E se Roberto Carlos quisesse falar com Deus?

Em 1981, Roberto Carlos pediu uma canção a Gilberto Gil, para gravar. “Do que eu vou falar?” – perguntou-se Gil. “Ele é tão religioso… E se eu quiser falar de Deus? E se eu quiser falar de falar com Deus?”

Com esses pensamentos e inquirições feitas durante uma sesta,  Gil deu início a uma exaustiva enumeração: ‘Se eu quiser falar com Deus, tenho que isso, que aquilo, que aquilo outro’. E saiu de casa. À noite, voltou e organizou as frases em três estrofes.

Roberto não gravou, porque sua concepção de Deus é diferente. Elis Regina e o próprio Gil gravaram. Hoje em dia, mais de três décadas depois, Gil é pouco religioso, mas de vez em quando reza um “Pai Nosso”, por via das dúvidas.

SE EU QUISER FALAR COM DEUS

Gilberto Gil

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

(colaboração de Paulo Peres, site Poemas & Canções)

 

Presidente da Comissão da Verdade critica manifesto dos generais de 4 estrelas

Dallari: Manifesto é um equívoco

Mariana Jungmann
Agência Brasil

O presidente da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Pedro Dallari, disse que generais da reserva e ex-ministros do Exército cometem “equívoco” ao misturar as discussões sobre revisão da Lei de Anistia com o pedido de reconhecimento das Forças Armadas de que seus membros praticaram violações de direitos humanos durante a ditadura militar. Dallari comentou manifesto assinado por mais de 20 militares da reserva, entre eles generais de quatro estrelas e três ex-ministros, que critica duramente a CNV e o ministro da Defesa, Celso Amorim, e o documento foi divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo.

“Acho que o manifesto comete o equívoco muito grande ao misturar a Lei de Anistia, que diz respeito a condutas pessoais, e há um debate no Brasil sobre a aplicação dela, mas isso não diz respeito à Comissão da Verdade. Isso é da alçada do Poder Judiciário. O que nós estamos defendendo é que haja o reconhecimento institucional das Forças Armadas de que houve violações de direitos humanos durante o regime militar”, disse Dallari à Agência Brasil.

No manifesto, segundo o jornal, os militares dizem que os generais de Exército, comandantes de grandes unidades e integrantes do Alto Comando do Exército nunca aprovaram qualquer ofensa à dignidade humana e “abominam peremptoriamente” as declarações do ministro Celso Amorim à CNV de que as Forças Armadas praticaram esse tipo de violação. O documento diz ainda que o próprio ministro é quem deve pedir desculpas.

AMORIM SE DEFENDE

Na última sexta-feira (19/9), Amorim encaminhou ofício à comissão no qual diz que o próprio Estado brasileiro já reconheceu, em seu ordenamento jurídico, os abusos contra os direitos humanos praticados por seus membros durante o regime militar. Na resposta, Amorim inclui trechos de ofícios nos quais os comandos das três forças respondem sobre o reconhecimento desses atos.

Nas respostas do Exército, Aeronáutica e Marinha, nenhum dos comandos reconhece expressamente atos de tortura ou violações, mas dizem que não irão comentar o ordenamento jurídico a respeito. A Marinha alega que não encontrou, em seus documentos históricos, indícios que “permitam confirmar ou negar as informações apuradas pela Comissão Nacional da Verdade”. No manifesto, os militares da reserva reconhecem que “eventualmente” possam ter surgido “casos pontuais” desse tipo de violação.

Dallari discorda e diz que as apurações da CNV levam à conclusão de que os abusos eram cometidos e envolviam toda a cadeia de comando. “Ao contrário do que diz o manifesto, não foram casos pontuais. A comissão já apurou que as graves violações de direitos humanos ocorreram sob cadeias de comando que iam até as altas cúpulas das forças militares”, disse.

MAIS CLAREZA
Para o presidente da Comissão da Verdade, a postura dos militares de reserva não vai interferir nos trabalhos de apuração sobre as violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988. Na opinião de Pedro Dallari, “esses generais ajudariam muito as Forças Armadas se as colocassem em sintonia com a atualidade da sociedade brasileira, que clama por mais transparência, por mais clareza”.

O Ministério da Defesa informou que não irá comentar o manifesto. A assessoria do Clube Militar, sediado no Rio de Janeiro e que reúne os oficiais da reserva, informou que a entidade não teve participação na elaboração do documento, embora a maior parte dos signatários seja sócia do clube.

Líder nas pesquisas, Reguffe foge do debate e decepciona eleitores do Distrito Federal

Reguffe esnobou o debate na televisão e foi criticado

José Carlos Werneck

O que poderia ser um interessante confronto de ideias e propostas entre os três principais candidatos ao Senado pelo Distrito Federal acabou se numa saraivada de críticas ao principal concorrente ao posto, José Antonio Reguffe, do PDT, líder nas pesquisas, com cerca de 37%, segundo consulta registrada na Justiça Eleitoral. Ele não apareceu ao debate, neste sábado, na Rede Record de Televisão. Os outros candidatos não pouparam o adversário.

Nos 60 minutos, foram muitas as críticas ao candidato fujão. Geraldo Magela, do PT, e Gim Argello, do PTB, foram unânimes em relação a Reguffe. Restou ao espectador imaginar decifrar o que falaria o pedetista sobre questões importantes do cenário político do País. Apesar da ausência injustificável de Reguffe, os dois candidatos discorreram sobre o papel que o próximo senador terá na articulação política junto aos governos federal e distrital.

“Sou o senador que mais fez por Brasília e, apesar de não concordar com a política de Dilma e Agnelo, essa experiência me mostrou que o senador precisa priorizar a cidade. Para mim, não importa quem serão os governantes, vou jogar no time da população”, declarou Gim.

Geraldo Magela enfatizou o fato de ser petista, como a presidente Dilma e o governador do DF. “O Agnelo, só com o diálogo próximo a Dilma, trouxe recursos para mobilidade, para os programas habitacionais e para outros segmentos. Se eleito, vou propor uma lei que permita aos municípios e ao DF mais tempo para apresentarem projetos que dependam dos recursos do Orçamento”.

