Urna eletrônica, um enigma por falta de divulgação e treinamento

Pedro do Coutto

Em artigo publicado na edição de sábado 27 da Folha de São Paulo, Mauro Paulino, diretor geral do Datafolha, e o diretor do Instituto, Alessandro Janoni, focalizaram objetivamente as prováveis dificuldades que os eleitores deverão enfrentar para escolher no teclado os números de seus candidatos nas urnas do próximo domingo. Na pesquisa que divulgou sobre as eleições presidenciais, na noite de sexta-feira, o Datafolha testou também se os entrevistados estavam aptos a utilizar as teclas do sistema eleitoral. A eles foram apresentados tabletes semelhantes às urnas eletrônicas.
Vejam só: parcela bastante elevada erraram e os erros apresentaram surpresas. Por exemplo, 57% dos que manifestaram intenção de votar em Dilma Rousseff acertaram, enquanto 43% se equivocaram. Dos que pretendem votar em Aécio Neves, 45% acertaram. A maioria portanto, errou. Finalmente dos que anunciaram voto em Marina Silva, somente 37% acertaram. O erro, no  caso da ex-senadora, alcançou nada menos que a parcela de 63%.
FOI UMA SURPRESA…
Falei em surpresa. Pois é. Em primeiro lugar porque as perspectivas de engano na utilização das teclas coloridas não coincidem com o resultado geral do levantamento sobre intenções de voto. Estas apontaram 40 para Dilma,27 para Marina e 18 pontos para Aécio Neves.
Em segundo lugar em face de Marina Silva encontrar-se fraca nos segmentos de renda baixa e forte nos grupos de renda mais elevada. Aécio Neves enquadra-se neste mesmo panorama. Era de esperar que os erros fossem cometidos em maior escala pelos integrantes das faixas de menor escolaridade. Não aconteceu isso.
Como explicar tal fenômeno? Difícil. Mas pode se atribuir a uma falta de divulgação do processo tanto pelos partidos políticos, principalmente eles, quanto pelo Tribunal Superior Eleitoral. As legendas , inclusive, tinham até mais condições de promoverem treinamentos práticos utilizando as numerações de seus candidatos. Porque deixaram passar a oportunidade?
Somente a partir do último domingo é que o PSB passou a veicular inserções com o número de Marina Silva. É possível que, a partir de agora, os demais partidos adotem o método. Ainda há tempo, pouco mas há. O horário eleitoral termina na quinta-feira. Os debates se encerram na sexta, com o debate entre os candidatos à presidência da República, na Rede Globo, na qual a audiência é sempre muito alta.
O voto eletrônico, neste primeiro turno, tem a sua complexidade, acrescento eu. Basta dizer que o eleitorado terá de dar cinco votos, nessa ordem: Primeiro para deputado estadual acionando 5 algarismos; segundo para deputado federal com quatro algarismos; terceiro para senador teclando três algarismos; quarto tocando dois algarismos para votar no candidato a governador. Quinto e último acionando novamente dois algarismos para Presidente da República. Em todos os casos, depois de tocar as teclas com os números correspondentes, os eleitores têm que acionar a tecla existente destinada à confirmação de cada voto.
Voltando ao texto de Mauro Paulino e Alessandro Janoni, os dirigentes do Datafolha sustentam que as mudanças mais intensas nas intenções de voto ocorrem no Nordeste, região mais atingida pelos programas sociais do governo, especialmente o bolsa família.

    CNJ revela: Judiciário tem 95 milhões de processos para julgar

    Pedro do Coutto

    O Conselho Nacional de Justiça revelou – reportagem de Severino Mota, Folha de São Paulo do dia 24 – que existem nada menos de 95,1 milhões de processos no Poder Judiciário, em todos os níveis, aguardando julgamento. Desse total, a parcela de 66,8 milhões estavam acumulados de anos anteriores, enquanto 28,3 milhões deram entrada ao longo de 2013. O patamar de novas ações parece ser uma constante judicial brasileira. Tanto assim que no ano passado, os julgamentos atingiram 27,7 milhões de ações. Verificou-se assim um déficit de 0,9% entre os ingressos e as matérias julgadas, acentua Severino Mota.
    Quarenta e um por cento dos processos em tramitação referem-se a execuções fiscais, débitos constituídos com o não pagamento de IPVA, IPTU e ICMS principalmente. Ações que seriam evitadas com a simples observação das respectivas obrigações legais. Mas não. Além do mais prolifera e predomina a burocracia, como todos sabem.
    O CNJ informa que é estreita a margem das matérias julgadas em todas as instâncias e o surgimento anual de novos processos. Mas esta comparação a meu ver não é de todo suficiente. Isso porque existem os recursos, muito utilizados na legislação de nosso país. Dessa forma não se pode ter certeza que o simples fato de um julgamento ter acontecido encere uma demanda em curso. Um processo, na escala de  recurso, em alguns casos pode se transformar em três procedimentos à espera de uma decisão final.
    CASO MALUF
    Veja-se, por exemplo, o caso da candidatura a deputado federal do ex-prefeito Paulo Maluf. O registro foi negado na primeira instância, ele recorreu ao TRE de São Paulo, foi novamente derrotado. Recorreu ao TSE, onde perdeu por 4 votos a 3. Agora, provavelmente, vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal. O exemplo de Maluf está longe de ser isolado.
    Juntem-se ao cipoal jurídico as ações de inconstitucionalidade. São em grande número. E as sentenças, não só de inconstitucionalidade como a que se refere ao bloqueio dos saldos de poupança pelo governo Collor, não apresentam conteúdo concreto. Os tribunais declaram uma questão desse tipo como ilegítimas, mas não estende seu texto aos valores contestados. Assim, reconhece-se o direito, porém os efeitos desse reconhecimento vão depender de cálculos demoradíssimos, objetos de contestações de efeito protelatório.
    E O INSS?
    Assim sucede também com aproximadamente um milhão de ações envolvendo o INSS. Aposentados e pensionistas saem vitoriosos depois de percorrerem as diversas instâncias. O processo de Kafka terminou? Longe disso. Aí então é que começam os debates sobre o valor dos cálculos, verdadeira odisséia. Uma tragédia.
    Outro dia mesmo, os jornais publicaram a existência de uma questão ajuizada há 17 anos ainda à espera de julgamento. E as contestações? Centenas de milhares envolvendo principalmente casos de herança. Há, em meio a tudo, divergências familiares complexas abrangendo as mais diversas questões. Entre ela as de reconhecimento de paternidade e direito de pensão. Enfim, uma teia complicada, um emaranhado de situações.
    Exatamente com base em tal complexidade e multiplicidade de enfoques e de ângulos, é que admito a hipótese de que as 27,7 milhões de sentenças proferidas no ano passado, pelo menos numa escala de 50%, não tenham encerrado as controvérsias ajuizadas. E sim que tenham dado margem a recursos que se transformam em ações adicionais não contabilizadas pelo CNJ. Uma dúvida que Severino Mota talvez possa esclarecer para os leitores.

    Remessas ilegais de dinheiro: como bloquear os caminhos?

    Pedro do Coutto
    Lucas Pace Junior, mais um envolvido na Operação Lava Jato, segundo reportagem de Cleide Carvalho, edição de 18 de O Globo, propôs, em depoimento à Polícia Federal, um esquema de delação premiada, revelando os nomes dos doleiros e empresas corretoras que faziam (ou continuam fazendo) remessas ilegais de dinheiro para o exterior. Pace assinala que doleiros usaram corretoras para executar as operações. Cita uma empresa que teria efetivado remessas no montante de 28 milhões de reais, através do esquema de Alberto Yousseff com o envolvimento do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa.
    Trata-se basicamente da compra de dólares no mercado de câmbio, com as corretoras recebendo comissão de 0,2% sobre o total das operações. A delação premiada de Lucas Pace Junior depende de sua aceitação pela Procuradoria Geral da República. Quem operava as remessas montava também empresas de fachada, recorrendo a companhias desativadas mas com cadastro ainda ativo na Junta Comercial. Os valores eram repassados a laranjas, ressaltou. Pace Júnior destacou que apenas uma empresa do esquema movimentava entre 600 mil e 1 milhão de reais por dia. O dinheiro entrava na conta da empresa de manhã e a operação de câmbio era fechada no mesmo dia à tarde.
    TRANSFERÊNCIAS BANCÁRIAS
    A reportagem inclui também declarações do funcionário do Banco do Brasil, Rinaldo Gonçalves Carvalho, que afirmou que normalmente as operações entre empresas eram feitas por  intermédio de transferências bancárias. As movimentações em dólar eram realizadas para pagamento de importações fictícias. As remessas seguiam, como se vê, várias e diferentes escalas. Assunto, creio, para o Banco Central e a Receita da União. O tema foi parar na esfera da Polícia Federal.
    Não é tarefa difícil calcular-se, aproximadamente, o prejuízo causado à economia brasileira pelas remessas ilegais de dinheiro dolarizado para cobrir importações fictícias. As investigações da Polícia Federal – acentua Cleide Carvalho – se estenderam por mais de dois anos. Se o movimento de uma empresa variava de 600 mil a 1 milhão de reais por dia, multiplique-se tal valor por várias delas durante os últimos anos. Vamos atingir um total enorme. Tudo isso seria impedido se houvesse uma efetiva fiscalização sobre movimentos financeiros repetidos e suspeitos de não possuírem conteúdo legal que os legitimassem.
    Onde se colocavam o Imposto de Renda, o Imposto Sobre Operações Financeiras, os tributos que recaem sobre as importações e as exportações? Não poderia ser um mistério insondável para os técnicos em matéria financeira e para os especialistas em comércio internacional o que de verdadeiro se ocultava sobre a sombra de operações ilícitas através de empresas de fachada. Acionados, Banco Central e Receita Federal tornariam evidentes e transparentes os negócios urdidos pela manhã e à tarde, sobretudo levando-se em conta sobretudo a frequência com que eram praticados.
    A percepção sobre o ilícito, produto da prática de cada especialista, iluminaria certamente o verdadeiro palco das transações e estancaria, de imediato, um sistema que prejudicou tanto o mercado de câmbio quanto a própria economia brasileira. A reportagem de O Globo expôs o cenário e até vários personagens da trama. Seus nomes encontram-se na edição do jornal.

