Discurso de Bolsonaro na ONU sobre “verdades brasileiras” foi festival de fake news

Jair Bolsonaro durante Assembleia Geral da ONU

Jair Bolsonaro inventou na ONU uma realidade à brasileira

Deu em O Tempo

O presidente da República, Jair Bolsonaro, como já é tradição, abriu a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (21).

Durante seu discurso, o Chefe de Estado defendeu a política ambiental brasileira, voltou a atacar prefeitos e governadores em relação às medidas adotadas durante a pandemia e convocou investidores a olharem com mais carinho para o Brasil.

IMPRENSA E CORRUPÇÃO

“Venho mostrar um Brasil diferente do publicado em jornais e TV. O Brasil mudou muito desde 2019. Estamos há dois anos sem corrupção. O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a família e defende a Constituição. Isso vale muito, pois estávamos à beira do comunismo. Nossa estatais davam prejuízo. Tínhamos contratos com países comunistas. Isso tudo mudou. Apresento um novo Brasil”.

INVESTIMENTOS

O Brasil tem o maior programa de investimentos junto à iniciativa privada. Na área de estrutura, temos mais de 6 bilhões de dólares em contratos para ferrovias, aproximando nosso modelo ao americano. Em poucos dias recebemos 14 requerimentos para novas ferrovias. Em nosso modelo, promovemos o ressurgimento do modal ferroviário. Um grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico. O maior leilão da nossa história aconteceu em abril. Temos tudo o que o investidor procura: grande mercado consumidor e confiança no governo”.

LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

Nossa completa e sustentável agricultura, com baixa emissão de carbono, alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. Isso ocupando menos de 8% do nosso território. Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa como a nossa. Nosso Código Florestal deve servir de exemplo. Somos um país continental, com grandes desafios ambientais. São 8,5 milhões de km², dos quais 2/3 são vegetação nativa. O mesmo de 1500, em nosso Descobrimento. Somente no bioma Amazônico, 84% da floresta está intacta. Lembro que a Amazônia equivale à toda a Europa Ocidental. Antecipamos de 2060 para 2050 o objetivo de alcançar a neutralidade climática. Os recursos humanos e financeiros foram dobrados para frear o desmatamento ilegal. Na Amazônia, em agosto, tivemos a redução de 32% de desmatamento se comparado ao ano anterior. Qual país do mundo tem uma política ambiental como a nossa? Os senhores estão convidados a nos conhecer. O futuro do emprego verde está no Brasil.

VALORES

Temos a família tradicional como fundamento da civilização. A liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e expressão. 14% das reservas são destinados a indígenas. O Brasil sempre participou de missões de paz da ONU. Sempre acolhemos refugiados. Em nossa fronteira com a Venezuela, acolhemos 400 mil imigrantes venezuelanos, preocupados com a ditadura lá instaurada.

CONSELHO DE SEGURANÇA

Em 2022, voltaremos a ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Agradeço aos 190 países que confiaram no nosso governo. Apoiamos uma reforma do conselho de segurança da ONU, que procuramos um assento permanente.

PANDEMIA DE COVID-19

A pandemia pegou todos de surpresa. Sempre defendi combater o vírus e o desemprego ao mesmo tempo. Aos mais necessitados, demos um auxílio de 800 dólares em 2020. Eles perderam emprego graças aos prefeitos e governadores, que promoveram um lockdown no país. Ainda assim, somente nos sete primeiros meses de 2020, criamos mais de um milhão de empregos. Lembrando que o crescimento projetado para 2022 é de 5%.

VACINAÇÃO

Temos quase 90% da população adulta vacinada ao menos com a primeira dose. Da população indígena, 80%. Apoiamos a vacinação, mas somos contrários ao passaporte de vacina. Queremos que cada um tenha seu direito de escolha.

CLOROQUINA

Desde o início da pandemia, apoiamos a liberdade médica para prescrever a medicação a ser utilizada. Eu mesmo fui um deles. Não entendemos porque a mídia e muitos países foram contrários ao tratamento inicial.

ATOS DE 7 DE SETEMBRO

No último 7 de setembro, milhões de brasileiros foram às ruas, de forma pacífica, na maior manifestação da nossa história, mostrando apoio ao meu governo.

CREDIBILIDADE

Meu governo recuperou a credibilidade externa, somos o país com melhores dados entre os emergentes, e estamos abertos para investimentos. Que Deus abençoe a todos.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O discurso é uma espécie de Jogo dos Sete Erros, com uma série de equívocos e exageros que compõem a Superpiada do Ano. O Brasil não é exemplo para os emergentes, muito pelo contrário, está no grupo de trás; o Sete de Setembro não foi a maior manifestação da História; o Brasil não está há dois anos sem corrupção, e a família do presidente é prova disso; o desmatamento da Amazônia não está diminuindo; o Brasil não estava à beira do comunismo; a imprensa não está inventando fake news para perseguir o presidente etc., etc., etc. (C.N.)

PF faz buscas e apreensões para investigar a gestão de Ricardo Barros na Saúde

Parlamentares cobram fala de Bolsonaro sobre Ricardo Barros - Prisma - R7 R7 Planalto

Apesar dos escândalos, Barros continua a ser líder do governo

Vinícius Valfré e Breno Pires
Estadão

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 21, a Operação Pés de Barro, com o objetivo de apurar fraudes na aquisição de medicamentos de alto custo pelo Ministério da Saúde, entre maio 2016 e abril de 2018, período em que a pasta teve como chefe o atual líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (Progressistas-PR), no governo Michel Temer.

O caso apura um rombo de R$ 20 milhões pagos antecipadamente à Global Gestão em Saúde. Dois dos alvos da operação são ex-diretores do Departamento de Logística (DLOG) do Ministério da Saúde empregados posteriormente no governo Jair Bolsonaro.

14 PESSOAS MORRERAM – No caso, a PF já identificou indícios de favorecimento à Global para ofertar as medicações por força de decisão judicial. O caso envolve a aquisição dos medicamentos Aldurazyme, Fabrazyme, Myozyme, Elaprase e Soliris/Eculizumabe pelo DLOG. Apesar do pagamento milionário antecipado, a empresa não entregou os remédios. Estima-se que ao menos 14 pessoas morreram por não terem os remédios.

A Global é presidida por Francisco Maximiano. A empresa e Ricardo Barros são réus em ação de improbidade administrativa que tramita na Justiça do Distrito Federal. Por ordem do então ministro, a pasta liberou o pagamento pelos remédios sem que a empresa tivesse apresentado documentos suficientes à Anvisa para a importação.

Maximiano também é sócio da Precisa Medicamentos, empresa que está no foco da CPI da Covid por suspeitas de fraudes na oferta ao Ministério da Saúde da vacina indiana Covaxin. As suspeitas recaem sobre o Departamento de Logística da Saúde da gestão de Jair Bolsonaro.

PÉS DE BARRO – A operação deflagrada nesta terça foi batizada de Pés de Barro, autorizada pela Justiça Federal do Distrito Federal. Entre os alvos, dois ex-diretores da pasta da Saúde também investigados na ação de improbidade junto com Ricardo Barros. O ex-ministro, porém, não é alvo.

Alvo da operação, Tiago Pontes Queiroz, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, é o atual secretário Nacional de Mobilidade e Desenvolvimento Regional e Urbano, do Ministério do Desenvolvimento Regional — a secretaria é responsável por uma licitação bilionária com sobrepreço de R$ 130 milhões como revelou o Estadão nas reportagens sobre o tratoraço.

Outro alvo é Davidson Tolentino, que foi diretor de Logística na Saúde antes de Tiago Pontes Queiroz. Tolentino acaba de deixar um cargo de diretoria na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Ele era diretor da Área de Revitalização das Bacias Hidrográficas da Codevasf até 1º de setembro.

APADRINHADOS – Tanto Tiago Queiroz como Davidson Tolentino são apadrinhados de lideranças do Progressistas, partido de Ricardo Barros e presidido pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira. Queiroz também é ligado ao Republicanos.

