A tristeza da seca no sertão

A escultora, pintora, produtora musical, cantora e compositora paraibana Roberta Albuquerque Miranda, em parceria com Tereza Tinoco, afirma na letra de “História do Sertão” que o sertanejo basta pegar na viola, para lembrar o secular problema que a seca acarreta em sua vida. A música faz parte do CD Alma Sertaneja gravado por Roberta Miranda, em 2004, pela Maynard Music.
HISTÓRIA DO SERTÃO
Tereza Tinoco e Roberta Miranda

Sertanejo quando pega na viola
E relembra sua história
Logo chora o coração
Os seus olhos ficam feito um mar de água
E no peito dói a mágoa
Por não ver florir o chão
Onde a lua se desmancha ao ser tocada
E se sente a lua amada
Se embriaga de paixão
Sertanejo tua alma cor de prata
Não engana e sim retrata
A dura história do sertão
Ah! Se eu pudesse o teu chão tocar
E com meu pranto este chão regar
Quem sabe brotaria
O teu pão de cada dia
Teu sonho
Meu sonho
O cerrado brotaria

         (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Presidente do PT pede à militância que faça doações para Genoino

MARINA DIAS
DE SÃO PAULO

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, publicou uma nota oficial no site do partido nesta sexta-feira (10) conclamando a militância petista a contribuir com doações para ajudar José Genoino a pagar a multa de R$ 667,5 mil estipulada pelo (STF) Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão.

Falcão afirma que a sentença é “indevida e desproporcional”, mas que precisa ser cumprida. “Como o PT, em virtude da lei, não pode utilizar recursos próprios e nem do Fundo Partidário, propomos esta corrente de solidariedade que deve, igualmente, estender-se aos companheiros José Dirceu, Delúbio Soares e João Paulo Cunha”, diz o texto.

De acordo com petistas, Dirceu, Delúbio e João Paulo também colocarão no ar sites como o de Genoino, para recolher contribuições em dinheiro.

O PT não pode usar recursos do Fundo Partidário com esse objetivo, mas deve organizar alguns eventos, como jantares, para fazer a arrecadação. A pedido do presidente nacional, o setorial jurídico do partido fará o acompanhamento para garantir a legalidade de todo o processo.

APOIO A GENOINO

Familiares e amigos do ex-presidente do PT José Genoino publicaram um site central na noite de quinta-feira (9), para receber doações que ajudarão a pagar a multa estipulada para o petista.

“Cumprir a pena e pagar a multa não significa reconhecer a culpa”, disse à Folha Miruna Genoino, filha do petista. Intitulado “Parceiros da família Genoino”, o site recupera a história de militância de Genoino e destaca que o petista “sempre esteve ao lado do povo, da democracia e das lutas sociais”.

Guerra civil na República Centro-Africana faz mais de um milhão de pessoas abandonarem suas casas

Da Agência Lusa

Genebra – O conflito na República Centro-Africana já provocou cerca de 1 milhão de deslocados, metade dos quais na capital Bangui, estimou a Organização das Nações Unidas (ONU), que alerta para a “dramática” situação humanitária no país.

Segundo o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Babar Baloch, “o número de pessoas deslocadas dentro do país já ultrapassou 935 mil”, como resultado do conflito que matou mais de mil pessoas apenas no mês passado. “Cerca de 60% dos deslocados são crianças”, disse o porta-voz do Acnur.

Baloch ressaltou que o clima de insegurança vindo dos ataques contra civis e os saques na República Centro-Africana tornam cada vez mais difícil o trabalho de ajuda humanitária, especialmente os de necessidades urgentes. Em Bangui, os combates entre o grupo Séléka, com origem na minoria muçulmana e as milícias de autodefesa cristãs denominadas Anti-balaka provocaram mais de 500 mortos desde o dia 5 de dezembro.

GOLPE DE ESTADO

Com 4,5 milhões de habitantes, a República Centro-Africana, um país pobre mas rico em recursos, mergulhou no caos desde o golpe de Estado de março passado organizado pela coligação rebelde Séléka que afastou do poder o presidente François Bozizé.

A onda de violência na capital começou quando as milícias Anti-balaka, partidárias de Bozizé, lançaram uma ofensiva com artilharia pesada. O exército respondeu aos ataques com o apoio ao grupo Séléka, derrubando Bozizé e declarando o líder do movimento, Michel Djotodia, como o novo presidente do país.

Um total de 1.600 soldados franceses e cerca de 4 mil soldados de paz africanos tentam restabelecer a ordem e restaurar a segurança na antiga colônia francesa. Desde março passado, 75 mil cidadãos da República Centro-Africana fugiram para a República Democrática do Congo, República do Congo, Chade e Camarões, onde se estima que o número de refugiados seja de 240 mil.

Supremo nunca aprovou intervenção federal, mesmo diante de graves violações de direitos

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André Richter
Agência Brasil

Apesar da morte de 62 detentos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, capital do Maranhão, e dos atos de violência praticados na cidade, ordenados por líderes de facções criminosas que atuam dentro do presídio, o possível pedido de intervenção federal do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, poderá ser rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte nunca aprovou uma intervenção em um estado, mesmo em outras situações idênticas de violência.

Os procuradores federais no Maranhão pediram a Janot que entre com o pedido de intervenção federal no STF. Durante reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, na quinta-feira (9) em Brasília, o subprocurador-geral da República, Aurélio Veiga Rios, manifestou apoio ao pedido. Rios justificou o apoio em face dos atos de violência ocorridos no estado. “O que estamos vendo é uma situação de absoluto descalabro do ponto de vista da dignidade humana”, disse.

Conforme entendimento firmado durante o julgamento de vários pedidos, o Supremo definiu que a intervenção é uma medida extrema, e que deve haver prova da continuidade da crise institucional para ser decretada. Diante do plano emergencial anunciado pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e pela governadora do Maranhão, Roseana Sarney, a maioria dos ministros do Supremo pode entender que a intervenção não se justifica devido às medidas tomadas.