    Datafolha: Dilma sobe; Marina desce; Aécio avança um ponto

    Pedro do Coutto
    Este título, a meu ver, destaca o aspecto mais importante da pesquisa do Datafolha divulgada na noite de sexta-feira pela Globo News, e também pelas Redes Globo e Record, e no dia seguinte, ontem, sábado focalizado nas reportagens de Renato Onofre e Isabel Braga, no Globo e na de Ricardo Mendonça na Folha de São Paulo. Dilma Rousseff avançou, no espaço de uma semana de 37 para 40 pontos. Marina Silva recuou de 30 para 27. Aécio Neves passou de 17 para 18.
    Pela primeira vez numa projeção para o segundo turno, se as intenções de voto fossem hoje pela primeira vez, a presidente da República supera a ex-ministra do Meio Ambiente pela margem de 47 a 43%. O Datafolha calcula que a parcela de 13% agrupa os indecisos e aqueles que vão votar branco ou anular o voto. Assim 87% do eleitorado passam a ser iguais a 100. Neste quadro, reunindo os votos válidos, para as urnas do próximo domingo Dilma teria 45 contra 31 de Marina e 21 pontos de Aécio.
    A projeção do Datafolha é importante sobretudo porque assinala que a parcela dos indecisos vem se reduzindo de semana a semana e assim, tudo leva a crer que o duelo final, a 26 de outubro, será travado entre Dilma e Marina, pois dificilmente nos sete dias finais  da campanha, salvo uma surpresa muito grande , o ex-governador de Minas poderá superar Marina na luta pela segunda colocação. Reflexo importante do resultado do primeiro turno vai se registrar nas articulações políticas em torno do segundo. As tendências mostradas somam mais para Dilma Rousseff, consequência de sua liderança nas classes de menor renda  e escolaridade.
    Aliás na sequência deste artigo, mas com base em pesquisa do IBOPE que se encontra no Portal G1, da Rede Globo o tema relativo à divisão por classes e faixas de idade é bem destacado no contexto total do levantamento. Este assunto está na sequência que forma a terceira etapa deste artigo.
    VIÚVA DE CAMPOS GRAVA APOIO A MARINA
    O repórter Sérgio Roxo, O Globo edição de 26, revelou que a viúva do governador Eduardo Campos, Renata, gravou mensagem de apoio à candidatura de Marina Silva a ser divulgada no horário eleitoral, a critério da direção do PSB, nos últimos dias da campanha pelo primeiro turno. Essa matéria ganhou importância acima do que seria normal porque, na véspera, quinta à tarde O Globo on line divulgou que a ausência de um pronunciamento por parte de Renata Campos em favor de Marina estava dando margem a especulações de efeito negativo à ex-senadora na disputa eleitoral de domingo 5 de outubro.
    Inclusive porque, de acordo com pesquisa do Ibope divulgada na própria sexta-feira, em Pernambuco a disputa entre Dilma e Marina encontra-se super apertada. A atual presidente registra 39 pontos, enquanto Marina 38%. Um ponto abaixo, portanto. E Eduardo Campos, morto em acidente aéreo no dia 13 de agosto, era governador exatamente de Pernambuco, estado em que se trava disputa pelo executivo estadual entre candidatos do PSB e PTB, que apoia Dilma. Vale assinalar que uma derrota de Marina em  Pernambuco, no primeiro turno, pode produzir reflexos nas urnas de 26 de outubro, turno final.
    Na mensagem – acentua Sérgio Roxo – Renata Campos afirma que uma vitória de Marina será um passo adiante para o Brasil. Ela será capaz, por sua história de vida, de fazer o país avançar mais nas conquistas sociais.
    A pesquisa do Ibope, publicada pelo Portal G1, é bastante ampla, focalizando a força das duas principais candidatas por classes sociais de renda, por nível de escolaridade, por religião, por renda familiar, por região do país e por faixa de idade. Neste campo, Marina lidera junto aos jovens de até 24 anos, enquanto Dilma Rousseff assume a dianteira a partir dos 25. Daí em diante, à medida em que as pessoas têm mais idade, ela amplia a vantagem. Principalmente junto aos que têm mais de 55: alcança 47% contra 32 de Marina e apenas 17 de Aécio Neves.
    Nos três maiores colégios eleitorais do país, para o Ibope, o panorama é o seguinte: em São Paulo, Marina vence por 32 a 25; em Minas Gerais, Dilma lidera com 32 contra 20 de Marina. Aécio é o terceiro em São Paulo com 19 e o segundo em Minas com 31 pontos. No Rio de Janeiro, a disputa está apertada: Dilma 34, Marina 32%, Aécio 13. Em Pernambuco, Dilma tem 39 pontos contra 38 de Marina e somente 4 de Aécio. Finalmente no Rio Grande do Sul, embora o governador Tarso Genro esteja atrás de Ana Amélia, por 37 a 30, Dilma lidera com 42 pontos contra 21 de Marina e 20% de Aécio Neves. Com base nos índices que se encontram no portal da Rede Globo em mapas coloridos, o Ibope chegou à média nacional apontando 38 pontos para Dilma Rousseff, 29 para Marina e 19% para Aécio Neves. Indicam assim que o desfecho dar-se-á no segundo turno, nas urnas de 26 de outubro.
    De outro lado, pesquisa do Datafolha, objeto de reportagem de Diógenes Campanha e Patrícia Brito, na Folha de São Paulo também d 26, assinala que em nove estados as eleições para governador devem ser decididas no primeiro turno: Renan Filho de Alagoas; Paulo Hartung no Espírito Santo; Flávio Dino no Maranhão; Fernando Pimentel em Minas, Welington Dias no Piauí; Raimundo Colombo em Santa Catarina; Geraldo Alckmin em São Paulo  e Marcelo Miranda em Tocantins. Vamos conferir.

     No RJ desfecho deve ser entre Pezão e Garotinho

    Pedro do Coutto
    Relativamente ao governo do Estado do Rio de Janeiro, reportagem de Juliana Castro e Rafael Kapa, O Globo edição de quarta-feira 24, o desfecho final dar-se-á nas urnas do segundo turno, entre Luiz Fernando Pezão e Anthony Garotinho. O atual governador avançou quatro pontos no espaço de uma semana, atingindo 29% das intenções de voto. O ex-governador manteve-se estável na casa de 26%.
    Marcelo Crivela tem 17 pontos, índice que parece ser o seu teto, pois, de acordo com o Ibope, ao longo de dois meses seguidos de campanha e de pesquisas, dele nunca se afastou: nem subiu nem desceu. O primeiro turno, no próximo dia 5, não apresenta sintomas voltados para outra alternativa. Lindberg Farias, apesar do apoio de Lula, recuou de 9 para 8 pontos. A participação do ex-presidente, no que se refere ao RJ, não vem funcionando, como as estatísticas revelam.
    TERCEIRO COLÉGIO ELEITORAL
    As eleições no Rio de Janeiro são bastante importantes, principalmente porque reúnem um eleitorado de 10 milhões de pessoas, terceiro maior colégio de votos do país. O segundo turno estadual vai coincidir com o segundo turno federal a ser decidido entre as candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva. Como será que vão se alinhar em relação ao Planalto, os dois candidatos ao Palácio Guanabara? Eis aí uma pergunta interessante. Uma vez que, com base no comportamento de Pezão e Garotinho, existe a possibilidade (não impossível) de ambos formarem com Dilma Rousseff, uma vez que, até o momento, Garotinho manifestou-se abertamente em favor da atual presidente, enquanto Pezão, depois de lançar o Aezão, participou de um encontro com Dilma e prefeitos fluminenses, mas não fez qualquer gesto no sentido de Marina. Poderá até vir a fazer, porém tal possibilidade não apaga a importância da  pergunta.
    Aliás, em matéria de indignações referentes ao comportamento nacional de candidatos a governos estaduais, perspectivas não faltam. Por exemplo: Geraldo Alckmin é franco favorito a vencer o pleito em São Paulo, ainda no primeiro turno. Quem ele escolherá entre Dilma e Marina no segundo, uma vez que o candidato de seu partido, o PSDB, estará fora das urnas de 26 de outubro? Importante São Paulo, maior colégio eleitoral do país. Em Minas Gerais, segundo reduto de votos, o candidato favorito ao Palácio da Liberdade, Fernando Pimentel, pertence aos quadros do PT.
    E NO PARANÁ?
    No Paraná, o PT, com Gleisi Hofman, está fora  do turno final. O governador Beto Richa está bem na frente. É do PSDB: ficará com Marina ou Dilma? Ou ficará neutro? São situações de grande importância que, aparentemente, estão sendo minimizadas. O segundo turno envolvendo o Palácio Alvorada e diversos executivos dos estados vai se tornar cenário de intensas articulações visando ao fechamento de acordos que provavelmente se tornam naturalmente decisivos tanto nas esferas estaduais quanto no palco nacional.
    Para se acrescentar a este artigo um panorama cujo reflexo pode ser bem grande no plano federal, vamos citar a sucessão para o governo de Pernambuco. Pesquisa do Ibope, publicada também na edição de O Globo de quarta-feira, prevê um arremate difícil entre Paulo Câmara, do PSB de Marina, com 39%, e Armando Monteiro do PTB, mas que apoia a presidente, com 35 pontos. A diferença de 4 degraus na reta de chegada, é significativa. Mas o fato é que, numa semana, a diferença diminuiu de 6 para 4%. Vai se ampliar? Vai se reduzir? Vai ficar como está? Haverá ou não segundo turno? Vamos esperar a resposta da realidade.

