Cientista americano condena a urna eletrônica brasileira

Helder Ribeiro
Brasil Post

J ALEX HALDERMAN

Halderman: Todos os processos eletrônicos são falhos

Considerado autoridade mundial em segurança da votação eletrônica, o pesquisador J. Alex Halderman esteve no Brasil participando do XIV Simpósio Brasileiro em Segurança da Informação e de Sistemas Computacionais (SBSeg). Realizado de 3 a 6 de novembro, o simpósio coincidiu com o período em que o país aguardava a resposta do TSE ao pedido de auditoria do processo de votação, requerido pelo PSDB. Organizado anualmente pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), o evento reúne pesquisadores e profissionais da área de segurança computacional.

Nesta edição, o simpósio contou, pela primeira vez, com um Workshop em Tecnologia Eleitoral, em que se discutiram as oportunidades e perigos abertos pelo uso de computadores no processo de votação. Halderman, que é professor da Universidade de Michigan, esteve presente para apresentar sua experiência analisando sistemas de votação de diversos países.

Como o seu trabalho acadêmico o levou às pesquisas sobre tecnologia eleitoral?

Eu sou professor de ciência da computação e engenharia na Universidade de Michigan, onde ensino e pesquiso segurança computacional e privacidade. Nos últimos 10 anos, uma das minhas especializações tem sido segurança na votação eletrônica. Como o voto é uma das funções centrais da democracia, eu me interesso profundamente em garantir que seja o mais seguro possível.

Que tipo de pesquisa você tem feito nessa área?

Eu estudei a segurança de sistemas de voto eletrônico usados em países ao redor do mundo, incluindo nos Estados Unidos, na Europa e na Índia.

Em 2007, ajudei a liderar a primeira auditoria pública de segurança em voto eletrônico sancionada por um estado americano, que resultou em grandes mudanças na tecnologia eleitoral usada na Califórnia.

Em 2010, participei da primeira análise de segurança das urnas eletrônicas da Índia que influiu na decisão que concedeu aos cidadãos o direito ao comprovante do voto em papel. E também estudei sistemas de votação via Internet, incluindo um sistema criado pela cidade de Washington, D.C. O governo realizou um teste público do sistema e convidou qualquer pessoa no mundo a tentar invadi-lo durante uma eleição simulada. Meus alunos e eu tentamos e, em 48 horas, ganhamos controle completo dos servidores e mudamos todos os votos. Por causa disso, a cidade acabou o sistema.

O que você sabe sobre a tecnologia de votação usada no Brasil? Você já lidou com sistemas similares antes?

Tenho acompanhado de perto o sistema brasileiro há vários anos. Fiquei impressionado com o trabalho de Diego Aranha durante os testes conduzidos em 2012, apresentado na principal conferência internacional de pesquisa acadêmica em segurança da votação eletrônica. Esses testes foram conduzidos sob circunstâncias extremamente restritas, então é fantástico que ele tenha conseguido descobrir algo. E os problemas que ele encontrou — falhas que enfraquecem a integridade de resultados de eleições e poderiam comprometer a privacidade do voto de todos — são profundamente perturbadoras. Elas sugerem que há muitos problemas que ainda precisam ser descobertos.

Cientistas da computação tiveram mais tempo para estudar sistemas de votação similares usados nos EUA e na Europa, e em todos eles, sem exceção, os pesquisadores encontraram vulnerabilidades graves que poderiam comprometer a privacidade do eleitor e permitir que atacantes alterassem os votos. Nos Estados Unidos, eu mesmo demonstrei um vírus de urna eletrônica que poderia infectar uma urna e silenciosamente se disseminar para outras, comprometendo os resultados das eleições de um estado inteiro.

Assumindo que as falhas encontradas pelo Prof. Aranha tenham sido consertadas, será que o sistema brasileiro tem outros problemas similares? Não saberemos com certeza até que haja uma investigação pública e rigorosa. Em todos os países onde trabalhei, autoridades eleitorais e fornecedores de tecnologia de votação prometeram que seus sistemas eram perfeitamente seguros, até terem o exato oposto demonstrado por cientistas.

Que critérios podemos usar para determinar se um sistema eleitoral é realmente transparente e seguro?