HÁ CINCO ANOS…

Em 2008, o ex-procurador-geral da República Antônio Fernando Souza protocolou no STF um pedido de intervenção federal em Rondônia, devido à crise de segurança no Presídio Urso Branco, em Porto Velho. Há cinco anos, a ação tramita no STF e ainda não foi julgada.

Na ação, Antônio Fernando relatou que, em oito anos, houve mais de 100 mortes e dezenas de lesões corporais ocorridas em motins, rebeliões de detentos e torturas praticadas por agentes penitenciários. Na época, o presídio abrigava mais de 1.500 internos, porém, tinha capacidade para 420. Diante da gravidade dos fatos, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), cobrou medidas efetivas para acabar com os atos de violação dos direitos humanos. Em maio de 2011, o governo assinou um pacto de melhorias no sistema prisional do estado.

Outros pedidos de intervenção por falta de pagamento de precatórios e reintegração de posse foram rejeitados pelo STF. Em 2010, após a prisão do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, o então procurador-geral da República Roberto Gurgel não conseguiu aprovação do Supremo para intervenção. Na época, a Polícia Federal desencadeou a Operação Caixa da Pandora, investigação que apurou a existência de um esquema de compra de apoio parlamentar na Câmara Legislativa do Distrito Federal, que ficou conhecido como mensalão do DEM.

No Maranhão, todos eram cegos, surdos e mudos

Celso Serra
No presídio situado nas terras do Ducado dos Sarney morreu um, dois, dez, vinte, trinta.  Morreram assassinados e os corpos, mutilados, foram retirados do presídio. Mas, como em um espetáculo de mágica, ninguém viu.  Todos os agentes públicos eram cegos.
Ninguém também ouviu coisa alguma.  Todos os agentes públicos eram cegos e surdos. Como também eram mudos, ninguém falou nada.
Sendo cegos, surdos e mudos, ninguém sabia de nada.  Nem os funcionários do presídio nem a alta cúpula da administração do Maranhão.
No dicionário da língua portuguesa “maranhão” significa “mentira bem engendrada”.

No caso, o silêncio absoluto sobre as mortes violentas assumiu os ares de uma mentira bem engendrada.  Mas os fatos macabros, em elevado número, acabaram vindo à tona.  O clã dos Sarney, embora tenha realizado esforço descomunal, não conseguiu mantê-los ocultos, apenas retardou a divulgação e o domínio público.

No Maranhão, só depois das 60 mortes no ano que findou e do relatório do Conselho Nacional de Justiça, foi possível o país tomar ciência da tragédia de dor e sangue que vinha ocorrendo sob as barbas e total inércia da cúpula da administração estadual.

NÃO TEM JEITO
Toda a nação tem a impressão que no Maranhão é assim mesmo, não tem jeito. O Maranhão é recordista absoluto (olímpico) da pior renda per capita do país. Chega em segundo no pior IDH estadual.  Saneamento básico, ninguém do povo sabe o que é.

Porém, todos sabem que se nada mudou em cinquenta anos de domínio do clã Sarney,  nada irá mudar… Faz bem para a saúde deixar tudo para lá…

O governo federal e o estadual estão muito ocupados com o momento político, afinal, este é um ano de eleições e, acima de tudo, o poder deve ser mantido.  Por esta razão, não tiveram tempo para agir ou ficar, nem um pouquinho, chocados com cenas de cabeças rolando entre corpos dilacerados.  Afinal, as carnes retalhadas eram de pouca importância, meros presidiários.

O governo Roseana Sarney insistiu e continua a insistir em acusar até mesmo relatório oficial do Conselho Nacional de Justiça de difundir “inverdades”. O governo da presidenta Dilma para, ouve, nada faz.

Aparentemente, não toma partido. Mas, ao assim proceder, passa a impressão de que tomou partido de dois poderosos aliados políticos: o  o clã Sarney e o PMDB.
E essa impressão poderá estar maculando o currículo da velha guerrilheira que, segundo é de conhecimento público, na juventude, pegou em armas para combater a injustiça.  O tempo mudou Dilma?

Na alvorada de 2014

Vittorio Medioli

Por se tratar de um começo de ano tem sempre quem se exercite com a bola de cristal. O que acontecerá? Respeito os astros, às vezes me aconselho com alguém que interpreta o firmamento, mas também acredito que nada está previamente determinado. Existe uma atração fatal num sentido determinado, mas o livre-arbítrio e o merecimento têm capacidade de vencer qualquer tendência adversa. Assim como é aconselhável iniciar a viagem com a maré a favor, ninguém poderá parar quem tem habilidade para enfrentar a maré contrária.

Já que esse é um ano de eleição presidencial, se pode sentir o palpitar nesses dias da vontade de mudança, especialmente de uma classe mais exigente, crítica, desesperançada, agora muito mais numerosa e unida pelas redes sociais de comunicação.

Mesmo com escassa capacidade de introspecção se enxergam evidências de estragos numa sociedade afastada de princípios morais mais sólidos, anestesiada circunstancialmente pela incipiente facilidade de consumo.

Na história não se encontram casos de lassidão moral associados a prosperidade, as exceções duraram pequenos lapsos e se encerraram desastradamente. Crise ética no comando se alastra desgraçadamente por todo lado.

Enquanto dura a festa parece que não haverá fim. Entretanto, a democracia sem princípios éticos é como um veículo sem freio, destinado a capotar na anarquia. Essa é uma equação ensinada nos séculos de história.

INDOLÊNCIA

Sinais alarmantes se multiplicam. Governantes mais preocupados com o poder que com a nação, apenas isso seria suficiente para desagregar qualquer projeto de nação. Mas a indolência, a falta de disposição, a ignorância e o interesse mesquinho acabam consagrando no poder quem dele almeja para se locupletar.

“No inferno – segundo Dante – os lugares piores estão reservados àqueles que, em época de crise moral, ficaram neutros”. Quer dizer que, contrariando os códigos legais, pior será no inferno para os neutros que para os próprios locupletados. A sabedoria de Dante dá um calafrio nos insossos e admoesta os políticos silenciosos.

