Colégio Goyases: no concurso de dor, cada um sente a sua e todos sofremos juntos

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Uma tragédia em que todos se tornaram vítimas

Jorge Béja

Por mais de quarenta anos seguidos me dediquei, exclusivamente, à advocacia em defesa das vítimas de danos de toda ordem, imagináveis e inimagináveis. Cada cliente, cada caso que recebi no franciscano escritório próximo à Praça Mauá, no Rio, foi uma lágrima derramada: Chacina da Candelária; Bateau Mouche; Queda do Elevado Paulo de Frontin; Queda do Palace II, de Sérgio Naya; Erros Médicos e o mau atendimento hospitalar que, se não causaram a morte dos pacientes, os deixaram inválidos para sempre; Mortes nas Penitenciárias do Rio e muito e muito mais…Foram mais de três mil ações indenizatórias, sempre e sempre ao lado das vítimas que sobreviveram e dos familiares das que morreram.

Parecia até que eu era o único advogado (e não era) que aceitava essas causas dramáticas, porque, senão todos, a maioria de vítimas e familiares me procurava. Em novembro de 1993 a Veja-Rio me fez de capa. E na matéria de sete páginas e dez fotos, este registro “Quando acontece uma tragédia, é batata. Lá está o Beja defendendo as vítimas e exigindo indenização”.  Se ajudei, se amparei, se amenizei, se consegui Justiça, também sofri. E hoje pago caro preço por tanta dor, tantos choros, tantas lágrimas que cuidei e também derramei.

OUTRA ÓTICA  – Hoje, quase meio século depois, vejo sob outra ótica jurídica a responsabilidade civil decorrente de tragédias, como essa do Colégio Goyases, em Goiânia. Outrora, seria eu radical. Se fosse no meu tempo, se advogando estivesse e se chamado fosse, a todos responsabilizaria judicialmente: o colégio e os pais do menino que atirou e matou. E tudo num só processo. Sempre fui agarrado às leis, à jurisprudência e à doutrina.

Os pais respondem pelos danos causados pelos filhos menores. Está no Código Civil. E os estabelecimentos de ensino são responsáveis pela incolumidade física e moral dos alunos que recebe. E destes tornam-se guardiões, por mantê-los sob sua proteção e vigilância desde a entrada até a saída da escola. Está na jurisprudência. É o caso.

As vítimas estavam na sala de aula quando foram fuzilados. E quem fuzilou foi outro aluno, também sob a guarda e vigilância do colégio. No caso do aluno que atirou, a situação jurídica dos pais, dois oficiais da ativa da Polícia Militar, pode até ser mais grave, caso fique provado que eles não mantiveram o rígido cuidado com a guarda da arma que o filho apanhou em casa e levou para a escola.

CASO EXCEPCIONAL – Mas o caso do Colégio Goyases é excepcional. Nem se compara com a Chacina da Candelária, quando policiais militares à paisana metralharam meninos de rua que dormiam sob uma marquise de um prédio próximo à Igreja da Candelária, no Rio. Nem com o Bateau Mouche, cujos proprietários entupiram de gente a embarcação que naufragou e matou 55 pessoas. Nem com as 33 mortes nos presídios do Rio, em que detentos assassinaram detentos por insuficiência de guarda carcerária. Nem com a queda do Palace II, um arranha-céu edificado com areia da praia. Nem com o caso Bernadete, que foi operar o pé no Hospital da UFRJ e voltou para casa sem um dos olhos.  Ou com o caso Dilma, a mulher que, com paralisia cerebral e engessada dos pés à cintura, definhava numa das enfermarias do Hospital Souza Aguiar, enquanto os ratos do hospital entravam pelos vãos do gesso e comiam as carnes de suas pernas.

Não, o caso do Colégio Goyases precisa ser visto, analisado e julgado com olhar holístico, humanitário, especial e reverencial.

CONCORRÊNCIA DE CULPA – No Direito das Obrigações, ou seja, na Responsabilidade Civil, que tem berço na França, há um tema, um título, denominado “concorrência de culpa”, que o Direito Brasileiro aceita e aplica. Quando ofensor e ofendido, agressor e vítima, tiveram parcelas iguais de culpa, mínima que seja, cada um arca com o dano. E ninguém é condenado a ressarcir o outro. A recíproca é verdadeira. No “concurso de dor”, cada um sofre a sua. E todos sofremos juntos.

É imaginável a dor dos pais do menino que atirou. E imaginável a dor dos pais dos alunos que morreram. E palpável a dor dos professores e donos do colégio. Não se estava diante de uma tragédia anunciada. Pelo que se sabe, era incogitável pensar ou antever o que aconteceu. Que uns aos outros se amparem. Que se unam. Ainda mais agora, para cuidar da saúde psicológica e mental do menino que atirou para que ele cresça, sinta profundo arrependimento e se torne um difusor da paz e defensor do desarmamento. É o que sinto. É o que os mais de quarenta anos do exercício da advocacia em defesa das vítimas me ensinaram.

