A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima, a verdade

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

Segundo os chamamentos que estão sendo feitos nesse momento, no WhatsApp e nas redes sociais, pessoas irão sair às ruas, no domingo, porque acusam o governo de ser corrupto e comunista e de estar quebrando o país. Se estes brasileiros, antes de ficar repetindo sempre os mesmos comentários dos portais e redes sociais, procurassem fontes internacionais em que o mercado financeiro normalmente confia para fazer tomar suas decisões, como o FMI – Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, veriam que a história é bem diferente e que o PIB e a renda per capita caíram, e a dívida pública líquida praticamente dobrou, mas foi no governo Fernando Henrique Cardoso.

Segundo o Banco Mundial, o PIB do Brasil, que era de 534 bilhões de dólares, em 1994, caiu para 504 bilhões de dólares, quando Fernando Henrique Cardoso deixou o governo, oito anos depois.

Para subir, extraordinariamente, destes 504 bilhões de dólares, em 2002, para 2 trilhões, 300 bilhões de dólares, em 2013, último dado oficial levantado pelo Banco Mundial, crescendo mais de 400% em dólares, em apenas 11 anos, depois que o PT chegou ao poder.

E isso, apesar de o senhor Fernando Henrique Cardoso ter vendido mais de 100 bilhões de dólares em empresas brasileiras, muitas delas estratégicas, como a Telebras, a Vale do Rio Doce e parte da Petrobras, com financiamento do BNDES e uso de “moedas podres”, com o pretexto de sanear as finanças e aumentar o crescimento do país.

RENDA PER CAPITA

Com a renda per capita ocorreu a mesma coisa. No lugar de crescer em oito anos, a renda per capita da população brasileira, também segundo o Banco Mundial, caiu de 3.426 dólares, em 1994, no início do governo, para 2.810 dólares, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002. E aumentou, também, em mais de 400%, de 2.810 dólares, para 11.208 dólares, também segundo o World Bankm, depois que o PT chegou ao poder.

O salário mínimo, que em 1994, no final do governo Itamar Franco, valia 108 dólares, caiu 23%, para 81 dólares, no final do governo FHC e aumentou em três vezes, para mais de 250 dólares, hoje, também depois que o PT chegou ao poder.

As reservas monetárias internacionais – o dinheiro que o país possui em moeda forte – que eram de 31,746 bilhões de dólares, no final do governo Itamar Franco, cresceram em apenas algumas centenas de milhões de dólares por ano, para 37.832 bilhões de dólares nos oito anos do governo FHC. Nessa época, elas eram de fato, negativas, já que o Brasil, para chegar a esse montante, teve que fazer uma dívida de 40 bilhões de dólares com o FMI.

RESERVAS MULTIPLICADAS

Depois, elas se multiplicaram para 358,816 bilhões de dólares em 2013, e para 369,803 bilhões de dólares, em dados de ontem, transformando o Brasil de devedor em credor, depois do pagamento da dívida com o FMI em 2005, e de emprestarmos dinheiro para a instituição, quando do pacote de ajuda à Grécia em 2008. E, também, no quarto maior credor individual externo dos EUA, segundo consta, para quem quiser conferir, do próprio site oficial do tesouro norte-americano.

O IED – Investimento Estrangeiro Direto, que foi de 16,590 bilhões de dólares, em 2002, no último ano do Governo Fernando Henrique Cardoso, também subiu mais de quase 400%, para 80,842 bilhões de dólares, em 2013, depois que o PT chegou ao poder, ainda segundo dados do Banco Mundial, passando de aproximadamente 175 bilhões de dólares nos anos FHC (mais ou menos 100 bilhões em venda de empresas nacionais) para 440 bilhões de dólares depois que o PT chegou ao poder.

DÍVIDA LÍQUIDA CAIU

A dívida pública líquida (o que o país deve, fora o que tem guardado no banco), que, apesar das privatizações, dobrou no Governo Fernando Henrique, para quase 60%, caiu para 35%, agora, 11 anos depois do PT chegar ao poder.

Quanto à questão fiscal, não custa nada lembrar que a média de déficit público, sem desvalorização cambial, dos anos FHC, foi de 5,53%, e com desvalorização cambial, de 6,59%, bem maior que os 3,13% da média dos anos que se seguiram à sua saída do poder; e que o superavit primário entre 1995 e 2002 foi de 1,5%, muito menor que os 2,98% da média de 2003 e 2013 – segundo Ipeadata e o Banco Central – nos governos do PT.

E, ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil ocupa, hoje, apenas o quinquagésimo lugar do mundo, em dívida pública, em situação muito melhor do que os EUA, o Japão, a Zona do Euro, ou países como a Alemanha, a França, a Grã Bretanha – cujos jornais adoram ficar nos ditando regras e “conselhos” – ou o Canadá.

Também ao contrário do que muita gente pensa, a carga tributária no Brasil caiu ligeiramente, segundo Banco Mundial, de 2002, no final do governo FHC, para o último dado disponível, de dez anos depois, e não está entre aS primeiras do mundo, assim como a dívida externa, que caiu mais de 10 pontos percentuais nos últimos dez anos, e é a segunda mais baixa, depois da China, entre os países do G20.

Não dá, para, em perfeito juízo, acreditar que os advogados, economistas, empresários, jornalistas, empreendedores, funcionários públicos, majoritariamente formados na universidade, que bateram panelas contra Dilma em suas varandas, há poucos dias, acreditem mais nos boatos das redes sociais, do que no FMI e no Banco Mundial, organizações que podem ser taxadas de tudo, menos de terem sido “aparelhadas” pelo governo brasileiro e seus seguidores.

Considerando-se estas informações, que estão, há muito tempo, publicamente disponíveis na internet, o grande mistério da economia brasileira, nos últimos 12 anos, é saber em que dados tantos jornalistas, economistas, e “analistas”, ouvidos a todo momento, por jornais, emissoras de rádio e televisão, se basearam, antes e agora, para tirar, como se extrai um coelho da cartola – ou da “cachola” – o absurdo paradigma, que vêm defendendo há anos, de que o Governo Fernando Henrique foi um tremendo sucesso econômico, e de que deixou “de presente” para a administração seguinte, um país econômica e financeiramente bem sucedido.

Nefasto paradigma, este, que abriu caminho, pela repetição, para outra teoria tão frágil quanto mentirosa, na qual acreditam piamente muitos dos cidadãos que vão sair às ruas no próximo domingo: a de que o PT estaria, agora, jogando pela janela, essa – supostamente maravilhosa – “herança” de Fernando Henrique Cardoso, colocando em risco as conquistas de seu governo.

CEGOS E SURDOS

O pior cego é o que não quer ver, o pior surdo, o que não quer ouvir.