Os partidos “históricos” perderam abruptamente o rumo da ideologia, misturam-se com mais de 40 siglas com norte nos bolsos, no poder, na vaidade que assombra a devastada área publico/política tupiniquim.

Quem se salva? Difícil de se dizer. Depois que Demóstenes Torres foi pilhado, não se consegue acreditar em mais ninguém. Até as Cassandras modernas sofrem de bipolaridade.
NA PAPUDA

Quem mais se definia ético há apenas 12 anos atrás, hoje está preso na Papuda. A ética perfuma apenas discursos de palanque, para inglês ver, para juventude sonhar e para o povão votar.

Cabe refletir: se a mais definida força partidária, autoproclamada como ética e incorruptível, está na Papuda, onde estão os honestos? Em alguns Estados os adversários se foram honestos esqueceram-se de se mostrar honestos. E, ainda, pagam o castigo que Dante previa para os “neutros” nos momentos de grave crise moral.

A disputa que se dava mostrando virtudes, hoje se trava empurrando nos adversários “dossiês” que verdadeiros, meio verdadeiros ou até integralmente fajutos dão a cota ínfima da luta política.

Há uma sensação que nos últimos anos quem detinha o poder banqueteou fartamente, delapidou o patrimônio nacional, mas os adversários “silenciosos” passaram os dias lambendo as migalhas que caíam da mesa?

Pouco interessa se isso é verdadeiro! A verdade, com polícia e tribunais “políticos”, nunca chega a público, como cupim fica roendo as colunas do sistema. O que mais conta de imediato é a “sensação” distribuída ao público, é essa que influencia o eleitor comum numa “democracia”.

MORALIDADE

Obviamente não haveria dúvida em arguir que o exercício da moralidade férrea estaria hoje gozando de preferência inconteste entre eleitores. Na sua falta, Dilma conseguiu fazer esquecer a afinidade com os inquilinos da Papuda. Situa-se no meio da geleia geral, e já que a exposição midiática de um presidente é vinte vezes aquela de um concorrente, a “notoriedade” passa a ser “virtude”, pouca importam os sinais de um governo desastrado e oportunista, focado no desfrute do poder.

Apostar agora as fichas num candidato é como atirar no escuro.

Os astros estão contra Dilma, terá muita dificuldade, dependerá mais dos adversários persistirem no erro, já que as possibilidades dela manobrar numa economia esgarçada são mínimas.

De qualquer forma o povo brasileiro pode se preparar para enfrentar as dívidas fundadas na falta de princípios éticos de governantes coniventes com a imoralidade.

Caso Snowden: É legítimo roubar segredos vergonhosos do governo e publicá-los

John Glaser
Antiwar 

Um novo livro, recém-lançado, revela pela primeira vez a identidade de um grupo de ativistas norte-americanos que assaltaram escritórios do FBI, roubaram documentos sensíveis e vazaram os documentos para jornalistas. A maioria dos norte-americanos já nem se lembram desse assalto, porque o fato foi logo encoberto pela importância das revelações vazadas, que incluíam o ataque contra dissidentes internos operado por um programa inconstitucional em que o FBI trabalhava, o COINTELPRO.

“Os assaltantes jamais foram apanhados”, escreve Mark Mazetti no New York Times, “e os documentos roubados que eles anonimamente enviaram por correio a jornalistas viriam a ser a primeira gota de uma avalanche de revelações sobre espionagem interna em grande escala e operações ilegais, pelo FBI, contra grupos norte-americanos dissidentes.

Betty Medsger, do Washington Post, foi uma das jornalistas que receberam documentos enviados pelos ativistas. Escreveu sobre “o documento que talvez fosse o mais terrível dos que foram roubados: um memorando de 1970, que dava uma primeira pista da obsessão de Hoover contra qualquer tipo de dissidência” – lembra Mazetti no NYT.

“O memorando exigia que os agentes aprofundassem as entrevistas com ativistas pacifistas e membros de grupos de estudantes dissidentes.” “Essa ação fará aumentar a paranoia endêmica naqueles círculos e ajudará a fixar a ideia de que há um agente do FBI por trás de cada caixa de correio” – dizia a mensagem do comando do FBI.

VIGILÂNCIA GENERALIZADA

Outro documento, assinado pelo próprio Hoover, revelava a vigilância generalizada, ativa nos campus universitários, contra grupos de estudantes negros. Mas o documento que teria o maior impacto contra o reinado do FBI em todas as atividades da espionagem doméstica foi um cabeçalho de mensagem, datado de 1968, em que se lia uma palavra até então desconhecida: Cointelpro. Nem os assaltantes que roubaram os documentos nem os jornalistas que os receberam conheciam o significado daquela palavra e assim continuaram por muitos anos. Só quando Carl Stern, da rede NBC News, requisitou e obteve judicialmente outros documentos do FBI, nos termos da Lei da Liberdade de Informação, afinal se conheceram os primeiros contornos do Cointelpro – forma abreviada de “Programa de Contrainteligência”.

Desde 1956, o FBI mantinha uma caríssima campanha de espionagem contra líderes dos movimentos pelos direitos civis, organizadores políticos e suspeitos de simpatizarem com o comunismo, e trabalhava para semear a discórdia e a desconfiança entre os membros de vários desses grupos. No bojo da sombria litania de revelações, havia uma carta de chantagem, enviada anonimamente por agentes do FBI ao Reverendo Dr. Martin Luther King Jr., em que ameaçavam divulgar casos extraconjugais, se ele não cometesse suicídio.

“Não se tratava só de espionar cidadãos norte-americanos”, disse Loch K. Johnson, professor de Assuntos Públicos e Internacionais na University of Georgia, que era então assessor do senador Frank Church, Democrata do Idaho. “O objetivo do Cointelpro era destruir vidas e arruinar reputações.” À época, o assalto e os vazamentos subsequentes foram ferozmente condenados. Mas, com o tempo, os abusos do FBI chegaram afinal às manchetes, o que levou a consideráveis esforços para reformas, entre meados e o final da década dos 1970s.

