Dilma depende agora de um “salvador da pátria”. Será Levy?

Fernando Canzian
Folha

É degradante e educativo para Dilma Rousseff no que está se transformando a escolha do seu novo ministro da Fazenda. Arruinada a economia com os requintes da “nova matriz desenvolvimentista”, agora a presidente depende de alguém totalmente de fora, e contrário a tudo o que ela pensa, para trazer confiança à área econômica. Dilma necessita de um ministro que exigirá independência para tentar consertar o que ela estragou.

O segundo mandato da presidente nem começou. Mas os sinais subterrâneos de desmonte na economia, que se evidenciavam na campanha eleitoral, agora se materializam no emprego. Desde 1999 não havia resultado tão ruim em um mês de outubro, sempre marcado pelo início das encomendas de Natal. No mês passado, 30,3 mil vagas de trabalho foram eliminadas.

Há meses, bem antes do início da feia campanha à Presidência, os sinais de degradação em várias áreas eram evidentes. O governo se protegeu na falácia de que o problema era externo. Dilma represou preços administrados, arrebentou as contas externas e acabou de vez com a credibilidade das contas públicas.

E O MINISTRO?

Ganhou a eleição. Agora, faz tudo o que acusara seu adversário na campanha de querer fazer caso eleito. Mas o caso do ministro é o mais delicioso.

Com a supervisão de Lula, a presidente considerava alguns nomes para a Fazenda: o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, que não aceitouo ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda Nelson Barbosa e o atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Por fora corria o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, e de repente surgiu Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro no primeiro governo Lula.

Os banqueiros Trabuco e Meirelles (ex-presidente mundial do BankBoston) seriam os nomes preferidos, principalmente por Lula. Dariam finalmente a Dilma algo da credibilidade que ela dizimou durante seu governo, baixando investimentos e confiança empresariais a níveis recordes.

PIB roçando o zero em 2014 e tudo o mais desajustado, com o desemprego agora à espreita, vêm da falta de compreensão de que o “mercado” (financeiro e empresarial) é quem tem o dinheiro para nos tirar do buraco.

É um pouco assustador que precisemos urgente, e de novo, de um salvador da pátria. E que ele não seja o mandatário recém-eleito.

 

Prejuízo da Petrobras pode atingir R$ 23 bilhões, pelo menos

Wagner Pires

Falávamos nós sobre as perdas da Petrobrás. Um banco americano (Morgan Stanley), calcula que os prejuízos possam chegar a R$ 21 bilhões, outros analistas já falam em R$ 23 bilhões. Ademais, este ano, a empresa provavelmente não distribuirá lucros e dividendos aos acionistas detentores de ações ordinárias.

A Petrobrás ainda terá de reduzir o valor de seu patrimônio, admitindo perda de ativos (impairment), ou seja, reconhecer prejuízos que estão camuflados sob o escrutínio dos desvios provocados pela corrupção que abunda a S/A.

Se alguém quiser investir agora na empresa, adquirindo as ações que estão com valor muito baixo (hoje estão em torno de R$ 12,45, mas já estiveram acima de R$ 50,0), achando que vai lucrar como no caso do dólar, que este ano tinha tudo para descrever uma trajetória descendente e fez o contrário por conta da interferência na nossa economia da gerentona que nos preside, vai quebrar a cara, se o desejo é o lucro rápido.

Seria muita bobagem investir hoje na Petrobrás desejando o retorno em um ou dois anos.

Agora, ao que tudo indica, a “azienda” só recuperará valor de mercado quando conseguir fazer o país encontrar a autossuficiência. E isto não se dará antes de 2021. E olhe lá!

Em relação à perda do valor aproximado de R$21,0 bilhões, é apenas um primeiro cálculo.

Em 2018, talvez Lula nem queira disputar, com medo de perder

Lizst Vieira e Marijane Lisboa
O Globo

Os candidatos Dilma e Aécio, apesar das aparências, são mais semelhantes do que diferentes. Os grupos econômicos que sustentaram os dois candidatos são os mesmos: o agronegócio, as empreiteiras, as empresas de mineração, os bancos. As diferenças não são muitas. O PT tem uma concepção desenvolvimentista, neo-extrativista, que reforça a reprimarização da economia. Prioriza o Estado como fomentador do crescimento. É corporativista e arcaico em matéria de gestão. O PSDB sofre influência da ideologia neoliberal, crê numa dinâmica virtuosa do mercado sem regulação. Defende uma gestão moderna sem priorizar direitos sociais.

Ambos, PT e PSDB, acreditam que a solução para o país é o crescimento econômico predatório dos recursos naturais, sem privilegiar qualidade de vida. E se houver índios, meio ambiente ou Ministério Público atrapalhando, passam por cima. Com 39 ministros, o atual governo foi muito pior que seu antecessor.

Houve avanços, especialmente nos programas sociais que aumentaram a renda tanto nos estratos mais pobres como nos estratos mais ricos. Mas o baixíssimo crescimento econômico e a pressão inflacionária ameaçam a oferta de emprego e o poder aquisitivo do salário.

Em matéria de meio ambiente, a situação é dramática: favorecimento do agronegócio e multinacionais da biotecnologia, retomada do programa nuclear, grandes hidrelétricas na Amazônia, corpo mole no combate ao desmatamento para não contrariar pecuaristas, madeireiros e mineradores, incentivos à indústria automobilística em desconsideração ao grave problema das mudanças climáticas. E nenhum incentivo foi concedido a projetos de sustentabilidade.

DIREITOS HUMANOS

Em relação aos direitos humanos, é bom não esquecer que os governos do PT evitaram a apuração dos crimes de tortura e assassinato cometidos pela ditadura. Em abril de 2014, a presidente Dilma manifestou-se publicamente contrária à revisão da Lei da Anistia. Os números de demarcações de terras indígenas decaem vertiginosamente (FHC demarcou mais que Lula e Lula mais que Dilma). As estatísticas de assassinatos de índios e sem-terra são alarmantes.

O PT permitiu que um homofóbico raivoso assumisse a Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Dilma recebeu o apoio da Igreja Universal em troca de um acordo que desconhecemos mas que não é difícil imaginar. Daí sua postura recuada em matéria de aborto e casamento gay.

A corrupção sistêmica na Petrobras explica por que a Refinaria Abreu e Lima passou de 2,5 a 20 bilhões de dólares e a refinaria de Pasadena custou quase 1,5 bilhão, quando um ano antes custava 42,5 milhões. E Dilma aprovou essa transação sem ler o contrato, ou sem pedir que um assessor o fizesse, confiando apenas num parecer “técnico” de duas páginas e meia.