27 thoughts on “Colégio Goyases: no concurso de dor, cada um sente a sua e todos sofremos juntos

  1. Gostaria de acrescentar. E a culpa do jornalismo repulsivo em dar destaque demasiado as tragédias escolares americanas? Só poderia dar nisto. Não está na hora de repensar o que colabora para nós este tipo de noticia?

    • Concordo com você, Alexandre, e procuro evitar esse tipo de notícia, mas é simplesmente impossível deixar de abordá-lo.

      Abs.

      CN

      • Caro Sr. C.N
        Não me referia ao jornalismo escrito. Aliás nossos jovens nem tem interesse. Falava sobre o televisivo. JN e penduricalhos. Que insistem na noticia tragédia. Assalto na farmácia da esquina de SP etc… Isto em rede nacional. O que interessa para um morador de Porto Alegre como eu? Temos nossos próprios assaltos.

        • Repito que você está inteiramente certo, Alexandre Brito, mas o jornalismo, infelizmente, se alimenta de notícias ruins. Em sua obra-prima, “A Era da Incerteza”, o economista canadense/americano Kenneth Galbraith cita um dos líderes da imprensa americana, que dizia: “O jornalismo foi feito para alarmar”. Esta é a nossa triste realidade, em todos os campos da comunicação, inclusive TV e agora a internet.

          Abs.

          CN

  2. Fiquei sabendo hoje do acontecido. Estava a trabalho. Um estrago na vida dos envolvidos. O adolescente assassino carregará nas costas o fardo da morte dos coleguinhas. Os adolescentes mortos estão mortos. Os adolescentes feridos levariam pra sempre uma sensação de culpa por estar naquele ambiente naquele momento. Os pais, bem os pais dos mortos não conseguirão perdoar. Ninguém perdoa morte de filho. Não existe isso. Somos humanos, somos maus. Não creio que alguém perdoe a morte de um filho de forma tão covarde. Os pais do assassino logo também vai ter raiva das famílias das vítimas, raiva até por não terem como devolver de volta a vida dos mortos. O colégio acabou. Não existe mais. Não há mais clima pra alguém botar o filho numa escola dessas. Não é que a escola seja ruim ou tenha culpa, não é que os pais das vítimas sejam de coração duro, não é que os pais do assassino sejam defensores da barbaridade. Acontece que nossa condição de gente m, carne e osso, não aceitamos que os nossos entes queridos sejam descartados el hipótese alguma. O discurso de que desejar que o jovem se recupere é coisa de novela. Vai ser recupera de quê? Recuperar o que se não tinha sequer a amizade dos colegas? Ora, a vida do jovem assassino será também marcada pela marca de Caim. Acabou. Triste condição humana.

    • Francisco, “ninguém perdoa a morte de um filho”. Pois o pai do menino assassinado perdoou. Veja as palavras dele: — Não existe culpado, não existe culpado neste momento. De forma alguma eu sinto raiva. Inclusive já perdoei o rapaz – disse Leonardo.

      • Entretanto, o pai do garoto reflete sobre o declinio da nossa socidade:

        “Está faltando à nossa sociedade ensinar à criança hoje o valor do próximo, o valor da vida. Hoje, temos órfãos de pais vivos. Os pais não dão mais atenção aos filhos dentro de casa. A cidade vai se transformando num lugar de filhos fracos emocionalmente.”

        Eu acrescento: está faltando tolerância. Hoje os casais não se toleram e se separam sem motivo justo. Brigas familiares estão na pauta do dia-a-dia.

      • Minha querida, este pobre pai é um sofredor. Na emoção e diante da impotência e luzes da mídia se obriga a dizer o o coração não sente. Quero ver ele dizer a mesma coisa na noite de Natal, quando a família toda tiver reunida e faltar um… E não é que este pobre pai seja ruim. É que ele é pai. E só um pai perdoa a morte do filho: Deus! Abraço. Bom domingo! E obrigado!

  3. A justiça, cantada em versos e prosas, cada vez mais, se distancia das responsabilidades.
    Assim, indicamos o caminhos para os próximos desequilibrados mentais, familiares e sociais.
    A vida tem um valor muito menor, a cada dia, a cada hora.
    Ninguém é responsável, nas todos são vítimas. A culpa, se que existe, é do infinito, dos outros!
    Ser cristão, em qualquer das opções, não é apenas saber perdoar, pois sem justiça e responsabilidade tudo fica banal.

    E às vítimas, onde estejam, possam ser recebidas com luz!

