Censurado pela Redação por criticar o Supremo, José Roberto  Guzzo abandona a Veja

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Guzzo perde sua coluna, mas não perde a dignidade

José Roberto Guzzo
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“Caros amigos

Desde ontem, 15/10/19, não sou mais colaborador da revista “Veja”, na qual entrei em 1968, quando da sua fundação, e onde mantinha uma coluna quinzenal desde fevereiro de 2008. A primeira foi publicada na edição de 13/02/2008. A partir daí a coluna não deixou de sair em nenhuma das quinzenas para as quais estava programada.

Na última edição, com data de 16/10/19, a revista decidiu não publicar a coluna que eu havia escrito. O artigo era sobre o STF, e sustentava, como ponto central, que só o calendário poderia melhorar a qualidade do tribunal — já que, com a passagem do tempo, cada um dos 11 ministros completaria os 75 anos de idade e teria de ir para casa. Supondo-se que será impossível nomear ministros piores que os destinados a sair nos próximos três ou quatro anos, a coluna chegava à conclusão que o STF tende a melhorar.

A liberdade de imprensa tem duas mãos. Em uma delas, qualquer cidadão é livre para escrever o que quiser. Na outra, nenhum veículo tem a obrigação de publicar o que não quer. Ao recusar a publicação da coluna mencionada acima, “Veja” exerceu o seu direito de não levar a público algo que não quer ver impresso em suas páginas. A partir daí, em todo caso, o prosseguimento da colaboração ficou inviável.

Ouvimos, desde crianças, que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Espero que esta coluna tenha sido um bem que não durou, e não um mal que enfim acabou. Muito obrigado.”

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O ARTIGO QUE A VEJA CENSUROU É ESSE: *A FILA ANDA*

Um dos grandes amigos do Brasil e dos brasileiros de hoje é o calendário. Só ele, e mais nenhum outro instrumento à disposição da República, pode resolver um problema que jamais deveria ter se transformado em problema, pois sua função é justamente resolver problemas — o Supremo Tribunal Federal. O STF deu um cavalo de pau nos seus deveres e, com isso, conseguiu promover a si próprio à condição de calamidade pública, como essas que são trazidas por enchentes, vendavais ou terremotos de primeira linha.

Aberrações malignas da natureza, como todo mundo sabe, podem ser resolvidas pela ação do Corpo de Bombeiros e demais serviços de salvamento. Mas o STF é outro bicho. Ali a chuva não para de cair, o vento não para de soprar e a terra não para de tremer — não enquanto os indivíduos que fabricam essas desgraças continuarem em ação.

UMA MANEIRA – Eles são os onze ministros que formam a nossa “corte suprema”, e não podem ser demitidos nunca de seus cargos, nem que matem, fritem e comam a própria mãe no plenário. Só há uma maneira da população se livrar legalmente deles: esperar que completem 75 anos de idade. Aí, em compensação, não podem ser salvos nem por seus próprios decretos. Têm de ir embora, no ato, e não podem voltar nunca mais. Glória a Deus.

Demora? Demora, sem dúvida, e muita coisa realmente ruim pode acontecer enquanto o tempo não passa, mas há duas considerações básicas a se fazer antes de abandonar a alma ao desespero a cada vez que se reúne a apavorante “Segunda Turma” do STF — o símbolo, hoje, da maioria de ministros que transformou o Supremo, possivelmente, no pior tribunal superior em funcionamento em todo o mundo civilizado e em toda a nossa história.

DUAS CERTEZAS – A primeira consideração é que não se pode eliminar o STF sem um golpe de Estado, e isso não é uma opção válida dos pontos de vista político, moral ou prático. A segunda é que o calendário não para. Anda na base das 24 horas a cada dia e dos 365 dias a cada ano, é verdade, mas não há força neste mundo capaz de impedir que ele continue a andar.

Levará embora para sempre, um dia, Gilmar Mendes, Antônio Toffoli, Ricardo Lewandowski. Antes deles, já em novembro do ano que vem e em julho de 2021, irão para casa Celso Mello e Marco Aurélio — será a maior contribuição que terão dado ao país desde sua entrada no serviço público, como acontecerá no caso dos colegas citados acima. E assim, um por um, todos irão embora — os bons, os ruins e os horríveis.

PIORES, NÃO! – Faz diferença, é claro. Só os dois que irão para a rua a curto prazo já ajudam a mudar o equilíbrio aritmético entre o pouco de bom e o muitíssimo de ruim que existe hoje no tribunal. Como é praticamente impossível que sejam nomeados dois ministros piores do que eles, o resultado é uma soma no polo positivo e uma subtração no polo negativo — o que vai acabar influindo na formação da maioria nas votações em plenário e nas “turmas”.

Com mais algum tempo, em maio de 2023, o Brasil se livra de Lewandowski. A menos que o presidente da época seja Lula, ou coisa parecida, o ministro a ser nomeado para seu lugar tende a ser o seu exato contrário — e o STF, enfim, estará com uma cara bem diferente da que tem hoje. O fato, em suma, é que o calendário não perdoa.

O ministro Gilmar Mendes pode, por exemplo, proibir que o filho do presidente da República seja investigado criminalmente, ou permitir que provas ilegais, obtidas através da prática de crime, sejam válidas numa corte de justiça. Mas não pode obrigar ninguém a fazer aniversário por ele. Gilmar e os seus colegas podem rasgar a Constituição todos os dias, mas não podem fugir da velhice.

UM PAÍS MELHOR – O Brasil que vem aí à frente, por esse único fato, será um país melhor. Se você tem menos de 25 ou 30 anos de idade, pode ter certeza de que vai viver numa sociedade com outro conceito do que é justiça. Não estará sujeito, como acontece hoje, à ditadura de um STF que inventa leis, censura órgãos de imprensa e assina despachos em favor de seus próprios membros.