Se a presidente Dilma houvesse perdido, em 2018 provavelmente o PT ganharia a eleição. A vitória da Dilma significa — com nova roupagem — mais do mesmo nos próximos quatro anos. Em 2018, talvez Lula nem queira sair candidato e correr o risco de perder. Quem viver, verá.

*Liszt Vieira e Marijane Lisboa são professores da PUC

Prisão de corruptores ainda é coisa muito rara no Brasil

Deu no iG

Quando a presidente Dilma Rousseff busca enfatizar sua defesa de que “corruptos e os corruptores” sejam punidos caso comprovadas as denuncias feitas por delatores à Justiça no âmbito da Operação Lava Jato, ela faz menção a algo que ainda é raro no país. Apesar de vários casos envolvendo o nome de empresários que supostamente teriam atuado como corruptores, as prisões deles costuma ser rara e breve, quando levadas a cabo. E isso não mudou quase um ano depois de a lei 12.846/2013, que responsabiliza administrativa e civilmente as empresas que se envolverem em episódios de corrupção.

A lei ainda precisa de regulamentação federal de estados e municípios. Poucas cidades já o fizeram, São Paulo é uma delas. No âmbito federal, falta regulamentar o inciso 8 do artigo 7º, que diz respeito à “existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica”. Segundo a Controladoria-Geral da União, o texto da regulamentação já está na Casa Civil aguardando a assinatura de Dilma. Nada que impeça sua aplicação.

Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, é um exemplo de empresário que acabou preso por suposto envolvimento em rede criminosa com participação de autoridades e políticos. Ele foi detido no dia 29 de fevereiro de 2012, durante a Operação Monte Carlo, que apurou corrupção e exploração ilegal de jogos na esfera federal. Cachoeira chegou a ficar nove meses preso, parte desse período na penitenciária da Papuda, em Brasília.

Dias depois de solto, ele voltou a ser preso depois que o juiz Alderico Rocha, da 11ª Vara Federal, o condenou a mais de 39 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e peculato. Foi solto quatro dias depois.

DANIEL DANTAS

Outro caso famoso envolvendo a prisão de empresários se deu durante a Operação Satiagraha. No dia 8 de julho de 2008, o banqueiro Daniel Dantas foi preso acusado de desvio de verbas públicas e crimes financeiros. O suposto esquema investigado pela PF teria ligações com o mensalão.

No mesmo dia, foi preso também outro empresário que estaria ligado ao mesmo grupo, Naji Nahas, por suposta atuação em esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ambos acabaram soltos dias depois beneficiados por habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. No mesmo dia em que a dupla foi presa, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, também foi detido.

A Operação Navalha, que investigou fraudes em licitações de obras públicas, levou outro empresário para a cadeia. Zuleido Veras, empreiteiro, dono da Construtora Gautama, acabou preso em 17 de maio de 2007 por supostamente chefiar um esquema de pagamento de propinas para autoridades para garantir vitórias em licitações e desvio de verbas de obras do PAC. Veras foi soltou dias depois, em 29 de maio, ao ser beneficiado por liminar em habeas corpus concedida pelo ministro Gilmar Mendes.

SANGUESSUGAS

Luiz Antonio Vedoin, proprietário da Planam, foi apontado como chefe do esquema conhecido como sanguessugas. No dia 4 de maio de 2006, Vedoin e outros 45 investigados foram presos durante a Operação Sanguessuga, que investigou a conexão entre políticos e empresários para a compra superfaturada de ambulâncias por parte de prefeituras. O esquema teria movimentado R$ 110 milhões em 5 anos e funcionava por meio de fraudes na execução de emendas do Orçamento. Em 12 de julho, Vedoin foi solto após prestar depoimento quem que revelara a suposta ligação de mais de cem congressistas com o esquema.

Meses depois, Vedoin foi ligado à tentativa de compra, por parte de petistas, de um dossiê que supostamente faria a ligação entre o esquema Sanguessuga com os tucanos Geraldo Alckmin, então candidato a presidente, e José Serra, que disputava o governo de São Paulo. O escândalo do dossiê ficou, mais tarde, conhecido como o Escândalo dos Aloprados.

 

 

Lista de políticos envolvidos na Lava Jato ainda vai demorar

Deu no Painel da Folha

Uma das mais aguardadas etapas da Operação Lava Jato depois que a apuração atingiu as empreiteiras, a lista de quantas e quais são as autoridades com foro privilegiado envolvidas no escândalo ainda vai demorar. As denúncias ao Supremo Tribunal Federal só devem ser feitas depois que todos os investigados que optarem pela delação premiada falarem. Só então o Ministério Público Federal vai fechar a relação dos políticos sobre os quais há indícios consistentes de participação.

Para tentar recuperar o fôlego diante do agravamento da crise da Petrobras, Dilma Rousseff vai reforçar o discurso de que não deixará “pedra sobre pedra” no combate à corrupção para defender que a sociedade brasileira “saiba de tudo”.

No Palácio do Planalto, a ordem é manter a blindagem da presidente e continuar mostrando a petista como avalista das investigações e punições, “seja de um empresário ou da cunhada do tesoureiro do partido”, nas palavras de um auxiliar.

OUTROS CONTRATOS

Levantamento feito pelo Ministério Público Federal mostra que as empreiteiras que foram alvo da operação de sexta-feira têm 12 contratos ativos com outros órgãos do governo federal além da Petrobras, no valor de R$ 4,2 bilhões.

O maior contrato é da Mendes Júnior: R$ 927 milhões em obras de um dos trechos da transposição do rio São Francisco.

Um dos alvos da operação de sexta, a construtora Engevix admitiu em ofício à Justiça Federal que pagou R$ 6,2 milhões para que o doleiro Alberto Youssef fizesse “mediação em processos de negociação” com a Petrobras nas obras da refinaria de Abreu e Lima.

Os contratos foram assinados com duas firmas de Youssef, em 2009 e já em 2014. “Este serviço era prestado pelo senhor Alberto Youssef e devidamente formalizado por contrato”, declarou a Engevix.

Já a OAS, cujo presidente, Aldemário Pinheiro Filho, foi um dos presos na sexta-feira, declarou ter pago R$ 6,9 milhões às empresas de Youssef a título de consultoria.

E os tucanos se diziam aliviados ontem pelo “foco restrito” das investigações da Polícia Federal na relação das empreiteiras com a Petrobras, já que as empresas também prestam serviços para governos do PSDB.

Empreiteiras do cartel terão de pagar multas bilionárias

Julianna Sofia
Folha

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) negocia com o grupo Setal um acordo de leniência, o que poderá garantir à empresa imunidade –administrativa e criminal– se as acusações de cartel em licitações da Petrobras forem comprovadas pelo conselho. O acordo inclui executivos da empresa.

Entre as punições previstas para empresas condenadas pelo Cade por formação de cartel estão multas que podem chegar a 20% do faturamento anual.