CONDENAÇÃO

Hoje, a atividade do FBI de J. Edgar Hoover é condenada quase universalmente (até por funcionários do governo, pelo menos em público). Os assaltantes jamais foram descobertos. A caçada foi suspensa, porque se estabeleceu o consenso de que haviam feito algo de bom. Agiram em nome do interesse do povo dos EUA, porque o governo dos EUA operava contra a Constituição. Cometeram ato de ilegalidade, mas os crimes do estado eram piores.

Difícil não ver aí muitas semelhanças com o que fez Edward Snowden. Prevejo que o desenvolvimento da atual controvérsia ecoará os eventos que se seguiram ao assalto, em 1971, contra escritórios do FBI. Não tardará, e os que hoje condenam Snowden como criminoso e traidor serão sobrepujados por um consenso crescente de que a apropriação de documentos do estado, depois entregues a jornalistas, expôs novos crimes terríveis cometidos pelo governo contra o interesse público. Sem dúvida, a história trabalha a favor de Snowden.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

 

Morreu o general israelense Ariel Sharon, famoso pela coragem e pela impiedade

Carlos Newton

O general israelense Ariel Sharon, ex-primeiro-ministro, morreu neste sábado, aos 85 anos, depois de 8 anos em coma, informou o hospital de Tel Aviv onde ele estava internado. O quadro médico de Sharon começou a se deteriorar há dois meses e meio, e nos últimos dias ele sofreu uma insuficiência renal que afetou vários de seus órgãos vitais.

Ex-ministro da Defesa de Israel, Sharon era conhecido pela coragem e pela impiedade.  O jornalista Moisés Rabinovici, do Estadão, assim o descreveu: “Tinha a fama de rebelde, não cumpria ordens, e geralmente as excedia. Excesso: esta sempre foi a marca de Sharon. Para ele, não era “olho por olho”, e sim “dois olhos por um olho”. Talvez por isso também o chamavam de Trator, Elefante e Rei de Israel. Nada o brecava. Uma vez, em 1956, ele levou seus paraquedistas a saltar atrás das linhas egípcias, no passo de Mitla, no Deserto do Sinai, para um furioso ataque em que perdeu dezenas de soldados. Outra vez, penetrou com um comando em território jordaniano para vingar o assassinato de uma israelense e seus dois filhos – a Operação Kibia. Uma tragédia: 42 casas de pedra foram dinamitadas, matando seus ocupantes, ao todo 69 pessoas, entre elas muitas crianças”.

Traduzindo: não foi embora um grande homem. Mas que descanse em paz e enfim tenha o julgamento divino por seu atos.

Impasse continua em Humaitá, onde os corpos não são encontrados e os índios voltarão a cobrar pedágios

Trabalho dos militares que buscam pistas de desaparecidos

Da Agência Câmara

A Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Indígenas da Câmara dos Deputados não vai tomar a defesa de índios da região de Humaitá, no Amazonas, se for comprovada a responsabilidade deles no desaparecimento de três moradores da cidade. A afirmação é do presidente da frente, deputado Padre Ton (PT-RO).

Por outro lado, os índios Tenharim negam qualquer envolvimento com o desaparecimento do professor Steff Pinheiro de Souza, o representante comercial Luciano Ferreira Freire e funcionário da Eletrobrás Amazonas Energia Aldeney Ribeiro Salvador, que viajavam pela rodovia Transamazônica (BR 230), de Humaitá rumo a Apuí, no Sul do Amazonas, trajeto cortado pela área de reserva dos indígenas.

FUNAI É ACUSADA

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), disse que a Funai é cúmplice da situação e cobrou a investigação por parte do Governo Federal. “A Funai é subordinada ao Ministério da Justiça. Queremos que o ministro tome as providências cabíveis, que o próprio advogado-geral da União tome as providências cabíveis”, declarou.

“A Funai está mancomunada com os índios que estão fazendo isso. É uma meia dúzia de índios que estão se aproveitando da situação e fazendo acontecer o que está acontecendo, colocando em risco brancos e índios também”, disse Heinze.

Uma força-tarefa da Polícia Federal faz buscas na região. Há poucos dias, foram encontrados restos de um carro incendiado próximo de uma aldeia Tenharim, que está sendo periciado.

O mediador apontado para o conflito, bispo dom Francisco Merkel, afirmou que as desavenças começaram em 2006, após a instalação de pedágios cobrados pelos índios na Transamazônica.

A Justiça Federal determinou o envio de cópia do processo sobre a segurança dos índios na reserva Tenharim à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que o órgão internacional tome ciência dos fatos e analise se a postura do Estado brasileiro no caso está em sintonia com acordos internacionais.

MAIS DOIS PROMOTORES

O Corregedor Geral do Ministério Público do Estado do Amazonas, procurador de Justiça José Roque Nunes Marques, esteve no município de Humaitá, ao sul do Estado, para conversar com uma comissão que está empenhada em conter os conflitos que atingem a região.

“Fizemos uma avaliação de todo o processo de condução do caso e queremos, em primeiro lugar, tranquilizar a população do município. Estamos ajudando na apuração do caso e a postos para atender a comunidade. Dois promotores estão sendo deslocados para Humaitá para também auxiliar no trabalho”, disse.

Além do corregedor, o Comandante Geral do CMA, Gen. Eduardo Vilas Boas e representantes da 17ª  Brigada de Porto Velho, do 54º Batalhão de Infantaria de Selva, da 12ª Região Militar, do CPE, do 4º Batalhão de Polícia de Humaitá, e ainda representantes das Polícias Rodoviária e Federal, estão em busca de soluções urgentes para os conflitos.

ÍNDIOS QUEREM PEDÁGIO

Uma das questões mais polêmicas é a cobrança do pedágio. Os índios insistem em continuar. Eles justificam a cobrança do pedágio com argumentos contundentes. Dizem que necessitam dessa renda para evitar que integrantes da tribo cedam ao tráfico de entorpecentes e que o pedágio evita também que eles sejam obrigados a fazer o cultivo de plantas alucinógenas.