     

    Cony vai ao passado: renúncia de Jânio abriu a crise que desafia o tempo

    Pedro do Coutto
    Foi efetivamente emocionante o artigo de Carlos Heitor Cony, Folha de São Paulo de 23, recorrendo ao passado (lá se vão 53 anos), e identificando na alucinada renúncia do presidente Jânio Quadros, 25 de agosto de 61, a origem de uma crise realmente institucional que atravessa o tempo e que, de fato, perdura até hoje. O episódio, a meu ver, é de importância fundamental, na medida sobretudo que surgiu da tentativa de um golpe de estado, o qual viria concretizar-se três anos depois com a derrubada do governo João Goulart e a implantação de vários períodos de uma ditadura militar que somente acabou em 85, vinte e quatro anos depois, portanto.
    Jânio Quadros fora eleito em outubro de 60 para um mandato de cinco anos, sem reeleição, sucedendo a Juscelino  Kubitschek. Insatisfeito com a rejeição pelo Congresso de iniciativa sua de importância menor, encontrou o pretexto para fazer explodir a crise, aproveitando-se da ausência de seu vice, Jango, então em visita oficial de seu governo a China, então comunista. Hoje, segundo PIB mundial, Pequim é a capital de uma nação que se tornou semicapitalista e agrupa em seus quadros econômicos vários dos homens mais ricos do universo. Mas esta é outra questão.
    O fato dominante é que enquanto no governo JK o povo brasileiro estava motivado pelo vento do desenvolvimento econômico, motivação construtiva, hoje o país é movido por vontades do contra alguma coisa, ao invés do desejo de ser a favor de algo. A renúncia de Jânio Quadros abriu uma crise que perdura porque o povo brasileiro depois do trágico gesto não encontrou outro denominador comum, capaz de unir a psicologia coletiva ao crescimento econômico. Foram décadas de achatamento salarial e de até o confisco inflacionário dos saldos populares das Cadernetas de Poupança, como aconteceu em 90, governo Fernando Collor.
    IMPASSE POLÍTICO
    Até hoje, vinte e quatro anos depois, as perdas não foram devolvidas aos que as sofreram diretamente. Pelo contrário. Àquelas acrescentaram-se outras. O impasse político institucional permanece. Por isso, sem dúvida, os eleitores brasileiros vão às urnas, porém sem o entusiasmo de antigamente. Posso afirmar isso como testemunha de várias disputas eleitorais com diferentes resultados. Mas nenhuma delas forneceu a saída aguardada, a rota para uma etapa duradoura de progresso econômico e social. Setenta e nove por cento de nossa população, como revelou recentemente o Datafolha, ganham até 5 salários mínimos. A parcela de nada menos de 27% é formada pelo extrato dos considerados excluídos socialmente.
    Na mesma edição do texto magistral de Cony, a FSP publicou artigo muito importante, de Eliane Cantanhede destacando o anestesiamento decorrente da cooptação de entidades como a UNE, cuja voz não mais se escuta, o MST, a CUT, todos conduzidos ao que a repórter classifica como “silêncio ensurdecedor”. De fato, um silêncio que incomoda, imobiliza forças sociais represadas np conformismo, adormecidas à sombra do poder. Uma cortina que separa a realidade da fantasia. E faz o inconformismo aliar-se ao conformismo.
    Forças vitalizantes do processo brasileiro passaram a, se não renegar, esquecer seu passado recente baseado no reformismo. E esse impulso é de expressão essencial para, pelo menos, modernizar o Brasil e libertá-lo da crise aberta por Jânio Quadros em 61. Afinal de contas, já se passaram 53 anoas. Mais de meio século. O tempo passou na janela, como na canção de Chico Buarque.

    Discurso na ONU teve repercussão altamente negativa

    Pedro do Coutto
    Foi, sem dúvida, fortemente negativa a reação, nas classes de renda mais elevada, diante do discurso com que a presidente Dilma Rousseff abriu a sessão da ONU de 2014. Pelo fato de o primeiro secretário-geral da Organização das Nações, em 1947, ter sido o brasileiro Osvaldo Aranha, tradicionalmente cabe ao Brasil iniciar os trabalhos anuais da instituição.
    A repercussão foi negativa em reflexo principalmente adois pontos, o segundo mais forte que o primeiro. Inicialmente, em face de a presidente ter destacado realizações de seu governo e não ter se referido ao contexto internacional, principal foco dos debates. Em segundo lugar, pelo fato de haver condenado a ação liderada pelos Estados Unidos contra o movimento jihadista, que espalha o terror em escala crescente e exibe cenas de crimes hediondos de decapitação de inocentes. Detalhe: o discurso de quarta-feira coincidiu com mais um desses covardes e sórdidos episódios.
    Vamos aguardar as próximas pesquisas para ver se a rejeição afetou os índices alcançados pela atual presidente em relação ao primeiro turno, urnas de 5 de outubro próximo.

    Brancos e nulos vão decidir segundo turno entre Dilma e Marina

    Pedro do Coutto
    A capacidade que as duas principais candidatas tiverem no segundo turno para arrebatar para si os eleitores hoje dispostos a anular o voto ou votar em branco deve se constituir no fator essencial capaz de definir qual será a candidata vitoriosa nas urnas de 26 de outubro. Se Dilma Rousseff ou Marina Silva.
    Reportagem de Valdo Cruz e Ranier Bragon, publicada na Folha de São Paulo edição de 22, indica esse rumo, analisando-se objetivamente os números de pesquisa do Datafolha nos quais se basearam. Também na segunda-feira passada, a FSP publicou importante entrevista que Natuza Nery e Marina Dias realizaram com João Paulo Capobianco, apresentado como o principal assessor de Marina Silva, a respeito da estrutura política de  um seu possível governo. Mas vamos por etapas.
    Valdo Cruz e Ranier Bragon basearam-se nos números da mais recente pesquisa do Datafolha, publicada sexta-feira, e na projeção sobre qual seria, no turno final, o destino dos votos de Aécio Neves no confronto marcado para o próximo dia 5. Vamos recapitular os dados básicos para que as projeções fiquem nitidamente expostas. O Datafolha apontou 37 para Dilma, 30 para Marina, 17% das intenções de voto para Aécio Neves. A pergunta então teve base na hipótese até agora mais viável: como se dividiria a votação de Aécio no segundo turno?
    DIVISÃO DOS VOTOS DE AÉCIO
    O Datafolha acentua que 59% (dos 17%) iriam para Marina Silva e que 22% rumariam para Dilma Rousseff. A fração de 19% (dos 17 pontos) tende a votar em branco ou anular o voto, evidentemente caso o candidato não se classifique para a final. No momento são 13% os que têm intenção de anular ou votar branco. Vale acentuar que os demais oito concorrentes, em seu conjunto, somam apenas 3%.
    Com base na projeção das transferências, o panorama tornar-se-ia o seguinte: 1) Dilma Rousseff acrescentaria 3,5 pontos aos 37  que hoje alcança, passando assim a 40,5%. 2) Marina Silva acrescentaria 10,5 pontos aos 30 que atualmente alcança, atingindo também, creio  eu, a mesma percentagem de 40,5. Os nulos e brancos, hoje registrando 13%, somando-se 3,3 (19% de 17), se traduziriam em torno de 16%. Dentro deste esquema, sujeito a mudanças na arrancada final, o empate seria decidido pela capacidade que Dilma Rousseff e Marina tiverem de penetrar mais fortemente nos eleitores indecisos e também junto àqueles ainda não motivados por qualquer das duas alternativas restantes. Vamos aguardar para ver.
    Passando ao segundo tema, entrevista de João Paulo Capobianco  a Natuza Nery e Marina Dias, o principal assessor da ex-ministra do Meio-Ambiente, dá uma cartada na busca de motivar quadros partidários representados no Congresso Nacional e que também estarão disputando votos este ano. Afirmou convictamente que um possível governo Marina não fará com o Parlamento o tradicional jogo do toma lá dá cá. Nada disso. A meta política é valorizar os representantes dos partidos na Câmara e no Senado e não supervalorizar os líderes das legendas.
    Capobianco destacou: “Existe hoje a hipervalorização dos líderes dos partidos e a interlocução do governo é feita exclusivamente com eles. Eles não controlam suas bases, mas vendem uma liderança caríssima. É patético. É preciso recuperar a interlocução com o Congresso. Ministérios precisam estar abertos aos deputados e senadores. Qualquer parlamentar – acrescentou – quer realizar. Se o governo tem uma agenda positiva, porque não haveria o alinhamento?”