A PF diz já ter identificado indícios de inobservância da legislação administrativa, licitatória e sanitária, além do descumprimento de reiteradas decisões judiciais, com o aparente intento de favorecer determinadas empresas. A operação busca aprofundar a investigação.

Ao todo, são 15 mandados de busca e apreensão, em seis cidades: Maceió, em Alagoas; Belo Horizonte e Montes Claros, em Minas Gerais; Recife, em Pernambuco; São Paulo e Brasília

Os envolvidos podem responder pelos crimes de fraude à licitação, estelionato, falsidade ideológica, corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e corrupção ativa.

OUTRAS BUSCAS – As empresas Precisa Medicamentos e Global Saúde, do empresário Francisco Maximiano, também são alvos da operação da Polícia Federal deflagrada nesta terça-feira. Batizada de Pés de Barro, a ação investiga a compra de medicamentos de alto custo pelo governo.

A Precisa e a Global, assim como seu dono, são investigadas na CPI da Covid, por serem acusadas de fraude no contrato de venda da vacina Covaxin para o Ministério da Saúde.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Embora Ricardo Barros não seja acusado diretamente, as denúncias também o atingem e até explicam o desabafo de Bolsonaro aos irmãos Miranda, quando reclamou dos “rolos” do ex-ministro Ricardo Barros, que continua a ser líder do governo na Câmara. (C.N.)

Oposição denuncia ministro que se beneficia com obra mirabolante do “orçamento secreto”

Rogério Marinho é promovido a ministro do Desenvolvimento Regional | VEJA

Ministro foi apanhado em flagrante de autofavorecimento

Felipe Frazão e Breno Pires
Estadão

Parlamentares de oposição reagiram nesta segunda-feira, dia 20, à revelação de que o ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) foi o solicitante do repasse de R$ 1,4 milhão, verba do orçamento secreto, para construir um mirante ao lado de um empreendimento imobiliário privado dele, conforme atestam documentos do governo obtidos pelo Estadão.

Os oposicionistas querem que o Ministério Público Federal (MPF) investigue Marinho e cobram que ele se afaste do cargo e volte ao Congresso Nacional para dar explicações.

MIRANTE ESTRATÉGICO – Marinho havia sido questionado sobre a autoria do repasse, em junho, pelo deputado Rogério Correia (PT-MG), em audiência pública conjunta nas comissões de Desenvolvimento Urbano e de Trabalho, Administração e Serviços Públicos.

Na ocasião, o ministro se exaltou e cobrou que o deputado mostrasse onde havia a informação de que era um pedido político dele a construção do mirante em Monte das Gameleiras (RN), onde pretende construir um condomínio particular, em sociedade com um assessor no Ministério do Desenvolvimento Regional e a irmã. O ministro atribuiu o direcionamento da emenda ao deputado Beto Rosado (Progressistas-RN), seu aliado.

Porém, planilhas orçamentárias do Ministério do Turismo obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação atestam que Marinho é o “autor” e “agente político” por trás do envio de recursos.

O MINISTRO MENTIU – Não há nos documentos qualquer vinculação a Rosado. Para o deputado petista Rogério Correia, a reportagem evidencia que o ministro mentiu à comissão.

“Ele mentiu à comissão. Ele me chamou de mentiroso, mas o mentiroso é ele como eu já sabia. Está tão claro que mentiu que ele precisa ser denunciado já ao Ministério Público e isso pode levar à exoneração dele por mentir na Câmara, por ter agido com indicação de emendas sem transparência pedindo a outro colega dele ministro, pode dar improbidade administrativa”, disse Rogério Correia ao Estadão.  “O correto era ele se afastar até que tudo seja apurado.”

Rogério Correia disse que solicitou ao seu gabinete que prepare uma denúncia para entregar ao MPF.  “Esse desmando do orçamento paralelo virou um problema real à democracia, bilhões para influenciar votações no Congresso Nacional e não tem controle nem como os ministros agem. Pode levar até a uma dobradinha de ministros, um ministro atende outro ministro, um negócio completamente maluco. O Ministério Público tem que investigar isso.”

PEDIDO AO TCU – Segundo o deputado, ele solicitou mais informações sobre o processo de apuração aberto no Tribunal de Contas da União (TCU) para acompanhar o orçamento secreto, o que engloba a construção do mirante. “O ministro tem interesse na área e evidentemente a construção vai valorizar e muito as terras dele. É uma emenda grande.”

O senador Styvenson Valentim (Podemos-RN) apresentou requerimento para que a Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor convoque Marinho a prestar esclarecimentos. Valentim afirma ter ficado “estarrecido” com as informações da reportagem.

Ele diz, no requerimento, que o caso deve ser apurado e que, confirmadas as informações, fica evidenciado o exercício do cargo público para benefício próprio “É uma oportunidade para o ministro explicar esse orçamento ao nosso Estado. Se ele não tem nada a temer, ele vai lá, fala e comprove”, disse o senador potiguar, que nega ser apoiador do presidente Jair Bolsonaro ou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A transparência e a verdade independem de lados.”

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
O caso é gravíssimo. É um mirante desnecessário e mirabolante.; O ministro Rogério Marinho não tem como se defender. Se o presidente se chamasse Itamar Franco, o ministro já teria sido demitido desde o surgimento da primeira notícia sobre seu favorecimento através do “orçamento secreto”, algo que jamais poderia existir em qualquer país minimamente sério. (C.N.)

Cobaias humanas podem levar Bolsonaro a responder por crimes contra a humanidade

ANS faz diligência na Prevent Senior após denúncias de que a operadora omitiu mortes com estudo do 'kit covid' | Brasil | O Dia

Empresa Prevent Senior fazia testes sem informar os pacientes

Bernardo Mello Franco
O Globo

O governo Bolsonaro já produziu um imitador de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda do nazismo. Agora faz lembrar Josef Mengele, o médico que fazia experimentos macabros em Auschwitz.

O doutor ficou conhecido por usar prisioneiros como cobaias. Tratava seres humanos como ratos de laboratório, sob inspiração de uma ideologia que pregava a “higiene racial”.

COBAIAS HUMANAS – Associada à barbárie nazista, a expressão “cobaias humanas” é citada no relatório da comissão de juristas que aconselha a CPI da Covid. O documento defende que o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Eduardo Pazuello sejam denunciados ao Tribunal Penal Internacional pela prática de crimes contra a humanidade.

Os juristas classificam a gestão da pandemia como um ataque à população civil. O governo sabotou medidas sanitárias, negou assistência a indígenas, retardou a compra de vacinas e apostou na tese da imunidade de rebanho, que acelerou a circulação do vírus.

O relatório descreve a crise de Manaus como um “caso exemplar de desprezo à vida”. Afirma que a cidade virou palco de um “experimento pseudocientífico” com a distribuição de remédios ineficazes. Em janeiro, os hospitais entraram em colapso e dezenas de pacientes morreram asfixiados.

PREVENT SENIOR – As investigações da CPI indicam que o governo não foi o único a tratar doentes como cobaias. Um dossiê enviado aos senadores afirma que a seguradora Prevent Senior ocultou mortes de pacientes que participaram, sem saber, de um estudo com as mesmas drogas.

A pesquisa foi repassada a Bolsonaro, que a usou para fazer propaganda do “tratamento precoce”. A empresa negou as acusações, reveladas ontem pela GloboNews, e disse ser vítima de “denúncias infundadas”.

ENVOLVIMENTO CONSTANTE – A professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, lembra que o envolvimento do setor privado é uma constante na história dos crimes contra a humanidade.

“Empresas que têm afinidade com o governo costumam se prestar a este papel”, afirma.

Depois da rendição dos nazistas, Mengele fugiu para a América do Sul. Terminou seus dias no Brasil, escondido sob identidade falsa. Se voltasse hoje ao país, o doutor teria chance de conseguir um emprego em Brasília.

TSE convoca representantes de redes sociais para debater o combate às “fake news”

Charge: Fake News -

Charge do Cazo (Arquivo Goiogle)

Luana Patriolino
Correio Braziliense

O corregedor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luis Felipe Salomão, convocou uma reunião para quinta-feira (23/9) com representantes de redes sociais para debater a disseminação de fake news. No encontro, serão discutidas medidas sobre bloqueio de repasses financeiros das plataformas para canais que repassarem notícias falsas.

