WikiLeaks antecipa o Tratado da Propriedade Internacional, negociado em segredo

Yuri Sanson
O WikiLeaks divulgou o projeto de texto do TPP (“Trans- Pacific Partnership” ou Parceira do Transpacífico) negociado em segredo,  que se refere aos Direitos de Propriedade Intelectual. O TPP é o maior tratado econômico da História , abrangendo nações que representam mais de 40 por cento do PIB do mundo. O lançamento do texto pelo WikiLeaks vem antes da cúpula com os principais negociadores, em Salt Lake City, Utah, nos dias 19-24 de novembro.
O capítulo publicado pelo WikiLeaks é talvez o capítulo mais polêmico do TPP devido aos seus efeitos abrangentes sobre medicamentos, editoras, serviços de internet, nas liberdades civis e patentes biológicas. Significativamente, o texto divulgado inclui as posições de negociação e desacordos entre todos os 12 países.

O TPP é o precursor do igualmente secreto pacto TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), do qual o presidente Barack Obama iniciou negociações entre União Européia e Estados Unidos, em Janeiro de 2013. Juntos, o TPP e TTIP irão abranger mais de 60 por cento do PIB global.

Leia o press release completo aqui, em inglês:
https://wikileaks.org/tpp/

O que o poeta Leminski achava que nunca iríamos saber

O crítico literário, tradutor, professor, escritor e poeta paranaense Paulo Leminski Filho (1944-1989) expressa no poema “Objeto Sujeito” tudo quanto nunca saberemos.
OBJETO SUJEITO
Paulo Leminski

você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra Pasárgada
Xanadu ou Shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olhe lá

           (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

O gazeteiro encouraçado

 

 Fernando Orotavo Neto

Na França do século XVIII, antes da revolução mais célebre da história, publicações anônimas chamadas pelo nome de libelos (et pour cause), desafiavam a censura, denunciando um rei impotente, uma rainha luxuriosa, nobres depravados e um clero ganancioso e corrupto.

Um dos libelos mais famosos e vendidos do Ancien Régime foi exatamente “O Gazeteiro Encouraçado” (Le Gazetier Cuirassé). Em 1771, ano de sua primeira edição, o libelo já identificava a França com o despotismo e provocava a monarquia, declarando ser impresso “a cem léguas da Bastilha, sob o signo da liberdade”, isto é, em Londres (onde a liberdade de imprensa já era uma conquista consolidada), bem longe, portanto, do maior símbolo do autoritarismo francês, a torre da prisão, onde muitas cabeças foram decapitadas.

Se as ideias de Voltaire, Montesquieu, Rousseau, Diderot e D’Alembert constituíram o arcabouço da filosofia iluminista, contribuindo para a ascensão de um novo estado democrático, em contraposição ao estado absolutista, então reinante, não se pode vacilar na certeza inabalável de que as anedotas escandalosas da corte francesa, retratadas nos libelos, abriram e pavimentaram o caminho para a concretização da “liberdade, fraternidade e igualdade” – palavras que depois viriam a se tornar o próprio lema da revolução.

Por meio dos libelos, articulistas sem nome e rosto (mas com coragem!) promoviam, em tom jocoso, a discussão acerca da crise política e moral que assolava a França, revelando o quadro de uma sociedade corroída pela incompetência, imoralidade, sordidez e impotência. Sem medo de confrontarem os poderosos, os libelistas – hoje, reconhecidos como precursores do jornalismo investigativo – se desincumbiram da importante função de descortinar a corrupção dos governantes aos olhos do povo. E assim o fizeram, “na anatomia horrenda dos detalhes”, para repetir o poeta Augusto dos Anjos.  O luxo, as riquezas, os privilégios, as intrigas, as nomeações nobiliárias desprovidas de qualquer mérito, as viagens em grande estilo, o desperdício do dinheiro público, o superfaturamento de obras, as comissões e os presentes recebidos pelos ministros e secretários do governo. Está tudo lá, comme il faut! (como é preciso!).

Com efeito, depois de ler a notícia de que o Conselho do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro arquivou o pedido de investigação sobre as suspeitíssimas viagens do governador do Estado à Paris, por 4 (quatro) votos a 2 (dois), fico a pensar como esses gazeteiros retratariam nossos governantes de hoje. O que escreveriam, que anecdotes scandaleuses contariam, ainda a mais se pudessem pegar carona numa máquina do tempo e, saídos diretamente da França do século XVIII, lhes fosse permitido desembarcar no Estado do Rio de Janeiro, em pleno século XXI?

Será que ao menos perguntariam, segundo a fórmula atribuída a Erving Goffman, o que está acontecendo aqui? Ou será que a proximidade com Bangu e a longa distância daqui até Londres (muito mais que cem léguas) não permitiria que pergunta alguma fosse feita, por esses delicieuses gazeteiros, sem prejuízo de suas cabeças ou liberdade?

Mas como este é um artigo de ficção – e qualquer semelhança com viagens à Paris, jantares nababescos no Hotel de France, em Mônaco, regados aos melhores vinhos, champagne e caviar, passeios com helicópteros do Governo para levar cachorrinho de estimação para suntuosas casas de praia, tragédias na Bahia reveladoras de ligações perigosas (entre um Chefe de Governo e um fornecedor do Governo), existência de cavalos puro-sangue na hípica e guardanapos na cabeça, é mera coincidência (disse o MP, muito mais decididamente do que qualquer especialista ou tratado) – resta-nos, a todos, repetir Tartuffe, célebre personagem do genial Molière (neé Jean-Baptiste Poquelin), considerado o maior impostor (ou melhor: hipócrita) de todos os tempos, quando, do alto de sua patifaria intelectual, decretou: “Le scandale du mondeest ce qui fait l’offense; Et ce n’est pas pécher, que pécher en silence” (Tradução livre: O escândalo do mundo é que faz ofensa; e não é pecador, quem peca em silêncio).

 Post Scriptum – Mas quem precisa de perguntas (ou mesmo de gazeteiros) quando todos sabemos, acreditamos e compreendemos, que “o governo não mistura questões privadas com públicas”; como, aliás, teve oportunidade de declarar através de sua assessoria de imprensa (D’aprés Tartuffe, é claro). Ora, se o governo diz; dito está!

Não ao retrocesso no serviço público

Pedro Zanotti Filho
(Repórter Sindical)

Ao longo das décadas, o Servidor Público brasileiro tem sido sacrificado. Na ditadura, fomos impedidos de nos organizar em Sindicatos e de lutar, de forma mais efetiva, por nossos direitos e valorização dos serviços públicos.

Nos anos Collor, éramos chamados de marajás e jogados contra a opinião pública. Nos anos neoliberais de FHC, os defensores do Estado mínimo jogaram pesado para desmerecer a relevância da nossa função.

Tivemos alguns avanços nos últimos anos. Mas aquém do que precisamos. Em Guarulhos, conquistamos em lei a Comissão Permanente de Negociação (CPN), mas a batalha é tornar essa negociação mais efetiva e produtiva.

