Cinzas sobre cinzas

Carlos Chagas

A gente morre um pouco quando morre um jornal. Depois do Correio da Manhã, do Diário de Notícias, do O Jornal e agora do Jornal do Brasil, a vez é do Jornal da Tarde. Durante 16 anos, de 1972 a 1988, como diretor do grupo O Estado, em Brasília, coube-me também representar e colaborar com o vespertino do Ruy Mesquita. Ao todo, foram mais de 6 mil artigos e reportagens de minha autoria, publicados no irmão mais moço do Estadão.

Sem esquecer quase o dobro impresso no vetusto matutino, até porque, com exceções, os textos eram os mesmos. Basta recorrer às coleções, está tudo assinado. Não adianta fazer como o Grande Irmão e tentar mudar o passado, como é comum em nossa profissão.

De quem foi a culpa pelo desaparecimento hoje lamentado? – perguntam os açodados. De ninguém, individualmente. De todos, de modo coletivo.

O Jornal da Tarde nasceu como solução familiar do velho Julio Mesquita Filho para acomodar os três filhos homens. A sucessão no Estado de S. Paulo caberia, como coube, ao primogênito, Julio Mesquita Neto, pela tradição que vinha do fundador, Julio Mesquita. Senão inconformados, os dois irmãos mais novos precisavam de espaço.

Ao Carlão, boêmio, foi dada a Edição de Esportes, um jornal autônomo que circulava às segundas-feiras, dia em que os matutinos de São Paulo e do Rio não iam às bancas. Para o Ruy, a partir de 1966, coube conduzir um concorrente do Estadão e do irmão, o Jornal da Tarde.

Valeu-se da nata do jornalismo da época, de Mino Carta a Murilo Felisberto e, depois, Miguel Jorge. Fantásticas inovações na diagramação, nas fotos e na forma de apresentação dos textos, mas com um entrave: só podia circular depois das duas da tarde, para não ofuscar o Estadão, nas ruas desde seis da manhã.

Ninguém ignorava o confronto, muitas vezes conflito, ainda mais porque o Jornal da Tarde jamais saiu do vermelho, quer dizer, sempre deu prejuízo. Pagava melhor os editores, os repórteres, os fotógrafos e os diagramadores. Ganhava prêmios internacionais e primava pela qualidade técnica que o grupo suportava para evitar maiores atritos familiares. Faltavam leitores, porém, na disputa com o consolidado Estadão. Repetir as mesmas notícias, maquiadas, e apresentar algumas novas, constituiu-se num exercício de arte e de esgrima.

Quando emergiu a quarta geração, de um lado e de outro, mais se turvaram as relações entre os dois jornais e seus responsáveis. Não é hora de questionar a falência das empresas familiares que se estendem pelas gerações, mas trata-se de lei natural inexorável. Em qualquer atividade, o avô fundador é um grande profissional; com sorte, seus filhos também; os netos buscam seguir no mesmo rumo, por obrigação e às vezes até com talento; mas os bisnetos, coitados, geralmente carregam apenas a presunção, sem nenhuma aptidão para conduzir a empreitada. Até porque, multiplicaram-se e desfizeram a imprescindível unidade que não herdaram dos ancestrais.

Acontece em qualquer empresa, as jornalísticas não seriam exceção. Muito pelo contrário, fornecem bons exemplos.

O grupo entrou em colapso depois do falecimento prematuro do terceiro Mesquita, já cercado de Mesquitinhas em conflito, fora exceções bissextas. Tornou-se necessária a intervenção do sistema bancário para salvar parte da História de São Paulo, mesmo com o sacrifício da família. Foram todos afastados, ainda que surjam sinais, hoje, de recomposição forçada.

A morte do Jornal da Tarde, no entanto, deixa um grande vazio, em especial pelo esquecimento de quantos deram o melhor de suas vidas e de sua capacidade em favor do jornalismo ético e foram sendo descartados pela arrogância dos que não estavam à altura de conduzir o ideal de seus antepassados. Há cinzas sobre cinzas.

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