Devem participar da reunião representantes do YouTube, Twitch.TV, Twitter, Instagram e Facebook. No mês passado, Luis Felipe Salomão determinou o bloqueio de repasses de dinheiro de redes sociais para esses canais, de orientação bolsonarista, que estavam espalhando notícias falsas. A medida atendeu a um pedido da Polícia Federal, que investiga a organização e o financiamento de ataques ao sistema eleitoral.

SITES BOLSONARISTAS – No mês passado, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Luis Felpe Salomão e a delegada Denisse Dias Ribeiro, da Polícia Federal, se reuniram com representantes de redes sociais para discutir formas de viabilizar o bloqueio de recursos financeiros para canais bolsonaristas que disseminam notícias falsas na internet.

O bloqueio de repasses para as redes foi determinado a canais e páginas pró-governo investigados por propagarem notícias falsas sobre urnas eletrônicas, em meio às críticas do presidente Jair Bolsonaro contra o sistema de votação brasileiro.

A PF apontou uma engenharia supostamente criminosa que, segundo as investigações, transformou em negócio a divulgação de mentiras sobre as urnas. A corporação fez a análise dentro do documento do TSE que apura os ataques sem provas feitos por Bolsonaro.

LIMITE A MANIPULAÇÕES – No despacho, Salomão afirmou que “o direito de crítica, de protesto, de discordância e de livre circulação de ideias, embora inseparável do regime democrático, encontra limitações, por exemplo, na divulgação de informações e dados enviesados ou falsos, ou, ainda, no que se convencionou denominar como desinformação”.

Segundo os investigadores da Polícia Federal, quanto mais atacavam o sistema eleitoral, mais proveito econômico os envolvidos poderiam ter. A verba que as redes sociais repassam deve ficar em uma conta judicial até o final das investigações. No entanto, os canais devem continuar no ar. Além de restringir a fonte de financiamento, a investigação busca descobrir quem está por trás da divulgação em massa de fake news.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
Enquanto o TSE tenta encontrar a melhor maneira de evitar que informações falsas possam influir em eleições, um problema que hoje atinge o Brasil e o mundo, o presidente Bolsonaro insiste em defender as “fake news” e envia à Câmara um projeto de lei para substituir sua fracassada medida provisória, que foi devolvida ao Planalto pelo presidente do Senado, sob argumento de se tratar de uma peça inepta, desculpem a vergonha que passei… (C.N.)

Alta da gasolina e comida cara começam a cair na conta da campanha de Jair Bolsonaro

Iotti: novo aumento da gasolina | GZH

Charge do Iotti (Gaúcha/Zero Hora

Bruno Boghossian
Folha

A alta de preços de alimentos, combustíveis, energia e outros produtos começou a cair na conta de Jair Bolsonaro. Os novos números do Datafolha mostram que a popularidade do presidente teve uma inclinação leve para baixo, mas sofreu um solavanco maior entre os brasileiros de baixa renda, que são aqueles que mais sentem o peso da inflação.

A aprovação a Bolsonaro na faixa mais pobre da população caiu de 21% em julho para 17% agora. Esta é a menor marca no segmento desde o início do governo e representa uma queda de 20 pontos de popularidade desde o fim do ano passado, quando foi paga a última parcela de R$ 300 do auxílio emergencial.

CRISE ECONÔMICA – Os números indicam que os principais fatores de pressão sobre a popularidade de Bolsonaro atualmente são os efeitos da crise econômica no bolso dos brasileiros. Ainda que o governo projete um crescimento forte para este ano, não há sensação de bem-estar à vista com desemprego, comida cara, tarifas extras de energia e gasolina a R$ 7 por litro.

A recente piora dos índices do presidente se concentra na base da pirâmide. O grupo que recebe até dois salários mínimos foi o único segmento de renda em que a popularidade de Bolsonaro caiu além da margem de erro. Já a reprovação ao governo oscilou para cima e chegou a 56%.

Os efeitos da economia também parecem ter furado alguns bolsões de apoio ao presidente. Os índices positivos de Bolsonaro caíram 11 pontos no conjunto das regiões Norte e Centro-Oeste, que costumam dar números sólidos ao governo, mas têm metade de sua população com renda abaixo de dois salários mínimos.

QUEDA NA APROVAÇÃO – A pesquisa registrou ainda uma queda na aprovação ao presidente entre os evangélicos: de 34% para 29%. A variação sugere que a situação econômica pode abalar vínculos de Bolsonaro com alguns grupos.

Quando avistou o maremoto da inflação, o presidente tentou transferir a culpa da alta de preços para a pandemia e os governadores. Bolsonaro recebeu o primeiro sinal de que não conseguirá escapar dessa fatura. 

Este Brasil muito doido deixa atônitos os embaixadores, que temem passar vergonha

Levante (em 🏠) 🇧🇷 on Twitter: "Temer é Bolsonaro Bolsonaro é Temer! ELES SÃO E REPRESENTAM O GOLPE… "

Diplomatas estrangeiros não entendem a política do Brasil

Lauro Jardim e Amanda Almeida
O Globo

De um embaixador de um país europeu em Brasília, atônito com o Brasil do pós 7 de setembro: “A situação aqui é tão absurda que eu não tenho nem descrito o que está ocorrendo nos relatórios à minha chancelaria, porque eles vão achar que estou bebendo demais…”

O embaixador referia-se aos atos do dia 7, à carta-recuo de Jair Bolsonaro e ao vídeo do jantar na casa do investidor Naji Nahas, onde Michel Temer ria das imitações do presidente Bolsonaro.

SEM CONFUSÃO – Jair Bolsonaro não quis confusão com Michel Temer por causa das risadas do ex-presidente ao assistir o humorista André Marinho imitando seu sucessor.

Na ligação que fez para resolver o assunto, que viralizou nas redes sociais junto com o vídeo da cena, Temer ouviu um Bolsonaro tranquilo. O presidente disse que André Marinho faz diariamente essas imitações na rádio, e que Temer deixasse isso para lá.

Antes da resposta, Temer explicou que Marinho fez naquela noite outras imitações e não só a de Bolsonaro.

ASSUNTO INCÔMODO – Duas semanas depois, a reunião entre Jair Bolsonaro e Michel Temer continua um assunto incômodo para o presidente e seus apoiadores. Na última quinta-feira, um apoiador se arriscou a perguntar a ele, na porta do Alvorada, sobre a reunião. Foi cortado imediatamente por outra fã de Bolsonaro, que estava ao lado:

— Não é para perguntar sobre isso, não.

Bolsonaro fechou a cara, mas respondeu:

— Não vou discutir. Como foi uma reunião reservada, eu não falo. Foi só eu e o Temer, e mais ninguém. Tudo que chegou ao conhecimento ou é mentira, ou foi distorcido, ou foi o outro lado que falou. Eu não converso com ninguém.

Como O Globo mostrou, no entanto, no dia 9 Bolsonaro e Temer combinaram como divulgar a conversa que resultou na carta de recuo aos ataques a ministros do Supremo.

Discurso de Bolsonaro sobre “verdades” do Brasil abre esta terça-feira a Assembleia da ONU

 (crédito: Alan Santos/PR)

Boris Johnson sugeriu que Jair Bolsonaro tome a vacina…

Ingrid Soares
Correio Braziliense

O presidente Jair Bolsonaro ironizou nesta segunda-feira (20/9) em Nova York que seu discurso na Assembleia-Geral da ONU que ocorrerá amanhã “será em braile”, em referência ao sistema de escrita e impressão destinado a pessoas com deficiência visual. A fala do chefe do Executivo é vista como uma provocação em alusão aqueles que ‘não querem ver a verdade’. A declaração foi dada a jornalistas na saída do restaurante do hotel em que a comitiva brasileira está hospedada. A comitiva entrou pelos fundos, porque na frente havia uma manifestação contra Bolsonaro.