Pois bem. Agora, somos surpreendidos por um projeto que, na prática, impede a greve no serviço público. O Congresso Nacional, que nos deve a regulamentação da Convenção 151, da OIT, vem agora querer barrar o direito de greve.

CONTRADIÇÃO

Veja a contradição: o Congresso, ao não regulamentar a 151, nega a garantia da negociação dos servidores – negociação absolutamente fundamental para que as demandas sejam debatidas, evitando-se a paralisação.

Há vários projetos no Congresso tentando restringir o direito de greve do servidor, que conquistamos na Constituição de 1988. O atual tem uma agravante. É a iniciativa do senador tucano Aloísio Nunes Ferreira, que impõe barreiras e, na prática, impede a greve.

O trabalhador, do setor privado ou público, não faz greve pela greve. A paralisação é sempre consequência da intransigência patronal. Os governantes são apenas portadores de mandato, enquanto o servidor é do quadro permanente do Estado, do Município ou da União. Nossa relevância para a Nação é inquestionável.

Os servidores buscam avanços. Não abrimos mão de lutar e, por meio de greve, se preciso for. Rechaçamos o ataque a direitos. E dizemos não ao retrocesso. A todo retrocesso, legal, institucional e político!

Pedro Zanotti Filho é presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública Municipal de Guarulhos (Stap).

O nosso carbono 14, na sucessão presidencial

Gaudêncio Torquato

Uma campanha política abriga complexa cadeia de vetores. Um ponto em comum, porém, tem balizado as campanhas eleitorais ao longo dos últimos 60 anos. Desde aqueles tempos de grande carência logística para chegar às regiões até os dias atuais, os discursos elegem como alavanca o culto ao “eu”. A prevalência dos perfis pessoais sobre a representação coletiva, expressa por “nós”, decorre do caráter individualista que é marca da política nacional.

Os principais atores individuais da cena política distinguiam-se por traços inconfundíveis, a denotar a admiração popular por figuras como o herói, o guerreiro, o pai dos pobres, o amigo do povo, o homem de palavra. Vargas vestia o manto de pai dos pobres; Juscelino Kubitschek era charmoso, sorridente e pé de valsa; João Goulart assumia a imagem de herdeiro de Getúlio, desfraldando a bandeira do trabalhismo; os presidentes da ditadura militar, sob a espada do “combate ao comunismo e aos movimentos subversivos”, tinham cada qual o seu estilo.

No ciclo da redemocratização, José Sarney, com a imagem de cacique político; Fernando Collor, que fez a abertura econômica e saiu por impeachment do Congresso; o imprevisível Itamar Franco, fiador do Plano Real; Fernando Henrique Cardoso, elevado ao patamar de responsável pela estabilidade da moeda; Luiz Inácio Lula da Silva, o novo “pai dos pobres”; e Dilma Rousseff, sobre a qual se procura desenhar a imagem de faxineira da gestão pública.

IGUAL AOS OUTROS

Por deliberada estratégia de criar um projeto de poder de longo prazo, sob a égide da bandeira socialista, o PT desprezou (e ainda despreza) o fato de que o convívio com as velhas práticas o tornou passível do fenômeno da mimese. Igualou-se a outros entes do espectro partidário, indo mais longe: foi apanhado com a mão na cumbuca. A Ação Penal 470 (também chamada de mensalão) jogou o partido no pântano da política.

Portanto, o culto ao “nós”, que nos dois mandatos de Lula foi entronizado nos palanques, não chega hoje com prestígio para convencer as massas. Os últimos governos rebocaram com tanta argamassa as paredes da gestão que elas ameaçam abaular e desmoronar. Tanto o governo federal – com sua planilha de grandes obras – quanto os governos estaduais deverão passar pelo teste do nosso carbono social. Ou será que não se percebeu a existência de novo processo para medir o tempo (cronogramas) e conferir promessas?

(Lembrando: os testes de datação de objetos da mais remota Antiguidade – para descobrir, por exemplo, a verdade sobre o Santo Sudário de Turim – são feitos com o carbono 14, um isótopo radioativo e instável que declina em ritmo lento a partir da morte de um organismo vivo).

O nosso carbono 14, ou melhor, para 2014, é a onda centrípeta, das margens para o centro, com suas percepções e decepções da política. Engodos até podem continuar a engabelar as massas. Há, porém, um culto ao “nós” menos sujeito a firulas demagógicas. É o olhar mais agudo da sociedade sobre as tramoias da política. (transcrito de O Tempo)

O Brasil e a maconha uruguaia

Mauro Santayana

(JB) – Uma delegação governamental brasileira, composta de autoridades do Governo Federal e do estado do Rio Grande do Sul, pretende visitar o Uruguai, nos próximos dias, para – segundo informam os jornais – “alertar” as autoridades de Montevideo a respeito do projeto de lei que legaliza a venda e o cultivo de maconha que está para ser votado este mês naquele país.

O Brasil estaria preocupado – e para isso tentando se meter em um assunto que só interessa ao povo uruguaio – com as consequências do projeto para o país de Mujica e os “outros nações da região”.
Do ponto de vista do Brasil – mergulhado em uma pandemia de crack e em uma guerra tão inútil, quanto mal sucedida, contra uma praga que já contaminou toda a sociedade – não dá para perceber em que aspecto a venda de maconha no Uruguai poderia piorar ainda mais a situação.E muito menos que tipo de “orientação”, o Brasil poderia dar, nesse aspecto, ao governo de Pepe Mujica.
Será que o Brasil vai ensinar ao Uruguai a defender suas juízas para que elas não sejam assassinadas, ao descobrir que dezenas de  policiais, trabalhando em um mesmo bairro,  recebiam regularmente dinheiro de traficantes de drogas?
Ou será que vai propor à polícia uruguaia que use kits de teste, para evitar prender automaticamente qualquer um que esteja portando um papelote, ou uma “pedra”, mesmo que ali só haja anfetamina misturada com pó de mármore e bicabornato de sódio?
ASSASSINATOS
Será que iremos ensinar o Uruguai a não perder, em confrontos relacionados à repressão ao tráfico de drogas, em apenas três cidades, quase 2.000 pessoas assassinadas por ano?Ou será que vamos ensinar a solucionar os problemas de superlotação, de péssima condição e das mortes por problemas de saúde e de violência nas cadeias uruguaias?

