Netanyahu anuncia ação militar longa e assim isola Israel no cenário internacional

Pedro do Coutto

Reportagem da Folha de São Paulo publicada na edição de 29, destaca o pronunciamento da véspera do primeiro-ministro Netanyahu avisando que a operação militar na Faixa de Gaza será longa e, com isso, tacitamente, rejeitou todos os apelos e manifestações voltadas para o cessar fogo na região, entre eles o apelo do Papa Francisco. Rejeitou também, da mesma forma implícita, os esforços do Secretário de Estado John Kerry, isolando ainda mais Israel no cenário internacional.

O primeiro-ministro sustentou que os combates só acabam quando Gaza estiver desmilitarizada. Esqueceu que, sob o ângulo político, quando mais os bombardeios israelenses durarem, maiores e mais intensas vão ser os atos que acontecem em inúmeras cidades contra a política de Telavive.

Não se pode ignorar os ataques do Hamas a Israel e também condená-los, reconhecendo o direito de Israel se defender. Só que a única saída para o gravíssimo impasse está na negociação através de fins pacíficos. Pois, caso contrário, envereda-se duplamente pelo caminho da destruição que ninguém sabe onde vai parar e a que desfecho trágico pode conduzir. Não existe alguém de bom senso na face da Terra capaz de dissecar um rumo imprevisível, no qual previsíveis são as mortes, aos milhares, que vão se suceder.

No momento, Israel, mesmo assim com reservas naturais colocadas pelo Secretário de Estado Kerry, só conta com o apoio dos Estados Unidos. Israel está perdendo a guerra da comunicação – basta ir os jornais e revistas, observar as fotos e o confronto diplomático. Na realidade, quanto mais se alongarem as bombas e foguetes, quanto maiores forem os números dos mortos e mutilados, pior, sob o ângulo político, será para Israel.

Como é possível o premier Netanyahu ignorar este aspecto essencial? Terminará isolado não só internacionalmente, mas dentro de seu próprio país, uma vez que não é lógico aceitar a tese que um conflito longo e permanente pode interessar à sua população. Ela acabará naturalmente cansando-se dos conflitos, das mortes, das mutilações, dos prédios destruídos, com os alarmes tocando a cada instante.

UM CLIMA RUIM

Matéria de Carolina Alencastro, O Globo também de 29, reproduziu declarações da presidente Dilma Rousseff, durante sabatina pelo UOL, amplamente publicada pela FSP, que afirmou que as declarações da chancelaria israelense  contra o Brasil criaram um clima ruim entre Brasilia e Telavive. Passada uma semana, o primeiro-ministro de Israel poderia ter reduzido a questão, suavizando o mal-estar com um simples pedido informal de desculpas. Seria uma fórmula de restabelecer o diálogo. No entanto, até agora permanece em silêncio. E o silêncio é comprometedor e leva à concordância com um absurdo.

Já que é rematado absurdo desconhecr a importãncia do Brasil no cenário mundial. Os fatos concretos apontam o contrário. Em coluna recente, escrevi sobre vários deles, culminando com a participação brasileira, através da heroica FEB, na segunda guerra mundial. Esqueci de citar dois. Cito hoje. A Conferência Panamericana realizada em janeiro de 42, no Rio de janeiro, Palácio Tiradentes, de apoio aos Estados Unidos contra o ataque japonês a Pearl Harbor; a cessão das bases aéreas de Natal e Recife para a operação militar das forças aliadas num espaço aéreo fundamental. Importância se mede com fatos, não com palavras grosseiras e despropositadas.

 

Convênios de ONGs têm que ser revistos profundamente

Pedro do Coutto 

A forte denúncia feita pela vereadora Tereza Bergher sobre o volume de recursos financeiros realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro à entidade denominada Tesloo, com sede de instalações modestas, como comprova O Globo na edição de segunda-feira, remete a uma necessidade urgente de que sejam revistos, não apenas este contrato, mas todos os outros existentes no país. Ao longo de dez anos, a Tesloo recebeu 79,7 milhões de reais da Prefeitura através da Secretaria de Assistência Social. Vale frisar, destacou a vereadora, que em um só ano, de 2011  a2012, foram canalizados para a ONG 40 milhões de reais. Incrível.

As denúncias têm endereço certo, no caso. Agravando o quadro, a Tesloo dificilmente terá como comprovar a prestação dos serviços relacionados com a percepção de tão elevada quantia. Esse é um caso. Quantos outros haverá no Rio de Janeiro e nos demais Estados do país? Se multiplicarmos uma média imaginária de desembolsos oficiais por dezenas de milhares de ONGS que só existem na superfície do papel social que dizem representar e praticar, todos vão se deparar com recursos financeiros desperdiçados. Verbas oficiais com base em indicações e interesses de baixa política, dinheiro público jogado fora.

Mal comparando, o ato de acender a luz sai mais caro do que produzir a energia que ilumina. Vai se chegar a bilhões de reais a cada ano. Não só isso: sem efeito prático algum, a não ser tornar pessoas ricas os dirigentes da grande parte das organizações. Não se pode, é claro, estender tal conceito a todos os dirigentes e a todas organizações particulares que atuam na prestação de serviços, cuja tarefa deve ser preencher espaços vazios deixados pelo sistema social público. Por isso mesmo é que se exige uma reformulação do panorama atual, separando o joio do trigo.

RECUPERAÇÃO

Partindo-se inclusive do princípio de que grande parte das ações requer  intervenções especializadas como a recuperação de adolescentes tocados pelas drogas, adultos também, inúmeros casos de reabilitação do vício da bebida. Outras situações requerem internação em abrigos, algo muito especializado e de difícil seleção e execução. Há casos de cursos de profissionalização para colocação no mercado de trabalho.

Todos esses aspectos destacam como é complexa a atuação no plano social, abrangendo desde o registro civil, à habilitação legal de pelo menos centenas de milhares de pessoas. A oportunidade de uma revisão geral surgiu. Os poderes públicos não podem perdê-la. Caso contrário, continuarão perdendo-se a si mesmo, jogando dinheiro fora sem retorno algum.

 

Com Oswaldo Aranha, Brasil foi importante para a criação de Israel

Pedro do Coutto
Sem entrar no mérito da questão no que se refere à convocação do embaixador em Telavive ao país, absolutamente desproporcional e agressivamente despropositada a reação da Chancelaria israelense. Afirmar que o Brasil é um anão no campo da diplomacia, cuja presença não é levada a sério, é simplesmente um absurdo.
Não pode ser considerado sem importância o país cujo representante tornou-se o primeiro presidente da Assembléia-Geral da ONU e, nesta qualidade em 1947, tornou possível a criação do próprio Estado de Israel. Foi a votação do projeto que dividiu a Palestina em dois Estados um deles o de Israel.
Não pode ser considerado anão na diplomacia uma das apenas 11 nações que mantêm relações com todas as outras. Tão pouco pode ser minimizada a importãncia de um país que foi o único da América Latina a declarar guerra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, ao Japão de Hiroito. Portanto ao eixo nazi-facista.
Não tivesse o Brasil importância no cenário mundial, não teria sofrido o covarde ato em que submarinos nazistas da Alemanha afundaram vinte e dois navios mercantes brasileiros indefesos. Em vários casos com requinte de crueldade: depois do torpedeamento, os submarinos vinha à tona e com metralhadoras no convés alvejavam os tripulantes que tentavam sobreviver.
A Chancelaria de Israel esqueceu que a Força Expedicionária Brasileira lutou bravamente nos campos da Itália, sob o comando do general Paton, destacando-se em vários episódios históricos como a tomada de Montecastelo, quando, na escalada, encontraram-se sob o fogo inimigo.
Israel, ao invés de escolher o Brasil como alvo político, deveria, isso sim, responder ao conteúdo das restrições que vêm sendo feitas pelo exagero das reações a que tem direito pelos ataques que sofre. Não quis discutir essa desproporcionalidade, concretamente. Achou normal e em resposta citou os 7 a 1 como exemplo de fato desproporcional. Neste ponto praticou um erro diplomático muito grande tanto sob o aspecto político quanto sob o prisma cultural.

