Dez “lições” básicas dos petistas fazem sucesso na internet

Mário Assis

Existe grande número de textos interessantes que rolam na internet sem que se saiba o autor. Um deles, bem atual e que está fazendo sucesso, tem o título Dez coisas que aprendi com a “çabedoria” petralha e mostra como a ironia continua a ser uma fortíssima arma política. O comentarista Ricardo Fróes pesquisou e descobriu que o texto é de Fabio Luiz Braggio. Vamos conferir:

  1. Se eu não sou petista, eu sou tucano
  2. Se eu não sou petista, nem tucano, sou a favor de um golpe militar, não existe outra opção
  3. Não posso me indignar com a corrupção petista, porque houve corrupção no governo tucano
  4. Não posso me indignar com a corrupção petista, porque o PT não inventou a corrupção
  5. Só estou indignado porque o PT colocou o pobre no mesmo avião que eu, e isso me dá nojo
  6. Não tenho estatura moral para criticar quem rouba US$ 88 bilhões da Petrobrás (sem falar nas outras estatais ainda não investigadas) porque eu já fiz uma conversão proibida, já colei um chiclete embaixo da carteira na escola e já soltei um pum no elevador
  7. Eu fui para a rua porque sou elite branca e, consequentemente, odeio negros, pobres, índios, nordestinos, gays, feministas, corinthianos, crianças feias, camisa de microfibra da Fascínios e desodorante perfumado
  8. Eu fico indignado com as atitudes totalitárias do governo porque eu sou coxinha e fascista (mesmo sabendo que quem me chama de fascista não tem a menor ideia do que foi o fascismo)
  9. Não interessa que o impeachment esteja previsto na Constituição Federal, se é contra um “governo de esquerda” é golpe
  10. E, por fim, aprendi, com os dignos Ministros da República que, se eu fui para a rua, é porque não aceito o resultado democrático da eleição, estou querendo um terceiro turno e, obviamente, estou obcecado pelo fim do financiamento privado de campanha, que é a solução para toda a corrupção do mundo!

O ritmo tropicalista do poeta Waly Salomão

O poeta baiano Waly Dias Salomão (1943-2003) formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Cursou a Escola de Teatro da mesma universidade (1963-1964) e estudou inglês na Columbia University, Nova York (1974-1975). Na década de 1960, participou do movimento tropicalista. Foi também uma figura importante da contracultura no Brasil, nos anos 1970. Atuou em diversas áreas da cultura brasileira. Seu primeiro livro foi Me segura qu’eu vou dar um troço, de 1972. Em 1997, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura com o livro de poesia Algaravias. Seu último livro foi Pescados Vivos, publicado em 2004, após sua morte. No tropicalista poema “Hoje”, Waly só queria ritmo.

HOJE

Waly Salomão

O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo, um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás…)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e passam de um ritmo regular
para uma turbulência aleatória.

Hoje…

    (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Juiz manda soltar três presos na décima fase da Lava Jato

Juiz Sérgio Moro explica que os três foram apenas cúmplices

Deu na Agência Brasil

O juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato, concedeu hoje (20) liberdade a três presos na décima fase da operação, deflagrada na última segunda-feira.

Com a decisão, serão soltos Lucélio Roberto Von Lehsten Goes, filho do empresário Mário Goes e acusado de ser um dos operadores do esquema de desvios da Petrobras, Dario Teixeira Alves Junior e Sonia Mariza Branco, acusados de serem responsáveis por parte dos pagamentos de propina na estatal.

Segundo Sérgio Moro, a prorrogação da prisão dos acusados não se justifica, pois eles tiveram atuação menor em relação a outros envolvidos que atuavam diretamente com ex-diretores da Petrobras.

O juiz impôs a eles medidas cautelares, como proibição de deixar o país sem autorização da Justiça, não mudar de endereço sem comunicação prévia e sempre comparecer aos atos processuais quando convocados pela Justiça.

Procurador diz que pena de corrupção no Brasil é uma piada

Procurador da Lava Jato defende punições mais rigorosas

Beatriz Bulla
O Estado de S. Paulo

O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa do Ministério Público na Operação Lava Jato, disse nesta sexta-feira que a punição da corrupção no País é “em regra, uma piada de mau gosto”. O procurador defende o aumento da pena para o crime de mínimo de quatro anos e máximo de 25. Hoje, a punição varia de dois a 12 anos de prisão. Pela proposta, também passa a ser hediondo o crime de corrupção quando valor for superior a 100 salários mínimos – aproximadamente R$ 80 mil.

Nesta sexta-feira, o Ministério Público Federal apresentou dez medidas para enfrentamento da corrupção no País. A ideia é apresentar anteprojetos de lei ao Congresso Nacional sobre os temas propostos. Uma das sugestões é aumentar penas também de tipos penais relacionados à corrupção, como estelionato.

Para Dallagnol, o número de delações premiadas deve aumentar com o aumento da pena de corrupção. “À medida que você aumenta as penas, aumenta as buscas da defesa por soluções alternativas”, disse o procurador, que conduz as investigações no Paraná, que já contaram com delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, do doleiro Alberto Youssef, do ex-gerente da estatal Pedro Barusco e de executivos de empresas como a Camargo Corrêa e Toyo Setal, além do operador Shinko Nakandakari.

ANTEPROJETO

O anteprojeto de lei que o Ministério Público Federal vai enviar ao Congresso prevê penas maiores para a corrupção e gradação de acordo com o valor desviado. A proposta é que para prejuízos de até R$ 78 mil, a pena de corrupção ativa e passiva varie de 4 a 12 anos. Nos casos de desvio entre R$ 78,8 mil e R$ 788 mil, a pena seria de 7 a 15 anos. Quando o prejuízo for superior a R$ 788 mil e inferior a R$ 7,8 milhões, a pena seria de 10 a 18 anos. Já para casos de mais de R$ 7,8 milhões, a punição seria máxima: entre 12 e 25 anos de prisão.

Também são previstos aumentos e gradações nos casos de peculato, inserção de dados falsos em sistema de informações, concussão, estelionato e excesso de exação qualificada.

“A pena começa com dois anos, depois é substituída por restritiva de direitos, depois extinta com decreto de indulto natalino”, criticou Dallagnol, sobre o sistema atual, ao defender proposta da procuradoria para aumentar as penas de corrupção. No início de março, o ex-presidente do PT José Genoino, condenado no processo do mensalão, foi beneficiado pelo indulto natalino e teve extinta a pena imposta pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção ativa. Todo o núcleo político do mensalão cumpre atualmente pena em regime aberto, no qual podem permanecer em casa.