Como mostram estas poucas perguntas – irônicas, está claro – há uma série de assuntos,  entre eles corrupção, tráfico de drogas, violência, situação carcerária, procedimento legal no momento da prisão, etc, em que o Brasil não está em condições de dar lições a ninguém.
E muito menos ao povo uruguaio, um país que tem uma cultura e uma qualidade de vida – para ficar apenas em dois aspectos – muitíssimo superior às que nós temos aqui.
Para resolver o problema de drogas no Brasil e em outros países, é preciso, primeiro – como está fazendo o Uruguai – parar de relativizá-las hipocritamente. O cigarro e a bebida – considerando-se o câncer, a violência e os acidentes de trânsito – matam tanto, direta e indiretamente, quanto a maconha, o crack e a cocaína, por exemplo.
Toda substância que afeta a mente e o comportamento é droga. Nunca vi ninguém deixar de fazer bêbado, o que faria sob o efeito de outras drogas, até porque o álcool é a droga de entrada, a partir da qual o usuário é apresentado às outras.
Um sujeito, sob o efeito de cocaína, pode matar a família a pauladas, em São Paulo, do mesmo jeito que outro faz o mesmo a machadadas, no interior da Bahia, depois de passar a noite bebendo pinga e fumando cigarro de palha.
Ora, se sequer proibimos a publicidade de álcool na televisão, como queremos nos meter nos assuntos internos de terceiros países para influenciar o que eles vão fazer com relação á maconha?
No Uruguai, e em alguns estados norte-americanos, cansados de armar a polícia gastando milhões, sem nenhum resultado palpável a não ser milhares de mortos e cadeias superlotadas, transformadas em universidades do crime, o que fizeram os governos?
Optaram por controlar e taxar a produção e a venda de maconha, tirando das mãos dos traficantes e dos corruptos que vivem à custa deles, e colocando nas mãos do estado, milhões de dólares que podem, por meio dos impostos, beneficiar a toda a sociedade.
INTOLERÂNCIA
O proibicionismo radical e intolerante, em um mundo em que a Europa e os EUA já  descriminalizaram, de fato, a maconha – e a situação pré-existente não piorou em razão disso – é anacrônico e descabido, e só serve para manter em funcionamento um estado repressivo fundamentalista no qual uma multidão de espertos explora a ignorância alheia e sobrevive da indústria do medo e da violência.
Se não se tivesse ido com tanta sede ao pote, a repressão ao tráfico de cocaína, antes restrito a pequena parcela dos jovens da classe média, talvez não tivéssemos hoje o fenômeno do crack.
Incomodados no seu “negócio”, os traficantes resolveram trocar o pequeno atacado por uma droga de varejo, para consumo de massa, que, pela disseminação e a quantidade de usuários, não pudesse ser rastreada ou controlada.
Hoje, até eles estão sendo alijados do processo. Até porque o que se está vendendo nas ruas é uma série de produtos químicos altamente tóxicos, que em suas diversas composições, muitas vezes não têm nem traço de cocaína.

Se esse fosse o caso, a produção boliviana não daria para abastecer nem o estado de São Paulo.

Supremo manda mensaleiros para a cadeia. Mas quando???

Da Agência Brasil

Brasília – Por maioria de votos, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu hoje (13) que réus condenados na Ação Penal 470, o processo do mensalão, terão as penas decretadas imediatamente. A decisão foi tomada após os ministros rejeitarem os segundos embargos de declaração apresentados pelos réus condenados no processo. Dessa forma, os ministros determinam o fim do processo para alguns réus e a execução imediata das penas. Caberá ao juiz de Execução Penal do Distrito Federal executar as prisões.

Na decisão, os ministros seguiram o voto divergente de Teori Zavascki. O ministro entendeu que todos os réus podem ter as penas executadas, exceto nos crimes em que questionaram as condenações por meio dos embargos infringentes, recurso previsto para os réus que obtiveram pelo menos quatro votos pela absolvição.

Esses recursos também valem para os réus que não obtiveram quatro votos pela absolvição. Como o voto divergente foi vencedor, o STF ainda está fazendo levantamento dos reús que serão presos imediatamente.

O relator da ação penal, Joaquim Barbosa, foi voto vencido e posicionou-se pela execução da pena dos 21 réus condenados no processo.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Por enquanto, só quem vai para a cadeia é o publicitário Marcos Valério. Os mais famosos (José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino) cumprirão as penas em liberdade. A grande dúvida é saber se a Câmara vai permitir que Genoino continua trabalhando como deputado durante e o dia, indo apenas dormir na Penitenciária da Papuda. Eis a questão. (C.N.)

Pesquisas mostram o que o brasileiro pensa do Judiciário

Roberto Monteiro Pinho

A má avaliação do Judiciário como prestador de serviço piorou ainda mais ao longo dos últimos três anos. segundo pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

Os números que envolvem a Justiça brasileira são desalentadores. De acordo com levantamento da Escola de Direito da FGV, 89% da população considera o Judiciário moroso. Além disso, 88% disseram que os custos para acessar o Poder são altos e 70% dos entrevistados acreditam que o Judiciário é difícil ou muito difícil para utilizar.

Duas em cada três pessoas consideram o Judiciário pouco ou nada honesto e sem independência. Mais da metade da população (55%) questiona a competência do Poder Judiciário.

JUSTIÇA DO TRABALHO

Na verdade, não é apenas o Legislativo que se tornou presa dos juízes trabalhistas, os que demandam nesta especializada também são reféns dos seus malfadados propósitos. Em suma: o coma que se encontra o Judiciário trabalhista tem seus tentáculos na falta de definição da reforma trabalhista, da sua péssima administração, seja na qualidade de suas decisões jurídicas, e pela incompetência de gerir sua máquina.

Este conjunto de injunções espelha a política do faz de conta, do governo federal (sob influência do FMI e do Banco Mundial), no trato de questões vitais para por fim a esta instabilidade no Judiciário laboral.

As Cotas Raciais e a divisão do País

Gelio Fregapani

Não se justifica o projeto da Presidente Dilma para colocar mais afrodescendentes no Serviço Público. O pretexto de que a representatividade negra na administração pública é baixa não é confirmado pelo IBGE. Segundo o Censo do instituto, 45% dos funcionários do País pertencem a essa etnia. Nos governos das cidades chegam a ser 81%.  Não há discriminação ou privilégio no concurso público.

Cotas no nosso País é um subproduto mal acabado importado dos EUA. O acento americano é tão óbvio quanto é óbvio que não funcionará aqui. Nos EUA, o projeto de uma identidade negra separada tem alicerces nas leis de segregação que durante muito tempo traçaram uma linha oficial entre “brancos” e “negros” suprimindo a possibilidade de construção de identidades intermediárias. No Brasil esse projeto choca-se com a mestiçagem, que  obstaculiza a divisão em raças. A solução dos antibrasileiros é impor, de cima para baixo, a nossa divisão em “brancos” e “negros”, incluindo nestes os mestiços. As leis de cotas raciais servem para isso, exclusivamente.

Sabemos que, em alguns casos, caucasianos e orientais poderiam retornar à pária de seus ancestrais, (duvidamos que se sentissem bem lá). Podemos acreditar que negros puros possam ser aceitos em suas tribos de origem, (nenhum iria querer mesmo), mas os mulatos só podem ser brasileiros e aliás é o que todos querem.