Está certo que não podemos ficar apenas olhando para o passado, que temos de enfrentar os desafios do presente, fruto de uma crise que é internacional, que faz com que estejamos crescendo pouco, embora haja diversos países ditos “desenvolvidos” que estejam muito mais endividados e crescendo menos do que nós.

Assim como também é verdade que esse governo não é perfeito, e que se cometeram vários erros na economia, que poderiam ter sido evitados, principalmente nos últimos anos.

Mas, pelo amor de Deus, não venham nos impingir nenhuma dessas duas fantasias, que estão empurrando muita gente a sair às ruas para se manifestar: nem Fernando Henrique salvou o Brasil, nem o PT está quebrando um país que em 2002, era a décima-quarta maior economia do mundo, e que hoje já ocupa o sétimo lugar.

CPI ameaça quebrar sigilo telefônico de Janot e Cardozo

As relações entre Cardozo e Janot serão investigadas pela CPI

Deu na Folha

Deputados articulam a quebra de sigilo telefônico do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, por meio da CPI da Petrobras na Câmara. O requerimento pedindo a quebra tem o apoio do PMDB e foi anunciado pelo deputado Paulo Pereira da Silva (SD-SP), o Paulinho da Força, durante a sessão da CPI na quinta-feira, mas ainda não foi protocolado oficialmente.

Na justificativa, ele cita os encontros entre Janot e Cardozo ocorridos antes da divulgação da lista da Operação Lava Jato.

A Folha apurou que há uma articulação do PMDB nos bastidores para aprovar esse requerimento. A apresentação seria é uma retaliação à inclusão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e de outros políticos entre os investigados da Operação Lava Jato.

Nesta quinta, Cunha afirmou em depoimento à CPI da Petrobras que seu nome foi incluído na lista da PGR (Procuradoria-Geral da República) por uma opção política. “Escolha irresponsável e leviana. Querem transferir a crise do outro lado da rua [Palácio do Planalto] para cá [Congresso]”, acusou.

CRITÉRIOS DIFERENTES

Cunha afirmou que Janot usou critérios diferentes na abertura de inquéritos contra parlamentares e acusou-o de agir articuladamente com o Palácio do Planalto com o objetivo de ser reconduzido ao cargo de procurador-geral.

O presidente da Câmara obteve respaldo da maioria da CPI após seu depoimento, sendo acolhido com elogios e palmas. Com isso, o requerimento deve encontrar apoio dos demais membros da comissão.

O presidente da CPI, Hugo Motta (PMDB-PB), é aliado de Cunha e tem o poder de pautar requerimentos. A aprovação, porém, depende do aval da maioria dos integrantes.

Tensão democrática e enfraquecimento do governo

André Singer
Folha

É possível, embora não certo, que a partir de amanhã a democracia brasileira restabelecida nos anos 1980 passe a viver um inédito teste de estresse. A julgar pelo ruído do domingo (8/3), quando o pronunciamento presidencial foi acompanhado de protestos em diversas cidades, há quem preveja que a direita consiga colocar quantidade expressiva de gente na rua pela primeira vez desde o pré-1964.

Embora se deva notar que parte significativa dos manifestantes será, na realidade, de centro, o tom pró-impeachment das convocatórias faz parte da tentativa direitista de mobilizar massas, a qual começou em 2005. Quando eclodiu o escândalo do mensalão foram convocados comícios. A falta de apelo, na época, contribuiu para enterrar a ideia de impedir o ex-presidente Lula. Em 2007, o movimento “Cansei”, de teor semelhante, esvaziou-se em poucas semanas. Já em junho de 2013, a direita mostrou maior capacidade de mobilização, mas ainda precisou pegar carona em iniciativa da esquerda, que ocupa as praças desde a transição democrática.

Mesmo as iniciativas pós-eleitorais autônomas da direita em 2014 foram tímidas. Agora, devido ao enfraquecimento do governo e tendo obtido apoio de segmentos de centro, pode ter chegado a sua hora. Se for assim, abrir-se-á um tipo de polarização que, no passado, acabou em golpe. A uma manifestação seguirá, cedo ou tarde, uma contramanifestação, e assim por diante. Quando a sociedade, dividida, decide mobilizar-se, há uma dinâmica específica, distinta daquela que prevalece no jogo dos gabinetes.

OUTRO DESFECHO

Estou convencido, por diversas razões, que, desta feita, o desfecho não será o mesmo daquele de 1964. Mas vai depender, também, de como os atores levarem adiante o processo de luta, que a meu ver será longo. Em princípio, a presença da direita não deveria assustar, podendo até ser elemento politizador para o conjunto da sociedade. Cabe à esquerda convencer a maioria dos cidadãos de que o impeachment seria um golpe branco, sem base jurídica, como até especialistas da oposição reconhecem.

Cumpre também, isolar, dentre aqueles que se manifestarão amanhã, os setores minoritários de extrema-direita que incitam ao crime. A Constituição garante o direito de manifestação, sem restrições. Por outro lado, a Carta pune de maneira rigorosa qualquer iniciativa prática contra a democracia. O parágrafo 44 do artigo 5º qualifica de “crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. Por isso, incitar à intervenção militar é fazer apologia do crime e deve ser denunciada enquanto tal.

Dilma dá as costas aos médicos cubanos, seus aliados na campanha

Eduardo Scolese
Do UOL

Nos anos de 1950, o jovem francês Jean Blondel se aventurou no interior da Paraíba para um estudo sobre a política brasileira. Ao final da incursão de alguns meses no sertão, emplacou o livro “As Condições da Vida Política no Estado da Paraíba”, publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 1957 e hoje raríssimo nos sebos.

Em um dos tópicos desse trabalho, Blondel tratou do papel dos médicos na política sertaneja. E usou como exemplo um profissional filho de agricultores que nasceu em Bonito de Santa Fé, seguiu para o Rio de Janeiro para estudar e, depois de formado, retornou à terra natal com o objetivo claro de ingressar na política.

E ele usou a medicina para isso. Diz um trecho do livro: “Fez-se necessário, tratando gratuitamente, dando medicamentos, fazendo obras profiláticas de natureza espetacular. Já conhecido, foi eleito prefeito de seu município em 1951”. Enfim, completa o texto, ele se transformou em novo “chefe político” local e estadual.

CHEFE POLÍTICO

“Médico” e “chefe político” nos anos de 1950 remetem a “médico” e “chefe político” em 2015: os cubanos do Mais Médicos, ameaçados pela ditadura da ilha em pleno território brasileiro, precisam de uma pequena e urgente retribuição da “chefe política” Dilma Rousseff.