REDUÇÃO E PRESCRIÇÃO

Uma das intenções com o aumento da pena é evitar que a prisão seja substituída por outras punições, restritivas de direitos. Isso porque réus de crimes de colarinho branco normalmente são primários e por isso as penas ficam próximas ao mínimo legal. Os procuradores também desejam evitar a prescrição dos crimes.

Dallagnol menciona que a corrupção é “semelhante” ao latrocínio – roubo seguido de morte -, pois há desvio de altos valores e “pessoas sofrendo consequências como morte inclusive, por falta de hospitais, segurança e saneamento básico”.

Empreiteira confirma o cartel que operava na Petrobras

Renata Agostini
Folha

Duas companhias do grupo Setal fecharam um acordo com o Cade (Conselho de Administrativo de Defesa Econômica) por meio do qual concordaram em delatar o funcionamento de um cartel em licitações da Petrobras. No total, 23 companhias foram citadas como participantes do esquema.

O termo, chamado de acordo de leniência, foi divulgado nesta sexta-feira (20). Ele foi firmado pelas companhias Setal Engenharia e Construções e SOG Óleo e Gás (Setal Óleo e Gás) e por nove executivos.

De acordo com o Cade, as companhias e seus funcionários confessaram a participação no cartel e “apresentaram documentos probatórios a fim de colaborar com as investigações”.

Segundo as delatoras, o cartel começou a funcionar no final dos anos 90 e os acordos tornaram-se mais frequentes e estáveis a partir de 2003. O conluio teria durado até pelo menos o início de 2012.

O acordo de leniência permite que as duas companhias do grupo Setal tenham redução na pena, cuja multa máxima pode chegar a 20% do faturamento.

INVESTIGAÇÃO

Os depoimentos e as provas fornecidas pelas empresas serão usados na investigação já aberta pelo Cade para apurar a denúncia de cartel.

A autarquia iniciou a apuração após indícios do esquema terem surgido no âmbito da Operação Lava Jato. Para subsidiar o processo, o Cade conta ainda com os materiais apreendidos pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal do Paraná em operações de busca.

As delatoras afirmam que as empreiteiras formaram inicialmente o “clube das 9”, como era chamado o cartel. Depois o grupo teria sido ampliado, formando-se o “clube das 16”: Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, Mendes Junior, MPE Montagens, Promon, Setal/SOG Óleo e Gás, Techint, UTC Engenharia, OAS, Engevix, Galvão Engenharia, GDK, Iesa, Skanska Brasil e Queiroz Galvão Óleo e Gás.

Além disso, outras sete construtoras teriam participado “esporadicamente” dos acertos de acordo com a delação. São elas: Alusa (atual Alumini Engenharia), Carioca Engenharia, Construcap, Fidens, Jaraguá Engenharia, Schahin e Tomé Engenharia.

O cartel, segundo as empresas do grupo Setal, promoveu a divisão do mercado nas licitações de obras de montagem industrial “onshore” da estatal, fixando preços, condições e acertando previamente os vencedores dos certames.

A PARTIR DE 2003

As negociações entre os executivos do cartel ocorriam principalmente por meio de reuniões presenciais, contatos telefônicos e troca de mensagens de celular entre os executivos das empresas, afirmaram as delatoras.

Segundo as delatoras, a partir de 2003 e 2004, com a entrada na Petrobras dos ex-diretores Paulo Roberto Costa (Abastecimento) e Renato Duque (Engenharia e Serviços), o esquema ganhou estabilidade. Os dois faziam com que apenas as empresas indicadas pelo cartel fossem convidadas pela estatal para participar das licitações.

Muitos certamos promovidos pela Petrobras são feitos dessa forma. Em vez de uma licitação aberta a todos os interessados, apenas as empresas chamadas pela estatal podem fazer ofertas.

“VIP”

A partir de 2007, formou-se ainda o “Clube VIP” com empresas que, segundo a Setal exigiam “primazia”. Seriam elas: Camargo Corrêa, Construtora Andrade Gutierrez, Construtora Norberto Odebrecht, Queiroz Glavão Óleo e Gás e UTC Engenharia.

(texto enviado pelo comentarista Guilherme Almeida)

Justiça enfim aceita denúncia sobre cartel de trens em São Paulo

Bruno Bocchini
Agência Brasil

A Justiça aceitou ação civil pública do Ministério Público paulista que denuncia a existência de cartel em contratos com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) envolvendo 11 empresas privadas. A ação foi proposta em 4 de dezembro.

Na ação, acolhida pela Justiça no último dia 3, os promotores pedem a anulação de três contratos firmados no período de 2002 a 2007, a dissolução de dez das 11 empresas que constam no processo (Siemens, a Alstom, a CAF brasileira, a TTrans, a Bombardier, a MGE-Manutenção de Motores e Geradores Elétricos, a Mitsui, a Temoinsa, a Tejofran e a MPE – Montagens e Projetos Especiais), o ressarcimento dos valores firmados e indenização por dano moral coletivo, que somados chegariam R$ 418 milhões. A CAF espanhola ficou de fora do pedido de dissolução.

“A Justiça acolheu e agora está correndo em rito normal. As empresas vão ser citadas e vamos entrar na contestação. Nossa estimativa é que em, no máximo, um ano isso seja julgado”, disse hoje (20) à Agência Brasil o promotor Marcelo Milani, um dos autores da ação.

PSDB acusa de improbidade o ministro da Comunicação Social

Traumann trabalha para o governo ou para o PT?

Deu na Folha

O líder do PSDB, deputado Carlos Sampaio (SP), protocolou uma representação no Ministério Público Federal contra o ministro da Comunicação Social Thomas Traumann, acusando-o de improbidade administrativa pelo uso do órgão para a promoção pessoal e eleitoral da presidente Dilma Rousseff.

Sampaio se baseia em documento produzido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência e revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, que faz uma análise sobre a comunicação desse segundo mandato.

“Nesse mesmo documento, aparecem análises sobre as estratégias das campanhas da presidente Dilma de 2010 e 2014, além de propostas para “virar o jogo” eleitoral, dividindo responsabilidades, exclusivas da Pasta, com pessoas alheias à administração pública, como o PT, o Instituto Lula e blogueiros”, diz nota divulgada pelo PSDB.