A Folha apurou que, no caso do escândalo da Petrobras, a penalidade pelo conluio deve superar a maior multa já aplicada pela autarquia, que foi de R$ 3 bilhões para o cartel do cimento.

O Ministério Público Federal já havia fechado um acordo de delação premiada com o grupo Setal. Foi o primeiro entre as empresas envolvidas no esquema de corrupção na Petrobras investigado na Operação Lava Jato.

CONTRATOS

Dois executivos da Setal, Augusto de Mendonça Neto e Julio Camargo, também já haviam assinado delações individuais com a Procuradoria. A empresa tem contratos de mais de R$ 4 bilhões com a Petrobras.

A diferença entre os dois acordos é que a negociação com o Cade restringe-se às investigações sobre prática de cartel, que é a área de atuação do conselho. Já o Ministério Público e Polícia Federal investigam outros crimes, como lavagem de dinheiro e corrupção.

De acordo com a lei antitruste, somente uma empresa que participa do cartel pode ser beneficiada pelo acordo de leniência. As demais integrantes do esquema só poderão ser atendidas por outro instrumento, que é o Termo de Compromisso de Cessação de Conduta (TCC). Neste caso, as empresas precisam confessar a prática de conluio, colaborar com as investigações e ainda pagar uma contribuição.

Petrobras é o maior desafio desde o fim do regime militar

Kenneth Maxwell

A crise cada vez mais intensa na Petrobras, a detenção de executivos de empreiteiras, alegações de desfalques para ganho pessoal, propinas pagas por contratos superfaturados e a acusação de que isso envolveu pagamento de comissões a políticos brasileiros, entre os quais congressistas, governadores e ministros, bem como a partidos políticos, remetem ao eixo central da corrupção brasileira. É um escândalo de implicações espantosas e representa o maior desafio para a elite econômica e judicial brasileira desde o final do governo militar.

Paulo Roberto Costa acusou mais de 40 políticos de envolvimento em um esquema de comissões envolvendo sobretaxa de 3% sobre o valor dos contratos. Em companhia de Alberto Youssef, ele aparentemente fechou um acordo de admissão de culpa em troca de leniência. Dilma Rousseff declarou na Austrália que “isso pode mudar o país para sempre”. Ela acrescentou que o caso “acabaria com a impunidade”. Mas entre 2003 e 2010, Dilma foi presidente do Conselho da Petrobras. Também foi ministra da Energia. E é famosa pelo detalhismo de sua gestão.

Se isso fosse apenas uma questão brasileira, o escândalo poderia ser contido. Mas não é. A Petrobras é responsável por um quarto dos títulos brasileiros denominados em dólares e tem ADRs cotados na Bolsa de Nova York. A empresa está sendo investigada pela SEC (Securities and Exchange Commission) e pelo Departamento de Justiça dos EUA. Entre as revelações feitas por Edward Snowden estava o fato de que os EUA espionavam a Petrobras. A SBM, da Holanda, já encerrou por acordo um caso de suborno envolvendo Brasil, Angola e países da África, pagando US$ 240 milhões.

PAULO FRANCIS

Lamento jamais ter conhecido Paulo Francis. Elio Gaspari queria organizar um almoço para que nos conhecêssemos, mas o encontro acabou não saindo. Francis foi vilipendiado por “falar a verdade aos poderosos” no programa “Manhattan Connection”, quando disse que “todos os diretores da Petrobras têm contas na Suíça”. Os agentes da Petrobras perseguiram Francis com um processo judicial milionário, até sua morte prematura por ataque cardíaco em 1997.

Paulo Francis sem dúvida teria ficado muito satisfeito com as denúncias de Costa. Mas não tenha dúvida de que as forças em torno da Petrobras, das empreiteiras e dos políticos não são menos formidáveis hoje do que em 1997. A Petrobras é um pilar da economia brasileira: orgulho nacionalista; patrocínios culturais e acadêmicos; 67 mil empregos; e bilhões de dólares em investimento estão envolvidos, bem como as reputações de membros da elite brasileira. Será preciso mais do que a ação corajosa de uns poucos procuradores para deslindar essa trama.

(artigo enviado por Carlo Germani)

Os 10 pecados capitais da política econômica de Dilma

guido.jpg

Fernando Ulrich

O brilhante economista Thomas Sowell certa vez disse: “A primeira lição da economia é a da escassez: nunca há uma quantidade suficiente de alguma coisa de modo a satisfazer todos que a desejam. Já a primeira lei da política é ignorar a primeira lição da economia.”

A política econômica do governo tem insistido em ignorar as leis econômicas. Mas as leis econômicas não têm ideologia. E, assim como a lei da gravidade, as leis econômicas agem inexoravelmente sobre todas as pessoas (e governos também!).

Vejamos os dez pecados capitais da política econômica do governo Dilma.

  1. Inflação

A definição clássica de inflação é ‘aumento na quantidade de dinheiro na economia’. O que causa esse aumento da quantidade de dinheiro na economia é a expansão do crédito feita pelo sistema bancário, que pratica reservas fracionárias, e pelo Banco Central, que protege e dá sustentação a este sistema.

Aumento de preços, portanto, é uma mera consequência da inflação. A desvalorização da moeda é a consequência dessa política de inflação. Os pobres são sempre os mais prejudicados.

Não é culpa da China nem da falta (ou excesso) de chuvas. Tampouco são o tomate ou o chuchu os grandes vilões da inflação. Por meio do Banco Central, somente o governo pode imprimir moeda. A leniência com a perda de poder de compra do real está cada vez pior. O centro da meta da inflação já não é perseguido há alguns anos, e não há perspectiva de atingi-lo rapidamente. O IPCA dos últimos 12 meses está em 6,75%.

  1. Bancos Públicos

Fazendo ressurgir os velhos problemas das décadas perdidas, hoje os bancos públicos são responsáveis por mais da metade de todo o estoque de crédito no país. E como a expansão creditícia é essencialmente uma forma de criar moeda, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES são hoje grandes motores da inflação brasileira.

  1. Controle de preços

Se controlar os preços funcionasse, o Plano Cruzado teria sido um sucesso.

O preço da energia elétrica é controlado, o preço do petróleo está artificialmente represado, as tarifas de transporte público são determinadas por vontade política, o preço do crédito (taxa de juros) é manipulado etc. E apesar disso tudo, o IPCA está acima do teto. Alguém acredita que esse índice realmente reflete o aumento do custo de vida da classe trabalhadora?

Controlar preços é receita para o desastre.

  1. Maquiagem das contas públicas

Qual o déficit orçamentário do governo? Com ou sem os dividendos do BNDES? Com ou sem os restos a pagar? A dívida líquida desce, mas a dívida bruta só sobe? Qual importa?

