2 thoughts on “Charge do Duke

  1. O fim da expansão monetária americana

    POR ROBERTO FENDT (ECONOMISTA)

    Leitor escreve e pede que eu retome a análise eventos internacionais, coluna sim, coluna não, como costumo fazer.

    Tem razão o leitor. Em minha defesa apenas aponto que os eventos internos se impuseram de tal maneira que discorri duas vezes seguidas sobre eles. Com minhas desculpas, passo ao que julgo ser o tema mais importante do cenário internacional – pelo menos do ponto de vista do Brasil.

    Concordo com George Friedman ao dizer que chegou a hora que os investidores internacionais aguardavam: o Comitê de Política Monetária dos EUA anunciou em sua reunião de 29 de outubro último o fim do programa de expansão monetária anunciado em 13 de setembro de 2012.

    Esse programa consistiu em compras, pelo Comitê de Política Monetária do Federal Reserve, o banco central americano, de títulos bancários, conhecido no jargão local como QE3, e na manutenção da taxa básica de juros dos EUA próxima de zero. O objetivo do programa foi o de estimular a economia. Em sua vigência, o Federal Reserve adquiriu mensalmente US$ 40 bilhões de títulos detidos pelo mercado; posteriormente, em dezembro de 2012, as aquisições alcançaram US$ 85 bilhões mensais.

    O fim do QE3 marca, portanto, uma mudança radical na política econômica americana, depois de seis anos de expansão monetária e juros básicos quase nulos. É difícil antever o que ocorrerá, não somente com relação à economia americana, mas principalmente com a economia mundial.

    O que há de favorável no evento é o fato de que se trata de uma morte anunciada: o Federal Reserve vem avisando há tempos o mercado do fim próximo do programa de expansão monetária. Ninguém poderá dizer que foi surpreendido e deixou de tomar as medidas de política econômica necessárias para fazer face às consequências da mudança.

    Corroborando esse fato, o banco central americano já vinha, desde maio de 2013, reduzindo o valor mensal das compras de títulos, do recorde de US$ 85 bilhões mensais para a compra final esse mês de somente US$ 15 bilhões.

    Essa redução nas aquisições não ocorreu sem perturbações no mercado. O menor volume de dinheiro injetado no mercado a partir de maio de 2013 trouxe consigo um aumento na volatilidade dos preços dos ativos, decorrente tanto da menor quantidade de dinheiro na praça como da perda do hábito de acompanhar mais detidamente o mercado depois de seis anos de marasmo monetário.

    Não se questiona a volta à normalidade no mercado monetário dos EUA. O QE3 foi concebido como medida transitória para fazer face à perda de confiança dos agentes econômicos com a crise de 2008. O que pode ser perguntado é se a sua eliminação, depois de seis anos de vigência, é positiva ou negativa.

    Do ponto de vista americano, serve de indicação que a economia do país caminha para a normalidade. O mesmo não pode ser dito de todos os demais países. A Europa continua patinando e a “Abenomics” – a política econômica do premiê japonês Shinzo Abe – ainda não disse a que veio.

    Ainda mais afetados serão os países que dependem do mercado internacional de capitais para financiar seus balanços de pagamentos. No jargão do mercado, cinco deles com enormes saldos negativos em seus balanços de pagamentos em conta corrente estão sendo chamados de “Os Cinco Frágeis” – Turquia, Índia, África do Sul, Indonésia e Brasil. Isso mesmo, estamos no mesmo balaio que os outros quatro.

    Como isso foi possível? Faz muito que os economistas profissionais estão alertando o governo para controlar suas contas. Ao excesso de gastos do governo soma-se o excesso de gastos do setor privado, impulsionado por um crescimento sem precedentes do crédito. Como a produção interna não cresce na mesma proporção que a demanda, o excedente transborda para o balanço de pagamentos.

    Nesse quadro, é compreensível que o Banco Central tenha decidido elevar a taxa Selic. É possível que volte a fazê-lo, revertendo uma política que havia sido anunciada antes das eleições.

    Uma parcela considerável dos recursos externos que desembarcam em nosso país vem em busca de maior rentabilidade em relação ao que é possível obter nos países de origem. Até recentemente, com o Banco Central controlando a desvalorização do real, comprar títulos do Tesouro brasileiro era a melhor aplicação do mercado.