Os Tenharim vão reabrir dia 1º de fevereiro os pedágios na Transamazônica. A cobrança será feita apesar da ameaça de um novo ataque dos brancos que, no dia 26 de dezembro, atearam fogo aos postos instalados na área indígena.

Os caciques prometeram estourar as pontes e isolar a reserva caso haja novo ataque dos brancos. Eles foram informados de que estaria sendo preparada uma nova ação para o próximo dia 14 de janeiro.

“O povo tenharim já decretou que o pedágio vai continuar, independente dos protestos de algumas pessoas. Demos um intervalo para não atrapalhar a força-tarefa (que busca os desaparecidos)”, anunciou o cacique Aurélio Tenharim.

De como o Oriente aprimorou o Ocidente no tempo das cruzadas, quando os europeus fediam como queijo estragado

Paulo Solon

Quase todo o conhecimento mais sofisticado veio do Oriente com as Cruzadas. A álgebra veio das Arábias. E daí? No tempo das Cruzadas, os europeus fediam como queijo estragado. Não conheciam nem sabonete, nem dentifrício. Aprenderam com os muçulmanos. Não conheciam vaso sanitário nem chuveiro. Seus dentes eram podres e verdes.

Bem vindo à Idade Média. A Europa, no primeiro milênio era uma localidade sem misericórdia, onde a ignorância, sujeira repugnante, obscenidade e fome consistiam em modo de vida. Quem ofereceu redenção foi a Igreja, armando as Cruzadas e travando contato com os árabes. Você conhece a História.

As Cruzadas mudaram tudo. Mudaram nosso modo de pensar. Ensinaram-nos os métodos científicos e a classificação de animais e plantas em gêneros e espécies. Das Cruzadas é que surgiu a arte de fazer distinção entre pensamento claro e preciso. Elas nos introduziram aos trabalhos de filósofos desconhecidos. Praticamente o renascimento do conhecimento veio com as Cruzadas. São Tomás de Aquino jamais teria pensado em combinar religião e filosofia formando um grande sistema intelectual.

Elas mudaram nossa crença. As Cruzadas nos ensinaram sobre outras religiões e outras culturas. E sobre outros estilos de vida. Tiraram-nos desse paroquialismo, dando-nos conhecimento de outras modos de vida. Geografia surgiu com as Cruzadas. Sem as Cruzadas não teria havido Marco Polo, nem Christophorus Columbus. Até o modo de alimentação as aprimorou com as Cruzadas, aprendendo a alimentação macrobiótica árabe.

É muito cansativo recordar que os europeus nada conheciam. Com a aprendizagem das tintas, o mundo ficou mais bonito e intrigante. Não teria havido Michelangelo sem a Primeira Cruzada. No Ocidente não havia perfume, nem seda.

As Cruzadas mudaram até o modo de os europeus fazerem amor. Tomar banho regularmente. Os europeus não conheciam nem espelho. E chega. Não preciso falar mais.

Um soneto de Aurélio Buarque de Holanda

O crítico literário, lexicógrafo, filólogo, professor, tradutor e ensaísta alagoano Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989), também usou as palavras para, nos belos versos do soneto “Amar-te”, exaltar seu amor por sua filha.

AMAR-TE

Aurélio Buarque de Holanda

Amar-te – não por gozo da vaidade,
Não movido de orgulho ou de ambição,
Não a procura da felicidade,
Não por divertimento à solidão.

Amar-te – não por tua mocidade
– Risos, cores e luzes de verão –
E menos por fugir à ociosidade,
Como exercício para o coração.

Amar-te por amar-te: sem agora,
Sem amanhã, sem ontem, sem mesquinha
Esperança de amor, sem causa ou rumo.

Trazer-te incorporada vida fora,
Carne de minha carne, filha minha,
Viver do fogo em que ardo e me consumo.

     (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Não haverá intervenção no Maranhão, por motivos essencialmente políticos

César Cavalcanti

O procurador-geral da República Rodrigo Janot deverá pedir intervenção no Estado do Maranhão devido aos últimos  acontecimentos verificados no sistema carcerário daquele Estado. O pedido deverá, então, passar pelo Supremo Tribunal Federal (STF), para apreciação dos onze ministros que formam aquele egrégio Tribunal.

Notícia nos principais meios de comunicação, tanto nacionais como internacionais, a crise no sistema prisional do Maranhão reflete, com muita nitidez, o completo descaso dos governantes em uma área que deveria receber atenção especial, haja vista que mesmo os presos de alta periculosidade, portanto, mais nefastos à sociedade, têm direito de cumprirem a pena sob proteção do Estado.

UM ESTADO RICO
Em entrevista concedida aos órgãos de imprensa do Maranhão, publicada em toda mídia nacional, a governadora  Roseana Sarney, para justificar tamanha barbaridade, disse, sem pestanejar, que tudo que está acontecendo era pelo fato de o Maranhão ter se tornado “um estado rico”. Entenda-se tal justificativa como uma ofensa à cidadania, claro.
A intervenção se faz mais do que necessária, tendo em vista a gravidade dos fatos, mas não creio que os ministros do Supremo Tribunal Federal venham a acatar o pedido do procurador-geral da República Rodrigo Janot, por vários motivos, sobretudo razões de ordem essencialmente políticas. Esta é a nossa realidade.

Funai enfim exonera coordenador regional da área onde três pessoas estão desaparecidas

Paula Laboissière e Alex Rodrigues
Agência Brasil

A Fundação Nacional do Índio (Funai) exonerou o coordenador da regional Madeira, no Amazonas, Ivã Gouvêa Bocchini. A regional é responsável pela condução da política indigenista na região de Humaitá, no sul do Amazonas, onde, há duas semanas, uma reserva tenharim foi atacada por não índios. Construções e carros da Fundação Nacional do Índio (Funai) foram incendiados, obrigando parte dos índios a buscarem abrigo em uma unidade do Exército.

A portaria da Funai com a exoneração de Bocchini foi publicada hoje (10), no Diário Oficial da União. Procurada pela reportagem, a Funai informou que não vai se pronunciar sobre o assunto e não informou quem assumirá a coordenação regional.