CRÍTICAS

Segundo os organizadores do debate, Reguffe teria desistido de participar por causa de uma regra que faculta a cada candidato editar as imagens para usá-las na propaganda eleitoral gratuita. “Mas nós abrimos mão dessa regra para permitir que o Reguffe se explicasse, mas mesmo assim ele não veio, porque não sabe explicar o aumento do seu patrimônio em quase 300%”, disse Gim.

“O candidato ausente nunca trouxe um tijolo para Brasília. Ele tem obrigação de vir e não ficar atrás do programa eleitoral. Assim ele menospreza e abusa do eleitor”, concordou Geraldo Magela.

Redes sociais e eleições

A par da planilha de grandes números, como 9 milhões de interações com conteúdo relativo aos últimos dois debates entre presidenciáveis, convém destacar os significados que esse novo ciclo expressa na vida das nações, cujas características comportam a escalada das classes médias, a expansão do setor terciário, o gigantismo dos núcleos universitários, as indústrias de ponta, o incentivo às modernas tecnologias e os trabalhadores bem-formados e informados, entre outras. A importância da absorção do ferramental tecnológico pela política reside no fato de que esse aparato eletrônico funciona como extensão da liberdade de expressão.

Sob esse aspecto, ajuda a reforçar a expressão individual e a dar vazão às demandas dos novos polos de poder que se formam na sociedade. A crise da democracia representativa acaba promovendo a descrença social. Uma locução de indignação emerge. As manifestações das ruas traduzem esse espírito. As redes sociais, nesse vácuo, constituem o ancoradouro natural para acolher o clamor geral. Descobre o eleitor que, pela via eletrônica, sua voz pode chegar aos ouvidos de milhares de outros.

Não é de admirar que as redes se transformem em correias de transmissão do clima social. A linguagem é a das ruas, inclusive no palavrório desbocado, nas interpretações maldosas de situações, na defesa, xingamentos e acusações a candidatos, o que deixa transparecer exércitos de um lado e de outro, a puxarem o cabo de guerra de candidaturas. As trombadas, pois, fazem parte desse iniciante capítulo que se desenvolve nas diferentes teias sociais e mídias, particularmente pelos jovens, que registram elevado índice (85% deles) de consumo da internet.

ENSAIO DE POLITIZAÇÃO

Se a lenga-lenga nas redes não chega a alterar os mapas eleitorais, pelo menos consegue salpicar o desértico jardim político com respingos de querelas entre grupos. O ensaio de politização nas redes é um bom sinal, a indicar que a política está mexendo com o ânimo social. Já os candidatos precisam aprender a usar melhor os canais tecnológicos. Em vez de autoglorificação, deveriam se propor a interagir com os eleitores e a debater ideias com adversários.

Qualquer movimento na direção da meta de amplificar a locução social merece reconhecimento. Urge, como diz a expressão, “democratizar a democracia”; propiciar o encontro da democracia representativa com a democracia participativa; revigorar os instrumentos por esta usados; fortalecer os novos núcleos de poder; e incentivar novas modalidades de comunicação. A engrenagem democrática, aqui e alhures, é um permanente exercício de retoque em suas ferramentas e peças. (transcrito de O Tempo)

Coronel do Exército preso com 351 kg de maconha

Idiana Tomazelli e Tiago Rogero
O Estado de S. Paulo

RIO – Um coronel reformado do exército foi preso enquanto transportava 351kg de maconha no pedágio da Rodovia Rio-Petrópolis (BR 040), na altura de Xerém, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Segundo a Polícia Federal, foi presa também a companheira do militar. Ambos não tiveram os nomes revelados. A droga estava escondida no fundo falso do veículo.

Segundo a PF, o coronel reformado, de 56 anos, costumava deixar uma farda pendurada num cabide no interior do furgão, para “tentar inibir possíveis revistas policiais”. O militar foi preso com uma pistola calibre 380 sem registro e, por isso, foi também autuado por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.

A droga, de acordo com a PF, seria proveniente do Paraguai. “A Polícia Federal investiga a suspeita de que a droga seria distribuída em comunidades do Rio e também de Niterói”, informou a corporação. A operação contou com o auxílio de um cão farejador.

O coronel, morador da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, foi encaminhado à chefia do Exército no Rio, o Comando Militar do Leste. A companheira dele, de 49 anos e moradora de Jacarepaguá, também na Zona Oeste, foi levada para o presídio Nelson Hungria, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.

Ambos vão responder pelo crime de tráfico de drogas, cuja pena varia de 5 a 15 anos de prisão.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGO nome do coronel não foi revelado. Por que esse favorecimento? É inacreditável que o jornal publique a matéria sem os nomes dos traficantes. Até parece que continuamos nos tempos da ditadura militar. Ah, Brasil! (C.N.)

Vítima de bala perdida, sobrinho de Jofran Frejat é sepultado

Deu no Correio Braziliense

Vítima de bala perdida, Victor Barbosa Gaze Sobral, de 21 anos, sobrinho do candidato ao governo do DF Jofran Frejat, foi enterrado na tarde deste sábado (27/9). O sepultamento ocorreu no Templo 2 do Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, com a presença de muitos amigos e familiares. Abalados, eles preferiram não falar com a imprensa.

O sobrinho bisneto do candidato do PR foi morto ao chegar em uma festa no Espaço Orla, ao lado do Clube de Engenharia, no Setor de Clubes Esportivos Sul (SCES). De acordo com a Polícia Militar, um Fiat Uno prata com quatro passageiros passou em frente ao local e disparou sem rumo nas, aproximadamente, 50 pessoas que estavam do lado de fora do evento.

De acordo com familiares, Victor tinha acabado de chegar à festa com a namorada, quando foi baleado e morreu ainda no local. Ele era filho de José Antônio Gaze Sobral, estudava letras e morava na 715 sul. Frejat foi informado da morte do sobrinho ao sair do debate realizado, nesta sexta-feira, no Memorial JK.

