Com claustrofobia, vereadores querem mais espaço, mesmo longe da Cinelândia. Pretendem construir anexos, como a Alerj. No Porto, longe, lugar lindíssimo, perto do mar

A primeira construção estatal do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, foi inaugurada em 1875. Sede da Câmara Municipal dos Intendentes, majestosa e até excêntrica. Logo batizada de “gaiola de ouro”, por causa de suas inúmeras janelas (parecendo cárcere de pássaros), e por ser toda pintada de amarelo.

No que seria depois a turbulenta Cinelândia, concentração maior de divergências políticas populares, ficava isolada, o “Rio antigo” predominava. Pereira Passos nem havia nascido, quanto mais transformado a cidade.

Depois, aquele pedaço ficou sendo o mais movimentado e frequentado, ganhou até reputação artística com a construção, bem em frente, do Teatro Municipal. Foi doação do governo da França. Era a cópia integral do Teatro da Ópera de Paris.

Ao lado da Câmara e do Teatro Municipal surgiu o “Amarelinho”, que se transformou num local obrigatório para artistas em geral, jornalistas, compositores. Destaque para Orestes Barbosa, o grande criador do “Chão de Estrelas” e outros sucessos. Como era diretor-administrativo da própria Câmara e morava na Ilha de Paquetá, cuja última barca saía às 10 da noite, quase sempre perdia a hora, dormia no próprio gabinete.

A partir de determinada época, ficou também intransitável, por ser caminho do popularíssimo “Bola Preta”, que movimentava dezenas de milhares de fanáticos admiradores.

Quase 100 anos depois, continuava a ser chamada de “gaiola de ouro”, só que a denominação vinha da corrupção, que já dominava o Brasil inteiro. Apesar do fato de que Juscelino levou uma parte enorme dessa corrupção para desfraldar em Brasília. Mas antes disso, teve um período de destaque, glória e consagração.

Depois de transformada em Câmara de Vereadores, ficou mais de 10 anos fechada, por causa da ditadura do Estado Novo. A Constituição de 1946 determinou eleições municipais para 19 de janeiro de 1947, e o Rio de Janeiro foi privilegiado, pois elegeu a melhor Câmara Municipal de todos os tempos.

Eram 50 vereadores. O Partido Comunista elegeu 19, a UDN 12, o PTB 11, o que dá 42. Os outros 8 foram preenchidos por partidos pequenos e o PSD (o maior partido nacional) fez apenas 2, o Rio sempre foi oposicionista.

Era um espetáculo diário, aulas de debates do começo ao fim. Naquela época o Partido Comunista era inteligente, sabendo que sem o PTB e a UDN não elegeria o presidente, lançou o nome do poeta Jorge de Lima, da UDN, progressista e popular, ganhou com extrema facilidade.

“A Noite”, o jornal de maior circulação do Rio, escolhia anualmente o “poeta mais popular”. Uma vez ganhou Olegário Mariano, que foi embaixador em Portugal. E outra, Jorge de Lima, presidente da Câmara Municipal. Nessa época, o jornal era dirigido por Irineu Marinho, que deixou “A Noite” e fundou “O Globo” em 1925.

Em 1948 o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade, cassados os 19 vereadores. A Câmara ficou apenas com 31 vereadores, os suplentes não assumiram. Dentro do absurdo da decisão, o TSE (por 3 a 2 ) decidiu não empossar os suplentes. Justificativa: “Por que cassar comunistas que tinham votos, prestígio e representatividade, e substituí-los por desconhecidos?”.

O espetáculo perdeu a graça, Lacerda e Adauto Cardoso renunciaram, não por solidariedade aos comunistas, mas pela razão inquestionável: os mais brilhantes e atuantes foram embora, ficou apenas o vazio.

Em 1947 e uma parte de 1948, (antes da cassação e mutilação da Câmara) se debatia muito a construção do Maracanã. Ninguém era contra, o que se discutia era a localização do estádio e a corrupção do prefeito Mendes de Moraes. Este controlava tudo, comandando (e superfaturando) os materiais levados por caminhões, que entravam por um portão e saiam por outro, apenas para “resgistrar e descarregar materiais que não lelvavam”.

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PS – O mais importante presidente da Câmara Municipal dos Intendentes, foi Ubaldino do Amaral. Carioca, formou-se em Direito em São Paulo, e com 30 anos de idade, fundou em Sorocaba um jornal chamado “Ipanema”. Que como bairro seria conhecido pelo Brasil e o mundo, famosíssimo quase 100 anos depois.

PS2 – Já na República, Ubaldino foi ocupando os mais diversos e importantes cargos, RENUNCIANDO a todos, construindo biografia singular.

PS3 – Senador pelo Paraná, com mandato de 9 anos. Exerceu 2, RENUNCIOU. 2 – Eleito senador pelo Rio, ficou 3 anos, RENUNCIOU. 3 – Ministro do Supremo Tribunal Federal, RENUNCIOU.

PS4 – Prefeito do Distrito Federal, ficou pouco mais de 1 ano, RENUNCIOU. 5 – Nomeado presidente do Banco do Brasil, não chegou a ficar 6 meses, RENUNCIOU. 6 – Nomeado embaixador, esteve em vários países, inclusive a Corte Internacional da Haya, RENUNCIOU. 7 – Voltou ao Brasil, foi ser professor universitário, terminou a carreira aí.

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