Chateaubriand, jornalista desde os 13 anos, catedrático de Direito aos 23 anos, escrevendo todo dia, mesmo incapacitado fisicamente, e Roberto Marinho, que abandonou a Faculdade, jamais escreveu a vida inteira

Francisco César:
“Helio, gostaria de saber como o senhor analisaria as duas figuras máximas da Comunicação no Brasil, Assis Chateaubriand e Roberto Marinho, suas divergências e afinidades”.

Comentário de Helio Fernandes:
Excelente ideia, vou satisfazer você e muito outros, que sempre procuram comparar Chateaubriand e Roberto Marinho. Na verdade, nada mais desigual em tudo, Chateaubriand e Marinho só passaram a ter alguma coisa em comum a partir de 1964. A fortuna pessoal de Roberto Marinho, e a consolidação da Organização, começaram com o golpe de 1964.

Chateaubriand já estava no fim, morreria em 1968. Vou escrevendo sem consulta a coisa alguma, não tenho enciclopédia nem documentário, aliás tudo o que escrevo é de lembrança, de vivência ou de memória, às vezes pode acontecer falha mínima, mas que não atinge o conteúdo. Depois de ler, todos verão que distância espantosa existiu entre os dois, na formação, no começo, no meio e no fim. (Inacreditável divergência, EM TUDO, acabaram se juntando num túnel impenetrável).

Chateaubriand, com 13 ou 14 anos, já escrevia em jornal, e logo, logo, por necessidade, foi para as redações. Roberto Marinho, apenas herdeiro. O pai, Irineu, grande jornalista, dirigiu “A Noite”, um dos jornais mais populares do Rio antigo. De 1915 a 1925, alcançou tiragens que muitos não atingem hoje.

Em 1925, deixou “A Noite” e fundou “O Globo”. Morreu meses depois, quando Roberto Marinho acabava de fazer 21 anos, estava no primeiro ano da Faculdade de Direito, que abandonaria imediatamente. Mas não assumiu a direção do jornal. Quem dirigiu tudo durante 6 anos, foi o segundo de seu pai, jornalista Euricles de Mattos. Este morreu, Roberto teve que assumir, mantendo seu nome no cabeçalho durante alguns anos, depois tiraram.

Enquanto Roberto Marinho ficava no primeiro ano da Faculdade de Direito (embora exigisse ser chamado de doutor), Chateaubriand, em 1915, com 23 anos, ganhava as cátedras de Direito Romano e da Filosofia do Direito. Não quiseram nomeá-lo professor das duas cadeiras, veio para o Rio reinvindicar o que conquistara. (Chateaubriand tinha 12 anos mais do que Roberto Marinho, nasceu em 1892, Marinho em 1904).

Essa a parte da formação, inteiramente diferente. Chateaubriand era um jornalista e um professor de duas cátedras importantes, e Roberto Marinho?

A vinda para o Rio modificou toda a vida de Chateaubriand. Era um impulsivo e compulsivo, dinâmico e realizador, invadiu todos os setores. Fundou logo “O Jornal”, e a seguir os “Associados”, que juntavam todas as empresas jornalísticas que ia montando no Brasil inteiro.

Chegou a ser proprietário (lógico, proporcionalmente) do maior império jornalístico do mundo. Em 1950, (quando trouxe para o Brasil a primeira estação de televisão, a TV Tupi) tinha 76 empresas, entre jornais, revistas, rádios e televisões (que foram se multiplicando) e a maior agência de notícias da América do Sul, a Meridional.

Enquanto isso, Roberto Marinho ainda não despontara. Com 60 anos de idade, (de 1904, quando nasceu, até 1964, quando fundou a TV Globo sob a “proteção” da ditadura) só pensava em dinheiro, em viver ostensivamente. Não quero dizer que Chateaubriand não se interessava por dinheiro, isto não é defesa nem ataque para nenhum lado. Só que a vida do “doutor Assis” (como era chamado e gostava), foi intensa e proveitosa.

Chateaubriand escrevia diariamente, estivesse onde estivesse. Obsessivo, mandava artigos escritos até em papel de maços de cigarros. (Na época das linotipos, havia sempre um linotipista de plantão, até chegar o artigo do “doutor Assis”. Só ele entendia os “hieróglifos”. Roberto Marinho jamais escreveu qualquer coisa. Os “editorialistas” do Globo eram conhecidos, alguns estão vivos.