Frejat contou à reportagem que a família está muito abalada e que esteve na manhã deste sábado no Instituto Médico Legal (IML) para pedir rapidez na liberação do corpo. “Estou muito consternado, eu convivia com Victor.” Gim Argello, candidato ao Senado, esteve no local e disse que a morte de Victor foi uma “tragédia”. “Era um rapaz jovem e estava em uma área bem frequentada de Brasília.”

Cresce o número de adolescentes que não trabalham nem estudam

Dominique Magalhães

A geração “nem-nem” — formada por adolescentes que não estudam, não trabalham e não estão à procura de emprego — está crescendo de forma preocupante no Brasil. Dados divulgados recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) baseados na Pnad 2012 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) apontam que o número de jovens entre 15 e 29 anos nesta situação chegou a 9,6 milhões no país no ano passado, isto é, uma em cada cinco pessoas da respectiva faixa etária.

Descobrir e incentivar o dom ainda na infância pode ser uma das saídas para o problema dessa geração. Possivelmente alguns destes jovens não tiveram a presença dos pais e a possibilidade de trocar esse olhar, não por desinteresse destes, mas por necessidades de trabalhar fora de casa, ou mesmo de quem os ajudasse a perceber seus gostos, seus talentos e suas habilidades, por mais simples que fossem.

ESTIMULAR

Educar e estimular a curiosidade nos pequenos ajuda na hora do desenvolvimento do dom. Os responsáveis precisam incentivar suas crianças a conhecer diversas atividades e devem apoiá-los a explorar aquelas com as quais eles mais se identificam. Somos induzidos a ter dinheiro e sucesso através de uma ocupação, e muitas vezes abandonamos algo que temos de especial quando escolhemos nossos caminhos profissionais, sem levarmos em consideração a dádiva que recebemos ao nascer.

Geralmente demonstramos nosso dom ainda muito cedo: por volta dos sete a oito anos ele se mostra nas brincadeiras prediletas da criança.  Os pais possuem maiores possibilidades de notar e incentivar as habilidades que os filhos têm. Conforme a criança desenvolve seu talento e conquista bons resultados, ela distingue seu verdadeiro potencial.

Ajudar neste reconhecimento os encoraja a enfrentar as futuras dificuldades, a fazer boas escolhas, e os motiva a encontrar sua felicidade. O talento descoberto e valorizado transforma a pessoa certa, no lugar adequado e no momento perfeito. Em contrapartida, quando um dom é sufocado ou negligenciado e insistimos em atividades com quais não temos a menor sintonia, o resultado é frustrante e às vezes até traumatizante.

(Matéria transcrita do JB Online e enviada pelo comentarista Paulo Peres)

41 anos sem o grande Josué de Castro, indicado duas vezes para o Nobel da Paz

Sergio Caldieri
Josué Apolônio de Castro nasceu em 5 de setembro de 1908, em Recife (PE), e morreu em 24 de setembro de 1973, durante o seu exílio em Paris. Foi médico, geógrafo, escritor, filósofo, sociólogo e político. Estudou Medicina em Salvador (BA) e Filosofia na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Josué de Castro foi uma das personalidades que mais se destacaram no cenário brasileiro e internacional não só por seus trabalhos científicos sobre o problema da fome no mundo, mas também por sua atuação no plano político e em numerosos organismos internacionais.
O sociólogo da fome, como era conhecido mundialmente, foi professor de Geografia Humana na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil desde 1939; pertenceu ao Serviço Técnico de Alimentação Nacional (1942/44); presidente do Conselho da Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (F.A.O.), de 1952 a 1956; do comitê governamental da Campanha de Luta contra a Fome, (O.N.U.), em 1960; do conselho do Comitê Intergovernamental para as Migrações Europeias (C.I.M.E), em 1963; do Centro Internacional para o Desenvolvimento em Paris, e do Comitê Mundial por uma Constituição dos Povos, em Denver (EUA); além de vice-presidente da Associação Parlamentar Mundial em Londres, e professor da Sorbone em Paris.
29 LIVROS
Josué de Castro escreveu 29 livros traduzidos em mais de 25 línguas, entre eles: O problema da alimentação no Brasil (1933), Condições de vida das classes operárias no Recife (1935), Alimentação e raça (1935), Salário Mínimo (1935), Documentário do Nordeste (1937), Alimentação brasileira à luz da geografia humana (1937), Science et technique (1938), A festa das letras (em colaboração de Cecília Meireles-1938), Fisiologia dos tabus (1939), Geografia humana (1939), Alimentação e aclimatação humana nos trópicos, (publicado na Itália, em 1939), Alimentação nos trópicos, (publicado no México, em 1946), Geografia da fome, (traduzido para várias línguas, em 1946), e Geopolítica da fome (traduzido para 14 línguas, em 1951). Preocupado com o futuro, Josué de Castro foi o pioneiro na defesa do meio ambiente. Ele sempre foi um semeador de idéias e encantava o público com seus discursos.
Darcy Ribeiro o considerava “O homem mais inteligente e brilhante que eu conheci”. Josué era famoso nos EUA e Europa como “advogado do Terceiro Mundo”, depois do sucesso do livro “Geopolítica da fome”. Em 1971, foi indicado pela segunda vez ao Prêmio Nobel da Paz.
NA POLÍTICA
Nas eleições de 3 de outubro de 1958, Josué foi eleito deputado federal com 33.657 votos, o mais votado do PTB no Nordeste. Seu companheiro de chapa para deputado estadual era Francisco Julião, advogado e líder das Ligas Camponesas. Josué já seria indicado para o governo do Estado com apoio do ministro do Trabalho João Goulart. Julião definiu Josué de Castro como o homem “que destampou a panela da pobreza e da miséria pra ver o que havia nela”.
Josué foi um dos fundadores da Academia Nacional de Cultura junto com os amigos Mário de Andrade, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Cândido Portinari, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Barbosa Lima Sobrinho, Celso Furtado, entre outros. Quando o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, liderou a Ação da Cidadania Contra e Fome, a Miséria e pela Vida, em 1992, teve a patente do pioneirismo de Josué de Castro.
BARBOSA LIMA
O ex-presidente da ABI Barbosa Lima Sobrinho, disse: “O Brasil tem duas cartas de descobrimento. A primeira é a de Pero Vaz de Caminha. A segunda é Geografia da Fome, de Josué de Castro”. Em 1955, Josué visitou a URSS em plena guerra fria, e conseguiu a façanha de ser reconhecido, por seus estudos, tanto pelos soviéticos como pelos norte-americanos. Os países inimigos consagraram o estudo de Josué como fundamental para se pensar a existência da humanidade na mancha subdesenvolvida – como produto do desenvolvimento e a miséria na África, parte de Ásia e na América Latina.
O coordenador do MST, o economista João Pedro Stédile, lembrou do sociólogo : “Mais do que nunca o espírito de Josué de Castro está presente. Mais do que nunca ele nos ensina, com amor a nosso povo, a mudar a nossa realidade”. Na escola do MST, em Veranópolis (SP), os ensinamentos do sociólogo servem de base teórica para a organização do movimento dos sem-terra. A sua herança teórica e atuação política no Congresso estão sempre vivas nos movimentos sociais de massa.
Logo após o golpe militar de 1964, Josué de Castro teve os direitos políticos cassados pelo AI-1 (Ato Institucional No. 1), juntamente com Miguel Arraes, Leonel Brizola, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, e outros, considerados perigosos agentes do comunismo. Seu crime: ter denunciado ao mundo a vergonha da fome como obra dos homens.
EXILADO ATÉ MORRER
Viveu exilado durante nove anos até a sua morte, aos 65 anos, em Paris. Quando o SNI autorizou a sua volta, em 28/9/1973, Josué de Castro já estava morto desde o dia 24. Somente vestido de caixão, para lembrar os versos de João Cabral de Mello Neto sobre os camponeses pernambucanos, os militares permitiram a sua volta. Mas Josué era um homem grande demais para caber em sete palmos de terra. Enquanto houver fome, latifúndio e subdesenvolvimento, ele estará vivo entre todos nós. A morte do advogado da fome no Terceiro Mundo, foi manchete nos jornais do Brasil, e nos principais jornais da Europa e Estados Unidos. Josué confidenciou ao amigos no exílio parisiense, em 1973: “Não se morre só de enfarte, ou de glomero-nefrite crônica… morre-se também de saudade”.