SEM INTERESSE PÚBLICO

“Pelo que se extrai do referido documento, em nenhum momento as ações da Secom visavam beneficiar o cidadão brasileiro, mas sim fazer com que a presidente Dilma se viabilizasse politicamente e eleitoralmente”, afirma o líder do PSDB, na nota.

A representação foi protocolada na Procuradoria da República do Distrito Federal, com o pedido de que seja aberto inquérito civil contra o ministro.

O documento da Secom diz que os “eleitores de Dilma e Lula estão acomodados brigando com o celular na mão, enquanto a oposição bate panela, distribui mensagens pelo Whatsapp e veste camisa verde-amarela”.

Em seguida, afirma que “dá para recuperar as redes, mas é preciso, antes, recuperar as ruas”.

COMO VIRAR O JOGO

O documento, que faz parte do trabalho de análise de conjuntura feito semanalmente pela Secom para a presidente da República, é dividido em três tópicos: onde estamos, como chegamos até aqui e como virar o jogo?

Depois das críticas à comunicação do governo e à atuação do PT em defesa do governo, o documento anota em seu terceiro capítulo que “não será fácil virar o jogo”, mas aponta que “a entrevista presidencial deste dia 16 foi um excelente início”, avaliando que Dilma Rousseff falou “com firmeza sobre sue compromisso com a democracia”, explicou de “forma fácil a necessidade do ajuste fiscal” e assumiu “falhas como a da condução do Fies”.

Segundo o texto, a “presidente deu um rumo novo na comunicação do governo”, mas “não pode parar”.

Dilma se recusa a receber Suplicy, mas ele jamais desiste

Suplicy diz que ainda está esperando ser recebido por Dilma

Carol Pires
Revista Piauí

Eduardo Suplicy estava 40 minutos atrasado para o único compromisso na sexta-feira depois do Carnaval: conhecer os 188 funcionários e 88 estagiários que passara a chefiar três semanas antes, quando foi nomeado secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo — a estreia dele no Executivo, aos 73 anos. Suas preocupações naquela manhã, no entanto, eram outras.

“Viu o que saiu no UOL?”, perguntou a Rogério Sottili, seu secretário-adjunto. Estava aflito com a manchete que lera na internet: “Suplicy vai receber 52 mil reais de salário.” Sottili começou a rir, balançando os cachinhos do cabelo: “Tá bem, hein, Suplicy?” Em seguida, Suplicy queixou-se de que não conseguia falar com Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência. “Eu ligo pra ele agora”, disse Sottili.

Há mais de quatro anos Suplicy tenta encontrar a presidente Dilma Rousseff para retomar sua ideia fixa: o projeto da renda básica de cidadania, marca de seus 24 anos como senador. Não há sinal de encontro à vista. Andando pelo Centro a caminho da secretaria (seu gabinete fica em outro prédio), ele lembrou a primeira vez que procurou Dilma, então chefe da Casa Civil, para defender o programa. Foi em 2008. “Ela me convidou para almoçar e colocou uma placa de não incomodar na porta”, disse, com uma ponta de orgulho.

RENDA MÍNIMA

Suplicy apresentou o projeto em 1991, mas o texto só foi aprovado pelo Congresso quando o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência. Pela regra, sancionada por Lula em 2004, todos os brasileiros e residentes no país há mais de cinco anos teriam direito incondicional a um benefício anual. Os mais pobres começariam a receber primeiro. Não são especificados valores nem de onde sairia o dinheiro. A lei, nunca regulamentada, é de número 10.835. A seguinte, 10.836, transformou-se na bandeira petista: o Bolsa Família, que atende um quarto da população, com a condição de que os filhos estejam na escola.

A quem explica o projeto, Suplicy inexoravelmente cita o exemplo do Alasca, onde parte da renda do petróleo é destinada a um fundo cujos lucros são repartidos igualmente entre os moradores. Em 2008, Dilma ouviu e pareceu interessada. No ano seguinte, os dois se encontraram no almoço de Natal da base aliada. O paulistano prometeu apoio na campanha dela à Presidência. “Ao se despedir, ela me disse: Essa foi a melhor notícia que recebi hoje.”

PEDIDO DE AUDIÊNCIA

Desde que Dilma foi eleita a primeira vez, Suplicy enviou-lhe oito cartas reivindicando o direito de ser recebido no Palácio do Planalto. Pede a criação de um grupo de estudo para “preparar a nação” para a transição do Bolsa Família para o Renda Básica, e anexa cartas de apoio de políticos e intelectuais.

Em 2014, passou a ser mais incisivo nas investidas. Em 23 de abril, foi ao Planalto disposto a falar com Dilma. Acabou recebido por Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social, e Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil, que lhe deu um banho de água fria: o custo do Renda Básica equivaleria aos orçamentos da saúde e da educação juntos.

O ex-senador voltou a acossar Dilma em dezembro, no dia em que ela se diplomava na Justiça Eleitoral. Na fila dos cumprimentos, disse-lhe que seria justo que um petista que representou São Paulo no Senado durante tanto tempo fosse recebido por ela. “Mais que justo, senador”, respondeu a presidente. Perto do Natal, foi atrás de Joaquim Levy, que antes da posse na Fazenda despachava numa sala próxima à de Dilma. Suplicy disse não ver contradição entre as posições do ministro Chicago Boye seu projeto. “A Sarah Palin é do Partido Republicano e como governadora do Alasca aprovou, durante a crise americana, uma lei que pagou uma parcela extra de 1 200 dólares.” No ano passado, cada habitante do estado recebeu 1 884 dólares.

“PEGUE MEU CELULAR”

No tour pela Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, Suplicy perguntava nome e função de cada um. Dava o número de seu celular. “Pode ligar para o que precisar.” Avisou que iria para Nova York naquela noite, mas estaria de volta em 3 de março. Uma funcionária disse que fariam uma campanha na internet para ajudá-lo. “Dia 3 a Dilma vai te receber no aeroporto, secretário.”

Uma assessora comentou que Suplicy é como criança. “Não pode prometer, porque ele não esquece. Ela disse que ia recebê-lo, ele está esperando.” Para Suplicy, não é pirraça, e sim uma filosofia de vida. Citou Goethe: “Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.” Mais tarde, mostraria o e-mail de um amigo frei, que lhe garantia que as notícias de sua mágoa com Dilma haviam sido discutidas no Planalto.