    Teremos um período de turbulência pela frente no balanço de pagamentos. O resultado acumulado das contas fiscais no ano passou de um superávit para um déficit primário de R$ 15,705 bilhões. É a primeira vez que isso ocorre desde 1997, quando teve início da série histórica desses dados.

    O resumo da ópera é o seguinte: se as contas públicas não produzirem um saldo primário positivo, o esforço do Banco Central será semelhante a enxugar gelo. A diferença é que as condições externas, favoráveis até agora, talvez não sejam tão boas com o fim da expansão monetária americana. A conferir.

    (Transcrito do Diário do Comércio)

  2. Entenda por que o padrão de vida dos consumidores emergentes está em xeque

    Classe C não é apenas uma das frias classificações dos brasileiros por renda familiar. Esse imenso grupo de 100 milhões de pessoas, ou cerca de metade da população, segundo o IBGE, transformou-se num dos fortes símbolos dos governos Lula e Dilma. A simbolização valia pela incorporação maciça desses consumidores ao mercado de produtos rotineiros mais requintados e vale agora, também, quando a classe C desce a ladeira, passando a comprar produtos mais baratos ou de segunda linha.

    As carnes de primeira, como filé-mignon e contrafilé, já são substituídas por coxão duro e músculo. Os azeites, por óleos de soja e de milho. A manteiga, por margarina. O mesmo se repete em relação às linhas de higiene pessoal e limpeza.

    É claro que não se trata de desejo do consumidor, mas de pura necessidade. O processo conhecido como downtrading de marcas é mais um sinal de que a maior classe econômica do país, que gastou perto de R$ 1,1 trilhão e movimentou 58% do crédito em 2013, já não consegue mais manter o ritmo de consumo dos últimos anos. Outros indicadores, além da inflação, são o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias.

    O problema não é apenas econômico. É também, sobretudo, social. A mente do cidadão funciona no mesmo molde psicológico que a do consumidor. Quando o consumidor entra em processo de perda, o cidadão reage por seu descontentamento. Ele quer de volta as conquistas que evaporaram.

    Faltou ao governo um tanto de sensibilidade para essa regra básica de uma dinâmica de forte dimensão política. Numa declaração surpreendente, em meio à campanha presidencial, o secretário de Política Econômica, Márcio Holland, recomendou que, com a carne mais cara, os consumidores a substituíssem por frango.

    O argumento de Holland à la Maria Antonieta era o de que os preços subiam ou desciam, dependendo do alimento disposto nas gôndolas dos supermercados. O que é verdade. No entanto, não estamos vivendo oscilações equilibradas de preços que favoreçam o chamado “efeito substituição”. A proporção de preços que sobem é incomparavelmente maior do que a de preços que baixam. O cenário indica que atravessamos um processo generalizado de enfraquecimento, dentro do mercado, dessa poderosa metade dos brasileiros.

    Será que o freio nas compras é apenas conjuntural, por um período curto de tempo, ou estrutural, isto é, vai demandar um grande esforço do país, das empresas, da sociedade para que as famílias voltem a consumir de forma mais consistente?

    Essas são questões que estão cada vez mais em discussão nas empresas e chamam a atenção de economistas, institutos de pesquisa e consultores de varejo. E com razão. Acostumados com taxas de crescimento de até dois dígitos nas vendas de roupas, calçados, móveis, carros e até casas, os empresários vão ter que se preparar para uma redução do volume de dinheiro em caixa, além de ajustar os estoques e até mesmo cortar custos.

    “Com a queda de consumo, as micro e pequenas empresas serão aquelas que ficarão mais expostas à redução de rentabilidade. Como evitar isso? Com corte de custos”, diz Fábio Silveira, sócio-diretor da GO Associados.

    DOWNTRADING

    Veja o caso da dona de casa Maria Kataoka, 54, da região de Perdizes, em São Paulo, que já foi bancária e chegou a ter uma pequena escola de inglês. “Troquei recentemente todas as marcas e os produtos de primeira linha que costumava comprar, no caso de carnes, arroz, feijão, óleos, produtos de limpeza. Os preços subiram demais”, diz. Ela enfrenta mais um agravante. O marido, engenheiro eletricista, ficou desempregado.

