram uma série de pesquisas programadas. Mas não são tão expostos, nem de longe, com o confronto dos resultados eleitorais. Assim a verdade das urnas constitui um eterno desafio. Não apenas para o Ibope e o Datafolha, mas para toda população do país.

    Pacto de não agressão foi firmado tarde demais na campanha

    Pedro do Coutto

    Em matéria publicada na edição de quinta-feira 23, em O Globo, a repórter Carolina Brígido revela que os representantes de Dilma Rousseff e Aécio Neves firmaram quarta-feira no Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, um pacto de não agressão no arremate da campanha, que foi elogiado pelo presidente da Corte, ministro Dias Toffoli. Através do acordo firmado, as partes desistiram das ações que os candidatos apresentaram um contra outro e se comprometeram a não repetir as agressões recíprocas. Vamos ver se o pacto será cumprido no debate final desta noite na Rede Globo de Televisão. Não custa esperar algumas horas para conferir.

    Mas o acordo foi firmado, vamos reconhecer, tarde demais. Porém, como diz o ditado, antes tarde do que nunca. É provável que, nesta altura dos acontecimentos, contribua para esfriar o confronto decisivo. Entretanto é sempre melhor que, finalmente, as ofensas e os ataques pessoais sejam substituídos pela apresentação de projetos e programas com embasamento nas possibilidades financeiras e administrativas concretas, e não de fantasias como se, as invés da realidade, estivéssemos todos no reino mágico de OZ, como no filme famoso da década de 40.

    Até porque a fantasia incorpora-se ao plano da arte, não as da política. A ilusão que flutua no universo artístico não voa sobre o campo político. Pois quem fala de política implicitamente inclui a viabilidade da proposta. A proposta da arte pode-se deslocar, sem problemas, para um plano imaginário, onde habitam, em muitos casos, a fantasia e o voo livre da imaginação.

    Vamos aguardar o debate desta noite na Rede Globo.

    Emoção domina lances finais do confronto de Dilma e Aécio

    Pedro do Coutto

    Nesta altura dos acontecimentos, creio que a melhor forma de interpretar a pesquisa do Datafolha, publicada na edição de 22 da Folha de São Paulo e reproduzida na reportagem de Ricardo Mendonça, seja considerar que os números nela contidos partam da emoção que, como sempre nas disputas apertadas, domina os lances finais da campanha, tanto de Dilma quanto de Aécio, na busca da vitória nas urnas de domingo. Está em cima do laço e a decisão, também acredito, dependerá do debate da noite de hoje na Rede Globo.

    Mas quando digo que o fator emoção tomou conta do confronto, o faço com base nos fatos destacados na própria pesquisa, bem focalizados no texto de Ricardo Mendonça. O otimismo com a economia, de modo geral. Entusiasmo que surgiu de repente, após os debates na Bandeirantes, SBT e Rede Record. Tão intenso que para 21%, agora, os preços tendem a diminuir, enquanto nada menos que 35% acham que vão permanecer como se encontram hoje.

    Reflexo de um impulso emocional, é claro, achar que os preços vão diminuir. O raciocínio não é inspirado na lógica e nos exemplos históricos. Mas refletem uma tendência definida no rumo das urnas. São coisas distintas: a emoção, o voto, a lógica. A contagem final, entretanto, não distingue entre tais fatores.

    ECONOMIA VAI MELHORAR

    Outra prova da força da emoção está nos números que apontam a confiança de 47% de que a economia vai melhorar: para 33% permanece como está hoje. Apenas a fração de 15% considera que vai piorar. Outra prova do arrebatamento da disputa, de ambos os lados, está na queda, para 4%, do índice dos que pretendem anular o sufrágio ou votar em branco. No espaço de um dia, entre uma pesquisa e outra, caiu também um ponto. A escala dos indecisos permaneceu em seis%. Resultados, todos esses, como Datafolha e Ricardo Mendonça destacam, de ter atingido 50% o grau de muito interesse da população pelas eleições de depois de amanhã.

    Um outro aspecto interessante que está pesando no confronto, segundo sustentam Mauro Paulino, diretor geral do Datafolha, e Alessandro Janoni, diretor de pesquisas, em artigo publicado também na edição de 22 da Folha de São Paulo, é a comparação que Dilma Rousseff insiste em fazer entre seu governo e o de Fernando Henrique. Para Mauro Paulino e Janoni, a presidente atual parece levar vantagem junto ao eleitorado. A comparação baseia-se nos níveis de emprego registrados ontem e hoje e estaria produzindo efeitos para o PT.