Transparência não é o forte deste governo. E as contas públicas estão cada vez menos inteligíveis. Querem esconder os sintomas, mas a doença permanece intocada. O quadro fiscal está cada vez mais preocupante, e maquiar o problema só piora a situação.

  1. Estatais

Esse item mereceria uma lista própria, pois a quantidade de estatais sendo usadas para condução da política do governo é infindável.

Seja a Petrobras tabelando preços do petróleo em território nacional, seja a Eletrobras destruindo seu próprio caixa ao reduzir as tarifas de maneira populista, seja o BNDES direcionando crédito subsidiado aos campeões nacionais eleitos pelo governo, o uso político de empresas importantes à economia nacional é temerário.

Já vimos esse filme antes. E nos custou muito caro. Os prejuízos começam a avolumar-se. Em algum momento a conta irá chegar e, como sempre, quem paga são os mais pobres, com juros e correção monetária.

  1. Falta de Investimentos

Uma economia só cresce de forma sustentável com aumento de produtividade. E para isso é preciso poupança e investimentos, duas varáveis que despencaram no governo Dilma.

Especialmente no setor privado, faltam confiança e regras claras para poder investir. O enorme programa de concessões está sendo um fracasso. As excelentes oportunidades na área de infraestrutura permanecem sem serem aproveitadas. E não é por falta de apetite dos investidores (domésticos e internacionais).

Com infraestrutura precária, o custo Brasil inviabiliza diversos investimentos.

  1. Hiperatividade e microgerenciamento da economia

Alguém se lembra quantos pacotes de estímulos foram lançados pelo Ministro Mantega nos últimos anos? Nada menos do que trinta!

Reduz imposto daqui, sobe acolá, concede subsídios ao setor agrícola, remove isenções do setor XPTO, altera alíquota do IPI temporariamente de forma permanente, estimula a linha branca, desestimula a linha preta, determina a taxa de retorno dos investidores das concessões de infraestrutura, aumenta as tarifas de importação para “estimular” a indústria nacional etc.

É pacote demais e arbitrariedade demais. Como diz o velho ditado: muito ajuda quem não atrapalha. Neste ponto, menos é mais.

  1. Crescimento econômico, incerteza e desconfiança

Todos esses pontos geram o pior sentimento possível na economia: a insegurança.

A incerteza sobre o que o governo fará amanhã paralisa os empresários. A incerteza sobre novas políticas gera desconfiança nos investidores internacionais.

A economia patina e os trabalhadores começam a sentir insegurança com relação a sua própria estabilidade de emprego e, consequentemente, adiam compras mais relevantes. Nesse cenário, crescimento econômico é milagre.

  1. Errar é humano, botar a culpa nos outros mais ainda

Aos olhos da equipe econômica, se há alguma patologia na economia brasileira, a culpa é externa. Ora é a crise financeira, ora é o desaquecimento chinês, ora é a safra agrícola mundial, ora é a política do Federal Reserve, ora são os preços das commodities etc.

Já é passada a hora de olhar para o próprio umbigo.

  1. Equipe econômica

Dilma acha que entende de economia, Alexandre Tombini obedece, Guido Mantega é keynesiano e Arno Augustin é marxista. Deste pecado, decorrem todos os outros.

Adicione uma boa dose de corrupção e uma grande pitada de burocracia e os males da política econômica do governo se tornam ainda piores.

É preciso mudar. Mudar já. Mas quem está no comando não concorda com esse diagnóstico. Desconhecem ou ignoram a doença. Quem está no comando não quer mudar a fórmula, apenas alterar a dose. Remédio errado e na dose errada.

No curto prazo, para tentar curar o paciente, só nos resta tentar mudar quem está no comando.

(artigo enviado por Carlo Germani)

Propina em nove grandes obras teria chegado a R$ 1,77 bilhão

Eduardo Militão e João Valadares
Correio Braziliense

O quebra-cabeças que começa a se formar a partir da junção dos depoimentos de delatores na Operação Lava-Jato, das apreensões de bens e valores, e do volume de negócios que a Petrobras mantinha com as empreiteiras acusadas de formar um cartel para lesar os cofres públicos aponta para um valor surpreendente de propinas pagas no esquema. A estimativa dos investigadores é de que a cifra pode chegar a R$ 1,77 bilhão.
De acordo com o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa, os subornos variavam de 1% a 3% do total dos contratos, sendo que a petroleira fechou R$ 59 bilhões em negócios com o suposto cartel formado por empreiteiras como Odebrecht, Camargo Corrêa, OAS, Mendes Júnior e Engevix. As apurações da Polícia Federal e do Ministério Público apontam o pagamento de propina em pelo menos nove empreendimentos, incluindo a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Segundo o executivo Júlio Camargo, da Toyo Setal, a Camargo Corrêa pagou R$ 23,37 milhões à empresa Treviso, de propriedade dele. Desse valor, R$ 6 milhões foram repassados ao ex-diretor Renato Duque — ligado ao PT — e ao gerente Pedro Barusco, em contas no Brasil e no exterior, no banco Credit Suisse. Augusto Mendonça, outro executivo da Toyo Setal, afirmou que a Mendes Júnior e outras empresas corromperam funcionários para garantir obras de R$ 1 bilhão na refinaria Replan, em Paulínia (SP). Ele disse que negociou a propina com o ex-deputado José Janene (PP-PR), Duque e Barusco.

Camargo afirmou que, em 2005, pagou US$ 15 milhões ao lobista Fernando Antônio Falcão Soares, o Fernando Baiano, que agia pelo PMDB para garantir que a diretoria Internacional, na época comandada por Nestor Cerveró, adquirisse uma sonda de perfuração da Samsung. O aluguel de um equipamento do tipo custa cerca de R$ 10 bilhões por ano.
DINHEIRO EM ESPÉCIE

Dona de R$ 13,28 bilhões em contratos com a Petrobras e destino de R$ 3,55 bilhões da União nos últimos 10 anos, a maior empreiteira do país, a Odebrecht, escapou de ver seus executivos na cadeia. O Ministério Público pediu a prisão de Márcio Faria e Rogério Araújo, afirmando haver indícios de que eles praticaram delitos como organização criminosa, fraude em licitação e corrupção. “Os pagamentos efetuados pela empresa e seus diretores a título de propina eram realizados em espécie”, diz o Ministério Público.

Nas delações, Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef e Augusto Mendonça mencionaram a megaconstrutora como parte do “clube”. Mendonça disse que Márcio Faria era o representante da Odebrecht nas reuniões do cartel, nas quais havia “uma unicidade de pensamento muito grande”. Na casa de Costa, a PF encontrou uma agenda com menções a “Odeb — Odebrecht”, “Renato Barros”, “Rogério” e “CNO — Consórcio Nacional Odebrecht/OAS/UTC”.

Governo paga às empreiteiras cerca de R$ 2,5 bilhões/ano

Deu no Estadão

Em dez anos, as nove construtoras envolvidas nas investigações da Operação Lava Jato receberam R$ 11,4 bilhões em recursos federais. É o que mostra levantamento da ONG Contas Abertas, com base em dados do Portal da Transparência.

Os valores se referem apenas a pagamentos realizados pela administração pública direta, formada pelos diversos ministérios, e abrange parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Não estão na conta as concessões, os investimentos a cargo das empresas estatais, nem os empreendimentos que o governo toca em parceria com o setor privado, como é o caso das grandes hidrelétricas como Jirau, Santo Antônio e Belo Monte.

Os números mostram que, no governo Dilma Rousseff, os pagamentos às construtoras atingiram a casa dos R$ 2,5 bilhões ao ano, a partir de 2012. Antes disso, não ultrapassavam R$ 1 bilhão anual. Essa evolução pode ter relação com o prazo de maturação de grandes obras do PAC, avalia o secretário-geral da organização, Gil Castello Branco.

“Nesse momento, faz-se necessário investigar não apenas as irregularidades dessas empreiteiras com a Petrobras, mas também com as demais empresas estatais, bem como conexões com o Orçamento Geral da União, inclusive as obras do PAC”, defendeu. “Diante das informações oferecidas pelos delatores e dos valores envolvidos, é possível imaginarmos outras repercussões fora do âmbito da Petrobras.”

Em outro levantamento, a ONG mapeou 11 empreendimentos do PAC na área de energia que têm a participação de alguma das nove construtoras como responsável pelo empreendimento. Dessas, 10 ainda estão em etapa preparatória. Por isso, ainda não há valor determinado para elas.

Para ele, é necessário passar um “pente fino” nos financiamentos que essas empresas tenham recebido de órgãos do governo, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Pesquisa (Finep). “Chama a atenção que construtoras estejam recebendo recursos a fundo perdido da Finep”, afirmou.

Petrobras poderá ser punida com prisões e multas nos EUA

Simone Kafruni
Correio Braziliense

Se as denúncias de corrupção na Petrobras forem comprovadas e os resultados apurados prejudicarem investidores estrangeiros, a estatal corre o risco de ser multada em até US$ 20 bilhões pela Securities and Exchange Commission (SEC), órgão dos Estados Unidos equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Justiça norte-americana também pode decretar a prisão de diretores e conselheiros da empresa.
Eles só serão presos, contudo, se deixarem o Brasil. Isso é o que garante a lei das companhias de capital aberto dos Estados Unidos, fiscalizada pela SEC e amparada por tribunais de várias instâncias. Como a Petrobras negocia ações na Bolsa de Nova York, está submetida às regras norte-americanas, bem mais rígidas do que as brasileiras. Especulações nesse sentido levaram as ações preferenciais (PN) da Petrobras caírem ontem 1,19%, quando o pregão da bolsa paulista fechou em alta de 1,57%.

FRAUDES REINCIDENTES

As penalidades da CVM são mais brandas, mas as multas se multiplicam caso as fraudes sejam reincidentes. Os responsáveis podem ficar inabilitados por até 20 anos, antes mesmo do julgamento definitivo. A SEC é uma agência de aplicação da lei, que recomenda abertura de investigações quando verifica violações de regras. “Trabalhamos em estreita colaboração com outros órgãos e ao redor do mundo para levar casos ao nível criminal, se apropriado for”, explicou o órgão ao Correio.

Com a ordem formal de investigação, a SEC autorizaria os funcionários a abrir processo num tribunal federal ou uma ação administrativa, ou mesmo ambas. Entre as violações que podem levar a investigações do órgão incluem a deturpação ou a omissão de informações importantes e manipulação de preços da ações. Nas ações civis, a queixa são levadas a um tribunal distrital, exigindo ordem judicial ou liminar e auditorias.

Escândalos paralisam todos os novos projetos da Petrobras

Henrique Gomes Batista / Ramona Ordoñez / Bruno Rosa
O Globo

Com os escândalos de corrupção na Petrobras e a decisão da empresa de adiar a publicação de seu balanço financeiro, analistas temem uma paralisa na empresa que tenha impacto na indústria de petróleo, já que investimentos e decisões importantes estão praticamente suspensos. Embora a companhia continue mantendo e até batendo recorde de produção, é grande o medo, na estatal, de se autorizar qualquer negócio ou operação.

Há cerca de 15 dias, os sistemas internos da companhia ficaram mais fechados. Há cada vez menos funcionários com acesso a contratos. Além disso, a falta de clareza dos impactos das investigações faz com que a autoridade de diversas pessoas na empresa fique em xeque e que todos repensem antes de assinar qualquer documento.

Se os escândalos afetam o cotidiano da estatal, o maior reflexo é nos investimentos. Segundo uma fonte, a maior parte dos investimentos está paralisada. Ninguém aprova projeto novo. Um fornecedor da empresa explicou que apenas a compra de materiais para projetos em andamento segue em ritmo normal.

INVESTIMENTOS PARALISADOS

— Compra de equipamentos e aluguel de embarcações de apoio seguem seu curso normalmente. Mas os grandes projetos estão paralisados. Ninguém quer assinar nada sem todas as autorizações — diz uma fonte.

O advogado André Castro Carvalho afirma que uma reestruturação da imagem da estatal pode levar um ano e que, até lá, as denúncias terão impacto no setor:

— Muitos achavam que o setor de petróleo puxaria a recuperação do país. Agora, pode agir de maneira contrária. Temos que lembrar que a empresa é muito grande e afeta uma cadeia imensa de setores. Vários clientes e empresários ficaram, na sexta-feira, muito apreensivos com os impactos disso na economia.

Edmar de Almeida, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ, lembra que os escândalos colocam em xeque os avanços em compliance (cuidar que normas e leis sejam respeitadas) e prejudica outras negociações da estatal com seus parceiros.

PESO NA ECONOMIA FLUMINENSE

Júlio Bueno, secretário de Desenvolvimento do Estado do Rio, afirma que o peso do petróleo na economia fluminense é muito grande e foi o responsável pelo aumento do PIB estadual nos últimos anos. Mesmo reconhecendo a gravidade dos escândalos, ele acredita numa retomada:

— O setor do petróleo é acostumado a viver em crises. As grandes empresas internacionais convivem com ditaduras, se sobressaem na Rússia. O setor vai superar.

Ele afirmou, contudo, que esta nova fase de escândalos da empresa vai gerar um debate entre a Petrobras e a sociedade:

— Acredito que isso pode chegar até ao questionamento da Petrobras como operadora única do pré-sal — disse.