Em 2013, esses mesmos cubanos forma recebidos com festa pela população do interior e das periferias, com indignação e até intolerância por parte da classe médica brasileira e como cabos eleitorais pela campanha à reeleição da presidente Dilma.

Sem os cubanos, o Mais Médicos não seria uma vitrine de Dilma, e sim uma vidraça, já que 80% dos 14 mil profissionais do programa vieram da ilha de Fidel Castro.

Passados quase dois anos de serviços ao país, em locais nunca antes ocupados por médicos, esses mesmo cubanos úteis na eleição agora pedem socorro.

Eles servem ao Palácio do Planalto e cuidam dos brasileiros mais pobres. Mas, para o governo Dilma, a pressão que sofrem do governo cubano em pleno solo brasileiro é um burocracia “fora da alçada do Ministério da Saúde”.

Na boca da noite, com Paulo Vanzolini e Toquinho

Vanzolini, um dos maiores compositores de São Paulo

O zoólogo e compositor paulista Paulo Emílio Vanzolini (1924-2013), na letra de “Na Boca da Noite”, uma parceira com Toquinho, retrata momentos românticos que passou durante algumas horas. Essa música foi gravada por Toquinho no LP Boca da Noite, em 1974, pela RGE.

NA BOCA DA NOITE
Toquinho e Paulo Vanzolini

Cheguei na boca da noite,
Parti de madrugada
Eu não disse que ficava
Nem você perguntou nada

Na hora que eu ia indo,
Dormia tão descansada,
Respiração tão macia,
Morena nem parecia
Que a fronha estava molhada
Vi um rosto na janela,
Parei na beira da estrada

Cheguei na boca da noite,
Saí de madrugada

Gente da nossa estampa
Não pede juras nem faz,
Ama e passa, e não demonstra
Sua guerra, sua paz

Quando o galo me chamou,
Eu parti sem olhar pra trás
Porque, morena, eu sabia,
Se olhasse, não conseguia
Sair dali nunca mais
Vi um rosto na janela,
Parei na beira da estrada

Cheguei na boca da noite,
Saí de madrugada
O vento vai pra onde quer

A água corre pro mar
Nuvem alta em mão de vento
É o jeito da água voltar
Morena, se acaso um dia
Tempestade te apanhar
Não foge da ventania,
Da chuva que rodopia,
Sou eu mesmo a te abraçar

Vi um rosto na janela,
Parei na beira da estrada
Cheguei na boca da noite,
Saí de madrugada

             (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Precisamos punir os culpados, sem privatizar a Petrobras

Roberto Nascimento

Discordo frontalmente das afirmações de alguns comentaristas, que manifestaram opinião de que a Petrobras nunca deveria ter sido criada. Sabe-se que a Petrobras, desde sua criação, foi duramente combatida por agentes internos e externos, pois significava uma expectativa de autossuficiência em petróleo, importantíssima para a entrada do país na era industrial.

Na época, em 1953, o empresariado privado brasileiro não tinha – e até hoje não tem – condições de investimento para prospectar, extrair, refinar e distribuir, atividades que exigem elevadíssimos investimentos e demandam muito tempo muito tempo para o retorno do capital aplicado.

CORRUPÇÃO NO BRASIL E NO MUNDO

Corrupção sempre teve no Brasil e no mundo, e não foi menor do que está sendo agora, meus caros. Um ex-presidente da Petrobrás na década de 70, Shigeaki Ueki, é hoje um dos maiores empresários do petróleo do Texas, à frente da família Bush.

As empresas de petróleo da Europa e dos EUA (as sete irmãs) já foram envolvidas em escândalos de corrupção. O ex-presidente Nicolas Sarkozi, da França, está envolvido em escândalo vergonhoso envolvendo um grande multinacional francesa. E aí, é só aqui, cara-pálidas? No resto do mundo é o paraíso e aqui é o inferno?

PUNIÇÃO SEVERA

O que precisamos é de punição severa, quando os fatos corruptores são constatados e provados. Só assim poderemos reduzir a demanda por mais corrupção. A impunidade é que gera as distorções.

Uma coisa boa, no atual momento, foi a prisão dos empreiteiros. Antes, somente alguns corruptos do serviço públicos pagavam pelos seus erros. Agora, graças à coragem do juiz Sérgio Moro, executivos amargam as grades. Se forem julgados e condenados, depois da ampla defesa e do contraditório, terão que cumprir as penas e devolver o produto da corrupção.

EXEMPLO DO HSBC

Veja-se, agora mesmo, o megaescândalo do HSBC na Suíça. O banco não vai falir nem ser banido da Suíça, lógico que não. Apura-se a roubalheira e a corrupção do banco, os envolvidos serão punidos, e vida que segue.

A Petrobras é maior do que tudo que estamos vendo diariamente na mídia, um orgulho nacional que todo brasileiro sente na pele, sabendo que é uma das 10 melhores empresas do mundo e comprovando que somos competentes no que fazemos, quando deixam, é claro. Um grupo pequeno manchou de óleo podre a empresa, mas logo eles passarão e novos dirigentes compromissados com a ética assumirão os cargos vagos.

Agora, pedir para privatizá-la e entregar na mão de quem? Das construtoras envolvidas na Lava Jato? Ou daquele empresário que queria ser o primeiro brasileiro mais rico do mundo e que hoje está falido? A Petrobras é nossa, do país, da sociedade brasileira e pode ser administrada com competência por agentes públicos. Não esqueçam que a empresa é de economia mista, caros cidadãos.

Privatizar uma empresa, ao menor sinal de dificuldades pontuais, significa tirar o sofá da sala, quando o marido vê sua amada deitada nele com outra pessoa.

Projeto de poder do PT atinge ponto limite da tolerância popular

Paulo Chagas
Portal do UOL

Nos regimes democráticos, manifestações populares são formas de exteriorização de desagrado que têm por objetivo provocar mudanças em favor do interesse dos manifestantes. O atual governo brasileiro, em início de mandato, o quarto do que chamo de “era pós-moral” – como consequência de si próprio e dos que o antecederam –, todos sob a égide do Partido dos Trabalhadores, amarga uma onda crescente de manifestações. Até agora, a mais importante delas foi a dos caminhoneiros que, pela abrangência e importância estratégica, pôs em xeque a utilização do sistema viário nacional, o abastecimento e o próprio desempenho de certas atividades e regiões econômicas.

No mesmo embalo, não com as mesmas conseqüências, mas com abrangência e significado político muito maior, organiza-se pelas redes sociais outro movimento popular de protesto e de contraposição ao governo, a realizar-se este domingo, 15 de março.

O projeto de poder petista, nos moldes bolivarianos estipulados pelo Foro de São Paulo, colhe os frutos do seu desprezo a regras mínimas de respeito à inteligência e à paciência da sociedade.