    Fator previdenciário, inconstitucionalidade à disposição dos candidatos

    Pedro do Coutto
    Não sei porque um tema tão abrangente como este, capaz de produzir uma avalanche de votos, não se tornou, até agora, uma prioridade ao debate social na campanha para a presidência da República nas urnas deste ano. Para não cometer injustiça, devo reconhecer que foi levemente tocado apenas por Aécio Neves durante comício na Bahia. Feita esta retificação, vamos entrar no assunto, uma injustiça total para com os aposentados pelo INSS.
    Foi instituído pelo governo Fernando Henrique, primeiro pelo decreto 3.048/99, confirmado pela lei 9.876 aprovada no mesmo ano. O fator, para fixar o valor da aposentadoria, considera conjuntamente o tempo de contribuição, o que é natural, a idade do segurado, a expectativa de sobrevida, baseada nos cálculos médios do IBGE, o que concretamente varia de pessoa para pessoa, além da média de 80% dos maiores salários recebidos a partir de 1994. Ora, aplicar o índice de 80% é o mesmo que adotar um redutor de 20%.
    O juiz federal da primeira vara previdenciária da São Paulo, Marcus Orione Gonçalves Correia, acolheu o argumento que lhe foi submetido por um segurado e considerou o fator previdenciário simplesmente inconstitucional por adicionar exigências para fixar o valor da aposentadoria que não se encontram na Constituição. Trata-se, disse o juiz, de um claro retrocesso  social. Tem razão, afirmo eu. Por qual motivo deve-se diminuir a correlação entre o que os trabalhadores contribuíram quando em atividade e o que vão passar a receber quando se aposentam? Não existe qualquer explicação lógica.
    SEM LÓGICA
    E, acima de tudo, torna ilógica a manutenção do fator previdenciário pelo governo Lula e ao longo do mandato da presidente Dilma Rousseff, que disputa a reeleição nas urnas de outubro. A questão interessa diretamente a mais de um milhão de pessoas que integram o eleitorado brasileiro. Na reta final para o primeiro turno, a abolição do fator previdenciário, um enigma sua resistência ao passar do tempo, deve ser incluído nos principais debates e entrevistas de que participarem os candidatos. O principal debate, por exemplo, o da Rede Globo marcado para a noite de 3 de outubro, dois dias antes das urnas do dia 5.
    Sobretudo porque, segundo afirma o presidente da Confederação dos Trabalhadores do Brasil, Wagner Gomes, existem nada menos que um milhão de ações na Justiça Federal, entre eles os ajuizados pela própria CUT, a qual, como se sabe, é um braço sindical do próprio PT e assim empenhada na campanha de Dilma Rousseff. Aliás surpreende não ter a presidente da República tomado a iniciativa para derrubar o fator previdenciário, repudiado e detestado por todos. A anulação é reivindicada tanto pelos que vão se aposentar, quanto pelos aposentados atingidos diretamente, e também pelos pensionistas. Nunca uma lei prejudicou a tantos eleitores deste país durante tanto tempo. Uma exceção à regra histórica. Afinal de contas, no Brasil o salário médio dos que trabalham, conforme revelou o IBGE na sexta-feira, é de 1.681 reais por mês.
    Em matéria de direito previdenciário deve-se acrescentar o fim do pecúlio dos aposentados que permanecem trabalhando e portanto descontando para o INSS. A soma das contribuições, escrevi recentemente um artigo a respeito, formava uma conta pecúlio semelhante ao sistema do FGTS, que o aposentado sacava quando deixasse efetivamente de trabalhar. E no caso de falecimento seus herdeiros recebiam o valor acumulado. Esse pecúlio foi extinto por decreto de 1.998 e, até hoje, não foi restabelecido. Outra injustiça a ser debatida e afastada da legislação brasileira. Pois o fim do pecúlio criou a figura (inconstitucional) da contribuição sem retribuição. Nenhum momento melhor do que o das urnas para corrigir injustiças.

     Datafolha revela faixas decisivas para o primeiro turno

    Pedro do Coutto

    Pesquisa do Datafolha destacada por reportagem de Ricardo Mendonça, edição de 21 da Folha de São Paulo, destaca nitidamente a intenção de votos nas candidaturas Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves por classes sociais do eleitorado brasileiro. A divulgação da matéria é fundamental para que os três candidatos possam dirigir suas mensagens no momento em que a campanha para o primeiro turno ingressa na reta final.

    A tendência de voto favorece Marina Silva nos grupos sociais de renda mais alta e fortalece Dilma Rousseff, ao contrário, nas faixas sociais de renda menor. Aécio Neves melhora nos grupos de renda mais elevada e decai nos grupos sociais de renda mais baixa.

    Nos grupos considerados de renda alta pelo Datafolha Marina Silva lidera com 36 pontos, seguida de Aécio Neves com 33. Neste segmento Dilma Rousseff atinge somente 19%. Ocorre que os grupos de renda mais alta pesam 7% do total de eleitores. Passando a faixa de classe média alta, Marina alcança 35, mas Dilma tem 27 e Aécio 22. Este grupo representa 20% do eleitorado. Na classificação seguinte, classe média intermediaria, Dilma já assume a liderança alcançando 35 contra 33 de Marina. Nesta faixa, que representa 32% do eleitorado Aécio desce para 15 pontos.

    A seguir o Datafolha apresenta as intenções de voto da classe que ele identifica como média baixa pela qual reúne 13% do total de eleitores e eleitoras. Neste seguimento Dilma lidera com 40 pontos, seguida de Marina com 28 e Aécio com 16%.

    Finalmente junto às classes de menor renda, que pesam 27% do total de votos Dilma Rousseff dispara com 49 pontos, deixando Marina Silva em segundo com 23. Nesta faixa Aécio Neves registra apenas 10% das intenções de voto. Verifica-se assim a existência de dois seguimentos decisivos para definir os rumos do primeiro turno: a classe média intermediária, pesando 32% e classe de renda mais baixa representando a fração de 27% do eleitorado. Somando-se os dois seguimentos chega-se à conclusão que esses dois grupos representam 59% do total de eleitores do país.

    MENSAGENS FINAIS

    Isso de um lado, De outro, a pesquisa do Datafolha focalizada claramente por Ricardo Mendonça vem oferecer aos candidatos um panorama bastante nítido de como devem tentar dirigir suas mensagens nas semanas finais que antecedem as urnas de 5 de outubro. Como os números revelam as classes as quais as mensagens devem ser mais intensamente dirigidas são as de renda menor porque são amplamente majoritárias na composição do colégio eleitoral.

    Esta divisão praticamente define que as duas primeiras colocações no voto que se aproxima serão ocupadas, como as pesquisas tanto do Datafolha quanto do IBOPE assinalam, pela atual presidente da República e pela candidata do PSB. Isso porque Aécio Neves como os números indicam alcança penetração muito pequena nas classes média intermediária, 15% na média baixa 16%, atingindo apenas 10 pontos junto àqueles que o Datafolha considera de renda menor, socialmente excluídos.

    Aécio tem pouco tempo para a tentativa dar certo, mas para ele esse constitui o único caminho possível de passar de uma terceira para uma segunda colocação nas urnas do próximo dia 5. O tempo corre contra ele, mas nem por isso seu esforço nesse sentido pode ser considerado de antemão inútil. Para definir o resultado, vamos aguardar as próximas pesquisas dos dois principais Institutos do país.

