Código Florestal: 7 horas de confusão, baixaria, derrota momentânea do governo, nem ruralidade ou ambientalistas. Apenas interesses colossais. Inédito: o Planalto ameaça a Câmara. E agora?

Helio Fernandes

O governo tentou tudo para não haver votação. Não conseguiu de jeito nenhum. A base se dividiu de tal forma assustadora (para o Planalto), tentaram de tudo. Não houve jeito. Eram dezenas de “líderes” no esforço inútil de “encaminhar” uma votação, dezenas de vezes, e sempre ultrapassados.

Há 15 dias, derrotado, o próprio governo, em nota oficial, afirmou: “Só votaremos quando tivermos certeza da vitória”. Ora, como essa base, montada e coordenada (?) em cima de cargos, de concessões e exploração dos recursos públicos, exibe inacreditável fragilidade, tiveram que votar.

Daquela multidão do plenário, poucos ruralistas sabiam o que deviam ou precisavam votar. Dez ex-ministros do Meio Ambiente foram ao Planalto recomendando a REJEIÇÃO, redigiram documento. Eram dos mais diversos partidos, não foram seguidos.

Os ruralistas votavam em causa própria, choravam de forma lancinante, embora de vez em quando deixassem escapar: “Somos poderosos, não queremos ser controlados por ninguém”. Era isso.

Alguns deputados foram para a tribuna, e garantiram sem constrangimento: “Meu pai, ruralista, me disse, vai lá e vota”. O resto não interessava. E o refrão dos ruralistas durante toda a noite foi este: “Se não plantarmos, vocês todos (e apontavam para os ambientalistas) irão morrer de fome”. Se apresentavam como “os salvadores da humanidade”.

Só por produzirem alimentos têm que enriquecer fora da lei, convencidos de que são absolutos, e a humanidade depende unicamente deles ou todos ficaremos sem comer? Só um exemplo; se a industria automobilística não fabricar carros, caminhões e todas as maquinas agricolas que precisam, produzirão cavando com as mãos?

É evidente que todos são importantes, dependendo uns dos outros, só formarão uma comunidade se se entenderem. E isso pode acontecer, mas não com ódio e arrogância. E o que havia no plenário, até a madrugada, era ódio e arrogância.

Muitas brigas localizadas, pessoais, intransferíveis. O líder Vaccarezza, na semana retrasada dizia sobre Aldo Rebelo: “Ele nos mostrou um relatório e apresentou outro completamente diferente”. Era o “grande Aldo”, o “maior brasileiro”. Nunca um comunista foi tão aplaudido pelos conservadores. Perdão, a elite reacionária, chamada de ruralista.

*** 

PS – Agora, esse esboço de Código Florestal vai para o Senado, de lá volta para a Câmara, é uma tragédia burguesa de muitos capítulos. Ou se entendem, se acertam, decidem em favor do país, ou podem fechar para balanço.

PS2 – Mas não termina aí. Em determinado momento, num silencio espantoso, Vaccarezza foi para a tribuna e leu uma porção de coisas que traduziu e simplificou assim: “Acabei de falar com a presidente Dilma, ela me disse: “Não tem importância SE VOTAREM DIFERENTE DO QUE ESTABELECI, VETAREI TUDO”. Assombro geral. E meu.

PS3 – tendo ficado assistindo pela madrugada, a recompensa do repórter: nunca em toda a minha vida assisti ameaça tão aberta e ostensiva quanto essa. E sou o único repórter que cobri e escrevi sobre a Constituinte de 1946. Espantoso o “recado” do Executivo.

PS4 – Quem está em pânico: Palocci. Agora, a CPI quase certo de sair. Pode não dar em nada. Mas antes ele será chamado ao Congresso, onde será massacrado.

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