O POETA TRANSEXUAL

Sua incursão pela secretaria só terminou no meio da tarde. No setor de políticas LGBT, contou sobre a amizade com Anderson Herzer, poeta transexual que ele tirou da Febem em 1979, oferecendo-lhe um trabalho em seu gabinete. Herzer jogou-se de um viaduto aos 20 anos. Em seu bolso encontraram o nome e o telefone do então senador. A história foi adaptada para o cinema, com Raul Cortez como Suplicy, que chorou ao lembrar a história. Na sala seguinte, foi instado a cantar. Foi de Father and Son, de Cat Stevens, a capela.

Nos Estados Unidos, o secretário encontraria o responsável por políticas de imigração da Prefeitura de Nova York e faria uma palestra no Congresso Norte-Americano da Renda Básica, que se reúne anualmente. Antes de encerrar o expediente, Suplicy e Sottili telefonaram ao prefeito paulistano para sugerir que recebesse prisioneiros de Guantánamo. Fernando Haddad ficou de pensar.

AUDIÊNCIA AO PAPA

No carro, a caminho de casa, Suplicy disse ter encontrado a solução para seus dois problemas. Ficaria com a aposentadoria do Senado, mas a parte de seu salário de secretário que excedesse o teto do funcionalismo público seria doada a um fundo, a ser criado pela prefeitura, para instituir a renda básica na cidade. No dia seguinte, a má publicidade estava desfeita: “Suplicy dispensou salário de 19 mil reais”, dizia uma manchete.

Para persuadir Dilma, recorreria à providência divina. A ideia é convencê-la a anunciar o Programa Renda Básica durante a visita do papa Francisco ao Brasil, em 2017. Antes, seria preciso cooptar o sumo pontífice para fazer a cabeça da presidente. “Falta pouco tempo. Vou pedir logo uma audiência com o papa.”

(artigo enviado pelo comentarista Mário Assis)

Não te rendas, dizia o poeta uruguaio Mario Benedetti

Benedetti nos deixou grandes lições

Sergio Caldieri

Nesses dias de incerteza, é sempre bom lembrar o jornalista, poeta, escritor, ensaísta e professor universitário uruguaio Mario Benedetti (1920/2009). Integrante da Geração de 45, a qual pertenceram também Idea Vilariño e Juan Carlos Onetti, entre outros, Benedetti é considerado um dos principais autores uruguaios. Iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar “Poemas de Oficina”, uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.

NÃO TE RENDAS
Mario Benedetti

Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos
Soltar o lastro,
Retomar o vôo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,
Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

O mundo das mulheres também não vai dar certo…

Eduardo Aquino
O Tempo

A única novidade sociológica nos últimos cem anos que merece registro é o crescente e irreversível papel da mulher na sociedade. De escravas do lar, padecedoras no paraíso, procriadoras e donas de casa, ao comando dos usos e costumes, foi um passo. Numa invasão bárbara, incrível e inclemente, o domínio feminino tem se imposto sobre a fragilidade masculina. Afinal, homens são imaturos, bobos e cada vez mais dispensáveis.

Os mesmos trogloditas, com a testosterona correndo a mil, impulsivos, sexuais, agressivos, vivendo em confrarias, ou “turmas e galeras”, com a consciência diluída, fazem da mesa do bar – ou da pelada do fim de semana – um palco no qual falar de mulher, futebol, carro, games, sacanagens do YouTube e outras preciosidades do tipo, regadas a mentiras, contar vantagens, querer ser o “alfa”, é o objetivo maior de sua pobre existência.

Enquanto isso, as mulheres ocupam espaço, seduzem e comandam partes cada vez mais significativas da sociedade. Vale frisar que machos tendem a acomodação e preguiça, enquanto as mulheres são guerreiras obstinadas. Pequenos exemplos podem ser dados: numa aula de 40 minutos, meninas conseguem se concentrar por 30 minutos; os meninos, em média, 5 minutos. Cada vez mais elas nos superam em vestibulares, concursos e vão nos empurrando para a periferia. Seremos extintos por falta de mérito ou interesse, ou por infantilização crônica.

MISTÉRIOS FEMININOS

Sim, é verdade, elas são instáveis, hormonais, e cada vez mais queixosas. É característica delas serem verbais, “falar mais do que pobre na chuva”, querer discutir relação na hora do futebol na TV. Sim, a tal da TPM, tá virando doença, e elas se transformam na fase progesterônica, assim como são melosas no cio estrogênico, receptivas. Sei que grande parte de nós, homens, desconhece os mistérios da feminilidade. Sexo, por exemplo, exigiria um encaixe que machos predadores, rapidinhos, bêbados, jamais entenderão se não penetrarem no labirinto da alma feminina.

Para início de conversa, as mulheres pós-modernas ainda sonham com a maternidade, o casamento, na crença da família, embora ambicionem sua profissão, cuidar de seu lar e crescer no trabalho.

Vaidosas, críticas, exigentes, ainda são cobradas pela aparência, investindo tempo em salão, clínicas de estética, academia, roupas, entre outros investimentos físicos. Ser mulher é equilibrar funções pesadíssimas. Ter que ser mãe, esposa ou parceira, dona de casa, profissional, amante, sempre linda, poderosa, esteio dos pais, competidora com outras fêmeas que mordem o calcanhar. Não pode ganhar peso, ter celulite, peito caído, estria, cabelo sem pintar e unha sem fazer. E aguentar homem gordo, descuidado, tarado, molenga e exigente. Se não tiver, ir à luta para ter um homem para chamar de seu! Que bobagem! Mas como alimentar, de selfies e sorrisos, as redes sociais? Trabalhar em quatro turnos: mãe, mulher, organizadora do lar e trabalho fora. E ainda sair na noite e tomar umas e outras, numa competição boba com os homens. Ir à caça.

DEPRESSÃO ETC.

Pois é, não à toa que 2/3 dos transtornos depressivos e ansiosos são das mulheres. Infartam tanto quanto os homens, algo raro há algumas décadas. Dormem mal, acordam cedo, se irritam mais que os homens (hormônio é determinante), sobrecarregadas, sem vida pessoal, dedicadas que são aos seus homens, filhos, pais, trabalho e casa.

Desculpem, mulheres, moças e meninas, mas não as invejo. Ter o mundo nas costas, ser escravas de aparência, sufocadas pelo grau de exigência própria e do mundo que as cerca, escravizadas pela exigência do belo, estético, atraente. Imagino como seria se nós, os machos decadentes, pudéssemos acolhê-las, fazer um cafuné, dividir as tarefas chatas da casa, ser parceiros no trato com os filhos, convidá-las para um day-off, um restaurante escondido, uma massagem relaxante. Mas não dá!