Em meio ao mar de lama, lições de humildade de um gênio

Roberto Kalil Filho*

Sei muito bem que não precisaria lembrar aqui das grandes contribuições do professor Adib Jatene à medicina – elas já estão impressas nos melhores livros de medicina do mundo. Mas faço absoluta questão em fazê-lo aqui e sempre.

O professor Adib foi o primeiro médico a realizar a cirurgia de ponte de safena no Brasil. Foi o primeiro a desenvolver o coração-pulmão artificial do mundo. Também foi o primeiro a utilizar a técnica para corrigir artérias de bebês, método que ficou conhecido como cirurgia de Jatene. O professor Adib foi o primeiro, o primeiro, o primeiro…

A qualidade desse grande cardiologista que, de fato, marcou minha carreira e minha vida, entretanto, não está relacionada a nenhum desses feitos extraordinários. Aprendi com ele a importância de ser humilde na minha profissão. Isso ele me ensinou desde o primeiro instante em que o vi.

Conheci o professor Adib Jatene em 1986. Jamais vou me esquecer desse momento. Eu havia recém-chegado à Faculdade de Medicina, era residente médico. Era uma manhã bem cedo. Eu subia de escada até a UTI pós-operatória do InCor (Instituto do Coração), no terceiro andar do hospital. Eis que, de repente, quase trombo com ele, que descia os degraus. Fiquei paralisado. Afinal, o professor Adib, então titular da cirurgia cardiovascular da instituição, era um mito para mim.

Ele logo quebrou o silêncio constrangedor com uma simples pergunta: “Você é quem?”. Com a voz trêmula, expliquei que começara a residência e que faria prova para cardiologia naquele ano. Foi então que ele falou uma frase que me marcou para sempre: “Lembre-se sempre de uma coisa, menino. É importante ser respeitado pelo trabalho e pelos colegas, mas o que mais vale a um médico é ter o respeito dos pacientes”.

AGRADECIMENTO

Em 1991, a segunda lição de humildade. Eu havia acabado de voltar do doutorado na Universidade Johns Hopkins (EUA) e, na época, era cardiologista-assistente do InCor. Eis que um dia recebo um telefonema da diretoria. O professor Adib queria a minha opinião sobre um paciente dele que estava sendo mantido com suporte mecânico.

Uma semana depois, ele me ligou para dizer que tudo dera certo com o paciente e me agradeceu. E eu pensei: “O grande médico e cientista ligando para agradecer a um simples assistente”.

Ao longo da minha carreira, conversei muito com ele. Trinta segundos com o professor correspondiam a anos e anos de pesquisa. Ele sempre me estimulou a continuar na vida acadêmica.

Em 2010, comecei a me preparar para o concurso de professor titular de cardiologia no InCor. Por um ano, falei com ele semanalmente sobre o assunto. Pois em 5 de agosto de 2011, no dia do concurso, ele estava lá, me assistindo na primeira fila. No dia seguinte, ele me deu a terceira lição de humildade.

“Hoje você tem um consultório de sucesso e uma carreira acadêmica consolidada. Mas para ser um médico completo, tem de ter um compromisso com as pessoas carentes. E agora chegou a vez de isso acontecer.” Pois digo aqui que minha missão maior no InCor é exatamente essa, a de expandir e melhorar o hospital para o bem da população.

FRASES CÉLEBRES

Hoje, os ensinamentos do professor Adib fazem parte do meu dia a dia como médico. Uso diariamente suas frases célebres.

Por exemplo, quando um paciente me pergunta, por medo de um determinado exame, se é seguro deixar para depois o procedimento, eu respondo como ele: “Se eu soubesse quando sua artéria irá fechar eu chamaria você um dia antes”.

Outra: um paciente ao me questionar se pode ou não voltar a trabalhar depois de uma cirurgia, eu digo outra célebre frase dele: “O que mata não é o trabalho, é a raiva”. Mas a minha meta maior é me espelhar em sua humildade. Professor Adib me acompanhará para sempre.

*ROBERTO KALIL FILHO, 55, professor titular de cardiologia
da Faculdade de Medicina da USP. (artigo enviado por Mário Assis)

Temor de Dilma é que o governo inteiro seja investigado

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O governo já espalhou um pelotão de técnicos pela Esplanada dos Ministérios para mapear o que podem ser as ramificações do processo de corrupção que surrupiou pelo menos R$ 10 bilhões da Petrobras. O Palácio do Planalto sabe que todas as empreiteiras investigadas pela Polícia Federal, por meio da Operação Lava-Jato, têm obras com outros órgãos públicos. E os indícios de superfaturamento são explícitos.

A determinação do governo é antecipar-se aos fatos e evitar que a PF exponha as novas vísceras da administração petista sem que a presidente Dilma Rousseff esteja preparada para se defender. Dois dos alvos principais da tropa de técnicos são os ministérios das Cidades, comandado pelo PP, afundado até o pescoço no lamaçal da Petrobras, e o da Integração Nacional, responsável pelas obras de transposição do São Francisco.

“Há um ninho de ratos no governo”, admite um dos técnicos. “As irregularidades estão entranhadas por toda a máquina pública. Se, na Petrobras, que tem uma enorme visibilidade da imprensa e é acompanhada com lupa pelos investidores, houve a roubalheira toda que estamos vendo, imagine em órgãos mais obscuros, com pouca transparência. Certamente, muito dinheiro do contribuinte escorreu pelo ralo por meio de contratos superfaturados”, acrescenta.

CLIMA DE INDIGNAÇÃO

A preocupação dos governistas é de que a oposição já esteja se movendo para levantar informações dentro da máquina com servidores mais alinhados ao PSDB. “Diante do que a Polícia Federal está revelando na Petrobras, baixou um clima de indignação enorme na Esplanada”, revela um servidor do Ministério do Planejamento. “Se forem a fundo nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e do Minha Casa, Minha Vida, não faltará material para tirar o sono da presidente”, emenda.

Não por acaso, aliados do governo torcem para que Dilma caia logo na real e anuncie rapidamente uma “excelente” equipe econômica. Será uma forma de criar um contraponto que ajude a mudar o humor dos investidores. A imagem da principal empresa com ações negociadas em bolsa está no limbo. A percepção de que o Brasil é uma antro de corrupção ganhou o mundo. O empresariado está em pânico com a possibilidade de o segundo mandato da petista ser mais do mesmo: inflação alta, crescimento pífio, rombo recorde nas contas externas e contas públicas em frangalhos.

DISPOSTA A OUVIR?