População cresce mais que PIB e a renda per capita diminui

Pedro do Coutto

Na Folha de São Paulo a reportagem está assinada por Cláudia Rolli e Tatiana Freitas, enquanto no Globo a matéria é de Geralda Doca, Marta Beck e Rennan Setti, mas os temas e as fontes são os mesmos: Boletim Focus do Banco Central reduziu a perspectiva de crescimento do Produto Interno bruto este ano para um patamar entre 0,9 e 1%. O índice coincide com o calculado pelo Banco Santander.

Resultado muito ruim. Primeiro, porque a taxa demográfica é calculada pelo IBGE na escala de 1,2%: nascem 1,9, morrem 0,7% ao ano. População avançando acima do PIB significa recuo na renda per capita, indicador fundamental para o desenvolvimento. Em segundo lugar, destaca O Globo, o IPCA está apontando para uma inflação de 6,4%. Maior do que os reajustes de salário. O reflexo atinge a sociedade como um todo em face da perda do poder aquisitivo.

Os juros aplicados às compras a crédito continuam no mundo da lua, ao lado de uma retração de consumo. Tanto assim que empresas que passaram a vender menos decidiram vender mais energia quepossuem em estoque. O destino é o mercado livre de curto prazo, cujos preços são elevados.

Todos esses fatores convergem e conduzem para ampliar os índices de insatisfação social e o governo necessita agir com firmeza para revertê-los, sobretudo porque nos encontramos num ano eleitoral com a disputa presidencial fixada para daqui a três meses e uma semana.

PESSIMISMO

O Boletim Focus encontra-se pessimista, não prevendo melhora do quadro econômico até às eleições. Surpreendente tal posicionamento, sobretudo expressado por uma entidade vinculada ao Banco Central. Não é possível que não vislumbre ele, sem trocadilho, nenhum foco de esperança no horizonte.

Provavelmente sem que sua direção sentisse  ou percebesse, o Focus proporcionou um panorama que serviu à oposição e não ao Planalto. Não ao governo, portanto, ao qual está administrativamente vinculado. Passou uma forte dose de pessimismo, que inevitavelmente se acrescenta ao clima negativo que partiu  da derrota por sete a um da Seleção Brasileira, clima que ainda vai perdurar por vários meses envolvendo a população, portanto, o eleitorado brasileiro.

O governo  Dilma Rousseff necessita reagir a tempo e mobilizar suas equipes e suas correntes de comunicação com a opinião pública para desfazer o derrotismo injetado na atmosfera nacional.

Não é possível que não exista uma fonte de reação, sobretudo no momento em que a campanha eleitoral está prestes a se iniciar através dos horários gratuitos na televisão e no rádio. Inclusive possuindo um espaço bem maior do que aquele que os seus adversários somados vão utilizar, Dilma Rousseff terá de preenchê-lo. E fazê-lo de forma positiva, otimista e convincente.

Em matéria de marqueteiro, não poderia haver alguém mais capacitado do que João Santana. Pode haver igual, mas não mais capacitado para a função. A propósito: por que a presidente da República não ouve Santana a respeito da divulgação dada pelo Boletim Focus aos números que confrontam o índice demográfico, o PIB e o aumento da inflação?

Datafolha e Ibope: diferença de um ponto pode levar ao segundo turno

Pedro do Coutto

Com base na pesquisa do Ibope, divulgada terça-feira pela Rede Globo e ontem simultaneamente pelo Globo e O Estado de São Paulo, comparando-se seus números com os do Datafolha, publicados na semana anterior pela Folha de São Paulo, verifica-se que as diferenças são muito pequenas, em algumas situações até mínimas. É o caso, por exemplo, dos índices que hoje decidiriam se o desfecho seria transferido do primeiro para o segundo turno. De modo geral as tendências evidenciadas convergem para as mesmas direções e posições percentuais quanto às intenções de voto.

Entretanto antes de comparar os dois panoramas, quero me referir à perspectiva de se haverá ou não segundo turno. O Datafolha apontou 36% para Dilma Rousseff e também outros 36 pontos para todos os demais candidatos reunidos, incluindo Aécio Neves, Eduardo Campos, Pastor Everaldo e todos os demais. Um empate, no qual encontram-se computadas as parcelas dos que atualmente estão dispostos a anular ou votar em branco, ou então que não souberam responder à pergunta.

Muito bem. Enquanto o Datafolha aponta 36 a 36, o Ibope assinala 38 pontos em favor da presidente da República e 37% para Aécio Neves, Campos, Everaldo e todos os demais juntos.

DIFERENÇA MÍNIMA

Assim, para o Ibope a diferença de apenas um ponto no primeiro afastaria a hipótese de um segundo turno. Para o datafolha, destaca-se a dúvida na existência do empate de 36 a 36. A diferença mínima, no momento, conduz a uma diferença essencial. Claro que tudo dependerá da atuação dos candidatos, sobretudo se houver debate entre eles no confronto inicial.

Mas esta é outra questão. O fato é que os índices dos dois institutos são convergentes. Dilma em primeiro, Aécio em segundo, Eduardo Campos em terceiro. A divergência forte que marca o foco do Datafolha e o enfoque do Ibope situa-se nas projeções para o segundo turno, vindo este a ocorrer.

O Datafolha aponta 44 para Dilma, 40 para Aécio Neves, o que ele considera empate técnico. Já o Ibope assinala, na perspectiva de um segundo turno, vantagem de 41 pontos para a atual presidente contra 33 pontos de Aécio Neves.

DIFERENÇA MAIOR

Dessa forma, para o Ibope a diferença final seria de 8%, o que não configura qualquer tipo de empate. Enquanto o Datafolha encurta o resultado para um percentual de apenas 4%. Em termos percentuais, exatamente a metade do que estimam os cálculos do Inope divulgados pelo Jornal Nacional da rede Globo, pela Globo News, pelo O Globo, além de pelo O Estado de São Paulo. O levantamento do Datafolha, como afirmamos linhas atrás, foi publicado principalmente pela Folha de São Paulo e também pela Rede Bandeirantes de Televisão.

Tanto o Datafolha quanto o Ibope incluíram Eduardo Campos na simulação para um segundo turno. Mas não faz sentido considerar esta perspectiva, pois ela depende de o ex-governador de Pernambuco ultrapassar Aécio Neves no primeiro turno. Hipótese, aliás, vale frisar, que nenhuma das duas pesquisas coloca como possível de acontecer. Dentro desse raciocínio, em havendo segundo turno, será ele decidido entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.

 

Dilma busca ressurgir e anuncia revisão de erros cometidos

Pedro do Coutto

Em reportagem publicada na Folha de São Paulo, 22 de julho, Valdo Cruz revela que, através de sua assessoria política, a presidente Dilma Rousseff está assumindo o compromisso de rever erros que admite ter cometido no primeiro mandato. A iniciativa demonstra que a partir de agora, véspera do início da campanha eleitoral, ela busca ressurgir na caminhada para um segundo mandato assim reconquistando tempo perdido. Despertou tarde, mas, como diz o aditado, antes tarde do que nunca.

Foi evidentemente tocada pelas recentes pesquisas do Datafolha que iluminaram o aumento da rejeição a seu governo, o que, como é inevitável, acarretou a descida de sua liderança de 38 para 36 pontos no espaço de quinze dias. Mais importante do que o pequeno recuo, aí sim, é o registro  do que pode ser uma tendência. O Datafolha assinalou 36% das intenções de voto, contra 20% de Aécio Neves e apenas 8 pontos para Eduardo Campos. Mas existem muitos outros candidatos, a começar pelo pastor Everaldo  que alcança 3 degraus.

Somados todos os percentuais, de acordo com o Datafolha, verifica-se um empate. Ou seja, a soma dos adversários coincide com os 36 pontos alcançados pela chefe do Executivo. Tais números acentuam, mais que uma tendência possível, a hipótese provável do segundo turno. Assim, a decisão nas urnas seria transferida de 5 de outubro para 26 do mesmo mês, conforme prevê a lei.

ERROS  

A matéria do jornalista Valdo Cruz é bastante forte ao refletir vários ângulos do processo de fixar um panorama verdadeiro. A começar pelo fato de a assessoria de Rousseff alinhar o que Dilma reconhece como seus principais erros na trajetória de seu desempenho político, a partir dos planos econômico e social.

No campo político, do qual se ganha e se pErde votos na urna, ela admite a falta de diálogo com os partidos aliados e com as correntes do empresariado que mais se aproximam de sua candidatura. Os outro seis aspectos concentram-se no corte das tarifas de energia, desoneração sobre as folhas de pagamento, tarifas de ônibus, preço dos combustíveis procedentes do petróleo, empenho em assegurar superávit primário (a contabilidade antes de considerar o custo com a rolagem da dívida interna), além da limitação dos ganhos das empresas de transporte rodoviário e ferroviário.

Essas medidas, todas elas, voltadas para conter a inflação em patamar positivamente absorvível pela sociedade, mas, vê-se agora, não produziram os resultados almejados. Sim. Porque se tivessem logrado atingir os resultados esperados, ela, Dilma, não os incluiria num quadro de revisão.

NOVO ESTILO

A essa lista de reformas, a meu ver, ela deve acrescentar a mudança de seu estilo que, se não a levou a um isolamento, pelo menos bloqueou  sua progressão no processo de ampliar as intenções de voto para si.

Os números confirmam essa imagem. No primeiro turno, ela tem 36, Aécio 20, Eduardo Campos 8 pontos. Caso haja segundo turno, o Datafolha aponta 44 para ela, 40 para Aécio. Portanto ela sobe 8 degraus, Aécio   duplica a percentagem do primeiro embate, sobe portanto para 40. A aproximação ocorre. Porém tem que se levar em conta os sufrágios brancos e nulos que podem conduzir a uma distância maior dela em relação ao senador mineiro.

Porque se a pesquisa registrar, digamos, o que é provável, 15% de nulos e brancos, as percentagens terão que ser infladas, é claro, na mesma escala. Sobe mais, assim, quem está na frente. Mas estas são interpretações dos números. Havendo segundo turno, os debates e os conteúdos das colocações do tema é que vão decidir se Dilma Rousseff continua no  plano alto do planalto ou se vai ser sucedida por Aécio neves. O pastor Everaldo, vejam só, pode ser decisivo para definir se haverá ou não segundo turno.

Eduardo Campos, a meu ver, vai esperar o terceiro turno. Mas este só nas eleições de 2018.

Reação contrária pode levar CBF a rever indicação de Dunga

Pedro do Coutto

A forte reação contrária dos meios de comunicação e da opinião pública ao retorno do técnico Dunga ao comando da Seleção Brasileira pode levar provavelmente a direção da CBF a rever a indicação. À primeira vista a impressão que se tem é de que a iniciativa de José Maria Marim foi precipitada e não avaliou os reflexos negativos acentuados pelas matérias editadas pelos jornais (manchete de O Globo) e rejeição de 85% registrada em pesquisa realizada pelo Fantástico, noite de domingo.

A Confederação Brasileiraa de Futebol informou, pela Internet, que anunciaria a escolha hoje, terça-feira. Escrevo este artigo na véspera, portanto na segunda-feira. Admito até a hipótese de ocorrer um adiamento na divulgação.

As reações destacam tanto Dunga quanto Gilmar Rinaldi, na imprensa. São fortes  e se estendem a condição de empresário de jogadores atribuída a Rinaldi. Como coordenador do selecionado, nesta situação, ele se tornaria juiz e parte a um só tempo. E é um princípio universal de Direito que ninguém pode simultaneamente ocupar as duas posições. Aliás quanto a Rinaldi, aproveito este espaço para retificar o erro que cometi na sexta-feira quando confundi o goleiro reserva do escrete de 98 com Gilmar Neves, goleiro titular bicampeão de 58 e 62.

DESCONTROLE

Feito o conserto com atraso de alguns dias, voltando ao tema cujo foco central a mim parece a inoportunidade da decisão pró Dunga, estilo agressivo semelhante ao de Felipão, ainda sob o trauma dos sete a um para a Alemanha. Canais de televisão reeditaram  inclusive momentos de intensa exaltação do técnico na Copa de 2010 quando da desclassificação do Brasil nas quartas de final. Na condução de seu trabalho exasperou-se demais, deixando evidente seu descontrole.

O mesmo que envolveu o comportamento de Felipe Scolari, agora, quando numa entrevista a jornalistas afirmou que estava agindo como bem lhe aprouvera culminando a resposta com insultos absolutamente desnecessários e que demonstravam o descontrole que o atingia.

A direção da CBF evidentemente não esperava o resultado da pesquisa do Fantástico destacada pela Rede Globo como um fator de impacto junto à opinião pública. Pois se contasse levaria em conta que a rejeição do nome somado aos sete a um e aos três a zero  para Holanda, ultrapassa, em mal-estar, aos dez gols sofridos pela Seleção na despedida da Copa deste ano. E verdade que outras competições se aproximam. Mas não se tornam fator capaz de se sobrepor à soma da decepção com a precipitação. A esperança, agora, é uma oportuna revisão.

Antes tarde do que nunca.

Datafolha leva Dilma a rever bases estaduais, a partir de São Paulo

Pedro do Coutto

A primeira rodada da série de pesquisas a serem realizadas pelo Datafolha em articulação com a Rede Globo, objeto de reportagem de Ricardo Mendonça publicada na Folha de São Paulo, vem acentuar a necessidade de a presidente Dilma Rousseff rever suas alianças estaduais a partir de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, representando vinte por cento dos votos. Em primeiro lugar ficou nítida uma tendência para a realização de segundo turno entre ela e Aécio Neves, portanto uma diferença de 44 a 40 pontos, o que acentua um estreitamento que acrescenta emoção à campanha.

Estreitamento porque, no primeiro turno, o Datafolha destaca 36% para a atual presidente contra 20 pontos atribuídos ao senador Aécio Neves e apenas 8 para Eduardo Campos. Uma diferença de 16 degraus da primeira para a segunda colocação. Essa diferença, na simulação de tendências, cai para somente 4 pontos. Logo, enquanto ela avança oito escalas, passando de 36 para 44, Aécio Nevers salta de 20 para 40%. Exatamente o dobro. Substituído Aécio por Eduardo Campos, Dilma registra 45 sobre 38. Como o ex-governador de Pernambuco está muito mais fraco que Aécio (perde de 20 a 8), proporcionalmente sobe mais do que ele.

OPOSIÇÃO UNIDA

O que significa tal processo? Um impulso bastante sensível de as oposições se unirem na hipótese de uma segunda convocação às urnas. Este, portanto, é um fato que deve constituir em preocupação para a presidente no quadro geral. Da mesma forma que reduzir o nível do desemprego no plano social, pois o Datafolha destacou, de forma indireta, ser esta, como é natural, a maior preocupação dos eleitores.

Além desses aspectos, existe um outro, envolvendo a necessidade de uma revisão das bases estaduais, a partir de São Paulo. Porque em São Paulo, enquanto Geraldo Alckmim alcança 54% das intenções de voto e começou a transferir prestígio para Aécio Neves, Alexandre Padilha, candidato do PT, registra somente 4 pontos e apresenta uma rejeição de 26 contra si. No meio, Paulo Skaf (PMDB) assinala 16 pontos a favor de sua candidatura.

Assim, Alexandre Padilha revelou-se basicamente inviável, devendo partir dele inclusive a iniciativa de retirar-se da disputa para facilitar a recomposição de Dilma no estado. Sua presença nas urnas impede o crescimento da candidatura presidencial exatamente onde se torna mais importante.

TRIÂNGULO DAS BERMUDAS

É preciso levar em conta que São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, somados, significam praticamente a metade do eleitorado brasileiro. Assim, a dificuldade paulista torna-se ameaça à campanha de qualquer candidatura.

Portanto, as articulações regionais são extremamente importantes, sobretudo em função da proximidade entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, os candidatos que ocupam as posições mais fortes. Vejam só os leitores como são as coisas: embora possa vencer no primeiro turno, a presidente da República vê reduzir-se a margem de sua vantagem se houver seguindo turno. Um dado que precisa ser considerado para o conteúdo, o rumo e o ritmo de sua campanha. Sobretudo porque as engrenagens do poder estão em suas mãos, não nas mãos de Aécio Neves.

 

Dilma afasta ideia de intervir (ou interferir) na CBF

Pedro do Coutto
Reportagem de Andrea Sadi e Valdo Cruz, edição de 17, da Folha de São Paulo revelou que a presidente Dilma Rousseff teria desvinculado o site do ex-ministro Franklin Martins do universo de sua campanha eleitoral por ter rejeitado a ideia de intervir diretamente ou indiretamente num processo de reformulação da CBF para reabilitar o futebol brasileiro dos desastres sofridos na Copa do Mundo contra a Alemanha e Holanda.
De fato, uma reestruturação se impõe, mas não por iniciativa do governo. A tarefa deve caber a Confederação porque constituiria um equívoco enorme misturar ações políticas com aquelas que devem caber singularmente ao mundo do futebol.
A presença exposta do poder executivo na matéria só traria ônus ao Planalto, caso a intervenção não funcionasse, e nada acrescentaria na hipótese de sucesso. Pois foi através da CBF e da arte e técnica dos jogadores que, de 58 para 2002, conquistamos o penta campeonato, além de participado de sete finais decisivas. Conquistamos o bicampeonato em 62 e, nem por isso, o presidente João Goulart tornou-se mais popular por causa disso. Levantamos o tri no governo Médici e a vitória não refletiu em nada de positivo para o sistema político militar. O tetra foi alcançado com Itamar Franco no Planalto. Nada mudou. O penta surgiu com Fernando Henrique. Exatamente no ano em que Lula venceu pela primeira vez nas urnas presidenciais.
Creio que esses exemplos, por si, são suficientes para assinalar enfaticamente uma desvinculação absoluta. Mas não é só. Acima de tudo há o risco de qualquer escolha não agradar o mundo e o pensamento esportivo, como as dúvidas reveladas pela pesquisa inicial do Datafolha demonstraram. Há um leque de preferências quanto aos nomes cogitados e uma pressa da própria CBF em pelo menos equacionar a questão, levando em conta as próximas competições em pauta, entre as quais, principalmente, o título de campeão mundial olímpico de 2016. Várias alternativas foram colocadas por José Maria Marin, entre elas a investidura provisória do ex-goleiro Gilmar, titular das seleções que levantaram o bicampeonato 58-62, na Suécia e no Chile.
SEGUNDO TURNO
Todos esses argumentos, de um lado, levaram ao posicionamento menos agressivo por parte da presidente da República. De outro, por qual motivo Dilma Rousseff deveria, no caso CBF, seguir a orientação de choque colocada por Franklin Martins? Em tal hipótese, ela não lideraria o esforço para recuperar a imagem do futebol brasileiro. Pelo contrário: seguiria um roteiro traçado por uma das assessorias. Mas é ela quem disputa a reeleição nas urnas de outubro. Tanto as do primeiro como de um possível segundo turno.
Sabe-se que Eduardo Campos está concorrendo em 2014 pensando em reeditar sua participação em 2018, daqui a quatro anos. Mas seus votos e mais os 4 pontos atribuídos ao pastor Everaldo podem fazer com que na última semana de outubro, depois dos números registrados no dia 5, Dilma tenha que retornar ao espaço eleitoral tendo Aécio neves como adversário. Isso inclusive dependerá também das disputas no primeiro turno, verificadas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul. E, ia esquecendo, também na Bahia.

Vexame de 2014 superou tristeza de 1950

Pedro do Coutto

A frase título, de meu cunhado e grande amigo Eduardo Martins Pedro, constrói uma síntese comparativa perfeita entre o resultado de ontem, que a distância de 64 anos não apagou, e os vergonhosos sete a um de agora, maior vexame do futebol brasileiro, eternamente incorporado à memória nacional. Nunca, acho eu, nos libertaremos da tragédia de 2014,  venham a nós só fatores de vitórias que vierem através do tempo. A tristeza que envolveu o Brasil em 50 pode ter sido maior do que a que nos atingiu neste julho do século 21, mas o sentimento de vergonha superou o deixado pela derrota no meio do século vinte.

Há motivos para isso, alguns destacados por minha mulher, relativas à abrangência da comunicação. A final de 1950 foi exatamente no dia 16 de julho. A televisão chegou ao país, primeiro em São Paulo, em agosto. Em setembro, o jornalista Assis Chateubriand inaugurou a TV-Tupi no Rio. O Maracanã estava superlotado, com duzentas mil pessoas nas arquibancadas, na geral que existia na época, nas cadeiras do estádio Mário Filho. Assim, a decisão foi acompanhada através das emissoras de rádio. Claro, a comunicação de 50 não pode ser comparada à proporcionada, agora, pelas emissoras de televisão.

Praticamente toda a população tornou-se testemunha de nossa fragorosa derrota. Assistindo à sucessão de gols como se fossem imagens editadas em replay. Ocorreram quatro gols alemães em apenas seis minutos. O primeiro tempo acabou com cinco a zero contra nós. Não conseguimos, portanto, nem torcer pela nossa Seleção. O afundamento foi geral.

Nossa defesa simplesmente não existiu. Quanto tocávamos, raras vezes vale frisar, não retornávamos para as ações defensivas, exatamente ao contrário do que fazia a Alemanha. Havia sempre, pelo menos seis adversários na linha em que a bola se encontrava. Não tínhamos velocidade alguma. Foram para dentro da meta de Júlio César desferidos cara a cara pelos alemães. Não poderíamos ter sido piores. Entretanto, dias depois repetimos nosso vergonhoso desempenho contra a Holanda. Aos inéditos sete a um adicionamos frios três a zero. Fomos péssimos.

INACREDITÁVEL

Quase inacreditável termos perdido por 7 a 1 no Mineirão, jogando em uma de nossas sedes com a torcida quase toda a favor. Não há exemplo, em Copas do Mundo, de tragédia semelhante. Na realidade, perdemos as duas partidas de encerramento levando dez gols e marcando apenas um. No futebol moderno, inclusive as goleadas tornam-se mais difíceis sobretudo em função de as equipes moverem-se mais rapidamente e terem incorporado, não nós, uma preocupação defensiva tão intensa como a ofensiva. Os times avançam compactamente e recuam de forma igualmente compacta.

Falar sobre a clamorosa derrota, nesta altura dos acontecimentos, é falar sobre o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Mas é importante acentuar o sentimento de vergonha que está nos alcançando, do qual não conseguiremos nos livrar com facilidade. Sobretudo porque o vexame a que todos nós fomos expostos chega até a superar a tristeza de 1950. No passado, houve uma derrota por dois a um. Agora, fomos marcados pelo emblema dos sete a um. Não será fácil esquecer.

 

Datafolha: sucesso na organização, desastre no gramado

Pedro do Coutto

Oportuna pesquisa realizada pelo Datafolha, cujo resultado foi publicado ontem em manchete principal da Folha de São Paulo, apontou o pleno êxito  alcançado pelo Brasil em matéria de organização da Copa do Mundo, aprovada por nada menos que 83% dos estrangeiros que aqui estiveram acompanhando os jogos. Foi ótima a iniciativa de pesquisar a opinião dos que vieram como turistas e, nessa condição exigentes em matéria até de detalhes.

