China, capitalista, preocupa-se em receber o que emprestou aos EUA

Pedro do Coutto

Há cinquenta anos a publicação de um artigo na imprensa com este título levaria seu autor ao hospício, pois seria dado como louco, ou ao DOPS, de triste memória, sob a acusação de ser comunista, adepto da subversão internacional. Entretanto – vejam os leitores como é o tempo – exatamente essa matéria foi publicada pela Folha de São Paulo, edição de sexta-feira 15, na seção internacional. E qual sua procedência? Pequim? Nada disso. Da sucursal de Nova Iorque.

Focaliza o montante da dívida dos EUA em mais de 14 trilhões de dólares e acentua que o governo chinês é credor principal tendo emprestado à pátria do capitalismo algo em torno de 1 trilhão e 300 bilhões (de dólares), já que a China emprestou a vários países do mundo 3 trilhões de dólares e um terço de tal quantia fantástica para Washington.

Com isso fica evidente que a força do FMI, criado em 1946, está hoje longe de se comparar ao poderia chinês. O comunismo de Mao Tse Tung e Chou En Lai, principais líderes da revolução de 1949, passou a ser coisa do passado. Entrou na galeria do museu da história. Quem poderia supor algo assim?
Ninguém. Vitoriosos em 49, os comunistas expulsaram Chang Kai Chek do continente e ele, com apoio naval norteamericano, instalou o governo de Formosa. Hoje Taiwan está incorporada ao sistema geográfico e econômico de Pequim e Xangai, nome de cidade que inspirou o filme de Orson Welles.

Mas ontem, melhor dizendo em 1950, Mao sustentou a Coreia do Norte na guerra contra os EUA, que terminou três anos depois com o Paralelo 38 dividindo a Coreia do Norte e a do Sul. Morreram 60 mil americanos. Seus nomes encontram-se gravados na praça central de Washington em frente ao imponente Lincoln Memorial. Próximo à Casa Branca.

O presidente Harry Truman, que iniciou o conflito, esperava uma fácil vitória. Não veio. O inimigo asiático, combatendo em seu terreno, era forte demais. Os americanos eram uma força expedicionária, não tinha o mesmo conhecimento do terreno. Além disso, a China Continental fez fronteira com a Coreia do Norte. Eisenhower, que derrotou o democrata Adlai Stevenson, em 52, incluiu o término da guerra da Coreia como uma de suas plataformas. Cumpriu a promessa.

O objetivo no campo político internacional passara a ser a guerra fria de Moscou. Mas a partir de 62, o foco voltou a se deslocar para a Ásia, com o governo John Kennedy começando a Guerra do Vietnã. Nova tensão máxima com a China.

Dois Vietnãs passaram a existir: o do Norte, apoiado pelos guerrilheiros vietcongs, pela China e pela Rússia; o do Sul, sustentado pelos Estados Unidos. A guerra estendeu-se até 75, quando foi selada a paz pelo presidente americano Gerald Ford, sucessor de Nixon, que renunciou em conseqüência do escândalo Watergate.

Em 73, Richard Nixon iniciara a distensão encontrando-se com Mao em Pequim e o saudando como herói da grande marcha que iniciou em 22 e culminou com sua vitória em 49.

Apesar de tal cortesia, os bombardeios de parte à parte demoraram 18 meses para serem suspensos. De 62 a 75, morreram tantos americanos nos pântanos do Vietnã quanto os que deixaram suas vidas na Coreia de 50 a 53. Nos dois casos, para nada. Os desfechos seriam os mesmo sem que americano algum morresse.

Mas agora surge no horizonte a vitória, não do comunismo, mas do pleno capitalismo chinês. A China é credora dos EUA em mais de 1 trilhão e 300 bilhões de dólares. O marxismo doutrinário passou à condição de utopia. Um pensamento que oferece o céu na terra, mas sem a vida eterna. Impossível. Mas isso não quer dizer que Karl Marx não seja o maior analista político da história. Tão grande que se tornou, na prática, o maior crítico de si mesmo. A China caminha para se tornar o maior país capitalista do mundo. Produz para isso. E, sem produção, o dinheiro deixa de ser um instrumento econômico.

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