Por que, fora do Brasil, ninguém prestou atenção ao discurso de Dilma na ONU?


Gustavo Chacra

Ninguém, fora do Brasil, se importa com o discurso da presidente brasileira na Assembleia Geral da ONU (nos anos anteriores, com a espionagem da NSA e Palestina, houve uma maior atenção). O mesmo valia para época que Fernando Henrique Cardoso estava no poder. Lula, na primeira vez, causou algum impacto porque no Ocidente, onde Brasil não costuma ser considerado ocidental, as pessoas adoram o exotismo do Brasil e histórias de vida romanceadas como a do ex-presidente. Marina Silva, se eleita, também atrairá holofotes em sua primeira visita a Nova York como presidente porque tem uma história exótica na forma como o Ocidente gosta de enxergar o Brasil, ligada à Amazônia.

Normalmente, na ONU, as pessoas apenas prestam atenção nos discursos dos presidentes dos EUA, do Irã e, em menor escala, de Israel e da Palestina. Além, claro, de seus próprios presidentes. Mesmo representantes da Grã Bretanha e da França causam pouco impacto – procure declarações deles na imprensa brasileira nos próximos dias. De ano para ano, dependendo do tema em discussão, prestam mais atenção em algum líder, como Morsy, então presidente do Egito, dois anos atrás. Além, claro, de figuras esquisitas, como Fidel e Kadafi – neste caso, mais pelo surrealismo destes líderes.

O discurso de Dilma não foi transmitido por nenhuma das redes de TV de notícias dos EUA – Fox News, CNN, MSNBC e Al Jazeera America. Uma delas colocava a chamada “Awaiting Obama”, enquanto comentaristas especulavam sobre o discurso. Não teve e não terá nenhum impacto fora do Brasil.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGO artigo, enviado por Ricardo Sales, é interessante e verdadeiro. Essa situação só mudará quando Brasil tiver um presidente de verdade, que saiba atuar como um dos líderes dos BRICS, firmando acordos de desenvolvimento com esses importantes países e com nações que cultivam uma postura independente, como a Suécia. Lula e Dilma são primários, não enganam ninguém. Fernando era um pavão fantasiado de político, não tem a menor ideia do significado da expressão “interesse nacional”. Resumindo: procura-se um estadista no Brasil. (C.N.)

Palocci pediu dinheiro sujo do esquema da Petrobras para eleger Dilma em 2010

Rodrigo Rangel
Veja

Há três semanas, Veja revelou que o ex-diretor da Petrobras havia dado às autoridades o nome de mais de trinta políticos beneficiários do esquema de corrupção. A lista, àquela altura, já incluía algumas das mais altas autoridades do país e integrantes dos partidos da base de apoio do governo do PT. Ficou delineada a existência de um propinoduto cujo objetivo, ao fim e ao cabo, era manter firme a adesão dos partidos de sustentação ao governo. O esquema foi logo apelidado de “petrolão”, o irmão mais robusto mas menos conhecido do mensalão, dessa vez financiado por propinas cobradas de empresas com negócios com a Petrobras.

À medida que avançava nos depoimentos, Paulo Roberto ia dando mais detalhes sobre o funcionamento do esquema e as utilidades diversas do dinheiro que dele jorrava. Era tudo tão bizarro, audacioso, inescrupuloso e surpreendente mesmo para os padrões da corrupção no mundo oficial brasileiro, que alguém comparou o esquema a um “elefante-voador” — algo pesadamente inacreditável, mas cuja silhueta estava lá bem visível nos céus de Brasília.

