Bolsonaro recua nas máscaras e Queiroga avança no plano do ridículo

Charge do Clayton (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Em mais uma episódio desconcertante, como é de seu hábito, Jair Bolsonaro, depois de afirmar uma coisa a respeito das máscaras, recua e diz que estabelecer ou não a utilização da peça imunizante é um problema de governadores e de prefeitos, e não dele. Mais uma vez, surpreendeu a toda a opinião pública após o que tinha dito na última semana, acentuando exatamente o contrário logo após.

E, em poucas horas, Queiroga avançou no plano do ridículo, uma vez que o presidente da República disse que encomendou a ele um parecer sobre a questão.

“TAL DE QUEIROGA” – Na quinta-feira, Bolsonaro afirmou: “Acabei de conversar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é. Ele vai ultimar um parecer para desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados, para tirar esse símbolo”.

Agora, Bolsonaro diz textualmente que quem vai decidir sobre a questão são os governadores e os prefeitos. Acrescentou: “Eu não apito nada, né? Segundo o Supremo, quem manda são eles. Mas nada como você estar em paz com a sua consciência”, disse Bolsonaro a jornalistas na entrada do Palácio da Alvorada antes de embarcar para uma agenda no Espírito Santo.

Como se verifica no próprio texto, Bolsonaro tinha assumido uma posição afirmativa que causou escândalo pelo absurdo e agora deixa o ministro da Saúde em uma posição ainda pior.  A matéria foi publicada pela Folha de São Paulo, por Daniel Carvalho e Patricia Pasquini.; no Estado de São Paulo assinam a matéria Gustavo Côrtes e Adriana Pires.

CENTRÃO E RAMOS –  Na reportagem publicada na Folha de São Paulo deste sábado, Julia Chaib e Bruno Boghossian revelaram que o Centrão, bloco parlamentar que apoia o presidente em troca de atendimentos pessoais, reivindica a demissão do general Luiz Eduardo Ramos da coordenação política e também se manifesta sobre trocas no Ministério do Meio Ambiente e do Turismo.

Observa-se, portanto, o interesse cada vez maior do Centrão em participar da linha de frente do governo Bolsonaro. No caso do general Luiz Eduardo Ramos, atual chefe da Casa Civil, e também coordenador no relacionamento entre o Executivo e o Legislativo, os parlamentares da base bolsonarista afirmam que Ramos não vem atuando a contento nas articulações políticas. Entenda-se por atuar a contento o fato de tornar concretas as indicações partidárias para cargos no governo.

O Centrão também deixou claro que Ricardo salles acumulou desgastes ao longo de sua gestão e ficou ainda mais fragilizado com a operação da Polícia Federal que investiga a atuação de agentes públicos para favorecer madeireiras. Sobre o Turismo, a pasta é alvo de cobiça política devido à capacidade de realizar ações nos estados e municípios onde os parlamentares têm interesses eleitorais.

Bolsonaro prepara um golpe caso permaneça atrás nas pesquisas do Datafolha

Charge do Jota A (portalodia.com)

Pedro do Coutto

Mais uma vez, ao longo da história moderna do país, a democracia corre sério risco, o que faz com que a preocupação volte a criar uma atmosfera densa de ruptura constitucional. Essa perspectiva, inclusive, está bem levantada pelo jornalista Ruy Castro na edição de ontem da Folha de São Paulo.

A questão é simples, aliás como o próprio articulista definiu: os generais, referindo-se ao comando do Exército, deixaram a crise ir longe demais, em decorrência do caso Eduardo Pazuello. Conseguiram esticar a corda demais e não há margem de recuo possível.

SINUCA DE BICO – Portanto, como poderiam os militares pensar em agir a partir de agora? Deixaram escapar uma situação criada pelo próprio presidente da República na medida em que este se empenhou em resguardar Pazuello de qualquer punição militar.

Além disso, ainda nomeou o general como titular da Secretaria de Planejamento Estratégico. Parece até uma surpresa, não fosse Bolsonaro o personagem principal de contradições em série. Ele exalta Pazuello, mas esquece que usou a caneta para demiti-lo da pasta da Saúde.

QUEIROGA – Matéria da Folha de São Paulo, assinada por Daniel Carvalho e Natalia Cancian, ressalta a afirmação literal do próprio presidente da República sobre o seu atual ministro da Saúde. Nesta altura é possível ser ex-ministro da Saúde pelo espaço que existe entre esse artigo e o desfecho na Esplanada de Brasília.

Disse Bolsonaro: “Acabei de conversar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é. Ele vai ultimar um parecer para desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados, para tirar esse símbolo”. Não pode haver um tratamento mais radical e mais ofensivo do que esse, sobretudo vindo de um homem sem qualquer conhecimento médico ou científico, e que coloca-se acima das definições de grupos da Ciência.

CRISE – Enquanto isso, as contaminações continuam a ter uma presença marcante no incrível panorama nacional. Parece não ter saída a crise que se instalou, cujo final pode representar um recuo a dezembro de 1968 com a decretação do Ato Institucional nº 5 que ampliou o regime ditatorial e a falta de segurança individual das pessoas.

Finalmente, Jair Bolsonaro empenha-se em mudar a realidade. Tirou a máscara da face e agora a estrada a percorrer será marcada pelos obstáculos produzidos

Queiroga tem que se demitir ainda hoje para não ficar desmoralizado

Charge do Zé Dassilva (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O Jornal Nacional de ontem, da TV Globo, reproduziu uma fala do presidente Jair Bolsonaro durante um evento sobre Turismo, mas que ele transformou em uma peça de artilharia contra o ministro Marcelo Queiroga que vinha defendendo o uso de máscaras e a vacinação para conter a Covid-19. O episódio é comentado hoje pelo jornalista Bernardo Mello Franco, de O Globo.

Bolsonaro simplesmente revelou ter encomendado ao próprio Marcelo Queiroga um parecer sobre o qual ele se basearia para determinar a não obrigatoriedade do uso da máscara preventiva. Além desse aspecto, com a  intenção de obrigar a Queiroga a desmentir a si próprio, uma vez que na CPI da Pandemia destacou a importância do uso de máscara, ainda por cima referiu-se ao ainda titular da Saúde com uma frase que sintetiza a visão que Bolsonaro tem do próprio Queiroga, apesar de ser o autor de sua nomeação.

“TAL DE QUEIROGA” – Ele disse exatamente o seguinte: “Acabei de conversar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é. Ele vai ultimar um parecer para desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram ,contaminados, para tirar essa… (fazendo desdém da máscara) esse símbolo”.

Na versão de Bolsonaro, Queiroga ficou de estudar o assunto para dar o parecer. Uma situação que coloca Queiroga, como médico, em situação bastante desconfortável. O número de mortos cresce de forma avassaladora, assim como de contaminados. Mas Queiroga se revela incapaz de partir para um confronto direto com o coronavírus, sendo obrigado a deslocar o centro da discussão em face dos repetidos discursos presidenciais.

Nunca se viu um presidente da República se referir a um ministro seu desta forma. Queiroga, na minha opinião, tem o único caminho a seguir que é o de entregar ainda hoje a carta da sua demissão. Não pode continuar ministro um homem que recebe este tratamento do presidente. Caso contrário, terá criado para si mesmo uma situação vexatória na opinião da classe médica e de toda população.

Inflação avança 8%, mas o governo deixa os salários na estaca zero

Charge do Jorge Braga (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O IBGE divulgou ontem a taxa inflacionária acumulada dos 12 meses que vão de maio de 2020 a maio deste ano. A alta superou praticamente por 40% a previsão inflacionária feita pelo Banco Central e referendada pelo Ministério da Economia.

Enquanto os preços avançam tanto, os salários ficam menores a cada lance da corrida que se eterniza principalmente no Brasil com a perda do poder de consumo. A reportagem no O Globo sobre a taxa inflacionária é de Carolina Nalin e Alex Braga. Na Folha de São Paulo de Leonardo Vieceli.

DILEMA – A preocupação dos assalariados, enorme maioria dos que trabalham no Brasil, parte do dilema de como enfrentar preços ascendentes se o preço dos seus vencimentos estão estagnados? É uma pergunta que o governo não responde ou sequer faz menção à elite de técnicos que ocupam lugares de destaque no planejamento da economia e no universo financeiro.

O universo financeiro ainda é objeto de apoio oficial, basta dizer que as as reportagens assinalam que o governo deve elevar a taxa Selic, uma vez que a remuneração dos papéis encontra-se em 3,75% ao ano e a inflação é mais que o dobro desta taxa.

Os que divulgam mais essa etapa de absurdo social revelam que a Selic tem como objetivo conter os juros bancários. Não é nada disso. Os bancos, repito mais uma vez, não são devedores da Selic. São credores. A taxa Selic incide sobre o total de notas do Tesouro Nacional colocadas no mercado e que lastreiam a dívida líquida do governo.

SEM SAÍDA – O fato extremamente crítico é o de que os assalariados encontram-se sem saída e não sabem que rumo tomar porque, ao contrário do que já frisou o presidente Bolsonaro, a escassez de dinheiro não pode levar à abertura de créditos bancários. Isso é claro, pois se além da inflação, os assalariados forem enfrentar ainda os juros bancários, estarão completamente perdidos em uma floresta de contradições. São tantas as obrigações dos assalariados e tão poucas as alternativas que o panorama da economia brasileira apresenta enormes desafios. Neste panorama é impossível alcançar qualquer desenvolvimento social.

Os bancos, como é o caso do Itaú, do Bradesco, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do Santander apresentaram lucros altíssimos em 2020, na escala de R$ 12 bilhões a R$ 15 bilhões. Logo houve débito de alguém ou de algum setor.

É um princípio banal de contabilidade o de que não pode haver crédito sem débito. Alguém pagou a conta. O panorama geral, assim, é de calamidade. Os seres humanos no Brasil estão ameaçados se a política econômica e social do Planalto permanecer onde se encontra.

JULGAMENTO NO STF – Uma questão que se coloca está exposta na reportagem de Thiago Resende e Matheus Teixeira, Folha de São Paulo, sobre um julgamento que está para ser concluído no Supremo Tribunal Federal sobre o valor das aposentadorias do INSS. Houve um corte nas aposentadorias no governo FHC. O teto, na ocasião, era de 10 salários mínimos. Foi reduzido para 5 salários mínimos.

