PSDB deveria pedir ao TSE o direito de resposta

Pedro do Coutto
Reportagem de Júnia Gama, O Globo de 6  de maio, revela que a direção do PSDB, partido do candidato Aécio Neves, decidiu encaminhar representação ao Tribunal Superior Eleitoral pedindo que a presidente Dilma Rousseff seja multada por campanha política antecipada, contida no pronunciamento que fez em rede nacional de televisão pela passagem de primeiro de maio. Um erro, absurdo completo, uma atitude que levará ao nada. É evidente que o TSE não vai multar a presidente da República. Perda de tempo.
O que o PSDB deveria fazer, isso sim, é solicitar ao mesmo TSE o direito de resposta no mesmo espaço de tempo e na mesma rede de TV ocupada pela candidata à reeleição. Aí, sim, estaria agindo de forma lógica capaz de conduzir a Justiça Eleitoral ao plano de coerência. Existe amparo legal para proceder assim. Basta examinar o artigo 58 da lei 9.504/97, lei eleitoral, mantido pela lei 12.034/2009, a mais recente sobre a matéria. Embora as duas leis se refiram ao período específico da campanha, pode-se recorrer  à analogia das situações. O poder do Planalto com direito a tudo. A oposição a quase nada, como se comprova da atitude sinuosa, para dizer o mínimo, assumida pelo senador Renan Calheiros visando a adiar a instalação de fato da CPI da Petrobrás. Calheiros se autodesqualificou inteiramente para presidir o Congresso Nacional.
PSB SE OMITIU
Ótimo tema para o PSDB, já que o PSB de Eduardo Campos não se manifestou, omitindo-se. Ao invés disso, o comando tucano, segundo Júnia Gama, optou por responsabilizar, além de Dilma Rousseff, o marqueteiro João Santana (vejam só), o secretário de Comunicação, Tomas Trauman, e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.
Francamente, incluir um marqueteiro entre os que infringiram a legislação eleitoral é um ato estúpido. O marqueteiro, profissionalmente, produz o que lhe é mandado fazer.Seu limite está neste ponto. A responsabilidade efetiva e única pertence a presidente da República e às emissoras de televisão. Estas compensariam a divulgação proporcionada com o espaço que abririam ao senador Aécio Neves. Mas talvez esta colocação objetiva seja exigir de mais da direção do partido. E também do comando do Partido Socialista Brasileiro.
O PSD então, numa atitude inédita no quadro político, cogita até de mudar seu estatuto para ir ao encontro do agronegócio. É demais em matéria de incompetência e desorganização. Claro. Inclusive porque Eduardo Campos e Marina Silva se inscreveram na legenda conhecendo pelo menos superficialmente as diretrizes ideológicas da sigla. Que, no passado, teve entre seus integrantes alguém como o jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Fugir à realidade não adianta nada de positivo. Pelo contrário.
Recorrer ao direito de resposta seria o melhor caminho. Sem propor multa para Dilma. Pois além de tudo, seu discurso no primeiro de maio, na realidade, abriu a perspectiva de os oposicionistas se utilizarem da mesma rede de TV, no mesmo espaço, no mesmo horário. Afinal de contas, pensar com lógica não custa nada.

Roberto Marinho e Lincoln Gordon esqueceram Costa e Silva

Pedro do Coutto

Num texto brilhante publicado na Folha de São Paulo de 5 de maio, o jornalista Ricardo Melo publica telegrama enviado em 1965 ao Departamento de Estado de seu país pelo embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, sobre o panorama político em nosso país, a partir de conversas que manteve com o jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo. A televisão surgia exatamente naquele ano, resultado de uma associação com o grupo Time-Life, rompida por iniciativa de Marinho cerca de dois anos depois. mas esta é outra questão.

O fato é que, lendo-se o que Gordon enviou a Washington, verifica-se que tal documento partia de pensamentos desinformados a respeito da ditadura político-militar brasileira. Lincoln Gordon, que teve participação de importância no golpe que depôs João Goulart, não revelou, segundo seu telegrama, estar por dentro da situação no Brasil. Roberto Marinho, apesar de seu poder e acesso às fontes de informação, também não. Pois caso contrário, não teria passado ao embaixador a opinião de que o rumo conduzia à reeleição do general Castelo Branco pelo voto indireto.

O que aconteceu, isto sim, foi a prorrogação de seu mandato, que, ao invés de terminar em janeiro de 66, foi estendido para janeiro de 67. Com tal fato, não houve a eleição presidencial de 65. Candidato declarado, o governador Carlos Lacerda sentiu que não era o nome desejado pelo poder militar.

OUTRO PROJETO

A ditadura tinha outro projeto. Aí resolveu romper com Castelo Branco de forma total e contundente. Roberto Marinho e Gordon esqueceram esse episódio fundamental. Ambos também omitiram o apoio total de O Globo à candidatura Negrão de Lima, oposição a Lacerda, ao governo da Guanabara. Negrão foi vitorioso, maioria absoluta dos votos.

Enfurecido, Lacerda passou a tramar contra a posse do eleito. Mais uma vez, Lacerda investia contra a posse legítima do eleito. Assim foi em 55, contra Juscelino, assim aconteceu em 61 contra João Goulart, vice de Jânio Quadros, que renunciou, assim ocorreu em 50 contra Getúlio Vargas. Lacerda, inclusive, escreveu um artigo na Tribuna da Imprensa, antes da sucessão do presidente Eurico Gaspar Dutra, dizendo que Vargas não podia ser candidato. Se candidato, não devia ser eleito. Se eleito (textual), não devia ser empossado. Se empossado, não deveria chegar ao final do mandato.

Rompendo com o governo Castelo, Lacerda abriu uma crise militar dentro do quadro crítico geral. Abalou Castelo e este, para se manter, passou a depender do general Costa e Silva, ministro do Exército. A corrente de Costa e Silva aceitou manter Castelo, mas ao preço da eleição indireta do ministro, pelo voto indireto do Congresso, em novembro de 66.

Nenhuma tendência, nenhum sintoma, nenhuma interpretação feita por Roberto Marinho e Lincoln Gordon voltou-se, em algum momento, para a hipótese de uma divisão já flagrante no sistema da ditadura militar. Gordon conduziu a Casa Branca a um universo de absoluta desinformação. Ambos esqueceram Costa e Silva e não analisaram a cisão aberta nas Forças Armadas, a partir da contradição de Carlos LacErda, de fato o grande ator trágico da política brasileira. Para comprovar o que afirmo, basta consultar a memória dos fatos. Uma sugestão que faço a Ricardo Melo.

Como o PT confirmou Dilma, agora não pode haver recuo


Pedro do Coutto

O encontro nacional que o PT realizou sexta-feira em São Paulo, com a presença do ex-presidente Lula, para reafirmar a candidatura à reeleição de Dilma Rousseff, sobretudo pela repercussão assinalada pelo Globo, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, os três principais jornais do país, tornou irreversível a presença da atual chefe do Exército nas urnas de outubro deste ano. Em artigo anterior, eu já havia focalizado a direção que o tema ia tomar, no momento reforçado pelo gestor e pelo pronunciamento de Luís Inácio da Silva. 

Aliás, os fatos políticos da semana passada foram bastante expressivos. Além da ênfase da Lula no apoio, a reportagem de Cleide Carvalho, O Globo 25de abril, derrubou de modo definitivo a candidatura do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo paulista. Não bastasse o texto, uma foto provavelmente divulgada pela internet obriga o Partido dos Trabalhadores a escolher um nome que o substitua. Principalmente porque o desenrolar dos acontecimentos no primeiro colégio eleitoral do país (pesa 23 por cento) inevitavelmente reflete-se no rumo das eleições para o Planalto.

AÉCIO E CAMPOS

Outro fato que possivelmente influirá na pesquisa que o Datafolha divulgará esta semana, foi à aproximação entre os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos. Ambos, claro, empenham-se para que haja segundo turno no pleito para presidente e um deles enfrente Dilma Rousseff, que, se não vencer no primeiro, tem presença assegurada no segundo.

É lógico, porém, estando na frente de Campos, as fotos publicadas nos jornais só podem favorecer Aécio e a conseqUência do erro tático foi logo traduzida na reação contrária de Marina Silva. Ela é vice do ex-governador de Pernambuco, e não base de apoio do senador por Minas Gerais, segundo maior reduto de votos do Brasil. Aécio Neves e Eduardo Campos cometeram um equívoco. Os políticos importantes também erram. Pois abalando o ex-governador de Pernambuco, Neves torna mais difícil uma segunda convocação do eleitorado.

PADILHA FORA

Mas e a questão de São Paulo? O PT precisa recorrer a outro nome para entrar em campo no lugar de Padilha. Quem poderá ser? Os ministros Aloísio Mercadante, da Casa Civil, e Marta Suplicy, tornaram-se inelegíveis, uma vez que não deixaram os cargos até 5 de abril, seis meses antes, como determina a legislação eleitoral. Paulo Skaf, presidente da Confederação Nacional da Indústria, é candidato pelo PMDB. Que fazer? Um dilema complicado.

A solução, sustenta meu amigo Sérgio Wilson, do quadro técnico de Furnas, é tentar convencer Lula a disputar o governo paulista. Não será tarefa fácil, claro, mas só a colocação da perspectiva forçará um recuo de Geraldo Alckmim no apoio a Aécio Neves, embora ambos sejam do PSDB. Por quê? Simplesmente porque Alckmin sabe que Lula só poderá aceitar se a vitória de Dilma correr algum risco. São Paulo, Minas e Rio de Janeiro representam a metade de todo eleitorado nacional. Se Aécio não constituir uma ameaça, a área paulista não se tornará tão importante para o PT. Principalmente na medida em que, indiretamente, por inação, o governador não se empenhar na campanha de seu correligionário. Minas é Minas; São Paulo é São Paulo.

Getúlio, interpretação soberba de Tony Ramos

Pedro do Coutto

O filme de João Jardim é ótimo e apresenta, além da sequência dos últimos dias do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou a 24 de agosto de 1954, uma interpretação fantástica, soberba mesma, do ator Tony Ramos vivendo o personagem título, no trágico desfecho do drama policial e político desenrolado com a morte do major da Aeronáutica no atentado da Rua Tonelero, onde morava o jornalista Carlos Lacerda.

Foi numa noite de 5 (cinco) de agosto, em que o major Rubem Vaz acompanhava Lacerda que havia participado de uma palestra contra o governo Vargas no alto da Tijuca. No atentado, praticado pela guarda do Palácio do Catete, ficou ferido o guarda municipal Sálvio Romero, que acertou um tiro no automóvel, um táxi, que transportava os sicários, assim chamados na época. Esse táxi, vejam só, fazia ponto na rua Silveira Martins, ao lado do Palácio do Catete. Lacerda foi baleado no pé. O autor que ordenou o atentado, Gregório Fortunato, era chefe da guarda pessoal de Vargas. Mas estes fatos os leitores vão identificar no filme. Os personagens também. 

Quando afirmo que a atuação de Tony Ramos é excepcional o faço em função da extrema complexidade do personagem que teve a sorte de interpretar. Personalidade dificílima, portanto obrigando o ator a mergulhar nos sintomas que conseguiu perceber. Impenetrável. Ambíguo, extremamente político e de sensibilidade pouco exposta. Para acentuar essa realidade, hoje histórica, recorro às duas citações, a meu ver chaves, na tentativa e no esforço de traduzi-lo. Carlos Heitor Cony e o senador Afonso Arinos de Melo Franco. O jornalista Carlos Heitor Cony, com o brilho que caracteriza seus textos, separou Getúlio de Vargas.

GETÚLIO SEPARADO DE VARGAS

Getúlio, o homem extrema e profundamente político, transitando e se equilibrando nas mudanças das situações. Vargas, o estadista. O criador do IBGE, do primeiro censo demográfico do país, em 1940, o homem que implantou a Cia. Siderúrgica Nacional, autor da CLT, em 1943, instalando as leis trabalhistas, as férias, o direito à previdência social, o que não existia, o homem que limitou as jornadas de trabalho, criou, em 53, e inaugurou a Petrobras no início de 54. O homem que, ao lado Governador Juscelino Kubitschek, dias antes de morrer, inaugurou à siderúrgica Belgo Mineira. O político que, no poder, enfrentou em 32 a revolução constitucionalista de São Paulo, a intentona comunista de 35, o atentado integralista a (braço de nazismo no Brasil) em maio de 38, no qual esteve a um passo da morte.

Foi também no seu período de ditador, De 37 a 45, que, de 37 a 42, o chefe de polícia foi temível Filinto Muller. Filinto não chegou a 45. Vargas o demitiu em 42, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, a Itália e Japão. Mas não desejo afastar da figura de Vargas. Exatamente vinte após sua morte, numa entrevista à Tribuna da Imprensa, Afonso Arinos traçou uma revisão histórica, assinalando arrepender-se do discurso que fizera em 54, no Congresso, contra o então presidente. Ele não teve nada, como o filme mostra, com o atentado a Lacerda. Na ocasião, na única vez que citou o nome do jornalista, afirmou: “o tiro contra Lacerda foi vibrado nas costas do governo. Só morto sairei do Catete”. Cumpriu a promessa. E o tempo levou Afonso Arinos a fazer, acrescentando a Cony, outra definição essencial sobre Vargas: ele foi um gigante solitário; um enigma até para si mesmo.

Tony Ramos compreendeu o abismo psicológico de um homem da dimensão de Vargas, no desfecho: “Saio da vida para entrar na História”. Não deixem de ver o filme.

Dilma reage ao “Volta, Lula”; prazo é curto para mudança

Pedro do Coutto
 
Ao afirmar que se encontra plenamente consciente da lealdade do ex-presidente Lula a ela, no jantar que ofereceu no Alvorada aos editores das paginas esportivas, a presidente Dilma Rousseff decidiu reagir pública e diretamente ao movimento articulado em certos bastidores contra sua candidatura a reeleição, como também para cobrar o compromisso assumido recentemente em favor de seu nome. Assim desestimulou seu antecessor e grande eleitor a dar ouvidos a políticos motivados a afastá-la do posto. A melhor matéria sobre o assunto, sem duvidas, foi de Natuza Nery e Aguirre Talento, manchete principal da Folha  de São Paulo, edição de 30 de abril. Importante também o texto de Marceu Vieira, publicado no Globo.

Com isso, Dilma Rousseff procurou conter e isolar seus adversários dentro do PT e do PR, algo politicamente muito desejado pelo PMDB, que sente crescer sua importância eleitoral na base aliada, principalmente para ocupar o espaço dos descontentes. Política é assim. Mas o tempo está correndo, o que é fundamental. Exatamente por tal motivo é que a corrente dilmista convocou a manifestação de sexta-feira, no sentido de implantar um clima de pré-convocação.

E por falarem em convenção, verifica-se lendo-se o artigo 8 da lei 9.504/97, Lei Eleitoral, que o prazo para as convenções partidárias destinadas à escolha dos candidatos (e das candidatas) está fixado para o período entre 10 a 30 de junho. Pode ser antecipado se o estatuto dos partidos preverem data anterior. Quer dizer : o processo pode ser antecipado. Nunca adiado. 

Não há tempo, portanto, para uma mudança tão radical quanto a de Lula entrar em campo no lugar de Dilma Rousseff. Sobretudo porque, pela reportagem da Natuza Nery e Aguirre Talento, o estatuto do PT assinala que a convenção se efetue a 29 de junho, dentro do prazo legal. Não importa a queda da atual presidente da Republica nas pesquisas. A legenda e a chamada base aliada têm que ir com ela. Não há outro jeito. Exceto para o Instituto MDA, que realizou levantamento para a Confederação Nacional dos Transporte, Dilma desceu, mas Aécio Neves e Eduardo Campos não subiram.