ELEFANTE-VOADOR

A reportagem de Veja estampada na capa da edição de 10 de setembro passado revelou a mais nítida imagem do bicho. Ninguém contestou as informações. Agora, surge mais um “elefante-voador” originário do mesmo ninho do anterior. Paulo Roberto Costa contou às autoridades que, em 2010, foi procurado por Antonio Palocci, então coordenador da campanha da presidente Dilma Rousseff.

O ex-diretor relatou ter recebido o pedido de pelo 2 milhões de reais para a campanha presidencial do PT. A conversa, segundo o ele, se deu antes do primeiro turno das eleições. Antonio Palocci conhecia bem os meandros da estatal. Como ministro da Fazenda, havia integrado seu conselho de administração. Era de casa, portanto, e como tal tinha acesso aos principais dirigentes da companhia. Aos investigadores, Paulo Roberto Costa contou que a contribuição que o ex-ministro pediu para a campanha de Dilma sairia da “cota do PP” na Petrobras.

Quando as autoridades quiseram saber se o dinheiro chegou ao caixa de campanha de Dilma em 2010, Paulo Roberto limitou-se a dizer que acionou o doleiro Youssef para providenciar a “ajuda”. Pelo trecho da delação a que VEJA teve acesso, Paulo Roberto Costa diz não poder ter certeza de que Youssef deu o dinheiro pedido pela campanha de Dilma, mas que “aparentemente” isso ocorreu, pois Antônio Palocci não voltou a procurá-lo.

Auxiliar de Paulo Roberto Costa desviou R$ 57,4 milhões em um ano

Geovane Costa (Foto: Reprodução)

O ex-gerente Geovane Costa gosta de festa

Hudson Correa e Raphael Gomide
Revista Época

Um relatório confidencial e documentos da Petrobras revelam que o descontrole de gastos na estatal permitiu a um gerente de comunicação, com poderes para autorizar pagamentos de até R$ 32 mil, desviar ao menos R$ 57,4 milhões em 2008, ano eleitoral. A documentação, obtida com exclusividade por Época, mostra fortes indícios de um esquema de desvio de dinheiro na Gerência de Comunicação do Abastecimento Corporativo, subordinada ao ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa.

Costa exerceu o cargo entre 2004 e 2012 e está preso, acusado de receber propina de empreiteiras em troca de facilitar contratos bilionários. No caso do gerente Geovane de Morais, o desvio ocorreu por meio de contratações de “pequenos serviços”, na definição interna da Petrobras, que totalizaram R$ 150 milhões em um ano.

Após investigações internas que apontaram sua responsabilidade por desvios, Geovane, hoje com 47 anos, foi afastado do cargo no começo de 2009 e obteve uma licença médica para se tratar de uma “doença psiquiátrica”. O ex-gerente ficou quatro anos e meio longe da estatal, mas recebendo salário de R$ 16,4 mil. Em agosto de 2013, 13 dias após voltar ao trabalho, foi demitido por justa causa.

NA JUSTIÇA

Geovane recorreu à Justiça do Trabalho para anular a demissão, alegando que a Petrobras nada havia apurado contra ele. Na ação judicial, o ex-gerente afirmou também que apenas cumpria ordens “de escalões superiores” da Petrobras, interessados em turbinar campanhas políticas. Na contestação apresentada à Justiça, a Petrobras afirma que foram feitas duas sindicâncias internas e que o ex-gerente foi dispensado por ato de improbidade.

Geovane dispunha de um orçamento de até R$ 30 milhões em 2008. Gastou R$ 150 milhões. A gerência de Comunicação de Abastecimento custeava eventos esportivos, festas, shows e até bailes de carnaval para divulgar a marca Petrobras. O então gerente realizou impressionantes 3.487 contratações, média de quase dez por dia, incluindo-se finais de semana e feriados. Tamanha movimentação de dinheiro levantou suspeitas na estatal, acostumada a números altos. Foi criada uma comissão interna para fazer uma devassa nas contas do gerente. O resultado foi um relatório confidencial com graves suspeitas de desvio de dinheiro. Até aqui o documento era mantido sob sigilo. Publicamente, a Petrobras só admitia “quebra de confiança e de desrespeito aos procedimentos da companhia”.

Segundo o relatório, pelo menos R$ 57,4 milhões foram gastos por Geovane sem nenhuma evidência de que os serviços tenham, de fato, sido prestados pelas empresas contratadas. A comissão interna concluiu que houve “graves irregularidades administrativas, bem como a existência de diversas contratações sem entrega das respectivas contrapartidas”.

SEM COMPROVAÇÃO

Para chegar ao volume desses pagamentos suspeitos, a comissão adotou critérios “bastante conservadores”, o que indica que o rombo pode ser muito maior. Os integrantes da comissão classificaram os eventos como “identificados” ou “não identificados”.

No primeiro caso, apesar de não ser possível comprovar categoricamente a prestação do serviço, existia a probabilidade de ele ter sido realizado em “um evento ou festa”, como o carnaval. Por exemplo, não havia provas de gastos com transportes de sambistas, mas o desfile de carnaval ocorreu e, então, aceitava-se a despesa. No caso dos eventos “não-identificados”, não foi apresentada “absolutamente nenhuma evidência” de que teriam acontecido.

Na Justiça do Trabalho, a Petrobras configurou a situação como típico desvio. “Apesar dos critérios marcadamente tolerantes usados, 38% dos valores pagos não tiveram qualquer evidência de realização dos respectivos serviços, totalizando um montante incrível de R$ 57,4 milhões, sem qualquer comprovação de que foram efetivamente revertidos em serviços para a Petrobras”, afirmam os advogados da petroleira.

Marina e PSB num choque de realidade

Julia Duailibi

Estadão

O candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva (PSB), Beto Albuquerque, afirmaque “ninguém governa sem o PMDB”. Beto, que tem quatro mandatos de deputado federal, conhece bem o funcionamento do Congresso brasileiro e falou um fato que todo mundo está cansado de saber, mas que durante a campanha eleitoral os candidatos preferem contemporizar. Deu uma declaração mais lúcida que Eduardo Campos, dono do discurso de que queria acabaria com as velhas raposas da política, mas que na prática, quando governador de Pernambuco, as manteve em seu quintal.