    Candidatos alteram estratégia para o desfecho do primeiro turno

     
    Pedro do Coutto
    Reportagem de Júnia Gama, Fernanda Krakovics e Maria Lima, O Globo de quinta-feira 18, focaliza com destaque as principais alterações nas estratégias dos três candidatos para a etapa final do primeiro turno, na realidade decisivo para a classificação dos dois primeiros às urnas de 26 de outubro. As três repórteres analisam as propostas em curso nos bastidores principalmente de Dilma Rousseff e Marina Silva, mas também as colocadas pelo estafe de Aécio neves.
    As mudanças de alvo e de estilo foram colocadas em foco depois que a pesquisa do Ibope divulgada na noite de terça-feira pelo Jornal Nacional apontou um recuo de Dilma (de 39 para 36), um leve declínio de Marina (de 31 para 30) e um avanço de Aécio de 15 para 19 pontos. Relativamente à presidente da República, a estratégia colocada a ela implica em atacar menos a ex-senadora, sua principal adversária, e adotar o caminho de apresentar ao eleitorado projetos de conteúdo positivo.
    Pelo contrário, a tática de Marina Silva é não deixar acusações sem respostas, forma de neutralizar os ataques, e reforçar as críticas ao atual governo. Para Aécio neves, o comportamento básico será aquele que aliás vem adotando: criticar  tanto Dilma quanto Marina.
    DILMA AGORA É O ALVO
    O que ocorre é que, a meu ver, Dilma torna-se o melhor alvo das restrições, pois é a única candidata que pode ser cobrada pelas ações que adotou ou deixou de adotar, já que ocupa o poder Executivo. Marina Silva e Aécio Neves podem receber cobranças por seus posicionamentos políticos, não pelos resultados de suas administrações. Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente no início do segundo governo Lula, por uma desavença exatamente com Dilma Rousseff em torno da construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, ambas em Rondônia. Assim, está fora do poder há mais de seis anos.. Aécio Neves deixou o governo de Minas antes do pleito de 2010, quando foi eleito senador. O que fez e o que deixou de fazer não são temas atuais nem nacionais.
    Como se vê, as cobranças recaem todas sobre a presidente da República. Dessa forma, se o poder permite que realizações sejam ressaltadas, de um lado, de outro abre perspectivas para que omissões se transformem em objetos de realce negativo. Elas por elas. Os dois fatores se compensam no debate eleitoral. Faltam poucos dias para o primeiro turno, marcado para o próximo dia 5. Apesar do avanço de Aécio, quando escrevo este artigo, antes da divulgação de mais uma pesquisa do Datafolha, a distância que o separa de Dilma (17 pontos) e de Marina (11% das intenções de voto) é acentuada e somente um fato inesperado poderá leva-lo a obter a colocação que o conduza ao segundo turno. Este, mais provavelmente, vai reunir face a face, com tempo igual no horário político, Dilma Rousseff e Marina Silva. Qualquer outro desfecho fornecerá uma sensação de total surpresa.
    PARTIDOS MENOS CORRUPTOS
    Em palestra quarta-feira no centro Cultural Turquia-Brasil, em São Paulo, matéria do repórter Tiago Dantas, edição de O Globo de quinta-feira, o ex-presidente Fernando Henrique afirmou que  precisamos ter partidos mais autênticos e menos corruptos. Colocação de impacto, como se pode constatar. “Menos corruptos” é uma expressão relativa dentro da realidade brasileira. A corrupção atingiu tal dimensão que exigir honestidade integral, como deveria ser, passou a constituir um excesso. Corrupção menor do que a atual, em todos os níveis, sob a ótica de FHC, já seria aceitável. A relatividade, no fundo, dimensiona bem o problema.

     

    Datafolha confirma duelo final entre Dilma e Marina

    Pedro do Coutto

    Pesquisa do Datafolha concluída quinta-feira e publicada com destaque pela Folha de São Paulo de 19, reportagem de Ricardo Mendonça e comentários de Mauro Paulino, diretor geral do Instituto, e de Alessandro Janoni, destaca que o duelo final das eleições para presidente da República permanece entre Dilma Rousseff e Marina Silva, embora a ex-senadora tenha recuado de 33 para 30 pontos no espaço de uma semana. Nesse mesmo período, aliás curto, o Datafolha está realizando levantamentos de sete em sete dias, Dilma Rousseff subiu um degrau: passou de 36 para 37%. Aécio neves cresceu de 15 para 17 pontos.

    A pesquisa contém diferenças em relação à do Ibope que saiu na terça-feira, mas a direção é a mesma. Para o IBOPE, Aécio saltou de 15 para 19. Para o Datafolha de 15 para 17 pontos. O recuo de Marina ocorreu principalmente nas regiões sudeste e sul. No sudeste desceu de 36 para 32. No sul de 30 para 25%. Nas duas regiões perdeu votos para Aécio Neves. Por falar no ex-governador mineiro, a pesquisa do Datafolha provavelmente o levará a mudar de estratégia: seu alvo deixará de ser Dilma, da qual encontra-se distante vinte pontos, para ser Marina. Isso porque seu esforço, agora, é para obter o segundo lugar que poderá levá-lo às urnas de 26 de outubro. Está mais próximo de Marina Silva que, não se sabe bem por qual razão, perdeu no sul e sudeste. O sudeste é fundamental, uma vez que reúne em torno de 50%  do eleitorado brasileiro. Não se sabe também porque a rejeição a Marina, nesta semana, cresceu de 18 para 22. A rejeição a Dilma permaneceu em 33%. A rejeição a Aécio desceu para 21.

    RETA FINAL

    Praticamente na véspera da entrada na reta final, os  índices assinalados nas duas regiões por Marina nas duas regiões , se refletirem uma tendência, são preocupantes, pois Dilma, em decorrência do programa Bolsa Família, registra 49% no nordeste contra 32 de Marina e apenas 8 de Aécio. Na região norte, alcança os mesmos 49 pontos contra 28 de Marina e 9 de Aécio. Para compensar tais diferenças, a ex-ministra do Meio Ambiente tem que manter boa dianteira no sudeste e no sul.

    De qualquer forma, em termos de segundo turno, o panorama mudou pouco. Na simulação realizada pelo Datafolha, ela venceria Dilma por 44 a 42 pontos. Panorama de quase um empate. Mas que significa que Marina hoje absorveria para si mais leitores de Aécio do que a presidente da República.A análise feita por Mauro Paulino e Alessandro Janoni ressalta que o recuo de Marina aconteceu entre os eleitores de menor renda mensal, de 1 a 5 salários mínimos que representam – frisaram – a parcela de 77% do eleitorado, portanto largamente majoritária. Esta constatação certamente influirá numa mudança de linguagem e postura da candidata, uma vez que o avanço de Dilma Rousseff ocorreu justamente nesse grupo social.

    Mas não só Marina deve alterar o rumo de sua campanha, Dilma e Aécio também. Dos três, concluem Paulino e Janoni, como se vê, a posição mais difícil é de Aécio Neves que, na etapa final do primeiro turno, terá que superar o seu potencial de votação registrado até agora e torcer para que Marina Silva desça ainda mais na escala no roteiro das urnas do primeiro turno. Para os diretores do Datafolha, se acontecer tal processo, terá sido o primeiro da história das eleições brasileiras.

    Ibope: permanece indefinido o duelo entre Dilma e Marina

    Pedro do Coutto

    A mais recente pesquisa do Ibope divulgada pelo Jornal Nacional da Globo, e objeto de excelente reportagem de Júnia Gama, em O Globo do dia seguinte, vem acentuar a indefinição que marca o duelo entre Dilma Rousseff e Marina Silva, tanto no primeiro turno, quanto no segundo e absolutamente definitivo confronto final marcado para 26 de outubro. Em relação ao Levantamento anterior, uma semana de diferença, Dilma desceu 3 pontos, Marina recuou 1, Aécio Neves avançou 4%. As urnas se aproximam, os candidatos vão entrar na reta final e o panorama não apresenta modificações.
    A atual presidente lidera com 36 pontos, a ex-senadora assinala 30% das intenções de voto, Aécio saltou de 15 para 19 pontos. Embora este tenha sido um avanço considerável, a sua distância das líderes da pesquisa permanece muito grande. Em termos de segundo turno, hoje, o IBOPE aponta vantagem para marina Silva: 43 a 40 pontos da segunda colocada. Deve-se observar que o número dos eleitores que se dispõem a anular o voto ou votar em branco recuou para 7%, o menor índice da atual campanha e os que não souberam ou quiseram responder desceu para6%.
    Além dos três principais, as urnas deste ano reúnem mais oito candidatos de diferentes partidos. Estes oitos, em seu conjunto, pesam apenas 2%, acrescenta o IBOPE. Dois pontos, entretanto, podem ser decisivos para que haja ou não segundo turno. Mas no caso presente parece que não. Pois enquanto Dilma Rousseff aparece na pesquisa com 36 pontos, a soma de Marina (30) e de Aécio (19) perfaz 49%. A fração de 2%, assim, não possui maior importância. Não expressa nada. Da mesma forma que nada exprimem em matéria de projetos e ideias os oito nomes que conduzem a formação dessa percentagem.
    RETA DE CHEGADA
    Se exprimissem atingiriam uma fração bem maior do eleitorado. Mas esta é outra questão. Voltando ao tema central, dentro de poucos dias estaremos na reta de chegada do primeiro turno. A reportagem de Júnia Gama acentuou que a estratégia adotada por Dilma Rousseff e marina não alcançaram êxito. Tanto assim que Dilma desceu 3 degraus e Marina declinou um. A violência dos ataques desfechados pela presidente e pelo presidente Lula contra Marina conteve a ex-senadora, porém não se tr4aduziu em avanço em favor de Dilma. Alheio ao choque principal da campanha, Aécio foi o que obteve o melhor resultado no espaço de uma semana. Mas nada que se apresente como um impulso capaz de leva-lo a um segundo lugar no primeiro turno. Temos de esperar o Datafolha que está vindo aí e mais um novo IBOPE provavelmente dentro de uma semana.
    Com base nos resultados que as estatísticas forneceram as candidatas e o candidato montarão seus impulsos financeiros, suas estratégias na busca principalmente dos eleitores indecisos. A repórter Daniela Lima, em matéria publicada na Folha de São Paulo, publica declarações do ex-presidente Henrique Cardoso aconselhando Aécio Neves a dirigir seus ataques à presidente Dilma Rousseff, ao invés de a Marina Silva. É a segunda vez que o ex-presidente dirige-se publicamente ao senador mineiro nesse sentido.
    Ele seguirá o conselho? Irá ao encontro da observação? Não se sabe. Como tampouco sabe-se que a mudança de alvo causará o efeito desejado por FHC que, aliás, foi o primeiro integrante do PSDB a lançar a candidatura de Aécio Neves à presidência da República. Acredito que, sob o ângulo partidário, ele estava certo. Naquele momento, não podia prever a ascensão de Marina Silva substituindo Eduardo Campos na chapa do PSB. Este fato mudou o cenário principal das eleições.