No último dia 17, em viagem a Arinos (MG), o presidente disse que a fala na ONU se basearia em “verdades”: “Podem ter certeza, lá teremos verdades, lá teremos realidade sobre o que é o nosso Brasil e sobre o que nós representamos verdadeiramente para o mundo”, apontou na data.

PIZZA NA RUA – Com as rígidas restrições em locais públicos de Nova York por causa da pandemia de covid-19, o presidente e seus ministros tiveram a primeira refeição em solo americano no meio da rua. Em imagem publicada pelo ministro do Turismo, Gilson Machado, ele aparece ao lado de Bolsonaro comendo pizza em uma calçada. Com eles estão o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga; da Justiça, Anderson Torres; da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos; e o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães. 

Para driblar a exigência de vacinas em restaurantes de Nova York, a churrascaria brasileira Fogo de Chão armou uma espécie de puxadinho externo, com mesas ao ar livre cercadas por tapumes pretos para o presidente Jair Bolsonaro, que não está oficialmente vacinado.

Ao fim do almoço houve uma salva de palmas em homenagem ao lutador de jiu jitsu Henzo Gracie, que acompanhou o presidente Bolsonaro por uma caminhada de cerca de 7 quadras até o hotel onde ele está hospedado. No caminho, o presidente ouviu ao menos um grito de “assassino”, de uma brasileira que o reconheceu.

COM JOHNSON – Bolsonaro se reuniu no começo da tarde com o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson no Consulado-Geral do Reino Unido. A principal pauta foi o meio ambiente.

Às 20h, a previsão é de que ele participe de uma recepção em homenagem a ele na Residência da Missão do Brasil junto às Nações Unidas. Já o discurso na abertura na Assembleia Geral que ocorre amanhã, está marcado para as 10h, no horário de Brasília.

Johnson recomendou a vacina da AstraZeneca/Oxford, que é produzida também no Brasil em parceria com a Fiocruz. “É uma ótima vacina. Obrigado, pessoal. Tomem vacinas da AstraZeneca!”, diz ele, ao lado de Bolsonaro, que é o único líder entre as maiores economias do mundo que declaradamente não tomou o imunizante.

Quebra de sigilo da ex-mulher 02 de Bolsonaro vai emporcalhar a família como um todo

Brasileiros que conviveram com ex-mulher de Bolsonaro na Noruega confirmam  que ela relatava ameaça - 26/09/2018 - Poder - Folha

Ana Cristina fazia o mesmo “trabalho” de Fabricio Queiroz

Italo Nogueira
Folha

A quebra de sigilo bancário e fiscal da assessora parlamentar Ana Cristina Siqueira Valle, em meio à investigação sobre “rachadinha” no gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), atinge o período em que ela esteve casada com o presidente Jair Bolsonaro.

A Justiça autorizou ao Ministério Público do Rio de Janeiro acesso aos dados bancários de Ana Cristina de maio de 2005 a maio de 2021. Ela e o presidente se divorciaram em junho de 2008.

PATRIMÔNIO NÃO-DECLARADO – Bolsonaro e Ana Cristina tiveram um divórcio litigioso com acusação de furto e relato de patrimônio não-declarado do casal a partir de outubro de 2007.

Nos anos em que os dois estavam casados abrangidos pela decisão, eles também compraram cinco terrenos, uma sala comercial em Resende e uma casa em Bento Ribeiro, zona norte do Rio de Janeiro.

Em duas transações há indícios de uso de dinheiro vivo, modelo de operação apontado como forma de lavagem de dinheiro na denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

LAVAGEM DE DINHEIRO – As transações são mencionadas pela Promotoria no pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal de Ana Cristina e demais investigados. O MP-RJ afirma que há suspeita de lavagem de dinheiro nas operações, em razão do possível uso de dinheiro vivo.

Contudo, diferentemente do que aconteceu na investigação contra Flávio, não houve pedido de quebra de sigilo das pessoas ou empresas que participaram das operações imobiliárias de Ana Cristina. Tal medida envolveria o presidente e poderia levar a apuração para a Procuradoria-Geral da República.

A assessora parlamentar é investigada pelo MP-RJ sob suspeita de ser a operadora financeira do esquema de “rachadinha” no gabinete de Carlos na Câmara Municipal. Ela foi chefe de gabinete do filho do presidente entre 2001 e 2008, além de ter mantido sete parentes nomeados no local até 2018. Atualmente, ela trabalha como assessora da deputada federal Celina Leão (PP-DF).

ESQUEMA FAMILIAR – A suspeita dos promotores é a de que o vereador mantinha em seu gabinete um esquema semelhante ao atribuído ao senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), pelo qual foi denunciado sob acusação de liderar uma organização criminosa, lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indébita.

O advogado Antônio Carlos Fonseca, que defende o vereador, disse que não poderia comentar o processo em razão do sigilo determinado pela Justiça. A defesa de Ana Cristina não se pronunciou sobre o caso.

ACUSOU BOLSONARO – Na rumorosa partilha de bens do antigo casal, em outubro de 2007, Ana Cristina acusou Bolsonaro de ter furtado pertences de um cofre particular que mantinha no Banco do Brasil.

Ela declarou à polícia em 2007, quando notou um arrombamento do cofre, que havia no local R$ 200 mil e US$ 30 mil em espécie, além de joias avaliadas em R$ 600 mil.

No processo de separação, revelado pela revista Veja em outubro de 2018, Ana Cristina disse que a renda mensal do deputado na época chegava a R$ 100 mil. Para tal, Bolsonaro recebia “outros proventos” além do salário de parlamentar — à época, de R$ 26,7 mil como parlamentar e outros R$ 8.600 como militar da reserva. Ela não especificou quais seriam as fontes extras.

NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS – Antes da briga, Ana Cristina e Bolsonaro mantiveram uma intensa atividade imobiliária. Eles compraram imóveis no Rio de Janeiro e em Resende que somavam à época R$ 280 mil.

As escrituras de duas das quatro transações afirmam que o pagamento foi realizado “em moeda corrente do país”, expressão habitualmente usada para descrever uso de recursos em espécie. Reportagem da revista Época do ano passado afirmou que foi usado dinheiro vivo nas operações.

Um relatório do Coaf identificou movimentação de dinheiro vivo considerada atípica nas contas da assessora parlamentar, o que reforça a suspeita, na avaliação dos promotores.

QUEIROZ DE SAIAS  – Nove pessoas ligadas a Ana Cristina foram alvo da quebra de sigilo bancário e fiscal solicitado pelo MP-RJ —sete parentes, uma sócia e a filha da parceira comercial.

A suspeita é que a ex-mulher de Bolsonaro desempenhasse um papel semelhante ao atribuído a Fabrício Queiroz como suposto operador da “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa.

O gabinete de Carlos teve nos últimos 20 anos ao menos sete parentes de Ana Cristina como funcionários. O cadastro de quatro deles na Receita Federal ou na Câmara Municipal tinha como endereço a casa em que o presidente Jair Bolsonaro vivia com a ex-mulher na Barra da Tijuca. A ex-mulher de Bolsonaro também está na mira da CPI da Covid. Ela foi convocada a explicar sua relação com o lobista Marconny Albernaz de Faria e as mensagens que mostram indicações para cargos no governo.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Especializada em lavagem de dinheiro, a família Bolsonaro, daqui em diante, vai ter sua roupa suja lavada em público. Todos estão emporcalhados e o jovem Jair Renan também já está todo encardido, como se dizia antigamente. (C.N.)

Com Lula na frente, o PT encara com cautela a ideia de mudar regra do impeachment

TRIBUNA DA INTERNET | CPI, manifestações e recuo do Centrão podem elevar o  risco do impeachment de Bolsonaro

Charge do Son Salvador (Estado de Minas)

Deu na Coluna do Estadão

A ideia de utilizar a CPI da Covid para propor mudanças no instrumento do impeachment preocupa o PT, ainda sequelado pelo processo que tirou Dilma Rousseff do Planalto. Em privado, o partido analisa com enorme cautela a ideia porque sabe que hoje ela serve para desgastar Jair Bolsonaro, mas, lá na frente, pode ser usada contra Lula, líder nas pesquisas de intenção de voto.