Durante entrevista ao Estado, Beto fez uma ponderação sobre a relação com o PMDB: “Não é preciso entregar o governo ao PMDB para ter governabilidade”. Usou o verbo “entregar”, e não, por exemplo, “empregar”, porque sabe que terá de contar com o partido para fazer com que o governo ande, caso ele e Marina sejam eleitos.

Com o primeiro turno se aproximando, e Marina se consolidando como a candidata a enfrentar Dilma no segundo turno, crescem os questionamentos a respeito da governabilidade numa eventual administração do PSB. Marina contribui para isso ao não explicar como formará uma maioria apenas com os “melhores de cada partido”, sendo que os próprios partidos têm mandado recados de que, por enquanto, não se animam em ceder seus quadros de “excelência”. No mundo real, os governos FHC, Lula e Dilma não conseguiram governar só com os melhores quadros. Fecharam em bloco com o PMDB e levaram todo o resto junto.

PSDB NA OPOSIÇÃO?

Aécio JÁ disse que se perder a eleição o PSDB deve caminhar para a oposição. Não falou nada em liberar os “melhores quadros”. O ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) também disse que Marina não pode esperar governar com os melhores de cada partido. “Esse é um erro grave que a Marina está fazendo. Ela não vai conseguir sair pinçando e destruindo dos partidos.”

O jornalista Josias de Souza, em seu blog, revelou o clima das velhas raposas com Marina, ao publicar trechos de um artigo escrito pelo senador José Sarney (PMDB-AP) para o El País.“Marina Silva é uma incógnita. A figura de hoje nada tem a ver com sua radical história de guerreira dos seringais. Senadora por dezesseis anos — em parte dos quais ocupou o Ministério do Meio Ambiente de Lula —, deixou uma marca de radicalismo, como fundamentalista, de capacidade limitada, preferindo sempre a confrontação ao diálogo, e buscando não o entendimento, mas a conversão.”

O vice- presidente, Michel Temer, também afirmou na semana passada que se o PSB ganhar “a primeira ideia é que (o PMDB) fique na oposição”.  Tudo bem que a frase de Temer deixa uma porta aberta para negociação ao falar em “primeira ideia”, mas também mostra que Marina terá de negociar e que não há alinhamento automático.

Beto Albuquerque deu indícios de que deve, sim, buscar no velho governismo a sustentação para um eventual governo. Tocou a real, enquanto Marina continua a tergiversar sobre o assunto.

O que será que será

Carla Kreefft

Como será o Brasil a partir de 2015? Quais serão as políticas implementadas por este país para vencer os enormes desafios, como a crise econômica, sem promover inflação, desemprego e redução de benefícios sociais? Pode parecer que essa questão esteja intimamente ligada a quem será eleito em 5 de outubro. E, certamente, está mesmo. Porém, é inegável que há fatores que diminuem muito o peso do próximo presidente, seja ele quem for, sobre as políticas públicas que serão adotadas no país.
Ao contrário do Poder Legislativo, o Executivo tem muita liberdade de ação. E é bom lembrar que, quando não tem, ele mesmo dá um jeito de criá-la. O sistema presidencialista brasileiro é extremamente permissivo. O presidente do país pode quase tudo. Desse ponto de visa, fica difícil entender os motivos pelos quais o próximo dirigente do país não terá tanta importância na definição das futuras políticas públicas. Mas um dos motivos que contribuem para essa baixa influência presidencial diz respeito à aceitação da sociedade em relação a boa parte das políticas públicas.

Dificilmente o próximo presidente, seja ele quem for, terá condições de alterar programas como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, e o Prouni. Eles foram abraçados pela sociedade brasileira e se consolidaram como política pública pelas mãos de seus beneficiários.

NA ECONOMIA

Se na política social será difícil promover modificações, na economia a situação não é diferente. Entretanto, a pouca margem de mobilidade do presidente está mais associada às limitações do mercado internacional, como o preço das commodities, à necessidade de manter a inflação controlada, à obrigação de reduzir a dívida pública interna. Em outras palavras, não será possível fazer mudanças muito significativas.

É claro que esse quadro não elimina o fato de cada candidato ter propostas próprias, as quais deverá se esforçar para cumprir. Pelo lado do PSDB, por exemplo, está claro que há uma preocupação muito grande com a redução e qualificação da máquina pública. Do outro lado, há uma diretriz clara quanto a manutenção e ampliação dos programas sociais. Já na plataforma de Marina Silva, é perceptível uma intencionalidade de investir em políticas voltadas para setores muito específicos, como o ambiental.

Na junção de tudo isso, o Brasil de 2015 não deverá ser muito diferente do de 2014. Assim, a mudança tão desejada pelos brasileiros e manifesta em junho do ano passado nas ruas não deverá ser vista a olho nu. Talvez seja necessária uma lupa para enxergar o pouco ou muito que será feito pelo próximo presidente.

Talvez essa situação de imobilidade justifique um pouco a falta de interesse dos próprios candidatos em divulgar seus programas de governo. Afinal, planejamento existe para ser desrespeitado. (transcrito de O Tempo)

Paulo Mendes Campos numa poesia autodestrutiva

O jornalista, escritor e poeta mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991), no poema “Balada do Homem de Fora”,  divaga que o mundo foi feito para quem dele tire proveito.

BALADA DO HOMEM DE FORA

Paulo Mendes Campos

Na alma dos outros há
searas de poesia;
em mim poeiras de prosa,
humilhação, vilania.

O pensamento dos outros
ala-se em frases castiças;
o meu é boi atolado
em palavras movediças.

No gesto dos outros vai
a elegância do traço;
no gesto torto que faço
surge a ponta do palhaço.

O trato dos outros tem
desprendimento, altruísmo;
venho do ressentimento
para os brejos do egoísmo. 

