CNBB quer promover debate dos candidatos sobre aborto

Pedro do Coutto

Leio, na Folha de São Paulo, reportagem de Fábio Zambeli revelando que a CNBB está propondo aos candidatos Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio, um debate sobre o aborto a 23 de setembro, outro a respeito da reforma agrária, alguns dias depois. Ambos serão transmitidos por rede de emissoras católicas. Importante a iniciativa. Não se trata somente de lançar uma ponte entre a religião e o poder, acentuando estar tudo bem entre Cristo e Cesar. Mas focalizar, sob todos os ângulos, e não só o prisma da Igreja de Roma, uma questão importantíssima que atravessa o tempo sem solução. Marina e Plínio já confirmaram. Roussef e Serra ainda vão responder. Devem aceitar, principalmente porque, sem os dois, o debate cai no vazio. Certamente não vão desejar isso.

Quando acentuou a importância enorme do tema me baseio na informação divulgada na imprensa de que anualmente no Brasil são praticados cerca de 1 milhão e 500 mil abortos, 20% dos quais acarretam internações hospitalares pela forma rudimentar com que são praticados. Como a média das internações é de dois dias, constatamos que 600 mil leitos são ocupados, o que poderia não ocorrer se houvesse no pais um programa sério e efetivo de planejamento familiar. A questão começou a ser discutida entre nós, de forma substantiva, em 1965, pela antiga Bemfam entidade particular, vinculada ao Instituto da ONU para população e progresso, o IPP. Francamente não sei se a BemFam ainda existe. A idéia, sim. Mas de forma retórica. Não concreta. O ministério da Saúde está se omitindo. Não assume uma postura transparente. Deveria assumir.

O aborto é questão legitima de saúde pública. Sua prática, não. Ainda constitui quase um crime. Digo quase porque, de fato, o aborto, não a lei, mas nos costumes, deixou de ser um assunto criminal. Entretanto, é preciso evitá-lo. E a forma para isso é planejar a família e aceitar o uso de métodos anticonceptivos eficazes, de acordo com a consciência de cada um.

O debate colocado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil parte de uma idéia do Bispo Daniel Seidel, coordenador da Comissão de Justiça e Paz. Ele frisa que a Igreja Católica não deseja impor sua vontade a ninguém. Quer, apenas, conhecer a posição da candidata e dos candidatos a respeito da matéria que tem controvérsias. Uma corrente defende os direitos do corpo e transfere o problema à decisão da mulher. Outra analisa dependendo do caso, uma terceira, a religiosa, radicaliza à base do conceito do direito à vida. Porém existem situações em que o direito à vida do feto abala o direito à vida da mãe. Caso da anencefalia, por exemplo, entre outros de elenco médico.

Não se deve politizar e radicalizar o debate, embora tenha ele inevitavelmente reflexos políticos. Mas me refiro a seu conteúdo básico. O problema é mais de saúde e de liberdade do que religioso. Inclusive, através do tempo, o Vaticano alterou uma série de posições radicais. A condenação a Galileu, uma delas. A perseguição inquisitória que se estendeu por 300 anos, outra. A condenação a Maria Madalena nas trevas do passado um terceira. Quarta, para ficarmos só em poucos exemplos, a reabilitação da mesma Madalena, execrada no século 5, aprovada em 1948, pleno século 20, quando foram descobertos manuscritos do Mar Morto contando passagens da história dos judeus essênios. Por tudo isso, basta que o debate se realize entre os quatro candidatos para que um avanço seja alcançado. Graças a Deus.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *