China evita disseminar supercrises usando a descomunal força das corporações estatais

Evergrande cancela planos para venda de parte de subsidiária por US$ 2,6 bi

Crise gravíssima da construção civil está sendo “administrada”

Elias Jabbour
O Globo

Realmente, existe uma “China oculta” que paira sobre o pensamento médio no Ocidente, tanto na academia quanto na imprensa. Trata-se da China do “milagre” e de pleonasmos como o chamado “capitalismo de Estado”. Atualmente, a face oculta ganhou os contornos da falaciosa economia doméstica: do “modelo” sustentado pelo endividamento.

Em geral, esta visão estreita é resultado do grau de primarismo conceitual e inércia intelectual com que é tratado um fenômeno de tamanha originalidade histórica. Infelizmente, Demétrio Magnoli não foge à regra em sua recente coluna “Uma China oculta”.

AGIR RESPONSAVELMENTE – O colunista faz alusão ao secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que orientou o governo chinês a “agir responsavelmente” diante da crise da Evergrande. Provavelmente, o sentido da citação era insinuar que os problemas econômicos chineses são mais graves do que aparentam ser.

Entretanto, não deixa de ser estranho ancorar-se na autoridade de um país que gerou a crise financeira de 2008, deixando sequelas econômicas e sociais no mundo que persistem até hoje.

O lado oculto da China requer perguntas que ficaram também ocultas na análise. É também de interesse geral saber como os chineses conseguiram gerar 130 milhões de empregos urbanos nos últimos dez anos. Sim, a planificação desse processo que impediu o país de replicar em seus centros urbanos as grandes favelas indianas e brasileiras é algo a ser estudado.

CONSTRUÇÃO CIVIL – Como geógrafo, o professor Magnoli não deveria deixar-se impressionar pelo tamanho do setor da construção civil na China. O surgimento de um poderoso setor de construção civil foi responsável pela edificação de 70 milhões de apartamentos apenas no último decênio. O que deveria chamar a atenção não é o tamanho do endividamento da Evergrande, mas como o governo chinês lidou com o problema sem provocar uma crise financeira no país.

Foi ocultada a lenta estatização desse setor, que está ocorrendo sem fuga de capitais e sem quebras bancárias. Sem que nenhuma família fique sem o apartamento porque a empresa não entregou.

Já não se pode mais sustentar a falsa noção de que o Japão, os EUA e outros países desenvolvidos com grandes dívidas públicas possam literalmente “quebrar” em suas próprias moedas. Nem o Brasil, com suas reservas cambiais robustas, corre esse risco. A China, muito menos.

MILAGRE CHINÊS – Para aferir os limites do “milagre chinês”, é bom nos munirmos de algumas informações. A economia chinesa é baseada em 96 grandes conglomerados empresariais estatais e, além dos quatro bancos citados por Magnoli, uma rede de bancos provinciais e municipais de desenvolvimento.

Estes bancos criaram moeda suficiente para a construção de, por exemplo, 40 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade nos últimos 20 anos.

A China é o país com o maior número de empresas na lista Fortune 500, sendo que 80% delas são estatais. Eis mais uma face da China que se mantém, sem razões objetivas, oculta por aqui.

ESTATAL & PRIVADO – A China cresce apoiada em ondas de inovações institucionais que, ao longo dos últimos 40 anos, foram moldando o papel do Estado e do setor privado no país. Se o Estado tem sido capaz de coordenar um processo de desenvolvimento único, o setor privado tem se mostrado um interessante suplemento do setor público na economia.

Esta China oculta começa uma nova onda inovações institucionais com o intuito de dirimir as contradições surgidas nesse processo.

A solução do caso Evergrande é apenas um sintoma deste processo mais amplo no sentido de reconfiguração das formas de propriedade no gigante asiático. Novas formas históricas de propriedade pública estão na ordem do dia em Pequim.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Extraordinário artigo, redigido por quem realmente domina o assunto. Elias Jabbour é professor dos programas de Pós-Graduação em Ciências Econômicas e em Relações Internacionais da UERJ e autor, com Alberto Gabriele, de “China: o socialismo do século XXI”. (C.N.)

3 thoughts on “China evita disseminar supercrises usando a descomunal força das corporações estatais

  1. Parabéns ao nosso Editor por trazer o artigo, esclarecedor da realidade chinesa no que toca ao seu desenvolvimento, do professor Elias Jabour, aquele que não gosta de polêmica, e que com uma paciência digna da cultura chinesa demonstrou ponto a ponto os equívocos do artigo anteriormente divulgado do comentarista Demétrio Magnolli, artigo este pobre de informações ancoradas na realidade factual e rico em opinões subjetivas ideologicamente comprometidas e que apenas expressa desejos lastrados em princípios dogmáticos.
    E isto não é fazer ciência.

  2. Só não podemos pensar que algo semelhante ao sucesso desenvolvimentista chinês possa ser conduzido no Brasil pelo Lulopetismo, porque os petistas roubaram mais de R$ 120 milhões da BANCOOP e deixaram mais de 3 mil cooperados sem imóveis, saquearam a Petrobrás e outras estatais, e criaram estatais para empregar petistas e amigos.

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