Segurança tem que começar com o projeto fundamental do sistema. Como é muito difícil garantir que computadores sejam totalmente seguros e sem falhas, um sistema de votação bem projetado deve ter um jeito de detectar qualquer tipo de erro ou fraude computacional.

Um jeito de conseguir isso é tendo um rastro em papel — um registro impresso de cada voto que o eleitor pode conferir, e que é depositado em uma urna física. Assim, podemos auditar as urnas físicas para garantir que os resultados batem com os registros digitais, e isso nos dá um mecanismo para verificar que os computadores são honestos e corretos.

Este é um teste para ver se um sistema de votação é transparente: ele requer que o público aceite cegamente as alegações de representantes do governo, ou ele provê alguma forma de o público verificar que o sistema é seguro e livre de erros? Pessoalmente, eu acredito que autoridades eleitorais são honestas, mas eleitores céticos não deveriam ser forçados a confiar nos representantes para crer que o resultado das eleições é correto.

Agentes eleitorais têm um trabalho extremamente difícil. Há tantas coisas que podem dar errado com um sistema moderno high-tech de votação, de hacking intencional a erros acidentais de computador. Projeto e auditoria de segurança apropriados do sistema de votação podem tornar esse trabalho muito mais fácil ao garantir que há defesas fortes que podem detectar e se recuperar de tais problemas.

Recentemente, um partido político no Brasil pediu para auditar o sistema de votação. Você foi contactado? Estaria disposto a auditar o sistema de votação brasileiro?

Se convidado, eu ficaria feliz em contribuir com uma auditoria de segurança do sistema brasileiro, desde que os resultados sejam disponibilizados ao público do país. Eleitores, não importa onde, merecem saber como seus votos são contados e se o processo é confiável.

 

13 thoughts on “Cientista americano condena a urna eletrônica brasileira

  1. Vale a leitura do artigo do jornalista Helder Ribeiro, do Brasil Post. sobre o assunto..
    Uma pena que o técnico Alex Alderman, só tenha aportado agora, no Brasil, após as eleições em outubro, em circunstâncias tão misteriosas quanto suspeitas…

    De certo modo, é quase uma repetição dos muitos outros artigos publicados aqui, na Tribuna da Internet, sobre a famigerada jabuticaba brasileira, a urna eletrônica rapidinha mas muito da safadinha que não dá recibo do VOTO e ainda leva de contra- peso, a benção do poderoso e inquestionável chefão do Superior Tribunal Eleitoral.

    Esse questionamento, entre outros igualmente pertinentes e feitos pelo blog, muito provavelmente foram colocados na mira dos hackers, que o detonaram por um tempo. No fundo e no raso, a verdade incomoda.

    Do artigo, fica o presente destaque, que se soma a muitos feitos pelos leitores e analistas, provando que o caminho certo é mesmo esse, o do recibo do voto.
    Permita-me, senhor Halderman:

    ” Um jeito de conseguir isso é tendo um rastro em papel — um registro impresso de cada voto que o eleitor pode conferir, e que é depositado em uma urna física. Assim, podemos auditar as urnas físicas para garantir que os resultados batem com os registros digitais, e isso nos dá um mecanismo para verificar que os computadores são honestos e corretos.”

  2. URNAS ELETRÔNICAS: SUSPEIÇÃO COERENTE CONTRA O SISTEMA EM TODOS OS NÍVEIS

    Há quase 20 anos desde que o sistema eletrônico de votação foi implantado, em 1996, o Pdt de Leonel Brizola vem denunciando a vulnerabilidade das urnas e até projetos de lei apresentou propondo impressão dos votos para possibilitar auditagens dos resultados eleitorais. Poucos ou quase ninguém, além de técnicos especializados da área ou mesmo acadêmicos e professores da Universidade de Brasília, davam ouvidos à tese de que as urnas eletrônicas são efetivamente inseguras.

    Depois de proclamados os resultados não há previsibilidade de recursos e mesmo os que forem protocolados morrem no âmbito da própria Justiça Eleitoral, isto vale para as eleições presidenciais (dois turnos) ou de quaisquer outras (governadores, senadores e deputados). As cúpulas do PSDB sabem disso e foram coniventes endossando esse sistema contra o qual agora se voltam com pretensão direcionada a tumultuar o campo político depreciando a reeleição de Dilma Rousseff. Por quê não falam da reeleição de Geraldo Alckmin e outros?