Emblemático foi a expressão de Carlinhos Brown quando chamado de afrobrasileiro teria respondido: “Afrobrasileiro coisa nenhuma, sou é brasileiro mesmo” E em outra ocasião complementou: “Não abro mão do meu País”.

Poucos de nós deixam de ter algum sangue negro ou índio. Menos ainda são os que não tenham algum sangue europeu. Essa divisão artificial, provocada do estrangeiro, não vai colar.

Vergonha da ABI: viúva do presidente assume a direção, sem ser associada

Domingos Meirelles
Os ventos da indignação trazem notícias dos porões da nau da insensatez – Marilka Lannes, viúva do recém falecido presidente da ABI, Mauricio Azêdo, continua dando as cartas na entidade, reunindo-se na sala da presidência com os diretores, dando ordens aos funcionários, como se houvesse finalmente assumido a cadeira deixada vaga pelo marido morto.
Uma situação digna de uma ópera bufa, protagonizada pela ex-atriz e funcionária fantasma do Tribunal de Contas do Município, conforme denunciou o jornal Extra (veja na Coluna de Berenice Seara). Note bem: Marilka Lannes não é jornalista e nem funcionária da ABI. Ela é funcionária do TCM, tendo sido secretária de Azêdo quando ele foi conselheiro da entidade. Aliás, Fichel Davit Chargel também era da… digamos… equipe.
Fica no ar a pergunta que os ventos que sopram de lá insistem em fazer: por que essa senhora, que deveria estar recolhida ao luto, insiste em não se desligar da ABI, instituição da qual nem mesmo pode ser associada? Terá ela se aproveitado da brecha da lei e conseguido um registro precário de jornalista? Será que pensa que o fato de ter sido mulher do presidente da ABI lhe confere essa prerrogativa? Ou terá negócios deixados lá e pelos quais ainda zela?
São muitas as perguntas sem resposta, já  que os cargos na ABI não são comissionados, exigindo dos seus diretores e membros o mais aguerrido esforço gratuito, de doação. Doação de competência, de horas de trabalho, de prestígio pessoal, de dedicação. Será isso que move a horda enfurecida que pisoteou o Estatuto da entidade com uma interpretação golpista? ….
Leia a matéria completa no blog: chapavladimirherzog.blogspot.com.br

Ninguém mais conhece Eike

 
Fernando Gabeira
O Estado de S. Paulo

Quando você é famoso, ninguém o conhece. Essa frase de Arthur Miller talvez valesse uma reflexão para o bilionário Eike Batista. A derrocada de seu império foi interpretada, erroneamente, no exterior como o fim do sonho brasileiro. Dilma Rousseff havia elogiado Eike e dito que gostaria de ter no Brasil mais capitalistas como ele. Mas isso não o transforma num símbolo do empresariado nacional, que envolve uma diversidade de estilos e estratégias irredutível a um só homem.

O Rio de Janeiro será o Estado mais atingido por essa depressão pós-euforia. Isso não quer dizer, no entanto, que a trajetória de Eike Batista tenha sido um relâmpago em céu azul. Muito menos que a admiração pelo empresário se tenha reduzido ao governo brasileiro e seus aliados no Rio. Preocupa-me um pouco, embora seja uma experiência humana frequente, tratar alguém como se fosse apenas um fracasso pessoal.

Suas entrevistas eram disputadas e as fotos de sua intimidade, valiosas. Políticos o cortejavam, artistas o procuravam em busca de patrocínio, a tal ponto que, diante de um problema aparentemente insolúvel, alguém sempre lembrava: quem sabe o Eike não ajuda…

Não o conheço pessoalmente. Conversei inúmeras vezes com seu pai, Eliezer Batista, e tenho dele uma excelente impressão. Sempre que me lançava numa campanha política, procurava-o para trocar algumas ideias sobre estratégia, uma área em que é, com razão, muito respeitado. Eliezer Batista contribuiu para o governo Lula enfatizando a importância da integração física sul-americana, algo que se tomou uma política oficial, apesar das distorções que, no meu entender, se devem apenas ao viés ideológico do PT, não à ideia original.

Mesmo sem conhecer Eike, trabalhei em inúmeros temas ligados a ele. Escrevi sobre o Porto de Açu e afirmei que ele realizava um velho sonho de Minas Gerais: o acesso ao mar.

O Porto de Açu está localizado no litoral do Rio, mas é ligado a Minas por um mineroduto de pouco mais de 500 quilômetros. No passado, um político chamado Nelson Thibau chegou a prometer o acesso ao mar em campanha eleitoral, levando um barco para a Praça Sete, em Belo Horizonte.

Minha visão do Porto de Açu é de uma obra monumental, inclusive com o esforço de recuperar a vegetação da restinga. Voltei lá, desta vez para criticar Eike. O trabalho de retirada de areia do mar, depositada em grande quantidade na região, acabou salgando os mananciais e arruinando alguns pequenos lavradores. Pus no ar o comovente depoimento de um plantador de abacaxis destruído pela deterioração de suas terras. Pouco se falou do impacto do Porto de Açu nas lagoas de água doce e nas terras dos pobres lavradores.

Acompanhei o projeto do Hotel Glória e a tentativa de reforma da Marina da Glória, sempre com uma visão crítica. Não sentia na imprensa e no mundo político, com exceção do PSOL, grande empenho em avaliar as mudanças que desagradavam aos usuários da marina.

DESPOLUIÇÃO

Vivendo, como vivo, na margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, monitorei a ajuda que Eike deu à despoluição, ponderando que era necessário um trabalho mais sério de renovação das águas. Em outras palavras, considerava a ajuda superficial, embora bem-vinda.

Eike foi sempre muito ligado ao governador Sérgio Cabral. Emprestou o avião para que Cabral fosse à Bahia e reiterou sua grande amizade pelo parceiro. Tudo isso contribuiu para demarcar a distância entre o meu olhar e o bilionário que construía seu império.

Como em todo grande momento, ainda que de inferno astral, Eike terá de reavaliar sua visão das pessoas. Muitos que o bajulavam devem estar rindo de suas dificuldades empresariais.

Nada disso, porém, quer dizer que Eike não seja responsável: Mas quando vejo reportagens enfatizando seu casamento com Luma de Oliveira, custa-me a compreender como isso possa ser um prenúncio de fracasso empresarial. Os erros não passam, neste caso, por mulheres bonitas, mas por um excesso de otimismo que não contaminou o governo porque o governo já é contaminado, por definição, com futuros gloriosos.

UMA FÁBULA

Unidos, Eike e o governo construíram uma fábula que custou ao empresário parte de sua fortuna. Mas custou também as economias de pequenos investidores e os esforços dos contribuintes, presentes, involuntariamente, nessa fanfarra por meio de recursos do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

Um dos problemas da derrota é a solidão. Poucos querem realmente conhecer e alguns querem, de fato, esconder as inúmeras relações de Eike. Isso não é bom para o que resta da autoestima nacional.

