Eleições dependem também de emoção que candidatos despertam na TV

Pedro do Coutto

Têm sido comum nos jornais, e também em programas de televisão, inclusive nos mais qualificados como o de William Waak, na Globonews, a colocação de dados econométricos como formas de aferir não só as tendências atuais dos eleitores, como até o desfecho das urnas de outubro. Com base nesses dados, economistas titulares de consultorias arriscam-se até a prever os desfechos finais da urna. Esses estudos são importantes, só que não consideram a presença da emoção nas fases decisivas das campanhas projetada pelo empenho dos candidatos nos espaços da televisão ao longo dos horários de propaganda gratuita.

Inclusive os índices econométricos não sensibilizam por igualtodas as classes sociais em que se divide o eleitorado de modo geral. Seria exigir demais dos votantes que ganham até cinco salários mínimos, que correspondem a dois terços do eleitorado, que se baseiem, para efeito de escolher candidatos, em publicações de consultorias, da mesma forma que os debates intelectualizados são muito importantes para aqueles que podem acompanhá-los com atenção. Mas não para mobilizar as demais camadas da população para seu voto nas urnas.

A Folha de São Paulo, edição de 4 de agosto, por exemplo, publica com o destaque merecido uma reportagem de Fernando Canzian, na qual são destacados os índices fracos de aliados da presidente Dilma Rousseff em diversos estados, entre os quais a Bahia, Minas, Pernambuco e Paraná, além de São Paulo e Rio Grande do Sul. A matéria compara as taxas de intenção de votos de candidatos a governos estaduais apoiados pela presidente da República. O Rio de janeiro não figura na relação. E há um equívoco quanto a Pernambuco. Lá o candidato que lidera, Armando Monteiro Neto, do PTB, apoia a candidatura Rousseff.

Em trechos encontram-se declarações  do economista Sérgio Vale, diretor da consultoria MB Associados, sustentando que a atual posição do PT no Nordeste está muito abaixo do índice que alcançou na região nas urnas de 2010. E, por isso, Dilma recuou de 55%, há quatro anos, para 49% hoje. São projeções válidas porém gelificadas. Podem se manter ou não ao longo da campanha.

NA TELEVISÃO

Tudo depende também do desempenho de cada candidato na televisão. Esta regra vale não só para o Nordeste, mas para todos as regiões do país. As campanhas só esquentam à medida em que se aproxima o dia das urnas. E dependem da emoção, simpatia e confiança que os candidatos conseguirem despertar. O grau de convencimento, seja obtido de que forma for, é igualmente essencial.

As campanhas eleitorais só aquecem a partir do momento em que os confrontos, através da emoção, adquirem o caráter de competições esportivas. As reações que despertam não são totalmente lógicas ou decorrentes de injeções de tecnicalidade. Ao contrário. Emoção é emoção, nem sempre se explica na vida comum. Muito menos em matéria de eleições, terreno no qual o partidarismo, pelo partidarismo, tem peso próprio. E significativo.

Por isso, quando se analisa política eleitoral, tem que se levar em conta todos esses fatores. Eles existem.

Israel e Hamas aproximam-se do limite da destruição total de Gaza

Pedro do Coutto

O Globo e a Folha de São Paulo, nas edições de ontem, primeira página, divulgam novo ataque de Israel a outra escola da ONU, na faixa de Gaza, classificado como ato criminoso por Bam Ki-Moon, secretário geral das Nações Unidas. E acrescentou, com objetividade, que o conflito é uma loucura. Isso mesmo, colocou bem a questão essencial. Sobretudo porque verifica-se pelo noticiário internacional, as fotos publicadas e pelos telejornais, que Israel e Hamas aproximam-se do limite que ainda separa hoje a sobrevivência, por pequena que seja, de uma região ameaçada de destruição total.

Os bombardeios são incessantes, acarretando grande número de mortes e mutilações. Mas a tragédia não se esgota com as explosões. Gera outras consequências gravíssimas. Entre elas, a dificuldade de enterrar os mortos, tarefa que passa a demandar dias seguidos, talvez semanas. Impossibilita e pronto atendimento médico aos feridos, o que eleva o número de falecimentos. Não há energia, cirurgias tornam-se impossíveis.

Com esse quadro extremamente crítico, as condições sanitárias desabam na proporção da fúria destruidora de prédios públicos e particulares. Como fica a rede de abastecimento de água? Como fica a rede de esgoto? A simples colocação destas perguntas amplia o panorama do conflito armado, de fato uma loucura dos dois lados, como acentuou Bam Ki-Moon. Sobretudo porque não prevê qualquer desfecho lógico em momento algum.

RISCO DE EPIDEMIA

Destruir por destruir, expressão que se aplica aos dois lados, não leva a nada. Em primeiro lugar abre fortes perspectivas de uma epidemia na região. Epidemia múltipla em série, levando as populações a um plano francamente imprevisível. O Hamas é um movimento terrorista entre os palestinos. Mas Israel é um Estado organizado. Assim encontra-se investido de uma capacidade maior de previsão dos acontecimentos e suas consequências a curto e médio prazos.

Se chegou a uma tecnologia que permite a interceptação de mísseis no ar, evidentemente tem capacidade para antever todo o elenco de situações decorrentes da guerra. Quanto mais ela durar, mais se aprofundarão as consequências, maior número de habitantes tanto do próprio Israel (em muito menos número) quanto da Palestina, serão atingidos e tragados pelos efeitos concretos de loucuras.

EXPERIÊNCIAS

Como as guerras do Oriente Médio começaram em 1948, e atravessaram portanto seis décadas, não é por falta de experiência que se repetem. Impõe-se uma negociação que leve efetivamente ao cessar fogo. E, a meu ver, tal desfecho depende dos Estados Unidos. É o único país que apoia as ações de Israel, embora se empenhe nos bastidores para a concretização de um acordo. O Secretário de Estado John Kerry tem se empenhado a fundo nesse propósito. Porém seus esforços não têm superado o campo sempre flexível e ilusório da retórica.

A retórica não resolve o impasse, principalmente em toda sua profundidade. Semana passada, para citar um exemplo, numa entrevista coletiva na Casa Branca, o presidente Barack Obama dirigiu um apelo aos palestinos para que libertassem, sem condições, um soldado israelense aprisionado em combate. Dois dias depois revelou-se que o soldado em questão já estava morto. Morto em combate. Vítima da loucura da guerra e também de um processo de desinformação.

 

Votar em branco ou anular só como força de expressão

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Pedro do Coutto

O jornalista Fernando Rodrigues escreveu excelente artigo na edição de sábado da Folha de São Paulo a respeito do tema contido no título. Quem opta pelo voto nulo ou branco dá um recado aos políticos: rejeita sua atuação e seu comportamento ético. É um fato.

Mas fato é também, como aliás sustenta Fernando Rodrigues, que assim agindo, os eleitores contribuem para fortalecer, no caso das eleições para presidente, governador e prefeito aqueles que lideram as pesquisas. Porque os sufrágios nulos e brancos são retirados totalmente dos cálculos. Assim, a atitude torna mais fácil que atinjam a maioria absoluta.

No campo do voto proporcional (deputados federal, estadual, vereador), reduz o quociente exigido para o preenchimento das cadeiras: total de votos válidos dividido pelo número de vagas. Em muitos casos, os nulos e brancos contribuem exatamente para manter o mandato aqueles que os autores desejam substituir. Na realidade, uma contradição acentuando que, pela legislação brasileira torna-se concretamente impossível anular o voto ou digitar a tecla em branco na máquina.

Para o Senado, única exceção, não influi de fato. A escolha não é proporcional e para ela não se exige maioria absoluta. A omissão, portanto, importa menos. Se as eleições para deputados fossem distritais como nos EUA e Inglaterra, por exemplo, a escolha dos eleitos não dependeria de quocientes eleitorais por legenda. Cada caso é um caso; cada disputa é uma disputa diversa da outra. Como para o Senado.