Se tiver mais do que isso, ainda pode pegar um bom período longe do pesadelo de insegurança, desordem e injustiça que existe hoje. Só não há jeito, mesmo, para quem já está na sala de espera da vida, aguardando a chamada para o último voo. Para estes, paciência.

(Poderiam contar, no papel, com o Senado — o único instrumento capaz de encurtar a espera, já que só ele tem o poder de decretar o impeachment de ministros do STF. Mas isso não vai acontecer nunca; o Senado brasileiro é algo geneticamente programado para fazer o mal). Para a maioria, a vitória virá com a passagem do tempo.

(artigo enviado por João Amaury Belem)

21 thoughts on “Censurado pela Redação por criticar o Supremo, José Roberto  Guzzo abandona a Veja

  1. Guzzo é um profissional exemplar. Ele não perde nada em deixar a Veja. Quem perde é ela que sinaliza assim, o rumo que tomou. Realmente, não há bem que sempre dure e, este é o caso da Veja, outrora um bem indispensável na informação e hoje um pálido pasquim a caminho do fechamento. Parabéns Guzzo pela atitude tomada.

  2. A Veja de que Guzzo se afastou não é mais a que ajudou a ser uma grande revista por quase meio século. Faz muito bem em sair, e não faltarão lugares em que possa continuar a publicar seu bom jornalismo.

  3. Um absurdo.

    E a Veja sempre escreveu que era favorável à liberdade de opinião.

    Guzzo, tenho a certeza, continuará a escrever.

    Belém, parabenizo-o por sua atitude em ajudar a divulgar esse absurdo.

  4. Mesmo que a renuneracao dos colunistas da tribuna nao seja a mesma da veja ………..nao seria (caso ele se disponha é claro) a nossa Tribuna, uma tribuna para ele continuar a nos mostrar caminhos neste brasil com tantas encruzilhadas? Entendd que reforcariamos nosso time

  5. Artigo esclarecedor sobre o que é Dignidade, e o Tempo inexorável que é eterno. Infelizmente a Veja renunciou a Defesa da Cidadania, nossos governantes dos 3 poderes estão podres, a podridão do STF que está stf, é a pior. Gravei o Artigo do Sr. Guzzo, pela profundidade. Parabens ao João Belem e a esse Blog, para divulgar em minha comunidade. 141 milhões de votos de Esperança jogados no lixo, juntaram-se ou criaram novas quadrilhas para destruir o Brasil, com a politicagem. Que Deus-Pai nos acuda!!!

  6. Quando eu tinha assinatura da Veja lia sempre os artigos do Guzzo. Sempre bons , e, esse que o Amaury Belém enviou para a TI está excelente.

    Guzzo falou toda a verdade dos togados da “Suprema Corte”

    O STF , hoje, não tem credibilidade perante a sociedade.

    • Perfeito! Outro que mudou de opinião e deixou seus leitores de boca aberta. Ao menos o castigo veio a cavalo, pois perdeu a imensa maioria de quem o lia. Esses não retornarão nunca mais. Que se contente com os novos leitores de ideologia de esquerda que está de bom tamanho para o que a opinião dele representa hoje. Talvez a Veja tenha se arrependido de tê-lo demitido.

  7. Os artigos de Guzzo eram umas poucas coisas que ainda valiam a pena na VEJA, que agora deixa de prestar de vez. Aliás, o artigos do Guzzo eu lia na internet, principalmente quando saíam aqui na TI, a VEJA já não leio nem em consultório médico.
    Se a VEJA quer se voltar exclusivamente para a torcida de Gilmar Mendes, vai mesmo ficar muito mal de leitores.

  8. O povo é o poder constituinte.
    Organizados e nas ruas, não precisam de “mídias sociais” … Mandam !!!
    Todos os outros poderes exceto claro as FA são poderes constituídos (por nós).
    Uma pena que a maioria AINDA não sabe disso.

      • Mas artigos são opinião, não notícia.
        Não que qualquer órgão de imprensa tenha a obrigação de manter qualquer articulista.

        E a VEJA tem sido horrível já há muitos anos. Já tinha ficado ilegível nos tempos de FHC, da qual a revista foi apologista incondicional. E só foi piorando desde então, entrando em franca decadência. Hoje, como veículo informativo, não faz a menor falta.

        E essas, por assim dizer, metamorfoses de meios de imprensa não costumam ter resultado positivo.
        Dizem que quando o Correio da Manhã estava em declínio, tentou transmudar sua imagem de conservador para progressista, e com isso acelerou seu caminho para o fim. Se a VEJA, que sempre foi neoliberal e opinionista a ponto de publicar notícias desprovidas de base comprobatória cabal, agora quer se fazer de objetiva e “isentona”, talvez perca o público que tinha (já vem perdendo) e não encontre um novo.

  9. Uau hoje esta revistinha vai perder mais alguns assinantes, gente que acredita no Guzzo. Pois é, esta revista que sofreu tanta censura no tempo da Ditadura , hoje censura quem não pensa como ela. Mas como diz o próprio ex-colunista, ela publica o que gosta, ou o que mais lhe interessa. O que será que os leitores desta revistinha leem que já não foi publicado nos blogs pestistas?

  10. Guzzo
    mais uma vez , escreveu muito bem !
    Retratou o STJ , que está nos envergonhando !
    Há um ano e meio que deixamos de assinar essa revista …. Espero que saia de circulação logo ….Pois não sobrou nada de conteúdo para nos informar !

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