O BNDES garante que foi um acidente histórico e que o País não perderá nem 20 centavos com essa história. Acontece que o banco financia os amigos do governo e se recusa a dizer a quem e como financia, alegando sigilo bancário. A partir da derrocada de Eike e das chamadas campeãs nacionais, é necessário saber exatamente como o BNDES investiu dinheiro, quanto perdeu, se perdeu, quanto ganhou, se ganhou.

Falta curiosidade aos nossos parlamentares. Existe na imprensa, mas o banco resiste a ela. Somente com uma investigação séria e oficial seria possível desvendar essa monumental bolsa dos ricos, muitas vezes superior à Bolsa Família, mas, ao contrário desta, protegida pelo segredo.

De que adiantou aprovar, como aprovamos, uma lei de acesso às informações, se estão bloqueadas as que nos levam aos bilhões jogados fora? O governo quer dispor do dinheiro de acordo com sua política, o que é razoável para quem se elegeu. Mas fazê-lo sob o manto do sigilo toma-se algo muito perigoso. Se a derrocada de Eike e dos chamados campeões nacionais não nos trouxer de volta o dinheiro perdido, que nos dê ao menos a transparência prometida e sempre negada nas questões essenciais.

(artigo enviado por Mário Assis)

Estoque de carisma de Lula

Gaudêncio Torquato

Qual o peso de Lula na balança eleitoral? Essa é uma das questões mais controversas do debate político ora em curso. A polêmica se estabelece a partir do reconhecimento de que Luiz Inácio Lula da Silva, retirante nordestino que aos 7 anos chegou a Vicente de Carvalho, no litoral paulista, num caminhão “pau de arara”, é o último perfil carismático da paisagem política contemporânea.

O carismático exibe um veio populista, principalmente ao agitar as massas com um discurso floreado de bordões e refrões de fácil assimilação. O dicionário de verbetes de Lula é o mais acessível às massas. É evidente que o portador de carisma tem de provar e comprovar que não se limita ao verbo tonitruante dos palanques. Precisa demonstrar ação. A trajetória do pernambucano Luiz Inácio, sob esse aspecto, é cheia de atos e fatos. É um roteiro de lutas, criação de movimentos, mobilização de massas, greves, negociações com o patronato, derrotas e vitórias eleitorais.

Já não se pode dizer o mesmo da ex-senadora Marina Silva, por exemplo, em quem muitos enxergam aura carismática. Falta-lhe o tônus da ação. Um eixo largo de feitos. Sua planilha, hoje, exibe enfeites mais retóricos, apesar da atenção causada por seu porte miúdo, voz em falsete e uma história de carências.

A conclusão, pois, é a de que os demais perfis inseridos na galeria do carisma não passam de imitações baratas. Alguns não passam de “bolhas de sabão”, que se elevam por instantes e logo estouram, para usar a própria comparação feita por Max Weber.

Dito isso, salta à vista a observação de que “o último dos moicanos”, com seu arsenal carismático, poderá abater gregos e troianos que tentem flechar a candidata petista em 2014. Certo? Não. A hipótese aponta para entraves.

Primeiro, carisma não é um bem inesgotável. Trata-se de um dom que atinge o clímax em tempo determinado e, sob circunstâncias não tão favoráveis, pode declinar. Weber lembra que o domínio carismático se impõe em momentos de crise, mas seu estado de “pureza” é afetado pelo rolo compressor da modernidade.

DIFERENÇAS

O Brasil de 2002, quando Lula correu o território brasileiro e ergueu ao topo o mastro da esperança, avançou muito. O corpo de Lula cabia bem na alma nacional. Sua voz ecoava alto por todos os estratos da pirâmide social. Acabou levando o troféu.

Depois de oito anos, continuou a usar a aura carismática para embalar um perfil técnico e até então apolítico, a ex-ministra Dilma Rousseff. Um achado que deu certo. Fez o mesmo na capital paulista com o atual prefeito, Fernando Haddad.

A elevação dos índices de racionalidade (particularmente nos bolsões que ascenderam socialmente), o desgaste do PT com o episódio da Ação Penal 470 (mensalão) e a polarização entre tucanos e petistas, com sinais de saturação, parecem indicar obstáculos no caminho de Lula.

O eventual sucesso da presidente Dilma, é consenso, terá como “leitmotiv” o cenário econômico. Não se descarta o trunfo Lula no baralho eleitoral. Mas a estrutura da fortaleza que construiu no campo do carisma não é tão sólida como há 20, 30 anos. Vaza água por alguns canos.

Estoque de carisma de Lula

O show não pode parar

12
Tostão (O Tempo)

Após o primeiro sorteio de ingressos para a Copa, o diário argentino esportivo “Olé” chamou de vergonha o baixíssimo número de bilhetes recebidos pelos argentinos. Dos 266 mil pedidos, apenas 4.500 (menos de 2%) foram atendidos. Os Estados Unidos pediram 374 mil e receberam 65 mil (quase 20%). Outros países sul-americanos, principalmente a Colômbia, receberam muito mais bilhetes que os argentinos.

A Fifa disse que foi azar da Argentina. Mas a enorme diferença contraria a lei das probabilidades. Muitos desconfiam que houve trapaça da Fifa e da CBF. Dizer isso seria uma atitude paranoica ou tudo é possível neste estranho mundo, que não sei se caminha de volta às trevas ou para um novo iluminismo?

A Argentina é, disparado, o país que traz mais turistas ao Brasil. Nos pouco mais de cinco milhões por ano, mais ou menos 30% são argentinos (1,5 milhão). Dos Estados Unidos, segundo lugar, chega à metade.

Um grande número de torcedores argentinos já avisou que virá, mesmo sem ingresso. Confusões à vista. Eles estão eufóricos com a seleção. O time titular não perde há mais de dois anos. Nesse período, ganhou duas vezes do Brasil e de todos os grandes da Europa. Na derrota, fora de casa, para o Uruguai, pelas Eliminatórias da Copa, a Argentina atuou com a equipe reserva. A derrota para o Brasil, com apenas jogadores que atuam nos dois países, não tem nada a ver com as seleções principais.

ARGENTINOS

Os argentinos, e todo o mundo, estão preocupados com mais uma lesão muscular de Messi. Uma das razões é o fato de ele ter jogado os 90 minutos de todas as partidas. Messi não é um craque virtual. Ele é real. Messi quis quebrar todos os recordes. O Barcelona apoiou, e a sociedade do espetáculo, que não tem limites, na qual está inserido o futebol, quer lucrar e consumir rapidamente o talento dos craques. Há outros na fila. Neymar pode ser o próximo. O show não pode parar.

Muitos torcedores e jornalistas brasileiros estão ansiosos, apressados, para comparar Neymar e Messi. Se Neymar fizer um gol espetacular, vão questionar quem é o melhor do mundo. Isso deve acontecer com o tempo, naturalmente. Está cedo para terminar o esplendor de Messi. Por causa do conturbado ano, aumentam as chances, se estiver bem fisicamente, de Messi brilhar mais ainda em 2014. O melhor de 2013 é Cristiano Ronaldo. Os que são eleitos melhores do mundo no ano anterior costumam jogar mal a Copa.

O talento e o jogo de futebol estão mais próximos do imaginário e do encanto do que do simbólico e dos números. Mede-se a eficiência de um craque ou de um time mais pelo fascínio que exercem do que pelas estatísticas. O Cruzeiro não é o melhor time do Brasileirão porque tem números muito mais expressivos, e sim porque encantou e jogou melhor que os outros.

Carta a um jornal de Wall Street

Mauro Santayana

 

(JB) – Ao Senhor Paul Gigot, Vice-Presidente e Diretor Editorial do Wall Street Journal.

 

Normalmente, eu não me dirigiria a um jornal pertencente a um grupo que tem, desde a semana passada, oito ex-funcionários e ex-diretores sentados nos bancos dos réus por suborno e espionagem ilegal, até mesmo do email de uma vítima de homicídio, como é o caso da News Corporation.

Um jornal que sonega e manipula informações para seus leitores, sempre que é conveniente para o dono, como no caso do escândalo das escutas do tablóide sensacionalista News from the World, como revelado agora pelo jornalista David Folkenflik, no livro Murdoch´s world : the last of the media empires, lançado na semana passada pela Perseus Books, que talvez o senhor não tenha tido ainda a oportunidade de ler. Por essa razão, não merecem consideração as costumeiras sandices da página editorial de vocês,  escritas por seus “editorialistas”, como fez Mary O´ Grady, na semana passada, sobre o Brasil.

Quem entenda um mínimo de jornalismo conhece as contradições do Wall Street Journal, e a orientação fascista e de extrema direita e o ultra-relativismo de sua linha editorial. O WSJ é aquele jornal que afirma, em editorial, que não dá para confiar em detectores de mentiras, no caso da acusação de assédio sexual de Anita Hill contra o Juiz conservador, então candidato à Suprema Corte, Clarence Thomas; e oito meses depois, diz que o detector de mentiras é totalmente confiável, ao tentar salvar o Secretário de Estado Caspar Weinberger de indiciamento por perjúrio, no caso Irã-Contras, de venda de armas para iranianos para enviar dinheiro para as milícias assassinas de extrema direita na Nicarágua.

INTERESSADAMENTE

É da tradição do Journal confundir, interessadamente, alhos com bugalhos, como fez no caso de Jonas Savimbi, líder da UNITA,  ao citá-lo, por duas vezes, em 1979 e 1989, como um combatente contra os portugueses pela independência angolana, quando então já havia documentos provando que, na verdade, ele era financiado pelo regime colonial português para combater e enfraquecer o MPLA, o movimento que lutou depois da independência contra o próprio Savimbi, mercenários ocidentais, e sul-africanos, para libertar o país.

O seu jornal chamou de um “bando de bandidos árabes” os paquistaneses e indianos envolvidos com o caso do banco BBCI; escreveu um editorial contra o New York Times, acusando-o de acusar injustamente, o militar e político salvadorenho, Roberto D’Aubuisson, com esquadrões da morte – quando documentos da própria administração Reagan comprovavam esse envolvimento, em milhares de assassinatos de opositores.

Não se pode esperar outra coisa de um jornal que mente, mente, mente, descaradamente quando se trata de defender, dentro dos Estados Unidos, o mais abjeto fundamentalismo de direita. E, fora dele, o pretenso destino manifesto norte-americano de se meter em outros países e se arvorar em “guardiões do mundo”.

“REPUTAÇÃO”

Para saber mais sobre a reputação da linha editorial de seu jornal, sugiro ler 20 Reasons Not to Trust the Journal Editorial Page (20 razões para não ler a página editorial do Journal), de Jim Naureckas e Seteve Rendall e By any Means necessary, the ultrarelativism of the Wall Street Journal Editorial Page  (pelos meios necessários, o ultrarelativismo da página editorial do Wall Street Journal), de Edward S. Herman, professor emérito da Wharton School da Universidade da Pensilvânia.

Como o papel aceita tudo, como dizemos por aqui, o Wall Street Journal tem o direito de publicar o que quiser, só não pode dizer que é um paladino da liberdade e da democracia depois de ter afirmado, em editorial, em julho deste ano, que o Egito  precisa é de um Pinochet, ditador que, aliás, os senhores não se cansavam de elogiar quando estavam no poder.

E é isso que sua editorialista, Mary O´Grady, quis dar a entender – que estava defendendo a “liberdade” e a democracia estilo “Wall Street Journal”, quando publicou, na semana passada, um artigo denominado Why The NSA Watches Brazil – Porque a NSA espiona o Brasil.

Se o artigo tivesse ficado restrito aos seus leitores, provavelmente não faria nenhuma diferença, mas, como foi publicado aqui, e ninguém se dispôs a contestá-lo, estou tentando fazê-lo agora.

PERFEITO IDIOTA

O texto de Mary O´Grady, é filho de um outro texto, chamado  “Porque os Estados Unidos espionam o Brasil”, de Carlos Alberto Montaner, um perfeito  “gusano” cubano,  coautor de um livro  denominado “o perfeito idiota latino-americano”, cuja conclusão é a de que somos todos idiotas, os que defendemos a soberania e a independência de nossos países,  ao contrário dos “inteligentes”  e “brilhantes” defensores da total submissão ao Consenso de Washington e aos interesses dos Estados Unidos.

Segundo Montaner, que inventa uma suposta “conversa” com um embaixador norte-americano não identificado, os EUA espionam o Brasil porque apoiamos regimes como Cuba, Venezuela, a Bolivia, a Siria, e votamos com os BRICS na ONU. Ou seja, os Estados Unidos espionam o Brasil porque não fazemos o que o seu país, senhor Paul Gigot, quer que nós façamos.

Para o seu país, seria uma maravilha, se no lugar do Mercosul, tivéssemos uma ALCA, e fôssemos todos imenso México, que apenas maquila produtos para o mercado norte-americano – e que, apesar do “excelente” negócio que fez ao entrar para o NAFTA, crescerá apenas a metade do que nós iremos crescer este ano.

Para Mary O´Grady, temos que “mudar” nossa geopolítica. Para os EUA, teria sido ótimo se não tivéssemos fundado o G-20, e o mundo ainda fosse comandado pelo G-8, se não existisse o BRICs, nem o Conselho de Segurança da ONU.

E eles pudessem invadir e bombardear quem quisessem, para, depois de perder trilhões de dólares e milhares de homens, sair com o rabo entre as pernas, como estão fazendo de países como o Iraque e o Afeganistão, com suas guerras inúteis.

Mas isso não vai ocorrer, senhor Gigot.

UM PAÍS INDEPENDENTE

O Brasil vai continuar sendo – ou tentando ser – um país independente, que apoia e integra a América do Sul por meio da UNASUL e do Conselho de Segurança da América do Sul.

Vamos continuar pesquisando o urânio, construindo nossos submarinos nucleares, desenvolvendo nossa indústria de defesa, fazendo parcerias com outros países, inclusive do BRICS, porque todo país tem direito a proteger-se.

Vamos fazê-lo porque somos o quinto maior país do mundo em extensão territorial e população, com todos nossos problemas, a sétima economia do mundo e – entre outras coisas – o terceiro maior credor individual externo de seu país, senhor Paul Gigot.

É essa a responsabilidade que temos com o nosso povo. E com a nossa visão de mundo, e nosso projeto geopolítico, multilateralista e democrático, que não é o dos Estados Unidos da América do Norte.

Continuem nos espionando. A Alemanha e a França são seus aliados na OTAN. Eles não são do BRICS, nem estão construindo um novo porto em Cuba, nem mandam comida para a Venezuela, nem compram gás boliviano. E vocês não os espionam também, da mesma forma?

Lembre à senhorita Mary O´Grady que há mais razões para que os EUA nos espionem do que as que ela colocou em seu artigo. Mas são menos razões do que as que vocês nos dão para desconfiar – e passar realmente a espionar – os Estados Unidos.

A casa sem amor, de Joubert de Carvalho

O médico e compositor mineiro Joubert Gontijo de Carvalho (1900-1977) explica na letra de “Minha Casa” que, de nada adiantou buscar um lugar melhor para viver se, na nova casa, só existe solidão, não existe amor. A música “Minha casa” foi gravada por Sílvio Caldas, em 1946, pela Continental

MINHA CASA

Joubert de Carvalho

Foi num dia de tristeza
Que a cidade abandonei
Sem saber o que fazer
Na esperança de encontrar
Pela vida, algum prazer
Alegria em algum lugar
Lá no alto da Tijuca
Tem um sítio bem florido
Onde agora estou morando
Com os pássaros em festa
De galho em galho cantando
Lá dentro, pela floresta

Minha casa é tão bonita
Que dá gosto a gente ver
Tem varanda, tem jardim
Ainda agora estou esperando
Uma rede para mim
A embalar de quando em quando

Minha casa é uma riqueza
Pelas jóias que ela tem
Minha casa aqui tem tudo
Tanta coisa de valor
Minha casa não tem nada
Vivo só, não tenho amor

           (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Lula polariza com Marina para dividir o PSB e ofuscar Aécio

Pedro do Coutto
 
O ex-presidente Lula tem aproveitado a presença de jornalistas à sua volta, como é natural, para atacar a ex-senadora Marina Silva pelo elogio que fez ao governo Fernando Henrique e também rebater as críticas que vem recebendo da ex-ministra do Meio Ambiente na primeira metade de sua administração. Com esta atitude, Lula busca, e creio que consegue, polarizar o debate entre ele, pelo PT, e Marina, fomentando a divisão no PSB entre as correntes do governador Eduardo Campos e os anseios da Rede Sustentabilidade. Isso de um lado. De outro, age para ofuscar a candidatura de Aécio Neves, deslocando-o para um segundo plano do debate sucessório.

Duas excelentes reportagens focalizaram o lance do ex-presidente: a de Ranier Bragon, Taí Nalon, Mariana Scheiberg e Gustavo Patu, na Folha de São Paulo, e de Chico de Gois e Luiza Damé, no Globo. Lula sustentou que Marina Silva tomou lições erradas de economia e assinalou que os economistas sabem tudo quando estão na oposição. Mas no governo é diferente. E reforçou seu empenho em polarizar a disputa ao afirmar: agora estou  ouvindo até uma candidata falar em tripé, referindo-se diretamente a Marina, pois foi ela quem falou na volta do tripé macroeconômico que, segundo sua visão, funcionou no período FHC, proporcionando estabilidade ao país.

Lula aproveitou a deixa para contestar, lembrando que Marina foi nomeada por ele ministra do Meio Ambiente em 2003 e, no seu ponto de vista, foi testemunha da situação de instabilidade com que ele se deparou no país no início do governo. Sob o ângulo político, Lula não poderia ter encontrado nada melhor do que a declaração de alguém que integrou sua equipe e os quadros do PT. Realmente falar em tripé macroeconômico é dose para dinossauro. O que significa isso exatamente?

É preciso traduzir. Pois partir do princípio da existência de um tripé macroeconômico para se fazer política é tacitamente aceitar a existência de um tripé simplesmente econômico, além de outro microeconômico para se traduzir fatos políticos. Falando claramente, como um dia escreveu o jornalista Carlos Castelo Branco no Jornal do Brasil: não devemos sufocar a política e a democracia com tantos adjetivos. Nada disso.

PARA GOVERNAR
Política é o único instrumento efetivo de se governar. E, ao mesmo tempo, uma ação firme e forte em torno de ideias simples e claras, como definiu De Gaulle, respondendo a críticas de Sartre, como também a única forma de agir coletivamente. Política é igualmente uma forma de se poder sentir a atmosfera predominante numa infinidade de momentos. É tão ampla a palavra (política) que não possui sinônimo em idioma algum. Mas voltando a resposta de De Gaulle, então presidente da França, em 68, vale a pena completá-la incluindo seu elegante arremate.

Sartre , disse De Gaulle, política é uma ação firme e forte em torno de ideias simples e claras. Algo extremamente complexo, mas suas formulações tem que ser sempre transparentes. Quem a torna opaca pode estar fazendo filosofia, mas não política. É o seu caso, Sartre. Que, ainda  por cima diz que posso mandar prender você. Não, Sartre. Não se pode mandar prender Voltaire.

As ações políticas necessitam sobretudo ser claras, acessíveis ao entendimento coletivo. Porque o que é difícil de entender é excludente para a maioria da população. Mas ela reage pela sensação que a atmosfera proporciona. As próximas pesquisas do Datafolha e do Ibope devem registrar os efeitos da polarização colocada no palco (da política) pelo ex-presidente Lula. Aécio Neves e Eduardo Campos devem descer. Marina Silva subir nas intenções de voto para 2014. Mas até o teto da oposição.

 

Afinal, o que significa a vitória de Rui Falcão no PT? Não significa nada, e Dilma vai comer mais uma lasanha…

Carlos Newton

Nas ondas do marqueteiro e guru João Santana, que se tornou uma espécie de quadragésimo ministro de Estado, pois realmente é quem detém o poder, o Planalto deixou “vazar” discretamente que o resultado da disputa pela presidência do PT significaria a consagração do eixo personificado por Lula-Dilma-Rui Falcão.

Só que esse eixo não existe. Quem elegeu Rui Falcão foi Lula, solitariamente. A presidente Dilma Rousseff não tem o menor prestígio no partido. Basta lembrar que, nos debates eleitorais, cinco dos seis candidatos à presidência do PT criticaram duramente o governo e a presidente Dilma. Apenas Rui Falcão ficou em cima do muro, como é de seu feitio, para não pegar mal, e acabou sendo vaiado e chamado de “pelego” no último debate eleitoral.

Rui Falcão não existe, não tem carisma nem liderança. O verdadeiro presidente do partido é Lula, que manda e desmanda, faz o que bem entende. A presidente Dilma nem se atreve a participar da vida partidária. Só apareceu para votar em Falcão, e estamos conversados.

DESESPERO

É justamente essa situação que desespera a presidente Dilma, que não confia em Lula nem no PT. Por isso, tenta desesperadamente ocupar espaço na mídia e não mede consequências, obedecendo fielmente as ordens do guru-marqueteiro.

Foi João Santana que, imitando Ulysses Guimarães, mandou Dilma falar no pessimismo do Velho do Restelo, como se ela fosse grande conhecedora da obra de Camões. Depois, imitando Said Farhat, fez Dilma dizer ao ministro Lobão que saíra incógnita, de moto, dirigindo à noite pelas ruas desertas de Brasília, como João Figueiredo fazia.

Lobão logo espalhou a notícia, que teve de ser desmentida, porque Dilma não tem carteira nem sabe dirigir moto. Ela então disse que pegou carona na garupa de um assessor. Então, imaginemos aquela senhora cada vez mais rotunda, encarapitada na garupa de uma possante moto (capaz de suportar o peso dela e do piloto), morrendo de medo e grudada às costas do motoqueiro.

Uma cena patética, sem dúvida, que jogaria no lixo a dignidade presidencial, mas que nunca aconteceu na realidade. Porém, o marqueteiro-guru Santana mandou falar, e ela obedeceu, claro.

Esse é o quadro atual do poder. Dilma vê Lula crescendo em seu retrovisor, já sente o bafo dele no cangote, vê o PT nos braços de Lula, então se desespera e come mais uma lasanha, depois se entope de bolo de chocolate. E la nave va, fellinianamente, rumo à sucessão presidencial.

A Bela da Neve

Sebastião Nery

RIO – Em dezembro de 1980, a caminho de três meses na Sibéria,  chego a Lima, no Peru, às duas da madrugada, depois de cinco horas de voo. Mudo da Varig para a Aeroflot,  em um enorme Iliushin-62. O avião  cheio lá atrás, e só eu na primeira classe, recebido com um conhaque da Geórgia, daqueles que Stalin mandava para Churchill.

Cinco horas seguidas, até descer em Cuba. Duas horas no chão em Havana  e de novo nos céus. Mais 9 horas até Schenon, na Irlanda. Outras duas horas no chão, o frio roendo os ossos e o voo final de 4 horas até Murmansk, na península de Kola, extremo norte  da Rússia, 300 mil habitantes em pleno Polo Ártico. Sol forte no céu iluminava o horizonte visivelmente curvo, lá em cima, e, de repente, a visão clara, real, inacreditável, da noite caminhando  apressada sobre as nuvens. O avião correndo para um lado e a noite para o outro. E daí  a pouco o meio-dia anoiteceu com a lua e nuvens rosas, como nas histórias bonitas da infância.

Engolido em fusos horários a cada instante renovados, o tempo enlouqueceu. Embaixo, a dez mil metros, já era Murmansk  e era meia-noite de novo. O aeroporto dormia sob a  neve a 10 graus abaixo de zero.

MURMANSK

Era a primeira etapa para a distante Sibéria, passando antes por Moscou, Stalingrado (hoje Volgogrado), Novosibirsk, Ikurtski e afinal Vladivostok, fronteira da Mongólia. Do avião tinha visto surgir o mundo mágico de Murmansk, a cidade mítica sobre o gelo eterno. Longos TUS/2 turbinas e  esguios Iliushin pousados sobre um tapete branco e infinito e, andando para eles, grupos de homens e mulheres, nas cabeças grandes gorros peludos, de couro de veado, botas pretas, marrons, vermelhas, luvas e capotes de pele de todos os tipos e de todas as elegâncias. E lá em cima, sobre as nuvens,uma lua gorda boiando no céu azul marinho todo estrelado.

A neve caia sem parar, grossa, intensa. Como era possível os aviões chegarem e saírem? Caminhões enormes, como jamantas, empurrando largas navalhas negras, do tamanho das pistas, iam passando e raspando a neve. O avião desce, a neve volta, vem de novo o caminhão com sua navalha. Um avião, um caminhão, um avião, um caminhão. E a neve!

GREENPEACE

Quando meu avião aterrissou era um meigo e longilíneo tubo de neve, como doce fantasma arriado sobre o lençol branco.  Um caminhão se aproxima com grossos tubos, soprando bafo e derretendo a capa branca: turbinas de velhos aviões engatadas nos caminhões lançando jatos de ar.

Da janela do hotel eu ouvia o silencio gelado da noite sem fim e via apenas os blocos negros, como fantasmas, das plataformas de petróleo, uma a uma. E pensava como um povo consegue conviver, cada ano, meses inteiros, 6, 8, 10, com tudo coberto de gelo e frio. Rios e lagos endurecem. As ruas e calçadas sobem centímetros. Os parques sobem metros  de neve acumulada. E é preciso ir tirando e ela voltando, hora a hora, dia a dia, cada manhã, meses diretos. Batalha interminável. Brinquei com os russos:

– Pensava que vocês tinham ficado livres de Napoleão, que atolou sua invasão na neve das estepes russas. Mas não, todo ano é uma guerra, a mesma guerra certa, fixa, marcada, de meses, guardando tudo, preservando tudo, até a primavera voltar e com ela o sol e as flores e os frutos da terra.

– É o inverno que nos faz fortes. Ele nos ensina a resistir e esperar.

ANA PAULA

Agora vejo presa, no frio daquela mesma Murmansk de 1980, a bela e valente brasileira Ana Paula Maciel, entre um grupo de 30 empregados da ONG americana Greenpeace, quando invadiam uma plataforma de petróleo da Rússia, em águas territoriais russas. Logo, praticavam uma ilegalidade.

Rubem Braga dizia que a prisão é a suprema indignidade. Tomara que Ana Paula saia de lá o mais rápido possível. Mas deve saber que o Greenpeace não é nenhuma benemérita entidade beneficente.  Diz que fazia “um ato de protesto contra a exploração de petróleo no Ártico”. Isto é uma fraude, uma farsa. Ele  é um pé de cabra norte-americano que pratica ações pelo mundo a serviço de negócios de empresas americanas concorrentes.

Diante das plataformas de petróleo russas, já no Ártico internacional,   vi lá, e Ana Paula certamente viu, dezenas de  plataformas da Noruega, Holanda, Inglaterra, EUA (no Alasca).Por que o Greenpeace nunca invadiu nenhuma delas? Por que apenas a russa, a maior concorrente americana?

Ana Paula, a bela da neve, não é nenhuma ingênua.Sabe que trabalha para o mal. É uma alugada do mal. Obama também não sabia de nada.