OS NÚMEROS

Vamos comparar os números mais recentes. O Datafolha apontou 38 pontos para Rousseff, 16 para Aécio, 10 por cento para Eduardo Campos. O Ibope achou 37 para Dilma, 14 para Aécio, apenas 6 pontos para Eduardo Campos. Agora o MDA: Dilma os mesmo 37, Aécio salta para 21 pontos e o ex-governador de Pernambuco, Campos apareceu com 11 por cento das intenções de votos. 

Como se verifica é grande, absolutamente fora do normal, resultado de um desencanto e de uma insatisfação, o índice dos que (hoje) pretendem anular o voto ou votar em branco. O panorama pode mudar, claro. Mas ainda não mudou. Por enquanto o impulso  de mudança reside numa escala do próprio PT. E no PR. Mas caso a candidatura de Dilma Rousseff se mantenha, o que esses petista poderão fazer ? Votar em quem ?  

O doleiro Youssef, vivendo um personagem de Nélson Rodrigues

Pedro do Coutto

Em suas crônicas em O Globo, e na sua obra no plano da arte, Nélson Rodrigues, de quem fui amigo, criou e imortalizou a figura do homem fatal, um personagem-chave no caminho de seus enredos. No futebol, fatal era o que fazia gols decisivos para as vitórias; no palco, aquele que desencadeava os rumos dramáticos. De qualquer forma, representava aqueles cuja presença dimensionava os rumores dos acontecimentos. Me lembro do personagem ao ler a excelente reportagem de Jailton de Carvalho, O Globo de ontem, 29 de abril.

E fico pensando como é possível alguém desenvolver e envolver em torno de si, no sistema de poder e à margem da lei, capaz de desviar e lavar uma gigantesca montanha de dólares. Calcula-se ter movimentado, ao longo dos últimos anos, algo em torno de 10 bilhões. Não é fácil. Unir negociadores em torno de tão longo estado, no país e no exterior, não é tarefa par qualquer personagem comum. Assim, suponho, existe uma força estranha emoldurando sua personalidade.

Uma mistura de sigilo é ostentação, fatores incombináveis, conduzindo seus passos, suas palavras, suas ações. Os telefonemas que trocou gravados pela Policia Federal, refletem essa sua face oculta. Psicologicamente das mais complexas. Não se contentava apenas com o luxo e riqueza. Não. Comprou ate um avião e terminou conduzindo deputado André Vagas ao abismo da ética e da moral.

No fundo, Alberto Yousseff tratava as pessoas como se elas fossem escravos do seu poder. Não tinha a menor consideração pelos seus parceiros. Aparentava, somente, pois se os considerasse socialmente não travaria com eles os diálogos que manteve e que foram amplamente publicados nos jornais, nas emissoras de televisão e nas rádios. Ele estava sempre vários degraus acima e seus sócios nas empreitadas degraus abaixo. Dependiam dele. E ele, como o homem fatal de Nélson Rodrigues, os manipulava à vontade. No fundo, junto com o dinheiro, lhes fornecia um estranho desprezo interior.

Na verdade, em sua visão pessoal, os desprezava e deles se aproveitava. Era ele, no âmago da questão, suponho,  quem tinha menos a perder se as coisa não dessem certo. Fascinado por si mesmo, sobretudo em face de sua ascensão econômica na vida, julgava-se muito mais capaz do que aqueles que dele dependiam para transformar reais em dólares, sucatas em laboratórios e contratos com a administração pública.

Planejou tudo, assumindo transformou num enorme arquivo humano. Das ambições, das fascinações, das fraquezas de uma parte da elite. Revelou os incríveis impulsos e tentações dos que buscam enriquecer de qualquer jeito. E enveredam pela estrada da corrupção. Nesse trajeto sinistro o homem fatal uniu, em raros lances, tanto os corruptos quanto os corruptores.

Lula esquece que foi ele quem demitiu Dirceu

Pedro do Coutto

Numa entrevista à rede de televisão de Portugal (melhor e mais ampla matéria a respeito) foi publicada na edição de 28, da Folha de São Paulo, o ex-presidente Lula afirmou que, numa escala de 80%, a decisão do Supremo Tribunal federal foi de inspiração política no caso do julgamento do mensalão. As declarações de Luís Inácio à RTP, contidas na reportagem da Folha são contraditórias.
Em primeiro lugar, o ex-presidente esquece que foi ele, então no Planalto, quem demitiu o ministro José Dirceu da chefia da Casa Civil, logo que o escândalo veio à tona, em consequência das denúncias do ex-deputado Roberto Jeferson. Se ele, Lula, não tivesse certeza quanto ao envolvimento daquele que chamava de capitão do time, recorrendo à linguagem do futebol para destacar a importância do primeiro ministro de fato de seu governo, não deveria tê-lo afastado antes mesmo dos trabalhos da CPI começarem a se desenrolar. O ato, da demissão, antecedeu até mesmo as conclusões a que chegou a Comissão Parlamentar de Inquérito, principalmente antes da acareação entre os dois principais personagens. Isso de um lado.
De outro, na mesma entrevista à RTP, Lula afirmou que “não vou ficar discutindo uma decisão da Suprema Corte”. Mas como? Foi ele próprio quem disse que o resultado do julgamento do STF foi 80% político, assinalando indireta, porém claramente, que o peso do conteúdo jurídico ficou somente com os 20% restantes. O ex-presidente, assim deixou transparecer, que não se encontrava  num momento emocional compatível com sua importância no quadro político e sobretudo nesta fase de pré-campanha pela sucessão presidencial. Com isso, abalou o movimento volta Lula, dentro do PT, e contribuiu de forma direta para reconsolidar a candidatura da presidente Dilma Rousseff.
SEM EQUILÍBRIO
Lula, apesar do erro, continua a ser o grande eleitor do país, como as pesquisas do Datafolha e IBOPE revelam, porém mais para alguns outros do que para si próprio. Curiosa esta colocação, real na verdade. Me referi a alguns outros candidatos exatamente para excluir dessa lista imaginária o nome de Alexandre Padilha para o de São Paulo, principal colégio de votos do país, sobretudo depois das matérias publicadas pela Veja, pela Folha de São Paulo, pelo O Globo, pelo O Estado de São Paulo, a respeito da presença do Labogen na área administrativa do Ministério da Saúde.
Mas esta é outra questão. O essencial é que nas declarações à rede de televisão de Portugal, transcritas na reportagem da  Folha de São Paulo, Lula não demonstrou o equilíbrio que se espera de um ex-presidente da República, sobretudo se levarmos em conta o potencial de votos que inegavelmente possui e certamente vai direcionar às urnas de outubro.

