China, de problema e ameaça, passou a ser solução

Pedro do Coutto

A mudança política mundial causada e representada pela China representa uma transformação radical de conceito. De ameaça a partir da revolução vitoriosa em 49 quando Mao Tse Tung, vencidas fases e etapas, hoje passou à categoria de solução. Principalmente econômica. Depois da abertura capitalista, mas ainda sem oferecer a liberdade aos chineses, o país é o segundo em matéria de Produto Bruto, ultrapassando o Japão por pequena margem.

Reportagem de Fábio Maisonave, Folha de São Paulo de quinta-feira, aborda a nova transição de poder, provavelmente com a substituição de Hu Jintao por Xi Jimping. Uma nova década para a qual se espera uma abertura política. E, de acordo com o repórter, e promessa da eterna luta contra a corrupção. Esta, inclusive, inviabilizou na rota para o poder do ex-dirigente Bo Xilai.

Mas em 49, a China, hoje parceira, era frontalmente contra os Estados Unidos e dela partiu o principal ponto de apoio à Coreia do Norte que durante três anos esteve em guerra contra os EUA, maior potência militar mundial. Anos depois sustentaria o Vietnam do Norte, num conflito ainda muito mais longo, de 62 a 75.

Na Coreia e no Sudeste Asiático morreram 60 mil americanos. Muitas vezes mais coreanos e vietnamitas. Para quê? Para, em ambos os casos, chegar-se aos mesmos pactos a que chegariam sem mortes e mutilações. O

tempo passou. A China, hoje, é o país com o qual o Brasil desenvolveu seu maior comércio. Em 61, porque encontrava-se em visita à China de Pequim, o vice João Goulart quase não consegue assumir a presidência quando Jânio Quadros renunciou. Em 64, missão comercial chinesa foi presa pela polícia do governador Carlos Lacerda, que fora eleito em 60 e integrava as forças acentuadamente conservadoras e temerosas do comunismo chinês.

Saiu Mao Tse Tung, saíram os seus sucessores, houve em 75 reaproximação com Washington, reaproximação sim, pois na segunda guerra os dois países uniram-se contra o Japão. A partir do final da década de 60, ass divergências chinesas projetaram-se contra a então União Soviética, abrindo-se uma cisão no marxismo. Com a cisão, afrouxou-se a tensão com o Ocidente.

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MEIO ESTATAL

Hoje a economia chinesa é meio estatal, meio aberta a investimentos privados. Nada como o tempo para promover revisões. O que era radical, pelo menos no plano externo, a China passou à moderação. Só assim conseguiu abrir-se ao mercado internacional e expandir este próprio mercado. Um Produto em torno de 5 trilhões de dólares é algo extremamente significativo. Mão de obra pessimamente remunerada, parece uma ironia, mas os novos marxistas não chegaram ao marxismo.

Talvez seja ele mesmo, em essência, uma utopia. Mas pode significar um passo para a tentativa de se colocarem equilíbrio razoável o capital e o trabalho. Difícil. A existência de fantásticos bilionários da China Vermelha revela que tais fortunas não podem ser acumuladas da noite para o dia ou do dia para a noite. Demanda tempo. No decorrer do qual negócios foram sucessivamente realizados à sombra dos ideais voltados para valorizar o trabalho humano. Valorizar de modo amplo e geral.

Não apenas os negócios de todos os tipos que foram efetuados à sombra de uma utopia em flor. Poucos ganharam fortunas imensas. Um bilhão, dois terços da população, ganha salários indignos. Mas externamente o crescimento chinês passou de problema a um esforço de solução através do livre mercado econômico. A política é assim. Nunca sempre a mesma posição, nunca sempre o mesmo antagonismo. Os fatos comprovam.

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