Único título que tinham em comum: o de “imortais” da Academia. Mas Chateaubriand tinha mais títulos do que toda a Academia. Roberto Marinho só entrou porque muitos acadêmicos escreviam no Globo. Mas o “doutor Assis” não deixou um terreno que não fosse penetrado.

Duas vezes senador (pela Paraíba e pelo Maranhão de antes de Sarney), embaixador na mais fechada e aristocrática corte, a da Grã-Bretanha, se transformou na grande atração. Criou a Ordem do Jagunço, outorgou o título a Winston Churchill, e todos passaram a disputar essa honraria.

Por volta de 1946, o doutor Assis, já uma potência, e Roberto Marinho, aprendiz de feiticeiro, foram almoçar no Jóquei Clube, então um dos centros mais importantes do Rio. Na hora do almoço, “quem era quem” estava ali ou em dois outros restaurantes. Foi a época do comunismo-intelectual do Rio. Roberto Marinho se queixou: “Não sei o que fazer, meu jornal está cheio de comunistas”.

E o doutor Assis, em cima do laço: “Você precisa se acostumar, eu que tenho mais de 30 jornais, nem me incomodo. Você, Roberto, quer fazer jornal sem comunista, é a mesma coisa do que pretender fazer balé sem viado”. (Naquela época era assim mesmo, não existia ainda a palavra gay).

Doutor Assis era homem de realizações, e três delas são citadas até hoje. 1 – Centenas e centenas de aviões de treinamento, que eram disputadíssimos. E muitos e muitos aeroportos. 2 – Centenas de Institutos de Puericultura, que cobriam o Brasil todo. 3 – O espantoso Museu de Arte de São Paulo (Masp), cujo acervo surpreende até mesmo especialistas estrangeiros. Diziam desprezivelmente: “O Chateaubriand construiu tudo isso, tomando dinheiro dos ricos com uma garrucha nas mãos”.

Deve ter sido mesmo. Mas outros, que tomavam dinheiro com a mesma garrucha e volúpia, depositavam no exterior. O que fez o dono do Globo, a não ser a Fundação Roberto Marinho, que ninguém consegue decifrar.

Os dois tiveram conflituosa relação com Vargas e a ditadura do Estado Novo. Iam e voltavam, dependendo dos interesses pessoais.

Já o golpe de 1964 teve apoio integral de Roberto Marinho, (a Organização começou a crescer a partir dali), Assis Chateaubriand, já quase fora do ar. Morreria logo. Tenho quase certeza de que, se estivesse em plena forma e com saúde, doutor Assis, então com 70 anos, apoiaria o golpe para proteger os Associados.

(Morreria em 1968, mas escrevendo. Não podia mover os braços e as mãos, foi criada uma engenhoca especial. Era um fio de elástico longo, preso no teto, que permitia à sua mão direita acionar as teclas de uma das primeiras máquinas elétricas do país. Era uma letra de 20 em 20 minutos. Morreu como jornalista, escrevendo).

***

PS – Em matéria de defesa do interesse nacional, os dois tinham a mesma posição. Eram ligadíssimos aos trustes, hoje chamados de globalização.

PS2 – Ganharam fortunas traindo a verdadeira posição do povo brasileiro. E as multinacionais pagavam, naturalmente lucravam de forma espantosa.

PS3 – À medida que a tecnologia avançava, as fortunas dos dois iam crescendo. Como Chateaubriand morreu quando a pródiga televisão surgia, enriqueceu muito menos.

PS4 – Já Roberto Marinho consolidou sua fortuna com a televisão. A TV Globo foi inaugurada em 1965, mas Roberto Marinho enganou o Time-Life em 1964, com a proteção dos generais. E esses generais deram à Rede Globo centenas de canais de rádios e de televisões, que fizeram a fortuna incalculável da Organização.

PS5 – Roberto Marinho, apaixonado por hipismo, foi um cavaleiro notável e vencedor. Fez pesca submarina com grande competência. E foi um grande jogador de sinuca, praticando “esse esporte”, quando a sede do Globo era na Avenida Rio Branco, esquina de Almirante Barroso. Parava gente para vê-lo jogar.

PS6 – Quando moço, teve um filho que morreu afogado. Carlos Lacerda, que não sabia nadar, se jogou no mar para salvá-lo, não conseguiu. Muitos anos mais tarde, ficaram inimigos, Marinho queria fazer negociatas, que Lacerda governador não podia autorizar.

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