Se reeleita, Dilma não dependerá mais de Lula

Pedro do Coutto
A revista Veja que circulou sábado, e que portanto se encontra nas bancas, publicou reportagem muito boa de Daniel Pereira e Adriano Ceolin focalizando as divergências entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, contradição que estaria – aliás está – dividindo as bancadas do PT no Congresso entre o voto para Dilma nas urnas e o “volta Lula” para a campanha nas ruas do país. A matéria está muito elaborada, inclusive quanto ao desfecho do separatismo.
Não haverá. É impossível substituir uma presidente que disputa a reeleição, a menos que ela renunciasse, por uma decisão da convenção partidária. Inclusive, como Daniel Pereira e Adriano Ceolin destacaram, tal manobra atingiria direta e negativamente o próprio ex-presidente da República. Divergências entre sucessor e sucedido sempre haverá. Não existem duas pessoas iguais sobretudo capazes de concordar com tudo. Estratégia política é outro assunto.
Dilma Rousseff e Luiz Inácio da Silva, em matéria de outubro deste ano, quando o eleitorado vai votar, não possuem linha de recuo. E tem mais: qualquer divisão interna no PT, diretamente amplia a importância do PMDB na campanha eleitoral. Assim, dividindo-se, o PT só tem a perder. Não só no plano federal, mas na disputa em vários estados, a começar por São Paulo e Paraná, dois focos iluminados pela imprensa na teia sinistra articulada pelo doleiro Alberto Youssef, na qual se emaranharam tantas pessoas, da política e da administração estatal.
PERDENDO ESPAÇO
A candidata do PT é Dilma. O que os lulistas de hoje temem é a perspectiva de perderem ainda mais espaço dentro do partido. Pois se for reeleita, como as pesquisas do IBOPE e Datafolha até agora estão apontando, ela deixa de precisar do apoio público de Lula. Ganha vôo próprio. Até porque depois de dois mandatos no Planalto, ela não tem mais futuro político.
Ao contrário de Lula, que já revelou sua intenção de disputar novamente a presidência da República nas urnas de 2018. Nesse quadro lógico, a liberdade, como no hino, abre as asas sobre ela. Dilma tem descido nos levantamentos de opinião, de acordo com o Datafolha e o IBOPE. Mas Aécio Neves e Eduardo Campos não sobem. Sobe a insatisfação generalizada, atingindo os políticos por igual. E o fenômeno, apesar de crítico, não abala a democracia, nem muda a direção concreta dos votos.
Não faltam motivos para essa  insatisfação. Basta lembrar que nos últimos anos três chefes da Casa Civil foram demitidos por fatos graves: José Dirceu, Antônio Palocci, Erenice Guerra. O que dizer da Petrobrás? O cenário entristece e desanima qualquer um.

PT terá que substituir Padilha em São Paulo

Pedro do Coutto

Seja qual for o desenvolvimento ou o desfecho do problema político envolvendo o ex-ministro Alexandre Padilha, episódio revelado pela revista Veja e pelos jornais O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo durante a semana que se encera, a candidatura do ex-titular da Saúde ao governo de São Paulo tornou-se insustentável. Principalmente em face de sua própria resposta que geraram matérias de Marina Dias e Filipe Coutinho, todos estes textos publicados na Folha de São Paulo de sábado, 26 de abril.
A resposta de Alexandre Padilha não alcançou o mesmo tom das acusações, inclusive usou ele uma expressão contida nos Dez Mandamentos (usaram seu nome em vão) inadequada para o contexto no qual foi colocada. Mas sem entrar no mérito da questão,  o fato ocorrido causou um desgaste eleitoral – mais um – para o PT, refletindo-se diretamente na candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Porquê isso?
Simplesmente porque São Paulo concentra 22% do eleitorado brasileiro. Um provável recuo nessa base reflete intensamente no quadro geral. Muito sensível, portanto. Sobretudo tem que se levar em conta que o segundo colégio eleitoral em matéria de votos é Minas Gerais e o terceiro o Rio de Janeiro. Os três – São Paulo, Minas e Rio – representam  pouco mais de 50% dos votantes. Minas Gerais constitui, sem dúvida, um obstáculo para Dilma e no Rio de Janeiro a confusão é geral.
Não apenas em função do grande número de candidatos, mas porque, no final das contas, hoje, não se sabe quem vota em quem. Ora o governador Fernando Pezão é quem apoia a presidente da República, ora é o senador Lindbergh Farias, ora é o senador Marcelo Crivella. O ex-governador Sérgio Cabral está com Dilma. Porém o presidente do PMDB fluminense, ex-deputado Jorge Piciani, anunciou aos jornais que comanda a abertura de uma dissidência em favor do senador Aécio neves. A confusão é geral.ONFUS
CONFUSÃO GENERALIZADA
Agravando o panorama do Rio de Janeiro, são candidatos ao governo, além de Pezão, que aparece pouco nas pesquisas, Anthony Garotinho, Marcelo Crivela, Lindbergh Farias, os principais nomes entre outros. Para o Senado, ainda não se sabe se Francisco Dornelles disputará a recondução contra Sérgio Cabral. Como se vê a confusão é generalizada. Mas esta é outra questão, em relação à qual Dilma não pode interferir. Mas pode (e deve) interferir em São Paulo, ponto estratégico vital para sua campanha.
Todos estes são problemas, além do desgaste no Paraná, outra unidade expressiva em matéria de votos por causa das ações vergonhosas desencadeadas pelo deputado André Vargas e pelo doleiro Alberto Youssef. O desastre político, administrativo, eleitoral, causado pela dupla não tem fronteiras. Vai do Brasil a Pasadena, no Texas, Estados Unidos, onde aconteceram surpreendentes pagamentos. Enormes, acrescente-se.

Renan acentuou divisão na base do governo

Pedro do Coutto

Decidindo recorrer ao plenário do Supremo – recurso impossível já que a própria ministra Rosa Weber já tomou a iniciativa, o que o senador Renan Calheiros na realidade desejou fazer foi acentuar a existência de uma divisão na base aliada do governo no Congresso Nacional. E como o próprio PT resolveu não recorrer e aceitar a CPI da Petrobrás, Renan tentou, de fato, destacar a importância do PMDB, seu partido, junto a presidente Dilma Rousseff. Não pode ser outra a interpretação, pois se o PT, principal partido do governo admitiu finalmente a Comisso Parlamentar de Inquérito, por qual motivo o PMDB deveria agir em sentido contrário?

A manobra não vai surtir efeito, pois a divisão na base aliada é muito mais profunda do que parece. Há inclusive uma corrente do PT revelando insatisfação com os reflexos políticos do rumo da administração.
Agora mesmo, como O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo publicaram em suas edições de sexta-feira, a teia sinistra de corrupção com a participação do doleiro Yousseff estendeu-se até São Paulo, principal colégio eleitoral do país, podendo abalar a candidatura do ex-ministro Alexandre Padilha, lançado por Lula e Dilma ao governo paulista, A crise assim se aprofundou à base talvez da coincidência calcada no fato de um ex-auxiliar de Padilha na pasta da Saúde, da qual era titular, ter passado, depois de ser demitido, a integrar a equipe de Alberto Yousseff e outros sócios do fantasioso Labogen, laboratório que teve seu contrato rescindido depois de duvidosa assinatura. Mas esta é outra questão.
CPI DA PETROBRAS
O essencial desloca-se, neste momento, para o cumprimento da liminar de Rosa Weber e instalar a CPI do Senado, ou então a CPI do Congresso, incluindo representantes da Câmara também. Seja qual for o entendimento final, cabe à presidência do Congresso assumir tal providência. Ocupada neste instante pelo senador Jorge Viana, já que Renan Calheiros encontra-se em Roma para o ritual das solenidades que envolvem a canonização do padre José de Anchieta pelo Papa Francisco. Jorge Viana torna-se assim o responsável pela entrada em campo da CPI, agora coberta com a adesão do PT. Que decidiu também pela renúncia do deputado André Vargas.
Afinal de contas, as ações de André Vargas e Yousseff deixaram no seu rastro uma perplexidade geral no eleitorado e uma desarticulação enorme no sistema de poder do país, além de lançar uma atmosfera de pessimismo sobre o governo. A presidente Dilma Rousseff tem que agir rapidamente. Ela necessita sair da defensiva. É negativo para sua candidatura.