SEGUNDO TURNO NO RIO      

Com base na pesquisa do Ibope publicada semana passada pelo Globo e Folha de São Paulo, ao que os números indicam, as eleições para o governo do Rio de janeiro devem ser decididas no segundo turno. Garotinho aparece com 21%, Marcelo Crivella com 16 e Luiz Fernando Pezão em terceiro com 15 pontos nas intenções de voto. Como Crivella desceu e Pezão subiu, enquanto Garotinho permaneceu estável em relação à penúltima pesquisa, a meu ver a segunda convocação será entre Garotinho e Pezão. O Palácio Guanabara conhecerá seu ocupante nas urnas de 26 de outubro.

Ibope na Folha tem interpretações divergentes em São Paulo e Minas Gerais

Pedro do Coutto

A Folha de São Paulo publicou na edição de sexta-feira, primeiro de agosto, matéria assinada por Fernando Canzian sobre pesquisa do Ibope sobre a sucessão presidencial em quatro estados: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco. O texto inclui a interpretação de que, à luz dos números, ficam evidenciadas as dificuldades de Dilma Rousseff em São Paulo e Minas Gerais. Dificuldades existem para todos os candidatos nesta ou naquela região. Em Minas as dificuldades que a presidente encontra têm base nos índices do Ibope. Em São Paulo, não.
Em Minas, o Ibope aponta 41 pontos para Aécio neves, 31% para Dilma. Diferença bastante ampla no segundo maior colégio eleitoral do país. Mas o mesmo não acontece em São Paulo. Pois em São Paulo, Dilma Rousseff, de acordo com o próprio Ibope, lidera com a parcela de 30%, contra 25 pontos de Aécio neves. Para manter lógico o raciocínio que levou à interpretação, o Ibope, autor do levantamento, ou o responsável pelo texto, deveriam acentuar que, no caso paulista, a dificuldade cabe ao senador Aécio Neves.
Sobretudo levando-se em conta que, no estado, o governador Geraldo Alckmim, do PSDB, mesmo partido de Aécio, lidera amplamente a pesquisa para o governo estadual. Fosse hoje a eleição, estaria reeleito com nada menos de 54 pontos. O candidato do PT, ex-ministro Padilha, aparece na pesquisa com apenas 5%, ou 4%, das intenções de voto. Observando-se a força de Alckmim em contraste com a fraqueza de Padilha, conclui-se que parte expressiva dos que votam no atual governador estão dispostos a votar simultaneamente em Dilma Rousseff. Pois se assim não fosse, ela não poderia atinge a escala de 30%, segundo o próprio Ibope. A dificuldade em São Paulo, portanto,  é de Aécio, que não está conseguindo atrair para si os eleitores de Alckmim.
No Rio de Janeiro, informa o Ibope, a atual presidente lidera com 35% sobre 15 pontos de Aécio. Em Pernambuco, para completar o quadro publicado pela Folha de São Paulo, Dilma alcança 41 pontos, aparecendo em segundo, não Aécio, mas o ex-governador Eduardo campos com 37%. Aécio Neves atinge apenas 6 degraus. Este quadro comprova que Aécio e Campos estão disputando em partes desiguais as correntes que se opõe à reeleição de Aécio, entretanto, é muito melhor que a de Eduardo Campos. Se houver segundo turno, será entre Dilma e o ex-governador de Minas Gerais.
AS DIFICULDADES DE CAMPOS
Mas já que focalizamos as dificuldades de Dilma e Aécio em Minas e São Paulo, os dois polos colocados pelo Ibope para efeito de análise, devemos destacar as dificuldades, estas sim, infinitamente maiores, que envolvem a caminhada de Eduardo Campos para as urnas. Vamos ver: em São Paulo ele registra apenas  6%. No Rio de Janeiro 5%. Em Minas Gerais apresenta igualmente a mesma fação de 5 pontos. Só está bem em Pernambuco, estado do qual foi governador. E, mesmo assim, encontra-se em segundo lugar com 37%. Dilma, como vimos, tem 41.
Portanto se aceitarmos a perspectiva de que, liderando com 30% em São Paulo, Dilma depara-se com dificuldades no estado, examinando-se os índices atribuídos em quase rodo o país a Eduardo campos, implicitamente chegaremos à conclusão que se trata de uma candidatura cercada por um mar de impossibilidades. Neste caso, sim, é válido o raciocínio. Quanto a Dilma e Aécio em Minas e São Paulo, a análise deve ser revista pelo Ibope.

Institutos precisam explicar melhor os resultados das pesquisas

Pedro do Coutto


Ibope e Datafolha, que são os principais e mais qualificados institutos de pesquisas eleitorais do país, que ao longo dos anos acumularam êxito nas suas previsões, sem dúvida. Agora, creio, precisam explicar mais claramente os resultados dos levantamentos que realizam e publicam, respectivamente através de O Globo e da Folha de São Paulo. Estou me referindo aos índices atribuídos aos candidatos em confronto com as parcelas dos que anunciam a intenção de anular o voto ou votar em branco, além das frações dos eleitores que não souberam (ou quiseram) responder às consultas. E cotejar a realidade extraída dos cálculos comparativos com as taxas de precisão anunciados tanto pelo Ibope quanto pelo Datafolha.

Vamos tomar como exemplo as pesquisas do Ibope sobre as eleições para os governos do Rio de Janeiro e Minas Gerais, publicadas no Globo de 31, através de reportagens assinadas por Cássio Bruno (RJ) e Luciano Abreu (MG). Comecemos pelo Rio. Apontado empate técnico entre Garotinho 21; Marcelo Crivella 16; Luiz Fernando Pezão 15 pontos. Destacado o índice de precisão aos dados: 95%. Ocorre que o mesmo levantamento apontou votos brancos e nulos na escala (muito alta) de 21%, enquanto 12% não responderam. Assim, estatisticamente, 67% passam a ser iguais a 100.
Os números atribuídos aos três candidatos resultam das manifestações que receberam sobre 67? ou sobre 100%? A diferença é fundamental. Em Minas Gerais, Fernando Pimentel aparece com 25 pontos, seguido por Pimenta da Veiga, 21%. Não responderam 31%, nulos e brancos atingiram a parcela de 13 pontos. Assim, as duas parcelas somam 44. Portanto 56 passam a ser iguais a 100. Outra questão, como a do Rio de janeiro, a ser esclarecida, inclusive porque 25 a 21 é mais um exemplo de empate técnico. Vamos por etapas.
EMPATES
Se 21, 16 e 15 configuram um empate atual ou provável, melhor do que recorrer à expressão empate técnico, como a taxa de precisão da pesquisa pode ser estimada em 95? Tal diferença para 100 é algumas vezes menor do que as distâncias entre os três candidatos que reúnem em torno de si (hoje) as maiores intenções de voto. Fica no ar uma dúvida a ser traduzida. Sobretudo porque a diferença para 100 será maior ainda se considerarmos a incidência das manifestações em relação a 67, excluídos os 33% que não opinaram. Em Minas será menor, considerando-se que Pimentel lidera com 25 e Pimenta alcança 21 pontos. Enquanto a fração de 44% manteve-se neutra ou fechada em si mesma.
Este ângulo, especificamente, não importa muito em matéria de análise . Porém importa muitíssimo, ao divulgarem os resultados dos próximos levantamentos, que Datafolha e Ibope esclareçam se os índices encontrados correspondem à extração considerando o universo de 100, ou se decorrem da extração sobre os totais já descontados os brancos e nulos mais a parcela de eleitores que adotou o silêncio como resposta. Apenas isso. Virá facilitar, inclusive, que se observe mais nitidamente as diferenças reais dentro dos limites de precisão.

Para Skaf apoiar Dilma em SP, PT tem que retirar Padilha

Pedro do Coutto
Reportagem de Márcio Falcão e Alexandre Aragão, edição de quarta-feira 30 da Folha de São Paulo, revela a pressão que está sendo exercida por Michel Temer sobre Paulo Skaf para que este passe a apoiar a candidatura da presidente Dilma Rousseff em São Paulo.A pressão era esperada, porque, se não apoiar Dilma, Skaf, que é o candidato do PMDB, não estará apoiando Michel temer, vice na chapa governista. Tem lógica. Aliás, dupla lógica, já que São Paulo é o principal colégio eleitoral do país, representando assim mais de 20% dos votos. Dilma-Temer precisam de parte desses votos. Isso de um lado. De outro, o dirigente licenciado da federação das Indústrias não tem condições de não se integrar ao lado de Temer e ao mesmo tempo desejar obter a adesão dos prefeitos que o PMDB possui na área estadual.
Tudo perfeito, mas falta uma coisa: Temer não pode desejar  a participação de Skaf se o PT mantiver a candidatura de Alexandre Padilha ao Palácio Bandeirantes. Neste caso, Skaf, ao aceitar tal palanque duplo, estaria contribuindo politicamente para o plano alto do Planalto sem que alcançasse uma contribuição desse apoio no esquema estadual. Seria este seu argumento mais consistente.
E, em contrapartida, Temer poderia – e pode – sustentar que existe, ou deve existir uma coligação PT-PMDB na área federal. Mas há dificuldades em vários Estados. São Paulo, o principal. Rio de Janeiro, entre eles. Minas Gerais, um terceiro exemplo. É necessária uma revisão do panorama, tanto de parte de Dilma Rousseff quanto de Aécio Neves. Não cito Eduardo Campos porque este só poderá subir se Aécio descer. Como demonstram as pesquisas tanto as do Datafolha, quanto as do Ibope.
A dúvida, hoje, já escrevi sobre isso, é se haverá segundo turno. Mas se houver, será ele entre Dilma e Aécio. A chapa Campos-Marina, por si só, aparece de forma fraca nos levantamentos. Vamos esperar o próximo para focalizarmos novamente esse aspecto.
PEZÃO E DILMA
Voltamos ao tema que abrange as alianças regionais em função do quadro básico nacional. No Rio de Janeiro, por exemplo, o governador Pezão apoia Dilma Rousseff, uma vez que ele pertence aos quadros do PMDB. E seu apoio encontrou correspondência. A presidente da República não prestigiou Lindberg Farias, senador e candidato do PT ao Palácio Guanabara. Em Minas, segundo colégio eleitoral (o Rio de janeiro é o terceiro) disputam o Palácio da Liberdade Pimenta da Veiga, pelo PSDB, e Fernando Pimentel, pelo PT. O PMDB tem que se posicionar.
Citei as três principais fontes de votos. Mas há uma série de outros Estados importantes em relação aos quais ou ocorrem uma arrumação das coligações partidárias ou se reconhecem divisões profundas atingindo as alianças num sentido (Dilma) ou no outro (Aécio).
Um desafio para as articulações e os articuladores. Têm que partir de aproximações e nelas incluir o interesse de vários candidatos, cada um em sua unidade federativa. Pois através da campanha que começa em agosto não há muitos espaços para manobras isoladas. E sim espaços a serem descobertos para convergências. O caso de São Paulo é típico. O do Rio de Janeiro, outro exemplo marcante. Todos os caminhos até outubro levam às urnas. Mas nem todos são iguais.

O patrimonialismo político reduz a esperança dos jovens


Pedro do Coutto
O ministro Dias Toffoli, presidente do TSE, através da imprensa, revelou que o eleitorado brasileiro cresceu 5% e 2010 para cá, o que coincide com o índice demográfico registrado pelo IBGE para o período. É alto o nível de eleitores, uma vez que corresponde, creio eu, a 63% da população. A divisão entre mulheres (52%) e homens (48%) segue o que ocorre na composição dos habitantes por sexo. Mas algo chama atenção nas declarações do ministro Toffoli: o alistamento espontâneo dos jovens, nos últimos quatro anos, caiu 31%.
O fenômeno, acentuado, não encontra explicação apenas na mudança do critério à base de considerar o limite de 18 anos, até outubro, entre o voto facultativo e a presença obrigatória nas urnas conforme a lei. O percentual da diferença é grande demais. Tem que haver outra explicação, ou outras explicações. A mais forte e precisa delas, a meu ver, encontra-se no artigo de ontem de Elio Gasperi, publicado no O Globo e na Folha de São Paulo simultaneamente.
Nele o articulista, com o brilho de sempre, ilumina os caracteres imperialistas e sobretudo patrimonialistas de que se reveste a política brasileira. Especialmente o patrimonialismo. Ele cita especificamente os casos de Pasadena e do aeroporto de Cláudio, Minas Gerais. Poderia alinhar inúmeros outros, a começar pelo Rio de Janeiro com os convênios entre a Prefeitura e ONGS que receberam vultosas somas por determinados serviços, mas não os executaram na prática.
Relativamente à Pasadena ainda houve uma decisão do Tribunal de Contas da União. Quanto à Prefeitura do Rio, somente agora é que diversos convênios vão ser analisados e, sobretudo, conferidos os serviços prestados. Acontecendo a inexistência de comprovação, tal realidade já por si é uma comprovação do que de fato ocorreu, ou deixou de ocorrer. Quanto ao aeroporto na cidade  de Claudio, pelo menos existe seu reconhecimento oficial, já que o orçamento de Minas Gerais para 2015 prevê uma indenização de 20,5 milhões de reais para cobrir a desapropriação da área. Mas estas são questões específicas.
JOVENS DECEPCIONADOS
Retornando o tema que abrange a falta de interesse de acentuada parte da juventude em participar do processo eleitoral, vemos, de modo geral e nítido, que o motivo principal situa-se na classificação iluminada por Gaspari.  A leitura dos jornais diários, o acompanhamento dos noticiários da televisão, são espaços e mais espaços que identificam e expõem a má aplicação de recursos públicos, conduzindo para o crescimento ilegítimo de patrimônios particulares. São desvios sem possibilidade de retorno do que foi desviado. Pois ninguém, de bom senso, pode acreditar no reembolso aos cofres da Petrobrás de 90 milhões de reais tragados na operação de Pasadena. O que passou, passou, vão sustentar os principais acusados.
O risco é próprio das transações. Só que riscos e consequências assim contribuem para causar falta de ânimo dos jovens para as atividades políticas. E se, como dizia JK, política é, no fundo, esperança, quando esta falta o reflexo atinge a sociedade, através da juventude. E falar em juventude é falar em renovação.
    MAIS

     

    Netanyahu anuncia ação militar longa e assim isola Israel no cenário internacional

    Pedro do Coutto

    Reportagem da Folha de São Paulo publicada na edição de 29, destaca o pronunciamento da véspera do primeiro-ministro Netanyahu avisando que a operação militar na Faixa de Gaza será longa e, com isso, tacitamente, rejeitou todos os apelos e manifestações voltadas para o cessar fogo na região, entre eles o apelo do Papa Francisco. Rejeitou também, da mesma forma implícita, os esforços do Secretário de Estado John Kerry, isolando ainda mais Israel no cenário internacional.

    O primeiro-ministro sustentou que os combates só acabam quando Gaza estiver desmilitarizada. Esqueceu que, sob o ângulo político, quando mais os bombardeios israelenses durarem, maiores e mais intensas vão ser os atos que acontecem em inúmeras cidades contra a política de Telavive.

    Não se pode ignorar os ataques do Hamas a Israel e também condená-los, reconhecendo o direito de Israel se defender. Só que a única saída para o gravíssimo impasse está na negociação através de fins pacíficos. Pois, caso contrário, envereda-se duplamente pelo caminho da destruição que ninguém sabe onde vai parar e a que desfecho trágico pode conduzir. Não existe alguém de bom senso na face da Terra capaz de dissecar um rumo imprevisível, no qual previsíveis são as mortes, aos milhares, que vão se suceder.

    No momento, Israel, mesmo assim com reservas naturais colocadas pelo Secretário de Estado Kerry, só conta com o apoio dos Estados Unidos. Israel está perdendo a guerra da comunicação – basta ir os jornais e revistas, observar as fotos e o confronto diplomático. Na realidade, quanto mais se alongarem as bombas e foguetes, quanto maiores forem os números dos mortos e mutilados, pior, sob o ângulo político, será para Israel.

    Como é possível o premier Netanyahu ignorar este aspecto essencial? Terminará isolado não só internacionalmente, mas dentro de seu próprio país, uma vez que não é lógico aceitar a tese que um conflito longo e permanente pode interessar à sua população. Ela acabará naturalmente cansando-se dos conflitos, das mortes, das mutilações, dos prédios destruídos, com os alarmes tocando a cada instante.

    UM CLIMA RUIM

    Matéria de Carolina Alencastro, O Globo também de 29, reproduziu declarações da presidente Dilma Rousseff, durante sabatina pelo UOL, amplamente publicada pela FSP, que afirmou que as declarações da chancelaria israelense  contra o Brasil criaram um clima ruim entre Brasilia e Telavive. Passada uma semana, o primeiro-ministro de Israel poderia ter reduzido a questão, suavizando o mal-estar com um simples pedido informal de desculpas. Seria uma fórmula de restabelecer o diálogo. No entanto, até agora permanece em silêncio. E o silêncio é comprometedor e leva à concordância com um absurdo.

    Já que é rematado absurdo desconhecr a importãncia do Brasil no cenário mundial. Os fatos concretos apontam o contrário. Em coluna recente, escrevi sobre vários deles, culminando com a participação brasileira, através da heroica FEB, na segunda guerra mundial. Esqueci de citar dois. Cito hoje. A Conferência Panamericana realizada em janeiro de 42, no Rio de janeiro, Palácio Tiradentes, de apoio aos Estados Unidos contra o ataque japonês a Pearl Harbor; a cessão das bases aéreas de Natal e Recife para a operação militar das forças aliadas num espaço aéreo fundamental. Importância se mede com fatos, não com palavras grosseiras e despropositadas.

     

    Convênios de ONGs têm que ser revistos profundamente

    Pedro do Coutto 

    A forte denúncia feita pela vereadora Tereza Bergher sobre o volume de recursos financeiros realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro à entidade denominada Tesloo, com sede de instalações modestas, como comprova O Globo na edição de segunda-feira, remete a uma necessidade urgente de que sejam revistos, não apenas este contrato, mas todos os outros existentes no país. Ao longo de dez anos, a Tesloo recebeu 79,7 milhões de reais da Prefeitura através da Secretaria de Assistência Social. Vale frisar, destacou a vereadora, que em um só ano, de 2011  a2012, foram canalizados para a ONG 40 milhões de reais. Incrível.

    As denúncias têm endereço certo, no caso. Agravando o quadro, a Tesloo dificilmente terá como comprovar a prestação dos serviços relacionados com a percepção de tão elevada quantia. Esse é um caso. Quantos outros haverá no Rio de Janeiro e nos demais Estados do país? Se multiplicarmos uma média imaginária de desembolsos oficiais por dezenas de milhares de ONGS que só existem na superfície do papel social que dizem representar e praticar, todos vão se deparar com recursos financeiros desperdiçados. Verbas oficiais com base em indicações e interesses de baixa política, dinheiro público jogado fora.

    Mal comparando, o ato de acender a luz sai mais caro do que produzir a energia que ilumina. Vai se chegar a bilhões de reais a cada ano. Não só isso: sem efeito prático algum, a não ser tornar pessoas ricas os dirigentes da grande parte das organizações. Não se pode, é claro, estender tal conceito a todos os dirigentes e a todas organizações particulares que atuam na prestação de serviços, cuja tarefa deve ser preencher espaços vazios deixados pelo sistema social público. Por isso mesmo é que se exige uma reformulação do panorama atual, separando o joio do trigo.

    RECUPERAÇÃO

    Partindo-se inclusive do princípio de que grande parte das ações requer  intervenções especializadas como a recuperação de adolescentes tocados pelas drogas, adultos também, inúmeros casos de reabilitação do vício da bebida. Outras situações requerem internação em abrigos, algo muito especializado e de difícil seleção e execução. Há casos de cursos de profissionalização para colocação no mercado de trabalho.

    Todos esses aspectos destacam como é complexa a atuação no plano social, abrangendo desde o registro civil, à habilitação legal de pelo menos centenas de milhares de pessoas. A oportunidade de uma revisão geral surgiu. Os poderes públicos não podem perdê-la. Caso contrário, continuarão perdendo-se a si mesmo, jogando dinheiro fora sem retorno algum.

     

    Com Oswaldo Aranha, Brasil foi importante para a criação de Israel

    Pedro do Coutto
    Sem entrar no mérito da questão no que se refere à convocação do embaixador em Telavive ao país, absolutamente desproporcional e agressivamente despropositada a reação da Chancelaria israelense. Afirmar que o Brasil é um anão no campo da diplomacia, cuja presença não é levada a sério, é simplesmente um absurdo.
    Não pode ser considerado sem importância o país cujo representante tornou-se o primeiro presidente da Assembléia-Geral da ONU e, nesta qualidade em 1947, tornou possível a criação do próprio Estado de Israel. Foi a votação do projeto que dividiu a Palestina em dois Estados um deles o de Israel.
    Não pode ser considerado anão na diplomacia uma das apenas 11 nações que mantêm relações com todas as outras. Tão pouco pode ser minimizada a importãncia de um país que foi o único da América Latina a declarar guerra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, ao Japão de Hiroito. Portanto ao eixo nazi-facista.
    Não tivesse o Brasil importância no cenário mundial, não teria sofrido o covarde ato em que submarinos nazistas da Alemanha afundaram vinte e dois navios mercantes brasileiros indefesos. Em vários casos com requinte de crueldade: depois do torpedeamento, os submarinos vinha à tona e com metralhadoras no convés alvejavam os tripulantes que tentavam sobreviver.
    A Chancelaria de Israel esqueceu que a Força Expedicionária Brasileira lutou bravamente nos campos da Itália, sob o comando do general Paton, destacando-se em vários episódios históricos como a tomada de Montecastelo, quando, na escalada, encontraram-se sob o fogo inimigo.
    Israel, ao invés de escolher o Brasil como alvo político, deveria, isso sim, responder ao conteúdo das restrições que vêm sendo feitas pelo exagero das reações a que tem direito pelos ataques que sofre. Não quis discutir essa desproporcionalidade, concretamente. Achou normal e em resposta citou os 7 a 1 como exemplo de fato desproporcional. Neste ponto praticou um erro diplomático muito grande tanto sob o aspecto político quanto sob o prisma cultural.

    População cresce mais que PIB e a renda per capita diminui

    Pedro do Coutto

    Na Folha de São Paulo a reportagem está assinada por Cláudia Rolli e Tatiana Freitas, enquanto no Globo a matéria é de Geralda Doca, Marta Beck e Rennan Setti, mas os temas e as fontes são os mesmos: Boletim Focus do Banco Central reduziu a perspectiva de crescimento do Produto Interno bruto este ano para um patamar entre 0,9 e 1%. O índice coincide com o calculado pelo Banco Santander.

    Resultado muito ruim. Primeiro, porque a taxa demográfica é calculada pelo IBGE na escala de 1,2%: nascem 1,9, morrem 0,7% ao ano. População avançando acima do PIB significa recuo na renda per capita, indicador fundamental para o desenvolvimento. Em segundo lugar, destaca O Globo, o IPCA está apontando para uma inflação de 6,4%. Maior do que os reajustes de salário. O reflexo atinge a sociedade como um todo em face da perda do poder aquisitivo.

    Os juros aplicados às compras a crédito continuam no mundo da lua, ao lado de uma retração de consumo. Tanto assim que empresas que passaram a vender menos decidiram vender mais energia quepossuem em estoque. O destino é o mercado livre de curto prazo, cujos preços são elevados.