Nosso país revelou-se capaz de realizar de forma eficiente e prática  o evento que reúne em torno de si número enorme de pessoas, de várias origens e níveis de renda e cultura. A maciça aprovação obtida foi inquestionável e nos colocou no mapa das principais nações no que se refere à capacidade de organizar eventos de forma a satisfazer a quase todos. O índice alcançado pelo Brasil, creio, tornou-se um recorde mundial de aceitação. Um milagre, uma surpresa.

Mas se isso se verificou no plano administrativo, com os aviões chegando e decolando no horário, e uma hospitalidade, o inverso ocorria nos gramados. Se o Datafolha efetuar uma pesquisa para medir a reação popular ao desempenho do nosso futebol, tenho a certeza que a taxa de reprovação passará fácil da escala de 90%. O futebol praticado em campo tornou-se largamente decepcionante e medir o grau de decepção pode se tornar o ponto de partida para uma reformulação profunda nos métodos de ação, incluindo a adoção de novo sistema operacional que leve em conta a essência do esporte que parte da base repousando no conjunto.

MOVIMENTAÇÃO
Como foi acentuado pelo desempenho da Alemanha, equipes movimentando-se sem cessar, sempre com a presença mínima de quatro jogadores cada seleção onde se encontrava a bola. Havia assim sempre espaço ocupado envolvendo as disputas que se multiplicavam gramado a dentro. Era difícil jogar, sobretudo encontrar o caminho do gol, objetivo final e supremo do futebol. Tanto assim que por apenas um gol se vence, portanto por um gol também se perde. Exatamente o que aconteceu com Alemanha um a zero na segunda parte da prorrogação. Os dois times estavam atleticamente preparados para o exaustivo confronto: em vez de 90, 120 minutos disputados palmo a palmo.
O Datafolha prestará um serviço importante ao esporte brasileiro de modo geral e à CBF em particular, se divulgar o grau de rejeição quanto ao nosso desempenho, colocando em exposição as principais deficiências e contradições verificadas pela opinião pública. Em primeiro lugar, acredito o processo de endeusamento do técnico Felipão e do analista Carlos Alberto Parreira, que, à primeira vista, colocaram-se acima, não só da linha da bola, mas da linha em que deveria situar-se a própria Seleção Brasileira.
Ocorreu exatamente o contrário: nunca um selecionado sofreu derrota igual: cinco a zero só no primeiro tempo, sete a um no final, quatro gols seguidos no espaço de apenas 6 minutos. Não fomos capazes de organizar ações defensivas dentro de campo e não numa partida só. Depois de sete a um, repetimos o modo desastroso de atuar e não vimos também a cor da bola contra a Holanda: três a zero perdemos com praticamente a mesma facilidade. Nosso adversário era outro. Mas nós éramos o mesmo time apático, sem vibração. Precisamos mudar de estilo e sistema. Senão não nos libertaremos do passado recente. Temos que ressurgir das cinzas. A partir de que ponto?

Desastre da seleção foi tanto técnico quanto tático

Pedro do Coutto

Se alguém, apesar das evidências, tivesse alguma dúvida se o desastre da Seleção Brasileira na Copa do Mundo foi mais técnico do que tático, ou se foi mais tático do que técnico, ao assistir a final entre Alemanha e Argentina verificaria que foi duplo e total, nada sobrou  em matéria de preservar qualquer parte do episódio capaz de acrescentar algo à memória esportiva do futebol brasileiro.

Tudo afundou no desenrolar das partidas contra a Alemanha e Holanda. Sofremos dez gols nas duas partidas, a impressão que a transmissão pela Rede Globo proporcionava esra que se tratava de uma repetição de imagens – não uma sequência de lances. A vulnerabilidade da equipe era total. O time não corria em campo, não recuava quando era atacado. Jogou sem a menor compactação.

Compactas foram as equipes da Alemanha e da Argentina. Tanto assim que foram poucas as oportunidades de gol. Alemães e argentinos avançavam e recuavam sem parar, suas presenças constantes nos ataques, sem prejuízo das ações defensivas. As seleções estavam sempre compactadas na linha da bola, estivesse esta no território alemão, permanecesse no universo argentino. Isso somente tornou-se possível em face da movimentação permanente dos jogadores em ambos os espaços. Para isso tiveram que correr sem parar. Exatamente o que o escrete brasileiro não fez. Movimentou-se pouco, correu menos ainda.

GOLS CARA A CARA

Daí o fato de, só no primeiro tempo, terem sofrido cinco gols cujos chutes de arremate foram desfechados praticamente cara a cara diante do goleiro Júlio Cesar. Cinco a zero, já por si definia o desfecho da partida. Impossível qualquer reação. Os alemães provavelmente se espantaram com tanta facilidade. E adormeceram a partida. Mesmo assim ainda fizeram mais dois gols chegando a espantoso sete a zero.

Somente nesta ocasião, saímos do zero. Mas o que significava um tento no marcador, se nosso desempenho estava abaixo de zero em matéria de arte, técnica e tática.

E não conseguimos nos afastar desse plano incompatível com a tradição do futebol brasileiro. Tanto não conseguimos retornar à tona que o selecionado repetiu contra a Holanda o péssimo desempenho frente à Alemanha. Três a zero com outra série de chutes desfechados contra o goleiro sem o menor bloqueio que caracteriza as disputas acirradas.

Foi uma tragédia, como escrevi dia 11, tragédia completa para o futebol do país. Motivo de orgulho  através do tempo, foi relegado ao desprezo pela omissão completa que regeu nossa atuação, dupla atuação: contra a Alemanha, contra a Holanda. Dificilmente poderemos a curto  prazo reagir ao desmoronamento que sofremos. Felipão já saiu. Esperemos o novo treinador – é o que nos resta de esperança.

Tragédia de 2014 é cem vezes maior que o desastre de 1950

 

Pedro do Coutto
Assisti a final de 50 nas arquibancadas do Maracanã, Estádio Mario Filho, e a semifinal deste ano pela tela da Rede Globo, e posso afirmar, com base nos fatos e nas épocas, que a tragédia de 2014, que ficará para sempre marcada de forma indelével na história do futebol, é cem vezes (para não dizer mil vezes) maior. Se já era difícil traduzir a vitória do Uruguai, uma afirmação da tática sobre a técnica e sobre a arte, os 7 a 1 impostos pela Alemanha à Seleção Brasileira não pode encontrar a menor explicação lógica.
Nunca se presenciou nos estádios do mundo o que aconteceu no Mineirão. Nosso escrete foi tomado por uma paralisia total completamente absurda. Basta dizer (outro recorde que ficará para sempre) que os alemães fizeram quatro gols seguidos no espaço de tempo de somente seis minutos. Era buscar a bola no fundo das redes, colocá-la no centro do gramado, dar a saída, perder o seu domínio e ver o placar acrescentar mais um tento alemão.
Com a torcida perplexa, surpresas passaram a ficar também os alemães com tanta facilidade. Um afrouxamento geral envolveu o time brasileiro. A própria torcida, maior testemunho da perplexidade, é claro, deixou de torcer. A vibração foi sufocada pela anestesia, pelo entorpecimento, por uma estranha sensação do irreal. Impossível torcer: o primeiro tempo – fato inédito em semifinais de Copa do Mundo – acabou com a contagem de cinco a zero no placar. Impossível torcer. Só se pode torcer quando existe alguma possibilidade de mudar o rumo e a face do confronto. Nada mudou. A Alemanha marcou mais dois gols. Só então saímos do zero. Em nossa história esportiva, sem dúvida, foi a maior derrota da Seleção Brasileira.
SEM EXPLICAÇÃO
Não podemos encontrar explicação. Pois se nem Filipão, tampouco Parreira, conseguiram apresentar algum argumento convincente, não seríamos nós a achá-lo, uma agulha perdida num palheiro, em meio a contradições indecifráveis. Não vínhamos atuando bem na Copa, os resultados demonstravam, mas não tivemos a humildade para aceitar essa face da realidade e prosseguimos investidos da certeza da vitória. Provavelmente aqui reside o maior equívoco de 2014. Nos julgávamos com as mãos erguendo, acariciando, expondo a Taça, como se fôssemos seus donos.
Em 50, perdemos para a tática uruguaia liderada brilhantemente por Obdulio Varela, por um cruzamento de Ghiggia nos pés de Schiafino, que empatou a partida, e no chute do próprio extrema-direita que selou o destino do confronto separando a vitória do Uruguai de nossa derrota. Sessenta e quatro anos se passaram, mas desta vez tantos foram nossos erros, tantos gols  sofremos, que multiplicarmos o que o palco do Mineirão testemunhou pelas nossas vacilações, erros, incapacidades paralisantes, atingiremos um montante absurdo de situações negativas, de dúvidas hamletianas inadmissíveis em matéria de competições esportivas.
Na verdade, o drama maior é não nos revelarmos preparados para o combate difícil. Sonhávamos com a vitória e somente com ela. Não nos preparamos para uma dificuldade maior, além do normal. Quando ela nos surpreendeu, para um desastre nosso também nos paralisou na proporção de sete para um. A derrota de terça-feira nos atingiu e feriu para sempre. De forma tão profunda que 64 anos depois, sepultou a de 1950. Os dois a um de 16 de julho parecem nada perto dos sete a um de agora. Um desastre completo.