O amor de muitos floresce
em sentimento complexo;
mas o meu é desconexo
anacoluto: do sexo. 

Na face dos outros vi
a sintaxe do cristal;
na amálgama dos espelhos
embrulhei o bem no mal. 

A virtude contra o crime
é um cartaz luminoso
dos outros todos; mas eu
posso ser o criminoso.

Os outros brincam de roda
(carneirinho, carneirão);
são puros como a verdade;
mas eu minto como um cão. 

Há quem leia Luluzinha,
há quem leia pergaminhos;
leio notícias reversas
nos jornais de meus vizinhos. 

Os outros ficaram bravos
ao pôr de lado o brinquedo,
bravos, leais, sans reproche;
mas eu guardei o meu medo. 

Encaminha a mente deles
uma repulsa moral;
na minha pulsa o High Life
do mais turvo Carnaval.

Todos foram tão bacanas
na quadra colegial;
só eu não fui (mea culpa)
nem bacana, nem legal.

O trem dos outros tem
um ar etéreo e eterno;
às vezes ando vestido
como um profeta do inferno.

Muitos voam pelas pautas
que se desfazem nos astros;
amei Vivaldi, Beethoven,
Bach, Debussy, mas de rastros.

Certos olhos são vitrais
onde dá a luz de Deus;
Deus me deu os meus e os teus
para a dor dar-te adeus.

Há tanto moço perfeito
like a nice boy (inglês);
eu falo mais palavrões
que meu avô português.

Os outros são teoremas
lindos de geometria;
eu me apronto para a noite
nos pentes da ventania.

Para quem foi feito o mundo?
Para aquele que o goze.
Como gozá-lo quem gira
no perigeu da neuroses?

Copiei com canivete
este grifo de Stendhal:
“Nunca tive consciência
nem sentimento moral”.

Faço meu Murilo Mendes
quanto à força de vontade:
“Sou firme que nem areia
em noite de tempestade”.

Há gente que não duvida
quando quer ir ao cinema;
duvido de minha dúvida
no meu bar em Ipanema.

Outros, felizes, não bebem,
não fumam; eu bebo, fumo,
faço, finjo, forço, fungo,
fuço na noite sem rumo.

Outros amam Paris, praias,
cataventos, livros, flores,
apartamentos – a vida;
eu nem amo meus amores.

Os outros podem jurar
que me conhecem demais;
quando acaso penso o mesmo,
o demônio diz: há mais…

A infância dos outros era
o céu no tanque da praça;
a minha não teve tanque,
nem céu, nem praça, nem graça.

Até na morte encontrei
a divergência da sorte:
a deles, flecha de luz,
a minha, faca sem corte.

O espaço deles é onde
circunda a casa o jardim;
mas o meu espaço é quando
um parafuso sem fim.

    (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Às vésperas da eleição, ala “petista” do PSB arma golpe para controlar o partido de Marina

Amaral, um “petista” no PSB

Carlos Newton

Em plena reta final das eleições gerais, o PSB marcou reunião para segunda-feira, dia 29, a fim de eleger a nova direção partidária por mais três anos. Nunca se viu tamanha desfaçatez. É um golpe, não há dúvida, armado pelo presidente em exercício Roberto Amaral, que substituiu o ex-governador Eduardo Campos na direção do PSB e agora quer se eternizar no cargo, como ocorre em tantos partidos, como o PDT (Carlos Lupi), o PV (José Luiz Penna), o PMDB (Michel Temer) e outras legendas mais.

Figura sem voto e sem expressão no PSB, Roberto Amaral era prestigiado apenas por sua dedicação ao ex-governador pernambucano Miguel Arraes, avô de Eduardo Campos e principal líder dos socialistas. Em homenagem à memória de Arraes, Roberto Amaral vinha ocupando a vice-presidência e chegou até a ser ministro de Lula.

Agora, com apoio do pernambucano Carlos Siqueira, secretário-geral do PSB, que abandonou a campanha de Marina no dia em que ela foi oficializada candidata do partido, Amaral tenta se tornar presidente efetivo do partido. Mas acontece que Siqueira é como Amaral – não tem votos nem influência.

MANOBRA ELEITORAL

Num momento totalmente inoportuno, Amaral e Siqueira conseguiram convocar o partido para escolher uma nova direção. Jamais se viu isso na política brasileira – um partido realizando eleição interna na mesma semana das eleições gerais do país. A estratégia de Amaral e Siqueira é esvaziar o evento, pela ausência dos dirigentes que estão disputando as eleições ou atuando nas campanhas de Marina Silva e de candidatos a governador.

Roberto Amaral sempre foi mais petista do que socialista. Seu negócio era agradar a Lula e ao PT para ganhar um ministério ou alguma outra benesse federal. Por isso, em 2012, desde o início foi contra a candidatura de Eduardo Campos e lutou para manter a coligação com o PT.

Com a morte de Campos, a 13 de agosto, Amaral assumiu imediatamente a presidência do partido e tentou esvaziar a candidatura de Marina Silva, para renovar a antiga coalizão com o PT, mas foi derrotado pela Executiva, que nem quis conversa. Agora, age nos bastidores do Diretório Nacional para dominar o PSB.

O chamado grupo de Pernambuco está atento e tem apoio de Marina Silva para eleger Geraldo Júlio, prefeito de Recife, à presidência do partido. Eles tentam jogar a disputa interna para depois das eleições. Mas Amaral e Siqueira não querem perder a chance de manter o controle da máquina e do dinheiro do partido.

ABI elege nova Diretoria, com Domingos Meirelles (presidente) e Paulo Jerônimo (vice)

Carlos Newton

Depois de acirrada campanha eleitoral, a Associação Brasileira de Imprensa foi as urnas nesta sexta-feira e elegeu a chapa Vladimir Herzog, liderada por Domingos Meirelles e Paulo Jerônimo (Pagê), que representavam a situação, enquanto a oposição, na chapa Prudente de Moraes, era comandada por Fichel Davit Chargel e Carlos Marchi.