    Todos esses fatores convergem e conduzem para ampliar os índices de insatisfação social e o governo necessita agir com firmeza para revertê-los, sobretudo porque nos encontramos num ano eleitoral com a disputa presidencial fixada para daqui a três meses e uma semana.

    PESSIMISMO

    O Boletim Focus encontra-se pessimista, não prevendo melhora do quadro econômico até às eleições. Surpreendente tal posicionamento, sobretudo expressado por uma entidade vinculada ao Banco Central. Não é possível que não vislumbre ele, sem trocadilho, nenhum foco de esperança no horizonte.

    Provavelmente sem que sua direção sentisse  ou percebesse, o Focus proporcionou um panorama que serviu à oposição e não ao Planalto. Não ao governo, portanto, ao qual está administrativamente vinculado. Passou uma forte dose de pessimismo, que inevitavelmente se acrescenta ao clima negativo que partiu  da derrota por sete a um da Seleção Brasileira, clima que ainda vai perdurar por vários meses envolvendo a população, portanto, o eleitorado brasileiro.

    O governo  Dilma Rousseff necessita reagir a tempo e mobilizar suas equipes e suas correntes de comunicação com a opinião pública para desfazer o derrotismo injetado na atmosfera nacional.

    Não é possível que não exista uma fonte de reação, sobretudo no momento em que a campanha eleitoral está prestes a se iniciar através dos horários gratuitos na televisão e no rádio. Inclusive possuindo um espaço bem maior do que aquele que os seus adversários somados vão utilizar, Dilma Rousseff terá de preenchê-lo. E fazê-lo de forma positiva, otimista e convincente.

    Em matéria de marqueteiro, não poderia haver alguém mais capacitado do que João Santana. Pode haver igual, mas não mais capacitado para a função. A propósito: por que a presidente da República não ouve Santana a respeito da divulgação dada pelo Boletim Focus aos números que confrontam o índice demográfico, o PIB e o aumento da inflação?

    Datafolha e Ibope: diferença de um ponto pode levar ao segundo turno

    Pedro do Coutto

    Com base na pesquisa do Ibope, divulgada terça-feira pela Rede Globo e ontem simultaneamente pelo Globo e O Estado de São Paulo, comparando-se seus números com os do Datafolha, publicados na semana anterior pela Folha de São Paulo, verifica-se que as diferenças são muito pequenas, em algumas situações até mínimas. É o caso, por exemplo, dos índices que hoje decidiriam se o desfecho seria transferido do primeiro para o segundo turno. De modo geral as tendências evidenciadas convergem para as mesmas direções e posições percentuais quanto às intenções de voto.

    Entretanto antes de comparar os dois panoramas, quero me referir à perspectiva de se haverá ou não segundo turno. O Datafolha apontou 36% para Dilma Rousseff e também outros 36 pontos para todos os demais candidatos reunidos, incluindo Aécio Neves, Eduardo Campos, Pastor Everaldo e todos os demais. Um empate, no qual encontram-se computadas as parcelas dos que atualmente estão dispostos a anular ou votar em branco, ou então que não souberam responder à pergunta.

    Muito bem. Enquanto o Datafolha aponta 36 a 36, o Ibope assinala 38 pontos em favor da presidente da República e 37% para Aécio Neves, Campos, Everaldo e todos os demais juntos.

    DIFERENÇA MÍNIMA

    Assim, para o Ibope a diferença de apenas um ponto no primeiro afastaria a hipótese de um segundo turno. Para o datafolha, destaca-se a dúvida na existência do empate de 36 a 36. A diferença mínima, no momento, conduz a uma diferença essencial. Claro que tudo dependerá da atuação dos candidatos, sobretudo se houver debate entre eles no confronto inicial.

    Mas esta é outra questão. O fato é que os índices dos dois institutos são convergentes. Dilma em primeiro, Aécio em segundo, Eduardo Campos em terceiro. A divergência forte que marca o foco do Datafolha e o enfoque do Ibope situa-se nas projeções para o segundo turno, vindo este a ocorrer.

    O Datafolha aponta 44 para Dilma, 40 para Aécio Neves, o que ele considera empate técnico. Já o Ibope assinala, na perspectiva de um segundo turno, vantagem de 41 pontos para a atual presidente contra 33 pontos de Aécio Neves.

    DIFERENÇA MAIOR

    Dessa forma, para o Ibope a diferença final seria de 8%, o que não configura qualquer tipo de empate. Enquanto o Datafolha encurta o resultado para um percentual de apenas 4%. Em termos percentuais, exatamente a metade do que estimam os cálculos do Inope divulgados pelo Jornal Nacional da rede Globo, pela Globo News, pelo O Globo, além de pelo O Estado de São Paulo. O levantamento do Datafolha, como afirmamos linhas atrás, foi publicado principalmente pela Folha de São Paulo e também pela Rede Bandeirantes de Televisão.

    Tanto o Datafolha quanto o Ibope incluíram Eduardo Campos na simulação para um segundo turno. Mas não faz sentido considerar esta perspectiva, pois ela depende de o ex-governador de Pernambuco ultrapassar Aécio Neves no primeiro turno. Hipótese, aliás, vale frisar, que nenhuma das duas pesquisas coloca como possível de acontecer. Dentro desse raciocínio, em havendo segundo turno, será ele decidido entre Dilma Rousseff e Aécio Neves.

     

    Dilma busca ressurgir e anuncia revisão de erros cometidos

    Pedro do Coutto

    Em reportagem publicada na Folha de São Paulo, 22 de julho, Valdo Cruz revela que, através de sua assessoria política, a presidente Dilma Rousseff está assumindo o compromisso de rever erros que admite ter cometido no primeiro mandato. A iniciativa demonstra que a partir de agora, véspera do início da campanha eleitoral, ela busca ressurgir na caminhada para um segundo mandato assim reconquistando tempo perdido. Despertou tarde, mas, como diz o aditado, antes tarde do que nunca.

    Foi evidentemente tocada pelas recentes pesquisas do Datafolha que iluminaram o aumento da rejeição a seu governo, o que, como é inevitável, acarretou a descida de sua liderança de 38 para 36 pontos no espaço de quinze dias. Mais importante do que o pequeno recuo, aí sim, é o registro  do que pode ser uma tendência. O Datafolha assinalou 36% das intenções de voto, contra 20% de Aécio Neves e apenas 8 pontos para Eduardo Campos. Mas existem muitos outros candidatos, a começar pelo pastor Everaldo  que alcança 3 degraus.

    Somados todos os percentuais, de acordo com o Datafolha, verifica-se um empate. Ou seja, a soma dos adversários coincide com os 36 pontos alcançados pela chefe do Executivo. Tais números acentuam, mais que uma tendência possível, a hipótese provável do segundo turno. Assim, a decisão nas urnas seria transferida de 5 de outubro para 26 do mesmo mês, conforme prevê a lei.

    ERROS  

    A matéria do jornalista Valdo Cruz é bastante forte ao refletir vários ângulos do processo de fixar um panorama verdadeiro. A começar pelo fato de a assessoria de Rousseff alinhar o que Dilma reconhece como seus principais erros na trajetória de seu desempenho político, a partir dos planos econômico e social.

    No campo político, do qual se ganha e se pErde votos na urna, ela admite a falta de diálogo com os partidos aliados e com as correntes do empresariado que mais se aproximam de sua candidatura. Os outro seis aspectos concentram-se no corte das tarifas de energia, desoneração sobre as folhas de pagamento, tarifas de ônibus, preço dos combustíveis procedentes do petróleo, empenho em assegurar superávit primário (a contabilidade antes de considerar o custo com a rolagem da dívida interna), além da limitação dos ganhos das empresas de transporte rodoviário e ferroviário.

    Essas medidas, todas elas, voltadas para conter a inflação em patamar positivamente absorvível pela sociedade, mas, vê-se agora, não produziram os resultados almejados. Sim. Porque se tivessem logrado atingir os resultados esperados, ela, Dilma, não os incluiria num quadro de revisão.