Vocês se nivelaram por baixo, e herdaram o que temos de pior. E cá entre nós, como é difícil ser cavalheiro, companheiro, amável com as mulheres que correm com os lobos!

Se o mundo masculino não deu certo, esse feminino não dará em nada muito melhor. Lá na frente, reaprenderemos a conjugar, compartilhar, comunicar e comungar. Afinal, somos parte de um todo, a complementação divina de um fruto.

Grécia aprova lei antipobreza, sem saber como será custeada

Deu em O Tempo

O Parlamento da Grécia aprovou quinta-feira uma lei “antipobreza”, que prevê o fornecimento de energia elétrica gratuita e vale-refeição para famílias de baixa renda. Essa aprovação aconteceu mesmo sem o país ter recebido o sinal verde de credores internacionais, o que representa mais um obstáculo às negociações de socorro ao país.

Esta é a primeira vez que os parlamentares gregos aprovam uma lei desde as eleições do último mês de janeiro, nas quais o partido esquerdista Syriza, liderado pelo agora primeiro-ministro Alexis Tsipras, saiu vencedor.

As medidas aprovadas devem custar cerca de € 200 milhões ao governo. Em contrapartida, Atenas prometeu compensar os gastos cortando despesas de ministérios e adotando um sistema mais transparente para a concessão de contratos públicos.

Em um discurso nesta quinta no parlamento, Tsipras disse aos parlamentares, ainda antes da votação, que o projeto é do interesse do país e que a Grécia vai avançar com outros movimentos que não foram aprovados pelos credores internacionais, incluindo a reabertura de sua emissora estatal.

‘SEM TIRAR DAS PESSOAS’.

O primeiro-ministro Tsipras foi bastante enfático. “Esta é a primeira lei em cinco anos que não tira nada das pessoas, mas sim oferece”, disse Tsipras.

A Grécia está mergulhada em uma crise econômica há seis anos. O Fundo Monetário Internacional, os países do euro e o Banco Central Europeu fecharam ajudas financeiras ao país. A dívida chega hoje a € 240 bilhões, ou 175% do PIB.

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NOTA DA REDAÇÃO
Se realmente o governo cortar custos, tudo bem. Caso contrário, esses novos gastos somente irão aprofundar a crise. A situação é altamente preocupante e o governo parece estar emparedado. (C.N.)

A volta de uma senhora muito idosa chamada inflação

Rosana Hessel
Correio Braziliense

A prévia da inflação oficial, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 ( IPCA-15), subiu 1,24% em março e desacelerou 0,09 ponto percentual em relação à taxa de a 1,33%, de fevereiro. No acumulado em 12 meses, o indicador subiu 7,90%, o maior valor desde maio de 2005 (8,19%).

A principal alta dos preços ocorreu nas contas de energia elétrica, no preços dos alimentos e combustíveis, que foram responsáveis por 77,42% do IPCA do mês. A energia elétrica teve elevação de 10,91% e liderou o ranking dos principais impactos, com 0,35pp. Nesse caso, a capital que mais sofreu reajuste nos preços foi Curitiba, que teve uma variação no mês de 14,89% e reajuste extraordinário de 31,86%.

Brasília registrou alta de 9,95% no mês e um reajuste extraordinário 21,98%. Essa forte alta ocorreu por conta dos reajustes e da bandeira tarifaria vigente, a vermelha, que passou de R$ 3 para R$ 5,5 a mais a cada 100 quilowatts-hora (kWh).

CEBOLA E TOMATE

Entre os alimentos, o item que mais pressionou foi a cebola, com alta de 19,07%, seguido pela cenoura (18,32%). O tomate ficou em terceiro lugar 13,04%. Os combustíveis, que subiram 6,25% no mês, exerceram impacto de 0,31 ponto percentual no índice e a gasolina, cujos preços subiram 6,68%, contribuíram sozinhos 0,26pp do IPCA do mês. Recife foi a cidade que mais teve variação do produto, com alta de até 9,22%.

Entre as capitais com maior aumento do custo de vida, o destaque ficou para Curitiba, com elevação de 1,72% em março e 8,29% no acumulado em 12 meses. Brasília ficou em penúltimo lugar, das 11 cidades pesquisadas pelo IBGE, com variação no mês de 0,82% e 6,71 no acumulado em 12 meses.

Apesar de ficar em quarto lugar na variação mensal, com alta de 1,34%, a cidade de Goiânia teve a maior alta acumulada em 12 meses, de 9,33%.

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NOTA DA REDAÇÃOÉ a maior alta dos últimos dez anos, mostrando que a inflação é uma senhora muito idosa, mas acaba de fazer uma plástica semelhante à da presidente Dilma Rousseff para continuar na ativa. E la nave va, desgovernadamente. (C.N.)

Quem, desta vez, nos livrará do reacionarismo e do populismo?

Acílio Lara Resende
O Tempo

Começo estas linhas com dois conceitos do senador José Serra, constantes do seu livro “Cinquenta Anos Esta Noite – O Golpe, a Ditadura e o Exílio”, que poderiam servir para encerrá-las: “Os países se tornam estáveis quando mudam com prudência e conservam com coragem. A saudável tensão entre esses dois impulsos livra as nações dos desastres do reacionarismo e do populismo – duas forças que têm um longo passado no Brasil, mas não oferecem futuro”. E não são essas as forças que, no presente, novamente se apresentam e se digladiam?

Lembrei-me do senador tucano (e candidato derrotado duas vezes à Presidência da República) depois que ouvi, atentamente, no último domingo, os deploráveis pronunciamentos dos ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência da República). Ao término do repetitivo falatório, cheguei definitivamente à conclusão de que a presidente Dilma, dona de desastrosa inapetência política, se continuar no mesmo diapasão, antes “auxiliada” pelo seu ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e, agora, por mais dois trapalhões, acabará levando o país à maior crise institucional da nossa história – política, econômica, social e ética.

Para coroar esse time, só falta a presença do ministro Ricardo Berzoini (Comunicações), que, em matéria de habilidade política, dispõe de uma única proposta: a imposição já, no país, da censura à imprensa, por meio do que ele e o PT chamam de “regulamento da mídia”.