A chapa de Meirelles e Pagê venceu no Rio de Janeiro e também nos Estados. As providências mais importantes da nova diretoria serão a recuperação e a harmonização da ABI, com o desarmamento de espíritos e o congraçamento do categoria profissional.

“Como diz o presidente Tarcísio Holanda, a ABI não pertence a ninguém. É de todos nós, porque na verdade pertence ao próprio país, com mais de 100 anos de lutas pela democracia e pelos direitos humanos e sociais”, disse o futuro presidente Domingos Meirelles, enquanto o vice Pagê completava: “Vamos acabar com as divergências pessoais e nos unir em torno da ABI, para defender os jornalistas e os interesses nacionais. Estamos de braços abertos para receber os companheiros da chapar Prudente de Moraes. Vamos seguir em frente”.

CHAPA VLADIMIR HERZOG
 
Diretor Presidente
Domingos Meirelles
Diretor Vice Presidente
Paulo Jerônimo de Sousa
Diretor Administrativo
Orpheu Santos Salles
Diretor Econômico-Financeiro
Ana Maria Costábille
Diretor de Cultura e Lazer
Jesus Chediak
Diretor de Assistência Social
Arcírio Gouvêa
Diretor de Jornalismo
Eduardo Cesário Ribeiro
CONSELHO CONSULTIVO
Alberto Dines, Audálio Dantas, Ferreira Gullar, Juca kfouri, Cícero Sandroni, Hélio Fernandes, Ziraldo
CONSELHO FISCAL
Arnaldo César Jacob, Jorge Ribeiro, Lindolfo Machado, Luiz Carlos Chesther de Oliveira, Geraldo Pereira dos Santos, Rosângela Amorim, Paulo Roberto Gravina
CONSELHO DELIBERATIVO (Efetivos) 2013/2016
Aziz Ahmed, Flávio Tavares, Jesus Antunes, Lima de Amorim, Bernardo Cabral, Jorge de Miranda Jordão, Sérgio Gomes (Serjão), Andrei Bastos, Paulo Gomes Neto, Austrégesilo de Athayde Filho, Ralph Lichote, Silvestre Gorgulho, Elio Maccaferri, Antônio José Ferreira Carvalho e Udson da Silva de Oliveira
CONSELHO DELIBERATIVO (Efetivos)) 2014-2017
Ricardo Kotscho, Milton Coelho da Graça, Anna Lee, Joseti Marques, Moura Reis, Tarcísio Baltar, Nivaldo Pereira, Carlos Chaparro, Luthero Maynard, Daniel Mazola, Amiccucci Gallo, Oswaldo Augusto Leitão, Siro Darlan, Jeronimo do Espírito Santo e Fábio Costa Pinto
CONSELHEIROS SUPLENTES 2013/2016
Adalberto Diniz, Adilson Ribeiro, Carlos Alberto da Rocha Carvalho, Carlos Di Paola, Terezinha Santos, João Luiz Dória, Maurício Max, JL Costa Pereira, Luarlindo Ernesto, Marcia Guimarães, Carlos Newton, Moysés Chernichiarro Corrêa, Raul Silvestre, Reinaldo Leal, Wilson Alves Cordeiro
CONSELHEIROS SUPLENTES 2014-2017
Lourival Marques Bogea, Petrônio Souza Gonçalves, Elisabete Burlamarqui, Ilma Martins da Silva, Vilson Romero, Bonifácio Rodrigues de Mattos (Ikenga), Claudinéia Lage, JB Serra e Gurgel, José Carlos Machado, Jayme Gama, Érika Branco, Luiz Wanderley da Silva, Roberto Martins, Tiago Santos Salles, Wilson Carvalho

Piada do dia: Lula diz não saber de convite para depor na Polícia Federal

Valmar Hupsel Filho e Carla Araújo
O ESTADO DE S. PAULO

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que não recebeu convite para depor à Polícia Federal em um dos inquéritos complementares do mensalão. Ao ser questionado pela reportagem se iria prestar o depoimento, respondeu: “Quando eu for convidado, meu amor. Eu não recebi nada.”

Lula participou de dois comícios do candidato do PT ao governo paulista, Alexandre Padilha. À noite, o ex-presidente disse estar “tranquilo”, mas viu conotação política na divulgação do caso. “Certamente, o objetivo de quem manda vocês fazerem a pergunta para mim é eleitoral. O que não é o comportamento da Polícia Federal”, afirmou. “Quando você quer fazer uma investigação séria, você não se preocupa com o período eleitoral. Não tem data, não tem limite, não tem eleição. Eu estou tranquilo.”

A tentativa dos federais de ouvir Lula foi noticiada ontem. Há sete meses, policiais tentam ouvir o ex-presidente no inquérito que investiga a suspeita de repasses ilegais da Portugal Telecom ao PT. Lula ironizou a situação: “É a primeira vez que alguém é convidado pela imprensa.”

Havia previsão de que o depoimento ocorresse esta semana em Brasília. Mas Lula não vai aparecer, segundo Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula. “Depois da eleição, talvez”, afirmou. Como ex-presidente, o petista tem prerrogativa de negociar quando será ouvido pelos policiais.

INVESTIGAÇÃO

A investigação foi aberta a pedido do Ministério Público Federal com base em denúncia do operador do mensalão, Marcos Valério Fernandes de Souza. Em depoimento prestado à Procuradoria-Geral da República em 2012, Valério acusou o petista de intermediar pagamento de R$ 7 milhões da telefônica ao PT. O objetivo seria pagar dívidas de campanha. O conteúdo do depoimento foi revelado pelo Estado em 11 de dezembro daquele ano.

Lula não é alvo da investigação em andamento. A ideia da PF é ouvi-lo como testemunha.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Se a poderosa Polícia Internacional (Interpol) não consegue achar Paulo Maluf, que tem endereço sabido e mandato de deputado federal, não é surpresa que a Polícia Federal tenha dificuldades para encontrar Lula, especialmente por ele vive viajando, não é mesmo? (C.N.)