Ciro tenta retornar ao palco da política

Pedro do Coutto

Sem dúvida alguma, mesmo antes do voto na urna e do povo nas ruas no dia 3 de outubro, o deputado Ciro Gomes tornou-se o grande derrotado nas eleições presidenciais deste ano. Trocou seu domicílio eleitoral do Ceará por São Paulo, admitindo tacitamente assim que se julgava apto a disputar o governo paulista, mas terminou rejeitado pelo PSB, seu partido, conjuntamente com o PT, para tal aventura. Ficou no vazio e, agora, somente poderá concorrer a deputado federal por São Paulo. Não sei se o fará. Sua atuação foi desastrosa.

Agora, leio reportagem de Isabela Martin, O Globo de 14 de junho, revelando que ele, Ciro, tenta ressurgir no palco político, empenhando-se pela reeleição de seu irmão, Cid Gomes, ao governo do Ceará. Para isso, vai tentar junto a seu amigo pessoal Tasso Jereissati, que disputa a reeleição ao Senado, que passe a apoiar Cid, anulando o rompimento do PSDB cearense com o atual governador.

O PSDB pretende lançar o empresário Beto Studart. Ciro conta com Tasso para tornar o dito pelo não dito e ajudar a garantir a reeleição de seu irmão. Curioso é que tanto Tasso, quanto Ciro, entraram na política, pelas mãos do governador Gonzaga Mota, exatamente para derrubar as oligarquias que mandavam no Estado. Caso de Paulo Sarazate, Virgílio Távora e Cesar Cals, este já no ciclo militar de 64, eleito indiretamente.

O que aconteceu? Eles derrubaram de fato essas oligarquias, porém as substituíram pelas deles. A história, que não espera o amanhecer, título de Helio Silva sobre a Proclamação da República, se escreve assim. São tantos os exemplos que se perde a conta. Entretanto um deles mudou o destino do Brasil.

Em 1950, Ademar de Barros, então governador de São Paulo, apoiou Getúlio Vargas e assegurou a vitória do professor Lucas Nogueira Garcez para sucedê-lo no Bandeirantes. Garcez rompeu profundamente com Ademar e se tornou o principal fator da vitória de Jânio Quadros nas eleições de 54 para o governo paulista. Não fosse isso, um ano depois, em 55, dificilmente JK seria eleito presidente da República. No governo Jânio apoiou Juarez Távora, que teve 660 mil votos em São Paulo. Ademar, candidato pelo PSP, obteve 840 mil. JK apenas 240 mil sufrágios. A divisão do eleitorado paulista entre Ademar e Juarez criou as condições para Juscelino vencer.

Não fosse Jânio, não fosse Garcez, Ademar de Barros livraria no Estado margem muito maior de votos sobre JK. A vitória de JK em Minas foi arrasadora, mas não compensaria os poucos votos que recebeu dos paulistas. Esse episódio, pouco explorado pelos historiadores, deve ficar incorporado à memória política nacional.

Em matéria de memória, admirável título de Carlos Heitor Cony, Ciro Gomes  revela ter pouca. Não examinou com mais atenção todas as implicações de ter transferido seu título para São Paulo. Não percebeu o lance de Lula, não identificou previamente a reação contrária a ele pelo PT paulista. Indesculpável num homem que disputou a presidência da República em 98 e 2002. Em 98, teve 10% dos votos. Em 2002, 12 pontos. Chegou atrás de Garotinho que atingiu 18%.

Político atuante, porém mau tático, Ciro deixou-se levar pelo canto das sereias. Terminou afundado no mar das contradições, processo de submersão que começou quando o presidente Lula percebeu que não precisava dele para a campanha de Dilma Roussef. Ciro foi colocado para fora do barco e a perspectiva de vitória nas urnas se transferiu para seu irmão. Mas como Tasso, que apóia Serra, pode  apoiar Cid Gomes, que apóia Dilma?

Difícil de obter êxito a ideia de Ciro. Mais uma vez.

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