Os trabalhadores e trabalhadoras descontaram sobre 10 salários mínimos e, na hora de se aposentar, o teto foi reduzido. O impasse será resolvido pelo STF, mas pela reportagem a tendência é o de não aceitar a ação da reposição das perdas provocadas pelas engrenagens de mais de duas décadas. O que fazer? Mais uma etapa negativa para quem vive do seu trabalho.

Percentuais não podem flutuar no espaço como no belo poema de Vinícius de Moraes

Charge do Roque Sponholz (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

De uns tempos para cá, economistas, jornalistas e médicos citam percentuais buscando confirmar informações colocadas em suas plataformas. Os percentuais têm que repousar sobre números absolutos para que não percam a sua importância real e totalmente clara.

O belo poema de Vinicius de Moraes ao qual me refiro é aquele no qual ele focaliza a felicidade. As informações da vida, quando tentamos comparar um estágio e outro, têm que ser apresentadas como um espelho e não como uma fantasia arbitrária que funciona exatamente para enganar ou, o que também é muito grave, desinformar.

DESINFORMAÇÃO – Agora, por exemplo, reportagem de Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo de quarta-feira, revela que o presidente Jair Bolsonaro assumiu a prática de um erro ao lançar no mercado da informação um documento atribuído a um funcionário do Tribunal de Contas da União, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, que contém uma grande distorção no número de falecimentos em decorrência da Covid-19.

O TCU, informa Leandro Prazeres, O Globo, anunciou uma investigação sobre o comportamento do servidor, mas eis que o próprio presidente Jair Bolsonaro, como destacou a matéria, assumiu de forma surpreendente a responsabilidade pela escala numérica que reduziu o número de óbitos à metade.

Absurdo completo. Reduzir à metade o número de mortes em função de uma pandemia não pode ter a menor base no cálculo efetivo que tanto corrói o país. A impressão pessoal em relação ao coronavírus choca-se frontalmente com a realidade e também colide com os atestados de óbito que médicos forneceram a mais de 470 mil pessoas falecidas no país. Foram dizimadas pela incompetência, pela omissão e pela distorção dos fatos. Essa última, ficou flagrante na terça-feira, no segundo comparecimento à CPI do ministro Marcelo Queiroga.

DESGASTE – Queiroga, evidentemente, teve a sua imagem fortemente desgastada junto à classe médica e ao seguimento científico, uma vez que negou ter partido de um gabinete paralelo no Planalto o veto à médica Luana Araújo, indicada por ele e vetada pelo plano alto do Planalto.

E não foi essa, contudo, a única contradição de Queiroga. Ele terminou concordando, mas procurou abrandar a discordância, de que o uso da cloroquina não funciona contra a Covid-19. Voltando aos percentuais, eu disse que tornou-se um hábito, de uns dois anos para cá, talvez três, citar crescimentos percentuais sem dizer sobre quais números absolutos esses índices repousam.

Por exemplo, em artigo ontem publicado na Folha de São Paulo, o ex-ministro Delfim Netto, por quem a Fiesp pensa, sustentou que o crescimento econômico do Brasil neste ano deve atingir 4% e isso representa um fato importante e uma retomada econômica verdadeira.

CASO CONCRETO – Se considerarmos que em determinado período que antecede de pouco o percentual novo, podemos estar incorrendo no erro, e mais grave até, fazendo os outros errarem, na medida em que essa percentagem dá a entender que o resultado alcançado foi altamente positivo. Mas vejamos um caso concreto. A economia recua 3% em determinado período. No período imediato, ela assinala um crescimento de também 3%. Dizer que a economia avançou 3% é falso. Ela apenas empatou com o desgaste que a antecedeu no novo período. Fica zero a zero? Não.

Zero a zero nos números, mas a população num período de um ano, que tomamos por base, cresceu 1%. Logo a renda per capita diminuiu, pois esta é o resultado da divisão do Produto Interno Bruto pelo número de habitantes. Como no Brasil, o crescimento populacional é de 1%, já descontado o índice de mortalidade que é de 0,7%, chegamos à conclusão que a cada 12 meses surgem 2 milhões de habitantes a mais do que no exercício anterior.

Portanto, essa velocidade, como é natural , abrange todos os degraus do resultado demográfico. São mais de dois milhões de pessoas que necessitam de alimento, de água limpa, de saneamento, de transporte, de programa habitacional para reduzir ou pelo menos conter o crescimento das favelas nos centros urbanos.

FALSO CENÁRIO – O exercício que proponho trata-se de um leve esforço  para colocar a lente da verdade sobre os fugitivos de seu valor. Por isso é que quando se aplicam percentagens, deve-se levar em conta, sem dúvida alguma, a base sobre a qual elas aterrissam. No poema de Vinicius, a pluma não aterrisa, mas precisa de vento sem parar. A bela imagem poética contradiz o esforço de técnicos em tentar mostrar à população um cenário falso para que o conceito dos governos,sejam eles quais forem, seja melhor do que se imagina.

Imaginar é um direito. Não fosse ele, o que seria dos sonhos? Entretanto, a realidade se impõe sobre a viagem do pensamento. Lembro novamente, o que já fiz diversas vezes, o que o ministro Roberto Campos, avô do presidente do Banco Central, pensava sobre o assunto. Ele chamava sempre a atenção para o uso correto das estatísticas.

Tinha razão total e continua tendo ao longo do tempo, já que se tudo é relativo, algo tem que ser absoluto para dar base ao raciocínio que demonstra situações reais. Caso contrário, o uso do percentual serve apenas como uma névoa que envolve os raciocínios da população de modo geral e ao mesmo tempo faz a felicidade dos que os manipulam.

Jair Bolsonaro avança e dispara sinal de alarme no convés da democracia

Charge do Duke (otempo.com.br)

Pedro do Coutto

Reportagem de Francisco Leali, O Globo desta terça-feira, coloca em grande destaque a decisão do Exército que impôs o sigilo de cem anos para divulgação do processo que avaliou que Eduardo Pazuello não cometeu indisciplina e nem infringiu a lei com a sua presença na caravana de motociclistas no Rio de Janeiro ao lado de Jair Bolsonaro. Participou da reportagem Dimitrius Dantas.

O que os repórteres queriam saber era a respeito do conteúdo que marcou a reunião do Alto Comando que afastou qualquer hipótese de punição ao ex-ministro da Saúde. Pela legislação em vigor existem assuntos que são resguardados, segundo a matéria, pelo período de um século.

URNAS E ARMAS –  A meu ver, há um sinal claro de que Bolsonaro avançou na rota militar, passando assim a desenvolver dois projetos políticos: o caminho das urnas e o caminho das armas. É mais do que evidente que o projeto do bolsonarismo é ocupar o poder no Brasil por um largo espaço de tempo. Não que haja algo que possa ser mantido em segredo por um século, não é esse o aspecto mais importante.

O aspecto mais importante está no posicionamento da área militar dando cobertura ao presidente da República ao mesmo tempo em que assegura uma imunidade do estatuto, aplicando-a ao general Eduardo Pazuello. Realmente não há como, pelo menos no momento, como se vencer a barreira estabelecida. A repercussão deverá ser muito grande e não sei porque só o Globo publicou esta matéria. O texto de Francisco Leali e Dimitrius Dantas deveria constar da edição online do jornal. Mas esta é outra questão.

A pesagem da importância das reportagens é um critério exclusivo dos editores. Aliás, a diferença entre o jornalismo, nele compreendidos os jornais impressos e as informações na internet, estabelece uma distância bastante grande. Já focalizei o assunto outras vezes, acentuando que os órgãos de imprensa e as emissoras de televisão seguem critérios traçados pelos respectivos editores. O que não se aplica às redes sociais da internet. Qualquer pessoa pode ter acesso e se manifestar como bem entender. Entretanto, a liberdade de expressão não representa por si só a condição de imunidade aos autores dos textos.

AUXÍLIO EMERGENCIAL – Mas eu disse que Bolsonaro desencadeia sua maratona em dois pólos. O pólo militar, que bloqueou as informações sobre as decisões do Alto Comando, e a determinação do próprio Bolsonaro de prorrogar o auxílio de emergência por mais dois meses porque terminaria no final deste mês a última parcela da emergência que foi destinada aos extremamente carentes que encontram dificuldades de todo tipo até para se alimentar, o que colide com a condição humana.

Mas a condição humana, como objetivo do governo, não é apenas um ato de socorro, trata-se também de um ato político para conter a perda de popularidade do governo, tendência registrada pelas últimas pesquisas do Datafolha. A prorrogação por dois meses para o auxílio de emergência está focalizada em reportagem de Idiana Tomazelli, do Estado de São Paulo de ontem.

Bolsonaro sabe que na primeira vez que se criou a disponibilidade financeira aos segmentos de baixíssima renda, ele melhorou a sua imagem nos redutos atingidos pela fome, o que faz parte da campanha eleitoral de um presidente cuja administração começou em 2019 e já no ano seguinte, em 2020, lançou-se candidato à reeleição nas urnas de 2022.

SEM PROJETO –  A movimentação de Jair Bolsonaro revela que ele joga tudo em sua manutenção no poder. A democracia para ele é apenas um caminho, não é um princípio legítimo de governar o país. O seu governo continua sem projeto, permanece sem uma definição ideológica, a não ser a sua consolidação na direita e a sua preocupação em unir sua corrente com todas as outras que se opõem à atuação das faixas de esquerda, 95% das quais vinculadas ao centro-esquerda. Claro, porque ninguém poderá supor, o que seria uma absurdo, que João Doria, Tasso Jereissati, Marina Silva ou Ciro Gomes possam ser incluídos em posições extremistas.

Nessa altura dos acontecimentos, o extremismo é reservado para aqueles que buscam qualquer resultado desde que permaneçam no poder ou cheguem a ele de que forma for. O comunismo no mundo desabou desde o episódio do ultimato do presidente Kennedy ao líder da então União Soviética, Nikita Khrushchov. Foi o caso da retirada dos mísseis russos nas águas cubanas há 40 quilômetros da Flórida. A partir daí houve um encontro de posições, sendo que o capitalismo participou velozmente das decisões de Moscou e de Pequim.