Ambição, desonestidade, corrupção, incompetência, demagogia, malversação, mentira, propina, desvio, estelionato, apropriação, dilapidação, impunidade, destruição e outros, sem restrições à imaginação e à criatividade delituosa, são os substantivos que definem a forma escolhida para gerenciar a coisa pública e que, aparentemente, atingiu o ponto limite da tolerância popular!

POPULISMO

Os fins populistas, falsamente conquistados, não justificam os conchavos e as negociatas que levaram o Brasil, como um todo, às portas da bancarrota e sua mais importante empresa à quase insolvência no mercado mundial.

O tempo do Partido dos Trabalhadores esgotou-se junto com a transigência da sociedade brasileira, sua grande vítima. O entusiasmo com que os brasileiros finalmente esclarecidos se preparam para o Movimento Cívico de 15 de Março atesta esta afirmação.

Se as manifestações populares, por definição, visam e reivindicam mudanças, estas, para legitimar-se, devem escudar-se na viabilidade e na processualística estabelecidas na Lei Maior.

BASE E MOTIVO

A importância do movimento de 15 de março será medida pelos efetivos que conseguir mobilizar, pelo comportamento ordeiro dos participantes e pela veemência da demonstração de repúdio ao engodo de que têm sido vítimas.

Deve servir de base e motivo para que os representantes do povo – eleitos para fazer valer a sua vontade, no exercício de seus mandatos e dentro dos limites da legalidade – assumam o bastão da demanda e deem efetividade às mudanças exigidas pelas ruas!

O processo judicial em curso da Operação Lava Jato, pela exemplar seriedade com que está sendo conduzido, pela abrangência e pela gravidade dos crimes financeiros que está a elucidar, certamente trará à luz verdades e evidências que abraçarão o sentimento nacional e que darão respaldo às decisões e às atitudes legislativas que, finalmente, responderão à vontade popular.

(artigo enviado pelo comentarista Mário Assis)

Stédile diz que Joaquim Levy está “infiltrado” no governo

Stédile disse que Dilma precisa andar na rua

Deu na Folha

O líder do Movimento dos Sem Terra (MST) João Pedro Stedile disse nesta sexta-feira (13) em manifestação no centro do Rio de Janeiro que não aceita “infiltração de capitalistas” e do ministro Joaquim Levy (Fazenda) no governo federal. Ele pediu também que a presidente Dilma Rousseff “saia do Palácio” para ouvir os trabalhadores.

Stedile foi o último a discursar no carro de som da manifestação em defesa da Petrobras e contra o impeachment da presidente.

“Já chega de infiltração de capitalista no governo. Não aceitamos a infiltração de um tal de [Joaquim] Levy”, disse do ministro da Fazenda. “Não podemos fazer ajuste às custas do trabalhador. A crise que o Brasil vive é culpa dos capitalistas. Não aceitamos a redução do direito da classe trabalhadora. Dilma, saia do palácio e venha para rua ouvir os trabalhadores”, defendeu Stedile.

O líder do MST afirmou que a corrupção na estatal foi causada por “meia dúzia de filhos da puta”. Ele afirmou que “a Globo quer iludir e dizer que esses caras são de esquerda, que são do PT”. “Não, eles são ladrões. Lugar de corrupto é na cadeia. Corrupção existe no Brasil desde que chegou o primeiro europeu aqui.” O líder o MST defendeu também que não haja redução de pena para os delatores do esquema na Petrobras.

DISPUTA NAS RUAS

Stédile também afirmou que aceita a disputa “nas ruas” com a “burguesia”. “Há 40 mil paulistas nas ruas, há gente em Brasília, Salvador e Pernambuco. Burguesia, não se atrevam a falar em golpe. Nós defendemos a democracia e o direito legítimo de eleger nas urnas os nossos representantes. Eles querem disputar conosco nas ruas e nós aceitamos. O povo pode não ter a maioria nos tribunais, no Congresso, mas temos a maioria das ruas.”

Manifestação mostra que até mesmo o MST condena o governo Dilma

Eduardo Anizelli/FolhapressEstêvão Bertoni, Claudia Rolli e Paula Sperb
Folha

Sindicatos e movimentos sociais alinhados ao governo federal que organizaram atos em 23 capitais aumentaram a pressão sobre a presidente Dilma Rousseff ao incluir entre suas reivindicações nesta sexta-feira diversas críticas à condução da política econômica e ao ajuste fiscal.

Em vídeo divulgado na quinta (12), o líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Pedro Stedile disse que o governo precisa abandonar a atual política econômica. E conclamou os militantes contra as elites que criam “um cenário de instabilidade política para que o governo se sinta acuado e implante o programa de ajuste neoliberal que é a pauta deles”.

Já Joaquim Pinheiro, membro da coordenação nacional dos sem-terra, disse que “não vai ter refresco” a favor do governo. “A política que a Dilma está aplicando é a do Aécio Neves [PSDB]. Temos que defender os nossos direitos.” Ele cobra que a petista se aproxime dos movimentos sociais revendo medidas anunciadas pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda) que “atacam os direitos dos trabalhadores”.

TROCO NO DIA 15          

O MST avisou que as únicas defesas dos atos desta sexta seriam da Petrobras, dos direitos do trabalhadores, da reforma política e da democracia. Em sua fala, Stédile previu que “a burguesia vai tentar dar o troco no dia 15”, em referência ao ato pró-impeachment no domingo (15).

A maioria das entidades que foram às ruas nesta sexta se esquivou de declarar apoio explícito à presidente. “Não é um ato nem contra nem a favor do governo, mas sim pela normalidade da democracia”, diz Vagner Freitas, presidente da CUT, acrescentando:

“Todos sabem o engajamento político da CUT na eleição do ex-presidente Lula e no primeiro mandato da presidenta Dilma. Mas, neste momento, a leitura que fazemos é que o Brasil tem de voltar à normalidade. O fato é que a eleição acabou, não há terceiro turno.”

“Falar de impeachment não é golpismo”, repete Cristovam Buarque

Marcela Mattos
Veja

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), de 71 anos, é um dos políticos mais experientes do Congresso Nacional. Está há 13 anos no Senado, período só interrompido para atuar como ministro da Educação no início do governo Lula. Ex-governador do Distrito Federal e candidato à Presidência da República em 2006, Cristovam já presenciou uma série de turbulências políticas ao longo dos anos. Mas anda espantado nos últimos tempos: “A sensação é de que a presidente não lidera mais”. Em entrevista ao site de Veja, o senador repetiu o discurso que irritou a bancada petista nas últimas semanas: “Corre-se o risco de ingovernabilidade. Aí o impeachment termina sendo uma coisa natural”.

-Como o senhor analisa a relação da presidente Dilma com o Congresso?