    Tanto assim que, frequentemente, de forma frontal ou oblíqua, especialmente nos debates na televisão, Dilma Rousseff suscita o tema. E Aécio Neves aceita o cotejo sob esse ângulo, não demonstrando vontade para evita-lo ou desloca-lo para retirá-lo do foco central. Uma questão de estratégia. Pelo que os sintomas registrados pelo Datafolha apontam, a presidente deve continuar voltada para o tema comparativo com o passado. Debate, assim, como diz o próprio Aécio, sob o prisma do retrovisor. Isso de um lado.

    De outro, 71% condenam a agressividade que marca os debates entre os candidatos. No entanto (surpresa) 36% acham que Aécio tem sido mais agressivo contra 24% que consideram Dilma mais agressiva. Para 32%, os dois no mesmo tom. Oito por cento não souberam ou quiseram opinar. É isso aí. Vamos ver o que acontece na noite de hoje na Rede Globo. Debate decisivo.

    Polícia precisa impedir rotina de roubos em Copacabana, Ipanema e Leblon

    Pedro do Coutto

    As jornalistas Carolina Calegari e Mariana Alvim, em excelente reportagem, O Globo edição de segunda-feira 20, focalizaram um problema que vem atormentando os moradores de Copacabana, Ipanema e Leblon: a rotina de roubos que se repetem em todos os finais de semana, especialmente aos domingos, em dias de sol e praia. Locais mais sujeitos à ações dos assaltantes de várias idades, esquina das Ruas Conselheiro Lafaiete e Bulhões de Carvalho com a avenida Princesa Isabel, abrangendo espaços de vão da Rua Júlio de Castilho a Francisco Otaviano, passando por Rua Joaquim Nabuco e Rua Francisco Otaviano. A Igreja da Ressurreição tornou-se alvo da ação de, principalmente, pivetes.

    Nas calçadas, a ameaça dos ladões, nas areias de Ipanema, Arpoador e Leblon os arrastões. Carolina Calegari e Mariana Alvim revelaram que a Polícia Militar prendeu 99 pessoas no recente fim de semana, dos quais 40 jovens levados para o Distrito da Rua Hilário de Gouveia. Há também uma Delegacia no Posto 6, na Avenida N.S. de Copacabana, esquina com Francisco Sá. O fato é que a situação tornou-se tão grave que os moradores têm que desenvolver um cuidado redobrado quando saem dos edifícios para evitar se depararem com hordas que descem de ônibus que servem aos bairros da Zona Sul já revelando agressividade proposital, deixando antever seus objetivos: a baderna, os roubos a pedestres, os arrastões à beira d’água.

    Uma obra da CEDAE, paralisada há mais de ano e meio na esquina de Conselheiro Lafaiete com Rainha Elizabeth, vem contribuindo para proteger os ladrões, servindo-lhes de abrigo e esconderijo. A PM e a Guarda Municipal têm quase sempre estado presente nesses pontos críticos, porém há necessidade de que ajam com a maior mobilidade, não agindo apenas para prender ladrões, mas principalmente para impedir que pratiquem os roubos que colocam em risco a integridade e mesmo a vida dos moradores e também daqueles que visitam amigos e familiares ou simplesmente caminham ou passeia pelos locais críticos.

    A reportagem publicada pelo O Globo forneceu bem a sensação prévia de insegurança que envolve as localidades da zona sul, a qual, inclusive, faz com que os moradores torçam para que chova nos finais de semana para reduzir o número dos passageiros que descem dos ônibus sinalizando pelo menos suas intenções voltadas para a fronteira da delinquência.

    Quando digo que é essencial impedir os furtos e os ataques a objetos que não lhes pertencem é porque, muitas vezes, depois de praticados os roubos e as violações, torna-se difícil recuperá-los: um ladrão passa para as mãos de outro, fazendo com que os portadores finais dos furtos sigam livres e leves da devida captura.

    PEZÃO E CRIVELLA

    O momento é apropriado para que os moradores do Posto Seis, de Ipanema e Leblon reivindiquem do governador Luiz Fernando Pezão que seu direito à liberdade de transitar seja respeitado. E propor ao outro candidato, Marcelo Crivella, o compromisso de que assumirá providências efetivas, caso eleito, para livrar moradores do risco permanente a que se encontram expostos com uma constância invulgar.

    Não pensem os leitores que roubos e furtos também não acontecem nos dias úteis. Sucedem com frequência. Mas não no grau em que se repetem aos sábados e domingos. A insegurança está afetando o valor dos imóveis e contribuindo para ampliar a dificuldade de alugá-los. Quando se verifica a falta de segurança urbana há inevitavelmente reflexos em cadeia. Negativos. Impõe-se a retomada do controle do espaço público, de acordo com a lei. Nada mais, nada menos.