“TIGRE DE PAPEL” –  As linhas russas e chinesas cobrem hoje grande volume da riqueza mundial. Veja-se, por exemplo, as compras de obras de arte por empresários russos e chineses. O comunismo virou o “tigre de papel”, antiga expressão proferida por Mao Tsé-Tung no desafio da Guerra da Coreia. A Guerra do Vietnã viria dez anos depois dos mísseis em Havana. Aliás, devo frisar que no mundo só existe um sistema econômico: o capitalismo. A diferença é que uma coisa é o capitalismo privado, exemplo dos Estados Unidos, e o capitalismo praticado em Pequim e em Moscou.

A extrema-esquerda agora só se pratica em Cuba e na Coreia do Norte. De fato, a diferença situa-se entre um plano e outro, mas os métodos de ação são os mesmos, uma aproximação com o poder. A aproximação com o poder explica a influência da constelação de interesses de um lado e de outro.

Em relação à extrema-esquerda pode-se dizer e contrapor o título de Ian Fleming autor do 007: “Os diamantes são eternos”.  Foi uma ilusão marxista acreditar que a humanidade pudesse viver sem as jóias da riqueza. Mas isso demonstra o fracasso de uma profecia. A realidade no campo político não é focalizada nitidamente pela profecia, ao contrário.

SUCESSÃO PRESIDENCIAL –  O panorama está exposto, iluminado por um segredo de cem anos e que se aplica a um prazo de dois anos, tempo suficiente para ocorrer a sucessão presidencial no Brasil. Bolsonaro e os seus seguidores querem mudar a legislação e impor o voto impresso.

Trata-se de simples pretexto para o caminho e mais um período de poder, cujos defensores temem uma derrota para Lula da Silva. O sinal de alarme tocou e a corrida no convés também. Uma nau chamada democracia, sonho de todos nós, exceção de apenas uns poucos, pode não se confirmar no final da maratona brasileira.

Bolsonaro acelera o passo na estrada que pode levá-lo ao autoritarismo

Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Os últimos acontecimentos na área política e na esfera militar assinalam o ingresso mais rápido de Jair Bolsonaro na estrada que separa a democracia  do reencontro do governo com o tempo que antecedeu a posse de José Sarney na Presidência da República.

O propósito de Bolsonaro ganhou mais nitidez com a solução aplicada ao episódio Eduardo Pazuello na caravana de motociclistas no Rio de Janeiro. Bolsonaro firmou o seu conceito contra a punição do ex-ministro da Saúde que assumiu a Secretaria de Logística, cargo criado para circunstâncias do momento, representando também um alinhamento das Forças Armadas ao lado do sombrio objetivo que, no fundo, em seu conteúdo propõe a destruição da democracia.

RUMOS INCERTOS – Merval Pereira, no O Globo de domingo, e Fernando Gabeira, no O Globo desta segunda-feira, focalizam os rumos incertos nos quais trafega o presidente da República. Ele não deseja somente ser reeleito. Na realidade, está disposto a abrir mão da democracia se mantiver o apoio militar para a sua aventura golpista.

Para alguém que em 2020 iniciou a campanha sucessória para as urnas de 2022, Bolsoanro demonstra tacitamente que alcançou o poder e desse poder não deseja se afastar. E, de preferência, sem o apelo às urnas. O apelo de Jair Bolsonaro agora dirige-se mais para as armas, pois sentiu, de acordo com a pesquisa no Datafolha a qual me referi ontem, que não baterá Lula da Silva na disputa de 2022.

CONTRA A DEMOCRACIA – A anulação das sentenças contra Lula levou a um novo panorama que não é desconhecido para aqueles que, apoiando Bolsonaro, não escondem que rejeitam a democracia. Aliás, é só recorrer ao arquivo de imagens sobre a manifestação de Brasília em frente ao Forte Apache, quando radicais da direita ostentavam cartazes destacando a ditadura militar como o melhor caminho para Bolsonaro transformar-se de presidente em um imperador. Com esses apoiadores e com as forças militares com as quais Bolsonaro conta, aponta-se uma solução de força fazendo a democracia submergir no lago da capital.

Além das duas análises as quais me referi, de Merval Pereira e Fernando Gabeira, pode-se acrescentar uma série de artigos de Ruy Castro, na Folha de São Paulo, iluminando o trajeto sombrio que coloca em risco a população brasileira. Um recuo no tempo e a volta de um regime de exceção que tantas marcas deixou na história brasileira. As forças democráticas necessitam se unir imediatamente porque, se divididas, permitirão a escalada que Bolsonaro tanto pretende para se estabelecer no topo do poder.

SEM FISCALIZAÇÃO –  Na noite de domingo, o Fantástico da TV Globo focalizou os mais recentes desabamentos na Zona Oeste do Rio que se sucederam em construções de edifícios sem o menor critério de segurança. Outro dia aconteceu na região do Muzema, com pessoas perdendo suas vidas. Na última semana, o mesmo ocorreu em Rio das Pedras. Onde está a fiscalização da Prefeitura ? Onde está a fiscalização do governo estadual? Em lugar algum, tanto é que as milícias e o tráfico de drogas estão ocupando espaços cada vez maiores na Cidade.

A corrupção se transformou em rotina, de exceção à regra. E, nessa regra, só os bandidos dominam. O Rio de Janeiro é um exemplo dramático da desonestidade e um desafio à Segurança Pública.

No Rio governos se sucederam ao ritmo das prisões. Agora mesmo, na última semana, o ex-governador Fernando Pezão  foi condenado a mais de 20 anos de prisão. Está se tornando cada vez menos possível o combate aos crimes que a cada dia ocupam maiores espaços. Ninguém se iluda: mantido o ritmo atual, não se poderá mais sair de casa no império da ilegalidade e da desordem. O Brasil e o Rio de Janeiro estão sob ameaça.

Ramos transmite recado do Planalto e diz que Bolsonaro é o comandante das Forças Armadas

De moderadores, militares passaram a ser tutelados por Bolsonaro

Pedro do Coutto

Numa entrevista estudada aos repórteres Thiago Bronzatto e Daniel Gullino, O Globo deste domingo, onde mediu cada frase e cada palavra, o general Luis Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, afirmou que é preciso ficar bem claro que Bolsonaro é o comandante supremo das Forças Armadas, daí porque justifica-se a decisão de o Exército não punir o general Eduardo Pazuello por sua participação na caravana das motocicletas no Rio de Janeiro recentemente.

A entrevista está marcada pelos espaços destinados tanto às perguntas quanto às respostas. Nesse contexto, Eduardo Ramos sustentou que o passado do militar pesou na decisão do comandante, uma vez que são analisadas tanto a transgressão quanto o transgressor.  

PESOS DIFERENTES – Atribuindo um pensamento ao comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, o chefe da Casa Civil disse que não se pode usar pesos iguais com pessoas que têm comportamentos diferentes. “Se o militar nunca fez nada de errado e comete um deslize, deve ser punido com prisão ? Isso não existe, cada caso é um caso. A decisão de não punir Pazuello é exclusiva do comandante do Exército”, destacou.

Nesse ponto, Ramos deixa no ar uma sombra que engloba tanto o ato de Paulo Sérgio quanto o fato de o comandante supremo ser o presidente da República. Se, como afirma Eduardo Ramos, a decisão de não punir é exclusiva do comandante do Exército, por que sustentou que o presidente Jair Bolsonaro é o comandante supremo das Forças Armadas? E ainda acrescentou que “isso tem que ficar bem claro”. Afinal, se a decisão cabia ao comandante do Exército, qual o motivo capaz de levar a uma interferência do presidente da República?

Nada disso, o chefe da Casa Civil está na realidade traduzindo um pensamento do governo que, com essa colocação, estende o seu foco de luz e ressalta que há decisões do Supremo Tribunal Federal que causam desconforto. O contexto parece cristalino.

RUPTURA – Mesmo através da lente de cristal, o general Luiz Eduardo Ramos assinala que não existe risco de ruptura institucional. Muito pelo contrário, acrescenta ele, “tem coisa que é da autoridade do presidente, como nomear o diretor da Polícia Federal, mas que o STF não autorizou”. Colocando a figura presidencial num plano oblíquo de linguagem, Eduardo Ramos coloca a seguinte frase: “se ele (Bolsonaro) fosse uma pessoa que não cumprisse as normas poderíamos ter alguma crise institucional”.

Ramos disse à reportagem que em regimes totalitários como Cuba e Coreia do Norte, os dois países não conseguem sequer ouvir a oposição. A ameaça direta foi colocada assim no plano das decisões políticas, tanto das atuais quanto do futuro próximo. No futuro próximo entendem-se as eleições de 2022 quando a reeleição estará em jogo nas urnas.

Os repórteres Daniel Carvalho e Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo, destacam que no governo Bolsonaro os militares no início assumiram a posição de moderadores, mas que agora passaram a ser comandados pelo presidente da República. Os dois repórteres adotaram até uma classificação mais forte do que esta. Disseram que militares passaram a ser tutelados pelo chefe do Executivo.

LULA NA DISPUTA –  A modificação de comportamento, agora digo eu, resulta no fundo de uma decisão do Supremo que tornou Lula da Silva elegível para as urnas do próximo ano. Certamente as forças que apoiam o governo achavam que na campanha Bolsonaro sucederia a si mesmo, não encontrando adversários de porte capazes de batê-lo.

As pesquisas do Datafolha indicam isso, mas indicam também uma queda de 42% para 30% para aprovação do seu governo. Entretanto, confiando nessa fração e não encontrando num segundo turno provável adversário capaz de derrotar o presidente, sua corrente estava tranquila. Mas a tranquilidade acabou quando o Datafolha publicou uma pesquisa sobre intenção de voto para Presidência na qual o ex-presidente Lula da Silva apareceu com 41 pontos contra 23 de Bolsonaro. Na simulação de um segundo turno previsível, o ex-presidente derrotaria o atual por 53% a 33%.

A diferença bastante ampla eliminaria qualquer possibilidade de fraude, tornando a possibilidade inconsistente tão quanto foi o posicionamento de Donald Trump quando derrotado por Joe Biden. O esquema de Bolsonaro passou a defender mais enfaticamente o retorno do voto impresso. Mas sabe que não existe hipótese, dentro da constitucionalidade normal de o TSE determinar um retrocesso do voto na cédula substituída há 25 anos pelas urnas eletrônicas.