Sempre houve turbulência, mas o nível atual tem uma gravidade profunda. É a sensação de que a presidente não lidera mais. Ao não liderar, ela não está controlando. Por exemplo: o Lula tem de intervir de vez em quando e falar com o PT, a Dilma tem de dar pito no ministro da Fazenda. Eu creio que um dos grandes problemas da presidente hoje é que ela tem um ministro que não gosta, mas que não pode demitir. O Joaquim Levy não parece ter o perfil que ela gostaria, mas, como ela não pode demitir, fica evidenciado que perdeu a liderança. E isso é o que caracteriza seu novo mandato.

Eu saí do PT quando o partido perdeu o vigor transformador e se acomodou. Age como se não precisasse fazer mudanças sociais – basta dar Bolsa Família. Qual foi a transformação social do PT? O PT tem coisas ótimas, mas transformação social não tem. Hoje, 52 milhões de pessoas não passam fome. Mas isso não é transformação. Isso é uma coisa assistencial. Transformação seria se o ensino tivesse sido modificado, e não foi.

-E qual a consequência disso?

O povo está falando no impeachment. Tem direito de falar e não é golpismo, está na Constituição. Mas a proposta de impeachment não é boa. Pedagogicamente, o eleitor perde a convicção da importância do seu voto. Passa no inconsciente de que se não der certo, tira. Quando isso acontece ao longo da história da República uma ou duas vezes, tudo bem. Mas a gente só teve até aqui quatro presidentes eleitos. E para cada um se falou em impeachment, do Collor até a Dilma. É muito enfraquecedor, uma democracia doente.

-Nesse cenário de insatisfação, qual seria a alternativa?

É melhor encontrar uma solução. E eu considero urgente a união das pessoas que nesse país têm responsabilidade para a construção de uma agenda. Nessa agenda é necessário ter um ajuste, mas tem de ter transparência sobre o que vai acontecer depois. A presidente tem de fazer o que se faz em qualquer casamento: se foi pega na infidelidade, tem de enfrentar o assunto, pedir desculpas e dizer que errou. Mas tem de apontar uma solução e acertar. A presidente agora tem de construir pontes, o que, parece, ela não gosta de fazer. Ela tem de reconhecer os erros. Os militares foram mais sensíveis que a Dilma quando perceberam que um modelo estava se esgotando e começaram a dialogar com forças de oposição. A Dilma, que é de esquerda e democrática, não está reconhecendo o esgotamento de um modelo e procurar as forças que pensam diferente, que são críticas.

-Mas qual a garantia de que a presidente vai cumprir as promessas?

Se ela não fizer isso, corre-se o risco de ingovernabilidade. Aí o impeachment termina sendo uma coisa natural. Em relação à economia, eu estou de acordo com que disse o Armínio [Fraga, ex presidente do Banco Central]: ‘Nós estamos no caminho para um colapso’. Então se a gente tem um colapso na economia e na política, e o social sobrevive do assistencialismo – o que dá uma certa tranquilidade, porque o povo não desce das favelas -, então virá uma ingovernabilidade.

-O senhor já foi filiado ao PT, foi ministro da Educação no governo Lula, e agora, mesmo na base aliada, faz críticas ao partido. O que sobrou do Partido dos Trabalhadores?

Eu até costumo dizer, quando recebo críticas de petistas, que não fui eu que mudei de partido. Foi o partido que se mudou de mim. Perdeu o vigor transformador e além disso começou a aparelhar o estado. E caiu em um processo de corrupção. A minha saída foi motivada pela perda do vigor transformador e pela acomodação.

-Com mais um escândalo no país, o senhor avalia que a corrupção tem cura?

Existem dois pontos: um é a chamada propina. Acho que isso é restrito ao partido que estiver no governo. Agora, contribuição de campanha é algo generalizado, porque vem de pessoas jurídicas. E, nesse cenário, o setor mais dinâmico são as empreiteiras. A minha campanha teve a contribuição dessas empresas. Não é ilegal, mas a partir de agora está sendo suspeito. Por isso tem que acabar o financiamento de empresas. Mas, por outro lado, eu também sou contra o fundo público de campanha. Acho que cada partido deve se virar para conseguir dinheiro com seus apoiadores e militantes.

(entrevista enviada pelo comentarista Mário Assis)

Tiro pela culatra: CUT critica Dilma no ato da Avenida Paulista

Críticas a Dilma até no caminhão de som usado pela CUT

Igor Gadelha, Valmar Hupsel Filho e Ricardo Chapola
O Estado de S. Paulo

O presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, reafirmou nesta tarde que a manifestação realizada nesta sexta-feira, 13, na Avenida Paulista, não é a favor do governo e criticou a política econômica de Dilma Rousseff.

Segundo Freitas, os trabalhadores querem a agenda que venceu as eleições de outubro. “A atual agenda já foi derrotada com Aécio”, afirmou, em referência ao candidato tucano Aécio Neves.

O dirigente defendeu o retorno à polícia desenvolvimentista, como ocorreu durante a crise de 2008. “Se ficar só no corta-corta, sem investimentos, não anda a economia, não gera emprego”, afirmou em entrevista coletiva em frente à sede da Petrobrás em São Paulo.

JUROS E CRÉDITO

De acordo com Freitas, para a presidente Dilma reconquistar a confiança dos movimentos sociais, deverá baixar os juros e baratear o crédito. No carro de som, os sindicalistas também pediam a retirada das MPs 664 e 665, que alteram regras para acesso a benefícios como seguro-desemprego, auxílio-doença e pensão por morte.

O presidente da CUT ressaltou ainda que a manifestação desta sexta-feira é a favor da democracia e contra qualquer tipo de retrocesso. “O Brasil não pode ficar vivendo esse clima de continuidade eleitoral o resto da vida”, disse. “Precisamos ter condições para o desenvolvimento”. Segundo Freitas, as manifestações para a derrubada do governo não são agora, mas daqui a três anos, fazendo referência às próximas eleições presidenciais.

Ele defendeu ainda a reforma política e principalmente o fim do financiamento privado de campanha eleitoral. Sobre a Petrobrás, disse que corrupção deve ser apurada, mas não se deve penalizar os trabalhadores e uma das maiores petroleiras do mundo.

E afirmou que a CUT não planeja nenhuma manifestação no domingo, 15, quando estão programadas manifestações contrárias ao governo Dilma. “Nossa manifestação é hoje”, afirmou.

Petroleiros avisam que Petrobras vai provocar desemprego

Isabela Vieira
Agência Brasil

Trabalhadores da Refinaria de Duque Caxias (Reduc), na Baixada Fluminense, fizeram nesta sexta-feira (13) uma paralisação de quatro horas em defesa da Petrobras. Entre 5h e 9h, petroleiros, movimentos sociais e estudantes protestaram em frente a unidade, contra o anúncio de desenvestimento (venda de ativos) de US$ 13,7 bilhões da estatal e que provocará desemprego no país, na avaliação do sindicato da categoria.