“A boa notícia é que Dilma parece mais disposta a ouvir”, afirma um senador da base aliada. “Conversei com ela recentemente, e percebi que ela está disposta a mudar, para melhor, a equipe econômica”, ressalta. Ele admite, porém, que o tempo está jogando contra. Ao adiar a notícia que investidores e empresários tanto querem ouvir — o nome do sucessor de Guido Mantega no Ministério da Fazenda — a presidente só alimenta a desconfiança e escancara as portas para o governo ser o foco de más notícias, a começar pela corrupção.

O regresso de quem, estando no mundo, volta ao sertão

O advogado, jornalista e poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960) vive “O Regresso de Quem, Estando no Mundo, Volta ao Sertão”. Considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX, teve sua carreira prematuramente encerrada em virtude de sua inesperada morte em 1960, quando ele ainda estava com 31 anos de idade.

O REGRESSO DE QUEM, ESTANDO NO MUNDO, VOLTA AO SERTÃO
Carlos Pena Filho

Eis-me agora, rio acima,
construindo o entardecer.

Desta planície azulverde,
cidade de rio e mar,
irei até onde a terra
deixou terras por achar,

nas claras ruínas do sol,
de chão cego aos vegetais
e que de amor tem apenas
as patas dos animais.

Entre canas, pelo rio
claríssimo, aí começo,
sob o sol duro do estio,
meu luminoso regresso.

Árvores gordas se espalham
nesta flora feminina;
chão de açúcar, terra doce
que se arredonda em colinas.

Outrora, aqui, os engenhos
recortavam a campina.
Veio o tempo e os engoliu
e ao tempo engoliu a usina.

Um ou outro ainda há que diga
que o tempo vence no fim:
um dia ele engole a usina
como engole a ti e a mim,

pois foi essa mesma fera
que engole moça e criança,
que fez o barão, gerente,
e a baronesa, lembrança.

E mais fará, noite adentro
na sombra onde a morte aguarda
e põe nos corpos dos homens
doença, faca, espingarda.

Mas, como tudo no mundo
com o tempo a gente se esquece
do tempo e nem vê que é nele
que a gente acorda e adormece…

Daqui eu já vejo o vale
do Capibaribe lento
e, enquanto vejo, descubro
que o verde, ao longe, é cinzento.

Pois, como tudo o que nasce,
a cor também se elabora,
como o minuto que se une
ao outro e organiza a hora,

como esta vasta planície
que foi semeada agora,
a chuva mistura a terra
e explode o verde da flora.

Depois as plantas expulsam
o excesso de cor violenta
e o céu recolhe do espaço
o azul de que se alimenta.

Este céu que cobre o mundo
de arruados sem mistério;
cada qual igreja e sino,
cadeia, alvo cemitério.

Do alto de um morro qualquer,
ou da Serra dos Cavalos,
vejo as cercas de avelozes
que são verdes intervalos

dividindo terras secas
onde só cresce o abandono,
mostrando a qualquer passante
que o nada também tem dono.

O agreste é, às vezes, surpresa:
num pé de serra qualquer,
enxada, casa, fumaça,
menina, homem, mulher.

Um boi que procura a sombra,
água limpa na levada,
menino alegre por ter
sua dor organizada.

E em volta, nas terras secas,
onde só cresce o abandono,
os avelozes indicam
que o nada tem dono.

Bem depois desse lugar
por Arcoverde chamado,
caminho no duro chão
do sertão desidratado.

É fama quando havia
solidãonestas paragens,
um mascote interrompia
aqui, as suas viagens.

Seu cavalo adormecia
sem ter sombra de ramagem
e o mascote, quando a noite
descoloria a paisagem,

ia a uma venda que havia
neste ponto de passagem.
– Minha comadre Maria
dê-me aguardente e coragem

que o tempo é ave bravia
nesta campina selvagem
e o mal, cadela vadia,
passeia solto, na aragem.

Minha comadre Maria,
dê-me agurdente e coragem,
para esperar pelo dia
nesta campina selvagem.

Mas, quem regressa, bem sabe
que o demônio aqui não mora,
que ele não tem pés de cabra
e nunca viu uma espora.

Dele é apenas este sol
que brilha e tudo devora
ou a alma de algum passante
que chegou, vindo de fora.

Como eu, que vivi tão longe,
sempre o renegado, embora,
mas que dormi alta noite
e não vi nascer a aurora.

Que passei anos a fio
sem ver bois, sem ver cavalos,
sem ver nem mesmo avelozes,
esses verdes intervalos

que lá no agreste dividem
a terra despedaçada
mas que um dia hão de crescer
enchendo de verde o nada.

Eis-me agora, sem um rio,
neste duro entardecer.
Nesta planície amarela,

terra sem rio nem mar,
de onde saí mas deixei
e, por isso vim buscar

as claras ruínas do sol
onde não me hei de perder,
embora não tenha um rio
neste duro entardecer.

  (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Bloqueados R$ 3,2 milhões em conta de ex-diretor da estatal

Duque Renato está com os bens bloqueados

Deu na Agência Brasil

Um relatório do Banco Central enviado ao juiz federal Sérgio Moro, responsável pela investigação da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, identificou R$ 3,2 milhões na conta corrente do ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque, um dos presos na operação.

De acordo com depoimentos de investigados que fizeram acordo de delação premiada, Duque recebia propina enquanto estava no cargo. A defesa do ex-diretor nega as acusações e afirma que não há motivos para que Duque continue preso.

As informações foram prestadas por solicitação do juiz, que determinou a quebra do sigilo bancário de 15 investigados na última terça-feira (18/11). O valor total bloqueado é R$ 47 milhões. Após rastreamento das contas, a medida foi cumprida parcialmente pela falta de saldo. Todos os valores encontrados foram transferidos para uma conta da Justiça Federal na Caixa Econômica Federal.

FERNANDO BAIANO

O relatório mostra que também foram bloqueados R$ 8,5 mil na conta do empresário Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, em uma conta no Citibank, e R$ 304 em outra conta, no Santander. Soares é citado em depoimentos de delação premiada como arrecadador de propina do PMDB. O partido afirma que o empresário não tem ligações com a legenda.

As contas de Valdir Lima Carreiro, presidente da empresa Iesa, e de Erton Medeiros Fonseca, diretor-presidente da Divisão de Engenharia Industrial da Galvão Engenharia, estão zeradas.

As informações também apontam os valores encontrados nas contas dos executivos de empreiteiras presos na operação:

Agenor Franklin Magalhães Medeiros, diretor-presidente da Área Internacional da OAS – R$ 46.885,10;

Ricardo Ribeiro Pessoa, responsável pela UTC Participações: R$ 10.138.792,61;

José Aldemário Pinheiro Filho, presidente da OAS: R$ 52.357,15;

Dalton dos Santos Avancini, diretor-presidente da Camargo Corrêa: R$ 852.375,70;

José Ricardo Nogueira Breghirolli, funcionário da Construtora OAS: R$ 691.177,12;

Sergio Cunha Mendes, diretor da Mendes Júnior: R$ 700.407,06;

Gerson de Mello Almada, presidente da Engevix: R$ 22.615.150,27;

João Ricardo Auler, presidente do Conselho de Administração da Camargo Corrêa: R$ 101.604,140;

Othon Zanóide de Moraes Filho, diretor da Queiroz Galvão: R$ 166.592,14.

