Briga interna: Interferência de Pimentel na eleição do PT mineiro desagrada Patrus e Dulci

Isabella Lacerda

A ausência de nomes da ala Articulação, liderada pelos ex-ministros Luiz Dulci e Patrus Ananias, no evento de posse do novo presidente do PT de Minas, Odair Cunha, no último sábado, gerou insatisfação e críticas entre os integrantes do partido. Agora, a tão prometida união interna para a disputa pelo governo de Minas no ano que vem parece ainda estar longe de acontecer.

Nesse domingo, os petistas trocaram farpas nos bastidores e apontaram para uma possível dificuldade de se obter consenso interno. De acordo com uma liderança do PT, que preferiu o anonimato, as desavenças internas tomaram forma durante a disputa pela presidência estadual do PT, quando dois nomes lançados por lideranças de peso do partido bateram de frente: de um lado, o deputado federal Odair Cunha, e, do outro, a secretária de Finanças da legenda, Gleide Andrade.

“Tinha um combinado de que na eleição do presidente do partido não haveria interferência direta do ministro Fernando Pimentel, mas isso não aconteceu, o que acirrou os ânimos”, argumentou.

Pimentel é dado como nome certo para a disputa estadual em 2014, mas as desavenças internas podem tirar dele o apoio unânime. “Todas as alas têm dito que ele deve ser o candidato. Ele tem esse apoio, mas o clima interno na disputa pela direção pode complicar isso”, completou o petista.

O vereador de Belo Horizonte Arnaldo Godoy (PT) declarou  ter ficado “desapontado” com a ausência de nomes importantes na posse de Odair Cunha. “Achei lamentável e afirmei isso durante o evento. Eu estava lá, era um momento de união nossa, e isso não se mostrou. Acho que isso é sim consequência da disputa interna pela presidência do PT, mas não queremos que isso tenha reflexo em 2014”, argumentou Godoy.

O também vereador Pedro Patrus assegurou, porém, que as ausências “não foram orquestradas”. “Ainda terá um outro evento de posse, um evento maior. Ontem não foi assim tão importante, foi mais protocolar”, ressaltou. “Na hora da eleição, o partido estará unido. É assim que acontece”, garantiu. (transcrito de O Tempo)

E Lula nunca desmentiu o empresário Mário Garnero…

Carlos Newton

Os leitores mais antigos do Blog da Tribuna da Internet já conhecem bem esse episódio, sempre relembrado aqui pelo comentarista Antonio Santos Aquino. E agora outro comentarista, Péricles, nos manda a integra da citação feita a Lula pelo empresário Mário Garnero, em seu livro “Jogo Duro”. Na época, Garnero era presidente da toda-poderosa Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), interlocutora de Lula nos embates sindicais:

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TRECHO DE “JOGO DURO”

Eu me vi obrigado, no final do ano passado, a enviar um bilhetinho pessoal a um velho conhecido, dos tempos das jornadas sindicais do ABC…

…Sentei e escrevi: Lula…. achei que tinha suficiente intimidade para chamá-lo assim, embora, no envelope, dirigido ao Congresso Nacional, em Brasília, eu tenha endereçado, solenemente: A Sua Excelência, Luiz Ignácio Lula da Silva, Espero que o portador o tenha reconhecido por trás daquelas barbas.

No bilhete, tentei recordar ao constituinte mais votado de São Paulo duas ou três coisas do passado, que dizem respeito ao mais ativo líder metalúrgico de São Bernardo: ele próprio, o Lula. Não sei como o nobre parlamentar, investido de novas preocupações, anda de memória. Não custa, portanto, lembrar-lhe. É uma preocupação justificável, pois o grande líder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo lições de sindicalismo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973, como vim a saber lá, um dia. Na universidade americana, até hoje, todos se lembram de um certo Lula com enorme carinho”.

“Além dos fatos que passarei a narrar, sinto-me no direito de externar minha estranheza quanto à facilidade com que se procedeu a ascensão irresistível de Lula, nos anos 70, época em que outros adversários do governo, às vezes muito mais inofensivos, foram tratados com impiedade. Lula, não: foi em frente, progrediu. Longe de mim querer acusá-lo de ser o cabo Anselmo do ABC, mesmo porque, ao contrário do que ocorre com o próprio Lula, eu só acuso com as devidas provas. Só me reservo o direito de achar estranho.

Lembro-me do primeiro Lula, lá por 1976, sendo apresentado por seu patrão, Paulo Villares, ao Werner Jessen, da Mercedes-Benz, e, de repente, eis que aparece o tal Lula á frente da primeira greve que houve na indústria automobilística durante o regime militar, ele que até então era apenas o amigo do Paulo Villares, seu patrão. Recordo-me de a imprensa cobrir o Lula de elogio, estimulando-o, no momento em que a distensão apenas começava, e de um episódio que é capaz de deixar qualquer um, mesmo os desatentos, com o pé atrás.

Foi em 1978, início do mês de maio. Os metalúrgicos tinham cruzado os braços, a indústria automobilística estava parada e nós, em Brasília, em nome da Anfavea, conversando com o governo sobre o que fazer. Era manhã de domingo e estive com o ministro Mário Henrique Simonsen. Ele estivera com o presidente Geisel, que recomendou moderação: tentar negociar com os grevistas, sem alarido. Imagine: era um passo que nenhum governo militar jamais dera, o da negociação com operários em greve.

Geisel devia ter alguma coisa a mais na cabeça. Ele e, tenho certeza, o ministro Golbery.
Simonsen apenas comentou, de passagem, que Geisel tinha recomendado que Lula não falasse naquela noite na televisão, como estava programado. Ele era o convidado do programa Vox Populi, que ia ao ar na Tv Cultura ” o canal semi-oficial do Governo de São Paulo. Seria uma situação melindrosa. “Nem ele, nem ninguém mais que fale em greve”, ordenou Geisel.