Simão Zanardi, presidente do Sindicato dos Petroleiros de Duque de Caxias, estima que o desenvestimento anunciado semana passada desempregará cerca de 600 mil pessoas até meados de 2015. Se a meta da venda de bens for cumprida, a estimativa dele é que 1,5 milhão de trabalhadores diretos e indiretos da companhia ficarão sem emprego. “A Petrobras investe cerca de R$ 300 milhões por dia no país, se ela para, teremos demissões em cadeia”, afirmou.

No Rio de Janeiro, a maioria dos atingidos são do setor naval ou metalúrgicos desligados do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Segundo Zanardi, entre os funcionários há a informação de que o Comperj será desativado até 2021. A estatal, procurada pela reportagem, não confirma essa intenção.

PRIVATIZAÇÃO

“Desenvestimento é privatização. A empresa está deixando de investir no Brasil. Já mandou dois navios para [serem construídos por trabalhadores em] Cingapura”, criticou Zanardi no protesto, que reuniu o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Levante da Juventude, estudantes secundaristas e o Centro Acadêmico de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, segundo os organizadores.

O plano de desenvestimento da Petrobras prevê a venda de bens nas áreas de exploração e produção no Brasil e no exterior, abastecimento e gás e energia. A companhia enfrenta alta no endividamento e tenta preservar o caixa e garantir investimentos prioritários.

Com o corte de gastos, o Sindpetro prevê a venda de navios da Transpetro, de refinarias e até de plataformas da estatal. “Não acreditamos em desenvestimento para salvar a companhia, mas em mais investimento para recuperar o crescimento”, frisou o sindicalista

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NOTA DA REDAÇÃO
– Interessante que, na matéria, não há uma única menção a Dilma e ao PT. Parece que os petroleiros estão cobrando de Deus! (Antonio Fallavena)

Relaxe, nada sob controle

Vinicius Torres Freire
Folha

Por algum tempo, as previsões e aqueles palpites diários sobre idas e vindas das partes mais inflamáveis do mercado financeiro merecerão menos crédito do que de costume. A geleia política, remexida além da conta, se desfaz ainda no calor de histeria, irresponsabilidade e incompetência políticas quase gerais.

Esse vem sendo e deve ser por semanas (duas? Dez?) o motivo de passeios ainda mais aleatórios das taxas de câmbio e até de juros. A turma está “sem referência”, em “pânico”, como dizem rapazes do mercado, sempre exagerados.

Há de resto indefinições sérias do que a turma do dinheiro grosso vai fazer com seus haveres, dada a divergência econômico-financeira entre Estados Unidos e eurozona. Parece firula tratar disso enquanto o Brasil afunda numa recessão de talvez 1,5% e há risco de um conflito político exacerbado demais descer à rua. Mas não é. O dólar no Brasil dá piruetas sobre uma onda mundial de alta da moeda americana, entre outras marolonas.

CLICHÊ RECENTE

A “incerteza” sobre o ajuste fiscal no Congresso, clichê analítico recente, parece agora aflição pouca. A conversa migrou. Especula-se sobre qual governo e Congresso teremos até o fim do ano. Sim, a aprovação do pacote fiscal refrescaria o ambiente e evitaria o pior em termos de finanças e crédito do governo, mas nem de longe diz tudo sobre o tamanho do efeito do arrocho na economia real e, pois, “nas ruas”, na reação político da massa dos brasileiros.

Sobre o “ajuste”, é ingenuidade não levar em conta incógnitas sérias tais como o tamanho da receita federal e até onde o governo, em tese o de Dilma Rousseff, vai tolerar cortes, que tendem a ser brutais e talvez mandem à breca metade do investimento federal, talho mais “sujo” e recessivo.

Como se não bastasse, Dilma deixa apodrecer a crise do Petrolão (Petrobras mais Lava Jato), que faz estragos em cadeia na economia real. O tumulto geral emperra ou talha o investimento nos demais setores.

Convém ressaltar: pela primeira vez desde o início de 2004 haverá redução de consumo das famílias. Mas se tratava então de momento de recuperação e esperança.

“FORA,FHC!”

Agora, os dias são mais parecidos com os das tensões sociopolíticas e quedas de consumo de meados de 1998 a fins de 1999, os dias de “Fora, FHC!”.

A falta de perspectiva sobre qual governo teremos piora a desorientação. Mesmo antes dessa histeria, era difícil pensar o quanto o dólar mais alto pesaria na inflação de um país que vai entrar em recessão feia e, por tabela, em qual seria o impacto disso na taxa de juros. Agora, o dólar está numa biruta, pois a política está tresloucada. A biruta pode girar ainda mais, pois a finança mundial está sujeita a chuvas e trovoadas.

Mesmo a elite dos entendidos em juros e câmbio do mundo está perdida a respeito do efeito global do fortalecimento da economia dos Estados Unidos e do dólar enquanto as taxas de juros da eurozona estagnada ficam cada vez mais no vermelho. Menos ainda se sabe dos abalos que virão da tão falada já por dois anos alta dos juros americanos. Mas ela virá, talvez em setembro, uma virada maior nas finanças do mundo em quase dez anos. Não é coisa pequena.

Banco Central descontrolado faz estragos na economia

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Em meio ao quadro caótico vivido pelo país, combinando crise política com turbulências na economia, era imprescindível que o Banco Central funcionasse como um pilar de credibilidade. Ao emitir sinais de segurança aos mercados, por meio de ações transparentes, a instituição certamente contribuiria para amenizar o nervosismo que tomou conta dos investidores e jogou o dólar para o nível mais alto em quase 11 anos. Infelizmente, não é o que se está vendo.

O BC brasileiro, comandado por Alexandre Tombini, tornou-se um manancial de incertezas. Ao manter uma comunicação errática com os mercados, seja em relação ao câmbio, seja em relação à inflação e ao crescimento econômico, embaralha o horizonte. O jeito encontrado pelos investidores para se protegerem nesse quadro nebuloso foi comprar dólares.

A confusão criada pelo BC começa pela taxa básica de juros (Selic). A cada decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), a instituição indica um caminho. No início de dezembro do ano passado, alertava sobre a necessidade de parcimônia no aumento da Selic. Semanas depois, garantia que faria tudo o que fosse possível para conter o avanço da carestia. Depois, passou indicar o fim do ciclo de aumento dos juros. Não satisfeito, o banco voltou a indicar que não toleraria a alta da inflação. Agora, sinaliza que pode estender o arrocho que, se acreditava, acabaria em abril, com os juros a 13%.