Idelfonso Colares Filho, Queiroz Galvão: R$ 7.511,80

Walmir Pinheiro Santana, da UTC Participações: R$ 9.302,59

Firma de Baiano tem R$ 71 milhões em contratos com Petrobras

Mario Cesar Carvalho e Alexandre Aragão
Folha

Uma empresa que tem como sócio o lobista Fernando Soares tem contratos de R$ 71,2 milhões com a Petrobras, segundo documentos obtidos pela Folha. Conhecido como Fernando Baiano, ele é apontado como o elo entre os desvios da estatal investigados pela Operação Lava Jato, que apura fraudes em licitações e propina a políticos, e o PMDB.

Baiano teve a sua prisão decretada pelo juiz Sergio Moro sob suspeita de intermediar o pagamento de propina para peemedebistas. O PMDB refuta ter qualquer relação com o lobista.

Um dos delatores da Operação Lava Jato, o empresário Julio Camargo, do grupo Toyo Setal, relatou a procuradores que Baiano recebeu propina de US$ 8 milhões para que a sua empresa conseguisse fechar um contrato de sondas com a Petrobras.

SÓCIO DE EMPRESA

A empresa da qual Baiano é sócio, a Petroenge Petróleo e Engenharia, presta serviços de manutenção e de apoio para as plataformas marítimas de extração de petróleo da estatal, segundo consta dos contratos assinados.

A Petroenge fica em Macaé, no Rio de Janeiro, onde estão localizadas as empresas que atuam na bacia de Campos.

A empresa tem três filiais no Espírito Santo e uma na Bahia, todas em cidades em que a Petrobras tem unidades: Vitória (ES), Anchieta (ES), Linhares (ES) e São Sebastião do Passe (BA).

Desde 2007, quando a Petroenge fechou o primeiro negócio com a estatal, a Petrobras assinou 86 contratos com a empresa, num total de R$ 131,6 milhões, segundo dados da própria estatal, disponibilizados em seu site.

MUITOS NEGÓCIOS

Baiano virou sócio da Petroenge por meio de outra empresa de que ele também é sócio, a Hawk Eyes Administração de Bens.

A Hawk Eyes detém 18% do capital da Petroenge, segundo a ficha registrada na Junta Comercial do Rio. Ou seja: Baiano investiu R$ 748,8 mil numa empresa que tem capital de R$ 4,16 milhões, ainda de acordo com a ficha cadastral da empresa.

O sócio majoritário da Petroenge, Guilherme Mendes Spitzman Jordan, foi secretário da Prefeitura de Macaé quando o prefeito da cidade era do PMDB.

Segundo o empresário, Baiano apenas investiu no negócio e não tem qualquer ingerência nos contratos (leia texto ao lado).

Na terça-feira (18), o juiz federal Sergio Moro determinou que o sigilo da empresa seja quebrado.

A Hawk Eeyes, por sua vez, é controlada por uma empresa que tem sede em Londres, no Reino Unido, a Falcon Equity Limited.

Baiano é sócio de outra empresa que deve ter o sigilo bancário quebrado por determinação da Justiça Federal do Paraná: Technis Planejamento e Gestão. Até o ano passado ele tinha participação na Academia da Praia, um tradicional centro de ginástica na Barra da Tijuca, na zona sul do Rio.

Bispos católicos consideram corrupção como “um mal sem fim”

Deu no Correio Braziliense

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota com comentários sobre o atual momento político vivido pelo país. Em um texto de sete parágrafos, a entidade considera que “a corrupção na Petrobras reforça a sensação de que é um mal que não tem fim”.

A CNBB também enfatizou que a campanha eleitoral, que culminou com a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), mostrou a submissão dos políticos aos “poder econômico financiador das campanhas”.

Confira a íntegra da nota da CNBB:

Brasil pós-eleições: compromissos e desafios

“O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília nos dias 18 e 19 de novembro de 2014, saúda a nação brasileira pela democracia e cidadania vivenciadas nas eleições de outubro deste ano. Cumprimenta a todos que participaram do processo eleitoral e os eleitos. Recorda-lhes a responsabilidade colocada sobre seus ombros de não frustrar as expectativas de quem os elegeu e seu compromisso com a ética, a verdade e a transparência no exercício de seu mandato, bem como o dever de servir a todo o povo brasileiro.

A campanha eleitoral deste ano ratificou o processo democrático brasileiro no qual partidos, candidatos e eleitores puderam debater suas ideias e projetos. Tornou mais visíveis, no entanto, graves fragilidades de nosso sistema político: sua submissão ao poder econômico financiador das campanhas; o descompromisso de partidos e candidatos com programas, favorecendo debates com ataques pessoais; a prevalência da imagem dos candidatos produzida pelos marqueteiros; o desrespeito, em alguns casos, às leis que combatem a corrupção eleitoral.

Passadas as eleições, urge ao País recompor sua unidade no respeito às diferenças e à pluralidade, próprias da democracia. Nada justifica a disseminação de uma divisão ou de ódio que depõe contra a busca do bem comum, finalidade principal da Política. O bem de todos coloca a pessoa humana e sua dignidade acima de ideologias e partidos.

A construção do bem comum desafia, especialmente, os eleitos em outubro deste ano. A corrupção na Petrobras reforça a sensação de que é um mal que não tem fim. Vemos aqui, claramente, as consequências do financiamento de campanhas por empresas, porta e janela de entrada da corrupção. Nenhum país prospera com corrupção que, no caso do Brasil, lamentavelmente já vem de muitos anos e não se limita à Petrobras.

A reforma política é outra urgência inadiável. Convicta disso, a CNBB se empenhará ainda mais na coleta de assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular proposto pela Coalizão pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas. À reforma política, entretanto, é necessário unir outras reformas igualmente urgentes como a tributária e a agrária. O Brasil não pode mais conviver com tanta omissão em relação a estas e outras matérias que lhe são vitais.

“A política, tão desacreditada, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (Papa Francisco. Evangelii Gaudium, n.205). Nesse espírito, a CNBB reafirma que a sua participação na vida Política é tão importante quanto necessária para ajudar na construção de uma sociedade justa e fraterna. Afinal, “ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (Papa Francisco. Evangelii Gaudium, n.183).

Nossa Senhora Aparecida abençoe o Brasil e os que foram eleitos a fim de que sejam fieis ao seu compromisso com o bem comum.”