DUAS AMEAÇAS

Com esses atores, que desrespeitam a inteligência dos brasileiros, as instituições democráticas, depois de 30 anos de relativa segurança, correm o risco de ser novamente destruídas por uma das duas ameaças a que se refere o senador José Serra – ou sucumbem ao reacionarismo, ou ao populismo.

Desta vez, porém, o risco de descermos o desfiladeiro está nas mãos do PT – um partido político radical, que insiste em dividir o país. E a presidente, sua maior expressão, por prepotência ou soberba, não se sentiu nada obrigada a conceder uma palavrinha aos milhões de brasileiros que, em todo o país, e com total desprendimento, foram às ruas para protestar por um Brasil mais justo e mais ético. Numa decisão equivocada, preferiu nomear auxiliares despreparados para se dirigirem à nação, obedientes, sempre, à mesma lenga-lenga por ela repetida antes, durante e depois das últimas eleições.

Por motivos ideológicos, obviamente contrários ao regime democrático, embora sempre se considerem seus arautos, nem a presidente, nem seus principais auxiliares são capazes de reconhecer que estão errados na condução do país. Querem, na verdade, apartá-lo entre ricos e pobres e não conseguem mostrar nada senão isso, vítimas que são (ou serão autores?) de uma esquerda autoritária e retrógrada.

IMPEACHMENT

A mentira como tática e a defesa intransigente de uma esquerda autoritária poderão levar a maioria da sociedade brasileira à aceitação do impeachment (que é, repito, um instrumento legítimo e de autodefesa do regime democrático), mas sem, hoje, as condições jurídicas necessárias, advertiu o ex-ministro (do STF) Carlos Ayres Brito.

Presidente: não entregue (só) a Deus o nosso destino. Convoque não apenas o país, mas, sobretudo, auxiliares competentes e comprometidos com a liberdade, e antes que a despachem para casa… E, depois, reze, como, aliás, farão todos os que têm juízo.

O Brasil é muito maior do que todos nós!

Empreiteiras lucravam três a quatro vezes o valor da propina

Mônica Bergamo
Folha

Um ano depois da deflagração da Lava Jato, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima diz que a operação “andou num ritmo muito mais rápido do que o que nós estávamos acostumados a trabalhar”. No entanto, acredita que as investigações estão apenas “arranhando o verniz de uma estrutura muito maior”, que seria a forma como se financia a política no país.

Santos Lima defende mudanças profundas no sistema político e afirma que esquemas de corrupção, como o que agora é revelado na Petrobras, fazem parte de uma engrenagem que funciona como um relógio gigantesco. “Pode até perder algumas peças, que são substituídas por outras. Mas funciona até independente da vontade dessas peças”.

Aos 50 anos, Santos Lima fez parte da força-tarefa que investigou o escândalo do Banestado, na década de 90, o primeiro a usar em larga escala a delação premiada como forma de investigação. Na semana passada, ele recebeu a Folha para uma entrevista exclusiva. A conversa foi acompanhada, em alguns momentos, pelo procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Força Tarefa que investiga o escândalo.

Segundo o procurador, quem mais ganhava com a corrupção na Petrobras eram as empreiteiras. “O esquema gerava um lucro para elas que deveria ser três ou quatro vezes o custo da propina.”

FOLHA – O Brasil vive um momento de polarização política. Uma parte do país pressiona o Ministério Público, “tem que pegar a presidente Dilma Rousseff e tem que pegar o Lula”. Uma outra parte que diz que vocês estão conduzindo as investigações só para incriminar os dois. Existe alguma suspeita sobre a presidente da República, com o que vocês já conhecem? E até que ponto, existindo ou não essa suspeita, esse clima interfere e conturba a investigação?

SANTOS LIMA – A primeira questão é delicada. Todos os casos que nós investigarmos estarão dentro da nossa atribuição. Quando surge alguém que tem foro privilegiado [direito de ser julgado em cortes superiores por ocupar cargo público, como presidente, governadores e parlamentares], nós imediatamente chamamos a equipe da PGR (Procuradoria-Geral da República, que pode denunciar autoridades com foro). Então nós não colocamos a mão nesta cumbuca. Em segundo lugar, não existe escolha [de quem deve ser investigado]. Nós somos procuradores da República. Nós temos um modo de pensar muito peculiar: cometeu erro, não importa quem seja a pessoa. Vamos fazer o que tem que ser feito. Nós não fazemos essa distinção [política].

Agora, evidentemente esse ambiente polarizado dificulta bastante o nosso trabalho e facilita bastante o trabalho dos acusados. Por quê? Porque eles usam o ambiente polarizado para nos imputar uma atuação política que nós não temos nem podemos ter. Claro que todas as pessoas têm a sua orientação política, isso independe. Mas, no trabalho, nossa esquipe é bastante heterogênea e não existe nenhuma orientação. As pessoas parecem não compreender aquela frase que o [procurador-geral Rodrigo] Janot falou na sabatina [do Senado, quando foi indicado para o cargo, em 2013]: “Pau que dá em Francisco, dá em Chico”. Essa deve ser a regra do Ministério Público realmente. Não faz a menor diferença se for A ou se for fulano B.

FOLHA – Vocês não elegem uma caça?

SANTOS LIMA – Não. É claro, se eu olho o momento em que eu estou fazendo a investigação, como um investigador federal – e, portanto, para mim o que interessam são os crimes federais –, e eu olho o tempo de poder exercido por um partido e por outro, eu obviamente tenho pessoas mais ligadas a uma tendência [política] do que de outra [envolvidas no escândalo]. Mas isso não é uma escolha minha. São os fatos. E os fatos muito antigos prescrevem. Eu não vou perder dinheiro público investigando fatos que estão prescritos [que teriam ocorrido em governos anteriores].

DALLAGNOL – Nem pode. Existe um impedimento legal de se investigar fatos prescritos.

SANTOS LIMA – Então tecnicamente a questão é muito simples. Mas realmente o ambiente polarizado do país nos prejudica muito. Ninguém quer aqui ser hostilizado nem virar herói. Só quer fazer o seu trabalho e ir para casa. Essa a nossa posição.

FOLHA – Há contradição entre os depoimentos do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e do doleiro Alberto Yousseff. O primeiro diz que autorizou, via Yousseff, o envio de recursos do esquema da Petrobras a Antonio Palocci, que os destinaria à campanha presidencial de Dilma Rousseff. O doleiro nega. Vocês admitem que pode haver mentiras nas delações?