Saí de Brasília naquela manhã mesmo, reconfortado pela notícia de que ao governo interessava negociar. Desci no Rio com as malas e me preparei para embarcar naquela noite para uma longa viagem de negócios que começava nos Estados Unidos e terminava no Japão. Saí de Brasília também com a informação de que Lula não ia ar naquela noite.

Mas foi, e, no auge da conflagração grevista, disse o que queria dizer, numa televisão sustentada pelo governo estadual. Fiquei sabendo da surpreendente reviravolta da história num telefonema que dei dos Estados Unidos, no seguinte. Senti, ali, o dedo do general Golbery. Mais tarde, tive condições de reconstituir melhor o episódio e apurei que Lula só foi ao ar naquele domingo porque no vai-não-vai que precedeu o programa, até uma hora e meia antes do horário, prevaleceu a opinião do Golbery, que achava importante, por alguma razão, que Lula aparecesse no vídeo. O general Dilermando Monteiro, comandante do II Exército, aceitou a argumentação, e o governador Paulo Egydio Martins, instrumentado pelo Planalto, deu o nihil obstat final ao Vox Populi.

Lula foi a peça sindical na estratégia de distensão tramada pelo Golbery, O que não sei dizer é se Lula sabia ou não sabia que estava desempenhando esse papel. Só isso pode explicar que, naquele mesmo ano, o governo Geisel tenha cassado o deputado Alencar Furtado, que falou uma ou outra besteira, e uns políticos inofensivos de Santos, e tenha poupado o Lula, que levantava a massa em São Bernardo. É provável que, no ABC, o governo quisesse experimentar, de fato, a distensão. Lula fez a sua parte.

Mais tarde, ele chegou a ser preso, julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentou ameaça de helicópteros do Exército voando rasantes sobre o Estádio de Vila Euclides, mas tenho um outro testemunho pessoal que demonstra tratamento respeitoso, eu diria quase especial, conferido pelo governo Geisel ao Lula, e por governo Geisel eu entendo, particularmente, o general Golbery.

O mal do adiamento


Heron Guimarães

De todos os males que assombram as gestões públicas no Brasil, a procrastinação é, depois da corrupção, a que mais prejudica o cidadão e, por consequência, os próprios governos que não fazem nada para evitá-la ou, pelo menos, reduzi-la. Deixar para depois acaba com qualquer planejamento, desmotiva a melhor das equipes, torna uma administração tão ineficiente que chega a comprometer um trabalho inteiro e pode derrubar políticos que conseguiram fazer uma campanha eleitoral exemplar e manter um discurso coerente e bem-intencionado.

O mal de adiar atinge todos os que dependem do serviço público, como em uma epidemia. Como é uma praga que se hospeda em pessoas, ela também afeta setores privados, mas, pela facilidade de trocar as peças e de acompanhar resultados sem ter a necessidade de satisfazer compromissos políticos, às vezes, ela é contida.

No serviço público, é diferente. A procrastinação é tolerada e, em muitos casos, estimulada. Afinal, para muitos governantes ou líderes públicos, é melhor deixar o tempo resolver. Porém, o tempo, “senhor da vida”, pode trabalhar contra.

ZUMBIS DE CORREDORES

Assim, sem tomar decisões, vão-se embora rios de dinheiro, trabalhos inteiros e ideias são jogadas ao vento. As vítimas desse adiamento contumaz se transformam em zumbis de corredores, lotando, sem eficiência alguma, prefeituras, câmaras, ministérios, tribunais e tudo o que se pode chamar de repartição pública. Ver esses fantasmas nos cafezinhos, esparramados de frente para suas mesas de MDF, usando seus estiletes afiados para apontar lápis ou simplesmente passando o tempo com fofocas em redes sociais ou jogando paciência é angustiante.

A incompetência, apesar de ser a principal responsável por deixar tudo para depois, não é a única a contribuir com essa patologia. Também tem a acomodação, a tal zona de conforto que vem de apadrinhamentos, a ausência de bons gestores e, por fim, a força do hábito. Essa última casualidade é, pela dificuldade de ser erradicada, a mais nociva, pois é altamente contagiosa. Propaga-se no vácuo e transforma mentes ansiosas por resultados em uma espécie de consciência paquidérmica generalizada.

O irritante sossego da procrastinação parece uma doença incurável. Pessoas esforçadas e competentes, em outros ambientes de trabalho, anulam-se no setor público, contribuindo com o estado de letargia total que assola o Brasil dos tempos de internet de alta velocidade. Elas, até sem saber, contribuem com um Estado inativo, ineficiente e prejudicial ao desenvolvimento humano e econômico.

A solução para essa chaga se resume em uma só palavra: meritocracia. Mas fazer valer o mérito é algo ainda inalcançável pelos padrões brasileiros de administração pública. (transcrito de O Tempo)

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados.

O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

CLUBE DE PARIS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruíz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas. É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

DIREITA E ESQUERDA

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a direita faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

Palpites furados para a Copa

01
Tostão
(O Tempo)

Já conhecemos a bola da Copa e a formação dos grupos. A Brazuca é linda. Espero que os jogadores a tratem com carinho e que joguem um bolão. A Copa não é lugar para bolas murchas. Os craques deveriam se divertir com a bola, ocupar o espaço imaginário entre a brincadeira, os efeitos especiais, e a seriedade, o compromisso com a vitória.

O sorteio foi ótimo para o Brasil na primeira fase. Croácia, México e Camarões estão no terceiro nível da competição em qualidade técnica. O México, por ter vencido o Brasil algumas vezes, deve ser o mais difícil adversário.

Mas, nas oitavas de final, o Brasil deve enfrentar Espanha, Holanda ou Chile. Logo após o sorteio, o tradicional Parreira disse que, se o Brasil se classificar, vai ter um grande rival pela frente, Espanha ou Holanda. Esqueceu do Chile. Muitos vão fazer o mesmo. No bolão, apostei em Espanha e Chile. Porém, os holandeses seriam adversários mais difíceis que os chilenos. Diferentemente do México, que costuma jogar mal e ganhar do Brasil, o Chile sempre joga bem e perde.

Muitos conceitos e palpites serão desmentidos quando a bola rolar. Não podemos escolher os melhores só pela tradição. Existe um grande número de seleções, que formam um segundo grupo, com pouca diferença técnica entre elas, como Itália, Holanda, França, Portugal, Inglaterra, Bélgica, Suíça, Colômbia, Chile, Uruguai e outras. Qualquer resultado entre essas seleções não é surpresa. Seria zebra se uma dessas equipes eliminasse, nos jogos mata-mata, um dos quatro favoritos (Brasil, Espanha, Alemanha e Argentina)? Penso que não, porém não é o mais provável.

Se existe, em todo o mundo, zebras em todos os torneios curtos, com jogos mata-mata, por que um azarão nunca ganhou uma Copa? Uma das explicações é que os grandes jogam o Mundial com muita seriedade. Outra é que um azarão tem de ganhar de mais de um grande em jogos eliminatórios. Já a preferida da turma da teoria da conspiração é que forças ocultas nunca deixam os pequenos vencerem o tradicional torneio.

A partir de agora, haverá milhões de bolões para a Copa. Já fiz minha simulação, e deu Brasil e Argentina na final. Já dei também meu palpite dos 16 classificados. No grupo do Brasil, aposto também no México como segundo colocado.

As chances de um “entendido”, como Nelson Rodrigues chamava os comentaristas, acertar mais da metade dos resultados na Copa é a mesma de quem não conhece nada de futebol. Essa incerteza é uma evidência da importância do acaso, ainda mais em jogos com pouca diferença técnica. É também uma constatação de que a história de uma partida, de um campeonato, está muito acima da nossa pretensiosa sabedoria sobre o mundo da bola.

COPA EM BH

Na primeira fase, teremos quatro jogos em Belo Horizonte: Colômbia x Grécia, Argentina x Irã, Costa Rica x Inglaterra e Bélgica x Argélia. De todos, o melhor é Argentina x Irã, pela presença dos argentinos, um dos favoritos ao título, além de eles ficarem concentrados em Belo Horizonte, na Cidade do Galo. Inglaterra, Colômbia e Bélgica são outras atrações.

O melhor será nas oitavas de final, pois é quase certo que o Brasil será o primeiro de seu grupo e que vai enfrentar Espanha, Holanda ou Chile no Mineirão. Será uma partida dificílima, ainda mais se for Holanda, que eliminou o Brasil na última Copa, ou a Espanha, atual campeã do mundo. O Chile, apesar de ter um bom time, é um antigo freguês.

O amor pela Pátria, segundo Vinicius de Moraes

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta , Vinícius de Moraes (1913-1980), escreveu belíssimos poemas para as mulheres que tanto amou, mas o seu poema de amor mais importante foi “Pátria Minha” dedicado a todos nós, brasileiros.

PÁTRIA MINHA

Vinícius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…”

        (Colaboração enviada por Paulo Peres –  site Poemas & Canções)

O percurso existencial no sistema atual

João Batista Libânio

Como as pessoas se sentem existencialmente no atual sistema e momento cultural? Por aí conseguimos captar-lhe traços importantes que escapam das análises dos economistas e frequentemente dos sociólogos. Nem se trata diretamente de sentimentos psicológicos. Está em jogo algo mais profundo: o próprio existir humano sobre o qual a filosofia e a teologia costumam refletir.

Corta a sociedade atual a linha divisória do bem-estar material. De um lado, minoria agraciada com as ofertas consumistas em contínuo crescimento qualitativo e quantitativo. Reina, na linguagem do papa Francisco, em seu último documento “A Alegria do Evangelho”, o senhorio do dinheiro. Vive-se sob o império do capital financeiro que reina soberano, a oferecer lícita e corruptamente jogos mirabolantes com o capital. Faz tempo que a ética entrou em recesso no mundo do dinheiro.

O percurso existencial vai na linha progressiva da substituição do ser pelo ter, recordando reflexões do filósofo existencialista francês Gabriel Marcel – “Être et Avoir” – e de Paulo VI na “Populorum progressio”. Os dois corifeus da defesa do ser sobre o ter não puderam conhecer o novo deslocamento pós-moderno que faz sobressair sobre o ter o aparecer.

EXIBICIONISMO

Depois do primeiro passo do abundante ter vem a exibição do mostrar, do culto à exterioridade e à aparência. Aí o grupo privilegiado distingue muito bem os sinais reais e os requintes sofisticados do mundo da alta riqueza: grifes, hotéis, clubes, cruzeiros e outras demonstrações de status.

Aqueles que não passeiam por esse mundo facilmente são identificados pelo kitsch ou pela falsa moeda da exterioridade. Segue-se a tal sofreguidão da felicidade rápida, fútil e superficial. Não raro tudo desaba e a falida paz interior conduz à busca substitutiva da droga. De vez em quando, o noticiário nos surpreende com mortes por overdose. Triste fim de um itinerário que nunca tocou a intimidade maior da pessoa. A sabedoria dos antigos já nos deixara a lição: “Vaidade das vaidades – diz o Eclesiastes –, neblina fugaz, tudo é vaidade” (Ecl 1, 2)!

No lado oposto, não é menos trágica a caminhada. W. Benjamim traçou uma sucessão de passos vividos pelos excluídos do sistema. Desespero, raiva, cólera e indignação. Madri surpreendeu-nos na presente crise econômica com “los indignados”. No mês de junho deste ano, multidões ocuparam as ruas do Brasil explodindo de cólera contra um regime eivado de corrupção, de segregação.