    Dilma vai de 43 a 46: Aécio passa de 45 a 43 pontos

    Pedro do Coutto

    Este é o dado mais importante da pesquisa do Datafolha divulgada pela Globo News e pelo Jornal Nacional na noite de segunda-feira, e objeto de reportagem de Sílvia Amorim e Simone Iglésias, O Globo, e de Ricardo Mendonça, Folha de São Paulo, que traduziram nitidamente os números e suas origens nas edições de ontem em ambos os jornais. O efeito maior dos resultados reside no fato de nos encontrarmos na reta final da disputa (faltam poucos dias para as urnas de domingo) e eles refletirem uma tendência adicional e uma outra descendente. Tais estatísticas podem ser invertidas? Podem. Sobretudo porque o lance final será o debate na Rede Globo, às vésperas do dia do desfecho irreversível. Mas isso não significa não serem importantes.

    O Datafolha separou a dança das intenções de voto por região e as mudanças que se sucederam entre a pesquisa anterior e esta de agora. Antes, entretanto, focalizamos a existência de 6% ainda indecisos, enquanto apenas 5% dos eleitores pretendem anular o sufrágio ou votar em branco. São 11 pontos duvidosos, portanto. O que faz, para efeito de análise, que 99 passam a ser iguais a 100. Poe este motivo, é que a pesquisa aponta Dilma com 52 e Aécio com 48%. Sem este critério a distância é de 46 sobre 43 pontos.

    Passemos então ao que aconteceu no espaço de seis dias nas diversas regiões do país. No Sudeste, Dilma avançou de 35 para 40. Aécio recuou de 50 para 49. No Sul, Dilma desceu de 34 para 33 e Aécio de 53 para 51. No Nordeste, enquanto Dilma avançava de 61 para 64, seu melhor resultado, Aécio descia de 29 para 27 pontos. No Centro-Oeste, Aécio registra sua maior queda: de 57´para 48%. Dilma subiu de 33 para 39. Finalmente na região Norte, Dilma passou de 51 para 55. Aécio desceu de 40 para 39. Verifica-se assim que o recuo de Aécio Neves ocorreu em todas as regiões.

    Por sexo, as mulheres estão assegurando a vantagem que o Datafolha aponta para Dilma: 46 a 41%. Entre os homens, Dilma passou de 42 para 46; Aécio desceu de 48 para 45%. Em termos de renda, Aécio domina junto à faixa dos que percebem por mês a partir de 5 salários mínimos. Dilma Lidera aqueles cujo rendimento vão até 2 salários mínimos, 55 a 34. Entre os que ganham de 2 a 5SM, Aécio desceu de 50 para 46, mas ainda lidera porque Dilma subiu de 39 para 43 pontos.

    PANORAMA GERAL

    Este é o quadro, o panorama geral do confronto, cabendo a Aécio encontrar explicações para seu recuo, cabendo a Dilma traduzir os motivos de sua repentina ascensão. Pode-se lembrar, com base em eleições anteriores, a tendência dos grupos de renda menor de deixarem para decidir seus votos nos dias finais da campanha. O fenômeno pode ter contribuído para alavancar Dilma Rousseff, sobretudo porque seu avanço decorre, não da captação de votos em Aécio, mas do arrebatamento dos que pretendiam votar branco ou nulo. É preciso notar, contudo, que ainda existem 6% do eleitorado na faixa da indecisão.

    Esse segmento encontra-se aguardando motivação para tomarem a decisão derradeira. Pode ser que encontrem ou não os motivos para acionarem as teclas nas urnas de domingo. Por isso, cresce fortemente de importância o debate da Rede Globo. Os candidatos, nesta altura dos acontecimentos, estão revendo suas estratégias, selecionando os temas que vão abordar, as perguntas que irão fazer e as defesas que vão montar. Tudo isso – é complicado – os ataques que se preparam para desfechar.

    Objetividade, caminho para conquistar os ainda indecisos

    Pedro do Coutto

    Reportagem de Renato Onofre e Tiago Herdy, O Globo de segunda-feira 20, focalizou bem o clima que envolveu o debate entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, na noite de domingo na Rede Record. Foi marcado por um tom menos agressivo que o dos anteriores, na Bandeirantes e no SBT, provavelmente porque especialistas realizaram pesquisas junto aos que não decidiram em quem votar chegaram à conclusão que esse setor preocupa-se mais com a objetividade dentro de uma atmosfera civilizada. Tal atmosfera exige serenidade, pelo menos na postura, no tom de voz, na aparência enfim. Vamos esperar que se repita no confronto decisivo, esta semana na Globo.

    O nível de audiência será muito alto, sem dúvida, abrindo uma oportunidade para que a discussão dos temas que, no fundo, mais motivam o eleitorado – saúde, segurança, saneamento, transporte, mercado de trabalho incluindo o nível de emprego, sejam abordados de forma concreta, com os candidatos citando os recursos necessários às melhorias que anunciam e sobretudo a forma de obtê-los.

    Todos os investimentos exigem disponibilidade financeira, sem a qual transformam-se em fantasia. Promessas sem confirmação prática. E esta é essencial, tanto para evolução administrativa do país quanto para a conquista dos sufrágios pendentes e portanto vulneráveis aos melhores discursos e colocações. É natural que seja assim.

    INDECISOS

    Existem 12% de eleitores entre os que pretendem anular ou votar em branco (a metade) e os 6% que se encontram na fronteira da indecisão. Todos eles têm os seus motivos. No primeiro caso, por desencanto e descrédito para com a política. No segundo, pela dúvida.

    Cabe a Dilma e Aécio, nesta reta final, abordarem logicamente as motivações que afastam as parcelas resistentes a deixarem as posições em que se encontram e optarem por uma candidatura. Um processo de sensibilização, ainda há tempo para isso. Assumindo compromissos concretos, incluindo as fontes de recursos, os candidatos, falando claro, vão contribuir para acordar os vacilantes e também para fortalecer a democracia, regime do voto e da liberdade, inclusive de escolha.

    Se a oportunidade de escolher livremente for desperdiçada, os eleitores que não marcarem seus candidatos nas teclas das urnas, sem sentir, estão desperdiçando o direito de cobrar o cumprimento das promessas de campanha. Isso porque as promessas, como as palavras, o vento leva. Mas a legitimidade das reivindicações, das necessidades da população diante de tantas omissões permanece. Os eleitores precisam sentir que são também, através de seus votos, personagens das mudanças para melhor que todos desejamos implantar e que aconteçam de verdade.

    Não fiquem apenas como bandeiras e capítulos de um confronto que se desenrola diante de 140 milhões de votantes. São 70% da população brasileira. Parcela das mais expressivas, percentual talvez único no mundo, É verdade que em outros países democráticos o voto não é obrigatório. Mas entre nós o dever se impõe. Coisas da política. Coisas da vida.

     

     

    Debate na Globo deve atrair 20 milhões de espectadores

    Pedro do Coutto

    Se alguém tivesse alguma dúvida quanto a importância dos debates na televisão entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, ela seria totalmente dissolvida com a leitura do artigo da jornalista Keyla Jimenez (Folha de São Paulo, edição de sexta-feira 17, Caderno Eleições). O texto revela que o debate realizado pelo SBT acusou uma audiência de 9 pontos, o que, somente em São Paulo, correspondeu a 1 milhão e 700 mil eleitores distribuídos por cerca de 550 mil domicílios, média de 3 pessoas por residência aproximadamente. Esta pesquisa, revelada por Keyla, foi feita pelo IBOPE. No caso limitou-se ao estado de São  Paulo.

    O mesmo instituto, entretanto, realizou pesquisa nacional quando do debate levado ao ar no final do primeiro turno: a emissora atingiu 23% de audiência atingindo 14,7 milhões de espectadores. Nacionalmente, cada ponto significa 641 mil pessoas em 217 mil domicílios.

    Se no primeiro turno, a audiência alcançou 23%, evidentemente na próxima quinta-feira vai superar esse patamar, pois a campanha atinge a característica de competição esportiva, das mais intensas, bastando citar a diferença muito pequena em favor de Aécio Neves, apenas 2 pontos, dentro da margem de erro que, na prática, pode traduzir um empate. Aliás, IBOPE e Datafolha apontam um empate técnico, um modo de autodefesa diante da dificuldade de um prognóstico antes do desfecho absolutamente decisivo na noite de quinta feira 23.

    O fato é que tanto Dilma quanto Aécio vão encerrar o confronto tendo certamente mais de 20 milhões de testemunhas diante de si, preocupados com o desempenho de cada um. Nesses 20 milhões de eleitores, provavelmente encontram-se os que ainda estiveram incertos e aqueles que permanecerem na intenção de anular o sufrágio ou votar em branco. O debate no seu desenrolar representa uma onda gigantesca de opiniões e expressões invadindo e cobrindo de emoção o rastro das urnas que vão decidir o futuro imediato do país.

    VELHOS TEMPOS

    Diante das dimensões e do alcance da TV, passamos a ter mais certeza de como estão distantes os tempos de comício nas ruas e nas praças em busca dos votos que levam ao poder. O roteiro do poder, hoje, está desenhado e contido nas telas mágicas da televisão. E não só da Globo, que representa a maioria absoluta do mercado de comunicação. As outras redes influem também, embora em menores proporções. Mas acontece que numa disputa que se mantém indefinida como a atual qualquer diferença pode se tornar decisiva.

    Além do mais, a audiência da TV produz repercussões no dia seguinte nas ruas, nos locais de trabalho, nos transportes, nos bares e restaurantes. Essa repercussão, dependendo de sua intensidade e direção para este ou aquele sentido, pode se transformar em fator para desequilibrar o cotejo pela mínima diferença que seja. Pois tudo é relativo, teoria insuperável de Albert Einstein. Numa luta em torno de diferenças mínimas, 1% pode se tornar igual a 100. Basta lembrar que a parcela de 1% do eleitorado pode eleger Dilma Rousseff como substitui-la por Aécio Neves no Palácio do Planalto.

    Em síntese, a margem de 1 ponto é capaz de entregar a caneta do poder a qualquer um dos candidatos emparelhados até o debate na Rede Globo. A partir da noite de quinta-feira e na manhã de domingo próximo qualquer voto na urna será capaz de definir e decidir o futuro. A beleza e a força da democracia residem exatamente no poder popular de decidir.

    Afinal, quando os debates vão incluir projetos e programas de governo?

    Pedro do Coutto

    Escrevo este artigo na tarde de sexta-feira, antes portanto do novo debate entre Dilma e Aécio, marcado para a noite deste domingo na Rede Record. A pergunta que se impõe, no momento, é quando os que disputam a vitória nas urnas do dia 26 pretendem incluir entre seus temas programas objetivos de governo e projetos concretos para viabilizá-los uma vez revelados os resultados? Pois estão faltando essas formulações essenciais à tarefa e à missão de presidir o país e enfrentar centenas de desafios e obstáculos a superar no caminho.

    Não se trata de falar em tese sobre as metas a executar. Pois nesse ponto haverá concordância de propósitos unindo Dilma e Aécio. Quem poderá deixar de ser favorável à melhora substancial do sistema de saúde pública? A favor do avanço na qualidade da educação? Das ações no plano do saneamento? Da construção de creches? De uma ofensiva para elevar os níveis da segurança pública e de repressão ao crime generalizado, incluindo o tráfico de drogas e de armas? Quem poderá ser contra a evolução dos transportes?

    Enfim, pessoa alguma, em plena consciência, poderá se opor ao progresso, à ampliação do mercado de emprego, à melhor distribuição de renda, a salários melhores na sociedade, à mais comida na mesa, à taxa menor de inflação. Ninguém.

    COMO ATINGIR AS METAS?

    O problema, assim, é como atingir tais metas. Como, reduzindo a dívida pública, encontrar recursos para ir ao encontro desse conjunto fundamental de demandas. E já não é sem tempo. Nos encontramos em pleno século 21, temos que achar, dentro da plena democracia, as escalas de ruptura com o passado. Melhor dizendo, com heranças arcaicas que insistem em resistir aos ventos e impulsos do progresso.

    As eleições presidenciais, a meu ver, serão decididas no debate programado pela Rede Globo para a noite de quinta-feira, em função do volume de audiência que marca a programação da emissora. Esperemos, portanto, que nesse momento sejam debatidas as questões de efetivo interesse dos eleitores capazes de mudar, para melhor, os índices de vida da população brasileira. E como priorizar a aplicação seletiva dos recursos pata tornar os projetos colocados no presente em realizações concretas em futuro próximo. Sim, em futuro melhor dizendo, imediato, já que uma nova etapa de governo começa exatamente a primeiro de janeiro de 2015. A fase atual encerra-se a 31 de dezembro. Mais uma virada na história do Brasil. Uma nova alvorada se inicia.

    9% DE INDECISOS

    Outro fator absolutamente decisivo que vai envolver o confronto nas telas de quinta-feira está no fato de que, de acordo com pesquisa do Datafolha publicada quinta-feira pela FSP, no primeiro turno a significativa parcela de 9% do eleitorado só decidiu em quem votar entre a véspera e o dia da eleição, ao sair de casa no rumo das urnas. Portanto, devemos esperar que o nível do grande debate final possa corresponder ao que os eleitores esperam dos candidatos.

    Trocar acusações não resolve os desafios colocados tanto à frente do governo quanto da população. Os eleitores aguardam soluções e, para que convençam, os candidatos necessitam explicar como executá-las. Trata-se de um compromisso com o tempo presente e com o futuro que – pode-se dizer assim – vai começar amanhã.

    Com apoio de Romário, Pezão abre frente na disputa no RJ

    Senador eleito pelo Rio de Janeiro, Romário (PSB) anunciou, seu apoio formal à candidatura de Luiz Fernando Pezão (PMDB)

    O senador Romário está reforçando o ataque de Pezão

    Pedro do Coutto

    Pesquisa do Datafolha concluída na quarta-feira, base da reportagem de Ítalo Nogueira na Folha de São Paulo, edição do dia seguinte, revela que Luiz Fernando Pezão abriu vantagem de 10 pontos sobre Marcelo Crivela na disputa pelo governo do estado do Rio de Janeiro nas urnas do próximo dia 26. Isso, considerando-se todas as intenções de voto, os números acentuam 46 a 36 pontos. Mas 10% pretendem votar branco ou anular o sufrágio, enquanto a parcela de 8% reúne os ainda indecisos entre os dois candidatos. Reduzindo-se o universo da pesquisa aos votos válidos (portanto excluindo-se os brancos, nulos e indecisos) a distância amplia-se para 12 pontos: Pezão 56; Crivella 44%.

    Com o apoio que recebeu de Garotinho e Lindberg Farias, Marcelo Crivella havia subido na busca de votos, estabelecendo-se um equilíbrio no confronto. Porém, agora o levantamento do Datafolha publicado dia 16 pela FSP rompe o equilíbrio e passa a indicar o favoritismo do atual governador. O que terá produzido a alteração? A mim parece que o apoio do senador eleito Romário a Pezão tem grande influência na mudança. Nas urnas do dia 5, o craque campeão do mundo na Copa de 94 obteve uma votarão superior a 60% do total de votantes e está comprovando seu poder de transferir boa parte dos sufrágios que alcançou para aquele a quem apoiar.

    Sob este aspecto, tem-se nesse instante a certeza que sua importância política foi minimizada, primeiro pelo seu próprio partido, o PSB, depois tanto por Dilma Rousseff quanto por Aécio Neves. Pois o levantamento do Datafolha comprova sua importância no quadro eleitoral. Pezão a aproveitou bem. Dilma e Aécio ainda possuem tempo para tentar captá-la no plano nacional. Basta uma iniciativa nesse sentido e a disposição do próprio. Em matéria de comunicação veloz, este aspecto fica por conta da televisão.

    RETA DE CHEGADA

    Apoio importante o do senador Romário. Sobretudo na reta de chegada quando se luta para estreitar a faixa dos eleitores indecisos, cujas mudanças geram, em vários casos, efeitos surpreendentes. Veja-se o exemplo do Rio Grande do Sul. O Datafolha revela, na mesma edição da FSP, que o candidato do PMDB, José Sartori abriu nada menos que 17 pontos sobre o governador Tarso Genro, do PT – 52 pontos a 35 faltando praticamente dez dias para as urnas do segundo turno.

    Vale notar a importância dos eleitores indecisos. Faixa sobre a qual Mauro Paulino, diretor geral do Datafolha, e Alessandro Janoni, diretor de Pesquisas do Instituto, escreveram um artigo de análise na FSP também edição de quinta-feira. Concluiram que a interpretação das estatísticas conduz a que se considere o potencial de conversão dos indecisos para a atual presidente seja de 13%. O potencial de conversão desse eleitorado para o senador mineiro, acrescentam, é de 6%.

    Note-se que o percentual de indecisos, por sua vez, é de 6 pontos. A diferença em favor de Dilma seria assim em torno de 1% dos votos que poderá adicional nos dias finais do confronto. Pouco. Porém o suficiente para talvez chegar a um empate em números absolutos.

    Mas, análises prospectivas à parte, a mim parece que a sucessão presidencial de 2014 será decidida nas urnas de 26 à base do desempenho positivo que os dois candidatos conseguirem desenvolver no debate da Rede Globo marcado para o dia 23. Foi decisivo para a colocação das candidaturas no primeiro turno. Deverá ser decisivo para a eleição ou reeleição no segundo.

      Papa Francisco aprofunda a reforma de João XXIII

       Pedro do Coutto

      O papa Francisco, em sua passagem pelo Vaticano, marcará sua presença na história da Cátedra de São Pedro, como aquele que, no século 21, 55 anos depois da Encíclica Mater et Magistra, aprofundou firmemente o sentido de reforma, para adaptação aos tempos que passam, lançada pelo seu antecessor há 55 anos. João XXIII representou, com seu texto de 1050, a ruptura com o princípio de que o ser humano somente se realizava quando de sua passagem para a eternidade. No Céu portanto.

      O cardeal de Veneza que sucedeu Pio XII, um conservador, alterou a colocação. Na Mãe e Mestra, resultado da tradução latina, afirmou que os seres humanos devem se realizar tanto na Terra como no Céu. Colocou assim em pé de igualdade a vida material com a existência celestial, que flutua na mente de todos nós. Para a realização terrena, colocou como marco decisivo a questão da justiça social.