DALLAGNOL – Se você colher o depoimento de uma testemunha por dez vezes, de uma pessoa correta, quanto mais colher o depoimento, mais ela vai entrar em contradições. Depoimentos de dez testemunhas isentas serão dez perspectivas sobre o mesmo fato. Nos EUA, eles dizem: “As diferenças aumentam o valor do que os depoimentos têm em comum. Porque elas mostram que não existiu um ajuste, um prévio acordo [entre os delatores].

O preço do poder não é a perda da honra e dignidade

Márcio Garcia Vilela
O Tempo

Getúlio Vargas foi a mais singular das personalidades históricas da vida política do Brasil. Singular e complexa, múltipla e polivalente. Não era apenas um ser humano, muito menos um homem apenas convencional, com seus defeitos e suas qualidades, que às vezes oscilam entre a grandeza e a mediocridade. Visceralmente retilíneo nas suas crenças e convicções, em seus passos pelo mundo fez profundo e devastador pacto com a vida e a morte, que o guiou até aos extremos a que permaneceu fiel até o último momento, sereno e pacificado, creio eu. Assim ilustrou, com o autoextermínio, que a morte não lhe significava nenhum sacrifício senão o ato redentor da dignidade, que lhe restituía a honra arrancada, elevando-o para a eternidade.

Não lhe exprimia apenas a perda da vida, cujo valor não aferia por critérios puramente humanos; a vitória sobre a morte, de que falou o apóstolo Paulo, era, enfim, o triunfo final e definitivo sobre as misérias humanas, das quais nada mais sobrava, antes reafirmava a divindade e a autonomia do ser humano, pacificando-lhe as atribulações terrenas, que ficavam para trás e lhe permitiam traçar novos caminhos.

Imagino que Getúlio tinha da vida a certeza do seu papel de mera passagem para a morte. Esta, enfim, cuidava de curar as ofensas e os desenganos. Quando tardava ou não chegava, o suicídio era a decisão mais nobre para libertar o homem e restituir-lhe a autonomia recebida no Éden, assim transformando-se em exclusivo árbitro do destino, da derrota ou da glória.

A SUA CRUZ

Registros históricos testemunham essa crença de Getúlio, em documentos legados à posteridade, deitados ao papel em momentos de perigos de desonra. Essa era a sua cruz, o suicídio lhe era a glorificação eterna, que só dependia dele.

Senhores altíssimos dirigentes do nosso país: este artigo se exime de qualquer alusão a Vossas Excelências por um único e decisivo motivo: respeito a individualidade das pessoas, sejam quais forem as funções que exerçam, por mais altas que sejam, assim como as do trabalhador mais humilde. O brando norte assopra em minha vida aquele lindo verso do poeta d. Marcos Barbosa: “Varredor que varres a rua/ varres o reino de Deus”.

Creio em Deus, não faço qualquer apologia do suicídio. Comecei este artigo citando Getúlio Vargas – de quem Vossas Excelências talvez estejam a uma distância sideral – porque o admiro como homem público e estadista. Isso não quer dizer apoio aos seus longos anos de governo, embora o aplauda por medidas pontuais mais profundas. Todavia, seu notável sentimento de honra e dignidade é luz e clarão para os brasileiros. Tomo a liberdade de clamá-los por inspirar-se nele. Repito, não falo de suicídio, mas de inspiração na honra e na dignidade. Não raro, a renúncia gera a glória de resgatá-las. O tempo é caprichoso e curto.

Ouçam os sussurros da nação, enquanto o fio d’água está luzindo o seu murmúrio. Não permitam que a sua mansa água se transborde pela força das tempestades. Não faltem com os compatriotas na hora trepidante.

Outras estatais também pagavam políticos, diz doleiro

Deu na Folha

Políticos que serão investigados por suspeita de envolvimento com o esquema de corrupção na Petrobras também receberam propina para facilitar negócios com outras estatais do governo federal, de acordo com o doleiro Alberto Youssef, um dos principais operadores do esquema.

Detalhes dos depoimentos de Youssef vieram a público na sexta-feira, após o Supremo Tribunal Federal divulgar a relação de inquéritos abertos para investigar os políticos supostamente envolvidos.

Há menções a pagamentos milionários a políticos provenientes de contratos de órgãos como o Denatran, ligado ao Ministério das Cidades, as estatais CBTU e Furnas, além de fundos de pensão dos Correios, da Petrobras e de alguns Estados e municípios.

No caso do Denatran, dois ex-deputados do PP –João Pizzolatti (SC) e Pedro Correia (PE)– serão investigados pela suspeita de terem recebido propina de R$ 20 milhões.

IBOPE ESTAVA NA JOGADA

Segundo o relato de Youssef, o Dentran fez um convênio com a Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização para a instituição passar a fazer um registro específico dos veículos nacionais. Sem concorrência, a Fenaseg contratou a empresa GRF para realizar o serviço.

Segundo consta no inquérito, a GRF era de Carlos Augusto Montenegro, presidente do instituto de pesquisa Ibope, que seria responsável pelo pagamento da propina.

“O negócio teria rendido cerca de R$ 20 milhões em comissões para o PP, montante que seria pago em vinte parcelas”, disse Youssef ao depor. “As parcelas eram pagas por um empresário de nome Montenegro, dono do Ibope.”

PROPINA DO SENADOR

O doleiro acusa o ex-presidente da CBTU, estatal federal de trens urbanos, Francisco Colombo, de ter repassado R$ 106 mil apreendidos em 2012 pela Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas (SP) com o funcionário da Câmara Jaymerson de Amorim.

Segundo o depoimento, o dinheiro foi pego por Colombo com Youssef dias antes e era destinado ao senador Benedito de Lira (PP-AL) e ao deputado Artur Lira (PP-AL).

ESQUEMA EM FURNAS

Youssef relatou ter informações de que havia um esquema de pagamento de suborno em Furnas, estatal do setor elétrico, que teria funcionado entre 1994 e 2001, durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso. O doleiro contou que nessa época atuava como operador financeiro do ex-deputado do PP José Janene, morto em 2010.

Segundo ele, Janene recebia propina de duas empresas contratadas por Furnas. Youssef disse que presenciou Janene receber suborno de uma destas empresas e que, de 1996 a “2000 ou 2001”, a empresa repassou US$ 100 mil por mês ao PP.

O doleiro afirmou que Janene lhe disse que “dividia uma diretoria de Furnas” com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que na época era deputado federal. Youssef disse ter “ouvido dizer” que Aécio também recebia propina. O Ministério Público não abriu inquérito contra o tucano.