Justamente por isso, governistas ouvidos pela Coluna acreditam que a ideia de mudar a lei não irá adiante e servirá só para dar palanque à cúpula da comissão do Senado.

CALOR DO DEBATE – Em privado, líderes do Legislativo comparam a proposta de mudar a lei do impeachment à famosa novela da “prisão após condenação em segunda instância”, que, sob o calor da Lava Jato, virou o País de cabeça para baixo, incluindo o STF.

A proposta, encampada por Renan Calheiros (MDB-AL), estabelece tempo mínimo para o presidente da Câmara analisar denúncias oriundas da CPI.

MAIS DEPENDENTE – Se o prazo não for cumprido, caberá ao plenário decidir. A mudança na lei depende de aprovação no Congresso.

Se a proposta de mudança na lei não preocupa o Planalto, a aliança da CPI com o grupo de juristas encabeçado por Miguel Reale Júnior, sim. Um relatório final da comissão robusto e embasado poderá deixar Bolsonaro ainda mais dependente de Arthur Lira e de Augusto Aras.

O presidente da CPI, Omar Aziz, escolheu a Constituição para celebrar o Dia Internacional da Democracia: “Procurei alguns livros pra indicar, porém nenhum supera as regras que definem os rumos da nossa nação. Fomos forjados por homens que enxergavam um Brasil grande e de futuro brilhante”.

NOVOS PROTESTOS –  A discussão sobre aderir aos atos de 2 de outubro contra Bolsonaro, convocados pelo PT e grupos de esquerda, pôs organizadores dos protestos de 12 de setembro para experimentar o “outro lado” do que foi o dilema de petistas sobre estar ou não na rua no domingo passado.

MBL e Vem Pra Rua ainda não bateram o martelo, mas internamente a avaliação é de que não está nem um pouco perto um trégua com o PT a ponto de deixar de lado as rivalidades em prol da união contra o presidente.

Integrantes do MBL minimizam as prováveis críticas de que a união contra Jair Bolsonaro só valeria se fosse em ato organizado por eles. Ao desacreditar o protesto do último domingo, petistas fizeram a mesma coisa.

Temer diz uma coisa, volta atrás, e vai da glória ao fracasso em poucos dias

Não tem como dar certo um país desses...(f) - OEstadoAcre.com

Temer foi e voltou sozinho num jato para 20 passageiros

Merval Pereira
O Globo

Psiquiatras, que vivem de escarafunchar a mente humana, e jornalistas, que vivemos de escarafunchar a realidade, têm tido material de sobra nesses tempos estranhos que vivemos, onde a realidade quase nunca corresponde ao que os protagonistas dos acontecimentos falam ou prometem. O exemplo mais imediato é o do ex-presidente Michel Temer, que foi da glória ao fracasso em questão de dias, tudo por conta do que os gregos chamavam de húbris, conceito que define atitudes excessivas de confiança, que são punidas pelos deuses.

“Deus primeiro enlouquece aquele a quem quer destruir”. A frase, atribuída ao poeta grego Eurípedes, tem no episódio da mediação de Temer com o presidente Bolsonaro na crise com o Supremo Tribunal Federal (STF) exemplo evidente. Chamado pelo presidente Bolsonaro para ajudar a pacificar sua relação com o ministro Alexandre de Moraes, a quem indicou para uma cadeira no STF, Temer viu nessa aproximação um poderoso instrumento para relançar-se na vida política, quem sabe como uma terceira via na disputa presidencial.

AUTOR DO TEXTO – As fotos divulgadas por sua assessoria, que o mostram orgulhosamente sentado sozinho em um avião vazio da FAB enviado especialmente para transportá-lo de São Paulo para Brasília já indicavam que a coisa poderia degringolar.

Divulgada a carta de rendição de Bolsonaro, o ex-presidente Temer, em geral cauteloso, anunciou à imprensa que fora ele o autor do texto, e que Bolsonaro havia colocado ou tirado uma ou outra palavra.

Atitude inusitada, já que os ghost-writers de presidentes não revelam suas façanhas em público. A inconfidência proposital aumentou a humilhação de Bolsonaro, e inflou o ego do ex-presidente, que mais uma vez escorregou na casca de banana que ele mesmo jogou fora. Foi filmado à mesa da alta burguesia paulista, deliciando-se com imitações de vários políticos, o que não isenta de culpa a edição do vídeo, que selecionou apenas as risadas sobre a imitação de um Bolsonaro subserviente a seu salvador.

MARQUETEIRO PESSOAL – A ideia brilhante de compartilhar tanto as fotos no avião quanto a primeira versão do vídeo do jantar foi de Elsinho Mouco, marqueteiro pessoal do ex-presidente Michel Temer.

O estrago já tinha sido feito quando os vídeos com outras imitações de políticos foram divulgados. Temer teve que se desdizer, garantindo que foi ele, não Bolsonaro, quem acrescentou poucas palavras a um texto previamente preparado pelo presidente.

Também teve que afirmar que o ministro Alexandre de Moraes “não recuou um milímetro” na conversa com Bolsonaro, o que não vale nada. O que vale são as medidas tomadas pelo ministro do STF, que até o momento tem mantido a mesma posição rígida em relação aos inquéritos que preside.

PROVAS ILEGAIS – Outra atitude exemplar dessa mania nacional de dizer uma coisa e fazer outra vem do ministro do Supremo Ricardo Lewandowski. Na sua ânsia de defender o ex-presidente Lula, que o indicou, chegou a usar em um de seus votos os diálogos roubados dos celulares dos procuradores da Lava-Jato para embasar sua decisão.

Como não podia fazê-lo, já que o conteúdo, por ter sido conseguido por meios ilegais, não poderia ser utilizado, saiu-se com essa: “Pode ser [prova] ilícita, mas enfim, foi amplamente veiculada e não foi adequadamente, ao meu ver, contestada”.

Com essa cândida resposta, Lewandowski mandou para o espaço o famoso princípio do Direito de que “o que não está nos autos, não está no mundo”.

DISSE OU NÃO DISSE – A propósito, recebi uma mensagem da advogada Maria Francisca Accioly, que defende o ex-presidente da empreiteira OAS, afirmando que Léo Pinheiro “não se retratou do seu anexo e muito menos redigiu carta nesse sentido”, a propósito de comentário meu de que o empreiteiro havia desmentido a delação premiada que fizera contra o ex-presidente Lula.

A correspondência, explica a advogada, “é um depoimento pessoal e sigiloso” com respostas sobre casos envolvendo a ex-presidente Dilma e o ex-ministro Paulo Bernardo. É equivocada, portanto, “a afirmação de que o meu cliente irá retificar seu testemunho em relação às afirmações que fez contra o ex-presidente Lula”.

Como a questão está sob sigilo, só saberemos o que aconteceu se ele for quebrado. Por precaução, é melhor os petistas pararem de comemorar.

Área técnica do TCU avalia que governo não conseguirá evitar racionamento de energia

Crise hídrica no Brasil

Charge do João Bosco (O Liberal)

Jéssica Sant’Ana
G1 — Brasília

As medidas adotadas pelo governo na crise hídrica e energética não são suficientes para afastar o risco de o Brasil sofrer com apagões nos próximos meses ou de vir a enfrentar um novo racionamento de energia, aponta relatório da área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) ao qual o G1 teve acesso.

Além disso, diz o documento, há indícios de que faltam “previsibilidade e razoabilidade” nas ações governamentais e de que não há plano formal para o caso de agravamento da situação (leia os detalhes mais abaixo).

PARECER TÉCNICO – As conclusões do TCU fazem parte de um processo de acompanhamento das medidas adotadas pela Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (Creg) para garantir o fornecimento de energia diante do cenário hidrológico desfavorável.

A câmara foi criada em junho, por meio de medida provisória, para gerir a crise energética. É composta por seis ministros do governo, entre os quais o de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que preside o órgão.