    A inflação volta a ser apontada como a principal vilã desse cenário. Os produtos considerados essenciais, de fato, estão mais caros. De janeiro a setembro deste ano, os custos de alimentação, transporte, saúde e educação superaram a inflação de 3,79%, no período, segundo a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Os aumentos foram de 4,59%, 6,68%, 5,24% e 8,21%, respectivamente, nos nove meses deste ano.

    Não tem mágica. Se o consumidor gasta mais e o dinheiro que entra na conta no final do mês não cresce na mesma proporção, ou ele tem de reduzir os volumes de compra ou trocar por marcas mais baratas.

    Foi o que ele fez. No segundo trimestre de 2014, saíram da lista de compras da classe C empanados, petit-suisse, leite pasteurizado, sabão em pedra, na comparação com igual período do ano passado, segundo levantamento realizado pela Kantar Worldpanel. Outras pesquisas já haviam notado que os sucos concentrados e a polpa de tomate, por exemplo, já não faziam mais parte da lista frequente de compras.

    Não significa que o consumidor não coloca mais na cesta tais produtos. O que ocorre é uma menor frequência de compra, como constata também o Sincovaga, sindicato que reúne cerca de 50 mil comerciantes paulistas de gêneros alimentícios. Pesquisa realizada em agosto deste ano pelo sindicato revelou grande esforço da dona de casa para manter o padrão de consumo de alimentos, bebidas e produtos de higiene e limpeza.

    Cerca de 60% dos consumidores ouvidos informaram que tiveram de alterar critérios de consumo: 19% reduziram quantidades para manter marcas preferidas; 18% mudaram as marcas, mas mantiveram os volumes; 25% cortaram quantidades e substituíram marcas, segundo o sindicato.

    “Se ele compra o detergente líquido para roupa, já não leva mais o suco pronto para beber. A classe C está mais racional, vê bem o que cabe no bolso e tenta se adequar”, afirma Carolina Andrade, executiva de marketing da Kantar Worldpanel. “Os consumidores estão fazendo conta para adquirir produtos de 10% a 15% mais baratos em relação aos que vinham comprando”, diz Álvaro Luiz Furtado, presidente do Sincovaga.

    Qualquer mudança de preço nos alimentos tem forte impacto na classe C. Isso porque a alimentação representa em torno de 25% a 30% da renda dessa classe social. “A dona de casa de hoje conta cada centavo. Ela sabe bem quando dá ou não para comprar os produtos de marca e adotada estratégias para lidar com isso”, diz Luciana Aguiar, diretora técnica da Plano CDE, consultoria especializada em estudos das classes C, D e E.

    Não são apenas os aumentos de preços que voltam a pressionar a maior classe econômica do Brasil. Aliás, se fosse um país, seria o 12º mais populoso do mundo. Empolgada com o crédito farto e longo nos últimos anos, a classe C equipou a casa, contratou TV a cabo, comprou celular, carro e até casa própria para pagar em suaves prestações. Acontece que, neste ano, boa parte da renda ficou comprometida.

    No período em que o país exibia os maiores índices de expansão do consumo, economistas e especialistas em varejo já alertavam que não seria possível manter por muitos anos um crescimento de dois dígitos nas vendas de produtos de consumo, carros, imóveis e pacotes de viagens.

    A orientação era para que as empresas acompanhassem de perto os hábitos, o comportamento dos consumidores, porque, de uma hora para outra, o ritmo de consumo poderia esfriar. Tudo indica que essa previsão começa a se confirmar ao longo deste ano.

    ENDIVIDAMENTO CRESCENTE

    Somente com os bancos, o nível de endividamento das famílias atingiu 46% da renda acumulada no período de 12 meses até julho deste ano, de acordo com levantamento do Banco Central (BC). Vale lembrar que esse percentual vem subindo desde 2005, quando era da ordem de 18%.

    Preços em alta e renda comprometida exigem dos consumidores um grande esforço financeiro para evitar o pior: cair na lista dos inadimplentes e aí, sim, ficar de vez excluídos do mercado de consumo.
    Alguns deles não conseguiram escapar. De janeiro a agosto deste ano, a inadimplência do consumidor subiu 2,5% em relação a igual período do ano passado. Só no mês de agosto, a alta foi de 17,2% na comparação com igual mês de 2013, segundo levantamento da Serasa Experian.

    (Transcrito do Diário do Comércio)

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