SITUAÇÃO CRÍTICA – Porém, o Planalto necessita de um entrechoque capaz de com sua intensidade deslocar o desfecho de 2022 fora do roteiro balizado pela resposta das urnas. A situação assim, a meu ver, tornou-se crítica, sobretudo para o país, incluindo o Congresso e até o STF, tendo em vista as manifestações que reivindicam o retorno à ditadura militar e ao Ato Institucional nº 5.

Os deputados e senadores têm muito o que se preocupar. A rota do destino democrático pode ser interrompida. Nessa interrupção, a democracia passa a ser algo secundário, como aconteceu depois do AI-5, tornando-se apenas um modelo de fachada e nada mais.

Crise brasileira avança e agora inclui até o futebol, com a polêmica sobre a Copa América

Jogadores manifestaram-se contra a realização da Copa América

Pedro do Coutto

A crise brasileira está explodindo por todos os lados, deixando um rastro extremamente negativo para a população e também para o governo Bolsonaro diante de mais de 200 milhões de habitantes. Suas etapas vão se desenrolando numa sequência impressionante que vai da pandemia, passa pelo Exército, chega à energia elétrica e, em mais uma salto, envolve até o futebol.

No futebol, os jogadores da seleção e o técnico Tite manifestaram-se contra a realização da Copa América que começaria ainda este mês sem que o treinador e os atletas fossem sequer consultados. O treinador e os atletas voltaram-se em massa contra o presidente da CBF, Rogério Caboclo, que se apressou em aceitar que o país fosse sede desta taça após as negativas da Colômbia e da Argentina. A Colômbia por viver um momento institucional profundamente crítico e a Argentina por considerar o grave problema da Covid-19 e os efeitos que poderia produzir em Buenos Aires e outras cidades do país.

ACUSAÇÕES – No meio da tempestade ainda surgem, reportagem de Bruno Marinho, O Globo deste sábado, acusações contra o dirigente da CBF por assédio sexual a funcionárias da entidade, sobretudo a uma que tornou público o seu protesto diante do sórdido comportamento de Caboclo.

Por outro lado, Júlia Lindner e André de Souza, também O Globo, apontam a existência de um gabinete paralelo ligado à Saúde, mas independente do próprio Ministério, onde são traçadas normas, inclusive por médicos, defendendo a cloroquina e se opondo às restrições levantadas por cientistas ao que se deu o nome de tratamento precoce.

Só faltava essa: alguém assume o Ministério da Saúde, como é o caso agora do médico Marcelo Queiroga, mas tem o seu posicionamento rejeitado pelo gabinete da cloroquina. A contaminação atinge mais de 60 mil pessoas por dia, transformando-se numa corrente que ameaça todas as pessoas no Brasil.

DOIS GABINETES – A taxa de mortalidade passa de 2 mil pessoas a cada 24 horas. Como tenho focalizado, o ministro Marcelo Queiroga não consegue pisar no freio, o que seria o mínimo a se exigir de um ministro da Saúde. Mas é preciso se levar em conta que, segundo a reportagem, não existe uma só vontade no campo crítico da Covid-19. Existem dois gabinetes que se chocam e disputam de forma extremamente negativa a questão do coronavírus.

O presidente Jair Bolsonaro dá mais ouvidos, pelo que se deduz, ao gabinete paralelo porque a cloroquina já foi distribuída em larga escala pelo país depois de ser adquirida pelo governo. Para o gabinete do Ministério da Saúde, foi dinheiro jogado fora.

No setor de energia elétrica, reservatórios muito baixos e preços muito altos das tarifas em decorrência do uso de termelétricas. As tarifas não são apenas as domiciliares, elas se estendem à indústria, aos serviços e  a todos os demais setores que não podem funcionar sem ela.

MEIO AMBIENTE –  Além disso, não podemos esquecer o que está ocorrendo no Ministério do Meio Ambiente. Toneladas de troncos de árvores retirados ilegalmente aguardam destinação após o choque entre o ministro Ricardo Salles e o ex-superintendente da Polícia Federal na região Amazônica Alexandre Saraiva.

A madeira espera a sua liberação, como defende Salles, ou a sua apreensão, como defendeu Saraiva. Deve-se destacar que a descoberta da ilegalidade foi uma decorrência de denúncia. Mas a luta pela comercialização normal colocou Salles numa posição de incrível desgaste. E ele ainda continua no Ministério.

Focalizando este panorama conjunto, encontramo-nos numa etapa singular da história brasileira, pois nunca tantos foram acusados de tantas ilegalidades ao mesmo tempo, compactuadas pelas ações de uns e omissões de outros. As omissões são tão destrutivas quanto as próprias ações que levam à devastação do verde da Amazônia. Enfim, estamos diante de uma crise que se agrava a cada dia.

CONGELAMENTO DOS SALÁRIOS –  Enquanto isso, o governo adia indefinidamente o estabelecimento de um programa nacional que teria que se situar no plano da emergência, mas que deveria se estender ao plano da urgência social porque além de todos esses fatores definidos, ainda por cima temos o congelamento dos salários e as taxas inflacionárias reais, inclusive os cálculos do IBGE que a mim parecem reduzir os impactos que os diversos segmentos da população estão sendo atingidos, produzindo uma anarquia generalizada.

A hierarquia e o regulamento disciplinar do Exército também são focalizados pela lente da opinião pública. Tem-se a ideia de que o barco do governo enfrenta uma tempestade que desaba sobre o país como um todo.  O governo passa por uma fase de desorganização praticamente total. Acima disso tudo, existe ainda a perspectiva do treinador Tite demitir-se na noite de terça-feira, logo após o jogo com o Paraguai.

 

 

Bolsonaro perde votos no rumo das urnas e amplia espaço na rota das armas

Charge de Montanaro (folha.uol.com.br/r)

Pedro do Coutto

O poder em toda história do planeta, e lá se vão vários séculos, tem que ser obrigatoriamente ocupado. Nos tempos modernos, incluindo os dois mil anos de Cristianismo, ficou gravado eternamente que para chegar a ele, o poder, só existem dois caminhos: as urnas ou as armas.

A mais recente pesquisa do Datafolha revelou um declínio da popularidade de Bolsonaro, frisando inclusive que se as eleições fossem hoje perderia para Lula da Silva. No entanto, o recuo de Bolsonaro no caminho do voto está sendo substituído pela estrada das armas, que também representa a perspectiva de novo arbítrio levando à porta de uma ditadura.  

SEM PUNIÇÃO – É o que revela o quadro nacional depois da decisão do comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, de não propor nenhuma punição, por mais branda que fosse, ao general Eduardo Pazuello. Nem uma advertência sequer. Portanto, abriu-se o precedente: militares da ativa podem participar de atos políticos.

A população brasileira sentiu um golpe muito forte contra o futuro democrático do país a curto prazo. Se assim não fosse, não haveria necessidade do Alto Comando do Exército endossar o relato do general Paulo Sérgio Nogueira.

A candidatura de Luís Inácio Lula da Silva surgiu de uma engenharia política buscando alguém capaz de derrotar Jair Bolsonaro na reeleição, pois ele, comparecendo às manifestações que pedem a volta da ditadura e o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, coloca em risco a própria democracia.

SÉRIO SINTOMA – Dessa forma, a decisão do Exército, por pressão direta de Bolsonaro, de engolir a atuação de Pazuello, representa um sério sintoma de que, se perder nas urnas, Bolsonaro poderá recorrer às armas. Essa hipótese está bem configurada e ficou mais clara ainda com o episódio que envolveu o ex-ministro da Saúde. Daí porque o presidente da República insiste tanto em substituir as urnas eletrônicas pelo voto impresso.

Não que o voto impresso seja mais seguro do que a urna eletrônica. Pelo contrário. Mas o voto impresso permite, conforme já escrevi neste site, proporcionar uma oportunidade de preenchimento dos votos em branco. Aconteceu tal hipótese nas eleições de 1982 para governador do Rio de Janeiro. Outra coisa: se Bolsonaro vier a ser reeleito, não tenham dúvidas,  leitores, de que ele partirá para um processo extremamente ditatorial.

Basta analisar o comportamento político do chefe do Executivo. Em 2020, ele iniciou a campanha para 2022. Portanto, deseja dar continuidade e, se possível, perpetuar sua presença no plano alto do Planalto. A informação está colocada e se dirige a todo o eleitorado e à população brasileira em geral. Os sintomas do início de junho conduzem a uma visão dramática do que poderá acontecer.

JOGO DE EMPURRA – Reportagem de Marcelo Rocha, Folha de São Paulo, desta sexta-feira, revela que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou ter recebido madeireiros no seu gabinete a pedido do ministro Luis Eduardo Ramos, com quem, aliás, já se atritou. O ministro Ramos, por seu turno, diz que apenas encaminhou a solicitação dos empresários  acusados a Salles. Como se percebe, um equívoco atrás do outro. Luis Eduardo Ramos diz que apenas encaminhou e Salles diz que apenas recebeu as pessoas.

Enretanto, entre receber empresários e agir para anular a apreensão de 200 mil metros cúbicos de troncos e árvores, arrancadas da floresta, surge uma distância muito grande, pois ficou nítido que o ministro Salles tentou legitimar o gigantestco ato ilegal. Não tinha nada que justificasse a sua ida ao local da apreensão. Ficou muitíssimo abalada a sua administração.

DESEMPREGO NO PAÍS –  Fernanda Brigatti e Leonardo Vieceli, Folha de São Paulo, destacam o fato negativo a respeito do desemprego no país e a busca de novos postos de trabalho. Acentuam que o Brasil tem recorde de trabalhadores desempregados há mais de dois anos.

Portanto, fica difícil aceitar a explicação do presidente da República de que o seu governo reduziu em 950 mil pessoas o número de desempregados no Brasil.

General Paulo Sérgio Nogueira consultou Alto Comando antes de desistir de punir Pazuello

Fidelidade eterna a Bolsonaro custará caro a Pazuello

Pedro do Coutto

O comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, matéria de Jussara Soares no O Globo desta quinta-feira, decidiu ouvir o Alto Comando para poder então tomar uma decisão em relação ao caso Pazuello.