O relator do processo de acompanhamento das ações da Creg no TCU é o ministro Benjamin Zymler, que ainda não se manifestou sobre o relatório. Além disso, o processo ainda vai passar por votação no plenário do tribunal, que pode, por exemplo, recomendar ou determinar a adoção de medidas para sanar falhas em ações do governo.

CONCLUSÕES PESSIMISTAS – A Secretaria de Fiscalização de Infraestrutura de Energia Elétrica (SeinfraElétrica) do TCU afirma que o governo vem tomando diversas medidas desde outubro do ano passado para garantir o fornecimento de energia, como aumento da oferta, flexibilização de restrições operativas e deslocamento ou redução do consumo.

 “A despeito das ações adotadas, houve piora acima do esperado do nível dos reservatórios [das hidrelétricas]. Em que pese algumas dessas medidas somente terem começado a vigorar a partir de 1º/9/2021, há indicativo de que as providências não se mostram suficientes para eliminar o risco de racionamento do consumo, tampouco o risco de blecaute”, diz a área técnica.

Segundo a SeinfraElétrica, as medidas estão sendo adotadas pela Creg sem as devidas “previsibilidade” e “razoabilidade”. É o caso, segundo o relatório, do programa de redução do consumo voltado para consumidores residenciais e pequenos negócios e da nova bandeira tarifária, batizada como “bandeira de escassez hídrica”. Essa bandeira entrou em vigor em setembro e deve perdurar até abril de 2022, adicionando R$ 14,20 de cobrança extra à conta de luz a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

ERROS SUCESSIVOS – Sobre o programa de incentivo à redução do consumo, os técnicos do TCU apontam que: foi criado sem prazo razoável para a entrada em vigência; foi criado sem informações prévias sobre a base sobre qual serão estimadas a redução de consumo; o consumidor se esforçará para reduzir consumo, mas ainda assim sua tarifa de energia aumentará consideravelmente diante da entrada em vigor da bandeira “escassez hídrica”; o bônus do programa será pago somente em janeiro de 2021; e boa parte dos consumidores já reduziu seu consumo dada a conjuntura de crise vivenciada com a pandemia e a pressão sobre as economias domésticas.

Em relação à bandeira tarifária “escassez hídrica”, a área técnica explica que a criação dessa nova tarifa, decidida pela Creg, foi necessária porque a metodologia da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não prevê todos os custos das medidas adotadas para enfrentar a crise energética.

Benefícios de Bolsonaro a militares e policiais vão custar R$ 27,7 bilhões até 2022

Altamiro Borges: Bolsonaro faz novos agrados aos militares - PCdoB

Charge do Nani (nanihumor.com)

André Shalders
Estadão

Desde que chegou ao governo, o presidente Jair Bolsonaro tomou uma série de decisões em benefício de militares e servidores da segurança pública, como policiais e bombeiros, que custarão pelo menos R$ 27,7 bilhões até o fim do seu mandato, em 2022. Num momento de crise nas contas públicas, o segmento foi agraciado com aumentos de salários, cargos comissionados no Executivo e até mesmo um programa habitacional próprio, anunciado no começo desta semana.

As categorias fazem parte da base mais fiel do presidente, ao lado de evangélicos e dos ruralistas. Pesquisa realizada pelo Fórum de Segurança Pública apontou que 27% dos policiais militares do País são alinhados ao bolsonarismo.

NÃO É À TOA – No ano passado, enquanto a maioria dos servidores teve seus salários congelados por causa dos gastos com a pandemia, o governo reajustou os valores pagos a policiais militares, civis e bombeiros no Distrito Federal, no Amapá, em Roraima e em Rondônia — uma benesse com custo estimado em R$ 1,64 bilhão até 2022.

Já o programa Habite Seguro, linha para o financiamento de casas com juros mais baixos voltada exclusivamente para policiais e bombeiros lançado na segunda-feira, deverá custar R$ 183,9 milhões até o fim do atual mandato de Bolsonaro. Por fim, o presidente também decidiu criar novos cargos comissionados na estrutura da Polícia Federal, com custo de R$ 23,5 milhões até o fim de 2022.

As benesses para as Forças Armadas foram ainda maiores. Só o aumento de salários e adicionais para os militares custará ao menos R$ 21,16 bilhões até o fim de 2022, segundo estimativa do próprio Executivo. A pasta da Defesa viveu bons tempos em 2019, antes da pandemia de covid-19: o ministério teve um aumento de R$ 4,79 bilhões na parte do seu orçamento que não está ligada a gastos de pessoal, em relação a 2018.

COMPARAÇÕES – Os R$ 27,7 bilhões despendidos em favor de policiais e militares daria para comprar cerca de 526,6 milhões de doses da vacina contra covid-19 da AstraZeneca, por exemplo — mais do que suficiente para fornecer duas doses do imunizante para cada um dos brasileiros.

Se revertido para a educação, poderia ser usado para construir 3,3 mil escolas públicas de ensino básico, no padrão do Distrito Federal; ou para comprar mais de 180,4 mil ambulâncias para o Sistema Único de Saúde (SUS). Também seria mais que suficiente para pagar todo o custo do programa Bolsa Família ao longo de 2021, quando o principal programa social do País consumirá R$ 26,5 bilhões.

MILITARES NO PODER – Um outro efeito da chegada de Bolsonaro ao governo foi colocar os militares no centro do poder. Em julho, um levantamento do Tribunal de Contas da União identificou a presença de 6.157 homens das Forças, da ativa e da reserva, em postos civis.

O número é mais que o dobro do existente na gestão do ex-presidente Michel Temer (MDB). Em junho, a Presidência da República editou um decreto liberando a permanência dos militares nesses cargos por tempo indefinido; e em maio, outra mudança nas regras permitiu que combatentes da reserva acumulassem seus rendimentos com o dos cargos civis que ocupam. Esta última medida beneficiou o próprio Bolsonaro e alguns de seus ministros.

A mudança de maio ficou conhecida como “portaria do teto duplo”, por permitir ganhos acima do teto constitucional, hoje fixado em R$ 39,2 mil. Pela nova regra, este limite considera de forma separada os ganhos de militares inativos e os salários que recebem ao ocupar seus cargos civis – ou seja, o limite passa a ser de R$ 78,5 mil.

ALTAS REMUNERAÇÕES – Com a mudança, o próprio Bolsonaro teve um aumento de cerca de 6%:de R$ 39,3 mil para R$ 41,6 mil. Já o vice Hamilton Mourão recebeu uma bolada: de R$ 39,3 mil para 63,5 mil mensais. O general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria-Geral da Presidência, passou a receber R$ 66,4 mil, e o titular da Defesa, Walter Braga Netto, chegou a R$ 62 mil mensais.

“Os servidores, com exceção dos militares, não teve reajuste nesses últimos anos; enquanto os militares tiveram reajuste garantido por lei, mesmo num contexto de déficit expressivo e de dificuldade para cumprir o teto de gastos. E por outro lado, o orçamento dessas áreas foi favorecido, como é o caso do orçamento da Defesa”, disse o economista Felipe Salto, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente, do Senado Federal.

“Isso (se deu) num contexto de crise fiscal, em que outras pressões por despesas foram contingenciadas, como na área da educação; no Censo Demográfico (realizado pelo IBGE); e no próprio investimento, que está num dos patamares mais baixos da série histórica”, afirmou Salto.

Relação entre Rodrigo Pacheco e Jair Bolsonaro azeda sob o signo da desconfiança

Rodrigo Pacheco e Jair Bolsonaro Foto: PAblo JAcob / Agencia O Globo

Pacheco age de forma independente e contraria Bolsonaro

Naira Trindade, Jussara Soares e Julia Lindner
O Globo

Alçado ao posto de presidente do Senado com a ajuda de Jair Bolsonaro, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) passou a ser visto com desconfiança no governo, que já avalia seu comportamento como perigoso para o avanço da agenda do Planalto no Congresso e há ministros que reclamam.

A aliados, o presidente demonstra inquietação por acreditar que o senador atua com a intenção de se posicionar como terceira via contra Bolsonaro e Lula em 2022. Para Bolsonaro, o interesse na cadeira presidencial faz com que Pacheco não priorize pautas do governo e ignore demandas de ministros.