Rosa Weber impede recurso suspensivo no caso da CPI

 

Pedro do Coutto

Em sua edição de quarta-feira, reportagem de Carolina Brígido, O Globo publicou a decisão da ministra Rosa Weber, concedendo liminar à ação oposicionista a do Congresso para que a CPI recentemente constituída se restringisse aos fatos ocorridos na Petrobrás e não, como aparentemente desejava a maioria governista, fosse extensiva a outros acontecimentos ligados à corrupção envolvendo correntes políticas hoje na oposição.
A decisão da ministra do STF, acolhendo a liminar e remetendo seu despacho ao plenário da Suprema Corte, reveste-se de uma consequência fundamental quanto a decisão. A iniciativa bloqueia qualquer recurso governista ao tribunal pleno, o que poderia levar a um eventual efeito suspensivo, ou a uma tentativa nesse sentido. Remetendo sua decisão monocrática ao próprio Supremo, o recurso tornou-se impossível simplesmente por falta de motivo concreto. Não há, assim, nem motivo, nem pretexto.
As oposições, a partir de agora, podem cobrar da presidência do Senado (pedido original) ou do Congresso, caso seja ela formada por deputados e senadores, a instalação das investigações com as respectivas convocações. Não existe obstáculo, a menos que o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, convoque imediatamente o leno da corte e, por maioria, decida derrubar a liminar. Mas isso não é provável.
“CONVIDADOS”
Aliás, a CPI muda pouco o panorama, já que acusados no episódio Passadena, como ex-diretores, já se prontificaram a comparecer à Câmara na condição de convidados. Os convites, vale destacar este aspecto, foram aprovados com alguns votos do próprio PT, o que leva a acreditar que o capítulo Petrobrás causou divisão na chamada base aliada do Planalto.
Não se encontraria ela, portanto, com a solidez esperada pelo Executivo. E no caso de Passadena, envolvendo Paulo Roberto Costa, Nestor Cerverá, Sérgio Gabrielli, tanto faz deporem numa CPI como convocados, ou numa Comissão Técnica na qualidade de convidados. As informações não se alteram por causa disso. E não se pode restringir as indagações à existência das duas cláusulas contratuais com a empresa do barão belga. Devem abranger também seu conteúdo, uma vez que a ruptura de uma sociedade na escala de um bilhão de dólares não pode ser estabelecida à base de motivos fúteis ou simples. Não é possível que assim seja. Este aspecto, essencial, tem que ser examinado também. Pois denúncias não faltam. Faltam explicações convincentes.
A maioria governamentista, agora, não possui meios para evitá-las. Sobretudo porque, politicamente, as tentativas de bloqueio da CPI encontram-se, no fundo, causando mais desgaste ao governo do que coloca-la em funcionamento. Porque sem ela aumenta a pressão e a cobrança pública aumenta.

E se Neymar não puder jogar na Copa?

Pedro do Coutto  

Na edição de quarta-feira 23 de abril, a Folha de São Paulo publicou reportagem de Marcel Rizzo – muito boa – revelando viagem que o treinador Felipe Scolari, o coordenador Carlos Alberto Parreira e o auxiliar Flávio Murtosa realizaram a vários países para realizar contatos com sete titulares da Seleção Brasileira que apresentam problemas de vários tipos no exterior. Número alto, correspondendo a mais da metade da equipe. Estamos, lembra Marcel Rizzo, a 50 dias do início da Copa do Mundo. Está em cima da hora, sobretudo porque a lista dos convocados tem de ser anunciada à FIFA até 13 de maio.
Não sei porque as páginas esportivas até agora não procuraram Felipão para tentar ouvi-lo sobre a hipótese de Neymar não se livrar dos reflexos da contusão que o atingiu e não puder entrar em campo. Afinal de contas, o Barcelona revelou que prevê sua volta ao time daqui a quatro semanas. Uma já se passou, faltam três, portanto. Mas a parada de um mês é muito longa. E existe a hipótese de a plena recuperação exigir mais tempo. Qual a alternativa, já que sua ausência obrigaria a mudanças táticas sensíveis. Neymar é um gênio na arte do futebol sobretudo do meio campo para a frente. Vem tocando a bola de trás e, como todos sabem, é brilhante nos arremates.
INSUBSTITUÍVEL?
Sua falta criaria um problema dos maiores. Claro que não é insubstituível. Nem Pelé, o maior de todos os tempos, foi. Lembrando 62, ele sofreu distensão muscular na primeira partida contra a Tchecoslováquia. Naquele tempo não havia substituição no meio das partidas. Contra a Espanha entrou Amarildo, então no Botafogo, em seu lugar. A partir daí uma sequência de vitórias. Fomos campeões do mundo. Ninguém é insubstituível.
A propósito, me surge da memória um belo artigo do jornalista Achiles Chirol, no antigo Correia da Manhã, que como ele se foi na névoa do tempo, acentuando que se a Seleção dependesse de um só homem para vencer, por mais genial que fosse, não seria o futebol brasileiro. Garrincha foi excepcional para a consagração. Ocorre agora, no entanto, que a maioria da equipe de Felipão joga em clubes fora do Brasil. Dos sete titulares apontados pela Folha de São Paulo, apenas Fred, do Fluminense, joga aqui. E tal realidade é bastante prejudicial à formação da equipe. E se Felipão, a vinte dias de convocá-los, tem dúvidas, quanto mais os torcedores, cuja presença nos estádios é fundamental.
É o momento de Felipão falar e, acima de tudo, se concentrar mais na Seleção e na escolha da equipe incluindo alternativas táticas e técnicas. A mais importante neste momento: como armará o time se Neymar não puder estar presente. Uma incógnita. E o futebol não vive de mistérios. Ao contrário. Exige transparência.

IBOPE: insatisfação ainda não muda quadro eleitoral

Pedro do Coutto

A pesquisa do IBOPE, objeto de matéria de Cristiane Jungblut, O Globo de sexta-feira 18, assinala a existência de acentuada insatisfação mais com a política em geral do que com o quadro eleitoral. Tanto assim que, em relação ao levantamento anterior, Dilma  Rousseff desceu três pontos, descendo de 40 para 37% das intenções de voto, mas Aécio Neves e Eduardo campos não subiram, o primeiro registrando 14, o segundo apenas 6%.
A insatisfação está registrada no elevado índice dos que hoje votariam em branco ou anulariam o voto: 24%. E também quanto a forma de governar da atual presidente: 47 aprovam mas 48% desaprovam. A reação contrária está aí. Mas é geral. Tanto assim que, com 37%, Dilma venceria no primeiro turno. Isso porque com 24% de nulos e brancos, para efeito de maioria absoluta, 76 passa ser igual a 100. Trinta e sete é quase a metade. Devendo-se considerar também que uma parcela de 9% disse não ter ainda se definido. Esses 9 pontos não vão para uma candidatura só.
Além do mais existem inúmeros candidatos. O pastor Everaldo registrou 2 pontos, o senador Randolfo Rodrigues – aliás, bom parlamentar – assinalou 1 ponto. Mas esta é outra questão. O essencial é que existem motivos de sobra para a insatisfação descoberta. Os aposentados e  pensionistas do INSS têm motivos para estarem satisfeitos? No Rio e São Paulo, por exemplo, duas grandes capitais, são bons os transportes coletivos? O saneamento, de modo geral, a segurança pública?
Vejam os leitores o que aconteceu em Salvador. Uma greve da Polícia Militar deu margem a saques em supermercados e arrombamentos de lojas comerciais. Foi um desastre social. No Rio de Janeiro, a Arquidiocese cancelou as celebrações da Semana Santa por falta de segurança. Em frente à Catedral Metropolitana estavam concentrados os que foram tirados da invasão do terreno da empresa OI, no Engenho Novo.
Enfim, motivações não faltam para essa insatisfação que o IBOPE revelou. E que falar do real custo de vida? Da eterna compressão salarial? A questão, portanto, é de amplitude enorme. O que está acontecendo, porém, é que Dilma recuou três degraus, mas Aécio e Campos não avançaram. Pode ser que venham a ocupar o espaço da insatisfação e de mais e de mais uma nova esperança. Porém, até agora, não deram sinal que conduza concretamente a tal perspectiva. Por enquanto, o desejo de mudança abrange todos os candidatos. A vantagem de Dilma Rousseff permanece. O resto são hipóteses. Hipóteses não são fatos.