Ficou clara, a meu ver, a tendência do general Paulo Sérgio Nogueira no sentido de aplicar alguma sanção contra Eduardo Pazuello. Se a sua tendência fosse negar, já teria decidido pessoalmente, arquivando o processo.

DIVISÃO DE RESPONSABILIDADE – No entanto, se foi consultar o Alto Comando, é porque queria dividir a responsabilidade efetiva em um momento de grave crise política no país. A decisão, portanto, é mais do Alto Comando do que do próprio comandante.

Jair Bolsonaro não desejava que o general Pazuello seja punido, tanto assim que o nomeou, nesta semana, para um cargo no governo. Ao se decidirem, os generais do Alto Comando preocuparam-se também com aa posições dos generais Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, Braga Netto, ministro da Defesa, e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional.

ECONOMIA –  Na edição de terça-feira da Folha de São Paulo, Eduardo Cucolo e Leonardo Vieceli, publicaram reportagem analisando o relatório do IBGE que apontou um crescimento da economia na ordem de 1,2% no primeiro trimestre, em relação ao trimestre anterior.

A inflação foi de 5,4% no ano passado. Os salários não acompanharam este reajuste inflacionário, mas o Produto Interno Bruto subiu, causando uma surpresa. Os investimentos cresceram 4,6% segundo o IBGE, mas o consumo cresceu 0,1%. Não encontro explicação lógica. O consumo foi muito maior. Esta parte do documento do IBGE sobre o PIB está, a meu ver, esperando uma explicação nítida, pois 0,1% é irrisório para um trimestre.

Além disso, o PIB tem que ser comparado com o mesmo trimestre do ano passado, entretanto se o avanço do produto fosse cotejado com o resultado do trimestre anterior, outubro, novembro e dezembro, o crescimento estaria anulado. O problema do cotejo do PIB tem que ver os números absolutos para se distinguir o superficial do supérfluo.

DEPOIMENTO À CPI –  A médica Luana Araújo, cuja atuação foi destacada no depoimento à CPI da Pandemia, afirmou categoricamente ser contrária à cloroquina, afirmando não saber porque foi convidada a trabalhar no Ministério da Saúde e, dez dias depois, ter sido afastada. A matéria é complexa, tão quanto um claro enigma, para citar o poeta Drummond de Andrade. Ela foi afastada justamente por ser frontalmente contra o tratamento precoce através de remédios sem comprovação científica encomendados pelo governo como parte ativa ao combate ao coronavírus.

Na noite de quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro falou em rede nacional. Como consequência, houve panelaços em várias capitais brasileiras. Aos panelaços devem se juntar também como manifestação popular legítima, as concentrações ocorridas no último fim de semana contra o governo que continua sem um projeto definido, apesar de ter assumido o país há dois anos. O projeto do presidente da República volta-se exclusivamente para as urnas de 2022

SALLES – Decisão da ministra Cármen Lúcia autoriza a abertura de inquérito policial contra o ministro Ricardo Salles, que ainda permanece à frente da pasta do Meio Ambiente, apesar das ondas contrárias a sua atuação e também do seu posicionamento favorável ao desmatamento de florestas verdes.

Esse inquérito, decidido na quarta-feira, é mais um dos que Salles enfrenta como decorrência agora principalmente da denúncia do ex-superintendente da Polícia Federal na Amazônia Alexandre Saraiva. A abertura de mais esse inquérito foi solicitada pela própria PGR em face de notícia-crime apresentada por Saraiva.

LEGITIMAÇÃO –  Salles tentou legitimar um volume enorme de árvores abatidas com por desmatadores que tentam exportá-las. Mas não conseguirão porque o próprio governo americano nega-se a permitir a entrada nos Estados Unidos de tal quantidade de madeira sem a devida aprovação legal.

Portanto, o fato escandaloso serviu para derrubar antigas árvores cujos troncos somados atingem a cifra recorde de 200 mil metros cúbicos. Sem a aprovação de entidades ambientais, as transações não serão concluídas. Concluído está, aos olhos de todos, a atuação negativa de Ricardo Salles no Meio Ambiente.

Ex-ministro Pazuello é nomeado para novo cargo e Bolsonaro desafia todo o país

Charge do Miguel Paiva (diariodocentrodomundo.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro nomeou o general Eduardo Pazuello para o cargo de secretário de Estudos Estratégicos da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, lançando assim um desafio a todo o país, incluindo o Exército, na medida em que o chefe do Executivo deixa claro que não aceita punição para o ex-ministro da Saúde e também a sua reincorporação ao segmento militar, uma vez que se trata de um oficial da ativa. Como é natural, o ato de Bolsonaro foi publicado com grande destaque pelo O Globo, pela Folha de São Paulo e pelo Estado de São Paulo.

O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, terá que assumir uma atitude clara, bem como o ministro da Defesa. Quando digo atitude, indico seja ela qual for e em que direção, mas acentuo que não poderá ficar congelada. Por um lado ou pelo outro, será preciso uma forte sensibilidade não só no Planalto, mas em todos os estados brasileiros. No O Globo, a reportagem é de Daniel Giulino, Dimitrius Dantas e Jussara Soares. Na Folha, de Ricardo Della Coletta, no Estadão, de Filipe Frazão e  Lucy Ribeiro. As próximas horas serão decisivas na medida em que medidas terão que ser tomadas.

DESTAQUE – O presidente da República enfrentou a pressão que generalizou o quadro político nacional. Inclusive porque Bolsonaro voltou a destacar Pazuello numa manifestação em Brasília e puxou aplausos para o general. Assim agindo, ele repetiu a cena que já havia acontecido na caravana de motocicletas no Rio de Janeiro. O panorama está crítico, a atmosfera está densa e todos os envolvidos estão à espera de um desfecho a qualquer hora.

O equívoco que Bolsonaro cometeu evidencia-se ainda mais no fato de ter puxado aplausos para um ministro que ele mesmo exonerou, deixando claro que teria que ser substituído. Caso contrário, o teria mantido na pasta. Daí porque não se compreende a ação incentivada.

Curioso é verificar que Bolsonaro criou a secretaria, mas a designação de Pazuello foi assinada pelo ministro Luis Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil da Presidência da República. Não parece lógico que um cargo do mesmo nível ministerial possa investir uma pessoa numa secretaria paralela a da da Casa Civil.

CLIMA DE RUPTURA – Na história moderna brasileira, repete-se o clima de ruptura que marcou os desfechos de 11 de novembro de 1955, o de 31 de março de 1964 e o de 13 de dezembro de 1968, Ato nº 5, formando um quadro também semelhante ao do atentado de 1981 no Riocentro.

Há ainda a atmosfera que marcou a campanha pelas Diretas Já que antecedeu de poucas semanas, em 1985, o fim da ditadura militar que se instalou no país em abril de 1964. Agora, um quadro de sensibilidade bastante forte se projeta sobre o país. A população aguarda o duelo final como nos filmes de capa e espada.

PIB  – O IBGE revelou nesta terça-feira e os jornais publicaram no dia seguinte o resultado registrado pelo Produto Interno Bruto no primeiro trimestre de 2021. O crescimento foi de 1,2%, mas a área econômica vê como sintoma de que a economia poderá este ano avançar em torno de 5%.

Para mim é difícil chegar a esses 5% com o desemprego mantendo-se na escala em que se encontra e na qual estão comprimidos 14 milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O presidente Bolsonaro, diante de reclamações sobre a manutenção do auxílio emergencial, disse ironicamente que “os que não estão satisfeitos procurem um banco para fazer empréstimos”. Como os miseráveis, eternizados na obra de Victor Hugo, poderão ir ao banco realizar operações se as condições em que se encontram os estão levando até à fome?

CAUTELA – O crescimento do PIB tem que ser analisado com cautela. Em primeiro lugar porque se trata de uma incidência sobre um número absoluto de R$ 6,6 trilhões. Em segundo lugar, porque 1,2% do primeiro ao primeiro trimestre de 2021 em relação ao primeiro trimestre de 2020 não indica um avanço concreto na mesma proporção do crescimento econômico. Não cresce na mesma proporção porque a população brasileira sobe a velocidade de 1% a cada 12 meses. Acentue-se o fato de que a renda per capita resulta da divisão do PIB pelo número de habitantes.

Não termina aí a estrada que leva ao cálculo. Tem que se considerar também o índice inflacionário que separa 2021 de 2020. O índice inflacionário do IBGE foi de 5,4%. Assim, o crescimento fica sujeito a duas lentes: a lente demográfica e a lente inflacionária. Como acontece não só no Brasil , mas em todos os países do mundo.

Governo adiou o Censo pela pandemia mas quer realizar Copa América

Charge do Zé Dassilva (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Os três principais jornais do país, O Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, publicaram nesta terça-feira, com grande destaque, a atitude do governo Bolsonaro dispondo-se a aceitar a realização da Copa América no país apesar da pandemia que já matou mais de 460 mil brasileiros e que continua sob um ritmo diário assustador. O problema é gravíssimo, todos concordam, mas o governo parece que ignora.

Para o Censo não houve recursos financeiros, para a Copa América não houve problemas. O contexto revela em toda a sua plenitude a desorientação do governo no país. Os órgãos de comunicação, dirigentes esportivos, infectologistas e profissionais da área médica de forma geral temem que a realização de um torneio desta ordem poderia aumentar ainda mais a velocidade da contaminação, além das graves consequências que poderão ser geradas.

DELEGAÇÕES – É preciso considerar que mesmo sem público, teremos a presença de delegações estrangeiras em um momento em que todo o mundo continua a se acautelar em relação à propagação do vírus.

As cepas são um tormento em sequência na pandemia. A diversificação da virose é assustadora, mas o Planalto parece não concordar. O vice-presidente Hamilton Mourão acredita que se não houver espectadores não teremos maiores problemas. Mas isso, digo eu, não afasta a possibilidade de contaminação. No O Globo, a reportagem é de Athos Moura, Dimitrius Dantas e Jussara Soares e no Estado de São Paulo é de Lauriberto Pompeu. Na FSP a matéria saiu sem assinatura.