SEM DIÁLOGO – As reclamações à postura do senador se estendem aos ministros Fábio Faria (Comunicações) e Paulo Guedes (Economia), que já relataram dificuldade em dialogar com Pacheco. Assim como Bolsonaro, Guedes tem o hábito de enviar torpedos do celular para ministros, senadores e deputados para discutir temas econômicos.

Segundo interlocutores, ao contrário do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que liga quando recebe um torpedo, Pacheco dificulta o diálogo.

No caso do ministro das Comunicações, o GLOBO flagrou quando Faria pediu ao chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, que interviesse junto ao presidente do Senado para a escolha da relatoria da medida provisória (MP) da Privatizações dos Correios. “Ele (Pacheco) não está me atendendo”, escreveu em 26 de agosto. O senador Márcio Bittar foi escolhido novo relator na última semana.

AS PRIORIDADES – A área econômica lista quatro projetos tramitando no Senado como prioridades. Além da privatização dos Correios, o governo tem urgência na reforma do Imposto de Renda, que pode destravar o Auxílio Brasil e plano gradual de redução dos subsídios. A MP da Ferrovias e o projeto de lei que institui o programa de Estímulo ao Transporte por Cabotagem, BR do Mar, completam a lista.

Há ainda no Senado outros cinco projetos de interesse de Guedes, entre eles o PL que institui o novo marco do licenciamento ambiental. Aprovado em maio na Câmara, o texto foi encaminhado para a relatoria da senadora Kátia Abreu (PP-TO) em agosto.

Pessoas próximas a Pacheco rechaçam a tese de que ele ignora ministros do governo. Alegam que nas últimas semanas, o presidente do Senado se reuniu com Ciro Nogueira, e com a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda.

NÃO HÁ EMPECILHO – Aliados também descartam que Pacheco se colocará como um empecilho para pautas econômicas do governo. A ideia é que ele também se beneficie da aprovação de algumas medidas essenciais em uma eventual candidatura ao Planalto.

Além da dificuldade no diálogo, Pacheco impôs duas derrotas recentes a Bolsonaro. Nesta semana, devolveu a chamada ‘MP das Fake News’, e no final de agosto, rejeitou o pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Nos bastidores, o senador de Minas Gerais tem conciliado agendas com dirigentes partidários que o cortejam para uma eventual aliança em 2022 e também com empresários e investidores do mercado financeiro. Na quarta-feira, se reuniu com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que comanda a fusão entre DEM e PSL. Ele é uma das apostas dos dirigentes das legendas – que pode se chamar Democracia Liberal. Além disso, Pacheco é cortejado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, para se filiar ao partido. (Colaborou Fernanda Trisotto)

A misteriosa mulher que o poeta não conhece, mas vem visitá-lo nos sonhos

Nenhuma descrição de foto disponível.Paulo Peres
Poemas & Canções
O farmacêutico, professor e poeta Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857-1937), nascido em Saquarema (RJ), no soneto “Que ânsia de amar”, apresenta uma tormentosa e incessante espera pela chegada de uma mulher, que lhe veio apenas através de um sonho.

QUE ÂNSIA DE AMAR
Alberto de Oliveira

Que ânsia de amar! E tudo a amar me ensina!
A fecunda lição decoro atento,
Já com liames de fogo ao pensamento,
Incoercível desejo ata e domina.

Em vão procuro espairecer ao vento
Olhando o céu, o morro, a campina.
Escalda-me a cabeça e desatina,
Bate-me o coração como um tormento.

E sorrindo ardente e vaporosa
Por ela, a ainda velada, a misteriosa
Mulher que nem conheço, aflito chamo.

E sorrindo-me ardente e vaporosa
Sinto-a vir – vem-me em sonho, une-me ao seio
Junta o rosto ao meu rosto e diz-me “Eu te amo!”.

“Testes ilegais com humanos serão provados”, diz o relator Renan sobre o caso Prevent Senior

Calheiros diz que CPI investigará irregularidades da Prevent Senior

Renan explica que a pesquisa usou medicamentos sem eficácia

Paulo Cappelli, Julia Lindner e Natália Portinari
O Globo

Aprumando para a reta final, a CPI da Covid deve dedicar parte de seus derradeiros capítulos às denúncias relacionadas ao plano de saúde Prevent Senior. Segundo um dossiê entregue por médicos ao colegiado, e revelado pela “GloboNews”, a empresa fraudou uma pesquisa ilegal e ocultou mortes de pacientes que participaram de um estudo realizado para testar a eficácia da hidroxicloroquina e azitromicina no combate ao coronavírus.

No documento, médicos denunciam terem sido obrigados a trabalhar sem máscaras no início da pandemia e pressionados pela chefia dos hospitais da rede a receitar remédios ineficazes. O relator da comissão, Renan Calheiros, classifica o caso como “escabroso”, em entrevista ao GLOBO.

Na última semana saíram detalhes do caso da Prevent Senior. Como o senhor vê a participação do governo federal nisso?
É um caso escabroso de utilização de idosos para testes sem o consentimento deles. Isso é algo condenável sob qualquer aspecto, muito mais com a participação do presidente da República. A CPI jamais poderia encerrar os seus trabalhos sem aprofundar as investigações sobre a Prevent Senior. Vamos investigar porque já existem muitos elementos.

Considerando o caso da Prevent Senior e a situação em Manaus, onde as pessoas morreram por falta de oxigênio, o senhor avalia que a população foi usada de cobaia na pandemia?
Eu acho que essas coisas restarão comprovadas nos dois casos, com a participação do presidente da República.

De que forma?
Essas políticas de testes com humanos que foram feitos em Manaus e também nesse episódio da Prevent Senior. E nesse caso da Prevent Senior muitas coisas ainda serão conhecidas, de quem participou, de quem doutrinou, de quem executou.

O presidente Bolsonaro foi eleito com discurso anticorrupção e agora o governo é alvo de denúncias levantadas pela CPI…
A CPI colaborou para a erosão desse conceito de que o presidente era um representante da moralidade, mas nunca foi a nossa prioridade. Foi uma consequência óbvia. Hoje o presidente, e as pesquisas comprovam, é tido como uma pessoa na qual a população não acredita, tido como incompetente e corrupto.

Pode ser aberta uma nova CPI com relação a algum tema que ficou inexplorado?
O único aspecto que não será conclusivo é o dos hospitais do Rio de Janeiro (onde há suspeitas de ilegalidades). É um volume muito grande de denúncias que precisará ser analisado pelo TCU ou outra CPI. Não tivemos tempo para acessar profundamente essas questões como poderíamos.

Há críticas de possíveis excessos nas investigações da CPI. O senhor acha que isso ocorreu?
Imagina, absolutamente. No meu discurso de posse eu coloquei claramente a diferenciação com a Lava-Jato. A Lava-Jato teve sempre um projeto político, e nós nunca aceitamos a narrativa de que a CPI buscava desgastar o presidente da República. Nunca quisemos transformar a CPI em tribunal de exceção. É uma investigação sem Deltan Dallagnol (integrante da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba), sem Sergio Moro (juiz da operação), sem Rodrigo Janot (ex-procurador-geral da República).

Bolsonaro pressiona Guedes a adotar medidas populistas, mas o cobertor é curto

Blog de Geografia: Charge do Benett: PIB

Charge do Benett (Folha)

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

A ideologia é sempre uma representação parcial e distorcida da realidade. Por essa razão, quando preside as ações de governo e políticas públicas, turva a perspectiva de que os problemas são de ordem objetiva e existem fora da mente do governante.

 Como o governo constrói sua narrativa a partir de fake news, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, o resultado é devastador — ainda que uma parcela da população mobilizada por mentiras e ideias errôneas responsabilize a oposição, que passa a ser tratada como inimiga da nação.

NÃO HÁ ENTREGAS – Nas mais diversas áreas, as entregas do governo Bolsonaro deveriam ocorrer neste terceiro ano de mandato, mas não é o que está acontecendo. A falta de foco e objetividade na condução do governo agora cobra o preço.