    Pré-Sal, o centro do debate entre Dilma e Marina

    Pedro do Coutto
    Reportagem de Mariana Carneiro e Samanta Lima, Folha de São Paulo de 16, destaca as restrições feitas pelo coordenador da campanha de Marina Silva, Walter Feldman, ao modelo adotado pelo governo Dilma Rousseff para explorar o Pré-Sal, que está fornecendo no momento uma produção de 500 mil barris de petróleo por dia, correspondendo – acrescenta o jornal – a um quarto do total extraído dos poços do país. Aliás, por falar em Pré-Sal, ele passou a representar o principal debate travado entre as duas principais candidatas às eleições presidenciais de outubro. Tornou-se o centro da questão e deve permanecer como tal no desenrolar da luta no segundo turno.
    Em primeiro lugar, o debate foi aberto pela atual presidente da República, com base em declaração da ex-senadora que, num descuido, sustentou que o Pré-Sal não estaria entre as prioridades de seu governo, se este for o desfecho das urnas. O PT, então, voltou-se por inteiro para acentuar que a candidata do PSB estaria contra o projeto em sua essência. A extrapolarização surtiu efeito, tanto assim que o PSB decidiu editar uma nova versão programática. A dúvida, entretanto, permaneceu na cabeça dos eleitores.
    A prova de que permaneceu uma nuvem envolvendo o tema está na reportagem de Mariana Carneiro e Samanta Lima, com base em exposição feita por Walter Feldman, coordenador da campanha de Marina Silva. Teria sido melhor, para a candidata do PSB, que as afirmações feitas a respeito do assunto tivessem partido dela própria, e não de seu principal coordenador. Teria  transmitido um sinal mais acentuado de firmeza, já que o problema refere-se diretamente a uma solução de governo, não da assessoria. O campo do Pré-Sal é por demais sensível, extremamente técnico, além de incluir interesses econômicos de extraordinário vulto.
    O modelo adotado para o Pré-Sal é essencial no confronto entre as duas candidatas no segundo turno, mas não é o único. Vários outros serão incorporados ao debate final, já que com onze candidatos as teses se diluem em tal pluralidade, não permitindo a centralização que inevitavelmente marca as decisões no segundo turno. Tem sido sempre assim e assim, creio, será mais uma vez, tornando o desfecho imprevisível com base no quadro hoje delineado. Vai depender do desempenho de uma e de outra ante as telas da televisão, já que os comícios e grandes concentrações públicas desapareceram do calendário eleitoral. O voto, hoje, é disputado à distância, através dos aparelhos de televisão.

    A FORÇA DA IMPRENSA
    Os jornais têm também seu  lugar em matéria de importância e influência pelo poder que possuem, ao lado das principais revistas, de fazerem repercutir os fatos que acontecem ao longo e à margem das disputas. A imprensa não perdeu – nem perderá – seu papel de confirmação dos acontecimentos e dos impactos capazes de gerar reflexos no endereço das urnas. Principalmente na reta final, quando cai sensivelmente o número de indecisos e também daqueles que, até as vésperas, pretendiam anular o voto ou votar em branco.
    Em todas as eleições o fenômeno se repete. E será sempre assim. As disputas eleitorais somente acendem e esquentam quando o confronto ganha caracteres de competição esportiva. Exatamente quando a emoção entra em cena e passa a ser um fator dominante da vontade de cada eleitor, de cada eleitora. No mundo todo é assim: faz parte da democracia, da liberdade, da vontade coletiva.

    Na reta final, debates da CNBB e da Globo definem primeiro turno

    Pedro do Coutto
    Estamos muito próximos da reta final do primeiro turno para as urnas de 2014: faltam menos de três semanas. Por isso mesmo, adquirem importância fundamental os debates da CNBB, realizado na terça-feira 16, e o da Rede Globo marcado para a noite de 3 de outubro, quarenta e oito horas antes do voto que vai definir quais candidaturas vão para o segundo turno, projetado para o dia 26, três semanas após o resultado inicial do confronto que reúne nada menos de onze postulantes. Dos onze, apenas três ganham relevo.
    Dos três – Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves – dois vão para a etapa final de acordo com o Ibope e Datafolha, a luta pelo Planalto será entre Dilma e Marina. Aécio vem registrando 15 pontos, muito distante tanto de Dilma quanto de Marina.
    Mas esta é outra questão. O problema essencial é o debate livre de ideias e posicionamentos em torno das questões de maior importância, a começar pelo combate à pobreza, origem de uma série de problemas que se irradiam pela sociedade. Flávia Marreiro e Fabiano Missonave, edição de 15 da Folha de São Paulo, publicaram reportagem a respeito do debate convocado pela CNBB. Além do combate à pobreza, mais dois temas foram destacados: o aborto e o casamento gay.
    Flávia e Fabiano destacam que as opiniões dos três principais candidatos são convergentes: contra o aborto, restringindo-o aos casos legalmente admitidos; contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, porém admitindo a união estável nos termos da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto, reconhecendo sua legitimidade, mas não a forma de casamento civil. O casamento religioso é impossível, já que todas as igrejas recusam-se a aceita-lo e portanto celebrá-lo.
    Os debates são eleitoralmente importantes pela repercussão que acarretam. No caso promovido pela CNBB, a entidade exige que os candidatos assumam compromissos contra a ampliação da lei nas hipóteses de aborto, contra o casamento gay e contra a liberação das drogas. Não será difícil aos três candidatos de melhor pontuação aceitarem tais princípios  Até porque coincidem com aqueles que vêm expondo em suas campanhas. Escrevo este artigo na segunda-feira para ser publicada na Tribuna da Internet na quarta-feira. O debate da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil ocorreu na véspera. O clima não deve ter sido de confronto direto.
    CONFRONTO DIRETO SERÁ NA GLOBO
    Clima de confronto direto e atmosfera tensa vão marcar, isso sim, o debate promovido a 3 de outubro pela Rede Globo. A troca de ataques entre as duas principais candidatas deve ocorrer dentro das regras estabelecidas. Sobretudo em face dos ataques já desfechados pela presidente e por seu partido, o PT, contra a candidata do PSB. O duelo não deverá ser evitado, sobretudo porque, é evidente, o desfecho do primeiro turno poderá vir a influir nos rumos do segundo.
    Pela força e penetração do canal na opinião pública, os confrontos divulgados por seu intermédio, dependendo do desempenho de cada um, podem atingir em cheio os eleitores, gerando nos últimos dias de distância das urnas o entusiasmo que vem faltando a campanha eleitoral.
    Ao contrário do que acontecia antigamente quando as ruas eram tomadas pela presença de um entusiasmo característico da luta pelo voto, emoção que desapareceu do programa eleitoral. Hoje, a campanha está praticamente restrita aos horários de televisão e aos debates que são capazes de despertar a emoção do eleitorado, entusiasmo adormecido com o passar do tempo e a repetição de promessas que não se cumprem.

