Ciro: agressões e contradições

Pedro do Coutto

Magoado por ter sido preterido pelo PSB, seu próprio partido no episódio da candidatura a presidente da República, o deputado Ciro Gomes acionou sua metralhadora giratória e partiu para uma série de agressões ao ser entrevistado no programa É Notícia, da Rede TV, noite de domingo. A entrevista, nos seus pontos principais, foi reproduzida nos jornais de terça-feira. Ciro centralizou seus ataques no PMDB, que nada tinha ou tem com sua rejeição, estendendo-os ao PT, ao acusar a legenda de omissão e retraimento no caso do mensalão.

As afirmações repercutiram, porém os principais alvos não foram lógicos. Lembrou Carlos Lacerda nos momentos em que era contrariado em seus projetos políticos. Aliás, metralhadora giratória foi exatamente o termo usado pelo então deputado Alberto Deodato, da UDN mineira, ao situar Lacerda no campo dos embates: “Carlos” – disse ele, udenista como Lacerda – “sua metralhadora é giratória, às vezes temos que nos abaixar para não sermos atingidos”.

Ciro Gomes seria mais coerente se responsabilizasse o presidente Lula que foi quem agiu para a decisão final do PSB. A princípio, Luis Inácio da Silva pensou que Ciro dividiria os eleitores de José Serra, assim garantiria o segundo turno, e no desfecho final apoiaria Dilma Roussef. Esse foi o Plano, digamos A. Depois calculou que Ciro ajudaria mais disputando o governo de São Paulo, Plano B. Ele transferiu seu domicílio eleitoral. De repente, na etapa seguinte, Lula cedeu à reação da regional paulista do PT, contrária ao apoio a Ciro. Chegou à conclusão, muito comum na política, quer, com Ciro, perderia ou a eleição, ou, no caso de vitória, a importância que possuía.

Era esperada a reação. O mistério é Ciro Gomes ter acreditado na hipótese de receber o apoio do PT, em São Paulo. Era só ligar a lanterna de popa e verificar que nos seus trinta anos de existência o PT recebeu muitos apoios. Mas não devolveu nenhum. Nem sequer votou em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral de janeiro de 85 contra Paulo Maluf. Agora mesmo, em Minas, o Partido dos Trabalhadores vai disputar o Palácio da Liberdade com Fernando Pimentel ou Patrus Ananias, mas não ao lado do candidato do PMDB, Helio Costa. Mas esta é outra questão.

O fato é que o ex-governador do Ceará atacou Dilma Roussef, atacou o PSB, afirmou que Serra, embora preparado, é uma figura tenebrosa. Disparou forte contra o casco do PMDB querendo afundá-lo num mar de críticas. Mas não se dirigiu a Lula, o verdadeiro autor de sua interdição. Foi o presidente da República quem comandou a rejeição do PSB, tanto assim que o partido decidiu apoiar Dilma logo no primeiro turno. Não quis sequer esperar pelo segundo. O projeto de Lula – agora fica demonstrado – é polarizar a campanha, dando-lhe um sentido plebiscitário. Vai entrar pesado para somar votos para a ex-chefe da Casa Civil. Numa primeira fase, pensou em utilizar Ciro Gomes como um aliado importante. Mudou seu pensamento. Passou a considerar como escrevi, que, sozinho enfrenta todas as circunstâncias e assegura a vitória de sua candidata.

Por isso é que as agressões de Ciro são contraditórias. Primeiro pensava em receber apoio do PT em São Paulo. Esse apoio faltou. Depois veio a ordem de Lula ao PSB. Porque Ciro não culpou Lula diretamente? Culpou o PMDB que nada lhe fez. Ciro escolheu o alvo errado.

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