Cheques interplanetários comprovam crise salarial

Pedro do Coutto

O crescimento no volume de cheques voadores interplanetários, da ordem de 18,9% em maio deste ano em relação a maio de 2008, objeto de excelente reportagem de Cássia Almeida e Ronaldo Dercele, O Globo de 19/6, da mesma forma que a queda da arrecadação federal registrada em 2009, acentua de forma inegável a incidência da crise contra os assalariados. Depois de tais considerações, não há como se falar em maior e melhor distribuição de renda, tampouco da passagem teórica de parcelas das classes pobres para a classe média.

Os números falam por si. No mês de maio último houve 2 milhões e 490 mil cheques devolvidos por insuficiência de fundos num total de 98,7 milhões de cheques compensados. Daí, portanto, o percentual de praticamente 2,5%. Muito alto. Bem maior que, como disse há pouco, o total de devoluções (e perdas) no ano passado. E não só isso: 13% a mais do que o verificado em abril.

Observa-se assim que se trata de um processo em movimento, em evolução. Não deve retroceder. Porque o fenômeno tem causas definidas, a primeira delas o desemprego. A segunda, em conseqüência do reemprego, porém com média salarial menor. Os salários, desta forma, diminuem no passar dos meses. Os compromissos não. Pelo contrário. Eles aumentam com a incidência dos juros e da correção monetária nos pagamentos adiados.

As taxas dos cheques especiais, por exemplo, estão em torno de 6 a 8% ao mês, considerando-se os montantes, representam 96% ao ano. Oito por cento elevam os juros compostos a uma cifra superior a 120%. É só fazer as contas. Não há como os aprisionados na teia dos atrasos de pagamento poderem se livrar. E a tendência dos cheques devolvidos é, em minha opinião, aumentar. Tanto assim que um bom número de lojas comerciais não os estão mais aceitando exatamente em face da inadimplência. A qual, por sua vez, acarreta um custo financeiro adicional de cobrança. O processo ameaça não ter fim. Só poderá ser contido se o valor do trabalho humano conquistar espaço em relação aos índices inflacionários.

Sobretudo é bom  lembrar que o Brasil é o único país do mundo a ter correção monetária.Em todo os demais, a começar pelos Estados Unidos, a correção inflacionária encontra-se embutida nos juros do mercado. Em nosso país, não. Além da correção, os juros. E, ainda por cima, os juros em cima dos valores corrigidos. O que significa, sem dúvida, não uma, mas duas correções monetárias de fato. Se o círculo vicioso do endividamento não for cortado pela retomada do desenvolvimento e pela reação dos níveis de emprego e salário, os cheques devolvidos vão continuar voando congelados entre as galáxias da impossibilidade do pagamento das contas.

Além de os salários estarem mais uma vez perdendo para a inflação, ainda por cima foi instituída no país, inclusive pelo INSS, a armadilha do crédito consignado. Esta modalidade só faz subir a inadimplência. Isso porque o desconto em folha, sedutor na aparência, contribui para reduzir a área de manobra  dos que devem e honestamente desejam pagar pelo que consomem e pelos compromissos que assumiram. Com a consignação direta, não há como pagar uma prestação num mês e a outra no outro. Não sobram recursos. Bom para o consignador, seja o banco ou não. Péssimo para os consumidores e, por via de consequência, para o próprio consumo. E, sobretudo para o país.

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