    Eleições: renovam-se as promessas; eternizam-se as realizações

    Pedro do Coutto
    Num belo e importante artigo na edição de O Globo, quarta-feira 10, sob o título “Candidatos, Pedintes e Profetas”, o antropólogo Roberto DaMatta sintetizou, com seu brilho intelectual, o que se pode considerar como principal problema das campanhas eleitorais. De um lado as promessas de sempre, numerosas e até fascinantes, de outro as parcas realizações concretas do que foi prometido. Mas como política, no fundo, é esperança, na definição de Juscelino Kubitschek, elas se renovam a cada convocação para as urnas.
    Roberto DaMatta focaliza as imagens das cidades do país mostradas nas sequências produzidas pelo sistema de marquetagem, que se chocam com as oferecidas pela realidade do cotidiano. Na lista, os transportes, o saneamento, os serviços de saúde pública, a segurança nas ruas e nas praças. Um confronto inevitável entre a fantasia e a verdade. Não quero dizer com isso que os poderes públicos não tenham resultados a exibir. Mas apenas que constitui uma diferença enorme entre o que foi prometido há quatro anos e o panorama de hoje. Até porque existem compromissos esboçados cujo cumprimento é impossível.
    Nesta escala encontram-se o que candidatos ao Poder Legislativo prometem, omitindo que a execução de obras públicas e melhorias de serviços pertencem aos poderes executivo federal e estaduais. Isso agora, em 2014. Em 2016 a tarefa de realizar passa às mãos dos quase seis mil prefeitos do país. Seja como for, prometer para conquistar votos é algo intoxicante na medida em que vemos, como viu DaMatta, o tempo passar e as soluções não passarem da promessa para o tempo presente. Isso de um lado.
    FANTASIA E VERDADE
    De outro lado, há candidatos que se utilizam da capacidade de convencer prometendo, tendo consciência plena de que estão anestesiando e, dessa forma, iludindo eleitores. Mas que podem fazer diante do dilema proposto?
    Praticamente nada. A não ser votar e, implicitamente, aceitar as regras do jogo. A esperança de uma vida melhor renasce, a esperança rejuvenesce o ânimo popular. Tanto assim que os índices de abstenção são mínimos. Não se pode apresentar como explicação do comparecimento maciço ser o voto obrigatório. Ele, no fundo da questão, é obrigatório para os servidores públicos de todos os níveis. Mas, concretamente, não para os empregados particulares. Qual o empregador que exige de seus empregados a comprovação de terem votado? Poucos, muito  poucos. Quais as empresas, grandes ou médias que condicionam o pagamento mensal dos salários à prova de que seus funcionários foram às urnas? Especialmente neste ano de 2014 quando as eleições presidenciais vão ser decididas no segundo turno?
    No caso do Rio de Janeiro, o desfecho final de 26 de outubro, depois do primeiro embate no próximo dia 5, também será definido no segundo turno. Assim, na realidade, o que leva os eleitores às urnas é a esperança: de vários tipos e de motivações diversas.
                      Universitários: diminui o número dos que se formam
    Reportagem de Dandara Tinoco, Demétrio Weber e Leonardo Vieira, O Globo, edição do dia 10, revela que, de acordo com o Censo de Educação Superior de 2013, divulgado há poucos dias pelo MEC, o número de estudantes universitários que concluíram seus cursos, 981 mil, foi 5,7% menor do que o registrado em 2012. Apesar de o total de matriculados nas faculdades ter atingido 7,3 milhões de alunos, no ano passado, ter sido 3,8% maior do que em 2012. Que terá ocorrido? Qual a explicação? Importante o Ministério da Educação esclarecer para, inclusive, ele próprio corrigir algum problema existente, algum obstáculo que esteja travando a conclusão dos cursos.
    O Censo revela também que do total dos que se graduaram, 761 mil estudaram em faculdades particulares. Praticamente 80% dos estudantes universitários. Assim, o ensino público superior corresponde apenas a 20% do total de estudantes. Já vai longe, portanto, o tempo em que a maioria do ensino universitário era efetivamente estatal em sua maioria. Hoje, a realidade é outra. Eis um tema a ser debatido com mais atenção por parte dos governantes. Promessas só não resolvem nada. Promessas, o vento leva.

       

      Ao afirmar que sangrias estão estancadas, Dilma confirma as denúncias

      Pedro do Coutto
      Reportagem de Luiza Damé, Catarina Alencastro e Fernanda Krakovics, edição de O Globo do dia 9, destaca uma afirmação da presidente Dilma Rousseff, que surgiu na entrevista a O Estado De São Paulo, de essencial importância para traduzir efetivamente sua posição ante os escândalos na Petrobrás revelados pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa. Ela diz que não sabia de tais assaltos aos recurso da empresa, com a participação de grandes empresas privadas, “mas posso garantir” – acrescentou – “que as sangrias estão estancadas”. Aplicando-se à frase um prisma de análise concreta, evidentemente só se pode estancar o que existe. caso contrário, impossível.
      As repórteres de O Globo devem ter acessado O Estado de São Paulo on line e baseado sua matéria no que foi antecipado na Internet. Mas esta é outra questão, apenas explica a simultaneidade dos textos publicados em ambos os jornais. Voltando ao tema central, não é apenas o anunciado estancamento que confirma fatos contidos na versão de Paulo Roberto Costa publicada  pela revista Veja.
      A presidente da República destaca ter pedido informações à Polícia Federal e ao Ministério Público pata tomar providências em relação aos funcionários doo governo denunciados pelo ex-diretor, cujo envolvimento classificou de estarrecedor. Ela enfatizou que (durante a primeira parte de seu mandato) não tinha a menor ideia de que havia um esquema criminal na empresa, referindo-se, é claro, à Petrobrás. Se não tinha a menor ideia, mas agora tem, é porque, no seu pensamento de hoje, o esquema criminal a que se refere existe.
      PF ABRE INQUÉRITO
      Da mesma forma que, por ação tácita, a Polícia Federal, matéria de Jailton de Carvalho também na edição de 9 de O Globo, decidiu abrir inquérito para investigar o responsável ou responsáveis pelo vazamento das revelações feitas por Paulo Costa, cujo teor está publicado na Veja. Se o inquérito é para descobrir responsabilidades, evidente, o conteúdo do que vazou, e se encontra nas bancas, é verdadeiro. Ocorreu uma verdadeira explosão da verdade. O depoimento do ex-diretor, que tenta enquadrar-se na figura jurídica da delação premiada, ainda não terminou, é fato. Mas ele, nesta altura dos acontecimentos, não possui mais linha de recuo. O que ele falou, como dizia o juiz de futebol e comentarista esportivo, Mário Vianna, está falado.
      É claro que o tema, por sua enorme abrangência, repercutiu e continuará repercutindo com intensidade nos jornais, revistas, canais de televisão, e na Internet, de modo geral, com os candidatos Marina Silva e Aécio Campos partindo para o ataque contra o governo Dilma Rousseff, na busca de maiores votações nas urnas de 5 de outubro, que, entre os dois, vão decidir quem vai ao segundo turno contra a presidente na votação decisiva de 26, portanto três semanas após o primeiro confronto que selecionará os finalistas.
      Vamos aguardar as próximas pesquisas do Datafolha e do IBOPE para que possamos sentir a direção dos ventos. O episódio não soma para Dilma, é óbvio. Mas acrescentará para as campanhas de Marina e Aécio? Aparentemente, vendo a questão sob o ângulo impressionista, creio que soma mais para Marina. Aécio terá que derrotar a lei da gravidade, pois sua candidatura encontra-se em declínio. O vento levou.

         

        Quais números os eleitores devem digitar nas urnas de outubro?

        Pedro do Coutto
        Num ótimo artigo publicado na edição de 11 de setembro da Folha de São Paulo, o diretor geral do Datafolha, Mauro Paulino, e o diretor de Pesquisas do Instituto, Alessandro Janoni, focalizam um ponto de importância essencial nas eleições de outubro: como devemos todos nós, eleitores, proceder para marcar nossos votos nas urnas eletrônicas?
        Com base no exemplo de Marina Silva, cuja parcela de 25% dos que pretendem votar nela desconhecem seu número no teclado, roteiro para o voto ser computado no sistema, os autores do artigo concluem que, para a candidata do PSB, neste momento, mais importante que tudo é divulgar a numeração que corresponde a seu nome.
        Evidentemente, o caso de Marina Silva não constitui exemplo isolado. Pelo contrário. Ressalta a existência de um defeito de comunicação, pelo menos referente aos candidatos a cargos majoritários: presidente da República, governadores e senadores, já que existem variações a partir dos algarismos que compõem as legendas escolhidas. O problema deve se generalizar. No caso de Marina Silva chama mais atenção porque, como focalizamos em artigo recente neste site, ela alcança melhores índices junto aos eleitores de renda mais alta (em termos brasileiros), enquanto Dilma Rousseff, ao contrário, domina nos  grupos sociais de renda menor. Renda menor, escolaridade rudimentar. Como explicar a aparente contradição.

        POUCA DIVULGAÇÃO
        Vale observar o fenômeno para ver se Dilma Rousseff está expondo seu número na cédula de forma mais exposta e mais intensa do que Marina Silva em torno de sua candidatura. Aliás numa campanha não marcada pelo entusiasmo, que se reflete (refletia) no ato de eleitores gritarem o nome de seus candidatos nas ruas, é fundamental expor nos horários eleitorais, a forma clara e objetiva sobre como votar certo. Há, certamente, pouca divulgação a respeito do ato de votar. É simples.
        Nas próprias mensagens que dirigem à opinião pública, as candidatas e os candidatos podem fazê-lo ao mesmo tempo em que simulem como votar em si próprios. Esta propaganda, inclusive, fará reduzir o número de votos nulos, já que uma parte deles decorre mais de erro que da vontade de anular o sufrágio. O mesmo comportamento pode ser exercido pelos candidatos a deputado federal e estadual.
        Estes poderiam até, no tempo de que dispõem, aparecer usando corretamente as teclas que conduzem à verdade das urnas. Vou mais além, com base no artigo de Mauro Paulino e Alessandro Janini. Os partidos, principalmente estes, deveriam, na reta final das campanhas, a produzir filmetes que mostrem o roteiro do voto para que ele seja convalidado através do processo eletrônico atual. O custo de uma produção dessas seria mínimo, sobretudo levando-se em conta os efeitos a serem proporcionados. Mais do que quanto às candidaturas em todos os níveis, sobretudo à própria democracia.
        Saber votar constitui um ato legítimo de cidadania. Não devemos contribUir, por  omissão, para que desconhecimentos e erros se acumulem. Basta dizer o seguinte: se o desconhecimento numérico é alto nos segmentos de maior escolaridade, e portanto de renda, imagine-se o que acontece com os votos para deputado federal e estadual. Até porque os números dos presidentes reúnem dois algarismos formando uma dezena. Para deputado estadual o eleitor tem de digitar cinco teclas. Para deputado federal o eleitor tem de digitar quatro teclas. Para senador três. Assim, diante da tela eletrônica, os eleitores têm que digitar cinco vezes: para presidente, governador, senador, deputado federal e estadual. Um treino fará bem ao sistema eleitoral e ao processo político.

        Ibope coincide com Datafolha: Dilma e Marina empatadas no 2º turno

        Dilma foi mal na sabatina organizada pelo Globo no Rio de Janeiro

        Pedro do Coutto
        Em pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria, concluída nesta sexta-feira, e no mesmo dia divulgada pelos sites de O Globo e da revista Veja, o Ibope apontou, da mesma forma que o Datafolha, uma disputa extremamente acirrada entre Dilma Rousseff e Marina Silva no segundo turno. Com base nas intenções de voto, hoje. Marina alcançaria 43 pontos contra 42 de Dilma – um empate. Para o Datafolha, na pesquisa publicada na edição de quinta-feira da Folha de São  Paulo, a ex-senadora, no desfecho final a 26 de outubro, levaria a melhor por 47 a 43. Margem de quatro pontos. No final de agosto era de 10%: 50 a 40. Dilma, portanto, crescia e Marina descia na estatística.
        No primeiro turno, Dilma Rousseff liderava por 36 a 33 pontos, acrescenta o Datafolha. Para o Ibope, no primeiro confronto, Dilma aparece com 39 e Marina com 31%. Subida da atual presidente, recuo da ex-senadora. Como se vê, as tendências registradas tanto por um quanto pelos dois institutos convergem. O ex-governador Aécio Neves, nos dois levantamentos, atinge apenas 15% das intenções de voto. Pode-se afirmar que se encontra fora da disputa final. Inclusive suas aparições no horário eleitoral não ocultam a expressão de abatimento que o envolve. Tal reflexo é natural, mas nem por isso deixa de ser observado pelos milhões de eleitores que assistem o espaço político na televisão. O índice de audiência, segundo o IBOPE, é de 29%, na Globo que domina a audiência, principalmente porque o horários eleitoral antecede a novela que entre às 21:20hs, de segunda a sábado.
        CAMPANHA FRACA

        A campanha eleitoral, aliás, vem se concentrando nas emissoras de TV e nos jornais. Não há mais comícios, concentrações, carros de som, está fraca a distribuição de “santinhos” nas ruas, o número de cartazes afixados diminuiu enormemente em relação aos últimos pleitos. Os custos da propaganda estão muito elevados e a abrangência das mensagens divulgadas nas televisões e emissoras de rádio é incomparavelmente maior. Além do mais, no que se refere às eleições majoritárias, o Datafolha e o Ibope fixaram as polarizações, como entre Dilma e Marina pela presidência da República, como entre Garotinho e Pezão pelo governo do Rio de Janeiro. São dois exemplos bastante fortes.
        Como também, disputas definidas antecipadamente. A vitória de Geraldo Alckmin para o governo de São Paulo. A eleição de Romário para o Senado do Rio de Janeiro. Na última semana, pelo Datafolha, matéria publicada sexta-feira pela Folha de São Paulo, Romário saltou de 38 para 43, subindo 5 pontos. Enquanto isso, Cesar Maia, o segundo colocado, desceu de 28 para 25%. Tendência nitidamente fixada.
        Indefinido o desfecho do voto para o Senado por São Paulo: Serra tem 34%; Suplicy 31 pontos. Diferença pequena, menor ainda, de apenas um ponto para senador pelo Rio Grande do Sul: Olívio Dutra do PT, registra 27 pontos; Lasier Martins do PDT, aparece com 26. Em terceiro, distante dos dois primeiros, surge o senador Pedro Simon com 16%. Uma pena, ele está entre os políticos mais importantes e íntegros do país.
        O panorama é este. Vamos esperar as próximas pesquisas. Inclusive porque a presidente Dilma não foi bem na sabatina que enfrentou sexta-feira na redação de O Globo.

        Datafolha aponta desfecho duríssimo entre Dilma e Marina

        Pedro do Coutto
        É esta a tendência revelada pela pesquisa do Datafolha sobre as eleições presidenciais de outubro, concluída dia 10, e objeto, no dia seguinte, de primorosas reportagens de Tatiana Farah, Renato Onofre e Isabel Braga, O Globo, e de Ricardo Mendonça na Folha de São Paulo. O quadro parece definitivo com a exclusão de Aécio Neves, aparecendo com 15% das intenções de voto, em terceiro, contra 36 pontos de Dilma Rousseff e 33% de Marina Silva. O segundo turno encontra-se definido, cabendo a pergunta para quem vai a maioria dos eleitores do ex governador de Minas.
        Ao que tudo indica para Marina, já que na pesquisa simulada para o desfecho de 26 de outubro (o primeiro turno é no próximo dia 5), Marina atinge 47 pontos e Dilma alcança 43. Mas é indispensável considerar que a diferença projetada anteriormente já foi maior. Vem diminuindo. No final de agosto, por exemplo, pelo mesmo Datafolha, chegava a dez pontos: 50 a 40. No início de setembro passou para 48 a 41, sete degraus portanto. Agora diminuiu ainda mais, registrando margem de 47 a 43 pontos.
        Mantida a tendência atual, com Marina descendo pouco e Dilma subindo pouco, pode se prever praticamente um empate. Desfecho imprevisível. No primeiro turno, a presidente da República vem sendo apoiada por tempo maior que possui no horário eleitoral: 11 minutos contra somente 2 que cabem a Marina. No segundo turno, os espaços na televisão e no rádio passam a ser absolutamente iguais. A vantagem desaparece.
        CLASSES SOCIAIS

        O levantamento do Datafolha separou as tendências de voto por classes sociais. Entre os que ganham por mês até 2 salários mínimos do eleitorado, Dilma vence Marina por 43 a 29. Nessa faixa, Aécio aparece com apenas 10%. Entre aqueles cujos vencimentos enquadram-se de 2 a 10 salários mínimos, Marina passa a obter 38% contra 26 de Dilma. Larga distância. Mas se estreita entre os que recebem mais de 10 mínimos: 32 a 26. Nesta categoria, Aécio Neves encontra seu melhor resultado: 31%, ultrapassando Dilma e ficando só um ponto abaixo de marina. Ocorre é que, com base em dados a mim enviados pelo leitor deste site Wagner Pires, acima de 10 pisos concentram-se somente 3,24% da população. Tal informação foi muito bem observada pelo leitor Flávio José Bortolotto, que acrescentou ser de 2 mil e 100 reais o salário médio brasileiro.
        Mas voltando ao tema central da pesquisa do Datafolha, vários fatores podem ser assinalados para traduzir a queda que atingiu em cheio a candidatura Aécio Neves. Um deles, inclusive, foi comentado pelo ex-presidente Fernando Henrique, tornado público pelo jornalista Ricardo Noblat em sua coluna no Globo, edição também de 11 de setembro. FHC definiu como um erro do ex-governador de Minas os ataques que desfechou contra a candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente. Deveria, no seu modo de ver o processo eleitoral, ter alvejado a própria presidente da República. Mas não. Escolhendo como um dos alvos Marina Silva, Aécio perdeu votos nas classes médias, sem conseguir arrebatar apoio expressivo no povão.
        Na entrevista publicada pelo Globo, na quinta-feira, procurou  corrigir sua posição. Porém parece tarde demais para convencer e, mais tarde ainda, para obter a classificação para o segundo turno. Nesta altura dos acontecimentos, o duelo final está definido.