Com expectativa de derrota, a “martirização” passa a ser a maior estratégia de Bolsonaro

Bolsonaro

Bolsonaro imita Lula e tenta se tornar “perseguido político”

Carlos Pereira
Estadão

Conflitos políticos entre o Executivo e o Judiciário existem em qualquer democracia. Entretanto, eles somente evoluem para crises institucionais quando os poderes da outra instituição são ameaçados. Tais crises geralmente ocorrem quando existe a combinação de um Executivo constitucionalmente forte e, ao mesmo tempo, politicamente fraco. Ou seja, que não desfruta de maioria estável no Legislativo, no Judiciário ou em ambos, e por isso experimenta sucessivas derrotas a despeito dos seus poderes.

Diante dessa combinação desfavorável, presidentes podem, por exemplo, se sentir tentados a alterar a composição da Suprema Corte, seja por meio do aumento do número de juízes ou pela exclusão de alguns deles por iniciativas de impeachment.

DISPUTAS DE PODER – No artigo “The origins of institutional crises in Latin America”, Gretchen Helmke propõe um modelo para explicar como crises interinstitucionais acontecem e quais as chances de uma instituição agressora obter sucesso na fragilização da instituição agredida.

Para a autora, existem três elementos interconectados neste jogo estratégico. O primeiro seria a diferença significativa de poder entre as instituições agredida e agressora, o que Helmke chama de Stakes. Isto é, quanto maior o poder institucional do Judiciário vis-à-vis os poderes do Executivo, maior os incentivos para a agressão.

O segundo elemento seria o custo de legitimidade dos ataques, medidos com base na confiança da sociedade nas instituições envolvidas no conflito. E o terceiro seria a expectativa de cada parte envolvida acerca das chances de sucesso da instituição agressora.

CUSTOS DA EMPREITADA – Até que ponto as iniciativas de Bolsonaro de pedir impeachment de dois ministros do STF, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, têm chances de vingar? Embora o Judiciário brasileiro seja considerado como um dos mais independentes, especialmente no que diz respeito à sua grande autonomia ex post para contrariar as preferências dos outros poderes, o Executivo já tem bastante influência no processo de indicação dos membros da Suprema Corte.

Além do mais, como o Executivo brasileiro já é muito poderoso, fica difícil imaginar se os eventuais ganhos institucionais (Stakes) adicionais suplantariam os custos dessa empreitada.

De acordo com o relatório ICJBrasil (2021) da FGV Direito SP, a confiança da população brasileira no Judiciário melhorou consideravelmente em relação às últimas pesquisas, alcançando a marca de 40%.

SUPREMO PRESTIGIADO – Embora a confiança na Presidência da República também tenha melhorado no mesmo período, encontra-se em um patamar inferior, 29%. Especificamente em relação ao STF, 42% acreditam que se trata de uma instituição confiável ou muito confiável. Esse porcentual era de 27% em 2017.

As reais chances de Bolsonaro ser bem-sucedido no impeachment a ministros do Supremo também são reduzidas. É importante ter em mente que se trata de um presidente minoritário no Congresso e em franco declínio de sua popularidade.

Adicionalmente, a grande fragmentação partidária funciona como um obstáculo endógeno para que o presidente, mesmo sendo poderoso, consiga passar o “rolo compressor” nas instituições de controle.

BOLSONARO VAI PERDER – Como a diferença de Stakes não é significativa em relação aos custos, o apoio público do STF é maior do que o do presidente e a expectativa de sucesso das iniciativas de Bolsonaro no Legislativo é baixa, deve-se esperar que ele seja mais uma vez derrotado.

Mesmo diante da impossibilidade de retrocessos institucionais, a chance de reeleição cada vez mais reduzida continuará alimentando o confronto do presidente com o Judiciário e com outras instituições de controle. A estratégia, porém, será a de tirar proveito político da derrota.

A próxima investida promete ser a ameaça de descumprimento de decisão judicial. Se essa ameaça for levada adiante, certamente provocará retaliações que farão com que o presidente seja visto pela sua base eleitoral como mártir. Cabe ao STF ser estratégico para não dar essa chance a Bolsonaro.

26 thoughts on “Com expectativa de derrota, a “martirização” passa a ser a maior estratégia de Bolsonaro

  1. O Brasil enviou medicamentos para o Haiti num avi’ao da FAB. Próximo ao avião e com seu estado-maior o Presidente! Qualquer dia ele vai inaugurar obras do Minha Casa Minha Vida.
    Cada dia mais ridículo – e a culpa é nossa!

  2. Uma das raras medidas de Bolsonaro que apoio é o pedido de impeachment de Moraes.
    Não só ele mas muitos ministros tem avançado em áreas privativas do executivo e do legislativo.
    Alguém tem que colocar o guizo no gato.
    Já desde os tempos do PT que o STF vem ampliando seu poder sobre os demais.