VAIVÉM DANOSO

Mesmo em um quadro de calmaria, esse vaivém do BC já seria danoso para a economia. Mas, com o país acuado pelo embate entre o Congresso e o Palácio do Planalto e diante das dúvidas crescentes quanto à capacidade do ministro da Fazenda, a indecisão da autoridade monetária agiganta a onda de desconfiança que atormenta os agentes econômicos e provoca pesados prejuízos nos mercados futuros de juros. Para compensar essas perdas, os investidores estão correndo em busca de dólares, cuja a consequência é mais inflação e mais juros.

O descontrole do BC faz estragos, também, no caixa do Tesouro Nacional. Como ninguém acredita na capacidade da autoridade monetária de levar à inflação para o centro da meta, de 4,5%, até o fim de 2016, uma vez que o time de Tombini nunca entregou o que prometeu, o governo está sendo obrigado a fazer emissões recordes de Letras do Tesouro Nacional (LTNs), títulos de curto prazo que têm custos elevadíssimos. No leilão desses papéis realizado na última quinta-feira, as taxas ficaram em 13,23% ao ano. Foram vendidos R$ 18,6 bilhões em LTNs, títulos que estão reduzindo, significativamente, o prazo de vencimento da dívida pública.

E O DÓLAR?

Mas não é só. O BC não sabe o que quer com o dólar. Ao mesmo tempo em que indica que manterá as intervenções no câmbio, por meio dos contratos de swap cambial (espécie de vendas futuras da moeda norte-americana), sinaliza que reduzirá sua presença no mercado. Essa postura esquizofrênica só alimenta a confusão.

Por lei, o único mandato do BC é para manter a inflação dentro das metas. Mas o que se tem visto é a instituição também preocupada com o ritmo do crescimento econômico e com o dólar, agindo como uma biruta, que gira ao sabor dos ventos. Para desespero de todos, não acerta uma.

Tumulto é agora imprevisível e incalculável

Vinicius Torres Freire
Folha

O tumulto nacional destes quase idos de março estava escrito e poderia ser lido desde pelo menos a reeleição de Dilma Rousseff. O que virá adiante, porém, parece incalculável, talvez quase aleatório e, pois, aberto a acidentes extremos. Na falta de lideranças políticas e alianças sociais fortes que tentem colocar ordem nessa confluência revolta de incompetências e pequenezas, o risco de desastre aumenta.

Era previsível e, aliás, foi aqui e ali previsto que, ao final do primeiro trimestre do ano, por aí, haveria a conjunção exponencial das seguintes crises:

1) Apareceriam os primeiros efeitos concretos, “de rua”, da crise econômica, fosse pela degradação contínua decorrente da má administração, pelos primeiros impactos do arrocho ou, caso a presidente persistisse nos erros piores, no colapso resultante do fato de que agentes econômicos antecipariam a crise de modo grave, agudo e concentrado;

2) O clima político progressivamente odiento, agravado pela eleição apertada e pelo udenismo de parte significativa do PSDB e de certa elite, degringolava já na campanha em ataques à legitimidade da eleição. Essa atitude biliosa regressiva de parte da oposição deu alento a birutas a princípio periféricos, que passaram a pregar tipos variados de golpe. A conjunção de piora econômica com o estelionato eleitoral de Dilma Rousseff agregou parcelas importantes da população à revolta antes marginal;

3) Era evidente que o rolo político do Petrolão desarticularia um Congresso já desbaratado. Crise econômica e tumulto político-partidário se realimentariam;

4) A ruína da Petrobras, financeira, administrativa e, enfim, corrupta, teria efeitos na cadeia enorme de empresas relacionadas e no crédito de firmas em geral, quiçá em bancos.

INCOMPETÊNCIA POLÍTICA

De mais imprevisto foi o tamanho da incompetência política do governo. Além do mais, um mistério, pergunta-se por que Dilma rechaçou o conselho de Lula, que tenta sem sucesso tutelar ou ao menos orientar a pupila pelo menos desde junho de 2013.

Agora se torna muito difícil calcular a resultante de tantas lutas ávidas, imediatistas e particularistas para a salvação do próprio pescoço e interesses, políticos e econômicos.

O que pode ser do Congresso? Os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, lutam pela sobrevivência política, assim como bancadas que haviam sido comprados para a coalizão do governo. Querem triturar politicamente o governo. Mas dão sinais de que não vão fazer política de terra arrasada na legislação econômica. Cunha o disse explicitamente; Renan negocia um acordo para o reajuste da tabela do IR que, embora não seja o ideal para o governo, é uma negociação que seria normal e razoável em qualquer Congresso.

FUTURO IMPREVISÍVEL

Os líderes do Congresso podem estar sob pressão de parte das lideranças maiores do empresariado, mas parte do mundo empresarial, aliada a sindicatos, milita contra o ajuste. Há muita gente nesse salve-se quem puder imediatista. A política econômica se tornou mais incerta devido aos danos adicionais causados pelo tumulto político (juros e câmbio estão sem norte).

A confluência tumultuária de interesses imediatistas e a falta de lideranças tornou bastante imprevisível o futuro próximo do país.

 

Renan sugere que Dilma siga seu exemplo e corte despesas

Renan diz que Dilma corta tudo, menos as despesas do governo

Leonardo Souza
Folha

Dado o histórico recente, é difícil imaginar o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), como exemplo a ser seguido na gestão da coisa pública. Em 2007, Renan foi apeado da mesma função que hoje exerce na câmara alta do Congresso sob acusações de que um lobista de uma empreiteira, a Mendes Júnior, pagava contas pessoais suas.

A suspeita era que o lobista desembolsava mensalmente uma pensão para a jornalista Mônica Veloso, com quem Renan tem uma filha.

Agora, Renan figura no rol dos investigados no STF (Supremo Tribunal Federal), no âmbito da Operação Lava Jato, sob a suspeita de receber recursos ilegais de um cartel de empreiteiras que fraudavam concorrências da Petrobras.

EXEMPLO A DAR

Justiça seja feita, Renan tem, sim, a despeito dos escândalos, exemplo a dar a presidente Dilma Rousseff. Desde que assumiu, nesta segunda passagem, a presidência do Senado, Renan promoveu uma série de cortes de despesas na Casa.

Nos gabinetes parlamentares, lideranças e Mesa Diretora foram extintas 672 funções comissionadas – uma diminuição de 34,7% do total, gerando uma economia de R$ 10,4 milhões em 2013 e de R$ 11,1 milhões no ano passado. Implementou a jornada de sete horas corridas de trabalho, preservando R$ 160 milhões. Houve um corte nos salários acima do teto constitucional, medida que atingiu cerca de mil servidores, resultando numa economia de R$ 8,1 milhões por ano.

Renan também promoveu fusões e incorporações de vários órgãos internos do Senado. Reviu, cancelou e reduziu valores de contratos. Reviu todas as aposentadorias por invalidez. Eram 117. Desses, 15 servidores foram obrigados a voltar a trabalhar. O Senado também extinguiu o serviço hospitalar em suas dependências: um privilégio que custava anualmente R$ 6 milhões para atender servidores e senadores. Como todos tinham e têm planos de saúde, o Senado mantinha um hospital caro e pagava por um plano de saúde que pouco era usado, pois muitos preferiam ser atendidos no hospital da Casa.

Há outros exemplos de cortes de despesas no Senado em 2013 e 2014. Nesses últimos dois anos, segundo a assessoria do senador, a economia global foi de R$ 530 milhões.

Renan tem dito publicamente e nos bastidores que a presidente Dilma Rousseff precisa seguir seu exemplo.

FALA, DILMA

No pronunciamento que fez em cadeia de rádio e TV no último domingo (8), Dilma defendeu a importância do pacote fiscal anunciado por sua equipe econômica para tapar o rombo das contas públicas.

“As medidas estão sendo aplicadas de forma que as pessoas, as empresas e a economia as suportem. Como é preciso ter equidade, cada um tem que fazer a sua parte. Mas de acordo com as suas condições”, disse a presidente.

Entre as medidas já anunciadas, estão o endurecimento das regras de concessão de benefícios trabalhistas e o cancelamento de parte da desoneração da folha de pagamentos.

Nos dois casos, a maior cota do ajuste caiu ou cairá na conta do trabalhador.

E OS CORTE NO GOVERNO?

E qual a parte que cabe ao governo da presidente Dilma no sacrifício coletivo de corte de despesas? Até agora, nenhuma.

Ao invés de ficar somente no discurso, Dilma poderia dar o exemplo. Poderia começar, num primeiro momento, extinguindo boa parte dos 39 ministérios de seu governo –muitos dos quais, diga-se de passagem, servem apenas de cabide de emprego para acomodar aliados fisiológicos. Num segundo momento, poderia reduzir drasticamente os 23 mil cargos comissionados do Executivo federal.

Não se sabe aonde a Polícia Federal e o Ministério Público Federal podem chegar no inquérito aberto para investigar Renan no STF. Mas numa coisa o senador tem razão: Dilma precisa dar o exemplo, se quer convencer trabalhadores, empregadores e congressistas da necessidade do ajuste fiscal.

Planalto quis suspender manifestação e Dilma adiou viagem temendo vaias

Rossetto pediu à CUT que desistisse das manifestações hoje

Simone Iglesias e Luiza Damé
O Globo

O Palácio do Planalto cancelou ontem à noite a viagem que a presidente Dilma Rousseff faria nesta sexta-feira a Belo Horizonte. Ela participaria de um evento de apresentação do balanço da campanha Justiça Pela Paz em Casa, no Tribunal de Justiça, mas, segundo um integrante do palácio, o temor de vaias e fortes manifestações contrárias à presidente levou ao cancelamento. Segundo esse integrante do governo, teria sido detectado um “clima político tenso” na capital mineira, onde Dilma perdeu as eleições do ano passado para o tucano Aécio Neves (PSDB).

Oficialmente, a Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto informou que Dilma cancelou a viagem porque sua mãe, Dilma Jane, não está bem de saúde. Por esse motivo, a presidente deverá passar a manhã de hoje no Palácio da Alvorada, acompanhando a mãe.

O governo chegou a pedir à Central Única dos Trabalhadores (CUT) para que cancelasse a manifestação de hoje, conforme revelado pelo Globo. O ministro Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), a pedido da presidente Dilma, se reuniu com dirigentes da CUT na segunda-feira e conversou por telefone pedindo “reiteradas vezes” a suspensão, para evitar que ela sirva de base para levar mais manifestantes contra o governo às ruas no dia 15, segundo relatou um ministro próximo à presidente.

Mas, em nota, o ministro Rossetto negou que tenha pedido para a CUT cancelar a manifestação. Estão previstos para hoje atos em 27 capitais organizados pela garantia dos direitos trabalhistas.

“Agentes infiltrados” podem desestabilizar as manifestações

Marcello Reis mostra cartaz em apoio à PF durante ato contra a presidente Dilma e o PT

Eis Marcello Reis, que ninguém sabe quem é na realidade

Carlos Newton

A estratégia de infiltrar “agentes” e de promover atos públicos com duplas intenções é tão antiga quanto a política. No caso da manifestação programada para hoje no Rio, sob liderança de Marcello Reis, do grupo Revoltados Online, há muitos motivos para questionamentos, pois o “ato” está marcado para diante do prédio da Petrobras, exatamente no mesmo local onde a CUT também faz concentração hoje.

Afinal, quem é Marcello Reis? Vive de quê, faz o quê? E quem paga o carro de som que utiliza nas ruas? Vejam a entrevista dele à Folha e tirem suas conclusões:

Por que marcar o ato para o mesmo dia do protesto organizado pela CUT?
Marcello Reis – A CUT que marcou no mesmo dia que a gente. Estamos amparados pela lei. Marcamos e protocolamos antes.

Já que haverá um grande ato no domingo, qual é a motivação de um também na sexta?
Marcamos esse protesto antes porque queríamos fazer um pré-protesto, um “esquenta”, para passar à população a ideia de como vai ser a segurança se tiver muita gente, onde os caminhões estarão posicionados etc.

A CUT tem dito que só sairá da frente da Petrobras às 16h e você diz que o acordo previa a saída deles às 15h, para a chegada de vocês.
Exato. Nós tivemos reunião na PM e a divergência foi essa, sabíamos que a CUT ia querer infringir um acordo que está gravado. Ninguém vai para a frente da Petrobras às 15h a não ser eu e o caminhão de som. Se eles quiserem quebrar o caminhão, eles quebram e eles vão ter que pagar. A partir das 15h, qualquer ato será de vandalismo incitado pelo Lula.

Por que pelo Lula?
Ele não disse na ABI ‘querem brigar? sabemos brigar!’, disse que chamaria o exército do Stédile? Se não fosse incitado por ele, a CUT não correria no Rio e protocolaria um protesto no dia 13 por lá. Por isso não estaremos lá, porque lá a CUT registrou antes.

Você acredita que pode haver algum tipo de confronto?
Tomara que haja, porque vamos entrar com todas as ações possíveis contra o sapo barbudo [Lula].

Qual orientação será dada caso aconteça confronto?
Os manifestantes [do Revoltados] só vão chegar quando os da CUT forem embora.