No início de dezembro, Bocchini se envolveu em uma polêmica ao divulgar no site oficial da Funai a hipótese de que o cacique Ivan Tenharim teria sido assassinado. Crítico da ação ilegal de madeireiros que atuam na região, o líder indígena foi encontrado morto, caído às margens da Rodovia Transamazônica (BR-230), com vários hematomas pelo corpo e um ferimento na cabeça. As causas e as circunstâncias de sua morte ainda não foram esclarecidas. Há suspeitas de que ele sofreu um acidente de moto.

Poucos dias depois da morte do cacique, três homens desapareceram enquanto passavam de carro pela Reserva Indígena Tenharim Marmelos, cortada pela Rodovia Transamazônica. Existe a hipótese de que o desaparecimento do professor Stef Pinheiro de Souza, 43 anos, do técnico Aldeney Ribeiro Salvador, 40, e do representante comercial Luciano Ferreira Freire, 30 anos, seria uma represália à morte de Ivan Tenharim. A polícia instaurou inquérito para apurar os desaparecimentos, mas a tensão entre índios, madeireiros e moradores de Humaitá se acirrou com os primeiros ataques à aldeia indígena.

CRÍTICAS

O coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi-Norte), Guenter Francisco Loebens, disse não conhecer o motivo da exoneração de Bocchini, mas criticou a atuação da fundação durante os recentes episódios. “Não sei o que motivou a exoneração, mas percebemos uma ausência muito grande da Funai em relação aos últimos acontecimentos. Inclusive no sentido de apoiar os tenharins. Só depois que o Ministério Público a acionou, a Funai fez algo para garantir a segurança da comunidade. Esperávamos uma ação mais ativa da fundação nessa questão da proteção aos índios,  já que o contexto era de extrema violência e os índios estavam vulneráveis”, disse Loebens à Agência Brasil.

Em nota divulgada na quarta-feira (8), a Funai afirmou que não é omissa em relação à segurança dos índios tenharim, mas que seu trabalho, nesse caso, é muito mais de mediação. De acordo com a fundação indigenista vinculada ao Ministério da Justiça, no dia 28 de dezembro, a Justiça Federal concedeu liminar determinando que tanto a entidade quanto a União elaborassem um plano para garantir a integridade física dos indígenas.

A Justiça determinou ainda envio de cópia do processo à Organização dos Estados Americanos (OEA), para avaliar possível violação de direitos. A Funai chegou a pedir reconsideração da decisão, mas esta foi mantida.

Família de Genoino lança novo site de doações e diz que petista é ‘perseguido’

Imagem da página principal do site de doações para o ex-deputado Genoino Foto: Reprodução

Lilian Venturini e Ricardo Chapola
O Estado de S. Paulo

Familiares e amigos do ex-presidente do PT José Genoino lançaram um novo site para receber doações para o pagamento da multa de R$ 667,5 mil imposta contra o petista no julgamento do mensalão. O valor foi corrigido pela Justiça, que antes havia divulgado que o débito era de R$ 468 mil. Em texto publicado na homepage, os organizadores afirmam não reconhecer “nenhum fundamento de justiça na multa” e que o ex-deputado é alvo “de uma perseguição rancorosa e odiosa”.

Além da condenação de 6 anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha, Genoino foi multado pelo Supremo Tribunal Federal. A Vara de Execuções Penais do Distrito Federal corrigiu o valor divulgado anteriormente para R$ 667.513,92 e determinou que o pagamento seja feito até o dia 20. A correção foi feita com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), a partir da data dos fatos que foram julgados pela Justiça. Ou seja, os R$ 468 mil eram em valores de 2003.

De acordo com a defesa do petista, o valor da multa, sem correção, seria de aproximadamente R$ 360. Genoino está cumprindo prisão domiciliar em Brasília. O advogado do ex-deputado, Cláudio Alencar, argumenta que ele não tem os recursos para saldar o débito. “O imposto de renda dele é conhecido por todo mundo. A sua casa (em São Paulo) é seu único patrimônio”, afirmou Alencar ao Broadcast Político.

REVISÃO DAS MULTAS

A Justiça também determinou a atualização da multa de outros condenados do mensalão: a multa do empresário Marcos Valério passou de R$ 3,06 milhões para R$ 4,1 milhões, e a de Ramon Hollerbach foi elevada de R$ 2,79 milhões para R$ 3,9 milhões.

“Vamos levantar nos próximos dias o dinheiro para quitar a multa. Cada um contribuirá com o que estiver a seu alcance”, afirma o texto do site em prol de Genoino. “Que fique bem claro que não estamos reconhecendo nenhum fundamento de justiça na multa. Mas não ficaremos parados quando se busca humilhar um homem da estatura moral e política de Genoino”, diz a mensagem publicada na página intitulada “Parceiros da família Genoino”. Os autores relembram a trajetória política do petista e afirmam que a família não tem recursos para arcar com os gastos.

A nova página entrou no ar na noite de quinta-feira, 9, no lugar de um site antigo produzido por um designer contratado pela família de Genoino. Os parentes do petista aproveitaram a abertura de uma conta na Caixa Econômica Federal que centralizará as doações para também relançar o site.

Na página antiga, um relatório indica que R$ 13.235 haviam sido arrecadados até terça-feira, 7. Agora uma mensagem orienta o internauta a fazer doações pelo novo site, em que apenas doadores conseguem visualizar o valor arrecadado.

 

Vergonha mundial

Thais de Luna e Julia Chaib
Correio Braziliense

“É inaceitável que uma situação como esta se prolongue por tanto tempo sem nenhuma atitude efetiva das autoridades responsáveis”. A nota divulgada ontem pela Anistia Internacional sobre as graves violações de direitos humanos ocorridas no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, chama a atenção para uma pergunta difícil de responder: de quem é a culpa pelos mais de 150 assassinatos ocorridos no sistema carcerário maranhense desde 2007? Enquanto o jogo de empurra se desenrola entre os Executivos federal e estadual, o mundo lança olhares repreensivos para as autoridades brasileiras.

O governo do Maranhão preferiu classificar como “inverdades” as barbaridades relatadas pelo Conselho Nacional de Justiça após vistoria em Pedrinhas e alegar que investiu R$ 130 milhões em melhorias nas cadeias. A responsabilidade pelo caos, no entendimento estadual, é de facções criminosas que atuam livremente dentro das prisões — por mais que a ordem e a segurança nos presídios devam ser garantidas justamente pela gestão da governadora Roseana Sarney (PMDB).

A problema do sistema penitenciário maranhense vai além dos muros do presídio e agrava a situação do estado com o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano do país. Por ordem dos chefes de facções detidos, bandidos instalaram o caos na cidade na última semana.

Ontem, um policial do Serviço de Inteligência da Polícia Militar do Maranhão recebeu uma ameaça de morte pelo celular. No início da noite, foram divulgadas as imagens do ataque que incendiou o ônibus em que estava Ana Clara Santos Sousa, na última sexta-feira. A menina de 6 anos morreu três dias depois, com 98% do corpo queimados. Desde o início do ano passado, 62 detentos foram assassinados no local. Permanecem internadas a irmã de Ana Clara, de 1 ano e cinco meses, e a mãe, Juliane Carvalho Santos, 22 anos. Outras duas pessoas também continuam sob cuidados médicos.

O Ministério da Justiça (MJ) afirma que os R$ 20 milhões que seriam repassados ao Maranhão, em 2011, para a construção de duas cadeias públicas, não foram investidos “porque os projetos apresentados (pelo estado) não foram aprovados”. Acontece que, das 83,5 mil vagas prometidas pelo governo federal, desde a segunda gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, nenhuma foi entregue, como mostrou o Correio recentemente. Ontem, o MJ prorrogou até 23 de fevereiro a atuação emergencial da Força Nacional de Segurança Pública dentro de Pedrinhas, atendendo um pedido de Roseana.

CORRESPONSÁVEIS

Apesar das alegações de que têm agido para resolver o problema, especialistas avaliam que a União e os estados são corresponsáveis pela situação degradante dos presídios brasileiros. “Os estados só ligam para essa questão quando dá problema. Se fosse prioridade, se conseguiriam bons projetos. Quando é para algo que vai trazer voto, sempre arranjam bons técnicos”, analisa o cientista político Guaracy Mingardi. “Eram coisas sem pé nem cabeça, que não explicavam como o dinheiro seria gasto. Não dava para assinar, senão eu seria processado”, recorda, sobre projetos que analisou enquanto foi subsecretário Nacional de Segurança Pública. Para Mingardi, o Judiciário também tem uma parcela de culpa, já que, pela morosidade nos julgamentos, gera uma multidão de presos não condenados. “Você não pode cumprir pena sem ser julgado. E, se depois for considerado inocente, quem vai te devolver o tempo preso?”

José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da Polícia Militar (PM), e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, ressalta que a área também não é prioridade para a União. Ele cita como exemplo o Fundo Penitenciário Nacional. Apesar de receber cerca de R$ 200 milhões por ano, o governo sistematicamente reduz os valores do fundo e os reverte para o pagamento de juros. “Então, uma série de medidas, como reforma de presídios, treinamento de funcionários, aumento de vagas deixam de ser feitas para se criar um superavit primário”, critica.

REPERCUSSÃO

Começam a chover críticas internacionais ao país. A ONG Human Rights Watch classificou os “crimes bárbaros” de Pedrinhas como “parte de um problema muito mais amplo de violência e caos nas prisões maranhenses”. Para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, é lamentável “ter que, mais uma vez, expressar preocupação com o péssimo estado das prisões no Brasil”.

De acordo com o embaixador José Botafogo Gonçalves, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o prejuízo ao país com as repreensões internacionais vai além de um simples simbolismo. “É uma mancha na reputação brasileira, e não só deste governo, mas dos antecedentes”, analisa. Para Gonçalves, no entanto, as críticas externas podem acordar os governos “para que o país passe a se comportar civilizadamente, de acordo com o direito penal brasileiro — no qual a pena não deveria ter sentido punitivo, mas de reeducação — e com os compromissos internacionais de direitos humanos que ele próprio assumiu”.

Enquanto isso, são 80 kg de lagosta, 750 kg de caranguejo e 2,5 toneladas de camarão. A lista dos produtos pedidos para suprir as residências oficiais do governo do Maranhão em 2014 é extensa e soma mais de R$ 1,1 milhão. Também não ficaram de fora itens como salmão fresco e defumado, sorvetes e 2,5 mil litros de refrigerante. Os leilões divulgados ontem saem do forno no momento em que o estado enfrenta a pior crise da história no sistema penitenciário.

O governo cumpre a meta, mas dá mostra de imaturidade

01

Murillo de Aragão

No último dia 3 de janeiro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou o resultado do superávit fiscal. Disse que queria começar o ano dando boas notícias. Mantega ressaltou que os dados ainda não são definitivos e ajustes poderão ser feitos. Normalmente, esse número é divulgado na última semana de janeiro. O ministro quis antecipar o anúncio para sinalizar comprometimento do governo com a austeridade fiscal, depois de um ano de críticas e desconfiança em relação à política fiscal.

O Brasil cumpriu sua meta de superávit primário de 2013. Tempos atrás, afirmei que dificilmente chegaríamos aos R$ 75 bilhões acordados. Queimei a língua. Conseguimos cumprir a meta com sobra de R$ 2 bilhões. No entanto, ela foi cumprida com base em receitas extraordinárias do fim de ano, em especial com o programa de refinanciamento de dívidas tributárias e o leilão do campo de Libra. O Refis rendeu ao governo R$ 20 bilhões. Já o leilão de Libra permitiu uma receita de R$ 15 bilhões. Isso sem falar nas receitas com as concessões.