  3. Bolsonaro se derrotou sozinho. Tinha tudo pra fazer um governo decente. E com pouco esforço. Tinha apoio popular, bastava continuar a combater a corrupção com poucas medidas, mudar alguns ministros inadequados, manter certo distanciamento do centrao e de corruptos notórios, e finalmente dar voz à ciência na pandemia. Só isso e seria reeleito. Mesmo com algumas denúncias sobre suas falcatruas. Mas preferiu o embate, a guerra, o desequilíbrio e a loucura. Exceto se estiver enganada e ele for uma engrenagem do sistema.

  4. Muitos ministros da alta corte deixam muito a desejar – não sem razão, se considerarmos o critério para ser ministro do STF, especialmente a formação e a bagagem que muitos deles têm.
    Vou ver se arranjo uma boquinha naquela casa: já me tornei ardoroso fiel da cruz e estou providenciando um anel de doutor em Salamanca.

  5. “martirização”, hilário, bateu o desespero na imprensa que joga descaradamente contra o povo, a criatividade para o mal não tem limites!!!Detalhe:abomino o governo, porém, testemunhar a imprensa marrom, a maior derrotada da última eleição presidencial esperneando, não tem preço!

  6. E porque Bolsonaro deveria não usar as lambanças do inquérito das “fake news” a seu favor? É óbvio que as usará pois foram visíveis e pouco risíveis Mal começou. E agora está no ataque, o qual terá desfecho. Só cego não vê que é contra-ataque. Mas até cego, sente.

  7. Se vocês pensam que já viram tudo em matéria de dissimulação, vassalagem e canalhice, assistam o Prevaricador Geral da República na sua sabatina, mentindo, atacando a Lavajato e adulando e enaltecendo a “tão difamada” classe política.
    Precisa de estômago forte, são cenas repugnantes.

  8. Vamos apostar que na proximidade dos debates de 2022 ele vai ‘passar mal’ por causa da facada e será internado posando de vitima para fugir do confronto com os demais candidatos.

  9. Bolsonaro vem posando de vítima há algum tempo, tudo planejado pelo gabinete da peçonha e não vai parar aí. Sendo que a vítima é o povo.

    • Prezado Dirceu, a vítima é o povo desde a eleição de FHC, é um somatório de medidas institucionais que em nada tem beneficiado a população brasileira, em sua absoluta maioria, os maiores beneficiados tem sido as classes empresariais e política.

  10. Bolsonaro mártir. Era só o que faltava.
    Nem.como piada tem graça, pois o cretino nem a um hospital foi prestar solidariedade às vítimas da pandemia.
    Para que esse personagem entrou na vida pública?
    Só se foi para enricar.

      • Marcos sua assombração no me assusta, sua baiana tem pouca roda e seu cérebro terceirizado por desenho animado infantil se torna ridículo
        Devemos a Karl Marx o fantástico despertar dos idiotas, a frase não é minha mas serve pra você.

        • James, sua assombração no me assusta, ser martelinho tem pouca roda e seu cérebro terceirizado por desenho animado infantil se torna ridículo

          Devemos a Bolsonaro o fantástico despertar dos idiotas, a frase não é minha mas serve pra você.

  11. Boa noite , leitores (as):

    O Presidente Jair Bolsonaro , já deveria ser sido cassado , preso e entregue ao ” TRIBUNAL INTERNACIONAL ” , por cometer crimes contra a humanidade , uma vez que ele preferiu ” ACHACAR E ROUBAR ” , os fabricantes de vacinas , não importando quantas pessoas iriam morrer ou ficarem com sequelas , devido á sua ” NEGLIGÊNCIA E OMISSÃO ” , e terceirizando de forma criminosa suas atribuições e obrigações legais .

    • Em que planeta o senhor habita, o planeta Klingon que quer destruir o Capitão Kirk?

      Do André Brito e Diário do Poder.
      O Plano Nacional de Imunização (PNI) continua dando show e levou a média diária de doses aplicadas a mais de 1,9 milhão, superando média observada somando todos os países da União Europeia, em torno de 1,7 milhão, segundo o Our World in Data. Mantida a média, o Brasil chegará hoje aos 60% da população geral vacinada, ultrapassando os Estados Unidos, que estagnaram e têm visto novo avanço da pandemia no país.

      Sem comparação
      De 12 a 18 de agosto, os 27 países da Europa, incluindo Alemanha e França, aplicaram 12,1 milhões de doses. O Brasil 13,3 milhões.

      EUA no retrovisor
      No mesmo período, os Estados Unidos aplicaram 5,4 milhões de doses, o que equivale a pouco mais de um terço de vacinas aplicadas no Brasil.

      Grande salto
      Os meses de julho e, principalmente, agosto, deram exemplo do poder de vacinação no Brasil. Em 50 dias foram mais de 72 milhões de doses.

      Tem mais, é só o nosso presidente que é genocida ou os mandatários europeus onde está morrendo muita gente pelo vírus chinês.
      O senhor e o Tribunal Internacional vai botar muita gente na cadeia, mas duvido de capacidade de mandar prender o presidente chinês. hehehhe

Deixe um comentário para Silvio J. B. Maia Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *