Causas da irritação do companheiro

Carlos Chagas

Claro que os psicólogos responderiam com muito mais competência e certeza do diagnóstico,  coisa que não nos impede, simples mortais, de arriscar  palpites. Sobre o   quê? Sobre a crescente irritabilidade  do presidente Lula quando, em improvisos ou numa dessas múltiplas entrevistas de beira de calçada, investe com diatribes e agressões sobre o  objeto das  perguntas e às próprias,  neste caso, ou dá vazão a sentimentos variados, naquele.

O companheiro-mór anda bravo com o mundo, chamando os  oposicionistas de pizzaiolos, os aliados de incompetentes e os  jornalistas de desafetos. Parece haver baixado nele o espírito do general Ernesto Geisel, aquele que além de presidente da República era ministro de todas as pastas, diretor de todos os departamentos e chefe de todas as seções do serviço público.  Transforma-se, o Lula,  em dono das verdades absolutas,  detentor único das soluções para problemas políticos, econômicos e administrativos. Até mesmo sua tradicional bonomia e seu sentimento de tolerância vão cedendo lugar à intransigência. Fenômeno estranho, porque ao invés de a candidata Dilma Rousseff absorver as qualidades  do chefe, antes abertas ao diálogo e à absorção de críticas, é ele  que parece haver sido  inoculado pelo germe da agressividade e da falta de indulgência para quem pensa ou age diferente.

O importante,  para os  psicólogos, é analisar profissionalmente   e conhecer a causa  da mutação  de  sentimento  dos pacientes, ainda que a  nós,  cá de baixo, sempre seja  permitido arriscar impressões periféricas.

Estará o presidente percebendo que Dilma Rousseff não chega lá? Que precipitou-se ao impor a candidatura da correta chefe da Casa Civil, excelente administradora mas carente de experiência política? Porque,  nesse particular, não adianta falar grosso, elevar a voz, dar ordem unida  e comportar-se como  mestre-escola. Pontificar é perigoso, impor,  mais ainda, para quem depende da opinião e do voto dos outros.

Há que aguardar os próximos  lances e os novos episódios dessa novela de suspense em que se transforma a sucessão presidencial. Com prazo ou sem  prazo para dona Dilma decolar, a verdade é que a sombra da derrota começa a surgir no horizonte, apesar da vasta  propaganda e da cortina-de-fumaça levantada no palácio do Planalto e arredores. O risco é de o programa governamental  em curso nos últimos sete anos sofrer solução de continuidade e ser substituído pelo plano de vôo  dos tucanos.

Novas perspectivas

O saudoso dr. Ulysses dizia que o atual Congresso sempre era pior  do que o anterior e melhor do que o próximo.  Há dúvidas,   diante da lambança revelada pelas  denúncias de abusos parlamentares, antigas mas apenas agora conhecidas.  Continuando as coisas como vão, o próximo Congresso só poderá ser melhor do que o atual,  já que pior é impossível. Tudo indica que a renovação na Câmara dos Deputados e, em especial, no Senado, será arrasadora.  A pergunta que se faz é se a tendência para  as eleições parlamentares do ano que vem contaminará  as eleições de governador. A ânsia por escolher candidatos desvinculados das práticas denunciadas  pode até não dar resultado, quem sabe os eleitos oferecerão espetáculo ainda mais lamentável do que o encenado  pelos atuais? Mesmo assim, a busca de novos deputados e senadores poderá contagiar a procura por novos governadores. Será um desastre para as oligarquias e até para honestos esquemas de poder em exercício, mas essas coisas  costumam pegar  mais do que sarampo. Coincidência ou não, começam a aparecer nos estados candidatos desvinculados das lideranças em exercício. Acima e além de partidos, é bom prestar atenção nos movimentos não  ortodoxos. Até mesmo nos de origem religiosa, o que pode ser, com todo o respeito, um perigo dos diabos…

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