O prejuízo seria muito maior, porém, se algumas áreas não mantivessem os programas iniciados pelos governos anteriores, como na infraestrutura. E se a conjuntura internacional não fosse favorável ao agronegócio, embora o alto custo dos alimentos seja a outra face dessa moeda, principalmente para os mais pobres.

O peso das ideias reacionárias e conservadoras é facilmente identificado no fracasso das políticas públicas. Não apenas na saúde, onde o negacionismo de Bolsonaro entrará para a história, com mais de 600 mil mortos por covid-19. Na educação e na cultura, o desastre também é grande. O mesmo ocorre até na economia. Os resultados negativos obtidos pelo ministro Paulo Guedes são indisfarçáveis — sua retórica ultraliberal é uma constante fuga para a frente.

FRACASSO NO PIB – Segundo relatório anual da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), divulgado quarta-feira em Genebra, a economia brasileira crescerá apenas 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano, o que pode ser fatal para a reeleição de Bolsonaro.

Estamos ficando mais para trás na corrida do desenvolvimento: Índia crescerá 6,7%; China, 5,7%; Indonésia, 4,9%; Turquia, 3,6%; França, 3,4%; Arábia Saudita, 3,3%; Alemanha, 3,2%; Itália, 3% EUA, 3%; Argentina, 2,9%; Canadá, 2,9%; México: 2,8%; Coreia do Sul, 2,8%; Austrália, 2,8%; Rússia, 2,3%; Japão, 2,1%; e Reino Unido, 2,1%.

O PIB da América Latina e Caribe deve crescer 5,5% neste ano. A estimativa de que Brasil crescesse 5,3% em 2021, com as projeções acima, representa mais um voo de galinha. Boa parte das dificuldades econômicas previstas para o próximo ano deve ser creditada à instabilidade política e à insegurança jurídica, criadas artificialmente por Bolsonaro.

APATIA ECONÔMICA – A crise institucional é uma cortina de fumaça que só gera mais apatia dos agentes econômicos. O ambiente de negócios no Brasil não é favorável a grandes investimentos antes das eleições de 2022. Esse diagnóstico é quase unânime entre os investidores.

Bolsonaro pressiona a equipe econômica no sentido de adotar medidas populistas para fomentar a atividade econômica e reduzir a perda de renda. Mas o cobertor é curto. Somente neste ano já foram gastos R$ 77 bilhões com Auxílio e Benefício Emergencial.

Para alguns, ideologia é um conjunto de ideias e de valores que tem como função orientar comportamentos políticos e coletivos. Para outros, uma falsa consciência das relações de domínio entre as classes. Assim como o socialismo defende a extinção das desigualdades com a crença de que as políticas de Estado são suficientes para isso, o liberalismo sublima o livre mercado e o Estado mínimo como soluções para os problemas do desenvolvimento, em quaisquer circunstâncias. Na verdade, a mudança da realidade social e econômica não é tão simples.

Brasil é o sétimo país que mais gasta com salários de seus servidores públicos

Reforma administrativa não mudará nada, é apenas mais uma tese de volta  para o futuro - Flávio Chaves

Charge do Junião (Arquivo Google)

Idiana Tomazelli
Estadão

O Brasil tem uma das maiores despesas com remuneração de servidores no mundo, segundo dados reunidos pelo Tesouro Nacional em um painel interativo que será lançado pelo órgão. De uma relação de 74 países, o Brasil tem o sétimo maior gasto: 12,9% do PIB. Os dados são de 2019 e consideram despesas com pessoal ativo de União, Estados e municípios.

Penduricalhos para contornar o teto salarial de R$ 39,2 mil mensais, salários maiores do que na iniciativa privada e brechas para o acúmulo de remunerações são fatores apontados por especialistas para explicar a permanência do Brasil no topo do ranking. Um histórico de aumentos acima da inflação nos salários também contribui para o quadro.

DUPLA REMUNERAÇÃO – O mais recente “privilégio” incorporado ao conjunto de regras para servidores foi uma portaria do Ministério da Economia que permite a militares da reserva e servidores civis aposentados que continuam trabalhando em determinados cargos receberem as duas remunerações, mesmo que ultrapassem o teto de R$ 39,2 mil.

A medida agraciou o presidente Jair Bolsonaro com um “aumento” de R$ 2,3 mil por mês e o vice-presidente Hamilton Mourão, com R$ 24 mil mensais. Ministros também serão beneficiados.

A medida despertou críticas, sobretudo no momento em que o time do ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta fazer avançar no Congresso Nacional sua proposta de reforma administrativa, que mexe nas regras do “RH” do serviço público para flexibilizar a estabilidade, extinguir penduricalhos que turbinam salários e deixar o terreno pronto para uma revisão futura de carreiras e salários.

SEM JUSTIFICATIVA – A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para avançar à próxima etapa, que é a análise de mérito na comissão especial.

“Fico me perguntando onde estavam com a cabeça. Não faz o menor sentido, até pelo momento do País”, critica o deputado Tiago Mitraud (Novo-MG). Ele preside a Frente Parlamentar Mista da Reforma Administrativa e apresentou um requerimento de informações para cobrar explicações do governo.

“Além de ser imoral, é uma incoerência muito grande”, afirma. Além de ter enviado a proposta de reforma administrativa, o governo também reduziu o valor da ajuda a vulneráveis durante a pandemia em 2021, sob a justificativa de controle de gastos.

COMPARAÇÕES  – O raio X traçado pelos dados do Tesouro permite observar que a proporção de gastos com o funcionalismo no Brasil supera a observada em outras nações emergentes, como Rússia, Chile, Peru e Colômbia, e também em países avançados, como Estados Unidos, Alemanha e Espanha.

O dado considera as despesas não só com salários, mas também com a contribuição patronal para a Previdência desses servidores. O Brasil só perde para Arábia Saudita, África do Sul, Dinamarca, Noruega, Islândia e Samoa.

O economista José Luiz Rossi, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), ressalta que o gasto com servidores no Brasil é heterogêneo, tanto do ponto de vista de esfera administrativa quanto do ponto de vista dos poderes. No primeiro caso, a União tende a pagar maiores salários do que Estados e municípios.

PRÊMIO SALARIAL – Rossi lembra um estudo do Banco Mundial que aponta um elevado prêmio salarial dos funcionários federais, de 96% em relação ao que ganha um trabalhador com as mesmas qualificações no setor privado. Esse prêmio era de 36% nos Estados e praticamente zero nos municípios.

Sob o ponto de vista dos poderes, Judiciário e Ministério Público costumam destoar mais dos outros poderes em termos de manobras para driblar o teto remuneratório. No fim de 2019, por exemplo, o Estadão/Broadcast mostrou que o vale-refeição de juízes superava o salário mínimo em 24 dos 27 Estados brasileiros.

No Brasil, segundo dados da Pnad Contínua, 11,9 milhões se declaravam empregados do setor público no trimestre até fevereiro de 2021. Por outro lado, ele reconhece que há distorções. “A questão é a política de incentivos. Não se tem na carreira muitos degraus, o funcionário passa a maior parte da carreira ganhando o salário máximo”, afirma.

PROPOSTA ENGAVETADA – O governo enviou em setembro do ano passado a reforma que pretende corrigir uma parte das distorções, após mais de um ano de proposta engavetada devido às fortes resistências políticas. Para o professor do IDP, a PEC ainda é tímida porque não incluiu membros de outros poderes, como juízes e procuradores, e o governo não explicitou seus planos para rever a estrutura de níveis de carreira e salários.

“A reforma original é bem tímida, Ela tem que tratar de todos os poderes e trabalhar mais a questão dos incentivos da carreira. O funcionário passa muito tempo ganhando o salário máximo”, afirma Rossi.

O deputado Tiago Mitraud também afirma que há necessidade de rever as remunerações do funcionalismo, embora a PEC atualmente só trate de limitar benefícios, os chamados “penduricalhos” que contribuem para turbinar a remuneração extra teto.