      Passado pouco mais de meio século, cabe ao Santo Padre Francisco aprofundar o processo de reforma, na medida em que no Sínodo extraordinário que se realiza em Roma, a ruptura estética atinge a questão sexual, abafada durante milênios e que agora veio à tona com intensidade incomum. O documento preliminar do encontro – reportagem de Reinaldo José Lopes, Folha de São Paulo de 14 – destacou o tema, deslocando-o para a parte mais problemática, a que se refere diretamente às pessoas homossexuais e bissexuais, de ambos os sexos.

      HOMOSSEXUAIS

      “As pessoas homossexuais – acentua o documento preliminar – têm dons e qualidades que podem oferecer à comunidade cristã; é preciso acolhê-las aceitando e valorizando sua orientação sexual.” Como era fácil prever (matéria da FSP de quarta 15), cardeais conservadores reagiram negativamente ao texto inicial e vão tentar reformá-lo, o que parece possui diversos aspectos. O mais forte, por contradição menos destacado pelo noticiário internacional, é a consequente ultrapassagem da barreira da Igreja Católica quanto ao sexo.

      Este, até esta semana, somente era formalmente admitido, após o matrimônio. A partir de agora, não. Pois no momento em que o sínodo de 2014 recomenda inicialmente acolher os homossexuais, de forma indireta, porém automática, libere a prática de sexo independentemente do vínculo civil e religioso. Um degrau conduz a outro. O documento altera o patamar em que o Vaticano se coloca diante da questão contida num dogma que se alongou milhares de anos através da história. Da história não só da religião católica, mas da própria história universal, sobretudo na medida em que os temas religiosos incorporaram-se em larga escala ao próprio processo humano. Sendo que, sob o ângulo feminino, foi traduzido como fator (falso) simbolizando a pureza e não à natureza do comportamento normal.

      Isso de um lado. De outro, o acolhimento religioso aos homossexuais significa um passo adiante em matéria de realismo, uma vez que é enorme a contribuição dos homossexuais ao processo da arte. Não se deve afirmar que, sem preconceito algum, a arte não teria alcançado o ponto que alcançou não fosse a presença, nos seus diversos capítulos e setores, a presença e a contribuição dos homossexuais.

      Na música, no ballet, na pintura, na escultura, teatro, cinema, literatura, e outros. Presença tão grande e tão extraordinária que dispensa a citação de nomes, principalmente para não se correr o risco de omissões graves. Com o documento, sob inspiração do reformista Francisco, houve tanto uma ultrapassagem quanto uma ruptura dogmática. Das maiores, por sinal, das que marcaram (e marcam) a história da religião católica no mundo.

      Segundo turno: decisão se concentra em cinco estados

      Pedro do  Coutto    

      Em reportagem publicada na edição de O Globo de terça-feira 14, Fernanda Krakovics e Maria Lima sustentam que as eleições presidenciais deste ano vão ser decididas com base nos votos de cinco estados chave: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia , Minas Gerais e Pernambuco, unidades da Federação que deram 61% dos votos obtidos por Marina Silva, os quais, agora, nesta reta de chegada, estão sendo disputados por Dilma Rousseff e Aécio Neves. Têm razão, penso eu. Mas não só por este ângulo. Também pelo fato de reunirem em seu conjunto – coincidência numérica – também 60% do eleitorado brasileiro.

      Por isso, neles os dois candidatos ao Planalto vão concentrar suas atuações nos dias derradeiros da campanha. Pernambuco pelo efeito simbólico sobre a transferência de votos que a viúva de Eduardo Campos, Renata, seus filhos, puderem fazer para Aécio Neves. Pois no primeiro turno, Marina venceu no estado por 48 a 44% de Dilma Rousseff enquanto Aécio ficou na escala de 6 pontos, Foi o único estado nordestino no qual Dilma não foi a mais votada.

      São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia por significarem em torno de 60% do total de eleitores. No primeiro turno, em São Paulo, Aécio surpreendeu com 44%, deixando Dilma em segundo com 26 e Marina logo após com 25%. A disputa dar-se-á em relação a estes 25%. No Rio de Janeiro, Rousseff liderou com 35,6%, seguida de Marina (31) e de Aécio com 27 pontos. A disputa – acentuam Fernanda e Maria Lima – será pelos 31 pontos que a candidata do PSB alcançou.

      Em Minas Gerais, a atual presidente fechou o primeiro turno com 43,4 pontos, Aécio foi o segundo com 39,7, Marina em terceiro com 14%. Finalmente na Bahia, quarto maior colégio nacional de votos, Dilma chegou a 61 pontos, deixando Aécio e Marina Silva empatados na escala de 18%.