    Fallavena

  4. Pois é, pergunta-se onde fica fica o estatuto do desarmamento neste episódio?
    Hoje mortes violentas proporcionadas por armas de fogo, são as que estão nas mãos dos bandidos, que ignoram completamente a lei, ou então armas em mãos dos policiais.
    Alguém tem tido noticias de crimes praticados por armas com registro e porte expedidos pela polícia federal? Parece que não, estas existem em proporções ínfimas, em comparação com as ilegais.
    Também ha que se ponderar, neste caso, mesmo que a legislação autorize a guarda e o porte pelos pais do adolescente, a responsabilidade inerente ao proprietário do artefato, que é ninguém menos que o poder público, no caso o governo do estado de Goias.
    Em acidentes de transito, sempre é acionado a figura do proprietário do veiculo, mesmo sendo outro o motorista.
    Neste caso se a escola tem responsabilidade sobre a segurança dos alunos, o proprietário também deve ter parcela de responsabilização no uso indevido de uma propriedade do estado.
    O casal de policiais deve ser investigados com isenção, para se saber qual o grau de cuidados que tinham na guarda deste armamento.
    No momento que tentam armar até as mais precárias guardas municipais, não se assustem se ocorrências deste tipo se tornarem corriqueiras no pais.

    • Prezado Luiz R. Vilela
      A arma é o sofá na sala. Ambos são os bodes na sala!
      Lembrei-me do vereador que tentou aprovar lei que “implantava grades nas passarelas, para as pessoas não se suicidarem”.
      O furo não está ai. O fazer crianças e não ter filhos; não educá-las, criá-las, transmitir-lhes ensinamentos, valores, amor é que jogou duas gerações a própria sorte. Colhemos os resultados do desamor, do abandono, do descuidado que pais/mães, verdadeiros “fazedores de crianças” produziram, quando terceirizarão a via dos filhos.
      isto vai longe e será reproduzido, cada vez com menor qualidade, se continuarem buscando a responsabilidade nos outros.
      É simples, mas a maioria não quer enxergar.
      Da minha parte não terão compaixão e nem redução das responsabilidades.
      Cada um é o resultado de suas escolhas. Pois que arquem com suas opções.
      Fallavena

  5. Não vivo nas entranhas da residência dos pais do menor infrator. Mas uma coisa eu posso relatar: muitos militares costumam ensinar os filhos a manusearem armas bem precocemente. Meu pai me iniciou aos seis anos, com o incentivo: “Quem não mata, não macho!” Creio que eles, os milicos, respaldam-se no corporativismo pandemônica das facções onde são homiziados.
    No meu caso, o tirocínio pelo qual passei, trouxe-me alguns problemas: tirei sangue de muitos colegas nas escolas e nos campos de peladas. E, na idade adulta, mais de uma vez, já fiquei perante delegados e juízes. Nas circunjacências onde nasci, o primeiro sonho de consumo das famílias era a aquisição de armas de fogo.
    Por vezes, o que parece ser um rapto de armas por descuido dos pais, pode se esconder uma ação instruída a fim de que o filho autoafirme a hegemonia da família, no grupo do qual faz parte.
    Outrossim, nestes dias, quando todos são reféns duma sociedade violenta, criar filho para servir de alvo? Sei lá! O meu eu sei como encaminhá-lo! Temos milhares de razões para nunca vermos o ser humano como uma coisinha boa e inócua!

  6. Boa tarde! Aos 52 anos de idade ainda não possuo tal grandeza Béja. Seu despendesse de mim estariam presos todos os responsáveis, direta e indiretamente, e principalmente o menino atirador que , por mim, ficaria pelo menos 30 anos encarcerado pensando no que fez !

