Com a carta a FHC, Dilma adverte o PT e o PMDB

Pedro do Coutto

Claro, como escreveu Merval Pereira em sua coluna no Globo de terça-feira, com a carta que enviou a Fernando Henrique Cardoso pela passagem de seus oitenta anos, a presidente Dilma Rousseff deu uma demonstração ao país de civilidade e polidez, esta segunda palavra sinônimo de política, tanto no Aurélio quanto no Houaiss. Colocou uma manifestação social acima do confronto partidário, mostrou nível alto de educação. Tudo isso é verdade. Mas como a carta, título de filme famoso com Betty Davis, não representa uma declaração de amor, ela tem que ser também interpretada num contexto político flexível, porém definido.

Com surpreendente habilidade, Dilma Rousseff tanto procurou uma fenda na oposição quanto dirigiu uma suave advertência – mas sempre advertência – ao PT e ao PMDB, que formam sua base parlamentar majoritária no Congresso Nacional. Algo assim como se vocês se distanciarem do Planalto, eu  procuro os tucanos na planície. A bancada do PSDB é a terceira na Câmara dos Deputados. Foi, sem dúvida, um lance sofisticado com um forte toque feminino de sedução.

Imobilizou Fernando Henrique, certamente constrangeu um pouco Lula, chocou bases petistas, pelo menos. O PMDB deu-se por desentendido. No ninho tucano, o elegante toque musical, estilo Chopin, foi bem aceito. A maioria do partido sentiu o aviso de que, a qualquer momento, poderá se formar um governo de coalizão como no episódio de 58 que reconduziu De Gaulle ao poder na França, a Quinta República, após série interminável de crises políticas que se repetiam com as quedas seguidas de  primeiros ministros. Poderá ressurgir a tese da coalizão em nosso país? Depende do comportamento do PT e do PMDB. A presidente da República iluminou o caminho para a hipótese.

Tanto é assim que a principal figura oposicionista, o senador Álvaro Dias, analisou o tema sob vários ângulos, considerou o lançamento da ponte política, porém elogiou a delicada iniciativa presidencial. O líder da legenda na Câmara, Duarte Nogueira, também enalteceu o ato de cortesia e chamou atenção para o que considera uma diferença entre a sucessora e o antecessor que a levou à vitória nas urnas. Ou seja: a diferença de estilo entre Dilma e Lula.

Terminará aí o novo contexto? Não é provável. Como sempre na política existe o dia depois, o Day after, e os desdobramentos que escapam à visão imediata geral e aos imprevistos que a história faz suceder ao longo dos séculos e das décadas. Alguém poderia prever um desastre chamado Antonio Palocci?

Merval Pereira, novo imortal eleito para a ABL, finaliza a coluna a que me referi com um outro prenúncio. O lance no qual Dilma parte igualmente para superar a dicotomia política predominante no Brasil e buscar a formação de um governo eficiente capaz de libertá-la da tutela (esta expressão é do Merval) de Lula. Prefiro influência, como não acredito que Roussef deseje se livrar. Ao contrário. Manter. Porém a uma distância relativa para evitar choques e superposições. O episódio que culminou com a apoteótica demissão do ministro chefe da Casa Civil é o melhor e mais recente exemplo.

Lula nada poderá contestar ou se surpreender. Ele também exonerou José Dirceu, a quem chamava de capitão do time, e Erenice Guerra que havia substituído a candidata por causa da lei da desincompatibilização. Aliás, para falar a verdade, Lula e Dilma não demitiram Dirceu, Erenice e Palocci. Eles demitiram-se a si.

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