      ESPÓLIO DE MARINA

      Falamos em divisão dos votos obtidos por Marina Silva. Divisão não significa que em partes iguais. E sim desiguais, uma vez que o Datafolha já divulgou pesquisas revelando que , de modo geral no país, a maioria dos que votaram em Marina Silva deslocou-se para Aécio Neves mesmo antes de a ex ministra do Meio Ambiente formular concretamente seu apoio ao senador mineiro.

      A reportagem de O Globo traçou o panorama básico do desfecho, para o qual certamente vão convergir não somente as viagens dos candidatos, mas também as mensagens que devam dirigir aos cinco estados por intermédio dos dias que faltam para terminar o horário político nas emissoras de televisão e rádio. Os cinco estados apresentam-se, assim, como a síntese do próprio país por abrangerem a maior parte do eleitorado apto a comparecer às urnas do próximo dia 26.

      Por essa razão, as assessorias de um e de outra devem trabalhar em dobro nestas duas últimas semanas, descobrindo reivindicações que ficaram esquecidas com o passar do tempo para focalizá-las e, dessa forma, conquistar votos ainda indecisos em favor de cada um. Isso de um lado. De outro, na etapa que se aproxima do desfecho é tempo de mobilização das estruturas partidárias na luta nos metros derradeiros do desfecho. Estrutura que Marina Silva não possui e muito menos o PSB conseguiu montar. Aliás, por falar em PSB, o artigo do ex-presidente da legenda, Roberto Amaral, publicado na Folha de São Paulo de 14, revelou claramente a cisão que minava o partido nos seus bastidores. Vamos esperar por novas pesquisas e verificar se, desta vez, as urnas confirmam.

      Votos de Marina voaram antes de seu apoio a Aécio Neves

      Pedro do Coutto

      Numa entrevista informal ao repórter Mário César Carvalho, publicada pela Folha de São Paulo, edição de segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff afirmou que voto não se transfere, afirmação voltada para reduzir o impacto do apoio de Marina Silva a Aécio Neves, nas urnas decisivas no dia 26. A afirmação é válida em termos, generalizar uma opinião é algo sempre incerto. No passado, houve poucos casos, mas no presente a iniciativa assumida pela ex-ministra do Meio Ambiente refletiu e repercutiu no quadro político da sucessão presidencial.

      Inclusive, vale notar, que a transferência da maior parte dos votos que recebeu no primeiro turno deslocou-se para a campanha do senador mineiro dias antes de sua declaração formal de apoio. O Datafolha revelou na primeira pesquisa do segundo turno que dois terços dos votos obtidos por Marina deslocaram-se para Aécio e 18% para a presidente da República. A tendência predominante está assim identificada. Mas sobra uma fração de 16 pontos a ser disputada. Como é bem maior do que a diferença entre as duas candidaturas, é possível supor que da disputa desses votos indefinidos poderá sair a eleição da vitoriosa ou dos vitoriosos.

      Transferência de intenções de voto ocorreu. Basta comparar os números do primeiro confronto com a pesquisa do Datafolha sobre o segundo. Dilma Rousseff subiu de 41 para 49%. Aécio Neves avançou de 33 para 51 pontos. Marina teve praticamente 21% da votação. Os pequenos candidatos (foram oito) totalizaram 3,5% dos sufrágios. As transferências, assim, aconteceram de um lado e outro, em forma desiguais. Natural o fenômeno. Sobretudo o eleitorado brasileiro, neste ano, encontra-se dividido entre pró-Dilma e anti-Dilma. O processo de decisão ficou nítido desde o começo da campanha. Tanto assim que, na fase em que Marina subia, Aécio descia; e na fase em que Marina iniciou a descida, Aécio passou a subir.

      EQUILÍBRIO

      Agora, na reta final, estabeleceu-se um equilíbrio entre Aécio e Dilma, ambos empenhados em intensa disputa para conquistar os sufrágios ainda disponíveis, eleitores que ainda não decidiram totalmente qual o rumo das urnas que seguirão nas duas semanas que faltam para que toquemos as teclas das urnas eletrônicas. O tempo passa rápido, os poucos dias que faltam para as urnas são velozes.

      Haverá mudanças de posicionamentos? Nesta altura dos acontecimentos tudo depende dos debates que vão ser travados, especialmente o previsto para a Rede Globo, pela maior audiência que o canal apresenta. É tempo de decisão, de um candidato arrebatar votos do outro, de consolidação ou mudança de ponto de vista, de opinião, de voto.

      Acho, francamente, que nunca houve uma eleição tão disputada como esta. Voto a voto. A diferença final, penso eu, será mínima. Vamos ver o que dizem as pesquisas do IBOPE e Datafolha. Vamos aguardar a resposta final das urnas.