    NOVO ESTILO

    A essa lista de reformas, a meu ver, ela deve acrescentar a mudança de seu estilo que, se não a levou a um isolamento, pelo menos bloqueou  sua progressão no processo de ampliar as intenções de voto para si.

    Os números confirmam essa imagem. No primeiro turno, ela tem 36, Aécio 20, Eduardo Campos 8 pontos. Caso haja segundo turno, o Datafolha aponta 44 para ela, 40 para Aécio. Portanto ela sobe 8 degraus, Aécio   duplica a percentagem do primeiro embate, sobe portanto para 40. A aproximação ocorre. Porém tem que se levar em conta os sufrágios brancos e nulos que podem conduzir a uma distância maior dela em relação ao senador mineiro.

    Porque se a pesquisa registrar, digamos, o que é provável, 15% de nulos e brancos, as percentagens terão que ser infladas, é claro, na mesma escala. Sobe mais, assim, quem está na frente. Mas estas são interpretações dos números. Havendo segundo turno, os debates e os conteúdos das colocações do tema é que vão decidir se Dilma Rousseff continua no  plano alto do planalto ou se vai ser sucedida por Aécio neves. O pastor Everaldo, vejam só, pode ser decisivo para definir se haverá ou não segundo turno.

    Eduardo Campos, a meu ver, vai esperar o terceiro turno. Mas este só nas eleições de 2018.

    Reação contrária pode levar CBF a rever indicação de Dunga

    Pedro do Coutto

    A forte reação contrária dos meios de comunicação e da opinião pública ao retorno do técnico Dunga ao comando da Seleção Brasileira pode levar provavelmente a direção da CBF a rever a indicação. À primeira vista a impressão que se tem é de que a iniciativa de José Maria Marim foi precipitada e não avaliou os reflexos negativos acentuados pelas matérias editadas pelos jornais (manchete de O Globo) e rejeição de 85% registrada em pesquisa realizada pelo Fantástico, noite de domingo.

    A Confederação Brasileiraa de Futebol informou, pela Internet, que anunciaria a escolha hoje, terça-feira. Escrevo este artigo na véspera, portanto na segunda-feira. Admito até a hipótese de ocorrer um adiamento na divulgação.

    As reações destacam tanto Dunga quanto Gilmar Rinaldi, na imprensa. São fortes  e se estendem a condição de empresário de jogadores atribuída a Rinaldi. Como coordenador do selecionado, nesta situação, ele se tornaria juiz e parte a um só tempo. E é um princípio universal de Direito que ninguém pode simultaneamente ocupar as duas posições. Aliás quanto a Rinaldi, aproveito este espaço para retificar o erro que cometi na sexta-feira quando confundi o goleiro reserva do escrete de 98 com Gilmar Neves, goleiro titular bicampeão de 58 e 62.

    DESCONTROLE

    Feito o conserto com atraso de alguns dias, voltando ao tema cujo foco central a mim parece a inoportunidade da decisão pró Dunga, estilo agressivo semelhante ao de Felipão, ainda sob o trauma dos sete a um para a Alemanha. Canais de televisão reeditaram  inclusive momentos de intensa exaltação do técnico na Copa de 2010 quando da desclassificação do Brasil nas quartas de final. Na condução de seu trabalho exasperou-se demais, deixando evidente seu descontrole.

    O mesmo que envolveu o comportamento de Felipe Scolari, agora, quando numa entrevista a jornalistas afirmou que estava agindo como bem lhe aprouvera culminando a resposta com insultos absolutamente desnecessários e que demonstravam o descontrole que o atingia.

    A direção da CBF evidentemente não esperava o resultado da pesquisa do Fantástico destacada pela Rede Globo como um fator de impacto junto à opinião pública. Pois se contasse levaria em conta que a rejeição do nome somado aos sete a um e aos três a zero  para Holanda, ultrapassa, em mal-estar, aos dez gols sofridos pela Seleção na despedida da Copa deste ano. E verdade que outras competições se aproximam. Mas não se tornam fator capaz de se sobrepor à soma da decepção com a precipitação. A esperança, agora, é uma oportuna revisão.

    Antes tarde do que nunca.

    Datafolha leva Dilma a rever bases estaduais, a partir de São Paulo

    Pedro do Coutto

    A primeira rodada da série de pesquisas a serem realizadas pelo Datafolha em articulação com a Rede Globo, objeto de reportagem de Ricardo Mendonça publicada na Folha de São Paulo, vem acentuar a necessidade de a presidente Dilma Rousseff rever suas alianças estaduais a partir de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, representando vinte por cento dos votos. Em primeiro lugar ficou nítida uma tendência para a realização de segundo turno entre ela e Aécio Neves, portanto uma diferença de 44 a 40 pontos, o que acentua um estreitamento que acrescenta emoção à campanha.

    Estreitamento porque, no primeiro turno, o Datafolha destaca 36% para a atual presidente contra 20 pontos atribuídos ao senador Aécio Neves e apenas 8 para Eduardo Campos. Uma diferença de 16 degraus da primeira para a segunda colocação. Essa diferença, na simulação de tendências, cai para somente 4 pontos. Logo, enquanto ela avança oito escalas, passando de 36 para 44, Aécio Nevers salta de 20 para 40%. Exatamente o dobro. Substituído Aécio por Eduardo Campos, Dilma registra 45 sobre 38. Como o ex-governador de Pernambuco está muito mais fraco que Aécio (perde de 20 a 8), proporcionalmente sobe mais do que ele.

    OPOSIÇÃO UNIDA

    O que significa tal processo? Um impulso bastante sensível de as oposições se unirem na hipótese de uma segunda convocação às urnas. Este, portanto, é um fato que deve constituir em preocupação para a presidente no quadro geral. Da mesma forma que reduzir o nível do desemprego no plano social, pois o Datafolha destacou, de forma indireta, ser esta, como é natural, a maior preocupação dos eleitores.

    Além desses aspectos, existe um outro, envolvendo a necessidade de uma revisão das bases estaduais, a partir de São Paulo. Porque em São Paulo, enquanto Geraldo Alckmim alcança 54% das intenções de voto e começou a transferir prestígio para Aécio Neves, Alexandre Padilha, candidato do PT, registra somente 4 pontos e apresenta uma rejeição de 26 contra si. No meio, Paulo Skaf (PMDB) assinala 16 pontos a favor de sua candidatura.

    Assim, Alexandre Padilha revelou-se basicamente inviável, devendo partir dele inclusive a iniciativa de retirar-se da disputa para facilitar a recomposição de Dilma no estado. Sua presença nas urnas impede o crescimento da candidatura presidencial exatamente onde se torna mais importante.

    TRIÂNGULO DAS BERMUDAS

    É preciso levar em conta que São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, somados, significam praticamente a metade do eleitorado brasileiro. Assim, a dificuldade paulista torna-se ameaça à campanha de qualquer candidatura.

    Portanto, as articulações regionais são extremamente importantes, sobretudo em função da proximidade entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, os candidatos que ocupam as posições mais fortes. Vejam só os leitores como são as coisas: embora possa vencer no primeiro turno, a presidente da República vê reduzir-se a margem de sua vantagem se houver seguindo turno. Um dado que precisa ser considerado para o conteúdo, o rumo e o ritmo de sua campanha. Sobretudo porque as engrenagens do poder estão em suas mãos, não nas mãos de Aécio Neves.

     

    Dilma afasta ideia de intervir (ou interferir) na CBF

    Pedro do Coutto
    Reportagem de Andrea Sadi e Valdo Cruz, edição de 17, da Folha de São Paulo revelou que a presidente Dilma Rousseff teria desvinculado o site do ex-ministro Franklin Martins do universo de sua campanha eleitoral por ter rejeitado a ideia de intervir diretamente ou indiretamente num processo de reformulação da CBF para reabilitar o futebol brasileiro dos desastres sofridos na Copa do Mundo contra a Alemanha e Holanda.
    De fato, uma reestruturação se impõe, mas não por iniciativa do governo. A tarefa deve caber a Confederação porque constituiria um equívoco enorme misturar ações políticas com aquelas que devem caber singularmente ao mundo do futebol.
    A presença exposta do poder executivo na matéria só traria ônus ao Planalto, caso a intervenção não funcionasse, e nada acrescentaria na hipótese de sucesso. Pois foi através da CBF e da arte e técnica dos jogadores que, de 58 para 2002, conquistamos o penta campeonato, além de participado de sete finais decisivas. Conquistamos o bicampeonato em 62 e, nem por isso, o presidente João Goulart tornou-se mais popular por causa disso. Levantamos o tri no governo Médici e a vitória não refletiu em nada de positivo para o sistema político militar. O tetra foi alcançado com Itamar Franco no Planalto. Nada mudou. O penta surgiu com Fernando Henrique. Exatamente no ano em que Lula venceu pela primeira vez nas urnas presidenciais.
    Creio que esses exemplos, por si, são suficientes para assinalar enfaticamente uma desvinculação absoluta. Mas não é só. Acima de tudo há o risco de qualquer escolha não agradar o mundo e o pensamento esportivo, como as dúvidas reveladas pela pesquisa inicial do Datafolha demonstraram. Há um leque de preferências quanto aos nomes cogitados e uma pressa da própria CBF em pelo menos equacionar a questão, levando em conta as próximas competições em pauta, entre as quais, principalmente, o título de campeão mundial olímpico de 2016. Várias alternativas foram colocadas por José Maria Marin, entre elas a investidura provisória do ex-goleiro Gilmar, titular das seleções que levantaram o bicampeonato 58-62, na Suécia e no Chile.
    SEGUNDO TURNO
    Todos esses argumentos, de um lado, levaram ao posicionamento menos agressivo por parte da presidente da República. De outro, por qual motivo Dilma Rousseff deveria, no caso CBF, seguir a orientação de choque colocada por Franklin Martins? Em tal hipótese, ela não lideraria o esforço para recuperar a imagem do futebol brasileiro. Pelo contrário: seguiria um roteiro traçado por uma das assessorias. Mas é ela quem disputa a reeleição nas urnas de outubro. Tanto as do primeiro como de um possível segundo turno.
    Sabe-se que Eduardo Campos está concorrendo em 2014 pensando em reeditar sua participação em 2018, daqui a quatro anos. Mas seus votos e mais os 4 pontos atribuídos ao pastor Everaldo podem fazer com que na última semana de outubro, depois dos números registrados no dia 5, Dilma tenha que retornar ao espaço eleitoral tendo Aécio neves como adversário. Isso inclusive dependerá também das disputas no primeiro turno, verificadas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul. E, ia esquecendo, também na Bahia.

    Vexame de 2014 superou tristeza de 1950

    Pedro do Coutto

    A frase título, de meu cunhado e grande amigo Eduardo Martins Pedro, constrói uma síntese comparativa perfeita entre o resultado de ontem, que a distância de 64 anos não apagou, e os vergonhosos sete a um de agora, maior vexame do futebol brasileiro, eternamente incorporado à memória nacional. Nunca, acho eu, nos libertaremos da tragédia de 2014,  venham a nós só fatores de vitórias que vierem através do tempo. A tristeza que envolveu o Brasil em 50 pode ter sido maior do que a que nos atingiu neste julho do século 21, mas o sentimento de vergonha superou o deixado pela derrota no meio do século vinte.

    Há motivos para isso, alguns destacados por minha mulher, relativas à abrangência da comunicação. A final de 1950 foi exatamente no dia 16 de julho. A televisão chegou ao país, primeiro em São Paulo, em agosto. Em setembro, o jornalista Assis Chateubriand inaugurou a TV-Tupi no Rio. O Maracanã estava superlotado, com duzentas mil pessoas nas arquibancadas, na geral que existia na época, nas cadeiras do estádio Mário Filho. Assim, a decisão foi acompanhada através das emissoras de rádio. Claro, a comunicação de 50 não pode ser comparada à proporcionada, agora, pelas emissoras de televisão.

    Praticamente toda a população tornou-se testemunha de nossa fragorosa derrota. Assistindo à sucessão de gols como se fossem imagens editadas em replay. Ocorreram quatro gols alemães em apenas seis minutos. O primeiro tempo acabou com cinco a zero contra nós. Não conseguimos, portanto, nem torcer pela nossa Seleção. O afundamento foi geral.

    Nossa defesa simplesmente não existiu. Quanto tocávamos, raras vezes vale frisar, não retornávamos para as ações defensivas, exatamente ao contrário do que fazia a Alemanha. Havia sempre, pelo menos seis adversários na linha em que a bola se encontrava. Não tínhamos velocidade alguma. Foram para dentro da meta de Júlio César desferidos cara a cara pelos alemães. Não poderíamos ter sido piores. Entretanto, dias depois repetimos nosso vergonhoso desempenho contra a Holanda. Aos inéditos sete a um adicionamos frios três a zero. Fomos péssimos.

    INACREDITÁVEL

    Quase inacreditável termos perdido por 7 a 1 no Mineirão, jogando em uma de nossas sedes com a torcida quase toda a favor. Não há exemplo, em Copas do Mundo, de tragédia semelhante. Na realidade, perdemos as duas partidas de encerramento levando dez gols e marcando apenas um. No futebol moderno, inclusive as goleadas tornam-se mais difíceis sobretudo em função de as equipes moverem-se mais rapidamente e terem incorporado, não nós, uma preocupação defensiva tão intensa como a ofensiva. Os times avançam compactamente e recuam de forma igualmente compacta.

    Falar sobre a clamorosa derrota, nesta altura dos acontecimentos, é falar sobre o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Mas é importante acentuar o sentimento de vergonha que está nos alcançando, do qual não conseguiremos nos livrar com facilidade. Sobretudo porque o vexame a que todos nós fomos expostos chega até a superar a tristeza de 1950. No passado, houve uma derrota por dois a um. Agora, fomos marcados pelo emblema dos sete a um. Não será fácil esquecer.

     

    Datafolha: sucesso na organização, desastre no gramado

    Pedro do Coutto

    Oportuna pesquisa realizada pelo Datafolha, cujo resultado foi publicado ontem em manchete principal da Folha de São Paulo, apontou o pleno êxito  alcançado pelo Brasil em matéria de organização da Copa do Mundo, aprovada por nada menos que 83% dos estrangeiros que aqui estiveram acompanhando os jogos. Foi ótima a iniciativa de pesquisar a opinião dos que vieram como turistas e, nessa condição exigentes em matéria até de detalhes.

    Nosso país revelou-se capaz de realizar de forma eficiente e prática  o evento que reúne em torno de si número enorme de pessoas, de várias origens e níveis de renda e cultura. A maciça aprovação obtida foi inquestionável e nos colocou no mapa das principais nações no que se refere à capacidade de organizar eventos de forma a satisfazer a quase todos. O índice alcançado pelo Brasil, creio, tornou-se um recorde mundial de aceitação. Um milagre, uma surpresa.

    Mas se isso se verificou no plano administrativo, com os aviões chegando e decolando no horário, e uma hospitalidade, o inverso ocorria nos gramados. Se o Datafolha efetuar uma pesquisa para medir a reação popular ao desempenho do nosso futebol, tenho a certeza que a taxa de reprovação passará fácil da escala de 90%. O futebol praticado em campo tornou-se largamente decepcionante e medir o grau de decepção pode se tornar o ponto de partida para uma reformulação profunda nos métodos de ação, incluindo a adoção de novo sistema operacional que leve em conta a essência do esporte que parte da base repousando no conjunto.