  7. Por Jordan Campos
    Sim, um adolescente matou dois colegas de escola com uma arma de fogo. Sim, pessoas desinformadas e com a ajuda da mídia espalham que o bullying foi o motivo. Não, não foi este o motivo. E vou aqui explicar um pouco sobre tudo isto.
    Sou pai de quatro filhos, psicoterapeuta clínico de crianças, jovens e adultos e discordo completamente da “desculpa esfarrapada” desta pseudo-versão dos fatos. Bullying é o resultado de um abuso persistente na forma de violência física ou psicológica a uma outra pessoa. Bullying não é a piada sem graça, a ofensa solta ou uma provocação por conta do odor resultante da falta de desodorante por quatro dias, que foi exatamente o “caso” do adolescente que matou seus colegas. O motivo pelo qual o jovem assassinou seus colegas é um conjunto de fatores na formação de sua personalidade sob responsabilidade de seus pais.
    O GATILHO que deu o start em seu plano de matar pode ter surgido da provocação de seus colegas, sim. Foi uma reação desmedida, autoritária, perversa e calculada a um conflito em que ele se viu inserido. A falta de preparo emocional e educacional deste jovem para lidar com frustrações é o ponto alto deste simples quebra-cabeças. Quando somos colocados frente a um conflito, ou o enfrentamos, ou fugimos ou paralisamos. As vítimas de bullying costumam paralisar e passam anos no gerúndio do próprio verbo que identifica este problema. Bullying é uma ressaca, um trauma no gerúndio, que vai minando as forças, destruindo a autoestima e a identidade frágil de suas vítimas.
    No caso do adolescente em questão ele não teve tempo de ser vítima de bullying, ele simplesmente enfrentou a provocação de ser chamado de fedorento com base em sua formação de personalidade, filosofia de vida, exemplos e criação, reagindo. Colegas de sala disseram que ele era adorador do nazismo, cultuava coisas satânicas e quando provocado dizia que seus pais, que são policiais, iriam matar os provocadores se ele pedisse!!!! BINGO!!!!
    NÃO FOI BULLYING – Por mais espantoso que possa ser, desculpem mídia e pseudo-sábios filósofos contemporâneos – o garoto matou porque tinha na sua formação de personalidade uma espécie de autorização para fazer! A identidade deste jovem de 14 anos estava formada em um alicerce que permitia isso. Ele provavelmente iria fazer isso logo logo… Na escola, com o vizinho, na briga de trânsito ou com a namorada que terminasse com ele, e isso nada tem a ver com Bullying. A provocação foi apenas o motivo para “fazer o que já se era.”
    Agora, falando do Bullying, digo sem pestanejar que o maior culpado pela sedimentação do bullying e suas prováveis repercussões não são os coleguinhas “maldosos”, e sim a FAMÍLIA de quem sofre este tipo de ação. Se quem sofresse bullying fosse um potencial assassino a humanidade estava extinta. Mata-se muito por traições, brigas de trânsito, desavenças de trabalho, machismo, homofobia… Mas não por Bullying. Do contrário – é muito mais provável um suicídio, depressão, implosão.
    O que faz com que alguém resista ou não a uma ação que pode virar bullying? Simples – a capacidade do jovem em lidar com frustrações e aprender a enfrentar seus problemas e conflitos. Esta é a maior prevenção ao bullying – aprender a vencer frustrações se submetendo a elas de forma sadia e com orientação. Aprender a respeitar os pais e a vida. Ter lições diárias de cidadania, direitos humanos – mas o mais importante – passar por frustrações e ter apoio dos pais, sem lamentar e encontrar culpados e sim crescer forte entendendo que neste mundo não podemos ter o controle das coisas.
    Pais, ensinem seus filhos a respeitarem vocês e aos outros. Sei que muitos de vocês estão cheio de carências, desesperados em relações funcionais fúteis, e projetando em seus filhos o amor que não tiveram de quem acham que deveriam ter. Negligenciam assim o respeito e querem ser amados – isso contribui para fazer jovens fracos, deprimidos, ansiosos, confusos e vítimas fáceis para o bullying. Lembrem-se: só se ama e se valoriza o que se aprende a respeitar!
    Obs 01: Este texto foi feito com base em informações disponíveis na imprensa e pela polícia até então. Não é um exame, avaliação ou diagnóstico psicoterapeutico, e sim considerações em tese, de cunho geral de muitos anos atendendo jovens como profissional do comportamento.
    Obs 02: Ofensas pessoais serão excluídas e bloqueadas.

      • Dr. Béja, assino o que o Franco escreveu. Seus textos me emocionam e me deixam feliz. Grandioso ser humano você é. Tenho um texto do livro de Clara Feldman em que disserta sobre relação de ajuda; e termina dizendo: “e não se espante se a pessoa mais feliz for você” É assim que fico pensando – você deve se sentir mais feliz do que o ajudado.

  8. Comentando outra tragédia : Creche incendiada de Janaúba, MG retornam as atividades. Uma criança, entretanto, ficou com medo e disse: não quero ir, lá tem fogo. O menino perdeu a confiança no lugar onde ele passava o dia!

    • Não sei de qual modo morrerei. Mas, a melhor coisa que inventaram e que se tem ampliado, foi mata dores de aluguel. Eles não pedem data de nascimento ou CPF de seus alvos. Para pobres, remediados e ricos. Qualquer baixar renda pode pagar os serviços de um executor.

  9. Ha uns 20 dias, li que um homem de 26 anos morreu nos EUA por injeção letal. Era um condenado à morte. Recorreu durante 11 anos. Fazendo as contas, ele cometeu o crime com 15.

  10. Os pais do monstro assassino falharam como seres humanos, o “dimenó” não demonstrou arrependimento algum, com a legislação que temos, feita por bandidos, para bandidos, no máximo em 1 ano, o “coitadinho, vítima de bullying”, estará livre, leve e solto, sem nenhuma punição!

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