Com deputados de ficha suja na Comissão da Reforma Política e o mensaleiro João Paulo Cunha presidindo Comissão de Justiça, a política brasileira atinge o mais baixo nível dos últimos tempos.

Carlos Newton

Mas onde é que os líderes partidários estão com a cabeça? Como é que indicam para a Comissão Especial da Reforma Política, que tem objetivo de aprimorar o sistema eleitoral, justamente parlamentares fichas-sujas, acusados de enriquecimento ilícito e que não servem de exemplo para nada (ou melhor, só servem para demonstrar o baixíssimo nível em que mergulhou a política brasileira).

O PMDB, por exemplo, indicou o deputado Newton Cardoso (PMDB), uma das figuras mais execradas da Câmara e que usou a política para enriquecer. Em 2006, quando concorreu ao Senado, declarou bens no valor de R$ 12,7 milhões. Mas segundo a ex-mulher, Maria Lúcia Cardoso, que chegou a ser deputada federal na legislatura passada, o patrimônio de Newtão, como é conhecido, seria muito maior do que o total declarado à Justiça Eleitoral. Teria entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões, mostrou a reportagem.

Na ocasião, a revista Veja fez uma minuciosa reportagem e anunciou que Newtão estaria escondendo bens de pelo menos R$ 150 milhões. Ele ficou furioso, se sentiu menosprezado e diminuído. Convocou a imprensa para uma entrevista na sede de suas empresas, na Zona Oeste de Belo Horizonte, e proclamou que sua fortuna era muito maior do que o valor publicado pela Veja.

“A revista diz que descobriu R$ 150 milhões. Só no Banco do Brasil tenho R$ 200 milhões aplicados. O banco me paga por mês quase R$ 2 milhões de aplicações. Tenho conta também no Bradesco, na Caixa, Mercantil (do Brasil). A NC Participações, minha holding, pagou só de Imposto de Renda no ano passado mais de R$ 15 milhões. Como posso ter só R$ 12 milhões e pagar R$ 15 milhões? Como que tenho esta merda de dinheiro só?”, desabafou.

Para se equiparar ao PMDB, o PP então escolheu para integrar a Comissão da Reforma Política o deputado Paulo Maluf (SP), que não pode sair do país, porque aparece no site da Interpol como procurado por desvio de dinheiro, mas conseguiu ter sua eleição confirmada pela Justiça.

Já o PSDB escalou Eduardo Azeredo (MG), que é o principal réu no chamado processo do mensalão mineiro, e o PR não ficou atrás, indicando Valdemar Costa Neto (SP), que responde a processo no  mensalão do governo Lula e em 2005 até renunciou a seu antigo mandato de deputado federal, para não ser cassado.

O PT, é claro, não podia ficar por baixo e incluiu na Comissão da Reforma Política o deputado José Guimarães (CE), que respondeu a processo de cassação do mandato quando era deputado estadual, sob acusação de uso de recursos financeiros não declarados na Assembleia do Ceará.

Irmão do ex-presidente do PT  José Genoino,  Guimarães se tornou famoso com o escândalo dos dólares na cueca. Ficou conhecido no Brasil todo quando seu assessor Adalberto Vieira foi preso em São Paulo com US$ 100 mil escondidos na cueca e mais R$ 440 mil numa mala.

Guimarães também apareceu na lista do empresário Marcos Valério, por receber R$ 250 mil de recursos não contabilizados para a campanha a governador do petista Airton Cirilo, no Ceará. Mesmo ssim, conseguiu ser absolvido pela Assembleia e não é réu em processo, mas será que o PT não tinha outro deputado para escalar? Precisava indicar o homem dos dólares na cueca? É muita desmoralização.

E vamos em frente. Quem foi escolhido para presidir a Comissão da Reforma Política é o deputado Almeida Lima (PMDB-SE), que se notabilizou no Senado como ferrenho defensor do então presidente Renan Calheiros, que à época teve a vida vasculhada em função de denúncias da amante, e logo se constatou uma série de irregularidades, inclusive uso de notas frias em falsas negociações de compra e venda de gado. Mas Renan resistiu a tudo, não foi cassado, e hoje voltou a mandar no Senado.

O presidente Almeida Lima, ao ser entrevistado sobre a presença de fichas sujas na Comissão, não deixou por menos: “Eu não convivo com ladrões aqui na Câmara! Eu não considero Maluf ladrão! A Justiça não o considerou. O Legislativo não tem nada com isso. O problema é do Judiciário.”

Mas a desmoralização não parou por aí, infelizmente. Como se sabe, o deputado Paulo Cunha foi mesmo eleito para presidir a Comissão de Constituição e Justiça, o mais importante órgão da Câmara. Os antecedentes, porém, não o recomendam. Cunha já foi presidente da Câmara Federal e não se saiu bem. Na época, era conhecido o fato de que ele se aproveitava indevidamente do cargo, fascinado pelas mordomias na mansão da presidência da Câmara no Lago Sul, onde promovia seguidas festas e reuniões custeadas com recursos públicos.

Além desse comportamento inadequado na presidência da Câmara, Cunha foi acusado de participação no escândalo do mensalão, ao se descobrir um saque em nome da sua esposa, Márcia Regina Milanésio Cunha, no valor de 50 mil reais no Banco Rural, que concentrava o esquema da corrupção.

Foi comprovado que dois assessores do deputado e a sua esposa estiveram fazendo saques no Banco Rural do Brasília Shopping. Na ocasião, o deputado alegou à CPI dos Correios que sua mulher fora ao banco pagar uma prestação de TV a cabo. Mas a diretora financeira da SMPB (empresa do publicitário Marcos Valério), Simone Vasconcelos, disse em depoimento à Polícia Federal que João Paulo Cunha recebeu 200 mil reais do empresário. Em seguida, documentos enviados pelo Banco Rural mostraram que a esposa de Paulo Cunha sacara mesmo os 50 mil reais.

Marcos Valério, que na gestão de Cunha  tinha sido beneficiado com um vultoso contrato publicitário na Câmara, saiu em defesa dele e retificou a lista de Simone Vasconcelos, dizendo que o deputado recebera só 50 mil reais, porém não explicou onde foram parar os outros 150 mil reais.

Por incrível que pareça, Cunha foi absolvido por seus colegas na Câmara, que rejeitaram o pedido de abertura do processo de cassação do mandato, mas continua sendo réu no  Supremo Tribunal Federal  por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

Como já tivemos oportunidade de questionar aqui no Blog, o fato de o PT indicá-lo para presidir justamente a Comissão de Constituição e Justiça mostra algumas verdades: 1) O PT está sem comando, porque a indicação representa um erro estratégico. 2) A bancada do PT na Câmara é um deserto de homens e idéias (frase imortal de Oswaldo Aranha), porque não teria ninguém melhor do que Cunha para ser indicado. 3) O fato de um  deputado ser comprovadamente corrupto não significa nada na política brasileira, que virou mesmo uma esculhambação.

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