    MOVIMENTAÇÃO
    Como foi acentuado pelo desempenho da Alemanha, equipes movimentando-se sem cessar, sempre com a presença mínima de quatro jogadores cada seleção onde se encontrava a bola. Havia assim sempre espaço ocupado envolvendo as disputas que se multiplicavam gramado a dentro. Era difícil jogar, sobretudo encontrar o caminho do gol, objetivo final e supremo do futebol. Tanto assim que por apenas um gol se vence, portanto por um gol também se perde. Exatamente o que aconteceu com Alemanha um a zero na segunda parte da prorrogação. Os dois times estavam atleticamente preparados para o exaustivo confronto: em vez de 90, 120 minutos disputados palmo a palmo.
    O Datafolha prestará um serviço importante ao esporte brasileiro de modo geral e à CBF em particular, se divulgar o grau de rejeição quanto ao nosso desempenho, colocando em exposição as principais deficiências e contradições verificadas pela opinião pública. Em primeiro lugar, acredito o processo de endeusamento do técnico Felipão e do analista Carlos Alberto Parreira, que, à primeira vista, colocaram-se acima, não só da linha da bola, mas da linha em que deveria situar-se a própria Seleção Brasileira.
    Ocorreu exatamente o contrário: nunca um selecionado sofreu derrota igual: cinco a zero só no primeiro tempo, sete a um no final, quatro gols seguidos no espaço de apenas 6 minutos. Não fomos capazes de organizar ações defensivas dentro de campo e não numa partida só. Depois de sete a um, repetimos o modo desastroso de atuar e não vimos também a cor da bola contra a Holanda: três a zero perdemos com praticamente a mesma facilidade. Nosso adversário era outro. Mas nós éramos o mesmo time apático, sem vibração. Precisamos mudar de estilo e sistema. Senão não nos libertaremos do passado recente. Temos que ressurgir das cinzas. A partir de que ponto?

    Desastre da seleção foi tanto técnico quanto tático

    Pedro do Coutto

    Se alguém, apesar das evidências, tivesse alguma dúvida se o desastre da Seleção Brasileira na Copa do Mundo foi mais técnico do que tático, ou se foi mais tático do que técnico, ao assistir a final entre Alemanha e Argentina verificaria que foi duplo e total, nada sobrou  em matéria de preservar qualquer parte do episódio capaz de acrescentar algo à memória esportiva do futebol brasileiro.

    Tudo afundou no desenrolar das partidas contra a Alemanha e Holanda. Sofremos dez gols nas duas partidas, a impressão que a transmissão pela Rede Globo proporcionava esra que se tratava de uma repetição de imagens – não uma sequência de lances. A vulnerabilidade da equipe era total. O time não corria em campo, não recuava quando era atacado. Jogou sem a menor compactação.

    Compactas foram as equipes da Alemanha e da Argentina. Tanto assim que foram poucas as oportunidades de gol. Alemães e argentinos avançavam e recuavam sem parar, suas presenças constantes nos ataques, sem prejuízo das ações defensivas. As seleções estavam sempre compactadas na linha da bola, estivesse esta no território alemão, permanecesse no universo argentino. Isso somente tornou-se possível em face da movimentação permanente dos jogadores em ambos os espaços. Para isso tiveram que correr sem parar. Exatamente o que o escrete brasileiro não fez. Movimentou-se pouco, correu menos ainda.

    GOLS CARA A CARA

    Daí o fato de, só no primeiro tempo, terem sofrido cinco gols cujos chutes de arremate foram desfechados praticamente cara a cara diante do goleiro Júlio Cesar. Cinco a zero, já por si definia o desfecho da partida. Impossível qualquer reação. Os alemães provavelmente se espantaram com tanta facilidade. E adormeceram a partida. Mesmo assim ainda fizeram mais dois gols chegando a espantoso sete a zero.

    Somente nesta ocasião, saímos do zero. Mas o que significava um tento no marcador, se nosso desempenho estava abaixo de zero em matéria de arte, técnica e tática.

    E não conseguimos nos afastar desse plano incompatível com a tradição do futebol brasileiro. Tanto não conseguimos retornar à tona que o selecionado repetiu contra a Holanda o péssimo desempenho frente à Alemanha. Três a zero com outra série de chutes desfechados contra o goleiro sem o menor bloqueio que caracteriza as disputas acirradas.

    Foi uma tragédia, como escrevi dia 11, tragédia completa para o futebol do país. Motivo de orgulho  através do tempo, foi relegado ao desprezo pela omissão completa que regeu nossa atuação, dupla atuação: contra a Alemanha, contra a Holanda. Dificilmente poderemos a curto  prazo reagir ao desmoronamento que sofremos. Felipão já saiu. Esperemos o novo treinador – é o que nos resta de esperança.

    Tragédia de 2014 é cem vezes maior que o desastre de 1950

     

    Pedro do Coutto
    Assisti a final de 50 nas arquibancadas do Maracanã, Estádio Mario Filho, e a semifinal deste ano pela tela da Rede Globo, e posso afirmar, com base nos fatos e nas épocas, que a tragédia de 2014, que ficará para sempre marcada de forma indelével na história do futebol, é cem vezes (para não dizer mil vezes) maior. Se já era difícil traduzir a vitória do Uruguai, uma afirmação da tática sobre a técnica e sobre a arte, os 7 a 1 impostos pela Alemanha à Seleção Brasileira não pode encontrar a menor explicação lógica.
    Nunca se presenciou nos estádios do mundo o que aconteceu no Mineirão. Nosso escrete foi tomado por uma paralisia total completamente absurda. Basta dizer (outro recorde que ficará para sempre) que os alemães fizeram quatro gols seguidos no espaço de tempo de somente seis minutos. Era buscar a bola no fundo das redes, colocá-la no centro do gramado, dar a saída, perder o seu domínio e ver o placar acrescentar mais um tento alemão.
    Com a torcida perplexa, surpresas passaram a ficar também os alemães com tanta facilidade. Um afrouxamento geral envolveu o time brasileiro. A própria torcida, maior testemunho da perplexidade, é claro, deixou de torcer. A vibração foi sufocada pela anestesia, pelo entorpecimento, por uma estranha sensação do irreal. Impossível torcer: o primeiro tempo – fato inédito em semifinais de Copa do Mundo – acabou com a contagem de cinco a zero no placar. Impossível torcer. Só se pode torcer quando existe alguma possibilidade de mudar o rumo e a face do confronto. Nada mudou. A Alemanha marcou mais dois gols. Só então saímos do zero. Em nossa história esportiva, sem dúvida, foi a maior derrota da Seleção Brasileira.
    SEM EXPLICAÇÃO
    Não podemos encontrar explicação. Pois se nem Filipão, tampouco Parreira, conseguiram apresentar algum argumento convincente, não seríamos nós a achá-lo, uma agulha perdida num palheiro, em meio a contradições indecifráveis. Não vínhamos atuando bem na Copa, os resultados demonstravam, mas não tivemos a humildade para aceitar essa face da realidade e prosseguimos investidos da certeza da vitória. Provavelmente aqui reside o maior equívoco de 2014. Nos julgávamos com as mãos erguendo, acariciando, expondo a Taça, como se fôssemos seus donos.
    Em 50, perdemos para a tática uruguaia liderada brilhantemente por Obdulio Varela, por um cruzamento de Ghiggia nos pés de Schiafino, que empatou a partida, e no chute do próprio extrema-direita que selou o destino do confronto separando a vitória do Uruguai de nossa derrota. Sessenta e quatro anos se passaram, mas desta vez tantos foram nossos erros, tantos gols  sofremos, que multiplicarmos o que o palco do Mineirão testemunhou pelas nossas vacilações, erros, incapacidades paralisantes, atingiremos um montante absurdo de situações negativas, de dúvidas hamletianas inadmissíveis em matéria de competições esportivas.
    Na verdade, o drama maior é não nos revelarmos preparados para o combate difícil. Sonhávamos com a vitória e somente com ela. Não nos preparamos para uma dificuldade maior, além do normal. Quando ela nos surpreendeu, para um desastre nosso também nos paralisou na proporção de sete para um. A derrota de terça-feira nos atingiu e feriu para sempre. De forma tão profunda que 64 anos depois, sepultou a de 1950. Os dois a um de 16 de julho parecem nada perto dos sete a um de agora. Um desastre completo.