Assaltos se repetem com o sol por testemunha

Pedro do Coutto

Os feriados e finais de semanas com sol pleno vêm sendo marcados não só pela procura de lazer por parte de centenas de milhares de pessoas nas orlas do mar da zona sul do Rio, mas também pelos assaltos em série que se repetem já de forma insuportavelmente rotineira, e também por arrastões praticados por bandos organizados. A quarta-feira que passou foi outra vez palco de violência como a reportagem de Célia Costa e Renata Leite, O Globo  do dia seguinte assinalou. Como inclusive assinalou a empresária Viviane Oliveira a respeito do episódio mais recente, a Polícia tem que ocupar um espaço para agir de forma preventiva.

Os prejuízos, claro, são enormes para a cidade e para todos. À proporção em que se repetem tais ações criminosas aumenta a insegurança coletiva. Ir à praia expor-se ao sol e ao sal tornou-se uma ação de riso. Cada vez maior, diga-se de passagem, pois a ousadia dos bandidos cresce a cada semana, Ipanema, Leblon, Copacabana, Arpoador, constituíram-se em cenário dos confrontos. Há algo estranho em tudo isso. A repressão deve ser substituída pela prevenção. Pois repressão significa agir em consequência de algo que já ocorreu infelizmente. A prevenção deve mostrar sua força de persuasão para impedir os acontecimentos deploráveis que, no fundo, de uma forma ou de outra, de uma Maira ou de outra, afetam a sociedade.

A violência gerada pelas ações criminosas irresponsáveis influi na consciência e no comportamento coletivo. As pessoas já evitam sair com objetos de pequeno valor expostos por temerem chamar atenção e assim tornarem-se Aldo dos assaltos. Basta esta colocação para se transmitir a atmosfera existente no Rio.

Uma verdadeira calamidade. Com os  assaltantes liberados, impunes após breves passagens nas delegacias, os atos se repetem. O sol é testemunha, a população, de modo geral, a vítima do descalabro. Afinal de contas, como foi possível a situação de desordem chegar a esse ponto? Não é apenas um caso de omissão. Pior. De proliferação. Isso porque os bandos que praticam arrastões vêm se tornando cada vez mais numerosos e assim mais difíceis de combater. As situações críticas acumularam-se através do tempo. Anulá-las, agora, exige um esforço muito maior do que aquele que deveria ter sido despedido e não foi. Turistas passaram a ser agredidos, como comprovam os depoimentos revelados pela reportagem de O Globo.

POLICIAMENTO

O policiamento foi reforçado, mas nem por isso conteve a ação dos criminosos que foram em frente ultrapassando as barreiras que surgiram. E, ainda que pareça incrível, a repressão policial não recebeu o apoio que merecia. O que está acontecendo? Roubos e arrastões que merecem repulsa unânime, estão motivando conivências, não apenas pelo silêncio, o que por si já seria desanimador, mas também por atitudes aparentes que deixam transparecer uma concordância absurda, por mais estranho que pareça. Mas tal aspecto extremamente negativo encontra-se assinalado na matéria que dimensiona nitidamente a sensação reinante da insegurança que se expande. Expande é a palavra certa para mostrar o quanto é urgente uma ação policial coordenada e racional. Pois, no fundo, a apropria vida humana encontra-se sob risco. Torna-se imperioso que o exemplo de quarta-feira torne-se um marco efetivo para um novo estilo de atuação por parte da Segurança Pública.

Intenções de voto ampliam margem em favor de Dilma

Pedro do Coutto

A nova pesquisa do Ibope a respeito das intenções de voto para a sucessão presidencial de 2014, objeto de reportagem de Leonardo Guandeline, O Globo de 19/11, ampliou a margem a favor de Dilma Rousseff, não só porque ela registrou avanço em relação ao levantamento anterior, mas também pelo fato de seus adversários não terem  reduzido sua vantagem, mantendo portanto estagnado o panorama da disputa, sob a ótica de hoje. Foram considerados pelo Ibope quatro cenários alternativos: ela contra Aécio Neves e Eduardo Campos. Contra Marina Silva e Aécio. Contra Serra e Campos. Finalmente na hipótese de enfrentar José Serra e Marina Silva. Em todas as situações são bem altos os índices dos que, no momento, se dispõem a anular o voto ou votar em branco. Mas como os sufrágios nulos e brancos são afastados para efeito do cálculo da maioria absoluta, a atual presidente alcançaria essa maioria logo no primeiro turno, acentua a pesquisa.

O quadro está frio. Tanto assim que é elevada também a percentagem dos que não souberam (ou desejaram) responder à consulta. De qualquer forma permanecem as indefinições na área oposicionista: Aécio ou Serra no PSB; Marina ou Eduardo campos no PSB. Interessante confrontar  as intenções de voto entre eles. O ex-governador paulista reuniu 19 pontos, superando Aécio que ficou com 14. No PSB, Marina Silva atingiu 16 pontos contra 7 de Campos. Mas ocorre, no Partido Socialista Brasileiro, que a ex-ministra do Meio Ambiente recuou  de21 para 16 pontos, enquanto Campos caiu de 10 para 7%. A campanha, é verdade, ainda não começou. Mas até agora a disputa não despertou entusiasmo. Estivesse, tal característica iria se refletir na dança dos números. A impressão que passa é que a sociedade está interpretando a sucessão de 2014 como algo que já houvesse acontecido. Parece ter se estabelecido um consenso como se a reeleição fosse algo inevitável ou então como um fato consumado. As oposições ainda não encontraram sua linguagem. Nem mesmo o conteúdo sobre o qual pretendem desenvolver seus temas e sua atuação.

CENÁRIO POR CENÁRIO

Vejamos cenário por cenário. Dilma subiu de 41 para 43 pontos; Aécio ficou com 14; Eduardo campos desceu de 10 para 7%. NO segundo cenário, Rousseff avançou de 39 para 42; Marina desceu de 21 para 16; Aécio Neves permaneceu em 13. No terceiro cenário, Dilma cresce de 40 para 41 pontos; Serra aumenta de 18 para 19; Eduardo Campos cai de 10 para 7%. No quarto cenário alternativo, Dilma sobe de 39 para 40%; Serra avança de 16 para 17 e Marina Silva passa projeções simuladas no cão de segundo turno: Dilma derrotaria Aécio por 47 a 18; venceria Marina por 44 a 24 pontos; bateria Eduardo campos a 12%.


Os resultados acentuam razoável vantagem de Serra sobre Aécio e diferença muito grande (mais que o dobro) das intenções de votar em Marina Silva do que ir às urnas com o governador de Pernambuco. Em síntese: enquanto os partidos de oposição não definem seus rumos e os nomes com os quais vão disputar as eleições, a atual presidente da república vai seguindo seu rumo mantendo ampla liderança. A pesquisa foi feita pouco antes das prisões do mensalão. Vamos ver como será depois delas. Pessoalmente não creio que possam causar mudança de peso no quadro.

Mensalão: candidatos em silêncio esperam pesquisas

http://www.esmaelmorais.com.br/wp-content/uploads/2012/08/charge150812.jpg

Pedro do Coutto


Os candidatos às eleições de 2014, não só quanto à sucessão presidencial, mas também incluindo disputas estaduais, permanecem em silêncio diante da decisão do Supremo em relação ao mensalão, especialmente quanto as prisões decretadas para diversos condenados. Estão aguardando a divulgação de pesquisas do Datafolha e do Ibope para que possam sentir efetivamente quais são as reações populares em face dos acontecimentos.


Atualmente nada se faz no campo político sem que haja um levantamento de opinião pública norteando o caminho a seguir. Até agora, portanto, as reações verificadas, especialmente na área do PT, são fracas, não permitindo uma visão mais nítida das tendências. Não estou me referindo ao julgamento em si, mas às prisões determinadas e à forma com que estão sendo cumpridas. O caso da prisão do deputado José Genoino, por exemplo, que vem apresentando problemas de saúde.

 

Não há clima, é claro, para que  candidato algum assuma posição contrária ao desfecho ocorrido até agora. Porém as situações de saúde sempre motivam um sentimento de pena porque todos nós nos sensibilizamos diante do sofrimento humano, sejam quais forem as condições.