A questão que se coloca refere-se inclusive ao risco de nova onda da pandemia em um ambiente de alto risco para todos. Até o momento, o governo não conseguiu frear a contaminação e reduzir os casos fatais. O ritmo continua o mesmo. Tenho dito aqui que o ministro Marcelo Queiroga precisa controlar a contaminação, mas não é fácil, ainda mais pelo fato de o presidente Bolsonaro acelerar a incidência do problema. Vamos ver se o bom senso predomina porque as manifestações contrárias à Copa América estão se desencadeando com grande vigor.

CRISE HÍDRICA – Na Folha de São Paulo, Bernardo Caram e Washington Luís publicou reportagem sobre a crise hídrica que se reflete no esvaziamento dos reservatórios ameaçando a produção de energia elétrica que é vital para todos. O nível de reservatórios desceu muito pela falta de chuvas, mas é preciso ver como está o comportamento dos recursos hidrológicos das diversas regiões do país.

Não apenas para tentar resolver a emergência, mas para evitar que casos assim se repitam sem interrupção. O problema basicamente é o seguinte: falta ao Brasil uma rede de transmissão adequada que permitiria a produção de energia hidrelétrica nas áreas em que não houvesse desabastecimento e isso evitaria que fossem acionadas as termelétricas.

As linhas de transmissão são fundamentais para se enfrentar a queda do nível dos reservatórios do país. Faltando energia, falta tudo, inclusive falta previsão e imaginação para evitar a repetição de crises como essa atual.

Protestos de sábado fazem com que bolsonaristas dirijam ataques a Lula

Charge do Sidney Falcão (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

A onda de protestos contra o governo Jair Bolsonaro verificada no último sábado fez com que os seus apoiadores  passassem a atacar diretamente Lula da Silva, buscando assim a polarização tendo em vista o desfecho nas urnas de 2022.

Assumiram a posição destacada como o melhor caminho para que o bolsonarismo possa enfrentar o lulismo, o que, em síntese, significa reduzir a possibilidade de surgir um terceiro candidato capaz de abalar o choque que hoje parece estabelecido para a próxima disputa presidencial.

BANDEIRA PRÓPRIA – A meu ver, os bolsonaristas não possuindo projetos a destacar que possam ir ao encontro das reivindicações sociais que se projetam no cenário nacional, partem para uma tentativa de afastar o debate do plano das ideias, da economia e do lado social, restringindo assim as alternativas pela falta de uma bandeira própria  capaz de motivar os eleitores e eleitoras do país.

A direita, aliás, está tentando obter efeitos eleitorais sobre a polarização porque não possui uma mensagem capaz de seduzir o eleitorado. O bolsonarismo não toca em nenhum ponto favorável à população e preferem buscar o debate entre duas figuras políticas que se encontram consolidadas no momento.

No momento só não, digo eu, no futuro marcado para outubro do próximo ano. No mundo inteiro a direita procura destacar defeitos das correntes adversárias, incorporando o velho anticomunismo em seus posicionamentos. Mas como o comunismo não assusta mais ninguém, o debate restringe-se à tentativa de influenciar aqueles que irão votar mais pelos defeitos dos  adversários do que pelas qualidades que deixam de apontar, no caso brasileiro, do governo do país.

REDES SOCIAIS – Sem dúvida, os protestos de sábado surpreenderam pela reunião de manifestantes em várias capitais do país. Tais manifestações devem ter sido impulsionadas pelas redes sociais, uma vez que não houve nenhuma convocação oposicionista para que as pessoas levassem os seus protestos às ruas, partindo de um apelo pela vacina e terminando com a ameaça de um corte no regime democratico.

Matheus Teixeira, na Folha de São Paulo, focaliza um movimento de aproximação entre  o Supremo Tribunal Federal e o Congresso numa engrenagem baseada na ideia democrática contra Bolsonaro, que a rigor sintetiza a possibilidade de uma ruptura nas instituições brasileiras.

Como aconteceu diversas manifestações de bolsonaristas pedindo pela volta da ditadura militar com Bolsonaro no comando, além do fechamento do Congresso e do STF, os fatos comprovam que a preocupação de resguardar a democracia faz com que, como observa a reportagem, se construa uma ponte na Esplanada de Brasília entre dois poderes, isolando o terceiro, no caso o Executivo. Cenário não falta para comprovar tudo isso.

DECLARAÇÕES – Basta ver as declarações do próprio Bolsonaro contra qualquer punição, por mais leve que seja, contra Eduardo Pazuello. Inclusive a situação do ex-ministro da Saúde não foi estabelecida por nenhum ato do Palácio do Planalto. Pazuello, pelo que se supõe, não está ocupando nenhuma função pública. Apesar disso, o presidente da República se empenha para que ele não seja enquadrado no regulamento disciplinar do Exército baseado na própria Constituição do país.

Pazuello já foi representado pela Advocacia Geral da União, embora não seja mais ministro da Saúde. Ele também ainda não retornou às funções militares. Assim, é surpreendente o empenho do governo, sobretudo porque o próprio presidente da República se viu na obrigação de afastá-lo da Saúde.

GOVERNOS DITATORIAIS –  Portanto o empenho de Bolsonaro, revelado pelo próprio Planalto de que Pazuello não seja punido por ato do comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, soa estranho aos ouvidos da grande maioria da população brasileira que não deseja reviver as sombras que resguardam no passado recente os governos ditatoriais que se sucederam de 1964 a março de 1985. Foram assim 21 anos de autoritarismo.

O STF e o Congresso sob ameaça, naturalmente, assumiram uma posição capaz de exprimir a preocupação dos dois poderes contra a ameaça de um terceiro poder que só pode ter origem nas armas. Aliás, a ocupação do poder só pode ser alcançada por dois caminhos. O caminho das urnas ou o caminho das armas. A semana que começou ontem será um espaço de tempo de fundamental importância para que os rumos a partir de agora se esclareçam.

IGP-M –  O IGP-M da Fundação Getúlio Vargas, como destaca Roberto Dumas, na FSP de ontem, é formado por fatores que se distanciam do relacionamento social entre o governo e o poder de consumo da população.

O autor da matéria coloca bem a questão, pois se o IGP-M reflete os preços das commodities, produtos que seguem os preços internacionais, e também com base nas flutuações do câmbio, não faz sentido que se transforme em ponto de reajuste dos aluguéis e do consumo da energia elétrica.

Como se constatou o índice subiu mais de 30% de 2020 para 2021. Enquanto os salários permaneceram estacionados no marco zero da realidade. Vê-se por essa colocação que é impossível continuar sendo um fator de reajuste tanto da energia elétrica residencial quanto dos aluguéis aos quais estão vinculados milhões de brasileiros.

CRIPTOMOEDASJúlia Moura, também na Folha, publicou matéria revelando ter ocorrido uma nova desvalorização das criptomoedas, modelo que já possui um ativo bastante alto no mesmo nível do risco que nelas representam os aplicadores.

O volume das perdas ocorridas no mês de março, publicadas agora, mostram nitidamente uma questão eterna: as engrenagens financeiras, no fundo da questão, dependem do poder de consumo sobre o qual repousam as movimentações. Nenhuma medida financeira por si só é capaz de produzir riqueza e muito menos melhorias da economia ou produção de qualquer avanço social.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA – O lance financeiro não existe se não tiver uma base sólida no poder aquisitivo da população. Lance de dados financeiros não criam, por isso, riqueza. Muito menos são capazes de melhorar o panorama econômico ou proporcionar qualquer redistribuição de renda. Pelo contrário; só promovem mais concentração. Isso porque somente os segmentos de renda alta podem ter acesso ao balanço dos índices que representam o caminho da concentração, não o da redistribuição.

O problema da concentração de renda não é só do Brasil, mas em nosso país atinge um grau elevadíssimo. A prova está aos olhos de todos. Basta recorrer aos vídeos que focalizam do alto os redutos da pobreza. A imagem fala por si e resume a triste verdade de que uma parcela enorme da população vive sem contar com o abastecimento de água e serviço na rede de esgotos. As duas imagens, na verdade, são as que condenam a concentração de riqueza levada a uma estratosfera tanto política quanto social.

Bolsonaro parte para o confronto, colocando a democracia e o Congresso sob risco

Charge do Brum (twitter.com)

Pedro do Coutto

Reportagem de Igor Gielow, na Folha de São Paulo deste domingo, revela que o presidente Jair Bolsonaro na viagem que fez ao Amazonas para inaugurar uma pequena ponte, afirmou ao general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, que não quer ver o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello sofrer punição por ter participado ao seu lado de manifestação política no Rio de Janeiro em apoio ao governo.

O comandante do Exército já havia se manifestado a favor de uma pena, por mais leve que fosse, ao general Eduardo Pazuello, da ativa, por sua presença em palanque político. Agora ou o presidente da República impõe a sua vontade colidindo com o regulamento militar ou o general Paulo Sérgio Nogueira fica com a sua autoridade esvaziada. Seja como for, o desafio está predominando diante de uma possível uma crise militar envolta na opção colocada pelo chefe do executivo.

INVESTIDAS – O problema já estava colocado em outras situações decorrentes de investidas de bolsonaristas contra o Congresso e até contra o Supremo Tribunal Federal. Além dos ataques que permanecem no ar no país, soma-se o problema da punição ou não de Pazuello.

A escolha deve ser difícil, caso contrário Bolsonaro não assumiria esse papel, colocando a sua vontade política  acima do regulamento e da hierarquia militar. Portanto, a semana que hoje começa será decisiva para o rumo do regime democratico ao qual o universo político partidário tem razões para temer. Como todos já constataram, o presidente da República compareceu à manifestação em Brasília contra o Congresso e o STF.

O Supremo Tribunal Federal recentemente anulou as condenações do ex-presidente Lula habilitando-o, portanto, para concorrer às eleições presidenciais de 2022. O enigma está na bola de cristal que reflete tendências bastante nítidas. Se prevalecer a vontade de Bolsonaro, o regime e até a própria liberdade estarão expostos num caminho sem volta.

AUTORITARISMO – Se Bolsonaro em 2020 já havia iniciado a sua campanha para as urnas de 2022, claro está que sem confiar no voto democrático, o presidente da República está partindo para um final autoritário. Se o comandante do Exército mantiver a sua posição, estará deflagrada a mais grave crise transcorrida no atual governo.