A Folha procurou a CBTU, a assessoria do Ministério das Cidades, o presidente do Ibope e a assessoria do PP, mas não obteve retorno até a conclusão desta edição.

Quem é Toffoli? Quem acredita na imparcialidade dele?

José Gobbo Ferreira

Uma manobra de bastidores dentro do Supremo permitiu que o ministro Toffoli, a seu pedido e com a aprovação do ministro Levandowski (que dupla!) fosse transferido para a segunda turma do Tribunal, da qual será o presidente durante a apreciação dos fatos da operação Lava Jato.

É interessante conhecer um breve memorial desse senhor para que se possa avaliar seu grau de isenção para o exercício dessas funções.

A ligação do Exmo. Sr. Ministro com o Partido dos Trabalhadores vem desde 1995, quando já era assessor jurídico da liderança do PT na Câmara dos Deputados, em Brasília.

* Foi advogado do PT nas campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 1998, 2002 e 2006.

* De janeiro de 2003 a julho de 2005, exerceu o cargo de subchefe da área de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República tendo como chefe o Sr. José Dirceu de Oliveira e Silva, por acaso o principal réu da Ação Penal 470, o chamado “mensalão”.

* Em 12 de março de 1997, a convite do então presidente Lula assumiu a Advocacia Geral da União, função que exerceu até outubro de 2009.

DIZ A CONSTITUIÇÃO

O Artigo 101 da Constituição Federal de 1988 reza:

“O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada”.

* O ministro Toffoli, que eu saiba, não concluiu qualquer curso de pós-graduação.

* Foi reprovado duas vezes em provas e títulos para a Magistratura de primeira instância (como merecer o exercício da suprema instância?).

* Na vida acadêmica seu voo mais alto foi lecionar na graduação de uma faculdade em Brasília. Professor inexpressivo em tempo parcial, em nada se distinguiu, nada publicou de relevante, nada produziu de positivo e permanente no campo do Direito. Onde o notório saber?

ILIBADA REPUTAÇÃO?

* No ano de 2000, o Dr. Toffoli foi condenado por corrupção pela Justiça do Amapá a devolver R$ 19.720,00 aos cofres públicos devido a uma suposta licitação ilegal de prestação de serviços de advocacia ao governo, vencida por seu escritório. A ação foi julgada improcedente em segundo grau, tendo a sentença anulada em 2008.

* Em 2006 ei-lo novamente processado por mais um crime de mesma natureza, ocorrido em 2001, desta feita pela 2ª Vara Cível do Amapá, e condenado a devolver R$ 420.000,00 (R$ 700.000,00 mil reais em valores atualizados até a época de sua admissão ao STF).

Coube à Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania do Senado (CCJ), cujo presidente era o senador Demóstenes Torres (lembram-se dele?), dar parecer sobre o processo de aprovação do Dr. Toffoli ao STF.

Ao passar o processo pela Comissão, resolveu o até então irreprochável senador ‘aceitar’ a argumentação do Sr. Toffoli, de que estava livre do primeiro processo, que havia recorrido da condenação no segundo e que a ação contra ele ainda tramitava. Portanto, desfrutava de reputação angelical.

E O SENADO APROVOU…

A CCJ e o Senado, de maioria constituída por membros do Partido dos Trabalhadores e de partidos “da base de sustentação do governo”, a maior parte deles talvez ainda menos ilibados do que o próprio Sr. Toffoli, acabaram por aprovar sua indicação para o STF.

É possível avaliar o grau de isenção do ministro Toffoli no decorrer do julgamento da AP 470 (Mensalão), observando seu posicionamento quanto ao Sr. José Dirceu:

Julgamento por Corrupção de parlamentares:

  • José Dirceu INOCENTADO.

Julgamento por Formação de quadrilha:

  • José Dirceu INOCENTADO

Julgamento da Admissibilidade dos Recursos Infringentes:

  • ADMITIDA

Julgamento do Recurso Infringente quanto à Formação de quadrilha.

  • José Dirceu INOCENTADO.

Manifestações em plenário:

  • Comparou a gradação das penas cominadas pela Corte com as ações de Tomaz de Torquemada, famoso inquisidor espanhol do século XV.
  • Exprimiu a opinião que crimes abjetos, dissolutivos da própria República, como aqueles que fazem parte da AP 470, poderiam ser ressarcidos por via monetária.

ATUANDO NO TSE

O ministro Toffoli foi presidente do TSE nas eleições de 2014. Distinguiu-se por proibir uma verificação das urnas eletrônicas por auditores independentes antes da votação, como era de praxe, e por ordenar uma apuração dos votos a portas fechadas. Por acaso, a Sra. Dilma RoussefF , do PT, ultrapassou seu adversário nos votos finais.

Assim que assumiu a 2ª Turma o ministro Toffoli apresentou-se pronto para o serviço à presidente, ao ministro da justiça e ao chefe da casa civil da presidência. Consta que conversaram sobre amenidades, tomaram chá com bolachas e, como sói acontecer nessas tertúlias, trocaram receitas de acepipes. Por acaso, desta feita, receitas de pizza.

Quem acreditar que ele será imparcial no julgamento da Lava Jato levante o braço.

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. (Rui Barbosa).

(artigo enviado pelo comentarista Celso Serra)

E lá vai o trem azul de Lô Borges e Ronaldo Bastos

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Lô Borges e Ronaldo Bastos, dois parceiros para sempre

O jornalista, produtor musical e compositor Ronaldo Bastos Ribeiro, nascido em Niterói (RJ), na letra de “O Trem Azul”, compara a vida e a viagem como passageiro de um trem, sempre em direção à próxima e nova estação, com suas promessas de momentos mais felizes, ou seja, é o canto da esperança nos bons encontros que a próxima estação trará; é canto de afirmação (inclusive das despedidas) da beleza da palavra, afinal, a tristeza é resultado das palavras que não foram ditas e que devoram o indivíduo por dentro, numa época em que o Brasil estava sob o comando de uma ditadura militar, desde 1964.

A canção faz parte do LP duplo Clube da Esquina, gravado por Milton Nascimento, em 1972, pela Odeon.

O TREM AZUL
Lô Borges e Ronaldo Bastos

Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem as vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar
Você pega o trem azul, o Sol na cabeça
O Sol pega o trem azul, você na cabeça
Um sol na cabeça

         (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)