No caso específico de Genoino creio que cabem medidas de resguardo, inclusive pelo fato de que a situação de risco que o está envolvendo pode, junto à opinião pública, de alguma forma estender-se aos demais cujas prisões forem decretadas. A atmosfera de sofrimento de uma pessoa pode ser capaz de causar um reflexo nas demais prisões dos condenados, embora a penas diferentes, mas em consequência do mesmo processo.

Não se pode alegar cerce4amento do direito de defesa a uma questão que  se arrastou – e parcialmente ainda se arrasta – por mais de oito anos na Corte Suprema do país. Tampouco tem cabimento réus alegarem ser perseguidos políticos. Perseguidos por quem? Por qual governo ou quais governos? De 2005 para cá, só houve dois presidentes da República: Lula e Dilma Rousseff. Tal constatação bloqueia as manifestações de um pequeno grupo do PT.

SILÊNCIO ESTRATÉGICO


Mas isso não significa que o julgamento do STF represente uma vitória da oposição. Daí o silêncio estratégico adotado como norma de conduta de todos os candidatos. A respeito do tema silêncio, o jornalista Ricardo Noblat escreveu um artigo muito bom na edição de O Globo de segunda-feira. O texto de Noblat possui várias colocações, além do silêncio, uma delas a que focaliza um provável mal estar de parte de José Dirceu ante o distanciamento em relação a ele adotado pela presidente Dilma Rousseff.

Havendo silêncio no plano federal, nada mais lógico do que ocorra nas áreas estaduais. Porque em muitos casos as alianças entre os candidatos nacionais e os regionais vão naturalmente depender de uma sintonia entre os posicionamentos. Isso é próprio da política. Todos, sem dúvida, são a favor de mais emprego, melhores salários, mais recursos para educação e saúde. Pacífico. Nesses pontos não vão surgir divergências. Mas as convergências têm limites. Evidentemente se todas as opiniões coincidissem, a política, que é a luta pelo poder, não existiria. E a própria vida humana seria um tédio.

As divergências, portanto, são fundamentais. Mas não podem conduzir o pensamento humano às raias do absurdo. Os reflexos das prisões do mensalão certamente estão sendo avaliados nas pesquisas que devem estar sendo realizadas. Os candidatos assim vão esperar um pouco.

Como se formam os cadastros telefônicos e pessoais

 Pedro do Coutto
 
Em artigo publicado no New York Times, traduzido na edição do dia 8 na Folha de São Paulo, o jornalista Charlie Savage, com base em informações que colheu junto a funcionários do governo, disse que a CIA, Central de Inteligência, para 10 milhões de dólares por ano à operadora ATT para obter informações sobre chamadas telefônicas internacionais, trocadas e recebidas por norteamericanos. E também por residentes no país, de várias nacionalidades. A matéria confirma o que se pensava, mas é sempre importante sublinhar os fatos, expondo-os à luz da realidade expressa. Não creio que o problema se restrinja só aos EUA e tampouco os temas sejam só os políticos e os ligados à segurança nacional. Valem para tudo.
No Brasil, bancos de informações cadastrais se constroem de maneira semelhante. Não através das empresas de telefonia, mas por intermédio do preenchimento de fichas de cadastro. Ao que os sintomas indicam, as fichas cadastrais em muitos casos são objeto de negociação entre os que são responsáveis pelo seu arquivo e empresas de telemarketing. Quem não recebeu nunca um telefonema ou e-mail oferecendo serviços e produtos embora não os tenha procurado e se interessado por adquiri-los?
De ficha em ficha, formam-se bancos de dados numerosos que se multiplicam através do tempo e fazem crescer as ofertas. Algumas à base de propaganda enganosa, como a que se propõe fazer crer que as pessoas foram sorteadas. Puro engodo. Sorteadas para quê? Para o direito de comprarem bens e serviços quando não houve sorteio algum?
Ofertas de cartões de crédito proliferam. As de crédito também. Só que os juros mensais de 6%, embora seja esta a inflação brasileira ao longo de um ano. Impressionante a desfaçatez. Uma farsa.
FICHA CADASTRAL
Assim, quando se está preenchendo um ficha cadastral num supermercado, às vezes se está fornecendo informações para montagem e revenda de dados pessoais, incluindo CPF. Daí às mesas dos Hackers a distância não é longa. Grande parte do sigilo bancário é vulnerada a partir daí. Não desejo dizer com isso que não se possa preencher fichas de cadastro, mas somente chamar atenção para um aspecto que, infelizmente, já se incorporou à verdade do cotidiano.
São diversos os caminhos adotados pelo telemarketing, mas sua origem é uma só. Não é possível que, de outra forma, possa se chegar à privacidade das pessoas físicas, para as quais não existe o mesmo sistema de resguardo de que se utilizam as empresas. Mesmo assim, o meio empresarial é atingido por diversas outras maneiras. Até mesmo com base no cadastro pessoal de seus dirigentes e acionistas. Os prejuízos podem ser muito grandes.

O artigo de Charlie Savage significa uma chave a mais para descerrar a porta e iluminar como se desenvolvem nos Estados Unidos, e no mundo, ações simples de invasão de privacidade. Pois está evidente que a verificação das chamadas não vai restringir a identificação dos que trocam telefonemas. Pelo contrário. Vão proceder dessa forma, mas também dependendo do rumo das conversas gravadas partir para analisar seus conteúdos. Não serão todas as conversações, mas aquelas que, por um motivo ou outro, tornam-se interessantes e possam fornecer informações importantes em todos os setores da vida humana. Ninguém está livre. Sobretudo os que se envolvem em atividades ilegais como aconteceu agora em São Paulo.

Corrupção impede o desenvolvimento social do país

Pedro do Coutto

É um fato. Ressaltado indiretamente na edição da Folha de São Paulo de quinta-feira, em duas reportagens sobre temas diferentes, mas que na sua essência convergem para o mesmo plano gerando o mesmo efeito. Com base em dados do IBGE, Pedro Soares focalizou a existência de 6 mil e 300 favelas no país, reunindo 3,2 milhões de moradias e, portanto,em torno de 12 milhões de habitantes. Destacou a favelização na cidade do Rio de Janeiro, representando hoje a parcela de 22% da população. Na capital paulista, a percentagem de moradores em favelas é de 11% do total de habitantes. De todas, a maior favela do país é a Rocinha atingindo praticamente 70 mil moradores.
O levantamento do IBGE, no entanto, ao que parece, não inclui os moradores em cortiços e porões. Se incluísse o déficit social seria ainda maior. Aliás a dívida social reunindo os governos federal, estaduais e municipais, sem dúvida, é maior do que a dívida interna brasileira, atualmente na escala de 2 trilhões de reais. O orçamento da União para este ano é de 2,2 trilhões. Por aí se observa a raiz dos problemas existentes. A falta de saneamento abrange o processo de favelização.
A segunda reportagem a que me refiro, na mesma edição da FSP, está assinada por Cláudia Rolli e Vivian Nunes. Focaliza um esquema de corrupção – mais um de uma série que parece interminável – desvendado pela Polícia Federal juntamente com a Secretaria da Receita do Ministério da Fazenda. Tal esquema espalhou-se em 19 estados e abrangia cerca de 300 empresas. De acordo com as investigações, uma quadrilha inseria dados falsos no sistema tributário para reduzir ou até zerar dívidas que essas empresas tinham para com a Secretaria da Receita. A operação policial recebeu o nome de Protocolo Fantasma.
UM CASO ATRÁS DO OUTRO

Impressionante. Há poucos dias veio à tona a corrupção praticada na Secretaria de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Agora, em seguida, curto intervalo entre um caso e outro, explode o Protocolo Fantasma, que pode ter causado uma sonegação de 1 bilhão de reais. A corrupção na área do ISS paulista pode ter atingido 500 milhões. Qual será a soma dos recursos públicos devorados por corruptos e corruptores. Algo imenso, sem dúvida. Multiplique-se as tramas ao longo do tempo e, numa década chegaremos a aproximadamente 1 trilhão de reais. Sim. Porque os assaltos aos cofres públicos produzem efeitos nem cadeia.