Na disputa eleitoral , as vantagens de quem ocupa o poder

Pedro do Coutto

Em artigo muito bom, publicado na Folha de São Paulo, edição de 5 de junho, Eliane Cantanhêde critica as entrevistas da presidente Dilma Rousseff programadas pelo Planalto junto a algumas emissoras, nas quais a chefe do executivo fala confortavelmente a respeito de assuntos relacionados com a Copa do Mundo e a Seleção Brasileira. Em seguida faz uma lista de perguntas que deveriam ser formuladas e respondidas pela candidata que busca a reeleição nas urnas de outubro.

Eliane Cantanhêde está certa: falta exatamente esse ponto na campanha eleitoral. Mas como ela apresenta a lista das indagações, esta parte do texto pode democraticamente funcionar como roteiro para que Dilma Rousseff vá ao encontro e focalize o conteúdo das respostas que possa fornecer.

Não seria nada demais. Apenas um lance destacando o caráter democrático da disputa pelo voto. Não vejo, pessoalmente, nenhum motivo lógico convincente para que a presidente evite um diálogo mais amplo a respeito da atuação de seu governo na economia e na administração do país. Inclusive os temas serão inevitavelmente colocados nos debates a serem promovidos pelas redes de televisão, pelos grandes jornais, e também através da internet. Não adianta, portanto, o Planalto, com sua estratégia de marketing, tentar ocultar essa face do confronto político na busca dos votos.

SÃO MUITAS VANTAGENS

O confronto surgirá naturalmente. Impossível evitá-lo, faz parte do processo político, da luta pela conquista do poder. Dilma Rousseff, aliás, já participou de cotejo semelhante nas eleições de 2010, há quatro anos passados. Não há motivo, portanto, para não expor seus pensamentos, seus novos projetos, seus resultados, sua plataforma. As vantagens de que dispõem os ocupantes do poder já por si muito grandes. Coisas da legislação brasileira.

Por exemplo: o presidente, o governador, o prefeito que se candidatam à reeleição não precisam deixar o cargo seis meses antes do pleito, o prazo legal para desincompatibilização. Podem nos postos permanecer atuando com o maior desembaraço, incluindo obviamente o uso, mesmo que nos limites da lei, a utilização da caneta mágica. Mas se um ministro desejar, por hipótese, candidatar-se a governador ou senador, tem que deixar a pasta até abril, seis meses antes do voto.

São dois pesos e duas medidas que expõem a legislação brasileira às críticas mais simples. Uma contradição total. Pois se para, vejamos outro exemplo, um diretor de empresa estatal for disputar uma cadeira de deputado tem que se afastar até 180 dias antes do voto, por qual motivo o presidente da República, o governador e o prefeito são exceções à regra? Esta já é, por si, uma vantagem enorme de quem ocupa o poder, desnecessariamente serão outras que venham a se adicionar a esta.

ENTREVISTAS PROGRAMADAS

Não há assim sentido na realização de entrevistas programadas, sobretudo porque elas não são convincentes. Nada acrescentam. Pelo contrário. Os espectadores sentem os cenários armados previamente, a falta de liberdade tolhendo os entrevistadores. Ao invés de somar, reduzem. Porque o problema principal da comunicação política está na liberdade das indagações e o grau de convencimento das respostas. Fora daí, os reflexos serão sempre negativos. Eliane Cantanhêde colocou claramente a questão essencial, na estrada dos votos no rumo das urnas.

 

Datafolha: candidatos ainda não emocionaram eleitorado

Pedro do Coutto

A pesquisa do Datafolha revela claramente que os candidatos às eleições presidenciais deste ano ainda não conseguiram passar emoção aos eleitores, pois em seus pronunciamentos e aparições não forneceram resposta às indagações que a sociedade brasileira guarda em torno de si, mas deseja sejam elas respondidas. A começar pela questão dos preços e dos salários, fundamental para a vida de todos.

Não passaram emoção. Tanto assim que no intervalo de trinta dias, de maio ao início de junho, a presidente Dilma recuou 3 pontos, caindo de 37 para 34%. Aécio Neves desceu de 20 para 19. Eduardo Campos, a maior queda percentual, retrocedeu de 11 para apenas 7%. Enquanto isso, o pastor Everaldo subiu do segundo para o terceiro andar. Registrou 3% das intenções de voto.

O número dos que, hoje, se dispõem a votar em branco ou anular o voto, no mesmo período, cresceu de 12 para 14%. Os que ainda não sabem o que vão fazer aumentou de 7 para 11 pontos. Afastando-se do cálculo estas duas frações, encontramos um total de 25%. Assim, em matéria de votos válidos, a maioria absoluta dependeria de 37,5% mais um. Dilma Rousseff registrando 34 permanece liderando, mas agora sem essa maioria absoluta. Pelo levantamento, dessa forma, haveria um segundo turno entre ela e Aécio Neves. E feita a simulação, a atual presidente seria reeleita pela margem de 46 a 38%.

BARBOSA VAI INFLUIR

Mas o Datafolha, como assinalei há pouco, revelou principalmente a ausência de entusiasmo na campanha que se desenvolve ainda a passos lentos. É isso mesmo. Tanto assim que a parcela de 36% do eleitorado votará em quem for indicado pelo ex-presidente Lula. E – uma surpresa – 26% votaria em quem fosse indicado pelo ministro Joaquim Barbosa. São, no conjunto, portanto, 62%, quase dois terços, que, não tendo firmado opinião própria, seguiriam os rumos traçados pelas personalidades que interpretam como maias importantes e influentes.

A posição alcançada por Joaquim Barbosa é surpreendente, próxima à de Lula. Mas Luís Inácio foi eleito em 2002, reeleito em 2006, e ainda conseguiu fazer sua sucessora nas urnas de 2010. Uma figura nacional politicamente consolidada. Vejam os leitores, pela comparação, o destaque que Joaquim Barbosa alcançou por sua atuação no Supremo a partir do episódio do mensalão, processo penal 470, instituído em 2005. Ele foi o relator do caso e, pelo critério de rodízio, assumiu a presidência do STF. Agora aposenta-se prematuramente. Os números confirmam o prestígio que atingiu. Sem dúvida.

Um outro ponto da pesquisa que merece destaque: 74% almejam por uma mudança. Embora indefinida qual seja, exatamente, reflete a atmosfera de insatisfação que está predominando no país, não neste ou naquele setor, mas em todas as escalas. A insatisfação, penso eu, decorre da falta de resposta dos governos aos sentimentos que a população espera. Pelo menos um sinal concreto de esperança. Pois, no fundo, política é esperança, como definiu o presidente JK.

Faz sucesso na internet o desmentido a Lula, feito em Nova York pelo maior usineiro do mundo

Celso Serra

Está circulando na internet com grande destaque um texto sobre a crise do setor sucroalcooleiro, que foi abandonado pelos governos do PT. Não há identificação de autoria do artigo, que começou a ser lido como mensagem de e-mail e agora conquistou o Facebook e outras redes sociais.

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MAIOR USINEIRO DO MUNDO DESMENTE LULA NA TV

O empresário paulista Rubens Ometto, considerado o maior produtor de açúcar e álcool do mundo, que foi a Nova York para receber o título de “Homem do Ano”, da Câmara Americana do Comércio, desmentiu enfaticamente todos “feitos” relativos ao  setor sucroalcooleiro, atribuídos pelo ex-presidente Lula ao seu governo, durante o programa do PT na TV, exibido neste quinta-feira à noite.

O setor sucroalcooleiro vive a maior crise de sua história, iniciada no governo Lula. Só nas últimas cinco safras, 44 usinas fecharam, 25 em São Paulo, e há 33 usinas em recuperação judicial . O endividamento é altíssimo: em 20% das usinas, 30% da receita estão comprometidos com serviço da dívida (juros e amortizações). Mais de 80 mil pessoas foram demitidas.

Ometto – que se aliou a Lula, acreditando em seus compromissos com o setor, no início do seu governo – não poupou críticas em Nova York às decisões (ou à falta delas) que levaram o setor a enfrentar a mais séria crise de sua história.

As críticas de Ometto foram feitas diante de uma plateia de empresários brasileiros e norte-americanos, que pareciam surpreendidos pelo tom áspero das críticas, em razão das ótimas relações que ele já teve com Lula e próceres do PT.  Ele está tão desapontado com os rumos do setor sucroalcooleiro que resolveu diversificar e, pela primeira na história de suas empresas, resolveu direcionar todos os seus investimentos para áreas que nada têm a ver com açúcar ou álcool. Em maio, por exemplo, pagou R$ 3,4 bilhões pela Comgás, maior distribuidora de gás natural do país. É o maior aquisição de sua vida.

Ao contrário do que Lula afirmou, ele e Ometto já tiveram uma lua de mel. Agora, têm visões muito antagônicas sobre o sucesso do Etanol brasileiro, um dos vários programas que ficaram pelas estradas.

Educação: 10% do PIB, mas isso a partir de 2024

Pedro do Coutto

O Congresso aprovou finalmente o Plano Nacional de Educação estabelecendo que os recursos destinados ao setor essencial para o desenvolvimento, fixados em 10% do PIB, equivalendo a cerca de 470 bilhões nos valores atuais, somente devem atingir essa escala a partir de 2024. Reportagem de Flávia Foreque e Mariana Haubert, Folha de São Paulo, edição do dia 4, focaliza claramente o tema. Pois à primeira vista, sem a condicionante, poderia parecer que o avanço seria imediato e não gradual. As jornalistas esclarecem, com base nos últimos dados disponíveis, relativos a 2012, que a Educação absorvia 6,4% do PIB.

O investimento total pode parecer grande, mas nem tanto assim, pois para o montante de 10%, pela lei aprovada à espera de sanção pela presidente Dilma Rousseff, contribuem, junto com a União, os recursos estaduais e municipais. Clarificados esses pontos, deve-se destacar que o problema não é só o do volume de recursos, o que inclui os custos de pessoal e material, é também da qualidade dos empreendimentos setoriais. Sua abrangência pelo país, uma vez que a concentração dos recursos financeiros, se for demasiada, fornecerá números para a média geral, o que não significa exatamente o atendimento aos pontos mais carentes.

Sem dúvida o aumento da percentagem sobre o PIB, que varia anualmente, representa um avanço. Mas tão amplo é o universo educacional, das creches às universidades, que a evolução real vai depender da qualidade e da produtividade. Uma área fundamental, por exemplo, é da formação de mão de obra especializada, da qual o Brasil carece muito. Trata-se de um programa de educação para o trabalho, de grande efeito na economia e na sociedade. Faltam trabalhadores de nível médio qualificados para uma série de tarefas e encargos fundamentais.

CENTROS DE ENSINO PRÁTICO

Trata-se de um setor difícil, pois no caso instalações industriais têm que ser aproveitadas como centros de ensino prático. Há necessidade do contato direto entre o aluno e o equipamento operativo, não sendo possível construir-se fábricas somente voltadas para o ensino. Seria como instalar-se fábricas sem produção. Muito mais econômico e, através de convênios, aproveitar-se o parque industrial existente voltado para o aprendizado prático. Tanto a indústria quanto os alunos de tais cursos técnicos ganhariam com isso. A educação no país ainda mais.

Falei em creches. São essenciais pela alimentação e sociabilização que promovem. Estatísticas acentuam que a reprovação de alunos no ensino básico cai a metade quando as crianças antes de nele ingressar foram atendidas em creches. Além disso, as creches permitem às mães trabalhar contribuindo para o sustento das famílias, uma vez que, durante a jornada têm com quem e onde deixar seus filhos em segurança e com alimentação.

Enfim, o universo educacional possui uma abrangência enorme. Não está somente nas salas de aula, nos laboratórios de pesquisa por mais avançados que sejam. A educação situa-se igualmente no campo dos hábitos sociais, no saneamento, no cuidado com o meio ambiente, com maior volume de informações a respeito dos cuidados com a saúde. Para todo esse universo, 10% do Produto Interno Bruto na realidade não é muito, considerando-se as participações federais, estaduais e municipais. Constitui, porém, um avanço. Que ele prossiga na busca de outros patamares que levam ao progresso.

Partidos não percebem a insatisfação generalizada no país


Pedro do Coutto

A excelente reportagem de Flávia Barbosa, O Globo do dia 4, com base em pesquisa realizada pelo Instituto norteamericano Pew Research Center, revelou que o grau de insatisfação está alcançando nada menos que 72% da população brasileira espalhando-se de maneira generalizada. Apenas 26% encontram motivos para estarem satisfeitos. O panorama, a pesquisa faz a comparação, mudou nos últimos três anos. O que está havendo?

O governo, principalmente, e os partidos políticos deveriam dar atenção ao fenômeno, sem dúvida dos mais negativos para o processo de desenvolvimento econômico e social. Atinge a produtividade, uma vez que constitui algo altamente negativo as pessoas sairem de casa e irem trabalhar sentindo o gosto amargo da falta de esperança, da falta de perspectiva. O problema não é só o da falta de comunicação, mas da ausência de fatos realmente positivos capazes de motivar e reanimar a sociedade.

Não existe um movimento contínuo que passe uma energia positiva à sociedade brasileira. Pelo contrário: a atmosfera é de pessimismo. Na mesma edição, O Globo publicou outra matéria, resultado de outra pesquisa, destacando que o aumento dos preços é a preocupação dominante. Claro, influi muito. Especialmente pelo fato de as elevações de preço não causarem reajustes salariais. O resultado só pode ser a queda do consumo. Não há outro caminho, não pode haver outro reflexo.

Num ano eleitoral, a movimentação das agremiações partidárias deveria voltar-se para este ponto essencial do problema. Mas infelizmente não agem assim. Omitem-se, disputam cargos na administração como se o sucesso em tais empreitadas fosse capaz de levar à solução real dos problemas brasileiros. Como representantes do povo teriam a obrigação (mínima) de se preocuparem com ele, que vai às urnas elegê-los. Recebem em contrapartida promessas. Que se vão com o vento que transporte as decepções de um leito para outro. A repórter Flávia Barbosa colocou o panorama nacional à disposição tanto do governo quanto da oposição e também de todos os políticos brasileiros.

MARINA EXIGENTE

Por falar em política no contexto da sucessão presidencial, a Folha de São Paulo, igualmente na edição de quarta-feira, publicou reportagem de Daniela Lima e Marina Dias revelando que a ex-senadora Marina Silva ameaçou boicotar a campanha de Eduardo Campos em São Paulo se o titular da chapa formar qualquer acordo com o governador Geraldo Alckmim, do PSDB, que disputa a reeleição nas urnas de outubro. Se o veto, aliás anunciado pela primeira vez há algumas semanas, prevalecer a chapa do PSB liderada pelo ex-governador de Pernambuco simplesmente desaba, pois a opinião pública sentirá diretamente que a candidata a vice tornar-se-á mais importante que o próprio candidato a presidente. O quadro paulista é confuso, mas de enorme importância, uma vez que representa o maior colégio de votos do país, correspondendo a pouco mais de 20% do eleitorado brasileiro.

A insatisfação, portanto, é ainda mais ampla do que se supõe. Atinge a própria oposição.

 

 

Consumo não resiste à alta dos juros

Pedro do Coutto

A excelente reportagem de Lino Rodrigues e Ronaldo D’Ercole, manchete principal da edição de O Globo de 3 de junho, veio iluminar a realidade que as estatísticas oficiais não destacam. Setores importantes da indústria, atingidos pela queda do consumo, partiram para a solução de dar férias coletivas aos empregados, inclusive para diminuir, como é natural, os custos de produção. Mas o que significa a retração na compra de automóveis e de eletrodomésticos, setores extremamente cobiçados? A explicação lógica não está na Copa do Mundo ou nos feriados que se sucederam nos últimos meses.

Está, isso sim, na subida dos preços dos produtos e dos juros nas operações de financiamento. Os salários, de fato, analisando-se sinceramente o processo social, não acompanham nem uma escalada nem outra. Basta comparar o aumento real dos preços com os avanços salariais, inclusive quando estes acontecem. Há uma série de categorias, a começar pela dos funcionários públicos, que há muito tempo não veem a cor de reposições compatíveis com a realidade. Não se trata de média geral, pois, em si, não reflete o peso dos preços, entre eles os dos supermercados, na vida real.

ENCADEAMENTO DOS FATOS

Torna-se necessário, para estudar objetivamente o encadeamento dos fatos e fatores, setorizar-se as pesquisas de forma mais abrangente. Porque a média coloca por igual nos cálculos os de renda mais alta e os de renda mais baixa. Na média, por exemplo, a água está batendo no peito. Mas para muitos segmentos, ela já os faz submergir, encobrindo a realidade efetiva do poder de compra. A inflação não é igual para todos, nem para todas as classes. Para as de menor renda o peso dos preços nos supermercados é muito maior do que a incidência deles nos grupos de renda maior.

Isso de um lado. De outro as ofertas de crédito a longo prazo iludem muito. Sustentadas pela propaganda maciça, como é natural, logicamente vão contribuindo para elevar os diversos valores das prestações. De repente os devedores chegam a seu ponto máximo de endividamento. Não adianta atrasar e refinanciar as dívidas de um mês para outro. Pois neste caso, incidem taxas adicionais em torno de 9% a cada trinta dias.

JÁ ESTÁ ACONTECENDO

É o que certamente está acontecendo, como a reportagem de O Globo destacou, com a área dos eletrodomésticos e de venda de celulares em seus vários padrões. Exercem grande atração nos consumidores em potencial, que terminam assumindo cada vez mais créditos acumulando prestações. Num momento surge a impossibilidade de pagá-las.

Aí entram em cena os acordos de reposição, cada vez mais frequentes. A propaganda não entra em recesso, mantém o mesmo ritmo, o mesmo volume, anúncios cada vez mais inventivos, o mesmo espaço nos meios de comunicação. A criatividade é elástica, o poder de consumo nem tanto. As férias coletivas dadas pelas montadoras de automóveis e fábricas de aparelhos eletroeletrônicos são consequência de um processo que agora se depara com a falta de dinheiro no bolso dos que devem. Os preços, na verdade, sobem mais do que os salários e também mais rapidamente. Seus reajustes são mensais, às vezes semanais. As reposições nos salários sucedem a oscilação dos preços. Um fator a mais para explicar a queda verificada no consumo.

A reportagem de O Globo levou a essa reflexão não destacada nas estatísticas.

 

  Um estatuto para os terceirizados das estatais

Pedro do Coutto
Em reportagem publicada na edição de 2 de junho de O Globo, Alexandre Rodrigues revelou que a Petrobrás possui em seus quadros 360 mil servidores terceirizados, correspondendo a 80% de todos os empregados. A Petrobrás, embora seja a maior empresa brasileira, não constitui uma exceção. Há terceirizados no Banco do Brasil, na Caixa Econômica, entre outras unidades do Estado. O governo federal, segundo cálculos feitos há algum tempo, possuía em torno de 2 milhões de   empregados nessa situação, regidos pela legislação trabalhista. Se formos incluir as terceirizações nas administrações estaduais vamos encontrar um número total bem maior. Entre as estatais da União deve-se incluir a Empresa de Correios e Telégrafos.
Os serviços de limpeza estão cheios de terceirizados. Constitui um processo bastante normal que, inclusive, proporciona substituição rápida de trabalhadores, livrando as próprias empresas da lentidão dos concursos. Não que os concursos não sejam importantes e absolutamente necessários, mas há concursos e concursos. Concurso para empregados nos serviços de manutenção e limpeza, por exemplo, é algo que choca com a realidade.
Mas não é só essa a questão. Há terceirizados com mais de quinze a vinte anos de trabalho, que à luz da legislação trabalhista, se não devem ser admitidos efetivamente, nem por isso devem perder o direito adquirido com anos a fio de trabalho. Se, através desse tempo, permaneceram nos postos que ocupam e nas tarefas que executam, como dispensá-los? Os custos seriam imensos e terminariam se tornando em prejuízo financeiro e mesmo econômico para as empregadoras.
DEFICIENTES

Além desse aspecto geral, tem que se levar em conta que é através da terceirização que são contratados milhares de portadores de deficiências, que não encontrariam outro meio de terem acesso ao mercado de trabalho.
Os setores de informática aproveitam maciçamente pessoas nessa situação, que chegam ao emprego com esforço, mas apresentam desempenho excelente, tornando-se até essenciais aos respectivos setores. Basta vê-los chegar ou sair dos locais de trabalho para que tenha uma ideia mais abrangente do problema e do panorama geral do mercado de emprego no país. Por todos os ângulos que envolvem a questão dos terceirizados, é que se torna necessária a aprovação de uma lei que implante um estatuto referente à terceirização, no sentido tanto de limitar essa forma de acesso aos quadros das empresas estatais, quanto a de garantir direitos trabalhistas que terminam com a aposentadoria a que todos almejam e a qual vão chegar um dia.
As empresas estatais possuem condições diferentes das que regem o Funcionalismo Público. Basta considerar que os servidores estatutários têm direito à aposentadoria integral, enquanto os regidos pela CLT são contidos no teto máximo do INSS, que não ultrapassa 3,2 mil reais por mês. Esta uma diferença substancial. Razão pela qual surgiram os fundos de previdência complementar, que têm como contribuintes os próprio empregados e empregadores, à base de um adicional em torno de 7%  sobre os salários de ambas as partes.
Por todos esses motivos e condições, que não são muito do pleno conhecimento público, e  também diante da impossibilidade de se demitir 2 milhões de pessoas, é que se torna essencial aprovar-se um estatuto que clarifique a matéria e implante normas objetivas e rígidas na sua sustentação. Inclusive as receitas sociais para o INSS e o FGTS desabariam na hipótese da diminuição dos terceirizados. E ninguém pode desejar tais consequências de um desemprego.