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos vê o sistema fechado pelos interesses dominantes de tal modo que só sobrou a rua como espaço de liberdade e de protestos. Na noite dos dois extremos, a fé cristã oferece outra estrada a trilhar: a esperança. Esperar é crer no amor. Mas em que amor? Precisamente do outro que conosco convive no momento em que ele descobre habitar em si a Transcendência. Ela mantém-nos inquietos, diria santo Agostinho, até que a encontremos no concreto da existência. E isso significa a experiência mais simples do mundo: cada saída de si em direção a um outro necessitado de nossa presença faz-nos mais felizes que todas as exterioridades das classes superiores e salpica de luz a noite dos que estão à beira do desespero. (transcrito de O Tempo)

Funeral de Mandela tem 53 chefes de Estado e de governo confirmados

Deu na France Presse

Joanesburgo – Ao menos 53 chefes de Estado e de governo confirmaram que comparecerão às cerimônias fúnebres de Nelson Mandela, anunciou neste domingo a chanceler sul-africana, Maite Nkoana-Mashabane.
Entre os líderes presentes estarão o presidente americano, Barack Obama, acompanhado por três ex-presidentes norte-americanos, a presidente Dilma Rousseff, o presidente francês, François Hollande, além do líder da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas.

O funeral de Nelson Mandela, que faleceu na noite de quinta-feira, gerou um “interesse sem precedentes” e líderes de todo o mundo querem comparecer à cerimônia, afirmou a chanceler em uma coletiva de imprensa.

Muitos líderes mundiais estarão presentes em uma cerimônia no estádio Soccer City, onde o ex-presidente sul-africano apareceu pela última vez em público, durante a Copa do Mundo de futebol de 2010. Um grupo menor viajará a Qunu, a aldeia natal do Prêmio Nobel da Paz, onde Mandela será sepultado no próximo domingo.

Sabedoria todo dia

Antonio Rocha

Mais adiante, a duras penas, os povos irão compreender que não precisamos de Política, de Políticos (com letras maiúsculas ou minúsculas), precisamos de sábios, de sabedoria (com letras maiúsculas e minúsculas).

Certa feita, perguntaram ao pensador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986) quem seria melhor para dirigir os destinos do mundo: o político ou o religioso? E Jiddu respondeu: “Espero que nem um, nem outro”.

Em língua portuguesa temos diversos livros de Krishnamurti publicados e hoje, recomendo “Liberte-se do Passado”, tem edições várias.

É isso mesmo, para sermos felizes, precisamos nos libertar do passado e, no caso, a Política regeu e rege uma forma arcaica de ser no mundo.

Observe que em nome da Política guerras são feitas, famílias destruídas, países devastados e muita dor, bastante sofrimento para os idosos, crianças, civis inocentes … então essa tal de Política não faz bem à saúde: gera ódios, vinganças e afins.

ESTÁ NA HORA

Portanto, está na hora de começarmos a construir a Sabedoria diária, sabedoria 24 horas, desde comprarmos o pão na esquina pela manhã, até altas decisões palacianas. É preciso ser/ter Sabedoria.

As tais negociações/conciliações devem ser/ter Sabedoria, tendo em vista o bem comum.

Em vez de parlamentares, parlamentos, teremos conselhos de sábios, reuniões simples com senhores e senhoras dignos, decentes, gente simples desenvolvendo sabedoria em todas as áreas. Sem precisar ganhar rios de dinheiro e o excedente vai para os hospitais públicos, para a educação pública, para os transportes públicos.

Por enquanto, a sugestão fica no campo da utopia, mas observe que, em todo o mundo, cada vez mais, os políticos e a política são questionados. Podem perguntar, e o que vamos colocar no lugar? Ora… Sabedoria… sábios…

Penso que o presidente Mujica, do Uruguai, é um bom exemplo de sábio contemporâneo.

 

Conhece algum ‘Troll’, tipo de internauta que se dedica a perturbar debates na web?

Franklin Oliveira

Na gíria da internet, Troll caracteriza uma pessoa cuja intenção é provocar emocionalmente os membros de uma comunidade através de mensagens controversas ou irrelevantes. Com isso, ele consegue interromper uma discussão sadia e causa conflitos entre os participantes, fazendo com que o objetivo principal do tópico saia de foco.

O Troll atua em lugares onde existe uma grande concentração de pessoas envolvidas em algum debate potencialmente polêmico. Eles agem em comunidades do Orkut, listas de discussão, fóruns, blogs, chats, e até em jogos online.

Geralmente, eles procuram lugares onde os riscos de ver sua identidade associada aos seus atos é minimizado. No Orkut, por exemplo, eles atuam com perfis falsos (fakes) e percorrem a rede semeando a discórdia dentro das comunidades.

Existem Trolls de todos os tipos, desde os mais estúpidos que não economizam nos palavrões, até os mais aptos intelectualmente. Eles se divertem com a reação indignada de outras pessoas e sentem prazer em saber que causaram polêmica. Em alguns casos, as pessoas envolvidas perdem a paciência e chegam a se envolver em agressões pessoais.

MUITO CRIATIVOS

Os Trolls costumam ser bastante criativos e levam as pessoas à loucura quando “mordem a isca”. Alguns procuram brechas nas regras da comunidade e utilizam isso para fazer seu ponto de vista ser aceito. Veja mais exemplos de sua atuação abaixo:

Alguns só querem ver o circo pegar fogo – O Troll inicia um tema polêmico esperando que grupos com opiniões opostas discutam sobre o assunto. Ele apenas põe lenha na fogueira e assiste o resultado sem participar efetivamente da discussão.

Baixando o nível – Mesmo sendo intelectualmente inferior ao restante dos membros, o Troll consegue fazer com que a pessoa apele para a baixaria com xingamentos e ameaças. Dessa forma, sua vítima se autodenigre diante do resto da comunidade e perde a razão.

O Troll intelectual – O mais comum. Ele se utiliza de um vocabulário rebuscado para se autoafirmar diante da comunidade e ganhar status. Além disso, ele costuma corrigir e questionar a formação acadêmica dos colegas para ridicularizá-los.

Insistência – O famoso chato. Ele costuma repetir um conjunto de argumentos logicamente inconsistentes ou falhos até que a pessoa canse e pare de argumentar, ganhando a discussão por abandono.

Sobre o que estávamos falando? – Uma das coisas mais comuns é a troca de assunto. O Troll muda o foco da discussão diversas vezes até que mais ninguém consiga acompanhar o ritmo.

FALTA DO QUE FAZER

Existem diversos fatores que motivam uma pessoa a agir dessa forma. Pode ser por ideologia, fanatismo, autoafirmação, falta do que fazer ou por pura sacanagem. A maioria dessas pessoas possui algum distúrbio psicológico que pode ter sido causado por um trauma, fracasso ou impotência. Portanto, tome cuidado, eles podem se tornar bastante agressivos.

Apesar de existir alguns métodos eficientes para combater essa prática, o melhor jeito é ignorar. Eles não querem ser convencidos e não estão nem aí para a discussão em questão. Portanto, resista à tentação de tentar debater com eles, por mais que os argumentos, exemplos e comparações pareçam errados e provocativos.

TEMAS POLÊMICOS

Além disso, procure evitar assuntos reconhecidamente polêmicos como política, religião, futebol, música, etc. (exceto quando esse é realmente o tema em questão). Caso você identifique algum ato suspeito, procure informar ao moderador da comunidade sobre o ocorrido. Isso é muito mais eficaz do que alimentar as provocações e, ainda, nega ao Troll o que ele mais procurava: a polêmica.

Nem toda discórdia pode ser caracterizada como um ato Troll. Analise o contexto de cada situação e avalie o perfil do interlocutor. Caso você tenha dúvidas se uma pessoa está agindo com um Troll, pense que ela não é, tente ser educado e responda sem ironia. Indique a ela referências sobre o assunto e alerte sobre as regras da comunidade.

Algumas pessoas só estão perdidas e não possuem conhecimento suficiente para entender uma explicação, por mais simples que ela pareça. Tente referenciar este artigo para aqueles que insistirem demasiadamente, muitos podem não saber que estão agindo como Trolls.

E aí, você se considera um Troll?

O triângulo amoroso de Nelson Sargento

O artista plástico, escritor, cantor e compositor carioca Nelson Mattos foi sargento do Exército, daí o apelido que virou nome artístico. Uma de suas músicas revela um sublime “Triângulo Amoroso”, formado por ele próprio, por sua companheira e pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Este samba faz parte do LP Sonho de um Sambista, gravado por Beth Carvalho, em 1979, pela Estúdio Eldorado.

TRIÂNGULO AMOROSO

Nelson Sargento

Elas são o meu tudo na vida
Pra mim elas são iguais
Se por acaso eu perde-lás
Não sei do que serei capaz

É um triângulo amoroso
Funcionando com perfeição
{Uma me domina, a outra me fascima
Mas as duas tem meu coração}

Elas são o meu tudo na vida
Pra mim elas são iguais
Se por acaso eu perde-lás
Não sei do que serei capaz

É um triângulo amoroso
Funcionando com perfeição
{Uma me domina, a outra me fascima
Mas as duas tem meu coração}

Uma está no lar
É minha doce companheira
As vezes eu fico com a outra, a noite inteira
{Assim vivemos bem, pois ela sabe afinal
Que sua rival é a Mangueira}

           (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Como ler me faz bem: mostra o Brasil, esse desconhecido

Sandra Starling

Intoxicada pela atmosfera de sucessivos escândalos e pela perigosa olimpíada travada entre petistas e tucanos – cada qual apontando no outro falcatruas jamais reveladas –, resolvo dar meia volta e apostar em algo que sempre gostei de fazer. Voltei aos bancos escolares.

O ano já ia quase a pique, de modo que o jeito foi buscar um minicurso, desses de extensão, que a Universidade de Brasília oferece. Dei uma tremenda sorte: inscrevi-me para fazer leituras sobre o teatro de Nelson Rodrigues com um professor notoriamente reconhecido por seus vastos conhecimentos sobre o assunto. Ele se chama Fernando Marques e teve editada pela própria UNB sua tese “A Comicidade da Desilusão – Humor nas Tragédias Cariocas de Nelson Rodrigues”.

Simplesmente indescritível. Além de mergulhar no mundo de Nelson: complexo, visceralmente humano e obsessivo (e o que não é obsessão na vida?!), fiquei perplexa com como as pessoas podem elas mesmas ser algo e seu oposto, “um escritor de pistas falsas em vários sentidos”, como se lê na orelha do volume de “Memórias: A Menina sem Estrela”. E acabei produzindo trabalho de conclusão do curso sem conseguir concluir se seu teatro é diatribe, ousada denúncia de temas proibidos na humanidade, ou se meramente pretende levar multidões a fazer sua catarse minúscula, individual, colocando no palco, como ele próprio diz, aquilo que cada um carrega dentro de si e que não pode realizar sem explodir a própria sociedade…

REVER VERDADES

Claro que minha leitura teve também todo um outro contexto – este de fundas raízes em minha própria vida –, que foi rever (ou ver pela primeira vez?) verdades nunca antes por mim percebidas.

Aliás, mal e porcamente percebidas, porque, tentando escrever minhas memórias, já havia descoberto que Juscelino Kubitschek havia mandado aplicar a censura da ditadura varguista para impedir Billy Blanco de divulgar sua música contra a mudança da capital: “Não vou, não vou pra Brasília, nem eu nem minha família…”. Quem diria, hein, nosso grande democrata também sujou sua memória quando isso lhe foi conveniente!… Então, eu já sabia que, na redemocratização de 1946, depois do Estado Novo, as coisas se passaram como até hoje, no pós-1964 no Brasil: a transição, sempre controlada, vai deixando seus restos de tirania espalhados aqui e acolá. Não há outra maneira de explicar a censura sistematicamente imposta às peças de Nelson Rodrigues.

Uma das quais, para meu espanto, censurada no final dos anos 1940, acabou sendo levada à cena em plena ditadura militar, em 1967, a mais que escandalosa (no bom sentido da palavra) “Álbum de Família”!

Vou continuar a me envolver com esse monstro literário, mas já começo também a me enamorar de outro monstro, que há anos me espreita, esquecido na estante: Clarice Lispector. Começo pela biografia de Benjamim Moser, que vai também revelando a mim, brasileira de nascença, verdades nunca sabidas sobre meu país.

Afinal, esse pode ser um bom truque para enfrentar a baixaria que já se anuncia nas próximas eleições.

Em Belo Horizonte, projeto de lei prevê placas para indicar áreas de alta criminalidade

Joana Suarez
O Tempo

Quem mora ou circula constantemente em Belo Horizonte certamente já viu uma daquelas placas que indicam as áreas de risco de inundações na capital mineira. Pois a ideia pode ser copiada. Um projeto de lei (PL) prevê que uma sinalização semelhante seja instalada na cidade, mas dessa vez para alertar a população sobre regiões de alta criminalidade. Se sua rua tiver um grande número de roubos, por exemplo, lá vai estar o aviso de perigo.

O objetivo do PL 894/2013, apresentado no último dia 4, na Câmara Municipal, é reduzir os índices de crimes violentos na capital. Porém, especialistas acreditam que as placas só aumentariam a sensação de insegurança da sociedade e não resolveriam o problema.

A proposta do vereador Delegado Edson Moreira (PTN) prevê que a prefeitura solucione em definitivo as ocorrências de crimes no local indicado em até 60 dias após a instalação da placa. Além disso, dois guardas municipais seriam deslocados para proteger os lugares durante esse período. “A ideia surgiu a partir das placas de risco de inundação. As pessoas também precisam estar informadas sobre a insegurança daquele local”, explicou o vereador. Segundo o projeto, os locais seriam indicados pela própria população através de abaixo-assinado dos moradores, dados estatísticos ou matérias jornalísticas.

FALTA ESTATÍSTICA

Um dos problemas que a ideia poderia enfrentar é que a Secretaria de Estado de Defesa Social não divulga índices de criminalidade por bairros, apenas ocorrências em toda a cidade. Em novembro último, de acordo com os dados da Seds, a capital registrou 2.801 roubos – 93 por dia – e 70 assassinatos. O PL prevê que a prefeitura faça convênio com o Estado para reduzir os crimes. Procurada, a Seds não deu retorno sobre o assunto.

Para o sociólogo da PUC Minas Robson Sávio, a proposta iria aumentar a sensação de medo das pessoas. “O crime é dinâmico. Em pouco tempo ele muda de lugar, e a placa não faria mais sentido. Ele tem que ser monitorado e solucionado pela segurança pública e não com placas”, defendeu.

A opinião é compartilhada pelo pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp/UFMG) Frederico Couto Marinho. “Não faz o menor sentido esse tipo de sinalização. É muito mais útil que o Estado divulgue informações estatísticas para a população sobre índices em cada bairro”, destacou.

FRASES DE EFEITO

– A sinalização deverá ser feita utilizando frases de efeito que chamem a atenção da população de que o local possui alto índice de criminalidade, e relatar os tipos de crimes ocorridos na área.

– Os interessados podem solicitar ao Executivo a instalação das placas.

– Deverão ser usadas faixas em caráter provisório até que a permanente seja providenciada.

– O Poder Executivo enviará um relatório mensal contendo a identificação dos locais, devendo ainda informar quem as solicitou e as providências que foram tomadas.

 

Mandela e a política

Tereza Cruvinel
Correio Braziliense

O mundo chora a morte de Mandela mas há neste lamento universal um instrínseco louvor ao fato de um ser humano ter alcançado a dimensão do sublime,  palavra que pode resumir tantas virtudes que ele teve: coragem, clareza, generosidade, humildade, honestidade. Todas elas cabem na entrega de sua vida à realização de um sonho coletivo: a derrota do regime odioso do Apartheid e a construção de uma sociedade democrática e pacífica, dentro da diversidade étnica e cultural.

Mandela amargou 27 anos de prisão, sob trabalhos forçados e isolamento. Ali  reviu sua opção inicial pela luta armada e abraçou o caminho da resistência pacífica e da conciliação entre brancos e negros por uma sociedade plural. Mas precisou ganhar para esta posição alas radicais de seu partido, o CNA, e de seu próprio povo, além de líderes da minoria branca que anda mandava e explorava a maioria negra.. Quando um homem chega ao sublime pela política, merece ser chamado de estadista.

Muitos elogios a Mandela estão sendo publicados mundo afora. Evito minhas modestas loas, recorrendo a um grande da literatura e do jornalismo, Mario Vargas Llosa, que assim encerra seu elogio publicado em El Pais/Brasil. Este fecho muito serve ao Brasil, onde a política anda tão demonizada.

“Mandela é o melhor exemplo que temos – um dos tão escassos em nossos dias – de que a política não é só esse afazer sujo e medíocre que tanta gente acha, que serve aos malandros para enriquecerem e aos vagabundos para sobreviverem sem fazer nada, e sim uma atividade que pode também melhorar a vida, substituir o fanatismo pela tolerância, o ódio pela solidariedade, a injustiça pela justiça, o egoísmo pelo bem comum, e que há políticos, como o estadista sul-africano, que deixam seu país, o mundo, muito melhores do que como os encontraram.”.