Os que sonegam o ISS, por exemplo, acabam sonegando portanto o Imposto de Renda. Da mesma forma, os que sonegam o ICMS e o IPI. O primeiro é um tributo municipal, como também é o caso do IPTU. O segundo é estadual. O terceiro, IPI é federal. Mas da mesma maneira que todos os caminhos levam à Roma, todas as tr4apaças culminam obrigatoriamente no Imposto de Renda. O que o país, como um todo, perde com a sequência de escândalos bloqueia a existência de recursos públicos para obras e investimentos essenciais, como é o caso de uma política capaz de desfavelizar os centros urbanos e melhorar os índices de qualidade de vida de 323 cidades, as quais, de acordo com a Folha de São Paulo, são as que possuem favelas em suas áreas.

Afinal, quais serão os adversários de Dilma nas urnas de 2014?

Pedro do Coutto

Reportagem de Ranier Bragon e Marina Dias, Folha de São Paulo, revela que Aécio Neves mostra-se favorável a que o PSDB antecipe para já o lançamento da candidatura ao Planalto, alterando portanto seu posicionamento anterior quando acertou com José Serra que a escolha definitiva do nome só ocorresse em março de 2014. Mas Serra está percorrendo o país para se colocar entre as opções (duas) para a sucessão presidencial. Dúvidas no ar, sobretudo porque o ex-governador paulista está na frente do senador mineiro nas pesquisas do datafolha e do Ibope. Entretanto ambos perderiam por larga margem para Dilma Rousseff. Isso no lado tucano.

No lado do PSB, o enigma será entre Eduardo campos e Marina Silva, outra fonte de dúvida, também em função dos resultados das pesquisas que apontam Marina com o dobro das intenções de voto registradas para o governador de Pernambuco. Segunda dúvida, que somada à primeira, induz à pergunta que está no título: afinal, quais os candidatos que vão enfrentar Dilma Rousseff nas urnas de 2014? As oscilações sinalizam para a falta de unidade entre as correntes de oposição e este tornar-se um fator que acrescenta no sentido da reeleição da atual presidente.

Estarão faltando temas para os adversários do Planalto ou interpretação para suas colocações no palco sucessório? Esta perspectiva a mim parece mais realista, já que Dilma, como é natural, encontra-se em plena campanha. Tem a seu favor, sem fazer força, as indecisões entre os que lhe são contrários. Isso de um lado. De outro, a caneta e as inaugurações de obras e realizações de eventos.

A dúvida, no momento, é mais acentuada entre os tucanos, na medida em que Aécio é favorável à antecipação da escolha, mas deseja o apoio de Serra através da integração deste à sua campanha. Logo, no momento, em termos de convenção partidária, hoje, o senador está mais forte do que o ex-governador. Fica nítido. Porém nítido fica, também, o temor de Aécio relativo a um crescimento de Serra no Datafolha e no Ibope que supere novamente os índices que vai registrar daqui em diante.

Este é mais um complicador para ambos, já que Serra está muito mais forte que Aécio em São Paulo, enquanto     Aécio está muito mais forte que Serra em Minas Gerais. Os dois maiores colégios eleitorais do país. Se os dois não se acertarem em torno de um só, dividido, o PSDB partirá para mais uma derrota. Da mesma forma que o PSB se lançar a candidatura de Eduardo Campos preferindo-o a Marina Silva.

ENTUSIASMO

Pois uma coisa é essencial em matéria de voto: o entusiasmo no decorrer da campanha, em entusiasmo autêntico capaz de irradiá-lo junto aos eleitores. Não o entusiasmo fraco, resultado do cumprimento de uma obrigação partidária. Seb tal disposição não se verificar nos setores da oposição, não haverá nenhuma novidade nas urnas. Pois se as oposições reunidas atingiram 44% dos votos no segundo turno de 2010, ficando 12 pontos atrás de Dilma, sem a mesma unidade a tendência é a de que seu índice seja menor no próximo ano.

Assim, o primeiro passo a ser dado tanto pelo PSDB quanto pelo PSB é estabelecerem o consenso e decidirem logo quais serão, de fato, seus candidatos. É inclusive a única forma de conduzir o desfecho final para o segundo turno. Caso contrário, Dilma Rousseff vence no primeiro.

Não existe obra (ou biografia) proibida que, depois, não tenha sido exibida livremente

Pedro do Coutto


O título deste artigo contém uma síntese a liberdade de criação e expressão contra o falso direito de proibição, seja ela praticada em nome da moral, ou a partir da posição de grupos e pessoas, com base em diversas questões. A começar do teatro grego, cujas tragédias, escritas há pelo menos mil anos antes de Cristo, continuam sendo exibidas até hoje livremente. Nada mais trágico, por exemplo, do que Édipo, cujo reflexo alcançou e envolveu ensaios magníficos de Sigmund Freud acerca da alma humana.

Dando-se um salto enorme no tempo A Prostituta Respeitosa, de Sartre, no Brasil, décadas de 40 e 50, enfrentou obstáculos por parte da censura. Ontem, menores de 18 anos não podiam assisti-la. Hoje, a peça é exibida com censura absolutamente livre. Me lembro que Maria Dela Costa e Sandro Poloni enfrentaram dificuldade em montar a obra de Sartre, no Rio de janeiro, já na década de 60.
 

Os censores, sempre na contramão da história, como os fatos comprovam, criavam obstáculos a tudo que se referia a sexo. Estranha compulsão. Mas os tempos passam. Escrevo este artigo motivado por reportagem na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada,  a qual revela que não a censura, mas a Justiça, nos últimos dez anos decidiu proibir a circulação de 25 livros sobre diversos temas e pessoas. Incrível.

Os que se julgam atingidos, sem razões aceitáveis, obtiveram aceitação judicial. Não lutam ou lutaram pelo direito de resposta, previsto na Constituição, tampouco contestam os fatos que os incomodam. Nada disso. Simplesmente não querem discutir os assuntos. Querem negar o direito à liberdade dos autores, os quais, no fundo, arriscam-se mais do que eles. Pois é fácil distinguir a tentativa de uma chantagem do impulso natural de pesquisar, informar, analisar, expor a realidade, ou parte dela, de seres humanos que se tornaram figuras públicas.
 

FALSIDADES

Muitas vezes obras literárias destroem falsidades e falsificações. O caso, por exemplo, do Eu Acuso, Emile Zola, denunciando a terrível injustiça do governo francês para com Dreyfuss, personagem eterna e símbolo da mistificação e da injustiça. Isso na literatura. No teatro e o cinema os casos são extremamente múltiplos. Criou-se, em nosso país, um cavalo de batalha, como se costumava dizer, para a exibição de Les Amant, de Louis Malle. Hoje, acesso livre do público de todas as idades. No máximo, o selo de desaconselhável para menores de 11 anos.
 

Na música, as intervenções passadistas são bem menos numerosas, quase não existem. Por isso, inclusive, causa espanto e indicação o comportamento de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil que se voltaram contra a possibilidade – a possibilidade – de escreverem sobre eles biografias não autorizadas. Maior manifestação de temor não existe. Porque será? Eles, como tantos outros, possuem o direito constitucional de resposta e também de processarem os autores se cometerem qualquer violação legal. Sempre viveram com base no justo enaltecimento (público) de suas atuações e presença na arte. De repente de combatentes contra a opressão transformam-se em opressores. 

Mas da mesma forma que o livro sobre Roberto Carlos, que circula por aí, não vão conseguir inverter o processo natural da história da arte e da política. Dirijo a todos que são favoráveis à negação da liberdade que apontem um só caso em que, através do tempo,  a censura e a proibição conseguiram se manter. Esse é o destino dos passadistas. Nada mais, nada menos.