Não foram feitas mágicas contábeis, mas tivemos de contar com o extra para cumprir a meta. Boa notícia, em termos. Caso tivéssemos feito o dever de casa, teríamos poupado muito além e reforçado a robustez fiscal do país. Conforme artigo de Miriam Leitão no jornal “O Globo” de 3.1.2014, a meta do governo, no início, era de R$ 155 bilhões. Depois de o governo abater gastos com o PAC e desonerações, foi entregue um resultado de R$ 130 bilhões.

Ao anunciar o cumprimento da meta, Guido Mantega deu um recado aos “nervosinhos” do mercado financeiro, que, como eu, achavam que o Brasil não cumpriria a meta. Em pronunciamento anterior, a presidente Dilma Rousseff também foi na mesma linha, ao atacar a “guerra psicológica” que se faz contra a política econômica. Ambos demonstram certo recalque e imaturidade que não deveriam existir por parte de nossas lideranças.

CREDIBILIDADE ABALADA

A credibilidade econômica do país foi abalada por conta de decisões tomadas nos âmbitos financeiro e fiscal do governo. As idas e vindas nos processos de concessão foram decorrentes de decisões governamentais, e não do mercado. Essas decisões podem resultar em um rebaixamento da nota do Brasil pelas agências de classificação de risco.

A Standard & Poor’s anunciou que mudanças na nota brasileira podem ocorrer “antes ou depois” das eleições de outubro. De acordo com o responsável pela América Latina da S&P, Sebastian Briozzo, o descontrole do governo com as contas públicas deixou o país sem condições de contar com a política fiscal para estimular o crescimento. A agência está atenta à piora na relação entre a dívida bruta e o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, hoje em 58,8%, segundo o Banco Central.

Considerados os equívocos de condução da política econômica ao cumprir a meta fiscal com base em receitas extraordinárias, era hora de mostrar humildade, sobriedade e consistência. Mas isso não é suficiente. O governo deve reafirmar compromissos com a boa gestão fiscal do Brasil e com mudanças que façam do país um ambiente ideal para investimentos.

Deveria haver também um comprometimento claro com o cronograma das obras de infraestrutura e com medidas destinadas a acelerar o processo decisório do governo. Não é hora de confronto nem de ironias, e muito menos de trocos. A hora é de reafirmar a intenção de fazer um governo que funcione melhor para todos os brasileiros. (transcrito de O Tempo)

O PT e a terceirização anônima da ofensa

João Bosco Rabello
Estadão

De novo na pauta policial, com a decretação da prisão do deputado João Paulo Cunha (SP), ex-presidente da Câmara, o PT produz um daqueles episódios destinados a engrossar o catálogo de ações dos  “aloprados”..  Tornou-se recorrente no partido o recurso de atribuir a vândalos não autorizados ações premeditadas que têm endosso da direção.

Tão cômodo quanto surrado, o método reflete a dificuldade do partido em promover a mudança que seria natural após um escândalo com as consequências do mensalão. Mantém a estratégia do texto apócrifo, como os dossiês que confeccionou em diversos momentos da luta política recente, sempre com o intuito de desqualificar adversários para tangenciar o debate.

Agora foi a vez do governador Eduardo Campos (PSB-PE) e sua provável companheira de chapa na disputa presidencial, Marina Silva, atacados em página oficial do partido no facebook , sem que a direção desautorize o texto , mas dele se desvinculando. Não há crítica, mas ofensa, em tom infantil, como a raposa da fábula que desdenha o que seu limite animal a impede de alcançar.

O adesismo de que acusa Campos e Marina denota, no mínimo, dificuldade de compreender aquilo que vocaliza. O termo se ajusta a quem troca de posição para obter vantagem, entregando-se a uma zona de conforto que se mostrou mais forte que a determinação de enfrentar o que lhe parece errado.

Trocando em miúdos, o adesismo, na política, é comumente aplicado àquele que deixa a oposição para se beneficiar das facilidades atrativas de governos, especialmente em fase eleitoral. Não o contrário, caso de Campos e Marina que abriram uma dissidência quando os índices de aprovação da presidente Dilma Rousseff ainda habitavam a estratosfera.

ANONIMATO

De tanto valer-se do anonimato das redes, estimulado pela omissão do Estado em nome de uma pseudo liberdade de expressão, o PT fez migrar o método para sua página oficial, sem qualquer constrangimento. O que chama a atenção, mais que o conteúdo – este, sim, tolo -, é a falta de assinatura, de pessoa física ou institucional, num  reconhecimento do caráter imoral do gesto.

O partido passa recibo também do incômodo com a candidatura do PSB, que lhe tira o monopólio da esquerda, ainda que o conceito que põe o PSDB à direita seja realidade apenas como conveniência do partido de Lula. Mesmo no seu distorcido manual ideológico, o PSB não é encaixável à direita. É um incômodo dissidente.

Daí a tese do adesismo invertido: Campos e Marina, porém, ampliaram muito as suas dificuldades ao migrarem para a oposição, perdendo o conforto que poderiam ter no governo. O PT trai esse fato ao criticar Campos por não esperar por 2018, quando seria o candidato natural à sucessão de Dilma.

O que é puro diversionismo. O PT não inspira confiança em nenhum aliado. Não faz parte de seus mandamentos honrar  compromisso político, do que se queixam dezenas de vítimas de acordos descumpridos, entre elas fundadores da legenda decepcionados com o rumo fisiológico tomado pelo partido.

O episódio do facebook compromete a cúpula do partido e justifica a suspeita retroativa para versão de desconhecimento sustentada para os episódios anteriores, que envolveram crimes como o de quebra do sigilo de adversários e de seus familiares, na confecção de dossiês falsos.

O termo “aloprado”, confirma-se agora, é uma esperta forma de blindar o partido das consequências, políticas ou legais, dos malfeitos de seus correligionários, viabilizando a ofensa sem o ônus de responder por ela.

A atitude da direção do PT está para a política como a dos dirigentes de clubes para a violência nos estádios: ambos fingem não saber – e negam estimular – o que seus militantes/torcedores fazem.

A diferença é que no futebol os clubes começam a ser punidos pelas ações de seus torcedores.