Apoiadores de Bolsonaro já foram às ruas diversas vezes, como no início de maio, para anunciar a ideia voltada para a ruptura institucional do país. Se Bolsonaro vencer, tanto o STF quanto os senadores e deputados federais passam a correr o risco de uma repetição de episódios anteriores da história do país, como foi o caso de 1964 e de 1968, neste caso marcado pela outorgação do Ato Institucional nº 5. Há também outros precedentes de situações críticas: novembro de 1937 é uma delas. Vargas fechou o Congresso e impôs uma derrota à democracia.

São episódios que formam em cadeia as lutas entre o regime democratico e a face autoritária e ditatorial que já significou mais recentemente entre nós. Não vale a pena lembrar o que aconteceu, basta levar em consideração o risco que a nação enfrenta. Não há uma terceira via possível sem que um dos setores colocados frente a frente possa sair ileso do desfecho final. O Senado e a Câmara Federal estão sob grave ameaça.

Bolsonaristas não debatem fatos e montam blindagem para o presidente nas redes sociais

Charge do Bira Dantas (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Patrícia Campos Mello, em reportagem de página inteira na edição da Folha de São Paulo deste sábado, revela que bolsonaristas estão montando uma ofensiva nas redes sociais da internet para tentar blindar as manifestações contrárias ao governo e ao presidente veiculadas no universo eletrônico.

Observa-se que a preocupação dos apoiadores do presidente da República representa a aceitação tácita de que os ataques são mais fortes do que a capacidade de defesa do governo. Quem blinda é porque está sentindo a necessidade de defesa, logo deseja evitar o destaque que fatos contrários sejam veiculados. Isso de um lado.

PROJETO DE LEI – De outro, os mesmos apoiadores propõem um projeto de lei que impeça as decisões do Facebook, do Twitter , do Instagram e do Youtube de remover  conteúdos que julguem inadequados. Uma verdadeira surpresa. Como é possível existir um regulamento que garanta a impossibilidade de retirada de textos e imagens de qualquer tipo? Tal retirada representa um direito do respectivo canal em veicular o que considere concreto e pertinente aos fatos.

Não se pode exigir de qualquer publicação, seja jornal, emissoras de televisão, rádio e redes sociais de não poderem gerir os seus próprios espaços sem levar em conta a veracidade e a autenticidade. Não se trata de liberdade de expressão. Os editores existem para selecionar as publicações capazes de despertar reações diversas dentro de limites que somente podem ser fixados após uma exame do que eles representam e apresentam em seus conteúdos.

DIREITO DE RESPOSTA – O importante na questão não é discutir as manifestações. Trata-se de rebater aquelas que mereçam respostas. Sempre digo que em matéria de redes sociais, os atingidos deveriam exigir sempre o direito de resposta, com o mesmo destaque com que foram veiculadas, ponto fundamental da Lei de Imprensa.

Afinal, o direito de expressão não livra o acusador das consequências legais que possam existir. Estão sujeitos aos inquéritos, processos judiciais e isso não tem a ver com censura prévia. Se alguém publica nas redes sociais matérias capazes de gerar complicações imediatas, é direito de quem edita verificar a veracidade de tais fatos anunciados. Imunidade não significa irresponsabilidade.

IBGE REBATE INFORMAÇÕES – Na quinta-feira, o Ministério da Economia com base em dados da Caged, destacou que no período de janeiro a abril deste ano o mercado de trabalho, com carteira assinada, preencheu 190 mil vagas, reduzindo assim o desemprego. Entretanto, Daniela Amorim, do Estado de São Paulo de sexta-feira, com base nas estatísticas do IBGE, revelou que o desemprego subiu nos meses citados pelo Ministério da Economia.

O desemprego, segundo o IBGE, apresenta um índice de 14,7% e atingiu o recorde de 14,8 milhões de brasileiros desempregados. Afinal, quem está errado, o IBGE, em sua pesquisa nacional por amostra de domicílios contínua, ou o Caged e o MInistério da Economia? Assim, acentua Daniela Amorim, o mercado de trabalho continua enfraquecido e não apresentou este ano sinal de recuo.

DADOS REAIS – A contradição deve partir, na melhor das hipóteses, num sistema de cálculo do IBGE ou da Caged. Portanto, verifica-se que não adianta apenas divulgar matérias, mas sim divulgá-las consolidadas por dados reais. A repetição das mesmas informações, por si, não transforma o vazio da repetição no preenchimento de fatos concretos.

Já se disse através da história que a mentira pode se transformar em verdade. Não é fato. A mentira sempre é derrubada pela realidade e não há maneira de se enfrentar a realidade a não ser anunciar qualquer iniciativa capaz de transformar o que ocorreu na verdade. Assim é a imprensa. Assim é a própria vida humana.

General Pazuello usa um argumento absurdo em sua resposta ao Exército

Pazuello joga fora toda a sua reputação construída no Exército

Pedro do Coutto

Reportagem de Bela Megale e Daniel Giulino, O Globo desta sexta-feira, focaliza a manifestação do general Eduardo Pazuello em sua defesa encaminhada ao Exército no procedimento aberto para apurar a sua presença na manifestação no Rio de Janeiro, no último domingo, ao lado de Jair Bolsonaro, afirmando que o evento não teve caráter político ou partidário porque, acentuou, o presidente da República não se encontra filiado a partido algum.

A justificativa é totalmente absurda e não atende à análise do Comando do Exército ao tentar separar o caráter político do caráter partidário. Na minha opinião, o caráter político não depende de filiação partidária, portanto não cabe essa explicação. Os atos políticos independem de sentido eleitoral. Porém, no caso, o sentido de campanha política está exposto e a justificativa de Pazuello não resiste a menor análise.

APOIO DE BOLSONARO – De outro lado, em transmissão pelas redes sociais da última quinta-feira, Bolsonaro corroborou com o argumento de Pazuello. A situação assim se complica ainda mais, na medida em que o general Paulo Sérgio Nogueira será obrigado a se pronunciar não apenas quanto à presença de Pazuello no palanque ao lado de Bolsonaro, mas também estará atingido por uma afirmação sem pé nem cabeça.

O general Paulo Sérgio Nogueira está diante de uma situação sensível: rejeitar a explicação de Pazuello ou aceitá-la, comprometendo a si mesmo e ao regulamento disciplinar do Exército. O problema assim continua se desenvolvendo agora com repercussão nos meios militares. Afinal de contas, o próprio Pazuello já havia informado que se equivocou. Mas agora desiste da sua posição anterior e envereda pelo caminho da fantasia.

AUXÍLIO EMERGENCIAL –  No café da manhã de quinta-feira com um grupo de empresários em Brasília, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o auxílio de emergência é uma arma que o governo dispõe. Citou “arma que nós temos e que pode ser renovada se a pandemia se mantiver no ritmo atual”.

O ministro se refere possivelmente a um instrumento de ação política e ao mesmo tempo um ato administrativo também com o mesmo efeito. Caso contrário, Paulo Guedes não teria se referido ao auxílio emergencial como uma arma de ação em favor do governo. Ele pode até estar certo, mas deixa assinalado tacitamente a sua vontade de partir para uma ação governamental que lhe permita algum êxito em matéria de popularidade. Paulo Guedes agora deseja utilizar o abono como peça de ação até partidária.

POPULARIDADE EM QUEDA – A interrupção do abono afetou também a popularidade de Bolsonaro. A questão econômica, mas que também tem um reflexo político muito grande, está no fato dos preços continuarem subindo, caso agora da energia elétrica enquanto os salários estão estagnados.

É um desafio social que os assalariados têm que enfrentar em condição de amplo prejuízo porque as empresas do governo reajustam os preços, no caso da Eletrobras, e os trabalhadores e trabalhadoras, além dos servidores públicos, ficam presos a uma impossibilidade que está se fazendo sentir. Assim é impossível resolver qualquer problema, seja ele econômico, social ou político.

ISENÇÃO NA AMAZÔNIA – Na Folha de São Paulo, Bernardo Caram e Thiago Resende, destacam a declaração do ministro Paulo Guedes de que está sugerindo ao presidente da República uma isenção fiscal para que empresas se instalem na Amazônia, criando assim um pólo de empreendimentos sustentáveis.

O ministro apresentou a ideia de conceder isenção de Imposto de Renda por 20 anos a empresas que se instalarem no local. Para ele, o Brasil precisa ampliar a atuação no mercado de carbono. As afirmações de Paulo Guedes foram feitas para responder às críticas que apontam para falta de manutenção no meio ambiente. O ministro acrescentou que uma árvore vale mais viva do que morta.

DESMATAMENTOA reportagem acrescenta, com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que no mês de abril deste ano registrou-se o maior período de desmatamento na região.

A proposta do ministro da economia parece inspirada na Zona Franca de Manaus, mas com uma diferença. A Zona Franca de Manaus referia-se à comercialização de produtos industrializados, agora Paulo Guedes propõe a instalação de empresas na região. Sem frisar qual o objetivo, no fundo, o caminho da industrialização da floresta significa abrir uma estrada ainda maior para o desmatamento.

Convocação de governadores pela CPI aumentará as críticas a Bolsonaro

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Julia Chaib e Renato Machado, Folha de São Paulo, e Natália Portinari e João Paulo Saconi, O Globo, em reportagens publicadas nesta quinta-feira, colocam em destaque a decisão da CPI da Covi-19 sobre a convocação de governadores para depor a respeito das ações de enfrentamento à pandemia, fato que invés de reduzir as críticas ao governo Jair Bolsonaro, irão, na realidade, ampliá-las.

Impressionante como a articulação política do Planalto não percebeu este aspecto da questão que considerava os depoimentos de governadores essenciais para deslocar a atenção da opinião pública para situações estaduais e, com isso, descomprimir o governo federal. Nada disso aconteceu. A própria CPI acolheu essa proposta por sentir, é claro, que o panorama da crise causada pela pandemia vai se tornar mais denso em relação à Brasília.

REPASSES – A maioria da CPI tinha vacilado a respeito da proposta do Planalto, porém percebeu que a presença dos governadores depondo iria acentuar a dimensão das investigações, estendendo-as aos repasses feitos pelo ministro Paulo Guedes para os estados. O governo não contava com esse aspecto e, por isso, tentava diluir as responsabilidades, deslocando-as do foco presidencial para os focos estaduais e até municipais. O comando da CPI sentiu que , de fato, a convocação de governadores abrirá mais espaço na imprensa na cobertura das versões daqueles que são chamados a depor.

Quanto aos prefeitos, parece que não haverá a mesma disposição. Afinal, o país tem 5600 municípios e seria uma perda de tempo convocar a maioria deles, impossibilitando os trabalhos de investigações. Já os governadores são 27, dos quais 14 já foram listados. Nessa etapa, vão surgir também as reclamações que governadores estão prontos a fazer contra a orientação do Ministério da Saúde, envolvendo inclusive a remessa de doses da cloroquina. O governo formou uma situação desfavorável e a essa altura deve estar com vontade de não ter feito a proposta.

O caminho agora é favorável aos que investigam as ações do Planalto. Portanto, verifica-se que houve um erro de avaliação no gabinete político da Presidência da República, e que isso aumentará pressões mais abrangentes. Governadores da oposição devem proporcionar bons momentos à CPI, sobretudo ao que refere às perguntas a serem respondidas.

SALLES E O MEIO AMBIENTE – No outro lado da defesa do meio ambiente, os problemas do Planalto são muitos, pois a cada dia surgem novas revelações contrárias ao ministro Ricardo Salles, que foi considerado um ministro de atuação excepcional por Bolsonaro.

Sob esse ângulo, o presidente da República se isolou da opinião predominante no país e até no exterior sobre o atual ministro que deveria ser do Meio Ambiente. As questões envolvendo Ricardo Salles a cada dia contribuem para reduzir a popularidade e aprovação de Bolsonaro, gerando ainda mais obstáculos para a sua pretendida reeleição no próximo ano.

Exército ainda em silêncio sobre o caso da punição ao general Pazuello

Bolsonaro e Pazuello: manda quem ainda pode e obedece quem não tem juízo

Pedro do Coutto

Reportagem de Jussara Soares, O Globo desta quarta-feira, destaca que o problema da transgressão militar do ex-ministro Eduardo Pazuello se confronta com o silêncio do Exército ao que se refere à eventual punição ou  advertência verbal pela participação do ex-ministro na carreata de domingo, no Rio, em meio a motociclistas, tendo, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, discursado para os apoiadores do governo.

O comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, ainda não decidiu, ao menos aparentemente, o que fazer para superar o obstáculo e o mal estar criado pela presença de um general da ativa em uma manifestação política. Jussara Soares ouviu fontes militares, que não se identificaram, e que indicaram que o comandante do Exército terá, sem dúvida, que resolver a questão.

PRAZO – Pelo regulamento disciplinar do Exército, o espaço de tempo entre uma atitude e a outra está limitado a poucos dias. O prazo para ser exato é de três dias a partir da notificação, mas esse limite pode ser estendido a pedido do general Pazuello que terá de ser ouvido no desenrolar dos fatos; isso porque terá um prazo para apresentar sua defesa.

Inicialmente, acentua Jussara Soares, o Exército pensou em divulgar uma nota sobre a abertura do procedimento, mas ao que parece desistiu sem maiores explicações, deixando uma incógnita a ser traduzida. O general Paulo Sérgio Nogueira se reuniu na terça-feira com o ministro da Defesa Walter Braga Netto para discutir o caso. Uma semana antes da caravana de motociclistas, Braga Netto também foi criticado por certa vez ter participado de manifestação em Brasília quando manifestantes pediram o fechamento do Congresso e do STF. Entretanto, Braga Netto estava já na reserva.

Se comprovada a transgressão, Pazuello poderá ser punido com advertência, repreensão ou outras consequências previstas no regimento disciplinar do Exército. Há um mal estar reinante em meios militares. Uma corrente defende a passagem do general para a reserva, o que significa um ato de autoridade do Comando porque afasta a perspectiva do próprio Pazuello solicitar a sua reforma no posto em que se encontra.

DESGASTE – O desempenho de Pazuello está sendo examinado sob o ângulo de que qualquer decisão representará um desgaste ainda maior para o Planalto. No entanto, a política não está só no Planalto ou nos quartéis, mas em toda a sociedade brasileira que aguarda fatos que possam objetivar ações concretas do governo não só no plano de manifestações radicais, mas sobretudo na esfera administrativa e econômica.

Há casos a resolver, por exemplo na área do Meio Ambiente. Agora o ministro Ricardo Salles está sendo investigado pela Polícia Federal, com fortes indícios de ter praticado crime contra o meio ambiente , favorecendo madeireiros responsáveis pelo desmatamento da Floresta Amazônica.

BUSCA E APREENSÃO – É evidente, cada vez mais, as certezas de que Salles não tem nada a ver com o meio ambiente em matéria de conservação. O ministro Alexandre de Moraes atendeu a comunicação da PF e determinou a busca e apreensão no escritório de Salles em Brasília. Falta ainda a apreensão do celular que o ministro diz não saber onde se encontra.

Mas isso não significa o fim da questão.  A posição de Salles está cada vez mais frágil, apesar de o presidente da República ter dito que a sua atuação é excepcional. Mas não, digo eu, no sentido construtivo, pois a cada semana surge um novo fato relativo ao desmatamento e às queimadas.

Bolsonaro tenta impedir Exército de divulgar sua decisão sobre Pazuello

Charge do Aroeira (brasil247.com)

Pedro do Coutto

Reportagem de Eliane Cantanhêde, Felipe Frazão e Lauriberto Pompeu, o Estado de São Paulo desta terça-feira, revela que o presidente Jair Bolsonaro está tentando proibir o Exército de divulgar qualquer decisão a respeito do caso Pazuello, por sua participação, embora general da ativa, na manifestação política de apoio ao governo na caravana de motociclistas que percorreu no último domingo o roteiro da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ao Monumento da Força Expedicionária Brasileira na proximidade do Aeroporto Santos Dumont.

A jornalista Eliane Cantanhêde, também da GloboNews, é sempre muito bem informada sobre as reações que ocorrem nos meios militares. O comandante do Exército, Paulo Sergio Nogueira, abriu uma investigação voltada para esclarecer a situação do ex-ministro da Saúde.

DIVULGAÇÃO – Bolsonaro não deseja que a decisão, seja ela de advertência ou qualquer outra medida, venha a ser divulgada oficialmente. Não atino a verdadeira razão da atitude presidencial, uma vez que parece um temor de que qualquer punição imposta à Pazuello reflita contra o Palácio do Planalto. O fato é que Pazuello subiu no palanque e até discursou.

A intenção de proibição representa um sinal de fraqueza, acentuando o fato de não ter o governo firmeza em enfrentar uma decisão pautada no regulamento militar e na questão de simples bom senso.

Como assinalou em editorial, O Globo, edição também de ontem, classifica o comportamento de Bolsonaro como um desafio colocado exatamente contra o Exército brasileiro. O comando do Exército, tendo a frente o general Paulo Sérgio Nogueira, abriu uma espécie de processo administrativo contra Pazuello. Se Bolsonaro reforçar a sua intenção de proibir  a divulgação do desfecho, estará aberta uma crise nas áreas militares do país, pois o Exército não pode recuar em seu rumo, que é o cumprimento do seu estatuto.

RECONHECIMENTO – O processo político do país está se desenvolvendo em duas frentes: no Senado a CPI da Pandemia, no Exército o processo disciplinar que Pazuello descumpriu. O caso ganhou ainda mais importância após o próprio Pazuello reconhecer publicamente na segunda-feira que havia errado, mas a desculpa não é o fim do processo. Transforma-se em um choque de correntes cujo final é de difícil previsão.

Inclusive é bom lembrar que o vice-presidente Hamilton Mourão em uma entrevista aos jornalistas na entrada do Palácio do Planalto disse que realmente Pazuello falhou e, portanto, torna-se necessária uma resposta militar.

Essa resposta pode ser desde uma advertência, uma punição escrita ou também a transferência de Pazuello para a reserva do Exército. O problema está colocado. O general Hamilton Mourão ao endossar a atitude do general Paulo Sérgio Nogueira projetou um limite entre correntes militares diferentes, encontrando-se mais próximo do afastamento de Pazuello, o que colocaria fim a uma crise que está sendo realimentada pelo próprio presidente da República.

RECUO – Mais uma vez, ao longo da história, o processo político projeta-se numa esfera tanto partidária quanto militar. Novos desdobramentos devem vir por aí. Pode ser o recuo de Bolsonaro, mas não pode ser o recuo do general Paulo Sérgio Nogueira.

O próprio Hamilton Mourão já passou por processo semelhante quando ainda na ativa defendeu o lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018. Trata-se assim de um precedente bastante próximo da realidade de hoje. Vale acentuar que o momento é muito mais crítico do que aquele que culminou na eleição do atual presidente da República.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO –  Em artigo publicado ontem na Folha de São Paulo, o professor Hélio Hélio Schwartsman coloca bem o problema da liberdade de expressão, a ausência de censura e o trabalho dos editores nas redes sociais.

Os editores nas redes sociais seguem o exemplo dos editores de jornais e emissoras de televisão, incluindo apresentadores e apresentadoras.  A meu ver, Hélio Schwartsman está absolutamente certo. Ele critica o decreto anunciado por Bolsonaro impedindo as redes sociais de retirarem de suas plataformas matérias que a seu critério devam ser removidas. Impedimento legal nao existe para tal atitude.

Como também não procede dizer que pelo fato de receberem matérias jornalísticas, os editores devem aceitá-las integralmente. O processo é idêntico ao dos editores das mídias impressas; chegam matérias por vários caminhos e de várias fontes, incluindo também opiniões.

LIMITAÇÃO – As matérias, no caso dos jornais, estão limitadas pelo espaço disponível. Assim não existe obrigação nenhuma por quem recebe um texto em publicá-lo. Há também uma seleção de conceitos, sobretudo porque a edição jornalística exige a pesagem das matérias através da importância sob as quais se revestem.

Há certas matérias que são efetivamente impublicáveis. Liberdade de expressão não significa imunidade de seus autores. São escalas diferentes. Para isso é que existem os critérios jornalísticos. Rejeição não significa censura, mas o direito de escolha pelos jornais,  emissoras de televisão, rádios e também pelas redes sociais.