Relação abalada entre PT e PMDB

Tereza Cruvinel
Correio Braziliense
Se as coisas já não andavam bem entre o PT e o PMDB, ambos ganharam um novo ingrediente ácido com o episódio que levou à renúncia do ex-deputado José Genoino. A mágoa dos petistas com o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, pode ter desdobramentos eleitorais e parlamentares, no âmbito da Câmara, envolvendo, pelo menos, os grupos ligados a Henrique.
Mas, antes mesmo da renúncia, no encontro que teve com os novos presidentes estaduais do PT, na segunda-feira passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva queixou-me muito do PMDB, relatando como “muito ruim” a reunião que ele e a presidente Dilma tiveram com dirigentes do partido no sábado.
Ele mesmo relatou que, em dado momento do encontro, marcado para avaliar a replicação da aliança nos estados, diante de informações sobre as recalcitrâncias de algumas secções regionais, como a de Pernambuco (controlada pelo senador oposicionista Jarbas Vasconcelos, que está ao lado de Eduardo Campos, do PSB), em apoiar a reeleição de Dilma, teria perguntado ao vice-presidente Michel Temer: “Ô, Michel, eles não estão querendo votar em você! Como é que você vai resolver isso?”
LAUDO INCOMPLETO
Entre os deputados, a desconfiança de que Henrique estivesse querendo “jogar para a plateia com a cabeça de Genoino” começou quando a direção da Câmara organizou uma entrevista coletiva dos médicos que integraram a junta encarregada de avaliá-lo, com vistas à concessão da aposentadoria por invalidez, requerida ainda antes da prisão. Na entrevista, foi divulgado apenas um resumo do laudo, informado que o ex-deputado não era portador de cardiopatia grave, tendo, por isso, os médicos optado não pela concessão da aposentadoria, mas pela prorrogação da licença médica por 90 dias.
O laudo completo, entretanto, foi obtido pelo irmão de Genoino, o líder José Guimarães. Nele,os médicos afirmam que o ex-deputado é “indivíduo sujeito a riscos de novos eventos cardiovasculares”, em função da prótese implantada próxima do arco da aorta e de problemas de coagulação e hipertensão.
HENRIQUE ALVES
Henrique, já diziam os petistas na sexta-feira passada, certamente não ignorou essa ocultação de uma parte importante do laudo. O documento resumido é que acabou pautando o noticiário. Anteontem veio o desfecho: o vice-presidente da Câmara, André Vargas, do PT, surpreendeu Henrique e os integrantes da Mesa com a carta de renúncia, quando já havia votos suficientes para abertura do processo de cassação. Se a formalidade fosse concluída, Genoino não poderia mais renunciar, tendo que enfrentar o julgamento do plenário, agora com o voto aberto.
CONSTRANGIMENTOS
Depois, houve constrangimentos. Os petistas evitaram encontros com os integrantes da Mesa que votaram a favor da abertura do processo, para não ouvir justificativas. Quiseram deixar claro que a ferida está aberta, explicou um deles, embora assegurando que não haverá retaliações.
Henrique tentou esfriar o clima, propondo que virem logo a página: “Não é agradável uma decisão destas. É sempre constrangedora, mas cumpri meu dever de forma serena e obedecendo ao regimento e à Constituição. Agora, é aguardar os outros acontecimentos”. A alguns deputados, disse estar respeitando a dor dos aliados, na certeza de que eles acabarão entendendo que ele não poderia ter agido de outro modo. Os petistas discordam: acham que poderia perfeitamente, sem atropelar o regimento, adiar a abertura do processo em função da licença médica de Genoino.
A curto prazo, as consequências podem até afetar apenas as relações pessoais, não produzindo desdobramentos eleitorais. Mas o acordo que garantiu o apoio do PT à eleição de Henrique Alves para a presidência da Câmara não incluiu a reeleição dele ao cargo, em 2015. A retaliação poderia surgir neste momento, mas isso vai depender das urnas de 2014. O cargo caberá ao partido que fizer a maior bancada. Petistas e peemedebistas, no fundo, já travam este duelo.

Mundo dos absurdos

Carla Kreefft

Tem coisas que acontecem e só acontecem no Brasil. São atos que somente podem ser compreendidos diante da cultura brasileira – já acostumada a conviver com absurdos.

Um condenado por comandar um grande esquema de corrupção recebe um convite para gerenciar um hotel. O salário oferecido a ele é de R$ 20 mil, dez vezes mais do que a pessoa que está no cargo de chefia imediata.

A história dos donos desse hotel é um outro capítulo. Um dos sócios do hotel, Paulo Masci de Abreu, é irmão de José Masci de Abreu, presidente do PTN – Partido Trabalhista Nacional – que apoiou a eleição da presidente Dilma Rousseff. Mas Masci é minoritário na sociedade. A empresa estrangeira, Truston International Inc, com sede na cidade do Panamá, é a sócia majoritária. O presidente da Truston é um panamenho de nome José Eugenio Silva Ritter, segundo reportagem divulgada pela Rede Globo.

José Eugenio Silva Ritter parece estar ligado, na condição de sócio, a mais de mil empresas. O procurador da Truston no Brasil é Raul de Abreu, filho de Paulo Masci de Abreu. É uma confusa história. E fica ainda mais confusa com a informação de que Ritter, que mora no Panamá, é um simples empregado de um escritório de advocacia naquele país e vive de forma muito simples. Esse escritório parece ser especializado em fornecer laranjas para empresas irregulares.

DEMANDA JUDICIAL

Mas não acabou aí não. Paulo Masci de Abreu, o sócio minoritário do hotel, tem uma demanda judicial com Paulo Naya, irmão do deputado falecido Sérgio Naya, aquele dono da construtora do edifício Palace II, na Barra, que desabou em 1998 e matou oito pessoas.

O prédio onde funciona o hotel era de Sérgio, que vendeu para seu irmão Paulo, logo que o imóvel voltou a ficar disponível. O edifício chegou a ficar impedido para garantir indenizações às famílias que foram vitimadas pelo desabamento do Palace II. Na condição de proprietário do imóvel, Paulo Naya vendeu 60% do imóvel para Paulo Masci de Abreu, ficando com o restante. Agora, ambos lutam na Justiça para ter o controle do hotel. Naya quer resultados melhores com seus 40%. Masci de Abreu quer preferência na compra desses 40% por já estar ocupando imóvel com o hotel.

Diante dessa confusa história, o condenado, o petista José Dirceu, afirma que vai recusar a proposta de trabalho para não complicar a vida dos empresários responsáveis pelo hotel.
Comportamento extremamente cuidadoso com os proprietários do Saint Peter.

Aí, claro, estamos no Brasil, aparece outro empresário oferecendo novas propostas de trabalho de Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. Eles foram convidados para exercer funções operacionais, com remuneração inferior ao salário mínimo em vigor. Então, tá… (transcrito de O Tempo)

Blog tem problema na retenção de comentários

Carlos Newton

O Blog da Tribuna da Internet ainda não está plenamente refeito do ataque dos hackers. Um dos problemas é a retenção automática de comentários, como se fossem “spam” (propaganda indesejada), fato já denunciado aqui pelo Paulo Solon.

Agora, o comentarista Darcy Leite não tem conseguido enviar comentários. Fizemos uma revisão e encontramos mais de 20 comentários nessa situação, inclusive um do Solon, um do Roberto Nascimento e outros de vários comentaristas, que imediatamente liberamos.

Como há mais de 1.600 comentários nessa situação de bloqueio como “spam”, vamos demorar um pouco para liberar todos os que foram indevidamente submetidos a moderação. Mas até o final do dia teremos conferido todos os 1.600.

Como já informamos, o Blog é livre. não há moderação nem censura. Publicamos um artigo de Delfim Netto e foi um assombro. Muitos estranharam, lembraram o relatório Saraiva e tudo o mais. Acontece que hoje Delfim é guru do PT e precisamos saber o que ele pensa. Aliás, o artigo dele nos foi enviado pelo Repórter Sindical, órgão oficial das Centrais SIndicais…

 

 

Tuma Júnior lança livro sobre a ‘fábrica’ de dossiês do PT, tem documentos e quer depor no Senado

Deu na revista Veja

Romeu Tuma Junior, filho de Romeu Tuma e secretário nacional de Justiça do governo Lula entre 2007 e 2010, rompe o silêncio e conta tudo no livro “Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado”, publicado pela Editora Topbooks (557 págs., R$ 69.90). O trabalho resulta de um depoimento prestado ao longo de dois anos ao jornalista Cláudio Tognolli. E  Tuma Júnior está com documentos e quer falar no Congresso. Abaixo, seguem trechos de sua entrevista à VEJA.
Por que Assassinato de Reputações?
Durante todo o tempo em que estive na Secretaria Nacional de Justiça, recebi ordens para produzir e esquentar dossiês contra uma lista inteira de adversários do governo. 0 PT do Lula age assim. Persegue seus inimigos da maneira mais sórdida. Mas sempre me recusei. (…) Havia uma fábrica de dossiês no governo. Sempre refutei essa prática e mandei apurar a origem de todos os dossiês fajutos que chegaram até mim. Por causa disso, virei vítima dessa mesma máquina de difamação. Assassinaram minha reputação. Mas eu sempre digo: não se vira uma página em branco na vida. Meu bem mais valioso é a minha honra.

De onde vinham as ordens para atacar os adversários do PT?
Do Palácio do Planalto, da Casa Civil, do próprio Ministério da Justiça… No livro, conto tudo isso em detalhes, com nomes, datas e documentos. Recebi dossiês de parlamentares, de ministros e assessores petistas que hoje são figuras importantes no atual governo. Conto isso para revelar o motivo de terem me tirado da função, por meio de ataque cerrado a minha reputação, o que foi feito de forma sórdida. Tudo apenas porque não concordei com o modus operandi petista e mandei apurar o que de irregular e ilegal encontrei.
(…)

O Cade era um dos instrumentos da fábrica de dossiês?
Conto isso no livro em detalhes. Desde 2008, o PT queria que eu vazasse os documentos enviados pela Suíça para atingir os tucanos na eleição municipal. O ministro da Justiça, Tarso Genro, me pressionava pessoalmente para deixar isso vazar para a imprensa. Deputados petistas também queriam ver os dados na mídia. Não dei os nomes no livro porque quero ver se eles vão ter coragem de negar.

O senhor é afirmativo quando fala do caso Celso Daniel. Diz que militantes do partido estão envolvidos no crime.
Aquilo foi um crime de encomenda. Não tenho nenhuma dúvida. Os empresários que pagavam propina ao PT em Santo André e não queriam matar, mas assumiram claramente esse risco. Era para ser um sequestro, mas virou homicídio.
(…)

O senhor também diz no livro que descobriu a conta do mensalão no exterior.
Eu descobri a conta do mensalão nas Ilhas Cayman, mas o governo e a Polícia Federal não quiseram investigar. Quando entrei no DRCI, encontrei engavetado um pedido de cooperação internacional do governo brasileiro às Ilhas Cayman para apurar a existência de uma conta do José Dirceu no Caribe. Nesse pedido, o governo solicitava informações sobre a conta não para investigar o mensalão, mas para provar que o Dirceu tinha sido vítima de calúnia, porque a VEJA tinha publicado uma lista do Daniel Dantas com contas dos petistas no exterior. O que o governo não esperava é que Cayman respondesse confirmando a possibilidade de existência da conta. Quer dizer: a autoridade de Cayman fala que está disposta a cooperar e aí o governo brasileiro recua? É um absurdo.
(…)

O senhor afirma no livro que o ex-presidente Lula foi informante da ditadura. É uma acusação muito grave.
Não considero uma acusação. Quero deixar isso bem claro. O que conto no livro é o que vivi no Dops. Eu era investigador subordinado ao meu pai e vivi tudo isso. Eu e o Lula vivemos juntos esse momento. Ninguém me contou. Eu vi o Lula dormir no sofá da sala do meu pai. Presenciei tudo. Conto esses fatos agora até para demonstrar que a confiança que o presidente tinha em mim no governo, quando me nomeou secretário nacional de Justiça, não vinha do nada. Era de muito tempo. 0 Lula era informante do meu pai no Dops (veja o quadro ao lado).

O senhor tem provas disso?
Não excluo a possibilidade de algum relatório do Dops da época registrar informações atribuídas a um certo informante de codinome Barba.