    Se há estudos concluídos por especialistas em informática afirmando que o sistema é falho e uma vez proclamados os resultados, por outro lado, não há previsão legal para recontagem dos votos, que afinal tanto podem ter beneficiado petistas quanto tucanos assim como favorecido ou prejudicado outras legendas na disputa, seria bem mais coerente rever essas regras impostas, denunciando-as ao mundo! Do contrário, da forma como agem, a coisa não passa do terreno das especulações e do oportunismo político e tudo seguirá como antes.

  3. Deve ser porque a filha do braço direito do Brizola na época chamada Márcia Cibilis Viana foi descoberta e processada criminalmente pela Justiça Eleitoral na fraude das urnas de papel no Rio de Janeiro. Esse país está cheio de desonestos caras de pau chamando os outros de desonestos. Ou ladrão em disparada com a grana alheia no bolso gritando PEGA LADRÃO.

  4. Éhhhhh! O “espírito” udenista “baixou” no blog da Tribuna…. Até opinião de “cientista” americano é aceito como dogma… Por que será que as eleições nas terras de Tio Sam não são por urnas eletrônicas? Simples: lá o “mandonismo local” campeia. É por onde (fraudes) se faz o ajuste para alternância dos partidos Democrata e Republicano na Casa Branca. Meu caro CN, essa cruzada da Tribuna (sua) contra as urnas eletrônicas no processo eleitoral brasileiro é quixotesca. É “forçar a barra” e a imaginação: afirmar que o lulopetismo instaurou o autoritarismo político no Brasil… Sugiro que “investigue” as bandalheiras no Poder Judiciário, aí sim verá onde onde estão as “saúvas “; às quais certa feita referiu-se o Mário de Andrade.

      • Meu caro Achiles Borba: a frase que se lê ao “pé da letra” no livro “Macunaíma” do Mario de Andrade é: “ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. Também li alhures que naturalista francês Saint Hilaire, ao relatar suas andanças pelos recantos do Brasil teria cunhado a expressão citada pelo Mario de Andrade; eu, entretanto, nunca tive acesso ao livro “Viagem a Província de São Paulo” do naturalista francês.

  5. É patético a horda de comentaristas (?) defendendo com unhas e dentes a urna funerária brasileira. Repudiada em todo o mundo , inclusive no Paraguai.
    Essa cruzada desesperada para desconstruir (como gostam disso…) as críticas que vêm de universidades e de especialistas do Brasil e do exterior, só confirmam o ineficiente método de apuração das nossas eleições.
    Por que manter algo tão polêmico e CIENTIFICAMENTE falho?
    Se o TSE quisesse dirimir dúvidas e evitar nódoas sobre a apuração, por que não evoluir para urnas de 2ª geração com voto impresso simultâneo?
    Simples assim. Mas não querem fazer e até criticam os que sugerem tão esclarecedoras soluções.

    • Sr Patético:

      A questão não é defesa da falibilidade ou infalibilidade da urna brasileira. Se o pesquisador (alçado no título a ‘cientista da computação’) tem a solução infalível, por que seu país não a adota ?

      Das duas uma: ou querem que se permita a fraude (e aí não se diferencia do Brasil) ou a solução ‘genial’ também não é boa (torna inútil a entrevista acima).

      Simples assim …

    • José Augusto Aranha: mais patético são aqueles que abraçam a “conspiração udenista” do Carlos Newton em seu afã quixotesco de derrubar a Dilma…. Por convicção profissional e consciência cidadã, tenho a percepção presidente como insubstancial enquanto governantes, porém mesmo para um anarquista, entendo que a República presidencialista é o menos pior sistema politico e forma de governo, para o Brasil.

  6. A questão principal não é técnica, e sim jurídica. Podem até usar tecnologia de ficção científica para garantir a segurança das urnas. Se um cidadão comum, sem conhecimentos específicos de informática não puder, pelo menos em princípio, verificar o resultados por si mesmo esse sistema é um furo total.

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